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segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Lula livre, sim, mas sem fraudar a história

Lula da Silva

Lula livre, sim, mas sem fraudar a história

O PT não contribuirá com a criação de um futuro melhor se seu maior líder seguir insistindo em apagar a memória de Belo Monte



ELIANE BRUM
24 OCT 2019 - 10:35 COT



Luiz Inácio Lula da Silva, preso há mais de um ano, deve ser libertado. E isso provavelmente acontecerá, de um modo ou outro. Lula deve ser libertado porque o processo que o colocou na cadeia está povoado por abusos do poder judiciário e despovoado de provas. Como já escrevi neste espaço, a prisão de Lula não mostrou que até os poderosos são presos no Brasil, mas sim que até os poderosos podem ter seus direitos violados no Brasil. O que cada um acha sobre a culpa ou inocência de Lula não importa, o que importa são provas e o cumprimento do rito legal. É isso que nos protege a todos, é isso o que também separa a democracia da ditadura. É fundamental, porém, fazer uma distinção. Como qualquer brasileiro, Lula tem direito à justiça. Mas Lula não tem direito aos seus próprios fatos.
Lula da Silva
Sciammarella

Mais perto da possível libertação, Lula já iniciou sua campanha num país dilacerado por ódios que seu partido também ajudou a produzir. Já anuncia o desejo de viajar pelo Brasil. É uma vontade legítima. Inclusive porque era ele o candidato em primeiro lugar nas pesquisas para a eleição de 2018 e foi impedido pelo judiciário, que decidiu mudar de forma arbitrária os rumos do país. O PT não deve nem pode ser riscado do mapa eleitoral e do debate político do Brasil, como querem alguns grupos. Quem decide se o partido pode representá-los são os eleitores.O problema que se anuncia é a tentativa de recuperar o espaço perdido pelo partido apagando as contradições do PT no poder. E, principalmente, tentando remover – ou pelo menos contornar – a pedra no meio do caminho chamada Belo Monte. Não vai dar para apagar Belo Monte. Esta pedra é grande demais.
Belo Monte não é um erro, mas o que os povos do Xingu chamam, e isso desde o governo Lula, de “um crime contra a humanidade”. É também o que o Ministério Público Federal chama de “etnocídio”. E, mais recentemente, também de “ecocídio” e de “genocídio”. É ainda onde se desenha aquela que pode se tornar a maior tragédia da Amazônia brasileira: a morte da Volta Grande do Xingu, onde vivem os povos Juruna e Arara, além de ribeirinhos, pela administração predatória da água por Belo Monte.
O autoritarismo destrói um país. Por todos os motivos óbvios. E também porque interrompe o debate público, assim como os movimentos em curso. Em cotidiano de exceção, como já vive o Brasil, as diferenças entre os projetos políticos são borradas em nome do objetivo maior, o de impedir a completa destruição da democracia. O processo de aprimoramento das instituições e de melhoria da sociedade é suspenso e toda a energia é consumida no gesto de bloquear a acelerada corrosão dos direitos.
O Brasil é um presente constantemente interrompido para que as elites econômicas e políticas (e às vezes também intelectuais) possam manter – ou recolocar – o passado. Em geral, o fazem aliando-se aos novos atores que nada querem mudar, apenas ter acesso ao restrito grupo dos que detêm os privilégios de classe, de raça e de gênero. Entre os novos atores deste momento estão, por exemplo, as lideranças evangélicas fundamentalistas.
O autoritarismo mata a potência de uma geração, obrigando-a apenas a reagir
A constante interrupção leva à perda de toda a energia de uma geração de brasileiros na criação do futuro. Barra também o protagonismo de grupos historicamente silenciados que tinham passado a disputar o presente, caso dos negros nos últimos anos. É assim que se mata a potência de um país. Obrigando as pessoas a esgotar suas forças no gesto de fazer barreira para perder menos, sem espaço para criar gestos para avançar mais. É o que o Brasil e outros países governados por déspotas eleitos vivem hoje.
Se o PT foi violentamente atingido pelas manobras autoritárias de forças com as quais fez alianças no passado e pode voltar a fazer nas próximas eleições, como setores do MDB, é também evidente que a truculência do bolsonarismo no poder abriu uma possibilidade para, mais uma vez, o partido operar para apagar suas digitais em crimes cometidos durante os 13 anos no poder. Pessoas que estiveram em governos do PT ou os apoiaram ativamente, nos últimos anos tiveram que encarar a dura realidade de um partido que se corrompeu. Mais recentemente, porém, parecem ter retornado ao estado de autoilusão: os abusos cometidos pelo judiciário na prisão de Lula deu um forte motivo para voltar a se sentirem no lado certo da história e promover o esquecimento dos atos arbitrários do PT. Mais uma vez se ouve de parte da esquerda que não é hora de criticar o PT. Nunca foi hora, como sabemos.
É da essência do maniqueísmo apagar as complexidades. Num país polarizado, o maniqueísmo serve aos dois polos. Ou é todo o mal, ou é todo o bem. A adesão à política pela fé, na qual os eleitores se comportam como crentes, mesmo quando ateus, atinge todo o espectro ideológico do Brasil. Da direita a esquerda.
A fragilidade da democracia brasileira é causada, em grande parte, pela impunidade dos crimes dos agentes de Estado na ditadura. Deste apagamento da memória nasceu uma democracia com alma deformada. Um dos principais objetivos dos grupos no poder, em especial o dos generais, é apagar suas digitais das violências cometidas durante o regime militar (1964-1985). Jair Bolsonaro tem se esforçado para torcer os fatos e reformular o passado ao seu gosto, convertendo torturadores em heróis e violências de Estado em atos de heroísmo. Em geral, governos autoritários investem no apagamento da história como primeiro ato, colocando no lugar sua mitologia. Os estados totalitários do século 20 são aulas completas sobre essa falsificação. É por compreender a extensão dessa violência que parcelas da sociedade brasileira têm se mobilizado para impedir a destruição da história da ditadura.
Já deveríamos ter compreendido o gravíssimo equívoco representado por compactuar com apagamentos em nome de oportunismos, ou, se preferirem palavras mais palatáveis, do pragmatismo político, da estratégia eleitoral, de governabilidades ou como queiram chamar. Já deveríamos ter aprendido que omissões e silenciamentos nos levam a lugares ainda mais sombrios. Deveríamos, mas tudo indica que não.
É triste um país em que os homens públicos querem ser “mitos” – e não homens públicos
