segunda-feira, 30 de junho de 2014

Vargas Llosa / Esta realidade pode ser o inferno

Vargas Llosa
Javi Sepúlveda

“Esta realidade pode ser o inferno”

O escritor acha que a falta de transparência leva aos jovens à indiferença e ao desprezo pelo social



O desprezo dos jovens pela política surpreende Mario Vargas Llosa.
Pergunta. Que papel o senhor assume quando fala com jovens?
Resposta. O de um curioso. O abismo entre gerações é o maior da história. Os jovens gostam mais das telas, onde sua desenvoltura é imbatível. Nós continuamos sendo livrescos.
P. O que mais mudou?
R. Tornam-se adultos muito rápido. Em relação a sexo, por exemplo. É uma liberdade que os torna mais saudáveis do que nós fomos. Os tabus e as proibições fizeram com que o sexo fosse traumático.

Os países que viveram a utopia demonstraram que ela provocava mais injustiças do que as corrigia
P. O que o senhor entende agora e não compreendia quando era jovem?
R. A igualdade entre o homem e a mulher. Os jovens agora são mais conscientes disso, e nós éramos bastante cegos. O sexo os torna mais livres. Ainda que essa liberdade os faça perder, mais rápido, a inocência que pouco a pouco ia fomentando o amor e enriquecendo a relação sentimental.
P. Quando o senhor perdeu sua inocência?
R. Entre os 10 e os 11 anos. Eu não sabia como as crianças vinham ao mundo; que cegonhas as trouxessem me parecia algo fantasioso; não suspeitava do tipo de vida sexual que estava na origem da procriação.
P. E que outras descobertas naturais o comoveram?
R. O amor. Foi fundamental, e o descobri antes do sexo. Meu primeiro amor foi uma trapezista de circo. Eu era muito jovem; e os circos vinham para Cochabamba para o 6 de Agosto, dia da Bolívia. Havia uma equilibrista vestida de rosa. Foi meu primeiro amor.
P. E o primeiro beijo?
R. Talvez aos 12 anos. Fazíamos jogos maliciosos entre meninos e meninas. O prêmio era um beijo. O meu primeiro foi o de Teresita. Foi por isso que batizei com esse nome a protagonista do meu primeiro romance!
P. O senhor abraçou a utopia na juventude. Quando ela ruiu?
R. Quando os países que viveram a utopia demonstraram que ela provocava injustiças piores que as injustiças que nós queríamos corrigir com as medíocres democracias.
P. A realidade de hoje não é motivo para soltar fogos.
R. Esta realidade democrática não apenas não é o paraíso como pode chegar a ser o inferno. Há corrupção, falta de transparência, de vitalidade das democracias, e isso leva os jovens a aderirem à indiferença e ao desprezo pelo social e pelo político; o que acho muito grave. É uma realidade do nosso tempo.
P. O que o surpreende quando conversa com os jovens?
R. O enorme desprezo pela política e pelo compromisso; acham que é uma perda de tempo, que todos os políticos são corruptos. Essa atitude cínica que assumem tão rápido é perigosa para o futuro da democracia, da liberdade, de tudo que nos tirou da barbárie.
P. Consegue convencê-los do contrário?
R. É difícil fazê-lo, se o que tem a oferecer é viver em sociedades nas quais não há emprego, a não ser para uma minoria. A grande revolução tecnológica transforma o mundo e faz desaparecer, cada vez mais, oportunidades de trabalho.
P. O que o senhor não entende do que escuta?
R. Há um deslumbramento com a tecnologia como panaceia para resolver tudo. Uma utopia perigosa: ameaça a maior conquista da humanidade, a liberdade. É um pesadelo orwelliano que se tornou realidade.
P. Disse que imaginava a velhice junto com um dogue alemão, de frente para o mar. Acha que está longe?
R. Ha, ha, ha! Meu sonho é poder continuar lendo e escrevendo até o final. Se for assim, será uma morte feliz.
P. Um pai, quase da sua idade, deixa o lugar para alguém que pode seu filho, Vargas Llosa. Que futuro prevê para o novo Rei?
R. Acredito que seja um jovem muito bem preparado para enfrentar um futuro enormemente incerto e difícil.



