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segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

A literatura mostrou o mal-estar francês, mas ninguém deu bola

Protesto dos coletes amarelos no Arco do Triunfo, em Paris.



A literatura mostrou o mal-estar francês, mas ninguém deu bola

Obras de Ernaux, Aubenas, Eribon, Louis, Houellebecq e o último prêmio Goncourt, Nicolas Mathieu, captaram os sintomas que levaram à revolta dos ‘coletes amarelos’


Os sinais estavam aí. Bastava ler algumas das obras literárias mais festejadas nos últimos anos na França. Nelas aparecem os sintomas do mal-estar que explodiu com a crise dos coletes amarelos.
O fechamento das fábricas, os salários baixos, as humilhações cotidianas. O isolamento das pequenas cidades afastadas da capital e a dependência em relação ao automóvel para trabalhar: para sobreviver. A educação e a cultura como sinais de identidade das classes sociais. As paisagens desoladas dos shoppings e as impessoais rotatórias nas periferias das cidades. Também a sedução do voto radical. Tudo estava aí, à vista de qualquer um, mas pouquíssimos prestaram atenção.
Há uma literatura dos coletes amarelos, o movimento que surgiu em novembro do ano passado como um protesto pelo preço do combustível e acabou causando a maior crise da presidência de Emmanuel Macron. O exemplo mais recente é o de Michel Houellebecq. Seu novo romance, Serotonina, publicado em janeiro, descreve a desmoralização de um mundo rural que se sente desprestigiado por Paris e Bruxelas. Os camponeses enfurecidos fecham uma estrada e enfrentam a polícia. Houellebecq escreveu o livro antes da crise dos coletes amarelos, mas parece que está descrevendo o desvio violento do movimento.
Por sua estética decadentista e por sua visão reacionária, Houellebecq é uma exceção. A posição poética e política do autor de Serotonina contrasta com a perspectiva de esquerda —e de extrema esquerda em alguns casos— de outros autores que retrataram a chamada França periférica.

A inspiração

Muitos desses autores —do filósofo Didier Eribon, responsável pelo ensaio memorialístico Retour à Reims, a Nicolas Mathieu, recém-premiado com o Goncourt em 2018 pelo brilhante Leurs enfants après eux— citam como inspiração e modelo Annie Ernaux, que em seus breves romances autobiográficos retrata essa outra França: a dos de baixo, a de sua família na Normandia rural e a da anódina periferia parisiense.
Se Macron e seus assessores tivessem lido esses livros com atenção, talvez se dessem conta de que algo aparentemente tão técnico como o preço do diesel e da gasolina é uma questão quase existencial para essa França. Talvez detectassem que poderia ser o detonador de uma revolta.
Quando Anthony, o protagonista de Leurs enfants après eux, afinal consegue um emprego, o narrador observa: “O problema é que o serviço não era na porta ao lado de sua casa, todo o pagamento ia embora em combustível, ou quase”. “Você recebia propostas de empregos exaustivos de meia jornada, físicos, na grande cidade a 40 quilômetros de casa. Pagar a gasolina para ir e voltar todos os dias teria custado 300 euros (1.280 reais) por mês”, lamenta Édouard Louis, discípulo de Eribon, em Qui a tué mon père (2018), um epílogo em forma de panfleto de Acabar com Eddy Bellegueule, a história de sua infância e adolescência em uma família desestruturada no norte da França.
A protagonista de Le quai de Ouistreham, o livro em que a jornalista Florence Aubenas conta suas experiências como faxineira na costa normanda durante a última crise econômica, topa várias vezes com um conselho parecido. “Você precisa de um carro”, diz sua chefe em um emprego como faxineira de uma balsa que cruza o Canal da Mancha. “Também lhe aconselho a formar um grupo para dividir o preço da gasolina, caso contrário perderá o salário em combustível”.

Relato dickensiano

O livro de Aubenas é um relato dickensiano do mundo das empresas de trabalho temporário, no mais baixo do escalão salarial. As peripécias da protagonista se desenvolvem nos campings, zonas industriais e povoados portuários onde trabalha. Além dos supermercados onde passa seus momentos de ócio: não-lugares que são um cenário habitual da literatura do mal-estar francês. Também para Annie Ernaux os supermercados são um dos espaços desse país feio e anódino, afastado do pitoresco dos cartões-postais turísticos. Em Journal du Dehors (1993), em que a autora anota com frieza cirúrgica acontecimentos externos que a cercam, aparecem várias cenas em que as caixas são humilhadas por clientes altivas.
Ainda que a França seja um dos países mais igualitários do mundo, as classes sociais são marcadas. E uma barreira entre elas é a educação, um dos eixos argumentais de Retour à Reims, de Eribon. “Os destinos sociais são marcados! Tudo se joga de antemão!”, escreve. Tomando por base sua própria experiência, afirma que a escola não serve como elevador meritocrático. Ele chegou à universidade, mas nunca atravessou as portas dos santuários da elite educacional como a Escola Normal Superior. “De fato”, escreve, “as classes desfavorecidas acreditam chegar ao local do qual antes estavam excluídas, mas, quando chegam, essas posições perderam o lugar e o valor que tinham em um estado anterior do sistema”.
Em Leurs enfants après eux, de Nicolas Mathieu, os adolescentes —um operário, uma burguesa e um pequeno traficante de drogas árabe— vivem presos no vale siderúrgico em que residem. Somente a burguesa escapa daquela espécie de Macondo pós-industrial onde se projetam os dramas e as ilusões da França do final do século XX. “Essa vida que se tecia quase apesar deles, dia após dia, nesse buraco perdido que todos quiseram abandonar, uma existência parecida à de seus pais, uma maldição lenta”, diz o livro. Não há escapatória e não é difícil imaginar Anthony, o protagonista adolescente em meados dos anos noventa, como um colete amarelo quarentão em 2019.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Michel Houellebecque / A islamofobia não é racismo