Nas entrevistas que Lula tem dado para preparar sua possível saída da prisão, ele deixa claro que seguirá apostando no fortalecimento do próprio mito, inflado agora por uma injustiça. Tem dito a aliados que pretende rodar o Brasil e assumir o papel de “fio condutor da pacificação nacional”. A “pacificação”, palavra que também foi usada por Michel Temer (MDB) no início de seu governo, é palavra recorrente na história do Brasil. Como já testemunhamos, ela tem servido para apagar assimetrias, desigualdades raciais e iniquidades. É a proposta de conciliação sem justiça social. Uma das tragédias do Brasil é a obsessão por “mitos” quando o que precisamos tanto é de um homem ou uma mulher imbuído de espírito público suficiente para colocar o país acima de suas ambições pessoais.
Quando Lula deixar a prisão, estará num Brasil diferente. Com a crise climática se agravando em curso acelerado, a Amazônia vem ganhando rapidamente a centralidade que sempre deveria ter ocupado. Sem floresta em pé – e por floresta se compreende não só árvores, mas todas as vidas, porque tudo ali funciona de forma conectada – não há possibilidade de enfrentar o superaquecimento global. Neste contexto, a desastrosa política dos governos do PT para a Amazônia ficarão mais – e não menos evidentes. Esta política é marcada especialmente por grandes “monumentos à insanidade”, como costuma dizer Antonia Melo, a maior liderança popular do Médio Xingu: as hidrelétricas de Belo Monte, no rio Xingu, Santo Antonio e Jirau, no rio Madeira, e Teles Pires, no rio de mesmo nome.
Belo Monte, o símbolo maior desta política que violou sistematicamente os direitos dos povos da floresta, está programada para ser concluída neste ano. As consequências de sua construção apenas começaram. O pior ainda pode estar por vir, caso o Ministério Público Federal não consiga impedir que a Norte Energia S.A, a empresa concessionária, execute uma administração da água que poderá condenar a Volta Grande do Xingu, onde vivem os povos Juruna e Arara, à morte. Outros povos da região atingida por Belo Monte, os Parakanã, Araweté e Assurini, de recente contato, publicaram um documento em 22 de outubro “exigindo a suspensão da liberação da Usina Hidrelétrica de Belo Monte e um pedido formal de desculpas pelos problemas já causados às etnias”.
Como Lula trata Belo Monte, uma obra que nem a ditadura conseguiu construir devido à resistência dos movimentos sociais e dos povos do Xingu, mas o PT sim, porque traiu seus aliados? Em entrevista à BBC Brasil, no final de agosto, Lula declarou: “Tenho orgulho de ter feito Belo Monte”. E, em outro ponto: “Não tente culpar a Dilma pelo que está ocorrendo em Belo Monte hoje. Cada um de nós é responsável pelo período que governou o país”. Em outubro, numa entrevista ao UOL, Lula afirmou aos jornalistas Flávio Costa e Leonardo Sakamoto: “Eu não sei o que vou fazer quando eu sair daqui, mas eu tinha vontade de voltar ao Xingu, a Belo Monte, eu não conheci Belo Monte. Eu fui lá fazer um debate, mostrar que seria um bem para o desenvolvimento. Se você tem, depois de anos, a informação de que a coisa está desandando lá em Altamira, eu disse isso numa entrevista, é preciso ver o que está acontecendo agora. Se estas pessoas estão cumprindo o acordo feito em 2009, se as pessoas estão cumprindo todas as determinações. Então o que proponho para você é que poderia, até para me ajudar, a procurar os ministros que fizeram o acordo na época e pedir a eles irem junto com você para lá para saber o que não está sendo cumprido”.
Sério. Lula disse isso mesmo. Não há menção de que tenha ficado ao menos levemente ruborizado.
Lula pode começar seu programa de estudos sobre Belo Monte lendo as 25 ações movidas pelo Ministério Público Federal
Caso sua saída da prisão ainda demore um pouco, Lula pode organizar um programa de estudos para se aprofundar sobre as violações ocorridas na construção de Belo Monte durante os governos do PT. Pode começar pelo próprio leilão, arquitetado por ele com a ajuda do amigo e ex-ministro da ditadura Delfim Netto. Ganhou o consórcio formado às pressas, para simular uma disputa, com pequenas empreiteiras sem nenhuma experiência em projetos deste porte. Em seguida, as grandes empreiteiras – as que preferiram não disputar (Odebrecht e Camargo Correa) e a que disputou e perdeu (Andrade Gutierrez) – formaram o Consórcio Construtor Belo Monte. As pequenas também migrariam para este consórcio na sequência. É na construção que está os lucros – e também a propina. Esta parte da história está sendo investigada e documentada pela Operação Lava Jato.
Em seguida, Lula pode ler as 25 ações movidas pelo Ministério Público Federal denunciando todas as violações ocorridas para materializar Belo Monte no Xingu, algumas delas durante o seu próprio governo. Pode seguir seu plano de estudos lendo o livro “A expulsão de ribeirinhos em Belo Monte”, organizado e publicado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Em 449 páginas, cientistas e pesquisadores de diferentes áreas documentam as atrocidades cometidas e as consequências que vão desde a ameaça de extinção de espécies à destruição da saúde mental das pessoas que foram expulsas de suas terras, ilhas e casas.
Terminado este livro, o presidente que materializou Belo Monte pode aprofundar seu conhecimento sobre o próprio governo e o de sua sucessora, Dilma Rousseff, estudando o Dossiê produzido pelo Instituto Socioambiental, no qual estão narrados como os povos indígenas foram corrompidos pela Norte Energia SA com uma “espécie de mesada de 30 mil reais em mercadorias”, fazendo com que mesmo indígenas de recente contato passassem a comer salgadinhos e refrigerantes em vez de alimentos da sua roça e peixes do rio. Poderá ler inclusive documentos com timbre do Ministério de Saúde do governo de Dilma Rousseff que dizem o seguinte:
“A partir de setembro de 2010 [último ano do governo Lula], com a construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, os indígenas passaram a receber cestas de alimentos, composta por alimentos não perecíveis e industrializados. Com isso os indígenas deixaram de fazer suas roças, de plantar e produzir seus próprios alimentos. Porém, em setembro de 2012 [primeiro mandato de Dilma Rousseff], tal ‘benefício’ foi cortado, os indígenas ficaram sem o fornecimento de alimentos e já não tinham mais roças para colher o que comer, o que levou ao aumento do número de casos de crianças com Peso Baixo ou Peso Muito Baixo Para a Idade, chegando a 97 casos ou 14,3%”.
Em outro ponto do documento, o aumento dos casos de “doença diarreica aguda” em 2010 é relacionado à atuação da Norte Energia nas aldeias:
“Em 2010 registramos um aumento considerável, já que numa população de 557 crianças menores de 5 anos ocorreram 878 casos, o equivalente a 157% dessa população ou 1.576,3 para cada 1.000 crianças. (…) Mudanças nos hábitos alimentares com a introdução de alimentos industrializados oriundos de recursos financeiros das condicionantes para construção da hidrelétrica de Belo Monte é outro fator contribuinte para o alto índice existente”.
