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terça-feira, 1 de outubro de 2019

Vargas Llosa / Volta à barbárie


Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

Volta à barbárie

O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história


31 Ago 2019




Volta à barbárie
FERNANDO VICENTE

O segundo homem forte da Venezuela, Diosdado Cabello, enfurecido porque, devido à vertiginosa inflação que açoita sua pátria, o bolívar desapareceu de circulação e os venezuelanos só compram e vendem em dólares, pediu a seus compatriotas que recorram ao “escambo” para desterrar do país de uma vez por todas a moeda imperialista.
É certeza que os desventurados venezuelanos não lhe farão o menor caso, porque a dolarização do comércio não é um ato gratuito nem uma livre escolha, como acreditava o dirigente chavista, e sim a única maneira pela qual os venezuelanos podem saber o valor real das coisas em um país onde a moeda nacional se desvaloriza a cada instante pela pavorosa inflação —a mais alta do mundo— à qual a Venezuela foi levada por seus irresponsáveis dirigentes, multiplicando o gasto público e imprimindo moeda sem respaldo. A alusão de Cabello ao escambo é uma diáfana indicação desse retorno à barbárie que a Venezuela vive desde que, em um ato de cegueira coletiva, o povo venezuelano levou o comandante Chávez ao poder.
O escambo é a forma mais primitiva do comércio, aqueles intercâmbios que nossos remotos ancestrais realizavam e que alguns pensadores, como Hayek, consideram o primeiro passo dados pelos homens das cavernas em direção à civilização. Certamente, comercializar é muito mais civilizado que matar-se entre si a pauladas, como faziam as tribos até então, mas suspeito que o ato decisivo para a desanimalização do ser humano tenha ocorrido antes do comércio, quando nossos antecessores se reuniam na caverna primitiva, ao redor de uma fogueira, para contar histórias. Essas fantasias atenuavam o espanto em que viviam, temerosos da fera, do relâmpago e dos piores predadores, as outras tribos. As ficções lhes davam a ilusão e o apetite de uma vida melhor que aquela que viviam, e dali nasceu talvez o primeiro impulso para o progresso que, séculos mais tarde, nos levaria às estrelas.
Neste longo trânsito, o comércio desempenhou um papel principal, e boa parte do progresso humano se deve a ele. Mas é um grande erro acreditar que sair da barbárie e chegar à civilização é um processo fatídico e inevitável. A melhor demonstração de que os povos podem, também, retroceder da civilização à barbárie é o que ocorre justamente na Venezuela. É, potencialmente, um dos países mais ricos do mundo, e quando eu era criança milhões de pessoas foram para lá procurar trabalho, fazer negócios e em busca de oportunidades. Era, também, um país que parecia ter deixado para trás as ditaduras militares, a grande peste da América Latina de então. É verdade que a democracia venezuelana era imperfeita (todas são), mas, apesar disso, o país prosperava num ritmo sustentado. A demagogia, o populismo e o socialismo, parentes muito próximos, fizeram-na retroceder a uma forma de barbárie que não tem antecedentes na história da América Latina e talvez do mundo. O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história. E não me refiro só aos mais de quatro milhões de venezuelanos que fugiram do país para não morrer de fome; também aos roubos abundantes com os quais a suposta revolução enriqueceu um punhado de militares e dirigentes chavistas cujas gigantescas fortunas fugiram e se refugiam agora naqueles países capitalistas contra os quais clamam diariamente Maduro, Cabello e companhia.


Venezuela é, em potencial, um dos países mais ricos do mundo, milhões de pessoas iam lá a buscar trabalho