Michel Houellebecq
MICHEL HOUELLEBECQ

“A islamofobia não é racismo”


Na semana passada, na primeira entrevista concedida sobre seu novo e polêmico romance, Michel Houellebecq explicava os motivos que o levaram a escrever o livro





    Michel Houellebecq em agosto de 2014, em Madri. / ULY MARTÍN
    Na semana passada, na primeira entrevista concedida sobre seu romance, o escritor Michel Houellebecq explicava os motivos que o levaram a escrever um livro que causou escândalo na França, inclusive antes de ser publicado. O autor de Partículas Elementares(Editora Sulina) voltou a por o dedo na ferida com um livro de ficção que aborda o futuro da França e o papel do Islã.
    Soumission (Submissão, em tradução livre), seu sexto romance, se passa em 2022. A França vive com medo. O país é abalado por misteriosos problemas. A mídia oculta deliberadamente ocorrências corriqueiras de violência urbana. Tudo acontece às escondidas, o público está no escuro... e em poucos meses o líder do partido muçulmano recém-criado será eleito presidente. Na noite de 5 de junho, na segunda eleição geral —a primeira foi anulada devido a uma fraude eleitoral generalizada— Mohammed Ben Abbes vence oportunamente Marine Le Pen com o apoio tanto dos socialistas quanto dos eleitores da direita.
    No dia seguinte, as mulheres abandonam as roupas ocidentais. A maioria começa a usar longas túnicas de algodão por cima das calças; incentivadas pelas subvenções do governo, muitas deixam seus empregos. O desemprego masculino despenca da noite para o dia. Em bairros que antes eram perigosos o crime praticamente desaparece. As universidades tornam-se islâmicas. Os professores não muçulmanos são forçados a antecipar a aposentadoria a não ser que se convertam e se submetam ao novo regime.

    A conclusão mais óbvia é que os jihadistas são maus muçulmanos
    Por que escreveu o livro?
    Por várias razões. Em primeiro lugar, acredito, é meu trabalho, embora não goste da palavra. Percebi grandes mudanças quando voltei a morar na França, embora essas mudanças não sejam especificamente francesas, mas do Ocidente em geral. Acredito que a segunda razão é que meu ateísmo não sobreviveu à quantidade de mortes que tive que enfrentar. De fato, começou a ficar insustentável.
    A morte de seu cachorro, de seus pais?
    Sim, foram muitas coisas em um curto período de tempo. Parte disso pode ter sido que, ao contrário do que pensava, nunca fui completamente ateu. Era um agnóstico. Normalmente essa palavra funciona como uma tela do ateísmo, mas acredito que não no meu caso. Quando, à luz de tudo o que sei, reexamino a questão se existe um criador, uma ordem cósmica, esse tipo de coisa, me dou conta que o certo é que não tenho uma resposta.
    Como classificaria esse livro?
    O termo ficção política não está mal. Não acredito que tenha lido muitos exemplos semelhantes, mas em todo caso li alguns, mais de literatura inglesa do que francesa.
    Que obras seriam essas?
    De certa forma, alguns livros de Conrad. Ou de John Buchan. E depois outros livros mais recentes, não tão bons, que são mais comothrillers. Um thriller pode desenvolver-se em um cenário político, nem sempre tem que estar ligado ao mundo dos negócios. Mas há uma terceira razão pela qual escrevi o livro: porque gostava muito de como começava. Escrevi a primeira parte, até a página 26, praticamente de uma vez. E o achei muito convincente porque para mim é fácil imaginar um estudante ver em Huysmans um amigo e dedicar sua vida a ele. Isso não aconteceu comigo. Li Huysmans muito mais tarde, acredito que quando tinha quase 35 anos, mas definitivamente gostaria de tê-lo lido. Acredito que teria sido um verdadeiro amigo para mim. De forma que, depois de escrever essas 26 páginas, não fiz nada durante um tempo. Isso foi em janeiro de 2013, e devo ter voltado ao texto neste verão. Não ia se chamar Submissão; o primeiro título eraA Conversão. E em meu projeto original o narrador também se convertia, mas ao catolicismo. O que quer dizer que seguiu os passos de Huysmans um século depois, abandonando o naturalismo para se tornar católico. E eu não fui capaz de fazê-lo.
    Por que não? Não funcionava. Em minha opinião, a cena-chave do livro é aquela em que o narrador lança um último olhar para aVirgem Negra de Rocamadour, sente um poder espiritual, como ondas, e de repente ela desaparece em direção ao passado, e ele retorna ao estacionamento, sozinho e basicamente desesperado.
    É um romance satírico? Não. Talvez uma pequena parte do livro satirize os jornalistas políticos, e também um pouco os políticos, para soar verdadeiro. Mas os personagens principais não são satíricos.