A desnutrição infantil nas aldeias da região, conforme dados do dossiê, aumentou 127% entre 2010 e 2012. Um quarto das crianças estava então desnutrida. No mesmo período, ainda segundo o dossiê, o atendimento de saúde a indígenas cresceu 2.000% (dois mil por cento) nas cidades do raio de impacto de Belo Monte. A situação é tão aterradora que, em 2014 [ano da eleição de Dilma para o segundo mandato], técnicos da Funai recomendaram a aquisição de cestas básicas para enfrentar a vulnerabilidade alimentar das comunidades. Dito de outro modo: cestas básicas para impedir que indígenas, que antes de Belo Monte tinham autonomia alimentar, morressem de fome ou de doenças causadas pelo consumo repentino e indiscriminado de produtos industrializados, assim como pela interrupção do plantio, pesca e coleta de alimentos, causado pelo ingresso dos mesmo produtos.
Os índices de exploração ilegal de madeira dispararam na área de influência da obra. Na Terra Indígena Cachoeira Seca, uma das afetadas pela usina, foram extraídos 200.000 metros cúbicos de madeira só em 2014 [governo de Dilma Rousseff]. Essa quantidade é suficiente para encher mais de 13.000 caminhões madeireiros. Em 2013, a TI Cachoeira Seca foi a mais desmatada do Brasil. 
Uma indígena do povo Araweté disse então ao antropólogo Guilherme Heurich: “As mercadorias são a contrapartida de nossa morte futura”.
Onde estava a Funai naquele momento? Ah, sim. Tinha sido convenientemente enfraquecida na região pelo governo do PT, com fechamento de postos justamente quando era mais necessária.
Na construção de Belo Monte, os governos do PT converteram povos da floresta em pobres urbanos e enviaram a Força Nacional para reprimir greves de trabalhadores
Como Lula está preocupado com a obra que impôs aos povos de Altamira e do Xingu, ele também pode ler os testemunhos dos ribeirinhos constrangidos a assinar com o dedo papéis que não eram capazes de ler, papéis que os condenavam a perder tudo. Quando milhares foram submetidos à “remoção compulsória”, não havia nenhuma assistência jurídica disponível para a população atingida, parte dela analfabeta.
Lula pode ainda refletir sobre como os governos do Partido dos Trabalhadores colocaram a Força Nacional para reprimir as greves dos... trabalhadores. Neste caso, os operários da usina e também as manifestações dos atingidos. Quem sabe Lula siga adiante e investigue como foi possível que a Agência Brasileira de Investigação (Abin) tenha infiltrado, em 2013, um espião no movimento social Xingu Vivo Para Sempre. E, se tiver fôlego, pode rememorar a acidentada evolução das licenças de Belo Monte no Ibama durante os governos do PT, com algumas demissões escandalosas de presidentes que se negaram a assinar permissões inaceitáveis.
A obra é vasta. É impossível se aprofundar na destruição promovida pela “grande obra do PAC” sem acompanhar a explosão da violência urbana provocada por Belo Monte, que transformou Altamira na cidade mais violenta da Amazônia. Assim como a conexão desta violência com o segundo massacre carcerário da história do Brasil, ocorrido em julho deste ano, em que 58 pessoas foram decapitadas ou queimadas vivas, e outras quatro foram executadas no percurso da transferência. É essencial conhecer os efeitos de uma rotina de balas e de mortes sobre as crianças dos “Reassentamentos Urbanos Coletivos”, os bairros construídos pela Norte Energia para empilhar os expulsos por Belo Monte. Há mais, muito mais. Dá para ocupar anos de prisão com horrores.
E então, talvez, Lula possa compreender a frase dita por Dom Erwin Kräutler, bispo emérito do Xingu, em 2012: “Lula e Dilma passarão para a história como predadores da Amazônia”.
A exploração predatória da Amazônia não é ruptura, é continuidade
O Brasil recente pode ser contado por rupturas. Mas pode ser contado também por pelo menos uma continuidade: a exploração predatória da Amazônia como política de Estado. Esta era a política dos governos da ditadura militar. E seguiu sendo a política dos governos da democracia, apesar dos direitos dos povos indígenas garantidos pela Constituição de 1988. Há semelhanças entre a política para a Amazônia desenvolvida pela ditadura e a política para a Amazônia implementada pelos governos do PT – de Lula, acelerada a partir da saída de Marina Silva do governo, a Dilma.
Com Bolsonaro, a exploração predatória atingiu níveis incomparáveis. Em velocidade inédita, ela é executada pela estratégia de desproteção da floresta e pela recusa à obrigação constitucional de demarcar as terras indígenas. O bolsonarismo tenta desfazer inclusive o que foi feito de positivo pelos governos anteriores. O resultado já pode ser visto antes mesmo do final do primeiro ano de governo, com a explosão do desmatamento e dos incêndios que assombraram o mundo.
Sobre a Amazônia, parece não haver polarização. Estão todos afinados. Dilma inaugurou Belo Monte explodindo de orgulho pouco antes do impeachment, Bolsonaro prometeu abrilhantar a cerimônia em que será ligada a última turbina, os militares de antes e os de agora invocam a fake news da ameaça à soberania nacional para seguir explorando a floresta e, apenas algumas semanas atrás, Lula declarou-se orgulhoso do que os moradores do Xingu chamam de Belo Monstro.
A Lava Jato tem muitos significados. Sempre critiquei seus flagrantes abusos, assim como o comportamento inaceitável do então juiz Sergio Moro. Ele e o procurador Deltan Dallagnol são os maiores inimigos da Lava Jato. Por conta de sua falta de limites e da sua vaidade continental, comprometeram também o trabalho dos procuradores sérios da Lava Jato, que desnudaram como funcionava o esquema de corrupção entre partidos e empreiteiras no país e botaram na cadeia milionários que até então tinham a impunidade como direito de classe. Entre os trabalhos sérios em curso está o desvendamento do esquema de corrupção que garantiu a construção de Belo Monte contra todas as violências visíveis a olho nu. Esta violação do Estado de direito é definida por Thais Santi, procuradora federal em Altamira, de “o mundo do tudo é possível”.
Lula ironiza quem pede a ele e ao PT autocrítica. Acha que não deve nenhuma explicação a quem o colocou no poder pelo voto acreditando no discurso da ética feito pelo partido desde a sua formação. Devemos entender então que o projeto que se mostrou em toda a sua imensa destruição em Belo Monte segue sendo a proposta do partido para a Amazônia. Se Lula almeja se alçar a “pacificador” do Brasil, deve ter uma frase em mente: “Se a paz não for para todos, não será para ninguém”.
Não haverá paz na Amazônia sem justiça. Não permitiremos o apagamento da memória. Não esqueceremos. E não deixaremos esquecer.
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Brasil, Construtor de Ruínas, Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, meus desacontecimentos, e do romance Uma Duas. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Eliane Brum e Xico Sá, colunistas do EL PAÍS, ganham o Prêmio Comunique-se

