quarta-feira, 30 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Assombrações de Agosto

Portrait of A Lady
Rogier van der Weyden
Gabriel García Márquez
Assombrações de Agosto



ESPANTOS DE AGOSTO
GHOSTS OF AUGUST

Chegamos a Arezzo pouco antes do meio-dia, e perdemos mais de duas horas buscando o castelo renascentista que o escritor venezuelano Miguel Otero Silva havia comprado naquele rincão idílico da planície toscana. Era um domingo de princípios de agosto, ardente e buliçoso, e não era fácil encontrar alguém que soubesse alguma coisa nas ruas abarrotadas de turistas. Após muitas tentativas inúteis voltamos ao automóvel, abandonamos a cidade por uma trilha de ciprestes sem indicações viárias, e uma velha pastora de gansos indicou-nos com precisão onde estava o castelo. Antes de se despedir, perguntou-nos se pensávamos dormir por lá, e respondemos, pois era o que tínhamos planejado, que só íamos almoçar.
- Ainda bem – disse ela -, porque a casa é assombrada.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Dezessete ingleses envenenados


Gabriel García Márquez
DEZESSETE INGLESES ENVENENADOS



A primeira coisa que a senhora Prudencia Linero notou quando chegou ao porto de Nápoles foi que tinha o mesmo cheiro do porto de Riohacha. Não contou a ninguém, é claro, pois ninguém teria entendido naquele transatlântico senil abarrotado de italianos de Buenos Aires que voltavam à pátria pela primeira vez depois da guerra, mas de todo modo sentiu-se menos só, menos assustada e distante, aos 72 anos de sua idade e a dezoito dias de mar ruim de sua gente e de sua casa.

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Tramontana



Gabriel García Márquez

Vi o rapaz uma única vez no Boccacio, o cabaré da moda em Barcelona, poucas horas antes de sua morte ruim. Estava acossado por uma quadrilha de jovens suecos que tentavam levá-lo às duas da madrugada para terminar a festa em Cadaqués. Eram onze, e dava trabalho distingui-los, porque os homens e as mulheres pareciam iguais: belos, de cadeiras estreitas e longas cabeleiras douradas. Ele não devia ter mais do que vinte anos. Tinha a cabeça coberta de cachos engordurados, a cútis melancólica e polida dos caribenhos acostumados por suas mães a caminhar pela sombra, e um olhar árabe capaz de transtornar as suecas, e talvez vários suecos. Haviam-no colocado sentado no balcão como um boneco de ventríloquo, e cantavam para ele canções da moda acompanhadas de palmas, para convencê-lo a ir com eles. Ele, aterrorizado, explicava seus motivos. Alguém interveio aos gritos para exigir que o deixassem em paz, e um dos suecos enfrentou-o morrendo de rir.
- É nosso – gritou. – Nós o encontramos na lata de lixo.

domingo, 27 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / O Verão Feliz da Senhora Forbes


Gabriel García Márquez 
O Verão Feliz da Senhora Forbes



De tarde, de regresso à casa, encontramos uma enorme serpente-do-mar pregada pelo pescoço no batente da porta, e era negra e fosforescente e parecia um malefício de ciganos, com os olhos ainda vivos e os dentes de serrote nas mandíbulas escancaradas.
Eu andava, na época, com uns nove anos, e senti um terror tão intenso diante daquela aparição de delírio que fiquei sem voz. Mas meu irmão, que era dois anos menor que eu, soltou os tanques de oxigênio, as máscaras e as nadadeiras e saiu fugindo com um grito de espanto. A senhora Forbes ouviu-o da tortuosa escada de pedras que trepava pelos recifes do embarcadouro até a casa e nos alcançou, arquejante e lívida, mas bastou que visse o animal crucificado na porta para compreender a causa do nosso horror. Ela costumava dizer que quando duas crianças estão juntas, ambas são culpadas do que cada uma fizer sozinha, de maneira que repreendeu a nós dois pelos gritos de meu irmão, e continuou recriminando nossa falta de domínio. Falou em alemão, e não em inglês, como estava estabelecido em seu contrato de preceptora, talvez porque ela também estivesse assustada e se negasse a admitir. Mas assim que recobrou o fôlego voltou ao seu inglês pedregoso e à sua obsessão pedagógica.
- É uma Moréia helena – nos disse -, assim chamada porque foi um animal sagrado para os gregos antigos.