    O sensacionalismo da imprensa exerce um papel negativo
    De onde tirou a ideia de uma eleição presidencial, em 2022, que se materializou em Marine Le Pen e no líder do partido muçulmano?
    Bem, Marine Le Pen me parece uma candidata realista para 2022, inclusive para 2017... O partido muçulmano é mais... Aí está o núcleo do assunto, a verdade. Tentei me colocar no lugar do muçulmano e me dei conta que, na realidade, estão em uma situação totalmente esquizofrênica. Porque, no geral, os muçulmanos não se interessam por assuntos sobre economia, seus grandes temas são os que hoje em dia chamamos sociais. Nesses assuntos, evidentemente, se colocam muito distantes da esquerda e inclusive mais longe ainda dos Verdes. Basta pensar no casamento gay para entender o que quero dizer, mas podemos afirmar o mesmo em relação a uma série de questões. E tampouco existem razões para que votem na direita, e muito menos na extrema-direita, que os rejeita inteiramente. Por isso, se um muçulmano quer votar, o que teria que fazer? A verdade é que está em uma situação impossível. Não tem representação nenhuma. Seria um erro dizer que sua religião não tem nenhuma consequência política: tem sim. O catolicismo também tem, com certeza, ainda que os católicos tenham sido mais ou menos marginalizados. Por essas razões, me parece que um partido muçulmano faz muito sentido.
    Mas imaginar que um partido como este possa estar em situação de ganhar uma eleição presidencial dentro de sete anos...
    Concordo. Não é muito realista. Por dois motivos, na realidade. Primeiramente, e isso é o mais difícil de imaginar, os muçulmanos teriam que conseguir manter boas relações entre eles próprios. Para isso seria necessário alguém extremamente inteligente e com um talento político extraordinário, qualidades que dou a meu personagem Ben Abbes. Mas um talento exímio, por definição, é um fenômeno raro. E ainda supondo que esse personagem existisse, o partido poderia decolar, mas levaria mais de sete anos. Se observarmos o que fez a Irmandade Muçulmana, vemos redes regionais, obras de caridade, centros culturais, centros de oração, centros de férias, serviços de saúde, algo que se assemelha ao que foi feito pelo Partido Comunista. Eu diria que em um país onde a pobreza vai continuar aumentando, esse partido poderia atrair pessoas muito mais além do muçulmano “médio”, se posso chamá-lo assim, posto que na realidade já não existe um muçulmano “médio” desde pessoas sem essa origem começaram a se converter ao islamismo... Mas um processo como esse levaria várias décadas. A verdade é que o sensacionalismo da imprensa exerce um papel negativo. Por exemplo, a mídia ficou encantada com a história do cara que vivia em um vilarejo da Normandia, que era tão francês como seus vizinhos, que sequer vinha de uma família problemática, e que se converteu e foi lutar a jihad na Síria. Mas é razoável pensar que para cada sujeito como aquele há várias dezenas de sujeitos que não fazem nada remotamente semelhante. Afinal, ninguém se junta à jihad por diversão. Esse tipo de coisa só interessa a quem se sente muito motivado a exercer a violência, coisa que significa que, necessariamente, é só uma minoria.
    Também poderíamos dizer que o que realmente interessa a eles é ir para a Síria, mais do que se converter.

