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sábado, 4 de julho de 2026

Vozinha

Vozinha
Vozinha (1986, Mindelo, Cabo Verde)

Vozinha

Cabo Verde entrou como a surpresa africana que calou críticos. No grupo com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, cada partida foi batalha. Deixaram a alma em campo, representaram um país inteiro com orgulho e mostraram que o futebol também cabe nos sonhos de uma ilha.

No mata-mata, as oitavas de final guardavam o maior desafio. Lá estava ele, gigante entre as traves: goleiro Vozinha. Voou, defendeu o impossível, segurou o time com mãos que carregavam a esperança de milhões. Cada defesa era um poema de resistência contra os campeões do mundo.

Veio a derrota sob a Argentina, mas não houve queda, só aplauso de pé. Cabo Verde caiu lutando, de cabeça erguida, chorando por orgulho. Da pequena ilha para o mundo, os Tubarões Azuis provaram que glória não se mede só em vitória. Às vezes, perder também é fazer história.


quarta-feira, 25 de julho de 2018

Futebol / O apagão de Neymar

Neymar, após a eliminação do Brasil contra a Bélgica. 


O apagão de Neymar

Depois de sair da Copa do Mundo pela porta dos fundos, o atacante fica fora dos 10 melhores da FIFA e vê ameaçado seu poder no PSG

ÓSCAR SANZ
24 JUL 2018 - 14:22 COT

Neymar deve estar caído em algum lugar, pois só assim se explica que as sempre jubilosas redes sociais não tenham se enchido de imagens do craque aproveitando suas férias, em alguma praia paradisíaca, acompanhado dos amigos que se autodenominam Os Toiss. Talvez refletindo sobre o fato de ter ficado fora da lista do prêmio The Best, da FIFA, que elege os melhores jogadores do mundo, ou ainda a respeito de seu futuro no futebol. Mas ele mesmo se encarregou de acabar com as dúvidas sobre esse último assunto: “Continuo no PSG. Fui para o clube por um desafio e nada mudou em minha cabeça. Todo mundo sabe do carinho que tenho pelo presidente, pelo país e pela torcida”. Sem dúvida. Parece mentira que existam pessoas que duvidem do carinho que Neymar têm pelas torcidas. Principalmente a do Barcelona. As palavras do jogador deveriam bastar para acalmar a angústia dos fãs do Real Madrid, a quem a possível chegada de Neymar ao Bernabéu não é uma questão de gostar muito ou pouco. É uma questão de apreensão.

É curioso que clubes supostamente governados por sua torcida não levem em consideração o que a torcida quer ou não. Os portais de notícia se encheram nesses últimos dias de pesquisas sobre a (suposta) pretensão do Real Madrid, de Florentino Pérez melhor dizendo, de contratar Neymar. É verdade que essas pesquisas têm menos credibilidade científica do que qualquer crendice popular. Mas são tão unânimes que deixam entrever um repúdio maciço dos torcedores do Real à chegada do brasileiro. Não por acaso, o clube emitiu duas notas oficiais, porque uma é pouco, negando qualquer interesse pelo jogador. Essa reação lembra a do presidente Pérez quando a imprensa anunciou a contratação de Beckham pelo Real Madrid: “Never, never, never”, que traduzida à linguagem do mandatário significa dizer que pode muito bem acontecer.
Mas dizíamos que Neymar é muito feliz em Paris e no PSG. E, portanto, continuará ali. O problema é que sua condição de dono da equipe está sob suspeita. A culpa é de um garoto de 19 anos que sai da Copa, além de campeão, como símbolo de todo um país, a França, que aplaude suas virtudes futebolísticas e suas circunstâncias pessoais, descendente de imigrantes e nascido em uma das cidades mais marginais da periferia de Paris. É Kylian Mbappé, o menino que chegou ao PSG para prestar reverência ao imperador Neymar, “é como um irmão mais velho para mim”, chegou a declarar, mas de repente decidiu voar sozinho. E seus voos sobre os gramados russos ajudaram a França a vencer a Copa e tornar realidade o sonho de milhares de garotos franceses das periferias do país.
Neymar e o Brasil, enquanto isso, saíram da Copa pela porta dos fundos,eliminados nas quartas de final por uma formidável Bélgica liderada por um não menos formidável Hazard. Neymar tinha a ambição de que o campeonato dos campeonatos o colocasse no patamar em que ele ainda não está: o de Messi e Cristiano Ronaldo. Na Copa, deixou dois gols, algumas boas jogadas (qualidade tem de sobra) e um compêndio completo de quedas, seja pelas entradas dos rivais, seja por seu apego ao desmoronamento.
O dano que o Mundial fez a Neymar é enorme. Sua ambição de ganhar a Bola de Ouro ficou novamente morta e enterrada. Agora a lista de candidatos é liderada por Modric e Griezmann. E sua pretensão, para não dizer exigência, de ser o Rei Sol do PSG balança diante da vulcânica irrupção de Mbappé. O Real Madrid teria sido uma boa forma de escapar desses tempos nebulosos, em que a pessoa não tem vontade sequer de oferecer ao mundo as imagens de suas férias. E Florentino Pérez queria, ao contrário da torcida merengue. Mas voltou atrás pelo fato de que existem ligações que até o presidente do Real Madrid retorna. As do emir do Catar, por exemplo.

