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quarta-feira, 10 de agosto de 2016

O Brasil que luta feito mulher na Rio 2016

 judoca Rafaela Silva, ao ganhar o ouro, nesta segunda.  

O Brasil que luta feito mulher na Rio 2016

Participação recorde não é o suficiente. Elas querem - e estão sendo - as protagonistas destes Jogos


São Paulo 10 AGO 2016 - 00:35 COT
Era domingo à tarde no Rio de Janeiro olímpico e alguns dos bairros mais cenográficos da cidade foram cortados pelas ciclistas que disputavam o melhor tempo na categoria ciclismo de estrada. A brasileira Flávia Oliveira não ganhou medalha, mas entrou para a história como o melhor lugar na categoria jamais conquistado por uma brasileira. Ficou na sétima posição, a apenas 20 segundos de distância da primeira colocada. Das 68 ciclistas na disputa, apenas nove completaram a prova no mesmo minuto, o que mostra a façanha de Flavia, ainda que tenha ficado fora do pódio.

No dia seguinte, a judoca Rafaela Silva brigava no tatame por sua vingança dourada. Na Olimpíada de Londres 2012, ela perdera nas oitavas de final, o que resultou em uma avalanche de críticas e xingamentos, inclusive racistas, nas redes sociais. Chegou a ser chamada de macaca. Aquilo havia abalado o emocional da judoca a ponto de fazê-la pensar em parar de lutar. 
Mas o Rio seria a sua revanche. Com um wazari aplicado na líder do ranking, Sumiya Dorjsuren, da Mongólia, Rafaela Silva conquistou o primeiro - e até agora único - ouro do Brasil nesta Olimpíada. As mulheres, dede o início, representavam a grande esperança de medalha no judô brasileiro. Mariana Silva quase chegou lá, perdendo na semifinal, nesta terça. Levando em conta que a participação feminina no judô em uma olimpíada é coisa recente - só passou a ser permitida em 1992 - as judocas avançam com uma velocidade de canhão em relação aos atletas homens no Brasil. Em Londres 2012, Sarah Menezes conquistou o único ouro do esporte.
A vitória acachapante de Rafaela Silva, porém, não foi capaz de frear o duro tribunal das redes sociais. No mesmo dia em que o Brasil ganhava seu primeiro ouro, no tatame, perto dali, na piscina, a nadadora brasileira Joanna Maranhão ficava de fora da semifinal dos 200 metros Medley. Os inquisidores da Internet rapidamente reagiram com ofensas, xingando a nadadora e remexendo em uma história pesada do seu passado.
Mas, ainda que longe dos tatames, Joanna não fugiu da briga. “As pessoas não gostarem do meu rendimento é um direito delas”, disse a atleta ao canal SporTV. “Nem todo mundo compreende a grandiosidade e a competitividade que é a natação mundial, o quanto que brigamos para chegar na final. Mas desejar que eu seja estuprada, que minha mãe morra, que um bandido me mate, que eu me afogue. Falar que a história da minha infância foi algo que inventei para estar na mídia, isso ultrapassa”, disse.
Em 2008, a nadadora reuniu forças para revelar publicamente em uma entrevista que sofreu abuso sexual de ex-treinador, Eugênio Miranda. Agora, tanto tempo depois, usam dessa história para atingir a nadadora, que reagiu. “Quando vem para a história da minha infância, o desrespeito às mulheres, pelo fato de ser do Nordeste, aí vou ter que tomar medidas jurídicas”, afirmou ao canal de TV.
Poucas horas depois da derrota de Joanna, o Estádio Deodoro era palco de uma cena que entrou para a história das olimpíadas, sem envolver medalhas. A jogadora de rugby da seleção brasileira, Isadora Cerullo, foi pedida em casamento. Por sua namorada. E aceitou, beijando-a na frente de toda a imprensa e da torcida. A cena ocorreu após a Austrália ser coroada com o ouro. O Brasil não subiu no pódio com o rugby, mas em tempos de estatuto da família, a jogadora, cuja foto rodou o mundo, ganharia fácil uma medalha pela luta contra o preconceito.
O simples fato de esta ser a Olimpíada com a maior participação feminina da história (45% das atletas são mulheres) já seria um dado a ser minimamente comemorado. Mas isso é pouco. As atletas brasileiras querem disputar também o protagonismo dos Jogos, no quadro de medalhas, com suas desafiantes histórias, e não só encaixadas nos estereótipos de gênero. E até o momento vem conseguindo.
São elas que estão carregando nas costas o peso da expectativa e da busca de uma alegria da pátria do futebol. A seleção brasileira feminina ganhou o primeiro jogo por 3 a 1 contra a China, na sexta-feira. Na partida seguinte, no sábado, fez mais bonito ainda e deu uma goleada na Suécia, vencendo por 5 a 1.  Nesta terça, empatou em 0 a 0 contra a África do Sul, mas ainda assim saíram de campo aplaudidas em Manaus. Enquanto isso, a seleção masculina de futebol amarga uma triste decadência: ficou no zero a zero nas duas partidas que jogou até o momento. 
Não é à toa que se tornou emblemática a imagem da camiseta da seleção com o nome de Neymar - riscado. Por cima, aparece escrito Marta, a estrela do futebol feminino. Não é pouca coisa. A maioria do tempo, as mulheres, apesar dos avanços históricos e recentes que ajudaram inclusive a disputar modalidades olímpicas reservadas aos homens, sequer aparecem lado a lado com os homens. Elas ganham menos (inclusive no esporte, basta ver as diferenças salariais nas equipes de futebol e vôlei brasileiros), trabalham mais, são a maior parcela de vítimas de violência doméstica e nem sendo figuras públicas escapam de escrutínio preconceituoso. É por isso que a Rio 2016, a julgar pelos últimos dias, parece emplacar um novo bordão para sepultar o clichê machista: agora é lute como uma mulher.


quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Eliane Brum / Dois Josés e um Amarildo



Dois Josés e um Amarildo

Em seu gesto e na sua reivindicação, José Genoino e José Dirceu demonstraram não compreender o Brasil dos protestos: desde que as manifestações tomaram as ruas, presos políticos são os comuns




Havia algo de melancólico no braço erguido dos dois Josés, Genoino e Dirceu, ao serem presos por corrupção. E na afirmação: “Sou preso político”. O punho cerrado é o gesto de resistência de uma geração que lutou contra a ditadura, pegou em armas, foi presa, torturada e assumiu o poder na redemocratização do país. É também o gesto que não mais encontra destinatário para além de seus pares e de parte da militância do PT. É, principalmente, o gesto que não ecoa na juventude que se tornou protagonista dos protestos que mudaram o país. No Brasil que reconheceu Amarildo, o pedreiro, como mártir da democracia, a evocação vinda de José Genoino e de José Dirceu para ocupar esse lugar não encontra ressonância. Desde as manifestações de junho, os presos políticos são os comuns. Para um partido tão hábil em esgrimir simbologias, não compreender o Brasil forjado no ano que não terminou é uma tragédia talvez maior do que a prisão por corrupção de duas de suas estrelas históricas.


Mártir político é Amarildo de Souza. Favelado, negro, analfabeto, 43 anos, o ajudante de pedreiro conhecido como “boi” pela sua capacidade de carregar sacas de cimento desapareceu em 14 de julho ao ser levado a uma UPP (Unidade de Polícia Pacificadora) da Rocinha, no Rio de Janeiro. Amarildo, o homem comum vítima da política de criminalizar, torturar e executar os pobres. Uma política que atravessa a história do Brasil, persiste na redemocratização e se manteve nos governos de Fernando Henrique Cardoso, Lula e Dilma. Não era o primeiro a desaparecer depois de entrar num posto policial, não foi o último. Mas, pela primeira vez, um homem comum, carregando em si todas as marcas da abissal desigualdade do Brasil, foi reconhecido como um desaparecido político da democracia, lugar destinado a ele pela convulsão das ruas. Esta pode ter sido a maior transformação colocada em curso pelos protestos.

Pela primeira vez, um homem comum, carregando em si todas as marcas da abissal desigualdade do Brasil, foi reconhecido como um desaparecido político da democracia
Preso político é Rafael Braga Vieira, 26 anos, catador de latas, morador de rua, negro. Ele foi preso em 20 de junho, durante uma manifestação na Avenida Presidente Vargas, no Rio. Já tinha sido preso por roubo em duas outras ocasiões e cumprido as penas completas. Desta vez, está encarcerado, sem julgamento, há cinco meses no presídio de Japeri. Seu crime: carregar uma garrafa de Pinho Sol e outra de água sanitária. E uma vassoura, mas esta não foi considerada suspeita. Seu caso foi relatado à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) e ao Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos.


terça-feira, 2 de junho de 2015

Chico Buarque / “A música brasileira não exclui, assimila”

Chico Buarque

Chico Buarque

“A música brasileira não exclui, assimila”

No Rio de Janeiro, revela a história de sua família e sua oposição à ditadura

    Chico Buarque, "um sujeito magro e tímido, simples e sorridente". / LUIZ MAXIMIANO
    Há apenas uma coisa mais difícil de encontrar do que alguém que fale mal de Chico Buarque no Brasil: uma mulher que não seja apaixonada por ele. Olhos fascinantes de uma cor estranha entre verde, azul e cinza são uma lenda nacional. Suas canções, por si só, já fazem parte da história, da herança e da identidade diária de um povo. Por isso, é um pouco intimidante se aproximar do edifício de um bairro nobre do Rio de Janeiro, onde o cantor mora, e subir no elevador imaginando o que te espera atrás da porta. O que se encontra é um sujeito magro e tímido, simples e sorridente, que esperava sentado sozinho em uma cadeira e assim que vê o recém-chegado o convida para um café que acabou de fazer. A sala de estar de Chico, aberta em três paredes de vidro com vista para várias praias do Rio, goza de uma paisagem deslumbrante nesta bela tarde ensolarada e iluminada de fim de verão. Ao fundo, em um canto, há um violão e um piano, ao lado de uma enorme foto na qual Chico aparece ao lado de Vinicius de Moraes e Tom Jobim, dois dos lendários criadores da bossa nova.
    Sobre uma mesa repousa o novo romance do artista, O Irmão Alemão (Companhia das Letras). Nele, Chico (1944) narra seu choque ao saber, já adulto e de forma inesperada, que seu pai, o famoso historiador Sérgio Buarque de Hollanda, teve um filho na Alemanha, em 1930, quando era correspondente em Berlim para um jornal brasileiro. Nem Chico sabia até então que tinha um irmão na Alemanha, nem esse irmão alemão jamais soube que era parente de um dos cantores mais famosos do Brasil já que morreu, em 1981, ignorando quase tudo sobre seu pai biológico. O escritor disfarça um pouco os fatos, mas nas páginas do romance desfila a São Paulo dos anos sessenta e setenta, menos gigante e desumana do que a atual, e sua própria juventude um pouco desregrada. Também emerge a ditadura sinistra, à qual Chico se opôs desde o início e que o levou a buscar o exílio, em 1969. Mas, acima de tudo, revela a casa da família, repleta de cima a baixo com livros de seu progenitor. Era um pai amável, mas distante, carinhoso, mas distraído, e um pouco ausente, sempre imerso em leituras intermináveis e envolto em uma nuvem de fumaça de um cigarro continuamente aceso. No romance, o protagonista, um sósia do próprio Chico, enquanto folheia um dos livros da imensa biblioteca do pai, nota um envelope perdido entre as páginas que guarda uma velha carta em alemão, que lhe dá pistas sobre aquele irmão que nunca conheceu. Na verdade, a descoberta não foi tão literária.
    Pergunta. Quando soube que tinha um irmão?