domingo, 29 de junho de 2014

James Rodríguez / O herdeiro do ‘Pibe’ Valderrama


COPA DO MUNDO 2014

James, o herdeiro do ‘Pibe’ Valderrama

O atacante colombiano, de 23 anos e artilheiro do torneio com dois gols contra o Uruguai, transforma-se na referência do time de Pekerman



James Rodríguez celebra o segundo gol contra o Uruguai. /PAOLO AGUILAR (EFE)
Não é a primeira vez que James Rodríguez (Cúcuta, Colômbia, 23 anos) bate um recorde. O meio-campista que fez o Maracanã explodir com dois gols que permitiram à Colômbia passar às quartas de final pela primeira vez em sua história já está acostumado com isso. Neste sábado, ele se transformou no maior goleador do torneio, com cinco gols, e também no jogador colombiano que mais vezes marcou em uma Copa do Mundo. Ele marcou 10 gols desde 11 de outubro de 2011, quando vestiu pela primeira vez a camisa da seleção da Colômbia. Por isso são muitas as vozes que o classificam como melhor jogador da Copa de 2014, incluindo o técnico Oscar Tabárez, do derrotado Uruguai. Nas redes sociais, já circula uma comparação: “Messi, cinco gols em três Copas; Cristiano Ronaldo, três gols em três Copas; James, cinco gols em uma Copa”.
Muitos previam isso, e agora é uma realidade. James é o substituto do genial Carlos El Pibe Valderrama, um dos melhores meias que a Colômbia teve em sua história. Seu temperamento não se compara ao que ele é dentro de campo. James é um jovem simples e muito tímido. Até há pouco tempo, suas respostas eram monossilábicas. Pouco a pouco ele foi ganhando confiança frente às câmeras e ao assédio dos jornalistas. E nunca nega um autógrafo. James sempre gostou de salsa, mas sempre disse que não sabe dançar. Claro, quem vê as comemorações de gol não pensa assim. Quando marcou o segundo contra a Costa do Marfim, ele foi até o banco para que Armero guiasse a equipe na coreografia, que é ensaiada nos quartos de hotel da concentração.

sexta-feira, 27 de junho de 2014

Morre o ator Eli Wallach, estrela do filme ‘Três Homens em Conflito’

Morre o ator Eli Wallach, 

estrela do filme ‘Três Homens em Conflito’

Nascido em Nova York, morreu aos 98 anos depois de participar em mais de 150 filmes e séries

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Wallach, na estreia de 'Wall Street 2', em 20 de setembro de 2010. / LUCAS JACKSON (REUTERS)
Ele nasceu no Brooklyn, em uma família judia, mas já foi vaqueiro, mafioso, ladrão, bandoleiro mexicano, velho encantador… É apenas uma parte do que ele já foi, porque Eli Wallach, que faleceu hoje aos 98 anos, nunca deixou de trabalhar, de enfrentar personagem secundário após personagem secundário, para acabar se convertendo, depois de atuar em mais de 150 filmes e séries de televisão, em um mito do cinema, homenageado em 2010 com um Oscar Honorário mais do que merecido. Só com seu Tuco de Três Homens em Conflito e seu dom Altobello em O Poderoso Chefão III terá um lugar reservadona glória cinematográfica. Wallach soube fazer carreira com um rosto singular, com suas atuações e com uma grande sabedoria na hora de escolher projetos enquanto envelhecia.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

A escritora Ana María Matute morre aos 88 anos

A escritora Ana María Matute morre aos 88 anos

Vencedora do Prêmio Cervantes em 2010 e acadêmica, ela foi uma das grandes autoras do pós-guerra e conquistou o Nadal e o Planeta


A escritora Ana María Matute, Prêmio Cervantes 2010, em Barcelona. / JOSEP LAGO (AFP)
A escritora Ana María Matute, vencedora do Prêmio Cervantes em 2010, acadêmica e uma das grandes autoras do pós-guerra, morreu nesta quarta-feira em sua casa, em Barcelona, a um mês de completar 89 anos. Há apenas alguns meses, ela foi encarregada de entregar a última edição do prêmio Nadal em sua cidade, onde havia nascido em 26 de julho de 1925.
A literatura realista, fantástica e infantil foram as três vertentes que caracterizaram sua obra com um estilo de aparente simplicidade que escondia a complexidade do ser humano. Matute havia acabado de entregar à editora Destino sua nova novela: Demônios familiares, com lançamento previsto para setembro.

terça-feira, 24 de junho de 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Rose Marie Gebara Muraro / O Pássaro de Fogo


Rose Marie Gebara Muraro
11/11/1930 - 21/06/2014
O Pássaro de Fogo

Tu vieste como um pássaro
E pousaste no meu ombro
E eu fui habitada
Pela paixão da entrega.