sábado, 26 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Só Vim Telefonar


Gabriel García Márquez
Só Vim Telefonar




Numa tarde de chuvas primaveris, quando viajava sozinha para Barcelona dirigindo um automóvel alugado, Maria de la Luz Cervantes sofreu uma pane no deserto dos Monegros. Era uma mexicana de 27 anos, bonita e séria, que anos antes tivera certo nome como atriz de variedades. Estava casada com um prestidigitador de salão, com quem ia se reunir naquele dia após visitar alguns parentes em Saragoça. Depois de uma hora de sinais desesperados aos automóveis e caminhões que passavam direto pela tormenta, o chofer de um ônibus destrambelhado compadeceu-se dela. Mas avisou que não ia muito longe.
- Não importa – disse Maria. – Eu só preciso de um telefone.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / A santa

Albert Anker
Gabriel García Márquez
A SANTA
Vinte e dois anos depois, tornei a ver Margarito Duarte. Apareceu de repente numa das ruazinhas secretas do Trastevere, e tive trabalho em reconhecê-lo à primeira vista por seu castelhano difícil e seu jeito ameno de romano antigo. Tinha o cabelo branco e escasso, e não restavam nele rastros da conduta lúgubre e das roupas funerárias de advogado andino com que havia vindo a Roma pela primeira vez, mas no curso da conversa fui resgatando-o pouco a pouco das perfídias dos anos e tornei a vê-lo como era: sigiloso, imprevisível, e de uma tenacidade de quebrador de pedra. Antes da segunda xícara de café num dos nossos bares de outros tempos, me atrevi a fazer-lhe a pergunta que me carcomia por dentro.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Me alugo para sonhar


Gabriel García Márquez

Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo. Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / A luz é como a água


A luz é como a água

No Natal os meninos tornaram a pedir um barco a remos.
— De acordo — disse o pai —, vamos comprá-lo quando voltarmos a Cartagena.
Totó, de nove anos, e Joel, de sete, estavam mais decididos do que seus pais achavam.
— Não — disseram em coro. — Precisamos dele agora e aqui.
— Para começar — disse a mãe —, aqui não há outras águas navegáveis além da que sai do chuveiro.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / O avião da bela adormecida

Sleeping Nude, 1950
Lucian Freud
Private Colletion, Canada
Gabriel García Márquez
O avião da bela adormecida



Era ela, elástica, com uma pele suave da cor do pão e olhos de amêndoas verdes, e tinha o cabelo liso e negro e longo até as costas, e uma aura de antiguidade que tanto podia ser da Indonésia como dos Andes. Estava vestida com um gosto sutil: jaqueta de lince, blusa de seda natural com flores muito tênues, calças de linho cru, e uns sapatos rasos da cor das buganvílias. "Esta é a mulher mais bela que vi na vida", pensei, quando a vi passar com seus sigilosos passos de leoa, enquanto eu fazia fila para abordar o avião para Nova York no aeroporto Charles de Gaulle de Paris. Foi uma aparição sobrenatural que existiu um só instante e desapareceu na multidão do saguão.

domingo, 20 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / O rastro do teu sangue na neve