    Com 20 anos, você tem um milhão de ideias para compor. Depois, tudo torna-se mais insípido
    Resposta. Soube exatamente em 1967, quando tinha 23 anos. Lembro-me muito bem, inclusive há uma foto desse dia. Vinicius de Moraes, Tom Jobim e eu fomos visitar o poeta Manuel Bandeira, que já estava muito velhinho, em sua casa no Rio. E, então, falando disso e daquilo, Bandeira perguntou por meu pai, de quem era muito amigo: "Como o Sérgio está? Ah, quanto tempo não o vejo, vivemos tantas coisas juntos... Foi para a Alemanha, teve aquele filho...”. E aí soltou isso.
    P. O que você fez?
    R. Então lhe disse: "Mas que filho?". E aí o Vinicius respondeu: "Mas você não sabia disso, do filho?". E eu: "Não". Eu não sabia nada. Era um segredo de família. Depois daquele dia, falei com meus irmãos e com meu pai. Falei com o meu pai, sim, mas sempre havia uma barreira na hora de perguntar a ele. Escrevendo este novo livro me questionei por que não perguntei mais. Mas havia um receio, um impedimento. Não é que meu pai tenha me proibido de perguntar sobre a questão do filho, mas me sentia um pouco desconfortável sobre o assunto. Em relação à minha mãe e ao meu pai.

    O cantor e escritor Chico Buarque. / LUIZ MAXIMIANO
    P. E isso se tornou uma obsessão ao longo dos anos? Porque você continuou investigando, principalmente após a morte de seu pai, em 1982. Até mesmo a editora que iria publicar o livro, a Companhia das Letras, contratou dois detetives para ajudá-lo na investigação.
    R. Não, não, não eram detetives [risos]. Eram historiadores. Um deles era um brasileiro que, por acaso, estava na Alemanha quando comecei a escrever o livro, há três anos. É verdade que foi contratado pela editora. Ele conhecia um documentalista alemão especializado em imigração alemã no estado de Santa Catarina. Eles descobriram que meu irmão, na verdade, se chamava Sérgio Günther e havia sido adotado por uma família quando pequeno. A verdade é que, quando comecei a escrever o livro, tinha muito pouca informação. Mas nem precisava. Nem sequer pretendia encontrá-lo. A história não ia por aí. Mas aconteceu que, enquanto escrevia, um dos meus irmãos, que vive no apartamento da minha mãe, que morreu há cinco anos, encontrou em uma gaveta alguns documentos que tinham dados para puxar o fio. Eu tinha 50 páginas do livro, que deixei como estavam. Mas a realidade se intrometeu na redação para sempre.
    P. A história que o senhor narra no romance é boa, mas a realidade na qual se apoia também.
    R. Sim, deveria escrever outro livro, porque, no final, o romance acaba competindo com a história real, que é muito impressionante.
    É verdade. Através desses documentos, Chico tomou conhecimento de duas coisas: que seu pai havia solicitado às autoridades alemãs que enviassem seu filho fornecendo a documentação necessária ou, pelo menos, conseguir que ele recebesse uma pensão que prometia enviar. A segunda é que a mãe biológica tinha decidido, em meio àconvulsão enfrentada pela Alemanha da época, entregar o menino ao Estado para que fosse adotado. Uma carta enviada a seu pai, em 1934, pela Secretaria da Infância e Juventude de Berlim (e que terminava com um rigoroso "Heil Hitler!") pedia a Sérgio Buarque de Hollanda que, para que seu filho fosse adotado pela família alemã Günther, que estava interessada na criança, deveria encaminhar o mais rapidamente possível certificados que comprovassem a religião católica do pai. Chico, ao ler a carta, imaginou, com assombro e espanto, que as autoridades alemãs exigiam isso para que ficasse evidente que o pequeno Sérgio não tinha sangue judeu nas veias. Caso contrário, em vez de uma família qualquer, ele poderia ter sido transferido para um campo de concentração. Os historiadores finalmente conseguiram, em 2013, identificar o irmão, Sérgio Günther, que morreu em 1981, e localizar sua ex-esposa, filha e neta. Poucos meses depois, Chico viajava a Berlim para conhecer a outra parte de sua família e saber mais sobre seu meio-irmão.
    P. E soube que seu irmão tinha sido um cantor...
    R. Sim, ficou bem conhecido na Alemanha Oriental como cantor e apresentador de televisão. Quando soube que tinha sido cantor, senti uma emoção forte. E sabe, quando ouvi um de seus álbuns percebi que tinha a voz grave do meu pai. Porque meu pai gostava muito de cantar. E soava igual.
    P. Tinham mais coisas em comum?
    R. Ambos morreram de câncer de pulmão. Meu pai fumava muito. Quando conheci a família do meu irmão, sua viúva (uma de suas viúvas, porque ele se casou mais de uma vez) me disse que Sérgio Günther arrancava o filtro dos cigarros que fumava. Exatamente como meu pai. Coisas assim que arrepiam. Todo mundo lá me disse que minha música A Banda havia sido traduzida ao alemão e era bem conhecida na Alemanha Oriental, com uma letra muito diferente e um pouco absurda, na verdade. Portanto, não é estranho que meu irmão tenha realmente me ouvido cantar. É uma maneira de ter me conhecido um pouco, certo?