Eu te amei antes que tu existisses
Como o deserto que tem sede de água
E as flores tem sede da luz
E te amei como a pedra ama a terra
Que lhe dá sua força.

Com teu bico colocaste na minha mão esquerda
A semente da morte
E na direita a semente da vida
Para que com as duas juntas
Eu fizesse a escolha de cada momento
Ligando o instante à sua profundidade eterna.

Pássaro de fogo
Capaz de queimar sem consumir
Estás dentro de mim.

Pássaro de fogo
Irei onde tuas asas me conduzirem
E meu caminho se tornou incandescente
Como teus olhos.




domingo, 22 de junho de 2014

Picasso / O grande mestre do século XX

Pablo Picasso
Foto de Dora Maar

Picasso, o grande mestre do século XX


O labor dos escritores em relação a seu trabalho contribuiu à difusão de sua obra de uma maneira determinante


    'A oficina', 1955. Óleo sobre tela, 80,9 x 64,9 cm Tate: Apresentado/Apresento por Gustav e Elly Kahnweiler em 1974, acrescentado/acrescento à coleção em 1994. / © TATE, LONDON 2014 / SUCESIÓN PABLO PICASSO, VEGAP, MADRID, 2014
    Guillaume Apollinaire, Max Jacob, Gertrude Stein, Jean Couteau, Louis Aragon ou Michel Leiris são apenas uns poucos nomes dos muitos escritores com os quais Pablo Picasso teve uma estreita relação e que contribuíram a convertê-lo já em vida como um dos maiores artistas da história. A partir de sua morte, em um chuvoso domingo de abril de 1973, aos 91 anos, em Notre-Dame-Vie, em Mougins (França), as exposições dedicadas a Picasso não deixaram de acontecer em todo o mundo: antológicas, retrospectivas focadas em cada uma de suas múltiplas etapas ou temas, seus períodos azul, rosa ou branco e negro, seus retratos, sua relação com a tradição e a vanguarda, seus cadernos, suas máscaras, suas cerâmicas, suas viagens. Seu imenso talento junto à sua enorme produção alimentam ano após ano os projetos dos museus mais diversos do planeta.
    Maite Ocaña (Barcelona, 1947), uma das mais prestigiadas especialistas na obra do pintor malagueño, é a curadora da exposição dedicada às oficinas do artista. Ocaña começou a trabalhar no Museu Picasso de Barcelona em 1972 e pode dizer que quase toda sua vida profissional está unida ao pintor. Só nesse museu, 79 exposições foram dedicadas a ele durante seu meio século de existência. A especialista não participou de todas, mas atesta, com uma resposta entusiasmada, ser amante da arte.
    A que se deve esse interesse permanente por Picasso?. “É a figura central de toda a arte do século XX”, responde a especialista. “Sua capacidade de investigação unida a sua profunda admiração pelo passado o fazem único. Já foi importante para os artistas de sua geração. Os escritores colaboraram à difusão de sua obra de uma maneira determinante. Relacionou-se com muitos e os que não o conheciam pessoalmente, se interessaram por sua obra. Foi assim então e seguiu o sendo depois”.
    Ante o imponente Autorretrato com paleta (1906) com o que abre a exposição, propriedade do Museu da Philadelfia, Ocaña lembra que se trata de uma das peças mais importantes de seu período primitivista: rosto com forma de máscara ibérica e corpo volumétrico. “Tem quase forma arquitetônica, como o retrato que realizou de sua amiga Gertrude Stein, a escritora norte-americana que tanto ajudou na difusão de sua obra”.
    Ocaña está convencida de que por mesmo que várias exposições lhe sejam dedicadas, Picasso continuará sendo por muito tempo uma fonte inesgotável de novas propostas que seguirão interessando ao público. “Sua obra admite novas leituras, ensinos, comparações“. Não acha que, salvo exceções, seu nome seja utilizado em vão para atrair visitantes. “Há muito para se descobrir. Nesta exposição mostramos um alto número de obras nunca vistas porque são propriedade de particulares. Pode contemplá-las de perto uma vez na vida, é um bom pretexto para se aproximar e ver a exposição”.
    Sua cotação no mercado dos leilões, sempre nos primeiros postos há muitos anos, aumenta também no interesse dos museus por expor sua obra. Na semana passada no Sotheby’s de Londres, Picasso rompeu um novo recorde com Composition au Minotaure, comprado por 12,5 milhões de euros, o preço mais alto alcançado por uma obra sobre papel do gênio malagueño.