Eliane Brum


Eliane Brum e Xico Sá, colunistas do EL PAÍS, ganham o Prêmio Comunique-se

Eliane Brum foi premiada na categoria Colunistas- Opinião e Xico Sá, em Cultura


EL PAÍS
11 SET 2018 - 21:12 COT

Eliane Brum e Xico Sá, colunistas do EL PAÍS, venceram na noite desta terça-feira o prêmio Comunique-se 2018, nas categorias Colunista- Opinião e Cultura, respectivamente. O prêmio contemplou 28 jornalistas em 13 categorias diferentes, com indicações dos próprios profissionais da imprensa, e os vencedores foram escolhidos por meio de uma votação online
"Não há nenhuma narrativa que possa substituir a reportagem como documento sobre a história em movimento. E o que se espera de nós é que sejamos capazes de resistir e fazer reportagem no momento em que, por todas as razões, é mais difícil fazer reportagem", escreveu Brum em discurso lido pela diretora de redação do EL PAÍS BRASIL, Carla Jiménez. A colunista não pôde comparecer ao evento porque estava na Cúpula do Clima, em São Francisco, nos Estados Unidos.
Xico Sá, que venceu na categoria Cultura, afirmou em discurso que Jotabê Medeiros, que concorria com ele ao troféu, também merecia o prêmio pela biografia escrita sobre Belchior. "O jornalismo é importante porque a gente luta contra a barbárie, o fascismo. Isso vale a palavra, a existência, a cultura jornalismo", disse o colunista na premiação.
Neste ano, os anúncios dos contemplados como "gurus do jornalismo" foram feitos por Felipe Andreoli, Heródoto Barbeiro, Ivan Moré, Márcio Gomes, Maria Beltrão, Rafa Brites e Samantha Schmütz. Acompanhe a transmissão do evento.


domingo, 31 de dezembro de 2017

Eliane Brum / As mulheres que dizem não

As mulheres que dizem não

Nem tudo foi retrocesso em 2017: há algo importante que se move e não é para trás