domingo, 15 de julho de 2018

Mbappé iguala Pelé, mas não quer ser Peter Pan






Mbappé iguala Pelé, mas não quer ser Peter Pan

Jovem estrela francesa chegou a final em meio a comentários que recomendavam a paciência que sua juventude precisa, mas ele se rebelou contra isso. Não gosta que falem e o julguem por seus 19 anos



LADISLAO J. MOÑINO
Moscou 15 JUL 2018 - 14:23 COT



Com somente 17 anos, para ser um dos integrantes da seleção brasileira que jogou a Copa de 1958, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, precisou antes passar por um teste exigente. O treinador Vicente Feola elaborou primeiro uma lista de 220 jogadores que foi reduzida a 33 e por fim aos 22 que foram à Suécia. “A maior parte deles estava nas mesmas condições para a prática do futebol. Depois, comecei a eliminá-los. As causas não foram técnicas e sim físicas e de atitude. Ficaram no Brasil os contrários à disciplina, os violentos e os que se achavam prima donnas”, contou anos mais tarde o já falecido Feola.

As decisões do treinador brasileiro foram influenciadas pelo chamado Relatório Carvalhaes, com exceção dos casos de Mané Garrincha e Pelé. Se no veredito do primeiro, o psicólogo e sociólogo, chamado João, se referia a uma “inteligência abaixo da média”, no de Pelé afirmava categoricamente: “Com 17 anos, possui um perfil evidentemente infantil. Não tem o espírito necessário para lutar. É muito jovem para aguentar pancadas e agressões e responder a elas de maneira adequada. Não tem o senso de responsabilidade necessário e o espírito de equipe. Sua convocação não é aconselhável”.
A tentativa de Pelé de abandonar a concentração antes da viagem à Suécia por não suportar a dor em um de seus joelhos, atingido com violência por Ari, zagueiro do Corinthians, durante um amistoso, fez com que Carvalhaes voltasse a querer tirar Pelé da seleção: “É um menino, não para de chorar, não podemos levá-lo à Copa do Mundo”. Feola, pela segunda vez, desautorizou o psicólogo. Com seu empenho em manter Pelé, o técnico evitou que fosse cortada a até agora irrupção individual mais impactante de um jogador em uma Copa.

Guardando as devidas proporções, aos 19 anos Kylian Mbappé relembrou nas oitavas de final contra a Argentina (4 a 3) o espetacular surgimento daquele jovem brasileiro de 17 anos que na Suécia estranhava o fato de que nas outras seleções não jogassem negros.
Desde sua exibição diante do olhar perdido de Messi, Mbappé ficou devendo uma atuação semelhante. Contra o Uruguai, é lembrado mais pelo espetáculo circense aos moldes de Neymar, incluindo uma solada em Cebolla Rodríguez, do que por realizar uma dessas arrancadas que ilustram a passada mais elegante e demolidora do momento. Contra a Bélgica, detalhes como um passe para Giroud dentro da área de calcanhar foram grandiosos, mas sua atuação foi irregular. Mas, na final contra a Croácia, embora não tenha brilhado como na ocasião diante dos argentinos, Mbappé fez história ao igualar Pelé como o segundo jogador a marcar em uma final de Copa com menos de 20 anos. Além disso, ganhou o prêmio de revelação do Mundial, que pode impulsioná-lo à Bola de Ouro, ultrapassando Messi, Cristiano Ronaldo, Neymar e até mesmo Griezmann e Modric, eleito o craque do torneio.