    sábado, 21 de junho de 2014

    O fantasma de Pablo Picasso

    A pintura de fundo do quadro 'La habitación azul', de Picasso. / EVAN VUCCI (AP)


    O ‘fantasma’ de Pablo Picasso

    Debaixo da pintura do quadro 'La habitación azul' foi encontrado outro desenho sobre a tela


    O quadro La habitación azul (O quarto azul), dePablo Picasso, do período 1901-1904, não era tão azul quanto parecia ser. A tela, propriedade da Philips Colletion, foi submetida a raios infravermelhos que mostraram que debaixo da pintura conhecida havia outra, muito diferente. Os cientistas e especialistas descobriram um quadro oculto debaixo da pintura. As imagens infravermelhas que o estudo adiantou, revelam um homem com gravata com o rosto apoiado na mão, com três anéis em seus dedos. Agora a pergunta que os conservadores da galeria de Washington esperam responder é: "Quem é ele?" Um mistério que os pesquisadores estão dispostos a esclarecer. Querem descobrir o 'fantasma' da pintura.


    sexta-feira, 20 de junho de 2014

    Antônio Moura / A espera


    Antônio Moura
    A ESPERA




    À espera, de pé, na pedra,
    entre a esfera verde do mar

    e a estrela que a cada
    noite se aproxima, falas

    cada vez mais mudo,
    numa voz que escuta o fundo

    de outra voz que vem
    e diz-não-diz em eco,

    hein, idioma de algas,
    algo assim num som surdo:

    nada, vestido de corpo e carma,
    enquanto se dissolve o mundo





    quinta-feira, 19 de junho de 2014

    CRISE ECONÔMICA DA VENEZUELA / A escassez e a inflação reduzem a alimentação básica na Venezuela

    Nicolás Maduro

    CRISE ECONÔMICA DA VENEZUELA

    A escassez e a inflação 

    reduzem a alimentação básica 

    O Instituto de Estatística constata que no segundo semestre de 2013 houve uma queda na aquisição de produtos alimentícios. As vendas de farinha de milho, base da dieta cotidiana, caíram 16,5%



    Operadora de caixa conta dinheiro em um supermercado de Caracas. / C. G. RAWLINS (REUTERS)
    Instituto Nacional de Estatística da Venezuela impôs o segundo golpe duro ao Governo em menos de um mês. Em maio, a entidade havia revelado que 737.000 venezuelanos caíram para a pobreza extrema. E, neste mês, a Pesquisa de Acompanhamento do Consumo de Mantimentos concluiu que, entre o segundo semestre de 2012 e o mesmo período de 2013, houve uma queda generalizada no consumo diário de mantimentos básicos. Dos 43 itens incluídos no estudo, 41 tiveram redução do consumo. Em alguns casos, houve um desabamento notável, como no da farinha de milho (-16,55%), a base para o preparo das arepas – comida tradicional venezuelana no café da manhã e no jantar.
    Por tabela, o INE desmentiu a nomenklatura chavista, cujos integrantes asseguraram, em diversas ocasiões, desde 2013, que a escassez e o desabastecimento crônicos se explicavam pelo fato de os venezuelanos agora poderem consumir mais. Já era um argumento difícil de acreditar, dada a queda brutal do poder aquisitivo, segundo analistas e comentaristas. A inflação anualizada entre maio de 2013 e o mesmo mês de 2014 ficou em 60,9%, apesar de o Governo ter aumentado o salário mínimo em 40% no período de um ano, a maior expansão de toda a era chavista até março, num esforço para tentar compensar a redução da renda. Esse salário mal cobre o custo da cesta básica de alimentos, que em janeiro de 2014 era estimada oficialmente pelo INE em 3.641 bolívares (162 reais, segundo a taxa mais alta do câmbio oficial).