As últimas notícias publicadas na Europa sobre a Venezuela mostram que a barbarização do país adota um ritmo frenético. As organizações de direitos humanos dizem que há 501 presos políticos reconhecidos pelo regime, e, apesar disso, isolados e submetidos a tortura sistemáticas. A repressão cresce com a impopularidade do regime. Os corpos de repressão se multiplicam, e o último a aparecer agora opera nos bairros marginais, antigas cidadelas do chavismo, mas transformados, devido à falta de trabalho e à queda brutal dos níveis de vida, em seus piores inimigos. As surras e assassinatos a rodo são incontáveis e querem sobretudo, mediante o terror, fortalecer o regime. Na verdade, conseguem aumentar o descontentamento e o ódio contra o Governo. Mas não importa. O modelo da Venezuela é Cuba: um país sonâmbulo e petrificado, resignado à sua sorte, que oferece praias e sol aos turistas, e que ficou fora da história.
Infelizmente, não só a Venezuela retorna à barbárie. A Argentina pode imitá-la se os argentinos repetirem a loucura furiosa destas eleições primárias, em que repudiaram Macri e deram 15 pontos de vantagem à dupla Fernández/Kirchner. A explicação deste desvario? A crise econômica que o Governo de Macri não conseguiu resolver e que duplicou a inflação que assolava a Argentina durante o mandato anterior. O que falhou? Penso que o chamado ”gradualismo”, o empenho da equipe de Macri em não exigir mais sacrifícios de um povo extenuado pelos desmandos dos Kirchner. Mas não deu certo; mais do que isso, agora os sofridos argentinos responsabilizam o atual Governo —provavelmente o mais competente e honrado que o país teve em muito tempo— das consequências do populismo frenético que arruinou o único país latino-americano que tinha conseguido deixar para trás o subdesenvolvimento e que, graças a Perón e ao peronismo, retornou a ele com perseverante entusiasmo.
A barbárie se assenhora também da Nicarágua, onde o comandante Ortega e sua esposa, depois de terem massacrado uma corajosa oposição popular, voltou a reprimir e assassinar opositores graças a umas forças armadas “sandinistas” que já se tornaram idênticas àquelas que permitiram a Somoza roubar e dizimar esse desafortunado país. Evo Morales, na Bolívia, dispõe-se a ser reeleito pela quarta vez como presidente da República. Fez uma consulta para ver se o povo boliviano queria que ele fosse novamente candidato; a resposta foi um não taxativo. Mas não lhe importa. Declarou que o direito a ser candidato é democrático e se dispõe a se eternizar no poder graças a eleições manufaturadas à maneira venezuelana.
E o que dizer do México? Escolheu esmagadoramente López Obrador, em eleições legítimas, e no país prosseguem os assassinatos de jornalistas e mulheres a um ritmo aterrador. O populismo começa a carcomer uma economia que, apesar da corrupção do Governo anterior, parecia bem orientada.
É verdade que há países como o Chile que, diferentemente dos já mencionados, progridem a passos de gigante, e outros, como a Colômbia, onde a democracia funciona e parece fazer avanços, apesar de todas as deficiências do chamado “processo de paz”. O Brasil é um caso à parte. A eleição de Bolsonaro foi recebida no mundo inteiro com espanto, por suas saídas de tom demagógicas e suas exortações militaristas. A explicação desse triunfo foi a grande corrupção dos Governos de Lula e Dilma Rousseff, que indignou o povo brasileiro e o levou a votar numa tendência contrária, não uma claudicação democrática. Certamente, seria terrível para a América Latina que também o gigante brasileiro começasse o retorno à barbárie. Mas não ocorreu ainda, e muito dependerá do que o mundo inteiro, e sobretudo a América Latina democrática, faça para impedi-lo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

Vargas Llosa / O longo caminho rumo à liberdade


Fernando Vicente

Mario Vargas Llosa

O longo caminho rumo à liberdade

Em algum dia, não longínquo, se escreverá um grande romance tolstoiano sobre a heroica luta do povo venezuelano contra a ditadura de Chávez e Maduro. E o final será, claro, um final feliz