Para Mbappé, a final chegou em meio à preocupação na equipe de como ele pode ter digerido a grande partida que fez contra a Argentina e sua posterior queda de rendimento. O assunto encheu a concentração e os debates esportivos na França de comentários protetores que recomendavam a paciência que sua juventude precisa. Mbappé se rebelou contra isso. Não aceita a “síndrome de Peter Pan”, resumida no medo de se tornar adulto e enfrentar os problemas da maturidade.
“Mbappé não gosta que falem de sua idade... Para irritá-lo, às vezes dizem que tem 15 anos”, contou Samuel Umtiti na última quinta-feira. “Ele é maduro, podemos falar de tudo com ele, tem a cabeça no lugar. Ele sabe onde e como quer ir. Está realizando algo inacreditável, mas se mantém da mesma forma”, afirmou o zagueiro do Barcelona.
“Kylian”, diz Deschamps, “é tratado por mim da mesma forma que todos os jogadores, é parte dos 23 e vive a mesma situação, ainda que evidentemente por minha experiência sei que é importante ser mais indulgente com os jovens”. “Sua experiência não é muito grande, porém Kylian é inteligente, sabe ouvir, sabe o que quer, às vezes podemos ter pequenas discussões, mas é igual ao que ocorre com os outros, quando lhes digo algo não necessariamente positivo para corrigir”, afirma Deschamps. Ao que parece, o garoto quer ser julgado pelo técnico, por seus colegas e pela imprensa como mais um integrante da equipe titular sem levar em conta sua idade. Não quer que sua juventude seja uma desculpa para justificar seus momentos ruins e para ser exaltado se seu rendimento for bom.
Parte da imprensa francesa explica essa atitude na ambição de Mbappé por chegar o quanto antes ao topo do futebol mundial e na fé que ele mesmo possui em suas qualidades. Isso o leva a querer assumir um protagonismo central nas partidas que hoje recai mais na capacidade de Griezmann em administrar os tempos do jogo e os espaços do que sobre suas devastadoras arrancadas. Ao marcar na final da Copa, Mbappé cravou seu nome em uma seleta galeria de craques precoces. É o segundo mais jovem a alcançar o feito, atrás apenas de Pelé, a quem o garoto nascido na periferia parisiense sonha superar no futuro promissor que tem pela frente.




quinta-feira, 12 de julho de 2018

Fotógrafo ‘atropelado’ pela Croácia / “Toda a seleção caiu em cima de mim, mas eu não parei de tirar fotos”




O fotógrafo da agência France Press durante a comemoração do gol que deu a vitória à seleção da Croácia. MICHAEL REGAN GETTY/FIFA

Fotógrafo ‘atropelado’ pela Croácia: “Toda a seleção caiu em cima de mim, mas eu não parei de tirar fotos”

Yuri Cortez conseguiu imagens de ângulos inusitados depois de ser lançado ao chão durante a comemoração do gol que deu a vitória aos croatas sobre a Inglaterra

DIEGO MANCERA
12 JUL 2018 - 10:12 COT


A seleção da Croácia venceu a Inglaterra na prorrogação e classificou-se para o final da Copa do Mundo da Rússia 2018. O gol da vitória foi de Mario Mandzukic, no minuto 109 do jogo. Os jogadores croatas correram em direção à arquibancada para comemorar com os torcedores, mas tropeçaram na zona de fotógrafos. Ali encontrava-se Yuri Cortez, repórter gráfico da agência de notícias France Press (AFP), com a câmera bem firme na mão direita. Caído no gramado, ele conseguiu um ângulo privilegiado da celebração.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

Futebol / Mandzukic, a máquina goleadora da Croácia



Mandzukic comemora a classificação da Croácia à final da Copa.  


Mandzukic, a máquina goleadora da Croácia

Jogador da Juventus foi premiado por sua luta com um gol histórico para sua seleção