    Renuncio a toda responsabilidade, exceto quando opino de literatura
    Não concordo. Acredito que existe uma verdadeira necessidade de um Deus e que a volta da religião não é um slogan, mas sim uma realidade e claramente está em ascensão.
    Essa hipótese é fundamental para o livro, mas sabemos que muitos estudiosos estão há anos contestando-a, demonstrando que, na realidade, o que estamos assistindo é uma progressiva secularização do islamismo, e que a violência e o radicalismo deveriam ser entendidos como os estertores do islamismo. Esse é o argumento defendido por Oliver Roy e por outras pessoas que trabalham com esse assunto há mais de 20 anos.
    Isso não é o que tenho observado, apesar de na América do Norte e na América do Sul o islamismo ter se beneficiado menos que os evangélicos. Esse não é um fenômeno francês, é quase global. Não sei muito sobre o caso da Ásia, mas o da África é interessante porque ali estão duas grandes forças religiosas em ascensão: o cristianismo evangélico e o islamismo. Em muitos sentidos, continuo sendo um comtiano e não acredito que uma sociedade possa sobreviver sem religião.
    Mas por que o decidiu contar essas coisas de uma maneira tão dramaticamente exagerada, inclusive reconhecendo que a ideia de um presidente muçulmano em 2022 é pouco realista? Esse deve ser meu lado de mercado de massas, meu ladothriller.
    Não chamaria de seu lado Éric Zemmour?
    Não sei, não li o livro dele. O que diz exatamente?
    Ele e muitos outros escritores mais se sobrepõem, apesar de suas diferenças, descrevendo uma França contemporânea que me parece essencialmente fantasiosa, na qual a ameaça do islamismo paira sobre a sociedade francesa e é um de seus elementos principais. Na trama de seu romance, me parece, o senhor aceita isso como uma premissa e promove a mesma descrição da França contemporânea que encontramos no trabalho desses intelectuais de hoje.
    Não sei, só conheço o título do livro de Zemmour [Le Suicide Français, ou “O suicídio francês”, em tradução livre], e este não é de maneira alguma o modo como eu vejo as coisas. Não acredito que estejamos assistindo a um suicídio francês. Creio que o que estamos vendo é praticamente o contrário. É a Europa quem está cometendo um suicídio e, estando no meio da Europa, a França está tentando sobreviver desesperadamente. Este é quase o único país que luta para sobreviver, o único país cuja demografia lhe permite sobreviver. O suicídio é uma questão demográfica, é a melhor e mais eficiente maneira de se suicidar. Por isso é que a França não está se suicidando, em absoluto. E mais: o fato de as pessoas estarem se convertendo é um sinal de esperança, não uma ameaça. Dito isso, não creio que as pessoas se convertam por motivos sociais. Os motivos de sua conversão são mais profundos, mesmo que meu livro me contradiga ligeiramente, sendo o caso de Huysmans um exemplo clássico de um homem que se converte por razões que são puramente estéticas. Na realidade, os assuntos que preocupam Pascal deixam Huysmans frio. Ele nunca os menciona. Até tenho dificuldade de imaginar um esteta assim. Para ele, a beleza era a prova. A beleza de uma rima, de um quadro, de uma música provava a existência de Deus.
    Isso nos faz voltar à questão do suicício, já que Baudelaire disse, sobre Huysmans, que a única escolha que tinha a seu alcance era entre o suicídio e a conversão...
    Não. Quem fez esse comentário foi Barbey d’Aurevilly, e fazia um certo sentido, especialmente depois de ler À Rebours (“Às Avessas”, em tradução livre). Eu reli o livro cuidadosamente e, no fim, ele realmente é cristão. É espantoso.
    Para voltar ao assunto de seus exageros pouco realistas, em seu livro o senhor descreve, de uma maneira muito turva e vaga, vários acontecimentos mundiais. Mas o leitor nunca consegue saber exatamente quais são. Isso nos leva ao reino da fantasia, não? À política do medo.
    Sim, talvez. Sim, o livro tem um lado temível. Utilizo as táticas do medo.
    Como a tática de imaginar o cenário do islamismo se apoderando do país?
    Na realidade não está claro do que deveríamos ter medo, se dos nativistas ou dos muçulmanos. Isso eu deixo sem resolver.
    O senhor já se perguntou qual poderia ser o efeito de um romance baseado nessa hipótese? Nenhum. Nenhum efeito em absoluto.
    O senhor não acredita que o livro poderá contribuir para reforçar a imagem da França que acabou de descrever, na qual o islamismo paira sobre nossas cabeças como a espada de Dâmocles, como a coisa mais aterrorizante de todas?