4 FEV 2019 - 11:28 COT

Algum dia se escreverá um grande livro sobre a heroica luta do povo venezuelano contra a ditadura de Chávez e Maduro, que recorde os sofrimentos que padeceu durante todos estes anos sem deixar de resistir, apesar dos torturados e dos assassinados, da catástrofe econômica — provavelmente a mais atroz que a história moderna recorda — que levou um país potencialmente muito rico à fome coletiva e obrigou quase três milhões de cidadãos a fugirem, a pé, em direção aos países vizinhos para não perecerem pela falta de trabalho, de comida, de remédios e de esperança. Menos mal que o martírio da Venezuela parece chegar ao seu fim, graças ao novo ímpeto inoculado na resistência por Juan Guaidó e outros jovens dirigentes.
Parece impossível, não é mesmo?, que uma ditadura rejeitada por todo o mundo democrático, a OEA, a União Europeia, o Grupo de Lima, as Nações Unidas e no mínimo por três quartas partes de sua população possa sobreviver a esta última arremetida da liberdade com a proclamação, pela Assembleia Nacional da Venezuela (o único organismo mais ou menos representativo do país), de Juan Guaidó como presidente encarregado de convocar novas eleições que devolvam a legalidade perdida à nação. E, entretanto, o tirano ainda continua lá.
Por quê? Porque as Forças Armadas ainda o protegem e armaram um escudo protetor ao seu redor. Vimos na televisão aqueles generais e almirantes atulhados de medalhas, enquanto o ministro da Defesa, general Vladimir Padrino, jurava lealdade ao regime espúrio. O que explica esta suposta lealdade não são afinidades ideológicas. É o medo. O recurso do qual Chávez se valeu, e que Maduro manteve com esta cúpula militar para assegurar sua cumplicidade, foi comprá-la, praticamente lhe entregando o negócio do narcotráfico, de tal maneira que um bom número destes oficiais enriqueceu e têm suas fortunas em paraísos fiscais. Mas quase todos eles estão fichados internacionalmente e sabem que, quando o regime cair, irão para a cadeia. As promessas de anistia que Guaidó lhes fez chegar não os tranquilizam, porque suspeitam que não valham fora do território venezuelano, e suas sujas operações estão perseguidas e serão punidas por tribunais internacionais em todos os cantos do planeta.

É indispensável que os países e instituições internacionais multipliquem a pressão contra Maduro

Mas por que então esses jovens oficiais – tenentes, capitães – e soldados golpeados pela atroz crise econômica não se rebelam contra a tirania de Maduro, assim como o resto da população venezuelana? Por uma razão também muito simples. Pela vigilância estrita e implacável exercida sobre as Forças Armadas da Venezuela pelos técnicos e profissionais de Cuba, a quem o comandante Chávez praticamente entregou o controle da segurança militar e civil do regime que implantou. Trata-se de algo sem precedentes; um país renuncia à sua soberania e entrega a outro o controle total de suas Forças Armadas e policiais. E os comunistas, como já foi comprovado a não mais poder, arruínam a economia, destroem as instituições representativas, arregimentam e esmagam a cultura, mas levaram a censura e a repressão de toda forma de insubmissão e rebeldia a uma perfeição quase artística. Não nos esqueçamos de que todas as instituições militares venezuelanas foram submetidas a expurgos sistemáticos, e que há várias centenas de oficiais expulsos ou encarcerados por não serem considerados “seguros” para a ditadura.
Entretanto, a URSS desmoronou como um castelo de cartas, e também seus satélites centro-europeus desmoronaram e hoje em dia são verdadeiros baluartes contra aquele regime que tinha prometido baixar o paraíso à terra, e na verdade criou as piores satrapias que a história conhece. O regime de Maduro se ufana da proteção fornecida a ele por ditaduras como a russa, a chinesa e a turca, e da solidariedade de outras tiranias latino-americanas, como Cuba, Nicarágua e Bolívia. Tremendos companheiros de viagem, para os quais vale o famoso ditado: “Diga-me com quem andas, e te direi quem és”. No caso da Rússia e da China, ambos os países fizeram empréstimos tão extravagantes à ditadura de Maduro — os quais só serviram para agravar a corrupção reinante — que temem, com muitíssima razão, jamais conseguirem cobrá-los. Bem feito para eles: queriam assegurar fontes de matérias primas para si fortalecendo economicamente uma tirania corrupta, e o mais provável é que acabem sendo também parte de suas vítimas.
A fera que vai morrer se defende com unhas e dentes, e não há dúvida de que o regime, agora que se sente encurralado e pressente seu fim, pode causar muita dor e derramar ainda mais sangre inocente. Por isso é indispensável que os países e instituições democráticas internacionais multipliquem a pressão contra o Governo de Maduro, estendendo os reconhecimentos à presidência de Juan Guaidó e à Assembleia Nacional, e obtendo o isolamento e a orfandade do regime a fim de precipitar sua queda antes que cause mais danos do que já causou à desventurada Venezuela.