ELIANE BRUM
25 DEZ 2017 - 07:02 COT


Ele estava lá, o homem perplexo. Ele tinha dito qualquer coisa como “gostosa” para uma jovem mulher. E ela tinha mostrado o dedo, bem na sua cara. Tipo “te liga”. Ele explicava que aquilo não era abuso, era cantada. E a cada vez que explicava parecia encolher de tamanho. Acostumado ao topo da cadeia alimentar por quase toda uma vida, porque ele já era um velho, ele não conseguia compreender porque os lugares haviam mudado. Ele não podia mais fingir que era desejado, ele não podia mais dizer o que queria, e por fim ele desabafou que não era capaz de viver num mundo em que uma mulher não gostasse de ser chamada na rua de gostosa por um homem como ele. De repente, ele tinha ficado muito mais velho. E perguntava: mas por quê? E tenho certeza de que ele não estava blefando. Ele não sabia. Porque por tempo demais não precisou saber. E agora precisa. Naquele exato momento, aquele homem perdeu o último pinto que ainda ficava duro. E não tinha a menor ideia sobre como alcançar potência sendo o que não sabia como ser.
De tantas cenas fortes deste ano, a minha foi essa pequena, quase despercebida. Um desacontecimento que desvela um acontecimento feito onda.
Há uma brutalidade objetiva no que vivemos, no Brasil e em boa parte do mundo, que se acentuou ainda mais em 2017, neste período da história que talvez possa ficar conhecido como a paródia que ele também é, a da boçalidade do mal. E como já sabemos, em fases assim os anos não terminam nem começam, apenas se emendam, e a boçalidade do mal acordará em 2018 tão boçal quando dormiu em 2017. Possivelmente sem sequer saber de si, porque é constitutivo dos boçais ter certeza sobre tudo, inclusive sobre aquilo que menos conhecem, que é sobre si mesmos. Quem sabe de si tem dúvidas enormes, acorda sobressaltado à noite duvidando do seu próprio rosto. Os boçais jamais as têm, pensam que a máscara que colaram é sua única face e repetem muito a palavra “verdade”.
Não é preciso fazer aqui a retrospectiva de nossos horrores. Nós os conhecemos, eles se imiscuíram como parasitas íntimos, aproveitando-se das fissuras que eles mesmos abriam na nossa pele e foram nos sugando a alegria. Mas há uma outra tessitura, uma que se costura numa camada abaixo dos acontecimentos, e que nos aponta onde está a vida e a possibilidade. Há algo que se move – e não é para trás.
Não é possível ejacular nas mulheres em nenhum meio de transporte
As mulheres riscaram o chão. Com as unhas. Não é um de repente, é um processo. Mas algo emergiu com força, também por conta da facilidade de mobilização das redes sociais que, se destroem – e destroem –, também rompem. E fazem irromper. E quando escutamos o que nós mesmas dizemos, quando nos escutamos, é chocante que tenha sido preciso dizer.
Não, não é possível ejacular em nós nos ônibus, nos metrôs e nos aviões. Está vetado ejacular em nós em qualquer meio de transporte. Não, não é possível passar a mão na nossa bunda nas ruas ou nos corredores das firmas. Nem dar tapinhas. Não, não é possível dizer que a mulher é a parte chata da buceta ou fazer qualquer outra piada machista em festas ou em qualquer lugar. Não, não é possível mostrar o pinto quando passamos nem nos olhar de cima abaixo como se quisesse nos lamber. Não, não é possível nos chamar de gostosa ou emitir qualquer comentário sexual no espaço público. Não, não é possível dizer que “é das novinhas que eles gostam mais” nem que “panela velha é que faz comida boa”. Não é possível. Acabou.
Um não é um não. Não é um sim disfarçado, não é não mesmo. E um homem terá que ser mais sensível, se esforçar mais, para entender quando há consentimento para olhares e para aproximações e para sexo. Um homem, se ainda não sabe, porque muitos já sabem, terá que aprender a escutar melhor. Não é tão difícil assim, desde que se compreenda algo muito simples: um não é um limite inultrapassável.
E isso vale para os estranhos, isso vale para os amigos, isso vale para os solteiros, para os casados, para os que escolheram o poliamor. Isso vale.
Isso vale para a direita e vale para a esquerda. Isso vale.
Com consentimento, pode experimentar todas as fantasias, até a de não ter consentimento. Sem consentimento, não pode nada. Mas. Há um mas. Se em qualquer momento a mulher mudar de ideia e quiser parar, o consentimento vira um não. E um não é um não.
O homem podia ser abusado pelo patrão ou abusado pelo branco, mas havia uma mulher que ele abusava depois
Não pode bater em mulheres. Não pode assediar e abusar de mulheres. Não pode violentar mulheres.
Não pode matar mulheres.
Entendo que, para um homem que sempre pôde tudo, porque em qualquer classe social e em qualquer raça os homens sempre puderam mais, parece difícil. O homem podia ser abusado pelo patrão ou abusado pelo branco, mas havia uma mulher que ele abusava depois. Em alguma instância da sua vida ele tinha esta outra a quem poderia impor sua vontade, subjugar. Assujeitar. Arrebentar. Um dia matar.
Está terminando o autoconsentimento tácito do homem sobre a mulher, produzido pelo silêncio, pelo preconceito, pelo domínio ainda masculino das instituições. Produzido como direito de nascença, que vinha junto com o pinto. Produzido pelo discurso do “ela provocou”, “ela estava pedindo”, “ela usava saia curta”, “ela tinha aquele decote”, “ela andava na rua tarde da noite”, “ela no fundo queria”. De nossos desejos só nós sabemos. Mas eventualmente podemos contar. E estamos contando. Basta escutar.
Para quem sempre monopolizou o poder, é difícil dividir o poder: para alguns é o privilégio de falar sozinho que está em risco
Quem pensa que está cada vez mais difícil ser homem, com mulheres que dizem não, tem razão. Deve ser bem difícil dividir o poder para quem sempre monopolizou o poder. E para alguns é o poder de falar sozinho que está em risco. Para alguns dos mais envernizados pela educação formal e pelos livros, o que dói mais é a perda do privilégio de ser a única voz na sala, na mesa do bar, nas livrarias. No palco.
E há algo que dói ainda um pouquinho mais, que é a perda do privilégio de se achar tão bacana, tão moderno, tão cosmopolita, até um pouco feminino. E então chega uma mulher – uma mulher! – e diz: seu rosto, este que você vê no espelho, não é o mesmo que eu vejo. E, olha, você não é tão importante assim, você não está aí rompendo paradigmas com seu discurso, seus posts name-dropping não nos impressionam. Quem está quebrando paradigmas são estas mulheres juntas, andando de mãos dadas pelas ruas.