    quarta-feira, 18 de junho de 2014

    Franz Kafka / Fábula curta

    Franz Kafka
    FÁBULA CURTA

    “Ai de mim!”, disse o rato, ” – o mundo vai ficando dia a dia mais estreito” .
    “- Outrora, tão grande era que ganhei medo e corri, corri até que finalmente fiquei contente por ver aparecerem muros de ambos os lados do horizonte, mas estes altos muros correm tão rapidamente um ao encontro do outro que eis-me já no fim do percurso, vendo ao fundo a ratoeira em que irei cair”.
    “- Mas o que tens a fazer é mudar de direção”, disse o gato, devorando-o.



    segunda-feira, 16 de junho de 2014

    Franz Kafka / O abutre


    Franz Kafka
    O ABUTRE
    Tradução de Isabel Castro Silva
            Era um abutre que me picava os pés. Tinha já rasgado as botas e as meias e agora bicava os próprios pés. Bicava sempre sem parar, esvoaçava depois inquieto várias vezes à minha volta e retomava o trabalho. Um homem passou por nós, observou por um momento e depois perguntou por que tolerava eu o abutre.
    “Não tenho como me defender”, disse eu, “ele chegou e começou a bicar-me, e é claro que o quis enxotar, tentei mesmo estrangulá-lo, mas um animal destes tem muita força, também já queria saltar-me para a cara, por isso preferi sacrificar antes os pés. Agora já estão quase esfacelados.”
    “Imagine-se, deixar-se torturar assim”, disse o homem, “um tiro e é o fim do abutre.”
    “A sério?” perguntei eu, “e o senhor não quer tratar disso?”
    “Com muito gosto”, disse o homem, “tenho só de ir a casa buscar a espingarda. Consegue esperar ainda uma meia hora?”
    “Não sei”, disse eu, e por um instante fiquei hirto de dor, depois disse: “Em todo o caso tente, por favor.”
    “Muito bem”, disse o homem, “vou apressar-me.”
    Durante a conversa o abutre ouvira serenamente, deixando vaguear o olhar entre mim e o homem. Via agora que ele entendera tudo, levantou voo, curvou-se muito para trás para ganhar balanço e como um atirador de lanças enfiou então o bico pela minha boca até o mais fundo de mim. Ao cair para trás senti-me liberto enquanto no meu sangue que enchia todas as profundezas e transbordava de todas as margens ele se afogava sem salvação.


    Franz Kafka
    Contos
    Seleção e prólogo de Jorge Luis Borges
    Lisboa, Relógio D’Água Editores, 2005, p. 17-18




    domingo, 15 de junho de 2014

    Franz Kafka / A partida


    Franz Kafka
    A PARTIDA


    Dei ordem de irem buscar meu cavalo ao estábulo. O criado não me compreendeu. Fui eu mesmo ao estábulo, ensilhei o cavalo e montei. Ao longe ouvi o som de uma trombeta, perguntei o que significava aquilo. Ele de nada sabia, não ouvira nada.
    No portão deteve-me, para perguntar-me:
    - Para onde cavalga o senhor?
    - Não o sei – respondi -. Apenas quero ir-me daqui, somente ir-me daqui. Partir sempre, sair daqui, apenas assim posso alcançar minha meta.
    - Conheces então, tua meta? – perguntou ele.