As tentativas de diálogo foram frustrados porque a ditadura pretendia utilizar a negociação para ganhar tempo

O secretário-geral da OEA, Luis Almagro, disse com clareza: “Não há nada que negociar com Maduro”. Todas as tentativas de diálogo se viram frustradas porque a ditadura pretendia utilizar as negociações só para ganhar tempo, sem fazer a menor concessão, e conspirando sem trégua, graças à ajuda que lhe prestavam pessoas ingênuas ou maquiavélicas, para semear a discórdia entre as forças da oposição. As coisas foram já longe demais, e a primeira prioridade agora é acabar o quanto antes com a ditadura de Maduro, a fim de que sejam convocadas eleições livres e os venezuelanos possam finalmente se dedicar à reconstrução de seu país.
A mobilização do mundo democrático, começando pelos países ocidentais, foi algo sem precedentes. Não me recordo de ter visto nada parecido nos muitos anos que tenho. Ao mesmo tempo em que diversos Governos, começando pelos Estados Unidos e Canadá e os principais países europeus, reconheciam Guaidó como presidente, a União Europeia, a OEA, as Nações Unidas e todos os países democráticos latino-americanos, com exceção do Uruguai e México (algo previsível), rompiam com a ditadura e se mobilizavam a fim de apressar a queda do regime sanguinário de Maduro. Não se deve esquecer, nestes momentos em que finalmente se vê uma luz ao final deste longo caminho, que nada disto teria sido possível sem o sacrifício do povo da Venezuela, que, se em um primeiro momento se rendeu aos cantos de sereia de Chávez, depois reagiu com exemplar coragem e manteve sua resistência por todos estes anos, sem se deixar intimidar pela ferocidade da repressão.
Obrigado a Julio Borges, María Corina Machado, Leopoldo López, Lilian Tintori, Henrique Capriles, Antonio Ledezma, Juan Guaidó e aos milhares e milhares de mulheres e homens que os seguiram por todos estes anos, demonstrando nas ruas, e nos calabouços e no exílio, que a América Latina já não é, como no passado, terra de sátrapas e de ladrões, e que um povo que ama a liberdade não pode ser indefinidamente acorrentado. Algum dia, não longínquo, o rebento de um desses grandes escritores que a Venezuela já deu à língua espanhola escreverá esse grande romance tolstoiano sobre o que ocorreu e está ocorrendo por lá. E o final será, claro, um final feliz.



domingo, 25 de março de 2018

Os obscuros negócios do chavismo com a China



O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez com seu à época homólogo chinês Hu Jintao, no Grande Palácio do Povo em Pequim, em abril de 2009.Ampliar foto
O ex-presidente da Venezuela Hugo Chávez com seu à época homólogo chinês Hu Jintao, no Grande Palácio do Povo em Pequim, em abril de 2009. EFE
Os obscuros negócios do chavismo com a China

Primo de um ex-ministro da Venezuela escondeu em Andorra 163 milhões de reais pagos por empresas asiáticas


JOSÉ MARÍA IRUJO
JOAQUÍN GIL
Madrid 24 MAR 2018 - 13:14 COT

O empresário Diego Salazar teve um contato de ouro no Governo da Venezuela: seu primo Rafael Ramírez, homem forte do Governo de Hugo Chávez que comandou ao mesmo tempo os ministérios da Energia e Petróleo e a presidência da maior empresa estatal, a Petróleos de Venezuela SA (PDVSA). Salazar conseguiu contratos milionários de empresas chinesas que executaram obras públicas no país sul-americano enquanto seu parente ocupava cargos institucionais entre 2002-2014.
O empresário recebeu 49,2 milhões de dólares (163 milhões de reais) em comissões até setembro de 2010 por serviços de consultoria e intermediação para que multinacionais asiáticas captassem contratos públicos de infraestrutura do Executivo da Venezuela, de acordo com documentos aos que o EL PAÍS teve acesso.