Aí os envernizados, sentindo-se atacados em seus privilégios de homens e de brancos e de esquerda, adaptam o discurso dos toscos, daqueles que têm menos repertório para atacar. As mulheres então não são mais “as loucas”, “as histéricas”, aquelas “em TPM permanente”. Dizer isso seria se expor em demasia. A ideia de que enxerguem sua brutalidade os horroriza, é preciso exercê-la com palavras melhores e com referências, muitas referências, para encobrir a violência do discurso. Os “esquerdomachos”, uma das palavras mais interessantes que se consolidou em 2017, são sofisticados demais para dizer isso. O que eles dizem então, empacotando suas teorias em esperma e citações?
A mulher que conquistou espaços de poder e de fala, apesar de todo o machismo vigente, quando aponta privilégios de gênero e de raça “não entende os conceitos”, “nomeia erroneamente os fenômenos”, “é incapaz de debater”, “estava indo bem, mas perdeu-se”, “em vez de pensamento têm compaixão”, sua ignorância os constrange.
Uma mulher envelhecer virou não só sinônimo de perda de beleza e de potência num mundo masculino, mas também “velha” virou palavrão
Os esquerdomachos arrancam frases do contexto, o que é uma forma de violência no debate público. Deslocam imagens também do contexto. Para ilustrar seus posts, buscam fotos em que a mulher parece raivosa, talvez porque estivesse falando sobre genocídios quando a fotografia foi tirada e jogada na internet. O carimbo machista do momento é justamente mostrar como as mulheres se tornaram “agressivas”, “raivosas”, “violentas”. E nada mais instantâneo que a imagem para “provar” esse “fato”. Vale tudo para exercer a misoginia sem parecer exercer a misoginia. O desonesto fala de honestidade, o sem ética fala de ética.
E então, sentindo cheiro de sangue, os lambaris acreditam que são tubarões, autorizam-se e acusam: “Sua velha!”. Porque uma mulher envelhecer virou não só sinônimo de perda de beleza e de potência num mundo masculino, mas também “velha”, uma palavra tão rica de sentidos e de experiências, passou a ser usada como palavrão. Ou outro clássico: “Espero que você morra de câncer, sem nem mesmo paracetamol para aliviar a dor!”. E, para não deixar dúvidas, passam a perseguir a mãe, a filha, as mulheres que aquela a ser destruída ama.
O truque já é um clichê. As mulheres, que passaram a vida de violência em violência, percebem a obviedade do propósito na primeira linha.
Em 2018 teremos que andar juntas, de mãos dadas, também com os homens capazes de escutar e de dialogar de igual para igual
Os direitos das mulheres sobre o seu corpo seguirão sendo atacados em 2018. Os direitos às suas mentes, também, mas de formas mais capciosas. Em ano eleitoral, e numa eleição nebulosa como a que temos pela frente, o corpo das mulheres é convertido em moeda. Todas as formas de controle sobre nossos corpos, das mais evidentes, como a criminalização do aborto até em casos hoje permitidos pela lei, às mais sutis, como nos converterem em insanas ou em burras ou em raivosas, estará valendo.
Mais do que nunca teremos que andar juntas, de mãos dadas, também com os homens capazes de escutar e de dialogar de igual para igual. E andar juntas é também escutar, porque o “outro” tem o direito de problematizar tanto quanto “eu”. O direito que não tem é o de desqualificar a pessoa, em vez de enfrentar o seu argumento com argumentos. A premissa de qualquer diálogo é o respeito pelo interlocutor, mesmo que se divirja de suas ideias. Que venham mais livros com cada vez mais vozes e mais diferenças. E que os textos que buscam silenciar argumentos que perturbam sejam apenas esquecidos.
Nos Estados Unidos o ano começou com a marcha das mulheres contra Trump e termina com o barulho dos corpos dos abusadores caindo de seus postos em Hollywood. Mesmo que um homem seja um superpoderoso de uma das indústrias mais lucrativas, já não pode mais assediar, abusar, estuprar. No Brasil, alguns passos começam a ser ensaiados nesse sentido. Se as brasileiras romperem o silêncio sobre o que acontece nos bastidores de grandes empresas e também de redações da mídia, em universidades e coxias, algo por aqui vai se mover um pouco mais.
O homem branco e heterossexual que ainda não compreendeu que terá que dividir poder e perder privilégios já começa a pagar um preço alto
Pelo menos dois fatos possivelmente inéditos marcaram 2017: a Globo, maior rede de comunicação do país, afastou um de seus principais galãs de novelas por assédio sexual e rescindiu o contrato com um de seus jornalistasmais conhecidos por um comentário racista que se tornou público. São dois fatos de um Brasil que se move – e não é para trás.
Essa é a tessitura, de camada mais profunda, feita pelos feminismos – e também pelos movimentos negros e pelos movimentos LGBTQ. Essa segue, persiste, se complexifica, avança. Há muito para conquistar, uma enormidade. Ainda vivemos a boçalidade do mal da direita à esquerda. Mas o homem branco e heterossexual que ainda não compreendeu que terá que dividir poder e perder privilégios já começa a ser enfrentado. E o custo começa a aumentar.
De certo modo, este ano, que não começou em janeiro de 2017 nem acabará em 31 de dezembro, se iniciou com um retrato. O retrato de grande poder simbólico do primeiro ministério de Michel Temer: branco e masculino. E com a mulher relegada ao papel de primeira-dama “bela, recatada e do lar”, enquanto parlamentares, empresários e jornalistas, especialmente jornalistas, produziam textos e comentários embasbacados com a beleza e a juventude de “dona Marcela” e com a potência de Temer, construindo a paródia de um folhetim de Nelson Rodrigues com efeitos na narrativa política. Há todo um imaginário dos sentidos deste casal presidencial e de seus papéis, que produziu impactos na crônica de Brasília, e que ainda precisa ser desvelado para a melhor compreensão desse momento histórico.
Talvez, no campo das simbologias, seja interessante observar que 2017 termina com o marido de dona Marcela governando o país com uma sonda na uretra.
(Que venha 2018! Eu volto a esta coluna em 12 de fevereiro. )
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes - o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos, e do romance Uma Duas