LADISLAO J. MOÑINO
Moscou 11 JUL 2018 - 20:31 COT
Existem poucos centroavantes tão secos e ariscos como Mario Mandzukic. Um homem duro, de caráter forte atribuído às noites em que se escondia debaixo de um colchão quando durante a Guerra dos Balcãs escutava próximos os disparos das tropas sérvio-bósnias. Seu rito é uma ode à raiva permanente. Seus pômulos afilados, seu nariz proeminente e pontudo e o cabelo eriçado lhe dão ares intimidantes de aríete, uma máquina de guerra que era utilizada para derrubar muralhas. 
No vestiário do Atlético de Madrid diziam que quando ele não gostava de alguma coisa, era melhor não o contradizer. Até Diego Pablo Simeone tinha medo dele e muitas vezes não se atreveu a obrigá-lo a jogar preso pelos lados como depois Allegri o escalou na Juventus. Mas todos os seus colegas afirmam que dentro de campo se arrebentava por eles. 
Talvez ninguém represente melhor o sofrimento, o desgaste físico da Croáciapara chegar pela primeira vez à final de uma Copa. Seu gol, surgindo por trás dos zagueiros ingleses, foi um prêmio justo ao seu enorme desgaste. Não existiu partida nessa Copa em que ele não tenha lutado com os zagueiros adversários, que tenha batido e apanhado da mesma forma.
Quando marcou, o treinador croata, Zlatko Dalic, enlouqueceu. O primeiro tempo de sua equipe o deixou deprimido. Fervoroso praticante da religião católica, sua imagem com a mão no bolso para tocar o rosário que leva consigo é um dos tiques que se transformaram em clássicos durante essa Copa. O homem que a fé inquebrantável levou a distribuir bíblias aos seus jogadores repete o ritual sempre que percebe que a Croácia está jogando mal em campo.
O fato de durante todo o primeiro tempo Dalic mal ter tirado a mão direita do bolso de sua calça diagnosticava a partida ruim que seus jogadores faziam. Parado em um dos lados da área técnica, o técnico croata precisou escutar aFootball’s Coming Home, com a qual a organização amplifica os gols da Inglaterra, quando Trippier acertou uma prodigiosa parábola por cima da barreira e Subasic se esticou para aparecer na foto do gol. Paralisado em seu canto do gramado, Dalic via passar diante de si o raio Sterling e contemplava seus jogadores petrificados, encolhidos, como se as prorrogações contra dinamarqueses e russos e a importância da partida tivessem colocado concreto em suas pernas e cabeças. Por um momento pareceu que toda a tradição e a mística do futebol inglês esmagavam a Croácia. Foi um primeiro tempo atípico dos representantes de um país que tem o gene ressabiado e competitivo da escola balcânica.
Surpreendentemente a reação da Croácia começou em Vrsaljko, um jogador pouco confiável emocionalmente, capaz de pedir para sair se perceber que está nervoso. Suas descidas pelo lado direito tiveram um efeito dominó do outro lado do ataque croata. Perisic também se enfureceu e finalizou um bom cruzamento de Vrsaljko. O lateral do Atlético de Madrid também evitou um gol tirando em cima da linha uma cabeçada de Stones no primeiro tempo da prorrogação. E aí, o centroavante Mandzukic esperou para esboçar o maior sorriso de sua carreira com esse gol histórico.


sexta-feira, 6 de julho de 2018

Kylian Mbappé, o herói da periferia


Mbappé, o herói da periferia

O astro francês nasceu em Bondy, coração da periferia de Paris marcado pela precariedade e a exclusão, onde o futebol é visto como um meio de ascensão social


MARC BASSETS
Paris 5 JUL 2018 - 13:56 COT

O boulevar periférico —o anel viário que marca os limites de Paris— é uma fronteira mental.
Do outro lado se abre outro mundo: a banlieue, ou a periferia. Desconhecido e mitificado. banlieue é o lugar em que a França projeta seus fantasmas, suas frustrações. Palco de distúrbios ou viveiro de islamistas. Muro invisível no qual a ascensão social se choca. Também, às vezes, o território de onde a República espera que chegue a salvação, o herói que irá debelar suas ansiedades, que acalmará o terror da fratura da nação.
A Copa é uma destas ocasiões. Kylian Mbappé —produto perfeito da banlieue de Paris; filho da periferia mais dura e a mais pura; revelação na Rússia— encarna o renovado sonho dessa França diversa e coesa. Mbappé nasceu em 1998, em Bondy, uma cidade de 52.000 habitantes a 12 quilômetros do centro de Paris. Seu pai era de origem camaronesa; sua mãe, argelina. Ambos esportistas. Se existisse uma capital da banlieue, Bondy aspiraria ao posto. banlieue castigada pela precariedade —na moradia e na educação— e pela discriminação. E pela falta de oportunidades. A banlieue, também, das casas ajeitadinhas com jardim, os cafés hipsters e livrarias independentes, um espaço de convivência e respeito aparente e de trabalho duro que desmente os retratos apocalípticos de um território sem lei. Tudo é mais complexo.