Gabriel García Márquez
O RASTRO DO TEU SANGUE NA NEVE

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Ao anoitecer, quando chegaram à fronteira, Nena Daconte notou que o dedo com a aliança de casamento continuava sangrando. O guarda-civil com a manta de lã sobre o chapéu de três pontas e verniz-charão examinou os passaportes à luz de uma lanterna de carbureto, fazendo um grande esforço para não ser derrubado pela pressão do vento que soprava dos Pireneus. Embora fossem dois passaportes diplomáticos em regra, o guarda levantou a lanterna para comprovar que os retratos se pareciam às caras. 
Nena Daconte era quase uma menina, com uns olhos de pássaro feliz e uma pele de melaço que ainda irradiava o sol do Caribe no lúgubre anoitecer de janeiro, e estava agasalhada até o pescoço com um abrigo de nucas de visom que não poderia ser comprado com o salário de um ano da guarnição inteira da fronteira. Billy Sánchez de Ávila, seu marido, que dirigia o automóvel, era um ano mais jovem que ela, quase tão belo, e usava um paletó escocês e um boné de jogador de beisebol. Ao contrário de sua esposa, era alto e atlético e tinha as mandíbulas de ferro dos valentões tímidos. Mas o que revelava melhor a condição de ambos era o automóvel platinado cujo interior exalava um hálito de animal vivo, como não se havia visto outro por aquela fronteira de pobres. Os assentos traseiros iam atopetados de maletas demasiado novas e muitas caixas de presentes que ainda não tinham sido abertas. Lá estavam, além disso, o sax-tenor que tinha sido a paixão dominante de Nena Daconte antes que sucumbisse ao amor contrariado de seu doce bandoleiro de balneário.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Gabriel García Márquez / Lembranças tropicais

14.04.17_Perry Anderson_Lembranças tropicaisPor Perry Anderson.
Gabriel García Márquez  
Lembranças tropicais
Por Perry Anderson
Como formas de escrever sobre o passado, memórias e autobiografias são empreitadas diferentes, apesar de na prática não se sobreporem. No limite, um livro de memórias pode recriar um mundo ricamente povoado por pessoas, sem contudo falar muito sobre o próprio autor. Uma autobiografia, em compensação, pode assumir a forma de um retrato puro de si, no qual o mundo e os outros aparecem apenas como uma mise-en-scène para a aventura íntima do narrador. Ao recontar sua vida, romancistas já produziram atos de bravura em ambos os gêneros. Entre as obras modernas, To Keep the Ball Rolling [Para Manter a Bola Rolando], de Anthony Powell – quatro volumes agradáveis, embora lacônicos –, é uma obra-prima do primeiro gênero. O breve As Palavras, de Sartre, é talvez o maior exemplo do segundo. Viver para Contar, de Gabriel García Márquez, é classificado como livro de memórias por seus editores, mas há certa dúvida de que, no conjunto, se enquadre nessa categoria. Márquez é, obviamente, um lendário contador de histórias. Além disso, possui uma aguda inteligência autorreflexiva, como podemos observar em Cheiro de Goiaba, em que reproduz suas conversas biográficas com Plinio Apuleyo Mendoza.

Urariano Mota / O outono de Gabriel García Márquez

13.07.16_Urariano Mota_O outono de Gabo

O outono de Gabriel García Márquez


Por Urariano Mota

Faz um ano li nos jornais um atentado grave para todos que amam a criação e a literatura: o gênio essencial de nome Gabriel García Márquez estava perdendo a memória. De lá para cá, por caridade ou leviano movimento do noticiário, ninguém mais falou. É como se perdêssemos também a memória sobre a memória do genial mestre do romance. Razão por que retomo aqui este breve lapso.
Quando se espalhou como peste a notícia, o anúncio da demência veio de Plínio Apuleyo Mendoza, amigo da juventude de García Márquez, sobre quem Plínio publicou o bom livro Cheiro de Goiaba. Assim Plínio Apuleyo Mendoza anunciou a desgraça:
“No dia em que ele completou 85 anos (6 de março), liguei para dar parabéns, mas quem falou comigo foi Mercedes, sua esposa. Ela preferiu assim porque ele não se lembrava de mim…

17 coisas que você não sabia sobre Gabriel García Márquez

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17 coisas que você não sabia 
sobre Gabriel García Márquez

Nathália Bottino
17 de abril de 2014

Gabriel Garcia Marquez

O escritor colombiano, vencedor do Prêmio Nobel da Literatura, brother do Fidel Castro e autor de obras consagradas como Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera morreu hoje na Cidade do México. Gabo, como era carinhosamente conhecido, é considerado um dos mais importantes escritores do século 20. Ele também trabalhou como jornalista, apesar do descontentamento com (nós) colegas de profissão durante a época em que esteve internado. Mas não guardamos nenhuma mágoa. ;)
Como homenagem, selecionei 17 curiosidades sobre ele. Confira:
1. García Márquez se declarou fanático por sua conterrânea Shakira. Algumas de suas canções apareceram na adaptação cinematográfica de O Amor nos Tempos do Cólera.
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2. A Metamorfose, de Franz Kafka, foi um dos primeiros livros lidos por Gabo. E foi graças à obra que ele descobriu sua veia literária.
3. García Márquez foi correspondente na Europa e em Nova York, onde foi perseguido pela CIA por causa de sua ligação com Fidel Castro.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Franz Kafka / Diante la Lei