O primo do ex-ministro Ramírez depositou seus ganhos na Banca Privada d’Andorra (BPA), onde possuía 11 contas entre 2007 e 2014, de acordo com um relatório confidencial da entidade. Andorra, de 78.000 habitantes, permaneceu blindada pelo sigilo bancário até ano passado.
Documento confidencial da Banca Privada d'Andorra (BPA), datado de 24 de setembro de 2010, que detalha a atividade de uma conta do empresário Diego Salazar aberta em nome da sociedade Highland Assets Corporation.ampliar foto
Documento confidencial da Banca Privada d'Andorra (BPA), datado de 24 de setembro de 2010, que detalha a atividade de uma conta do empresário Diego Salazar aberta em nome da sociedade Highland Assets Corporation. EL PAÍS
As comissões de Salazar eram depositadas na BPA, 10% das obras públicas “assinadas e em fase de desenvolvimento”. E escondeu o depósito dessa porcentagem no banco andorrano por gerir uma infraestrutura no valor de 3 bilhões de dólares (10 bilhões de reais).
Entre os clientes de Salazar estava a empresa de engenharia chinesa Sinohydro Corporation Limited, um gigante com 486 projetos em 72 países. O empresário assinou um contrato para intermediar concorrências de cinco obras públicas com essa empresa.
A Sinohydro Corporation Limited participou em duas fases da usina termoelétrica La Cabrera no Estado venezuelano de Aragua. A infraestrutura, inaugurada em 2014, custou 603 milhões de dólares (2 bilhões de reais).
“O caso chinês é cem por cento Diego Salazar. Ele era um lobista dos chineses e a embaixadora da Venezuela no país asiático o ajudava”, confessa um ex-diretor de alto escalão da PDVSA.
A análise dos movimentos de uma das 11 contas de Salazar no banco andorrano confirma que o primo do ex-ministro Ramírez transferiu 7,3 milhões de dólares (24 milhões de reais) ao executivo da PDVSA Francisco Jiménez Villaroel. E que esse também possuía três contas na instituição financeira que movimentaram nove milhões de dólares (30 milhões de reais).
Salazar enviou o dinheiro a Villaroel mediante uma transferência interna, um sistema que dificulta o rastreio dos fundos.
Para justificar sua atividade e ganhos, Salazar entregou à instituição financeira de Andorra um contrato de “consultoria e intermediação” entre sua empresa panamenha Highland Assets Corporation e a empresa de engenharia Sinohydro Corporation Limited.

10% de comissão

O documento confirma que o empresário recebeu uma comissão de 10% “do valor líquido recebido na negociação direta” da infraestrutura.
A inteligência venezuelana prendeu em dezembro o primo do ex-ministro Ramírez
“Fica estipulado um preço do contrato em 1.038.710.000 dólares para uma usina termoelétrica de 772 megawatts e 315.891.109 dólares para uma nova usina (La Cabrera) de 200 megawatts”, tem em mãos a BPA em um relatório sobre o primo do ex-ministro Ramírez.
Salazar está sendo investigado em Andorra por lavagem de dinheiro. Seu processo judicial atinge também uma dezena de empresários, ex-vice-ministros da Venezuela, como Nervis Villalobos e Javier Alvarado (ambos da Energia) e testas-de-ferro de políticos do Executivo de Hugo Chávez (1999-2013).
A organização recebeu supostamente mais de 2 bilhões de euros (ou 8 bilhões de reais) de comissões ilegais em intermediações para que empresas estrangeiras obtivessem decisões legais da PDVSA, segundo revelou o EL PAÍS.
A investigação judicial associa as ações dessa rede com um acordo entre Venezuela e China a partir do qual o país sul-americano recebeu um empréstimo de 20 bilhões de dólares (cerca de 64 milhões de reais) do gigante asiático em troca de petróleo.
Em sua declaração em 2015 diante da magistrada em Andorra que instrui o caso, Salazar afirmou que o Governo da Venezuela não tinha influência nessas licitações. E acrescentou: “Nunca tive nenhuma relação comercial com Ramírez”. O empresário qualificou seu primo de “pessoa de caráter difícil”.
O Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) prendeu Salazar em dezembro passado em Caracas por seu suposto envolvimento na cobrança de comissões em troca de contratos da PDVSA. E, desde então, o empresário permanece na prisão.
Também em dezembro passado, a Promotoria da Venezuela anunciou uma investigação penal contra Ramírez, que até 2017 foi embaixador do país sul-americano na Organização das Nações Unidas (ONU). As autoridades lhe atribuem supostas irregularidades durante a presidência da petroleira estatal.
Este jornal tentou sem sucesso reunir a versão da PDVSA e da Sinohydro Corporation Limited.
Com 49 anos e “técnico em seguros” por formação, Salazar chegou a administrar mais de 70 milhões de euros (280 milhões de reais) por meio de uma rede societária em Andorra. O empresário declarou em 2011 receitas de mais de cinco milhões de dólares (16 milhões de reais), entre fundos pessoais e sua consultoria Inverdt Asesores e Negócios. E anunciou à BPA sua intenção de adquirir uma empresa de resseguros, uma bolsa de ações na Venezuela e um apartamento em Miami.
As autoridades andorrenses intervieram em março de 2015 na entidade escolhida por Salazar para depositar seus fundos, a BPA, por suposto crime de lavagem de dinheiro. Os donos do banco, que chegou a ter 9.000 clientes e um volume de negócios de 8 bilhões de euros (32 bilhões de reais), negam as acusações.