    A volta da religião não é um slogan e está em ascensão
    Em todo caso, a imprensa não fala de outra coisa, não poderia falar mais sobre isso. Seria impossível falar disso mais do que já se fala, de maneira que meu livro não terá nenhum efeito.
    O senhor não tem vontade de escrever sobre algum outro assunto para não ter se unir à manada?
    Não. Parte do meu trabalho é falar daquilo de que todo o mundo fala, objetivamente. Pertenço a minha própria época.
    O senhor comenta, em seu romance, que os intelectuais franceses tendem a evitar sentir responsabilidades. Mas já se perguntou sobre sua própria responsabilidade como escritor?
    Mas eu não sou um intelectual. Eu não tomo partido, não defendo nenhum regime. Renunciou a qualquer responsabilidade, reclamo a irresponsabilidade total, exceto quando opino sobre literatura em meus livros. Aí me comprometo como crítico literário. Mas são os ensaios que mudam o mundo.
    E os romances não?
    Claro que não. Apesar de suspeitar que esse livro de Zemmour é realmente longo demais. Acho que O Capital, de Marx, é longo demais. Na realidade, o que foi lido e mudou o mundo foi O Manifesto Comunista. Rousseau mudou o mundo, às vezes sabia como ir diretamente ao ponto. É simples: se você quer mudar o mundo, tem que dizer: ‘Assim é o mundo e eis aqui o que é preciso fazer’. Você não pode se perder em considerações novelescas. É ineficaz.
    Mas não é necessário que eu lhe explique como se pode usar um romance como ferramenta epistemológica. Esse foi o tema de O Mapa e o Território (Record). Nesse livro, sinto que o senhor adotou categorias de descrição e oposições que são mais que duvidosas. O tipo de categorias empregadas pelos editores do [jornal online] Causeur, oupor Alain Finkielkraut, Éric Zemmour e até Renaud Camus. Por exemplo, a “oposição” entre o antirracismo e o secularismo.
    Não podemos negar que existe uma contradição aí.
    Eu não a enxergo. Pelo contrário, as mesmas pessoas muitas vezes são antirracistas militantes e fervorosos defensores do secularismo, com as duas maneiras de pensar misturando suas raízes no Iluminismo.
    Olhe, o Iluministo está morto. Que descanse em paz. Quer um exemplo chamativo? A candidata de esquerda na chapa de Olivier Besancenot, que usava véu, aí o senhor pode ver uma contradição. Mas só os muçulmanos realmente estão em uma situação esquizofrênica. Em relação ao que normalmente chamamos de valores, os muçulmanos têm mais em comum com a extrema direita do que com a esquerda. Há uma oposição mais fundamental entre um muçulmano e um ateu do que entre um muçulmano e um católico. Isso parece óbvio para mim.
    Mas não compreendo a conexão com o racismo…
    Porque ela não existe. Se falarmos objetivamente, ela não existe. Quando me julgaram por racismo e me absolveram, há uma década, o promotor disse, corretamente, que a religião muçulmana não é um atributo racial. Isso se tornou ainda mais evidente hoje em dia. De maneira que estendemos o reino do “racismo” inventando o crime de islamofobia.
    Talvez a palavra tenha sido mal escolhia, mas existem formas de estigmatizar grupos ou categorias de pessoas, o que são formas de racismo…
    Não, a islamofobia não é um tipo de racismo. Se há algo que se tornou claro, é isso.
    A islamofobia serve como tela para um tipo de racismo que já não pode ser expressado porque é contra a lei.
    Eu acredito que isso é falso, simplesmente. Não estou de acordo.
    O senhor emprega outra dicotomia duvidosa, a oposição entre o antissemitismo e o racismo, quando na realidade podemos destacar vários momentos da História em que essas duas coisas andaram de mãos dadas.
    Acho que o antissemitismo não tem nada a ver com o racismo. Estou há tempos tentando entender o antissemitismo. Temos um primeiro impulso de ligá-lo ao racismo. Mas de que tipo de racismo estamos falando quando uma pessoa não pode adivinhar se alguém é ou não judeu porque não se pode ver a diferença? O racismo é mais elementar que tudo isso, é uma diferença na cor da pele...