    Demorei para descobrir que tinha um irmão. Era um segredo de família 
    P. Alguma vez teve curiosidade de saber quem era seu pai biológico?
    R. Sua viúva me disse que, em um determinado momento, sim, que perguntou na Embaixada brasileira, mas na época a Alemanha Oriental era um país muito fechado, com poucas possibilidades de conseguir informação.
    P. No livro, o protagonista, parecido com o senhor, rouba carros para se divertir. O senhor fazia a mesma coisa?
    R. Sim. Ia com um grupo de adolescentes do bairro, eram os tempos de James Dean, rock and roll, de uma juventude um pouco rebelde. Por isso que nosso esporte era roubar carros, circular com eles pela cidade e depois deixá-los no fim do mundo. Fui para a cadeia por isso uma vez. A polícia me deu uma surra. Bom, mas isso já havia contado. Eu mesmo disse antes que descobrissem. Tive sorte porque no dia que me prenderam meus pais não estavam em casa, estavam viajando, e foi minha irmã que me buscou. Eu então era bastante..., enfim, dei muito trabalho para minha família.
    P. Ao mesmo tempo, era muito bom leitor, certo?
    R. Sim, é verdade. Foi também uma maneira de me aproximar de meu pai, que passou a vida entre livros. Eu diria que, antes de ser músico, queria ser escritor. Até que a música apareceu na minha vida e embarquei nela. Mas não abandonei a ideia de me dedicar à literatura. Nos anos setenta, publiquei meu primeiro romance, nos oitenta, o segundo. Desde então alterno as duas coisas. Quando faço uma, não faço a outra, porque me consomem muito. Quando estou escrevendo nem sequer ouço música.
    P. Mas são atividades assim tão diferentes?
    R. Para mim, sim. Muito. E ainda assim minha escrita é muito influenciada por minha música. Talvez algo se perca nas traduções, mas meus textos tentam carregar algum ritmo musical. Além disso, tenho que alternar as duas coisas porque, pelo menos no Brasil, é muito difícil para um escritor viver apenas de literatura. Os escritores trabalham como funcionários públicos, professores, jornalistas... E tudo isso está tão longe da literatura quanto da música. O fato de ser jornalista, por exemplo, não lhe dá a habilidade de escrever literatura, acredito.
    P. Comenta-se que cada vez escreve mais e compõe menos.
    R. Componho menos do que aos 20. É normal. A música popular é mais uma arte da juventude, com o tempo você vai perdendo, não sei, não o interesse, mas ela já não flui com a abundância daqueles primeiros anos. Tenho que me esforçar mais, procurar mais, é mais difícil. No começo você tem um milhão de ideias, tudo em torno serve para fazer uma canção. Depois vai ficando mais insípido, menos inspirador.
    P. Ainda acredita que o melhor de um show é quando acaba?
    R. [Risos] Eu realmente não gosto muito de fazer shows não, mas tenho de fazer. Quando lanço um novo disco, me dá vontade de sair por aí e cantar em público. Além disso, com isso depois posso passar dois anos escrevendo. Caso contrário, iria à falência.
    P. Por que a música popular brasileira é tão conhecida e a literatura não?
    R. Pode ser porque seja pior, mas acho que não. É verdade, por exemplo, que a Argentina é um povo mais literário do que o brasileiro. E os escritores brasileiros também jogam com uma desvantagem, porque o português é mais desconhecido. E a riqueza musical brasileira é facilmente exportável, não precisa de tradução.
    P. Por outro lado, por que a música brasileira é tão aceita, tão apreciada?
    R. Porque, principalmente depois da bossa nova, tem a influência negra, é filha do samba, mas com um toque de jazz, um toque harmônico. E também tem influência dos grandes compositores da música clássica. Veja: Tom Jobim, nosso grande mestre, era um conhecedor profundo de Chopin e Debussy, dos impressionistas, entre muitos outros. E tudo isso está em nossa música, misturado, junto com os boleros cubanos e os ritmos mexicanos. O Brasil não exclui, assimila. O resultado foi complexo, rico e único.
    P. Como era esse mundo? Como era conviver com Jobim, Vinicius?
    R. Ah! Eles... eram acima de tudo grandes amigos. Olhe aquela foto, estou com os dois. Eu realmente comecei a me emocionar de verdade com a música, a decidir fazer canções a sério depois da cançãoChega de Saudade, composta por Tom Jobim e Vinicius e interpretada por João Gilberto. Eu os tinha em um altar. Já conhecia Vinicius porque era amigo do meu pai, mas, para mim, era como falar com um monumento. Por isso, a primeira vez que vim ao Rio para conversar com Tom Jobim, imagine, era um sonho. Com o tempo se tornaram meus amigos, meus parceiros, fiz muitas canções com eles, fui aceito nesse seleto grupo da música popular brasileira.
    P. Foi Tom Jobim que disse que o Brasil não era um país para amadores, correto?
    R. Sim, e assino embaixo. É um país único, fruto da colonização portuguesa, com emigrantes de todo o mundo, italianos, alemães, árabes, japoneses, com a marca dos escravos trazidos à força... E com origens indígenas antes disso tudo. Tudo isso está presente agora. Em São Paulo, sem ir muito longe, você pode procurar nomes indígenas em muitas ruas. Essas circunstâncias criam um país único.
    P. O senhor sempre teve uma posição política clara e explícita. Se opôs à ditadura e apoiou Lula e Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.
    R. Sempre me perguntam quando há eleições. Eu tomo partido e não tenho qualquer problema em declarar isso. Sempre apoiei o PT, agora a Dilma Rousseff e antes o Lula. Apesar de não ser membro do partido, de ter minhas desavenças e de votar em outros candidatos e outros partidos em eleições locais. Mas sempre soube que o problema deste país é a miséria, a desigualdade. O PT não resolveu tudo, mas conseguiu atenuar. Isso é inegável. O PT tem melhorado as condições de vida da população mais pobre.
    P. E como o senhor vê a situação atual?
    R. Muito confusa, não há nenhuma maneira de saber o que vai acontecer nos próximos anos. A crise econômica é forte. É preciso tomar certas medidas impopulares. Ao mesmo tempo, a oposição é muito dura. E depois há uma onda de manifestações nas ruas que, na minha opinião, não têm um objetivo concreto ou claro. Entre aqueles que saem às ruas há de tudo, incluindo loucos pedindo um golpe militar. Outros querem acabar com o Partido dos Trabalhadores, querem enfraquecer o Governo para que, em 2018, o PT chegue desgastado nas eleições. O alvo não é a Dilma, mas o Lula;têm medo que Lula volte a se candidatar.
    P. E, para terminar: como se vive sabendo que é o homem mais desejado do país?
    R. Isso já faz muito tempo.
    P. E continuam dizendo.
    R. Não sei nada sobre isso. Sou tímido, um cidadão sério, um homem de família. Inventam histórias, criam lendas que não têm muito a ver com a realidade. Não sou o sedutor que comentam.
    A entrevista termina e o cantor tenta chamar um táxi para o jornalista através de um aplicativo do celular. Mas não consegue. "Minha neta sabe, mas eu não aprendo", explica. Observa o bonito entardecer e diz: "Eu o acompanho." Coloca shorts, um boné que esconde o rosto e caminha, junto ao jornalista, rua abaixo pelo Rio de Janeiro, falando dos pais, dos livros, das famílias e da música.