Franz Kafka
DIANTE LA LEI

Diante da Lei está um guarda. Vem um homem do campo e pede para entrar na Lei. Mas o guarda diz-lhe que, por enquanto, não pode autorizar-lhe a entrada. O homem considera e pergunta depois se poderá entrar mais tarde.
─É possível” –diz o guarda─. Mas não agora!
O guarda afasta-se então da porta da Lei, aberta como sempre, e o homem curva-se para olhar lá dentro. Ao ver tal, o guarda ri-se e diz:
─Se tanto te atrai, experimenta entrar, apesar da minha proibição. Contudo, repara, sou forte. E ainda assim sou o último dos guardas. De sala para sala estão guardas cada vez mais fortes, de tal modo que não posso sequer suportar o olhar do terceiro depois de mim.
O homem do campo não esperava tantas dificuldades. A Lei havia de ser acessível a toda a gente e sempre, pensa ele. Mas, ao olhar o guarda envolvido no seu casaco forrado de peles, o nariz agudo, a barba à tártaro, longa, delgada e negra, prefere esperar até que lhe seja concedida licença para entrar. O guarda dá-lhe uma banqueta e manda-o sentar ao pé da porta, um pouco desviado.
Ali fica, dias e anos. Faz diversas diligências para entrar e com as suas súplicas acaba por cansar o guarda. Este faz-lhe, de vez em quando, pequenos interrogatórios, perguntando-lhe pela pátria e por muitas outras coisas, mas são perguntas lançadas com indiferenca, à semelhança dos grandes senhores, no fim, acaba sempre por dizer que não pode ainda deixá-lo entrar.O homem, que se provera bem para a viagem, emprega todos os meios custosos para subornar o guarda. Esse aceita tudo mas diz sempre:
─Aceito apenas para que te convenças que nada omitiste.
Durante anos seguidos, quase ininterruptamente, o homem observa o guarda. Esquece os outros e aquele afigura ser-lhe o único obstáculo à entrada na Lei. Nos primeiros anos diz mal da sua sorte, em alto e bom som e depois, ao envelhecer, limita-se a resmungar entre dentes. Torna-se infantil e como, ao fim de tanto examinar o guada durante anos lhe conhece até as pulgas das peles que ele veste, pede também às pulgas que o ajudem a demover o guarda. Por fim, enfraquece-lhe a vista e acaba por não saber se está escuro em seu redor ou se os olhos o enganam. Mas ainda apercebe, no meio da escuridão, um clarão que eternamente cintila por sobre a porta da Lei. Agora a morte está próxima. Antes de morrer, acumulam-se na sua cabeça as experiências de tantos anos, que vão todas culminar numa pergunta que ainda não fez ao guarda. Faz-lhe um pequeno sinal, pois não pode mover o seu corpo já arrefecido. O guarda da porta tem de se inclinar até muito baixo porque a diferença de alturas acentuou-se ainda mais em detrimento do homem do campo.
─Que queres tu saber ainda? ─pergunta o guarda─. És insaciável.
─Se todos aspiram a Lei ─disse o homem─. Como é que, durante todos esses anos, ninguém mais, senão eu, pediu para entrar?
O guarda da porta, apercebendo-se de que o homem estava no fim, grita-lhe ao ouvido quase inerte:
─Aqui ninguém mais, senão tu, podia entrar, porque só para ti era feita esta porta. Agora vou-me embora e fecho-a.