domingo, 16 de julho de 2017

Eliane Brum / A não vítima


A não vítima

Um golpe na Internet reflete tanto o crime da sociedade contra as mulheres que envelhecem quanto a natureza complexa do amor



ELIANE BRUM
9 JUN 2014 - 08:18 CDT


Primeiro, o golpe.
Um homem se apresenta no Facebook dela, psicanalista e escritora. Ele mora nos Estados Unidos, mas é irlandês com mãe brasileira. É viúvo, tem dois filhos, um adotado, já adulto, de 25 anos, e uma adolescente de 13. Trabalha com geologia e faz negócios com petróleo. Tem 60 anos, sente-se sozinho, faz seis anos que se tornou viúvo e busca um amor para dividir a vida. Por inspiração da mãe, começou a buscar perfis de brasileiras no Facebook. Chegou até ela, explica, pelo sorriso da foto. Eles conversam em inglês. O inglês dele é melhor do que o dela, ele a corrige com carinho, a ensina. O inglês dela melhora a cada dia. Tornam-se presentes um para o outro, apesar da distância. Pelo Facebook e, cada vez mais, pelo viber. Ele acompanha o dia dela, ela acompanha o dele. Ele quer saber o que tem para o jantar, como foi o dia de trabalho, como ela dormiu, qual é a crocância do pão no café da manhã, o que a deixa triste ou feliz, do que ela tem medo. Ela, viúva também, com mais de 60 anos, filhos adultos com suas próprias famílias, descobre que se sentia só antes dele. Que, apesar de gostar do seu trabalho, de conviver com vários bons amigos, de ter uma vida rica de sentidos, faltava algo da ordem do essencial. Antes dele, ela tinha aceitado com demasiada facilidade que o amor e o sexo estavam encerrados para ela. Antes dele, tinha sido obediente demais ao sujeitar-se ao padrão social que impõe o envelhecimento da mulher como o fim do desejo – ou como a impossibilidade de despertar paixão. Percebe que lhe faz falta compartilhar o que chama de “o comum da vida”. E agora, a cada noite, ela diz: “Me acolhe nos seus braços”. E ele a acolhe. Ela dorme entre braços imaginários, mas tão reais. E a cada manhã, ele divide com ela o pão com manteiga, o croissant, a geleia de pêssego. Divide também as dúvidas, os sonhos dele de se aposentar em breve para viver outro tipo de vida, o passeio ao zoológico que ele faz com a filha, as demandas da bela casa em que ele vive e que ela já conhece por fotos. Conversas comezinhas, conversas tão importantes. Em determinado momento, ele faz um comentário picante. Gostaria de vê-la preparando o jantar de calcinha. Ela dá uma resposta seca. Ele recua, nunca mais faz nenhuma alusão. É um homem sensível, às vezes é possessivo, ela gosta. É como se ele a conhecesse por dentro, como se a tivesse conhecido desde sempre, porque a compreende. Mas não é um galã. As fotos que ele envia para ela, muitas, são fotos de gente comum, nem tão bem enquadradas, nem tão bem focadas, sempre posadas, como são as fotos de gente comum. Ele é um homem da sua idade, sem barriga tanquinho, sem músculos jovens, com as marcas do tempo, os cabelos brancos, entradas que anunciam a calvície. Como ela, que é bela, mas carrega todas as suas marcas. Ela surpreende-se consigo mesma. Não imaginava apaixonar-se por alguém tão “real” assim. Alguém que envelhece como um homem comum, sem nenhuma excepcionalidade, exceto a de estar presente, de compreendê-la tão bem, de querer estar com ela. E ele quer. Pergunta se ela estaria disposta a mudar-se para os Estados Unidos para tentar uma vida com ele, se seria capaz de ajudá-lo a terminar de criar a filha adolescente. Como ele poderia adivinhar que ela sempre quisera uma filha, mãe de meninos que era? Ela busca algo físico nele, encontra as mãos. Acha as mãos dele lindas, fortes. Mãos de homem. Quer as mãos dele sobre o corpo dela. Agora é mais sério. Ele virá ao Brasil só para vê-la, para descobrirem se o romance virtual realiza-se no concreto dos dias, se a pele responde ao toque, se é possível sonhar com uma vida juntos sem a mediação da tecnologia. Ela conversa com a filha dele pelo telefone. A menina diz: “Eu amo você porque você ama o meu pai”. Ela vai para Paris visitar um dos próprios filhos, e ele já conversa com a sua nora pelo celular. O filho dela está preocupado, questiona, duvida, aponta as incongruências da história. Ela não quer escutar. Cobre os buracos do roteiro com seu desejo de continuar vivendo um romance. Pesquisa hotéis no Brasil, peregrina com as amigas por lojas de lingerie. Ela sabe que a pele já não tem a elasticidade da juventude, que os músculos são flácidos, mas sente-se linda. Abre o provador mal coberta por rendas, sem pudor – onde foi parar o pudor? Pergunta: “Como eu estou?”. Ela sabe como está. Linda. Emagrece quase 10 quilos, já não sai na rua de qualquer jeito, sente-se desejada quando passa. As pessoas já não acreditam que ela esteja na fila certa quando se posta junto aos idosos no banco. Ela está ansiosa. Muito. Antes de vir ao Brasil, porém, ele fará uma viagem rápida à Nigéria, junto com o filho. Vão tratar de negócios de petróleo. Em seguida, virá vê-la. Ela prepara-se para a chegada dele. Imagina várias vezes por dia o momento em que ele emergirá da sala de desembarque do aeroporto. Se ele vai dar um sorriso quando a enxergar. Se arrancará sua calcinha, acertará o fecho do sutiã. Imagina o sexo. Não lembra quando foi tão feliz, tão inteira. No dia da viagem para a Nigéria, ele manda fotos dele de terno, roupas de viagem, uma pasta elegante de trabalho. Envia fotos de vários momentos, ela o acompanha quase em tempo real.
De repente, ele passa horas em silêncio. Ela preocupa-se, pede notícias. Quando ele finalmente responde, está arrasado. Foram assaltados no país africano. Os ladrões levaram cartões de crédito, dinheiro, documentos, tudo. O filho reagiu e está em coma num hospital. Ao final da mensagem, ele pergunta se ela poderia lhe emprestar dinheiro. Só 775 dólares para pagar o hospital e o transporte até o aeroporto. Ela então desconfia. Por que ele não procura a embaixada americana, por que não conversa com seus parceiros de negócios? Ela começa a achar a história mirabolante demais. Ele já tem o nome e uma conta de alguém que o ajuda, explica como ela pode fazer uma remessa de dinheiro do Brasil. Ela percebe que o tom dele mudou. Titubeia. Ele a pressiona, ela não gosta. Quanto mais ele pressiona, mais ela recua. A filha dele manda uma mensagem pedindo notícias do pai, preocupada com a falta de informações. Ela fica ainda mais desconfiada. Não dará o dinheiro, mesmo que isso signifique perdê-lo. O romance acaba. Ao voltar aos Estados Unidos, ele ainda diz para ela. Sua primeira crueldade explícita: “Você não respondeu para a minha filha. Você não tem condições de ser mãe”. Logo depois, o perfil dele desaparece do Facebook.
Ela faz o que poderia ter feito muito antes. Se quisesse. Se realmente quisesse. Pesquisa as fraudes do gênero na Internet. Descobre os blogs e sites brasileiros e internacionais sobre as quadrilhas que atuam no golpe cada vez mais comum. Vê supostas fotos dos criminosos. Vários homens amontoados num cubículo com seus lap tops no colo conversando com mulheres como ela. Mulheres como ela significando mulheres mais velhas e sozinhas, mulheres carentes e por isso mais frágeis, mais dispostas a acreditar no inacreditável. Mulheres já desacostumadas a serem desejadas. Enviando a elas fotos de outros homens, que possivelmente não saibam que são usados para seduzir. Imagens capturadas nas redes sociais, podem ser de qualquer um. Um golpe bem planejado, a vítima em potencial é contatada só depois de uma pesquisa na Internet. Inclusive de suas condições para manter um romance em inglês, o que no Brasil é um indício de pertencer pelo menos à classe média e, portanto, ter algum dinheiro guardado ou acesso à crédito. Para cada uma delas um perfil de homem, em imagens e história de vida, uma proposta que já sabem esperada por aquela mulher tão meticulosamente analisada. Para cada mulher uma abordagem, uma forma de se comportar, um rosto e uma personalidade correspondentes às fantasias dela, um enredo adequado àquela que expõe – pode ser mais ou menos, mas expõe – um pouco de si a cada dia nas redes sociais.
Ao seu redor, amigos e familiares não acreditam como ela, uma mulher tão inteligente, tão vivida, tão bem sucedida, tão conectada ao mundo, pode ter caído num golpe. Um golpe assim era para outras, não para alguém com seu perfil. Ela lê depoimentos de mulheres como ela que foram muito além dela, mulheres que perderam milhares de dólares que haviam economizado ou mulheres que se endividaram para manter o roteiro amoroso vivo. Lê entrevistas com supostos criminosos que contam como o esquema funciona. Naquela noite vê fotos dos quadrilheiros, que assume como reais – podem não ser, como as do amante não eram, mas ela acredita que sejam. Se antes acreditou no romance, agora acredita na fraude. Fica mal. Bem mal.