    Chico Buarque

    Rio de Janeiro, 1944. Ele é filho do conhecido historiador Sérgio Buarque de Hollanda e da pintora e pianista Maria Amélia Cesário Alvim. Começou a estudar arquitetura, mas abandonou o curso depois de dois anos, quando sua carreira como compositor e intérprete começou a deslanchar. Em 1966, conseguiu seu primeiro grande sucesso com a canção A Banda. Desde então, não parou de compor obras-primas como Apesar de Você, Construção, O Que Será (À Flor da Pele) e Cálice. É considerado um dos grandes nomes da música popular brasileira, ao lado de Tom Jobim e João Gilberto, entre outros. Em paralelo, desenvolveu sua carreira como escritor e dramaturgo. O Irmão Alemão, publicado pela Companhia das Letras, é seu quinto romance.

    EL PAÍS


    sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

    Jobim volta a Ipanema


    Jobim volta a Ipanema

    No vigésimo aniversário de sua morte, Rio de Janeiro imortaliza com uma estátua de bronze “o maior ícone da música popular brasileira”



    Estátua de Jobim, de Christina Motta, na praia do Arpoador. / AGÊNCIA BRASIL
    Vinte anos depois de sua morte, Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim está de novo em Ipanema, a praia que imortalizou com a canção sobre a “coisa mais linda, mais cheia de graça”, um símbolo das mulheres cariocas bronzeadas que seguia com os olhos ao lado de seu parceiro, o poeta Vinicius de Moraes. A Prefeitura do Rio de Janeiro inaugurou há duas semanas uma estátua de argila e bronze em tamanho real que mostra o músico em sua plenitude física, caminhando e levando uma guitarra no ombro direito. Jobim foi colocado no cais ao longo do Arpoador, uma das pontas da praia de Ipanema, lugar favorito de surfistas, pescadores e transeuntes que param para ver o espetáculo diário do pôr do sol por trás da favela do Vidigal.
    A escultora responsável pela obra, Christina Motta, decidiu representar Tom Jobim “no auge do sucesso”, pouco antes do lançamento de Garota de Ipanema, uma das canções mais gravadas da história da música. Escolheu uma foto tirada em 1961. Começava uma década explosiva e tinha 33 anos. Jobim não se arrependia de ter abandonado o curso de arquitetura. Tinha alcançado êxito um lustro antes e iniciava uma colaboração muito frutífera com o saxofonista norte-americano Stan Getz, o que acabaria lhe dando fama mundial. Desfrutava, ainda, de boa qualidade de vida: o músico tinha o costume de pescar num dos rincões mais belos da “cidade maravilhosa”, no mesmo bairro em que tinha sido criado. Seu filho Paulo confirmou, durante a apresentação da estátua, que o lugar escolhido era o preferido de seu pai. A poucos quarteirões fica o bar Veloso (hoje rebatizado Garota de Ipanema), em cuja varanda compôs junto com Vinicius de Moraes os célebres acordes de Garota de Ipanema, tema cantado, entre muitas outras, por figuras do porte de Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Nat King Cole e Sepultura.
    A obra tem uma placa com os versos “Minha alma canta / Vejo o Rio de Janeiro”, de outra de suas canções mais conhecidas, o Samba do Avião. A viúva do compositor, Ana Jobim, disse à agência Efe que o dia da homenagem era "especial e triste", mas demonstrou sua felicidade pelo fato de a música criada por seu marido permanecer por tanto tempo nas recordações dos brasileiros. Jobim escreveu mais de 400 canções em quatro décadas. A lembrança do fundador da “bossa nova” (para a revista Rolling Stone “o maior ícone da música popular brasileira”) não desapareceu de sua cidade natal. Em 1999, cinco anos depois de sua morte, as autoridades deram seu nome ao Aeroporto Internacional do Galeão. A inauguração de sua estátua coincide no tempo com outra notável mostra de apreço popular: os nomes dos novos mascotes olímpicos e paraolímpicos da Rio 2016, escolhidos esta semana por votação popular entre três propostas, serão Tom e Vinicius, em referência aos ídolos da música popular brasileira.
    Mesmo assim, todo cuidado é pouco nesta cidade, em que algumas estátuas (do poeta Carlos Drummond de Andrade e do poeta Zózimo Barrozo do Amaral) foram objeto de vandalismo na última década. Por isso, a prefeitura instalou duas câmeras perto do monumento. Ao inaugurar a estátua, o secretário de Turismo, Antônio Pedro Figueira de Mello, disse: “Há vinte anos perdemos nosso maior maestro. Precisava ser imortalizado no lugar onde passou a maior parte de sua vida. Esperamos que as câmeras não sejam necessárias; o povo saberá cuidar de um de seus ícones e de sua herança”.