quarta-feira, 16 de abril de 2014

Villiers de L'Isle Adam / A tortura da esperança

El Monje
Sergio Menossi
Auguste Villiers de L'isle Adam
A tortura da esperança
Há muitos anos, ao cair da tarde, dirigiam-se a um cárcere subterrâneo o venerável Pedro Arbuez d'Espila, sexto prior dos Dominicanos de Segóvia, e terceiro Grande Inquisidor de Espanha, seguido por um fra redemptor e precedido por dois familiares do Santo Ofício, estes conduzindo lanternas. Rangeu o ferrolho de uma porta maciça, e penetraram num mefítico in-pace, onde a luz baça filtrada pelas frestas iluminou um edifício manchado de sangue, um braseiro e um jarro. Sobre um monte de palha, coberto de grilhões e com uma argola de ferro ao pescoço, está sentado um homem pálido, de idade incerta, coberto de andrajos.
Não é outro o prisioneiro senão o rabino Aser Abarbanel, judeu de Aragão, o qual, acusado de usura e desdém impiedoso pelos pobres, tem sido diariamente submetido a torturas, há mais de um ano. Todavia, "sua cegueira é tão densa quanto o seu orgulho", e ele recusa-se a abjurar sua fé.
Orgulhoso de uma ascendência que data de milhares de anos, orgulhoso de seus antepassados - porque todo judeu digno desse nome sente vaidade de o ser - descende ele talmùdicamente de Otoniel, e, consenqüentemente, de Ypsiboa, esposa do último juiz de Israel, circunstância esta que lhe tem sustentado a coragem diante de incessante tortura. Com lágrimas nos olhos, a pensar nesta resoluta alma que recusa a salvação, o venerável Pedro Arbuez d'Espila, ao aproxima-se do fremente rabino, diz-lhe ao que segue:
- Regozija-te, meu filho: estão terminando aqui em baixo as tuas desventuras. Se em presença de tamanha obstinação fui obrigado a permitir, com grande pesar, o uso de tanta severidade, tem seus limites a minha tarefa de correção fraternal. És a figueira, que passando tanto tempo sem frutificar, vem a mirrar, e só Deus lhe pode julgar a alma. Quem sabe se a infinita Misericórdia te iluminará no teu último instante! Esperemos que assim seja. Tem havido exemplos. Dorme, pois, em paz esta noite. Serás incluído amanhã no auto de fé: isto é, serás exposto ao quemadero, às chamas simbólicas do fogo eterno: elas ardem, como sabes, meu filho, apenas à distância; e a morte custa a vir duas horas (muitas vezes três), por causa das faixas úmidas com que protegemos a cabeça e o coração do condenado. Serão ao todo quarenta e três, contigo. Incluído em último lugar, terás tempo para invocar a Deus e oferecer-lhe este batismo de fogo que é o do Espírito Santo. Confia na Luz, e descansa.
Com estas palavras, depois de fazer sinal aos companheiros para que desencadeassem o prisioneiro, abraçou-o o prior, com ternura. Foi depois a vez do fra redemptor, o qual, em tom lamurioso, suplicou perdão ao judeu pelo que lhe fizera sofrer com o propósito de o redimir; e enfim beijaram-no em silêncio os dois familiares. Terminada a cerimônia, foi deixado o cativo, solitário e apalermado, imerso nas trevas.
Com os lábios ressecados e o rosto gasto pelo sofrimento, a princípio o rabino Aser Abarbanel olhou com os olhos vagos para a porta que se fechara. Fechada? Inconscientemente em seu espírito aquela palavra acordou uma fantasia, a fantasia de ter visto por alguns momentos, através da greta entre a porta e a parede, a luz das lanternas. Uma idéia mórbida de esperança, devido à fraqueza de seu cérebro, convulsionou-lhe todo o ser. Arrastou-se para perto da estranha aparência. Depois, com cuidado e vagar, enfiou o dedo pela fenda, e puxou a porta. Maravilhas! Por extraordinário acidente, o familiar que a fechara correra o ferrolho pouco antes de chegar a porta ao orifício de pedra, de modo que o ferrugento espigão não entrara no buraco, e a porta girou de novo nos gonzos.