    Os muçulmanos estão
    em uma situação esquizofrênica
    Não, porque o racismo cultural está há muito tempo entre nós.
    Mas agora o senhor está pedindo que as palavras signifiquem coisas que não significam. O racismo é simplesmente quando você não gosta de alguém porque ele pertence a outra raça, porque não tem a mesma cor de pele que você, ou os mesmos traços etc.. Você não pode esticar a palavra para dar a ela um significado mais elevado.
    Mas dado que, do ponto de vista biológico, as “raças” não existem, o racismo é, necessariamente, cultural.
    Mas o racismo existe por toda parte, aparentemente. É evidente que existe desde o momento em que as raças começaram a se misturar pela primeira vez... Seja honesto, Silvain! Você sabe muito bem que um racista é alguém que não gosta de outra pessoa porque ela tem a pele negra ou cara de árabe. Isso é racismo.
    Ou porque os valores ou a cultura daquela pessoa são...
    Não. Esse é um problema diferente. Lamento.
    Porque alguém é polígamo, por exemplo.
    Ah, bom, uma pessoa pode se escandalizar com a poligamia sem que ela seja nem um pouco racista. Esse deve ser o caso de muita gente que não é racista de jeito nenhum. Mas voltemos ao antissemitismo, porque nos desviamos do assunto. Vendo que ninguém nunca pode adivinhar se alguém é judeu só por sua aparência ou por seu modo de vida, já que quando o antissemitismo realmente se desenvolveu muitos poucos judeus tinham uma forma de vida judia, o que poderia significar o antissemitismo? Não é um tipo de racismo. A única coisa a se fazer é ler os textos para se dar conta de que o antissemitismo nada mais é do que uma teoria da conspiração: há pessoas ocultas que são responsáveis por toda a infelicidade do mundo, que estão conspirando contra nós, há um invasor entre nós. Se o mundo vai mal, é por culpa dos judeus, dos bancos judeus... É uma teoria da conspiração.
    Mas em Soumission, não existe também uma teoria da conspiração? A ideia de que está ocorrendo uma “grande substituição”, que os muçulmanos estão tomando conta do poder?
    Não conheço muito bem esta teoria da “grande substituição”, mas presumo que tenha a ver com a raça. Sendo que em meu livro a imigração não é mencionada. Não é esse o tema.
    Não é necessariamente racial, pode ser religiosa. Neste caso, seu livro descreve uma substituição da religião católica pelo islã.
    Não. Meu livro descreve a destruição da filosofia herdada do Iluminismo, que já não faz sentido para ninguém, ou o faz para muito poucas pessoas. Com o catolicismo, em contrapartida, as coisas não vão mal. Eu diria que uma aliança entre católicos e muçulmanos é possível. Já vimos isso acontecer no passado, poderia voltar a acontecer.
    O senhor, que se converteu em agnóstico, pode observar isso com alegria e ver como se destrói a filosofia do Iluminismo?
    Sim. Isso tinha que acontecer em algum momento, e bem poderia ser agora. Nesse sentido, também sou comtiano. Estamos na chamada etapa metafísica, que começou na Idade Média e cujo sentido geral era destruir a fase precedente. Essa fase, por si só, não pode produzir nada, apenas o vazio e a infelicidade. De modo que sim, sou hostil à filosofia do Iluminismo. Preciso deixar isso muito claro.
    Por que o senhor optou por ambientar seu romance no mundo acadêmico? Porque encarna o Iluminismo?
    Acho que não sei. A verdade é que eu queria que o livro tivesse uma trama secundária longa que versasse sobre Huysmans, e foi então que me ocorreu a ideia de fazer meu personagem ser um acadêmico.
    O senhor sabia desde o início que escreveria esse romance na primeira pessoa?
    Sim, porque era um jogo com Huysmans. Foi assim desde o início.
    De novo, o senhor criou um personagem que é em parte um autorretrato – não inteiramente, mas... há a morte de seus pais, por exemplo.
    Sim, utilizei elementos, embora os detalhes sejam bastante diferentes. Meus personagens principais nunca são autorretratos, mas sempre são projeções. Por exemplo, e se eu tivesse lido Huysmans na juventude, se tivesse estudado literatura e me tornado professor? Imagino vidas que não vivi.
    Permitindo, ao mesmo tempo, que acontecimentos reais se insiram em suas vidas de ficção.
    Utilizo momentos que me afetaram na vida real, sim. Mas, cada vez mais, tendo a transpô-los. Neste livro, a única coisa da realidade que resta é o elemento teórico (a morte do pai), mas todos os detalhes são diferentes. Meu pai era muito diferente desse sujeito, sua morte não se deu dessa maneira, de modo algum. A vida só me dá as ideias básicas.
    Ao escrever esse livro, o senhor teve a sensação de ser uma Cassandra, um profeta da catástrofe?
    Este livro não pode realmente ser descrito como uma previsão pessimista. Afinal, as coisas não ficam tão mal na realidade.
    Não ficam tão mal para os homens, mas para as mulheres...