    domingo, 20 de julho de 2014

    Morre o escritor João Ubaldo Ribeiro aos 73 anos no Rio de Janeiro


    Morre o escritor João Ubaldo Ribeiro 

    aos 73 anos no Rio de Janeiro

    O membro da Academia Brasileira de Letras sofreu uma embolia pulmonar



    João Ubaldo Ribeiro, em uma imagem de arquivo. / ROGELIO REIS (TYBA)
    Dizem que o baiano nunca tem pressa, mas, para a escritora Nélida Piñón, João Ubaldo Ribeiro foi embora antes do tempo. "Morreu moço, tendo tanto ainda a dar à língua do Brasil", disse ao jornal O Estado de S. Paulo. O escritor se sentiu mal em sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro, e faleceu às 5 da madrugada por uma embolia pulmonar, informa a Academia Brasileira de Letras (ABL). O membro que ocupava a cadeira 34 da ABL há 20 anos é autor de obras como Sargento GetúlioViva o Povo Brasileiro e A Casa dos Budas Ditosos, e também escreveu inúmeras colunas no jornal carioca O Globo e em O Estado de São Paulo, além de contos e ensaios. A ABL decretou três dias de luto por sua morte.
    O romancista, que publicou seu primeiro livro aos 27 anos com ajuda do amigo de faculdade e cineasta Glauber Rocha, foi um colecionador de prêmios nacionais e internacionais. Entre eles estão duas edições do Jabuti (1972 e 1985) e um Camões (2008), um dos mais importantes da língua portuguesa.
    Antes de ser um célebre e um "quase clássico" escritor, já que se negava a admitir que sua maior obra, Viva o Povo Brasileiro, fosse memorável por sua atualidade e difusão, Ribeiro nasceu e cresceu na tranquila ilha de Itaparica, em frente ao litoral de Salvador, na Bahia. Seu pai, segundo relatou em entrevistas à Globo na década de 1980, fez com que sua formação intelectual fosse "muito rigorosa". Felizmente, a rigidez do pai acabou precipitando sua paixão pelos livros e, posteriormente, pela escritura. Em uma entrevista ao Estado de São Paulo, contou: "Eu vivia cercado de dicionários, tamanho o fascínio que tenho pela palavra". E confessou que chegou a criar contos somente para encaixar uma palavra descoberta, algo que afetou o destino de personagens.
    Essa parte de sua biografia, assim como seu livro mais famoso, foram o tema de um samba enredo apresentado na Sapucaí pela escola Império da Tijuca, em 1987. Também ganharam vida outras obras suas, como o Diário do Farol, que teve uma adaptação para o teatro em 2011, e Sargento Getúlio, um longa-metragem estrelado por Lima Duarte em 1983 no cinema.
    Como jornalista, Ribeiro, que também estudou Direito sem nunca exercer a profissão, deixava de lado o principal traço que o identificava como baiano além do sotaque: a tranquilidade. Em seus textos incendiários, distantes de sua literatura harmoniosa de bonitas palavras, foi um férreo contestador do Governo, tanto do PT quanto do PSDB. Foi especialmente duro com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Suas críticas vinham com a propriedade de quem era, além de um intelectual de referência, também mestre em Administração Pública com ênfase em Ciência Política pela Universidade da Califórnia do Sul (USC).
    Sua voz grave e seu bigode talvez impusessem respeito, mas seu sorriso e sua própria modéstia o fez reconhecer publicamente, em várias ocasiões, que não acreditava que tivesse "cara de escritor". Simples e simpático, o intelectual vivia de bermuda e chinelo e, às vezes, usava a camiseta do Vitória, seu time do coração. Assim como Jorge Amado, também baiano, falava em seus textos daquilo que era o cotidiano de ambos, do que viam e conheciam: a alma, a realidade e o caráter do brasileiro, incluindo "todas as suas contrariedades". "Eu escrevo sobre a minha terra, que é aquilo que conheço", costumava falar. Em outra ocasião, chegou a dizer ao Estado que era o "rei da biografia", já que contava histórias de pessoas comuns, daquilo que via e ouvia pela rua ou praia. A repercussão de sua morte fez com que muitos leitores brasileiros compartilhassem nas redes sociais trechos de narrativas marcantes, frases célebres e fotos de seus livros.
    Enquanto muitos escritores dizem que o mais difícil do ofício de escrever é ter a ideia para a história ou a tal da inspiração, Ribeiro garantia que isso, para ele, não era um problema. Durante uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2012, expôs o seu grande dilema: "Eu só preciso de tempo para escrever".