    - Sim – respondi eu. Já disse. Sair daqui: esta é minha meta.


    sábado, 14 de junho de 2014

    Franz Kafka / O Silêncio das sereias


    Franz Kafka
    O Silêncio das sereias



    Prova de que até os meios insuficientes – infantis mesmo – podem servir à salvação:
    Para se defender das sereias, Ulisses tapou os ouvidos com cera e se fez amarrar ao mastro. Naturalmente – e desde sempre – todos os viajantes poderiam ter feito coisa semelhante, exceto aqueles a quem as sereias já atraíam à distância; mas era sabido no mundo inteiro que isso não podia ajudar em nada. O canto das sereias penetrava tudo e a paixão dos seduzidos teria rebentado mais que cadeias e mastro. Ulisses porém não pensou nisso, embora talvez tivesse ouvido coisas a esse respeito. Confiou plenamente no punhado de cera e no molho de correntes e, com alegria inocente, foi ao encontro das sereias levando seus pequenos recursos.
    As sereias entretanto têm uma arma ainda mais terrível que o canto: o seu silêncio. Apesar de não ter acontecido isso, é imaginável que alguém tenha escapado ao seu canto; mas do silêncio certamente não. Contra o sentimento de ter vencido com as próprias forças e contra a altivez daí resultante – que tudo arrasta consigo – não há na terra o que resista.
    E de fato, quando Ulisses chegou, as poderosas cantoras não cantaram, seja porque julgavam que só o silêncio poderia conseguir alguma coisa desse adversário, seja porque o ar de felicidade no rosto de Ulisses – que não pensava em outra coisa a não ser em cera e correntes – as fez esquecer de todo e qualquer canto.
    Ulisses no entanto – se é que se pode exprimir assim – não ouviu o seu silêncio, acreditou que elas cantavam e que só ele estava protegido contra o perigo de escutá-las. Por um instante, viu os movimentos dos pescoços, a respiração funda, os olhos cheios de lágrimas, as bocas semiabertas, mas achou que tudo isso estava relacionado com as árias que soavam inaudíveis em torno dele. Logo, porém, tudo deslizou do seu olhar dirigido para a distância, as sereias literalmente desapareceram diante da sua determinação, e quando ele estava no ponto mais próximo delas, já não as levava em conta.
    Mas elas – mais belas do que nunca – esticaram o corpo e se contorceram, deixaram o cabelo horripilante voar livre no vento e distenderam as garras sobre os rochedos. Já não queriam seduzir, desejavam apenas capturar, o mais longamente possível, o brilho do grande par de olhos de Ulisses. Se as sereias tivessem consciência, teriam sido então aniquiladas. Mas permaneceram assim e só Ulisses escapou delas.

    De resto, chegou até nós mais um apêndice. Diz-se que Ulisses era tão astucioso, uma raposa tão ladina, que mesmo a deusa do destino não conseguia devassar seu íntimo. Talvez ele tivesse realmente percebido – embora isso não possa ser captado pela razão humana – que as sereias haviam silenciado e se opôs a elas e aos deuses usando como escudo o jogo de aparências acima descrito.


    quarta-feira, 11 de junho de 2014

    O último livro de Vargas Llosa / Radiografia sem diagnóstico



    O último livro de Vargas Llosa
    Radiografia sem diagnóstico

    Por Emir Sader

    É um livro triste, melancólico, angustiado. Vargas Llosa denunciando a vulgarização da cultura: “a cultura, no sentido que tradicionalmente foi dado a este vocábulo, está nos nossos dias a ponto de desaparecer. Talvez já tenha desaparecido, esvaziada discretamente de seu conteúdo e este substituído por outro, que desnaturaliza o que teve”.
    O livro se chama A civilização do espetáculo, edição original da Alfaguara. Nele Vargas Llosa reivindica fortemente o sentido que ele dá à Ilustração, a que ele contrapõe a civilização do espetáculo, definido por ele como:

    terça-feira, 10 de junho de 2014

    Luís Carlos Lopes / Em defesa da língua portuguesa



    Em defesa da língua portuguesa
    Luís Carlos Lopes

    La Insignia, Brasil, fevereiro de 2007

    Meio milênio depois da descoberta das Américas e da criação e do desenvolvimento da América portuguesa é bom refletir sobre o produto cultural mais significativo deste processo: a língua portuguesa. Antes de este artigo ser escrito, a Mangueira - Salve a Mangueira! - já havia, na vanguarda da cultura popular brasileira lembrado disto, no belíssimo samba-enredo deste ano.