É a sua noite de vítima. “Eu os identifiquei com ratos. Parecia que ratos andavam sobre o meu corpo. Eu expus tanto a minha intimidade, e era para aqueles homens das fotos na Internet ou outros como eles. Um ao lado do outro, sentados no chão, falando com mulheres como eu. Me expus não com fotos da minha nudez, porque não faria isso, mas de forma muito mais profunda do que isso. Passei a noite encolhida, com os ratos sobre o meu corpo.”
É o segundo capítulo da vítima. A enorme vergonha de ter caído numa história como essa, que agora para todos aparece claramente como uma fraude desde sempre. E o discurso que corre por baixo, o discurso social. Nem sempre pronunciado, mas presente: “Então você achou que, aos 50, aos 60, um homem iria se apaixonar perdidamente por você?”. Agora é oficial, você não só é uma vítima, mais pobre e mais endividada depois do golpe, mas “uma mulher velha e burra”. E como espernear contra esse encaixotamento imposto às mulheres, depois de ter se entregado a um homem que jamais existiu? Depois de estar se sentindo uma “mulher velha e burra”? De intuir que se sentirá uma “mulher velha e burra” para sempre? É a aniquilação final.
Não necessariamente, porém. Pode ser. Ou não.
Essa é a parte mais interessante. Quando nos encontramos, ela queria denunciar o golpe sem se identificar. O desejo que me anuncia é o de que outras mulheres sejam alertadas para a fraude. É um desejo comum, eu o escutei muitas vezes. Há as vítimas que se calam por vergonha (ou por medo, no caso das que são violadas e espancadas). Essas ficam presas no lugar de vítima, precisam de ajuda para romper com o silêncio de algum modo e sair do lugar que as condena à imobilidade. Ou permanecem para sempre como estátuas aprisionadas num gesto que estanca a vida. Mesmo quando o ato que as vitima cessa, elas continuam vítimas, porque não conseguem dar sentido ao vivido e se inventar de outro jeito. Acreditam que só sabem ser vítimas, que vítima é tudo o que são. Agarram-se a essa identidade como se fosse a própria pele porque, por mais incômoda que seja, estão lidando com o conhecido.
E há aquelas que rompem com o lugar da vítima denunciando, seja à polícia, seja a outras mulheres, à imprensa, ao mundo inteiro. Criam um blog ou uma ONG, algumas passam a perseguidoras de seus algozes, outras ajudam mulheres que passam por experiências semelhantes a sair da paralisia. Essas deslocam sua posição no jogo. De certo modo, continuam identificadas com o vivido, que determina suas escolhas dali em diante, mas pelo avesso e de forma ativa. A pele de vítima já não as veste.
Conversamos por duas horas e meia. Conheço o seu nome e o seu trabalho, mas é nosso primeiro encontro ao vivo. Ao escutá-la, percebo que ela teve o seu momento de vítima, a noite dos ratos. Era necessário que assim se reconhecesse, porque foi efetivamente enganada. Era um fato. E não se nega os fatos. Mas, em seguida, é necessário dar sentido a eles. Sem isso, o lugar de vítima se cristaliza. Em vez de uma mulher complexa, com suas perdas e seus anseios, haverá apenas um arremedo dessa mulher, o da vítima que jamais supera sua condição. Sem criar sentidos que permitam seguir adiante, seria preciso acreditar na versão de quem tentou extorqui-la, a de que é uma “mulher velha e burra” que acredita em qualquer coisa, inclusive que pode ser amada e sexualmente desejada, apesar de não ser jovem nem ter um corpo de passarela.
Aceitar essa versão como a única verdadeira tem roubado algo muito mais importante do que dinheiro das mulheres que caem nessa fraude. Aceitar essa versão é cimentar o olhar social que permite que fraudes como essa aconteçam. É deixar-se enquadrar numa cultura que oprime as mulheres com o mito contemporâneo da eterna juventude. É acatar a ideia de que marcas e beleza não são compatíveis, de que desejo, paixão e sexo são prerrogativas limitadas pela idade.
Ela, não. Ela desfere um contragolpe.
Já não estou diante de uma vítima. Pergunto a ela: “Se você soubesse o que sabe agora, que esse romance é uma fraude, preferia não tê-lo vivido?”. Ela não hesita: “Preferia ter vivido tudo o que vivi. E ter parado exatamente onde parei. Ele me deu muito”.
Não é uma ilusão. Por paradoxal que pareça, ela ganhou muito. Enquanto viveu o romance, ele era real. O homem, que hoje sabemos que não existe, era real. Essa realidade a resgatou, dia a dia, de uma vida menos viva. “Eu precisava do olhar do outro. De um homem que não corresse quando eu dissesse a minha idade, que me lembrasse de que sou desejável, que me lembrasse principalmente de que quero compartilhar não o extraordinário, mas o comum da vida. Quero ter alguém comigo dividindo o café da manhã, compartilhando as experiências do cotidiano e também arrancando a minha calcinha. Estou aberta para isso e antes não estava. Ele me devolveu algo que estava anestesiado em mim. Às vezes era tão forte essa percepção que sentia como se tivesse voltado a ovular. De certo modo voltei, não biologicamente, mas de uma maneira mais profunda. Antes eu me sentia só um corpo mais flácido do que na juventude, um rosto marcado pela idade. O olhar dele foi o espelho onde eu pude me enxergar muito além disso, pude me enxergar como uma mulher, na inteireza do que é ser uma mulher. Ele não existe? Talvez seja um coletivo de pessoas conversando comigo para me extorquir depois? Mais um golpe sórdido? Não importa. Porque esse olhar sobre mim mesma ninguém pode me tirar, esse olhar agora é meu. Seja lá quem for, me despertou, me ajudou a resgatar a minha integridade como mulher, como pessoa, o muito mais que eu sou para além de um corpo que envelhece. Nesse sentido, sou muito grata.”
Para ela, talvez o conselho a outras mulheres seja: “Caia no golpe, acredite, mas não pague”. Mesmo os 700 dólares, que seria só o início da extorsão, seria um preço baixo a pagar pelo que recebeu, caso tudo se resumisse a uma troca de mercado. É uma brincadeira, claro. Para que ela possa manter a realidade do que viveu, mesmo depois de saber que se tratava de uma fraude, era preciso que fosse real em algum momento. O amor que viveu, mesmo depois de comprovado o golpe, é real no que nela produziu de realidade. Sob esse olhar, o maior lesado foi o golpista, que não viveu nem o amor, nem recebeu o dinheiro.
Se o golpe só funciona porque a sociedade ocidental determinou que mulheres deixam de ser desejáveis ao envelhecer, a maior perda seria não financeira, mas acreditar nessa construção social como uma verdade totalizante. Talvez essa seja a fraude maior, aquela que arranca dessas mulheres, dia após dia, algo muito mais caro do que dinheiro. Arranca-lhes uma dimensão da vida. Para esse crime não há polícia, não há quadrilha, não há materialidade. Para esse crime só existe a resistência, a não capitulação de cada uma.
Para esse crime há o que ela fez: o contragolpe. Ela mostra as fotos do homem que para ela agora é um ex-namorado, de uma história de amor que deu certo por algum tempo e acabou por razões bastante heterodoxas. Ela ainda está se despedindo dele, por isso as fotos continuam no celular. “Olha essas mãos, olha esse peito”, comenta. Eu não vejo nada que despertaria meu desejo, aquele homem não diz nada para mim. De certo modo, não é assim o amor? Uma verdade apenas para aquele que o vive, que vê no objeto do amor o que ninguém mais vê? O outro não é, em certa medida, uma construção, uma realidade particular daquele que ama, como mostra Ela, o brilhante filme de Spike Jonze?
Ela me parece bem. E uma mulher tão bonita.
Entre as mudanças que o romance produziu nela, está a de se descobrir capaz de se apaixonar por um homem possível. Não um padrão de beleza, não um cara mais jovem, um homem da sua idade, com sua bagagem particular de derrotas, perdas, desejos e sonhos. Passado, mas também presente. De novo o paradoxo: o homem que era uma fantasia a ensinou a acolher o homem real.
A cada vez que ela sai de casa, agora, arruma-se pensando que pode encontrar esse companheiro possível. Sem esquecer, jamais, que amar é um risco. Não só o da fraude, que ela acabou de viver, mas um risco ainda maior, que é o de não ser uma fraude. O de se arriscar ao outro, a ser alcançada por um outro. Um risco fascinante, que agora ela voltou a achar que vale a pena.
Quando nos despedimos, ela se preparava para pegar um avião para passar o dia com um velho amigo, um com o qual sabe que não viverá uma história cotidiana, mas que poderia abraçá-la naquele momento. Enquanto aquele, que ela ainda não conhece, estava atrasado para o café da manhã, depois de tanta expectativa ela achava que poderia ser bom ter um homem que simplesmente lhe arrancasse a calcinha. Ele havia lhe dito: “Venha, os ipês floresceram”.
Há alguns dias, recebi uma mensagem dela: “Os ipês, exatamente, não vi... Mas voltei florescida”.