    sábado, 8 de março de 2014

    Carnaval de Rio de Janeiro 2013 / Sambódromo da Marquês de Sapucaí / Fotos de Triunfo Arciniegas




    (entrada en construcción)


    CARNAVAL DE RIO 2013
    SAMBÓDROMO DA MARQUĔS DE SAPUCAÍ
    Noche de campeones
    Rio de Janeiro, 16 y 17 de febrero de 2013
    Fotografías de Triunfo Arciniegas



    Volví de madrugada del Sambódromo da Marquês de Sapucaí, el templo del Carnaval de Rio. Fui con Ana Maria Santerio. Ingresamos con la luz del día el sábado 17 de febrero y salimos con el alba del domingo. Fotografié unas palomas en un tejado, sobre un fondo rosa, para asegurarme que aún seguía en este mundo, tal era la embriaguez de la fiesta, además del cansancio y el sueño, por supuesto. Las palomas se miraban, se tocaban, en un envidiable estado de enamoramiento, y entonces reconocí que ni la contemplación de palomas me servia para el sosiego de tanta excitación. Quise dormir y no lo conseguí, quise leer unas páginas de Rubem Fonseca y tampoco. Entonces me dediqué el día entero a trabajar en las fotografías tomadas en el mismo sambódromo, hasta llegar a estas palomas con cielo rosa.  Dormí a ratos, bebí mucha agua, terminé el día y seguí con el oficio, durmiendo a ratos, haciendo notas, hasta la misma mañana de este lunes todavía febril.

    El Sambódromo da Marquês de Sapucaí, obra del diseñador y arquitecto carioca Oscar Niemeyer, ubicado en el barrio Cidade Nova y a unos minutos de los Arcos de Lapa, fue inaugurado el 2 de marzo de en 1984. Su nombre oficial es "Passarela do Samba Darcy Ribeiro". Con la Praça da Apoteose, donde precisamente termina el recorrido esta monumental pasarela, el Sambódromo es uno de los mayores espacios para los grandes eventos al aire libre de Rio, "cidade maravilhosa". En esta plaza se han presentado los más grandes: The Rolling Stones, Pearl Jam, Radiohead, Roger Waters, Eric Clapton, Nirvana, Robbie Williams, Elton John, Whitney Houston, Carlos Santana, Avril Lavigne, Jonas Brothers. Y durante el carnaval es el punto de reunión de las escuelas al final del desfile.

    Con grandes tribunas a ambos lados de la calle, divididas en sectores según su posición, comodidades y servicios, con diferentes sectores de  y una capacidad para noventa mil espectadores, el Sambódromo empieza a llenarse pronto. Los Palcos Techados, en el primero y segundo nivel, cada uno con doce sillas, son la posición más costosas: mil quinientos dólares por noche. Por persona, por supuesto. ¿Por qué no? Se llenan de celebridades, diplomáticos, estrellas de cine, jugadores de fútbol. ¿Qué son mil quinientos dólares para alguien que gana veinte millones por película? Este año estuvieron por ahí Megan Fox y Will Smith. Las “Frisas”  son los palcos bajos: filas de seis cómodos asientos numerados, entre 500 y 700 dólares por persona. Ofrecen una vista excelente, muy cerca al sudor de las bailarinas, e incluyen una mesa de café. El café brasileño es un manjar de dioses. Del sudor, no sé, pero supongo. Las “Arquibancadas” son las gradas y tribunas donde las entradas numeradas para turistas cuestan alrededor de 500 dólares. Luego también tenemos los sectores sin asientos numerados que tienen precios más accesibles aún y es donde no hay sillas, ya que las personas van y bailan mientras disfrutan del desfile. Ahí estábamos Ana Maria y yo.