SALAZAR: “OS CHINESES TINHAM O PODER DE DECISÃO”

“Os chineses tinham o poder de decidir que empresas faziam os projetos. Este era o acordo entre os dois Estados. Era a Comissão Nacional de Obras, Desenvolvimento e Reforma da China, um Ministério, o órgão que decidia com que empresas os projetos seriam feitos.”
Diego Salazar se afastou em fevereiro de 2015 com o argumento de ter cometido crime de tráfico de influências em sua declaração perante a juíza da Andorra Canòlic Mingorance. A magistrada realiza inquérito sobre a suposta lavagem de 2 bilhões de euros em comissões ilegais da Petróleos de Venezuela SA (PDVSA) mediante uma engrenagem de evasão que inclui a Banca Privada d’Andorra (BPA).
Mingorance investiga se a suposta trama cometeu, entre 2006 e 2012, os crimes de suborno, tráfico de influências e corrupção.
Salazar reiterou à juíza que prestou os trabalhos sob sigilo. “Minha holding tinha de sair para procurar empresas, contratos de assessoria e ajuda técnica em engenharia. Os chineses procuram engenheiros para obras e oferecem parte dos trabalhadores, apesar de também haver venezuelanos. Minha empresa faz um acompanhamento da obra desde o início até sua finalização. Também tenho a possibilidade de subcontratar outras empresas devido à importância dos projetos quando não posso prestar o serviço.”
A juíza também perguntou a Salazar se pagou um suborno à Polícia da Venezuela. E lhe apresentou uma transcrição telefônica. “Alguns policiais vieram à empresa para investigar supostas movimentações de dinheiro. Estes, além disso, queriam dinheiro em troca. É uma situação comum na Venezuela. Eu não estava presente. A empresa não pagou, não faria isso nunca. Sempre fui contra dar dinheiro. Não quero que minha imagem fique exposta nesses assuntos. Tenho por norma não pagar até que se cansem.”
Na documentação que ofereceu à BPA para abrir suas contas —chegou a ter 11—, Salazar garantiu manter vínculos comerciais com as empresas China Calvic Engineering Co, China Machinery Engineering Corporation, China Camc Engineering Co e Yutong Hongkong Limited, entre outras, segundo um documento deste banco de Andorra.

EL PAÍS


sábado, 10 de dezembro de 2016

Desmontando Hugo Chávez



Desmontando Hugo Chávez

EL PAÍS acompanha um dia de filmagem de ‘El Comandante’

A série sobre o ex-presidente venezuelano estreará em janeiro






Andrés Parra deixou de comer as unhas aos 39 anos e depois de repassar umas 400 horas de Hugo Chávez em vídeo. De ver e escutar o falecido presidente da Venezuela desde as oito da manhã até as cinco da tarde. De perscrutar centenas de Alô Presidente em busca de detalhes, gestos, até se dar conta de que se juntasse as mãos e as levasse à boca, como se rezasse — um traço característico de Chávez —, veriam a ruína que eram suas unhas: “Para este personagem é preciso de um pouco de obsessão. O complicado era como interpretar um ator que é melhor do que você”.