0 rabino arriscou um olhar para fora. Com a ajuda de uma espécie de escuridão luminosa distinguiu primeiro um semicírculo de paredes, recortado de degraus em espiral; e a sua, frente, acima de cinco ou seis degraus de pedra, um portal escuro, aberto para imenso corredor, cujas primeiras escadas eram visíveis de baixo.
Esticando-se, trepou no patamar. Sim, era realmente um corredor, mas de comprimento sem fim. Sombria luz o iluminava: lâmpada suspensas do teto abobadado clareavam, a intervalos, a obscuridade reinante; sua extremidade perdia-se na sombra. Nem uma só porta parecia haver em toda a sua extensão! Apenas a um lado, à esquerda, seteiras fortemente gradeadas, abertas na parede, deixavam entrar uma claridade que devia ser a do crepúsculo, porque nas lajes do pavimento se estiravam résteas de luz avermelhada. E que silêncio terrível! Não obstante, no extremo do corredor deveria de haver uma porta de saída! A esperança vacilante do judeu era tenaz, por que era a última.
Sem hesitar, avançou, conservando-se junto à parede, e procurou confundir-se com a escuridão. Avançou lentamente, arrastou-se com a respiração contida, e reprimia um grito de dor, quando um ferimento mais recente lhe provocava dores por todo o corpo.
De súbito, ouviu aproximar-se o ruído de pés calçados com sandálias. Tremeu violentamente. 0 terror empolgou-o, escureceu-se-lhe a vista. Bem, estava tudo acabado não havia dúvida. Espremeu-se dentro de um nicho, quase morto de pavor, e esperou.
Era um frade que passava. Passou apressado, um instrumento de tortura, - um vulto medonho - e desapareceu. A agonia do rabino parecia ter-lhe interrompido a própria vida, e ali ficou ele, quase uma hora, incapaz de mover-se. Por temer o requinte da tortura, se o recapturassem, pensou em voltar para o cárcere. Mas a velha esperança sussurrou-lhe na alma o divino talvez, que nos conforta sempre, nos mais dolorosos transes. Acontecera um milagre. Disso já não duvidava. Inclinou-se pela probabilidade de fuga. Exausto de sofrimentos e fome, tremulo de dores, prosseguiu. A sepulcral galeria parecia alongar-se misteriosamente, enquanto ele, sempre caminhando, procurava nas trevas o lugar onde devia haver a passagem para a liberdade.
Oh! Oh! Ouviu novos passos, desta vez porém mais vagarosos e mais pesados. Apareceram as formas brancas e pretas de dois inquisidores, que emergiam da obscuridade ao fundo. Vinham conversando em voz baixa, e pareciam discutir assunto importante, porque gesticulavam veementemente.
Ao vê-los o rabino Aser Abarbanel fechou os olhos: batia-lhe tão desordenadamente o coração que ele quase se sentia sufocar; seus andrajos estavam úmidos do suor da agonia; conservou-se imóvel, calado à parede, a boca aberta, sob os raios luminosos do lampião orando ao Deus de David.
Bem em frente a ele, pararam sob a lanterna os dois inquisidores; sem dúvida em virtude do argumento, naquele instante no seu clímax. Um. deles, enquanto ouvia o companheiro, fitou os olhos no rabino. E ao peso daquele olhar, - cuja ausência de expressão: não pode notar a princípio - já sentia de novo as tenazes candentes a lacerar-lhe as carnes, e ele outra vez convertido em chaga viva; desfalecendo, oprimido, com as pálpebras vibrantes, arrepiou-se ao sentir no corpo o contato do burel esvoaçante do monge. Mas, - fato estranho, embora natural, o olhar do inquisidor era, evidentemente, o de pessoa profundamente absorta na resposta que daria, ainda mais alheado pelo que ouvia; seu olhar era fixo, e parecia olhar para o judeu sem o ver.