    Ya había mucha gente y se habían tomado los lugares de privilegio (que, como pude comprobar, defienden a sangre y fuego) cuando ingresamos al Sambódromo. Hice algunas tomas de prueba con mi Cannon, leí los folletos y bebí agua. A las nueve empezó el "Desfile das campeas" con las seis mejores escuelas del año de gracia de 2013. El carnaval, desligado cada vez más de su origen religioso, ya no termina el martes anterior al Miércoles de Ceniza, puerta de la cuaresma, que era en otra época tiempo de recogimiento y oración, cuarenta días de abstinencia que remataban en la Semana Santa o Semana Mayor, unos días de descanso que ya son para cubrirse de ceniza y rasgarse las vestiduras de arrepentimiento sino para recorrer en bola las playas. Quiero decir, la gente no acude a las cenizas y las vestiduras rasgadas sino a las playas, donde no se lleva ropa para rasgar ni para nada y donde el mundo es agua y arena y no ceniza. En mi niñez, durante los días santos, se hablaba bajo y se prohibían las groserías. Las comidas eran otras y había un día de ayuno, si no recuerdo mal, o nos hacían beber agua y pan en ayunas. De eso hace tanto.

    La parranda sigue viva en Rio de Janeiro en este primer  sábado de cuaresma: seis mejores escuelas de samba de 2013 se aprestaban a desfilar en el sambódromo, señoras y señores. O Salgueiro, tal vez la más prestigiosa y más innovadora en la historia del carnaval, abrió el desfile, y no significa que fuese la mejor de este año, porque vamos de atrás hacia adelante. Es uno de los campeones, el último de los campeones. En otras palabras, O Salgueiro no tuvo su mejor año, pero la gente la recibió con devoción. Tres mil ochocientas "pessoas": no alcancé a contarlas todas. Se engalanan con imágenes del Che, que da para todo en este mundo. La cara de este médico asmático que hizo una revolución con Castro y murió en el intento de otra en Bolivia, y un tipo muy apuesto, se repete hasta el infinito como si Andy Warhol  hubiese venido a trabajar al carnaval. El enredo de Salgueiro trata de la fama y los famosos. Me encantan. Me quedo con esos fotógrafos que bailan y asedian a una celebridad en limousina, esquivando a los unos guardaespaldas de malas pulgas.

    Una hora y media después entra Grande Rio, que tuvo un poco más más suerte pero que apenas alcanzó el quinto lugar. Cada escuela tiene 82 minutos para hacer su recorrido. Antes los desfiles podían terminan en la tarde del día siguiente. Por eso se estableció el límite y su violación es multada por los jurados.

    Ya es medianoche con la tercera escuela, Emperatriz Leopoldinense, pero no sé qué horas son en mi vida. En el portátil sigo con la hora colombiana, pero debo funcionar con el horario brasileño. En realidad, duermo cuando ya no puedo más y como cuando "idem". En animador, con voz grave y emocionada, pregona el cambio del horario de verano, una hora más o una hora menos. Para mí es lo mismo, de toda maneras estoy perdido. Solo entiendo que anochece o amanece.

    Viene la cuarta escuela, y tercer premio, Unidas de Tijuca. El cansancio acosa, me siento y bebo agua. Me levanto para atrapar las piernas y el pluma de rainha de bateria.

    No puedo más: me duermo de pie. Desfila la quinta escuela y son como las tres de la mañana o las cuatro. No, todavía no son las cuatro. El alboroto. Las garotas no paran de bailar. La gente no para de cantar. La  escuela es Belha Flor, la quinta escuela del desfile y segundo premio del carnaval.

    Ya estoy dormido. Me siento para no quedarme dormido de pie y rodar por las escaleras y echar a perder la fiesta. Estoy dormido cuando desfila la sexta escuela, Vila Isabel, ganadora absoluta del Carnaval de Rio 2013. Una señora dice que cómo es posible que me duerma al paso de la escuela más bella, pero así es la vida. La frase y la anécdota me la explican después porque ahora estoy dormido. Me enteraré por el periódico del resto.

    Y acaba  todo. Y vamos saliendo. Y caminamos junto al sámbódromo hasta el punto de acceso de los taxis. Falan en portugués y nada entiendo. Voy a dormir. Solo quiero dormir. El taxi sube por las enredadas calles de Santa Teresa hasta "o castelo". Si te pierdes, pregunta por el castillo. sé que voy hacia una puerta. Sé que un portero tan soñoliento nos da la bienvenida al nuevo día.  Y apenas entro, como un animal sediento, voy al facebook para saber quién se acordó de mí. Ana Maria entra al baño y yo navego en el ciberespacio. Al rato me dice sonriendo, recién bañada, mientras cierra la puerta de su alcoba, que vea el amanecer. Voy al balcón y todo es rosa, todo el ancho mundo está pintado de un rosa alucinante, y unas palomas en luna de miel juguetean en el tejado del edificio de enfrente.

    Rio de Janeiro, 17 de febrero de 2013 


    SAMBÓDROMO DA MARQUĔS DE SAPUCAÍ
    Noche de campeones
    Fotografías de Triunfo Arciniegas















    Academicos do Salgueiro
    Mestre-sala y porta-bandeira