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segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Papa Francisco / “O perigo em tempos de crise é buscar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros”

Papa Francisco

“O perigo em tempos de crise é buscar um salvador que nos devolva a identidade e nos defenda com muros”

Papa Francisco fala sobre Trump: “Não gosto de me antecipar aos acontecimentos. Veremos o que faz”


ANTONIO CAÑO
PABLO ORDAZ
Roma 22 JAN 2017 - 18:30 COT



Na sexta-feira, enquanto Donald Trump tomava posse em Washington, o papa Francisco concedia no Vaticano uma longa entrevista ao EL PAÍS, em que pedia prudência ante os alarmes acionados com a chegada do novo presidente dos Estados Unidos – “é preciso ver o que ele faz; não podemos ser profetas de calamidades” –, embora advertindo que, “em momentos de crise, o discernimento não funciona” e os povos procuram “salvadores” que lhes devolvam a identidade “com muros e arames farpados”.

Durante uma hora e 15 minutos, num aposento simples da Casa de Santa Marta, onde mora, Jorge Mario Bergoglio, que nasceu em Buenos Aires há oito décadas e caminha rumo ao quarto ano de pontificado, afirmou que “na Igreja há santos e pecadores, decentes e corruptos”, mas que se preocupa sobretudo com “uma Igreja anestesiada” pelo mundanismo, distante dos problemas das pessoas.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Evelio Rosero / Prece por um Papa envenenado / Uma evocação literária-vaticana

Evelio Rosero
Bogotá, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas

Evelio Rosero

Prece por um Papa envenenado 

Uma evocação literária-vaticana

Evelio Rosero, autor colombiano, reflete sua admiração pelo papa João Paulo I em ‘Prece por um Papa envenenado’

         

O Papa Luciani, João Paulo I. / GIANNI GIANSANTI (CORBIS)
Era quase uma promessa. Quase Evelio Rosero (Bogotá, 1958) tinha se proposto a não voltar a escrever outro romance histórico quando, há dois anos lançou La Carroza de Bolívar,uma história ambiciosa que se centrou em desmitificar a figura do Libertador. “Senti que era como uma camisa de força ter que depender de dados históricos”, diz. Preferia —prefere— a folha em branco, trabalhar com a imaginação. Mas a casualidade costuma surpreender. Agora, o escritor colombiano resgata a figura de João Paulo I em Prece por um Papa envenenado (na tradução livre), um livro lançado na Espanha ainda sem edição em português.
E foi por casualidade que Rosero se encontrou, em uma livraria de Bogotá, com o primeiro pontífice que nasceu no século XX. Queria ler biografia e se deparou com Em nome de Deus, uma investigação de David A. Yallop publicada em 1984. A história é bastante conhecida: Albino Luciani apareceu morto nas dependências do Vaticano no dia 26 de agosto de 1978, apenas 33 dias após ter sido eleito Papa. Mas o trabalho de Yallop cativou o escritor. Trata-se de “uma investigação séria, que reflete com argumentos incontroversos a respeito da morte de Luciani, além de sua vida e pensamento, questiona e denuncia o papel da Igreja católica, a cúria e a máfia italiana, responsáveis pelo envenenamento”.
Esta não é a primeira vez que o tema dos Papas e da Igreja aparecem na obra deste escritor que começou a ter importância internacional quando seu romance Os Exércitos ganhou em 2006 o prêmio Tusquets de Romance e depois se alçou com o Independent Foreing Fiction Prize em 2009 e o ALOA Prize, em 2011. Seu romance Los Almuerzos, que foi publicado na Colômbia em 2001 e na Espanha em 2009 (sem edição em português ainda), narra a história de uma pequena paróquia em Bogotá, e em outro conto longo que se chama Ausentes, o personagem central é Paulo VI e sua visita à capital colombiana em 1968.


Evelio Rosero, autor de 'Prece por um Papa'. / GIANNI GIANSANTI (CORBIS)
“Estudei em colégios religiosos até que me rebelei no ensino médio”, lembra. Talvez por essa rebeldia, o pontificado de Luciani passou sem pena nem glória pela vida de Rosero. Quando anunciaram que havia morrido envenenado, ele tinha 20 anos, estava apaixonado e nem se abalou.
O novo romance de Evelio Rosero mostra Luciani “como a humilde cura da mais humilde paróquia”, visitador de doentes, de prisioneiros, que fugiu —enquanto pôde— de viver em luxuosos apartamentos, que advogava pelos pobres, um sonhador, “um pobre homem acostumado a pequenas coisas e ao silêncio”, que chamava os fiéis de irmãos e não de filhos. “E o imolaram, na mesma noite em que ele varria os traficantes do templo de Jesus”. Uma história que avança no meio de um coro de prostitutas —“são elas as que narram, as que repreendem e debocham do autor”—, onde Luciani enfrenta homens poderosos como o bispo Marcinkus, diretor do Banco do Vaticano.
Há quem tenha visto neste romance de Rosero alguém parecido com o que hoje o mundo conhece como Papa Francisco. E pode ser, mas Rosero adverte que quando terminou da escrever, nem sequer Ratzinger havia renunciado. “O Papa Francisco é muito opaco comparado com Luciani, que propunha realmente mudanças fundamentais na Igreja e que são as que eu menciono no romance, como aceitar o anticoncepcional, o bebê de proveta, pretendia que as mulheres pudessem exercer o sacerdócio, fazer uma Igreja para os pobres, lhes destinar uma parte de sua riqueza. Isso é algo que Francisco mencionaou mas sem fazer ainda nada de verdade”.