    Sim, esse é um problema totalmente diferente. Mas minha opinião é que o projeto de reconstruir o império romano não é tão estúpido, se você reorienta a Europa ao sul a coisa começa a fazer certo sentido, mesmo que neste momento não faça. Politicamente, poderíamos até nos alegrar com essa mudança. Na realidade, não é catástrofe nenhuma.
    Mesmo assim, o livro é extraordinariamente triste.
    Sim, tem uma forte tristeza subjacente. Em minha opinião, a ambiguidade culmina na última frase: “Não haveria nada pelo que ficar em luto”. Na realidade, poderíamos sair do livro sentindo exatamente o contrário. O personagem tem duas coisas pelas quais ficar em luto: Myriam e a Madona Negra. Mas ele não lamenta sua perda. O que faz o livro ser triste é uma espécie de clima de resignação.
    Como o senhor situaria este romance em relação a seus outros livros?
    Poderia dizer que fiz coisas que estava querendo fazer havia muito tempo, coisas que nunca antes fiz. Como ter um personagem muito importante que ninguém nunca vê, que é Ben Abbes. Penso também que é o final mais triste de uma história de amor que eu jamais escrevi, porque é o mais banal: olhos que não veem, coração que não sente. Eles tinham sentimentos. De modo geral, há uma sensação de entropia muito mais forte que em meus outros livros. Há um lado sombrio, crepuscular, que explica a tristeza do tom. Por exemplo, se o catolicismo não funciona, é porque já deu o que tinha que dar, porque parece pertencer ao passado, porque derrotou a si mesmo. O islã é uma imagem do futuro. Por que se esgotou a ideia da Nação? Por que foi abusada por tempo demais.
    Não há aqui nenhum rastro de romantismo, muito menos de lirismo. Passamos para a decadência.
    É verdade. O fato de partir de Huysmans deve ter algo a ver com isso. Huysmans não podia voltar ao romantismo, mas para ele ainda era possível converter-se ao catolicismo. O ponto de conexão mais claro com meus outros livros é a ideia de que a religião, seja do tipo que for, é necessária. Essa ideia está presente em muitos de meus livros. Neste, também, só que agora é uma religião existente.
    Qual é o lugar do humor neste livro?
    Há personagens cômicos aqui e ali. Eu diria que na realidade é o mesmo de sempre, com o mesmo número de personagens ridículos.
    Ainda não falamos muito de mulheres. Mais uma vez, o senhor atrairá críticas por esse aspecto.
    É evidente que este livro não vai agradar às feministas. Mas não posso fazer nada quanto a isso.
    Entretanto, o senhor se surpreendeu pelo fato de as pessoas descreverem Extensão do Domínio da Luta como um texto misógino. Este livro não vai ajudá-lo nesse sentido.
    Continuo a considerar que não sou misógino, na realidade. Eu diria que, em todo caso, isso não é o que importa. O que talvez caia mal para as pessoas é que demonstro como o feminismo é condenado pela demografia. De modo que a ideia subjacente, que, essa sim, pode realmente incomodar as pessoas, é que a ideologia não tem muita importância, comparada à demografia.
    Este livro não pretende ser uma provocação?
    Acelero a história, sim, mas não, não posso dizer que o livro seja uma provocação, sempre que isso signifique dizer coisas que considero fundamentalmente incertas apenas para deixar as pessoas nervosas. Condenso uma evolução que, na minha opinião, é realista.
    Enquanto o senhor escrevia ou relia o livro, antecipava algumas das reações à sua publicação?
    Continuo sem conseguir prever estas coisas, não completamente.
    Algumas pessoas podem surpreender-se pelo fato de o senhor ter escolhido seguir este rumo, quando seu último livro foi recebido como um triunfo tão grande que calou seus críticos.
    A resposta verdadeira é que, francamente, eu não o escolhi. O livro começou com uma conversão ao catolicismo que devia ter ocorrido, mas não aconteceu.
    Não há um quê de desespero nesse gesto, que o senhor realmente não escolheu? O desespero vem do fato de se dar adeus a uma civilização, por antiga seja. Mas no final o Alcorão mostrou ser muito melhor do que eu pensava, agora que o reli – ou melhor, o li. A conclusão mais óbvia é que os jihadistas são muito maus muçulmanos. Obviamente, como todo texto religioso, há espaço para interpretação, mas uma leitura honesta chegará à conclusão de que, de modo geral, não se aprova a guerra santa de agressão e que apenas a oração é válida. Assim, pode-se dizer que mudei de opinião. Por isso não sinto que esteja escrevendo a partir do medo. Sinto, na realidade, que podemos ir nos preparando. As feministas não poderão fazê-lo, se formos inteiramente francos. Mas eu e muitas outras pessoas poderemos, sim.
    A palavra feministas poderia ser substituída pela palavramulheres, não?
    Não, não se pode substituir a palavra feministas por mulheres. Não mesmo. Eu deixo claro que as mulheres também podem ser convertidas.
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    terça-feira, 13 de janeiro de 2015