Com efeito, passados alguns minutos, os dois vultos escuros continuaram lentamente o seu caminho, sempre conversando em voz baixa, na direção do lugar de onde viera o prisioneiro; ele não fora visto!. No meio da horrível confusão dos pensamentos do rabino, brotou-lhe do espírito esta idéia: "Estarei morto, de modo que eles não me viram?" Horrível impressão assaltou-o na sua letargia: ao olhar para a parede junto à qual colara o rosto, imaginou ver dois olhos ferozes que o espreitavam! Voltou a cabeça num súbito frenesi de pavor, os cabelos revoltos a cair-lhe por todos os lados. Mas, não! Não. Esfregou a argamassa com a mão: era o reflexo dos olhos do inquisidor, ainda impressos nos seus, e deles projetados na parede.
Adiante! Ele precisava apressar-se para a meta que imaginava (absurdamente, não havia dúvida) ser a sua libertação, para a escuridão da qual não distava agora mais de trinta passos. Atirou-se de joelhos, com as mãos espalmadas arrastou-se penosamente, e daí a pouco entrava no trecho escuro daquele horrível corredor.
De súbito sentiu o pobre desgraçado, nas mãos que se arrastavam pelas lajes, uma lufada de ar frio, vinda de baixo de pequena porta, aonde iam ter as duas paredes.
Céus! se aquela porta abrisse para o exterior! Vibrou de esperança o mais ínfimo nervo daquele miserável fugitivo. Examinou-a de alto a baixo, embora fossem limitadíssimas as suas possibilidades de examinar-lhe o contorno na escuridão que o cercava. Passou a mão sobre ela: não tinha ferrolho, nem fechadura! Uma aldrava! Ergueu-se a aldrava, cedendo à pressão de seu polegar: a porta abriu-se silenciosamente à frente dele.
- Aleluia! - murmurou o rabino, num transporte de alegria, quando, de pé no patamar, contemplou a cena que tinha diante dos olhos.
Abrira-se a porta para um jardim, sob o qual se arqueava um céu estrelado; abrira-se para a primavera, para a liberdade, para a vida ! Revelava os campos circunvizinhos, que se alongavam na direção das serras, cujas sinuosas linhas azuladas se recortavam no horizonte. Para lá ficava a liberdade! Oh! Fugir! Caminharia toda a noite através dos limoeiros, cuja fragrância ele sentia. Estaria salvo quando alcançasse as montanhas! Inalou o ar delicioso; reavivou-o a brisa, expandiram-se-lhe os pulmões. Sentiu no coração dilatado o Veni foràs de Lázaro. E para mais uma vez agradecer ao Senhor, que lhe concedera aquela graça, estendeu os braços, elevando os olhos para o céu. Era o êxtase da alegria!
Imaginou então que a sombra de seus braços se aproximava dele... imaginou que aqueles braços o abraçavam... e que era ternamente apertado ao peito de alguém. Um vulto alto detivera-se agora bem atrás dele. Baixou o olhar... Ficou imóvel, a boca entreaberta, tonto, os olhos parados, babando-se de pavor.
Horror! Estava nos braços do próprio Grande Inquisidor, o venerável Pedro Arbulez d'Espila, que o contemplava com os olhos lacrimosos, como um amorável pastor que tivesse encontrado a ovelha tresmalhada.
0 padre de batina escura abraçava o malfadado judeu de encontro ao coração, com tão fervente transporte amoroso, que as pontas do hábito monacal quase lhe roçagavam o peito de dominicano. E enquanto Aser Abarbanel, de olhos esbugalhados, agoniava-se naquele abraço do asceta, com a compreensão vaga de que todas as fases daquela noite fatal tinham sido apenas uma tortura pré-estabelecida, a tortura da Esperança, o Grande Inquisidor, num tom de comovente reprovação, e com o olhar consternado, murmurava-lhe ao ouvido, o hálito seco e ardente, pelos constantes jejuns:

- Como, meu filho! Quando te concedemos a graça de aproximar-te da salvação... querias deixar-nos?



terça-feira, 15 de abril de 2014

Enrique Vila-Matas / Marguerite Duras

Marguerite Duras


01/04/2007 - 02h30

Ensaio de Enrique Vila-Matas aborda escritora Marguerite Duras


Folha de S.Paulo

Leia a seguir trechos de ensaio do espanhol Enrique Vila-Matas sobre a escritora francesa Marguerite Duras (1914-96), que faz parte de "O Homem Sentado no Corredor/A Doença da Morte".

Tudo escreve ao nosso redor
ENRIQUE VILA-MATAS

1

Refutar qualquer idéia de Montaigne é ridículo. Montaigne a expõe como opinião, não como verdade. Espero que, se digo aqui neste pequeno ensaio que Marguerite Duras foi essencialmente uma grande humorista, minhas palavras sejam lidas como o que são estritamente: uma opinião. Afinal, os ensaios, mesmo os mais breves, têm a vantagem de pertencer ao gênero literário mais livre e, portanto, um dos mais belos que existem. Só me sinto realmente cômodo quando escrevo um ensaio, e é porque não ignoro que com tanta liberdade eu mesmo serei o primeiro a me contradizer em seguida, talvez até no próximo ensaio. Ou, quem sabe, talvez muito antes de terminar de escrever estas linhas, pois basta observar que este ensaio já se estragou, acaba de se fragmentar sem que eu tenha conseguido evitar. Marguerite Duras era realmente humorista? Se o foi, era uma humorista clássica, dividia seu riso com a tragédia.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Marguerite Duras / É tudo


Marguerite Duras
É tudo

  

«Para Yann
nunca se sabe, antes,
o que se escreve.
Apressa-te a pensar em mim.

Para Yann meu amante da noite



Assinado: Marguerite,
a amante deste amante adorado,
em 20 de Novembro de 1994, Paris,
Rua Saint-Benoît.
(...)


domingo, 13 de abril de 2014

Marguerite Duras / Dez horas e meia numa noite de verão


Marguerite Duras
Dez horas e meia 
numa noite de verão
   


«O sol que se punha cobriu-se de novo. A tempestade vai voltar. Aquela massa oceânica da tarde, de um azul-negro, instala-se lentamente sobre a cidade. Vem de leste. A pouca luz que faz chega para ver a sua cor ameaçadora. Eles devem estar ainda na varanda. Ao fundo da avenida. Sim, agora os teus olhos são azuis – diz Pierre –,e desta vez é por causa do céu. (...)
Eis o aguaceiro. O oceano lança-se sobre a cidade. (...)
– É só franceses – diz Claire.
À luz das velas a sua beleza é ainda mais evidente. Ter-lhe-ão dito que era amada? Ei-la, sorridente, preparada para uma noite que não haverá. nem os seus lábios, nem os seus olhos, nem o seu cabelo, em desalinho esta noite, nem as suas mãos afastadas, abertas, soltas na alegria da promessa de uma felicidade muito próxima, nada nela prova que tenha abandonado já a observação silenciosa da promessa dessa felicidade próxima.

García Márquez volta para casa

Gabriel García Márquez

Gabo volta para casa

O Nobel recebe alta do hospital mexicano no qual permanecia internado há nove dias



A ambulância que levava o Nobel, na porta da casa dele. / REUTERS
O escritor Gabriel García Márquez deixou nesta terça-feira o hospital mexicano onde permanecia internado há nove dias devido a uma infecção respiratoria. Uma porta-voz do centro médico ressaltou que o colombiano se encontra em estado "delicado" por causa de sua avançada idade, 87 anos, e que, no momento, seguirá o processo de recuperação na casa que tem em San Ángel, um bonito bairro colonial do sul da Cidade do México.

Milan Kundera sai de toca

Milan Kundera


Milan Kundera sai da toca


O autor rompe o silêncio, mas não seu segredo, com ‘A Festa da Insignificância’

A França aplaude seu retorno ao romance, 14 anos depois de sua última obra



Milan Kundera. / FERNANDO VICENTE
Com ironia, menos pesar do que o esperado por alguns e distante, mas atento, Milan Kundera (nascido em Brno, República Checa, em 1929) voltou ao panorama da literatura europeia. A França esperava a chegada nas livrarias de La Fête de L’insignificance (‘A Festa da Insignificância’, editora Gallimard, ainda a ser publicado no Brasil), que sairá a público em setembro na Espanha pela Tusquets (chegou antes na Itália, com 100.000 exemplares vendidos e uma discreta repercussão). E longe de ser resolvido, o enigma do escritor esquivo e recluso, escondido e voluntariamente desligado de sua língua materna —escreve em francês desde A Lentidão, lançado em 1994—, revela-se um pouco mais agora.
“Leve como uma pluma de perdiz ou de anjo”, compara o Le Monde,Kundera voa alto no romance que aparece agora, 14 anos depois de A Ignorância. Por onde andou? O que estava fazendo? Afastar-se, ocultar-se, ler em francês, alemão e checo, as línguas que domina. Aprofundar talvez os meandros kafkianos que tanto o apaixonam e reconhecer neles os sinais deste tempo difuso, indescritível.