Capa do novo livro de Evelio Rosero, 'Prece por um papa envenenado', um elogio à figura histórica de João Paulo I.
Há mais uma coisa em João Paulo I que seduziu Evelio Rosero: “Acho que ele era na realidade um escritor e é uma lástima que tenha sido envenenado porque a meu modo de ver é possível que ainda estivesse escrevendo”. Luciani publicou um livro com cartas imaginadas a escritores, poetas e dramaturgos como Twain, Péguy, Casella, Dickens e Marlowe, que também aparecem no romance do escritor colombiano. Há outro livro,Briznas de catequesis, em que ele dedica um capítulo inteiro ao Papa. “Temo que interromper o romance possa parecer dissonante, mas corro o risco porque me parecia importante que ficasse a lição dada por Luciani”. E uma das razões é a preocupação do Papa italiano com a pedofilia. “Quantos pedófilos foram castigados? Pelo contrário, a Igreja os protegeu, jogou terra em cima do assunto. Luciani era consente disso”.
Mas seu romance está longe de ser um ataque frontal aos erros da Igreja. “Não sou visceral com a Igreja. disse que é possuidora de grandes pensadores que levaram a mensagem de Cristo, mas isso também é contra-atacado pela presença de outros hierarcas que buscaram o enriquecimento”.
Rosero se dedica agora aos seus leitores. Se não escreve, lê, anda de bicicleta, e, embora não tenha muitos amigos,  se encontra com frequência com eles —“Assim estou me preparando para assumir o trabalho de outro livro”—. Quando chegar esse momento voltará aos seus cadernos, porque é ali que imagina, constrói, e escreve, onde realmente é cômodo para ele. “Meu trabalho autêntico é escrever”, diz e assegura que, ao final, o que importa ao leitor é o livro e não o que passa por trás do livro.



sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Vargas Llosa / ‘Chiquitos’ e a música



‘Chiquitos’ e a música

O padre José de Arce e o irmão Antonio de Rivas pisaram pela primeira vez nestas selvas no final de 1691. Em vez de armas, traziam instrumentos musicais



Os primeiros jesuítas que chegaram a este longínquo recanto do leste boliviano viram que as moradias dos indígenas tinham portas tão pequenas que batizaram toda a comarca com o nome de Chiquitos (“pequeninos”).
O padre José de Arce e o irmão Antonio de Rivas pisaram pela primeira vez nestas selvas no final de 1691. Em vez de armas, traziam instrumentos musicais; suas experiências no Peru e no Paraguai haviam lhes ensinado que a linguagem das flautas, dos violinos e das cítaras facilitava a comunicação com os nativos do Novo Mundo. Mas aqueles primeiros missionários nunca puderam imaginar a maneira como os povos chiquitanos se apropriariam daqueles instrumentos e da música que acarretavam da Europa, incorporando-os e adaptando-os à sua própria cultura. Ao extremo de que, quatro séculos depois, pode-se dizer que a Chiquitânia (ou Chiquitania: acentua-se das duas maneiras) é uma das regiões mais melômanas do mundo, onde a música barroca continua tão viva e atual como no século XVIII, matizada e colorida de sabor local por comunidades cuja idiossincrasia concilia, de maneira admirável, o tradicional e o moderno, o artístico e o prático, o espanhol e a língua aborígine.
Isso foi para mim o mais surpreendente neste percurso de poucos dias pela vasta região que separa a cidade de Santa Cruz da fronteira brasileira: descobrir que, aqui, diferentemente de outros lugares da América onde floresciam importantes culturas aborígines, os 76 anos de evangelização – até 1767, quando da expulsão dos jesuítas – haviam deixado uma marca muito profunda, que continuava fecundando de maneira visível aquelas comunidades aos quais os antigos missionários ajudaram a se integrar, a se defender das incursões dos bandeirantes paulistas que vinham caçar escravos e a modernizar e enriquecer, com contribuições ocidentais, os seus costumes, suas crenças, sua arte e, sobretudo, sua música.
A partir de 1972 começou a restauração dos templos de Concepción, San Javier, San Ignacio, Santa Ana, Santiago e San José – são os que visitei, mas entendo que há outros –, com seus preciosos retábulos barrocos, seus galhardos campanários, suas talhas, afrescos e enormes colunas de madeira, seus órgãos e seus intrincados púlpitos. O trabalho realizado pelo arquiteto suíço Hans Roth, que dedicaria trinta anos da sua vida a essa tarefa, e seus colaboradores foi extraordinário. As igrejas, belas, simples e elegantes, não são museus, testemunhos de um passado separado para sempre do presente, e sim provas palpáveis de que, na Chiquitânia, aquela antiga história continua vivificando o presente.