    Houellebecq contra a França do islã



    ATAQUE TERRORISTA EM PARIS

    Houellebecq contra a França do islã

    Escritor volta a semear a polêmica com seu novo romance, ‘Submissão’, em que um muçulmano chega à presidência da França



    Muçulmanos rezando em uma rua de Marselha em abril de 2011. / J.P. P. (REUTERS)
    No mesmo dia do ataque à revista francesa 'Charlie Hebdo', chegou às lojas da França o novo livro de  Michel Houellebecq. Dias antes da publicação e do atentado, o escritor já podia vangloriar-se de ter provocado um escândalo maiúsculo. O motivo é o argumento de seu novo romance, Soumission (Submissão), relato futurista de uma França convertida em regime islâmico após a vitória de um novo partido, a Fraternidade Muçulmana, nas eleições presidenciais de 2022.
    Seu candidato, Mohammed Ben Abbes, venceu Marine Le Pen no segundo turno graças ao apoio das demais forças políticas, decididas a impedir a vitória inevitável da extrema direita. O país retratado por Houellebecq, imagem deformada da França de hoje, dribla “os últimos resíduos de uma social-democracia agonizante” e é povoado por cidadãos desencantados com a política, unicamente “galvanizados por sua adoração a esportistas, estilistas, atores e modelos”, que se limitam a ver “reality shows sobre obesidade” na televisão enquanto ingerem “pratos pré-cozidos confiáveis por sua insipidez”.
    Nessa paisagem, Houellebecq situa um narrador chamado François, professor universitário quarentão e especialista em Huysmans, grande figura do decadentismo do século 19 e autor de Às Avessas (À Rebours, 1884) que se converteu do protestantismo ao catolicismo no fim da vida. No livro, François contempla outro tipo de metamorfose religiosa: a necessidade de converter-se ao islamismo diante das circunstâncias políticas. Em vista das turbulências que se anunciam, o deprimido narrador (e muito claro alter ego do autor) refugia-se na França profunda, onde visita cidades medievais e degusta longos ágapes regados a armagnac. Quando retorna a Paris, dias depois do desenlace eleitoral, encontra um país que já não reconhece.
    A Sorbonne é agora uma universidade islâmica financiada por riquíssimos emires, com as paredes decoradas por versos do Corão e um reitor casado com três esposas, uma delas adolescente. Como François, os professores que não se converteram ao Islã a tempo foram jubilados, mas monarquias petroleiras colocaram pensões astronômicas ao seu dispor. A sharia não foi aplicada, mas o decote e a minissaia foram proscritos. E as mulheres, encorajadas a retirar-se do mercado de trabalho em troca de vultosas ajudas públicas. Os trens oferecem menu halal. Turquia, Argélia e Marrocos tornaram-se membros da União Europeia, no marco da “reconstrução do Império Romano” a que aspira o novo presidente.
    Houellebecq diz não ter escrito o livro com intuito provocador. “Não tomo partido, não defendo nenhum regime. Nego toda responsabilidade”, declarou o escritor à revista literária The Paris Review. “Procedi  uma aceleração da história, mas não posso dizer que seja uma provocação, porque não digo coisas que considere falsas só para deixar alguém nervoso. Condenso uma evolução que, a meu entender, é verossímil”.
    Não é estranho que a polêmica ganhe dimensões de assunto de Estado. Em seu novo livro, Houellebecq contrapõe as raízes da cristandade medieval – o protagonista refugia-se em um povoado chamado Martel, como o homem que deteve os árabes em Poitiers no ano de 732 – e uma invasão muçulmana de traços quase burlescos, temperada com teorias abjetas que ecoam no atual clima político. O livro parece beber da Grande Substituição formulada pelo filósofo Renaud Camus, acusado de incitação ao ódio racial, que aparece no romance como autor (fictício) dos discursos de Marine Le Pen. Segundo Camus, a população europeia acabará sendo substituída por imigrantes que provocarão uma mudança de civilização.
    O romance já gerou tantas opiniões entusiastas como escandalizadas, pronunciadas por uma habitual enxurrada de comentaristas midiáticos, desde o filósofo Alain Finkielkraut – para quem Houellebecq fala de “um futuro que não é certo, mas plausível” – até o apresentador Ali Baddou, que afirmou ter sentido “vontade de vomitar” com a “islamofobia” do livro. O diretor do jornal Libération, Laurent Joffrin, escreveu que o romancista não faz mais que “esquentar o lugar de Marine Le Pen no Café de Flore”, refúgio da intelectualidade parisiense, inserindo teses ultradireitistas sobre a suposta invasão muçulmana no quadrilátero da literatura. E o próprio François Hollande, apresentado na romance como um político acabado, afirmou ontem em uma entrevista que lerá o romance “porque provoca um debate”, mas incitou seus concidadãos a não se deixarem “devorar pelo medo e pela angústia” que o livro reflete.
    Já em 2001, Houellebecq afirmou: “O Islã é a mais burra das religiões”. Há quatro anos, na televisão israelense, acrescentou: “A tendência à colaboração com um poder perigoso, neste caso o fundamentalismo islâmico, é dominante na França”. EmSoumission, descreve um Islã que apresenta como “moderado”, embora na realidade responda a traços reacionários. O filósofo Abdennour Bidar denunciou sua “imagem errônea” do Islã, que retrata como fundamentado na submissão a Deus, mulheres em casa, véu e poligamia”. Houellebecq jura ter revisto suas opiniões passadas. “No fundo, o Corão é melhor do que pensava, depois de o reler… ou melhor, ler. A conclusão é que os jihadistas são maus muçulmanos”, disse nesta semana.


    O livro


    O escritor Michel Houellebecq. / MIGUEL MEDINA (AFP)
    Soumission é o novo romance de Michel Houellebecq (Ilha da Reunião, 1956), ex-especialista em informática do Parlamento francês que saltou para a fama com Extension du Domaine de la Lutte (1994). Esse dândi reacionário, que disse “sentir verdadeiro afeto por Sarkozy”, é conhecido por suas declarações contra o feminismo ou a herança de Maio de 68, ou a favor do turismo sexual. Onipresente na vida cultural de seu país, nos últimos meses publicou uma antologia poética, protagonizou dois filmes, expôs suas fotografias em Paris e produziu uma adaptação para o teatro de seu romance Les Particules Élémentaires (1998).
    Com seu romance anterior, La Carte et le Territoire (2010), obteve o prêmio Goncourt. Acreditava-se que o enfant terrible tinha se retratado, até chegar seu novo livro.