O ator colombiano, que foi Pablo Escobar em El patrón del mal, é o protagonista da série El Comandante, a produção mais ambiciosa até o momento da Sony para a América Latina, que será lançada no início do próximo ano, em vários países da região. Um projeto concebido há três anos por Moisés Naím, também produtor, com o qual mergulha no mundo da televisão. A partir de janeiro começarão a ser exibidos os 60 capítulos, cada um dos quais durará uma hora. “Não é um documentário nem uma biografia no sentido estrito da palavra. É uma história de ficção baseada na vida de Chávez”, diz Naím.
A série percorre a vida de Chávez desde seu nascimento em Sabaneta, em 1954, até sua morte, há três anos. Esse caminho que percorreu para se tornar um dos presidentes e líderes mais carismáticos da América Latina foi o que mais surpreendeu Parra. “É como ir filmar em San Martín ou Cumaral, no estado de Meta (Colômbia), e ao ver uma criança, filho de um camponês, jogando futebol, pensamos: ‘Poderia se tornar um Chávez’. Como isso aconteceu?”. Uma tarefa difícil para a tela pequena. “Todos os dias Chávez fazia história, tomava uma decisão ou se comportava de uma maneira que merecia ser registrada, por assim dizer”, completa Naím, lembrando que o líder venezuelano “viveu boa parte de sua presidência diante das câmeras, não só através das câmaras”.
O ator Andrés Parra, antes da sessão de maquiagem. CAMILO ROZO
A crise social, econômica e política que vive a Venezuela atravessa a série, embora não esteja implícita. Assim que se conheceram as primeiras imagens, o chavismo começou a criticar o produto, assim como um setor da oposição, que teme que a figura do ex-presidente seja idealizada. Parra não ignorou todo esse burburinho. “Tentei não me contaminar de toda essa energia, mas estou mexendo com uma coisa muito poderosa. Quando saiu a notícia, as pessoas enlouqueceram, para bem e para mal. Comecei a sentir muita angústia. Íamos almoçar e entrava no Instagram ou Twitter... As pessoas tinham uma necessidade de se desafogar. Isso afeta qualquer um”.
Essa preocupação de Parra também alterou os roteiristas, Moisés Naím e Sony, que mediu até o último detalhe para tentar evitar qualquer interpretação errada dos personagens ou da vida de Chávez, uma figura que não deixa ninguém indiferente. “O respeito pelo público é muito grande. Aqueles que são simpatizantes não deixarão de ser e nem aqueles que se opõem. A intenção é contar a história como foi. O que mais temo são as opiniões definitivas de pessoas que não viram a série e opinam sobre ela”, diz o produtor.
O ator colombiano Andrés Parra, caracterizado como Chávez. CAMILO ROZO
A transcendência de Chávez não foi o único obstáculo que enfrentou Andrés Parra, que recebeu a oferta para fazer o papel poucos dias depois de afirmar em uma entrevista que queria interpretar o líder venezuelano. “Pensei que estavam tirando um sarro”, ri ainda quando lembra aquela piada que era real. “Aceitei porque procuro personagens que incomodem, que gerem perguntas e criem um problema para mim. Se não fico entediado”.
Se algo não teve Parra foi tempo para sentir tédio. Durante um ano esteve estudando o personagem. Com as filmagens já iniciadas encontrou um grande obstáculo: a voz de Chávez. “É muito difícil”, admite enquanto se retorce e aponta para a parte de trás da cabeça: “Está enfiada aqui”. Pela primeira vez, teve que recorrer a uma professora de voz, uma companheira com quem tinha estudado teatro, lembra Parra uma manhã fria no início de novembro antes de se submeter à caracterização de Chávez: mais de uma hora de maquiagem. “E ainda não chegamos à época do câncer”, suspira para entrar no cenário.
Na noite antes da filmagem, Naím, que propôs Parra para o papel de Chávez, finalmente viu os dois primeiros capítulos da série acabados. “Fiquei chocado, muito feliz”, comemora e reflete mais uma vez sobre o conteúdo: “Chávez foi um sedutor de multidões, conseguiu uma conexão especial com o povo, foi um dos políticos mais talentosos da América Latina e deixou como resultado o país que vemos. Como alguém pode duvidar do carisma de Chávez e do país que é hoje a Venezuela? Acho que a série reflete isso”.