“Quando os bairros populares são vistos sob o prisma dos acontecimentos e da violência, do islamismo e do terrorismo, ou sob o prisma do heroísmo, é uma visão caricatural e perigosa porque não remete à realidade que as pessoas vivem”, diz Nassira El Moaddem, diretora do Bondy Blog, mídia de referência na cobertura das banlieus, com sede em Bondy.
El Moaddem cita um relatório recente apresentado na Assembleia Nacional sobre o “fracasso do Estado” em Seine-Saint-Denis. O relatório constata que este é o departamento com os habitantes mais pobres da França (com exceção dos territórios de ultramar) e com a criminalidade mais elevada. “Em Seine-Saint-Denis”, resume Le Monde, “há menos de tudo: menos policiais, menos professores, menos funcionários do Judiciário, menos magistrados, menos médicos escolares...”
De algo “há mais” em Seine-Saint-Denis, e na banlieue em geral: mais jogadores. As instalações da AS Bondy, onde Mbappé se formou, são um autêntico canteiro do futebol francês. Em seu gabinete no pavilhão do clube, o diretor esportivo, Jean-François Suñer, contabiliza 16 profissionais na ativa, entre os quais Sebastian Corchia, que joga no Sevilla, e, claro, Killian Mbappé. Boa parte da seleção francesa —PogbaMatuidiN’Golo Kanté— é composta de filhos da periferia de Paris.


Suñer, filho de uma valenciana e um catalão que chegaram depois da guerra, conhece Mbappé desde que nasceu. Quando tinha 5 anos, se deu conta de que era especial. Quando exatamente? “Quando o vi com a bola nos pés. É um talento natural.”
A filosofia de Suñer e do AS Bondy é simples: Dizemos às crianças e aos pais: primeiro tem de trabalhar na escola. Se depois vemos que pode ser um profissional, ajudaremos. Antes de formar jogadores, formamos homens”, acrescenta. E recorda o caso recente de dois meninos de 10 e 11 anos que, por mau comportamento na escola, foram excluídos do jogo do sábado.
“Muitos querem que seus filhos tenham sucesso para sair da banlieue”, diz Suñer. “Nós não vamos nos enganar.”
Em cidades como Bondy, e ainda mais com fenômenos como Mbappé, o futebol corre o risco de ser a única esperança de muitos pais para prosperar, de encontrar aí —e não na escola republicana— a ascensão social em que empacam na vida civil: os currículos sem respostas, a discriminação silenciosa.
“Antes de Mbappé, o fato de vir de Bondy podia ser motivo de discriminação na busca de trabalho. Hoje acontece o contrário: pode ser positivo”, diz Mahmoud Bourassi, que na semana passada voltou da Rússia depois de torcer pela França com um grupo de jovens da cidade. Mas Bourassi alerta contra o perigo de confiar excessivamente no futebol para consertar a França.
Os distúrbios na noite anterior em Nantes, depois que a polícia matou um jovem em um controle policial, são um lembrete. Como são as esperanças que a vitória da França de Zidane —outro filho dos bairros multiculturais— despertou em 1998. Quatro anos depois, a Frente Nacional, partido contrário à imigração, chegava ao segundo turno das eleições presidenciais.
“É preciso manter a cabeça fria”, diz Bourassi: “Como faz Mbappé quando comparam-no com Pelé.”


sexta-feira, 22 de junho de 2018

Martín Caparrós / A lenda do pior goleiro do mundo


Luis Ricardo Guevara Mora leva um gol durante um dos jogos na Copa da Espanha de 1982. 



COPA RÚSSIA 2018

A lenda do pior goleiro do mundo

O goleiro salvadorenho Luis Ricardo Guevara entrou para a história das Copas do Mundo depois do 10 x 1 sofrido contra a Hungria na Espanha-82



Martin Caparrós
20 JUN 2018

20 
A cada quatro anos, quando o futebol novamente é destaque em todo o mundo, alguém se lembra dele, vai atrás dele, conta sua história. Luis Ricardo Guevara Mora tem um raro mérito: ninguém, na história do futebol, fez pior.
Guevara nasceu em São Salvador, El Salvador, em setembro de 1961. Um menino pobre de um país muito pobre que tentava —adolescente, alto, atlético, moreno— jogar basquete, beisebol. Quando lhe propuseram ser goleiro de um time de futebol, achou engraçado e decidiu tentar.

Guevara se deu bem. Tinha 17 anos quando estreou na seleção de El Salvador; dois anos depois, foi goleiro da equipe de seu país nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982. El Salvador vivia uma guerra civil: os combates eram suspensos para assistir aos jogos. Foram cinco, Guevara levou apenas um gol, e seu país chegou, pela segunda vez em sua história, à rodada final.
Chegar à Espanha foi um problema: a Federação salvadorenha era pobre, mas caótica, e enviou os jogadores em muitos aviões. A equipe demorou três dias para chegar à cidade de Elche, onde ainda vivia uma senhora que havia sido, muitos anos antes, "uma morena de altas torres, alta luz e olhos altos": Josefina Manresa, viúva do poeta espanhol Miguel Hernández. Eles não se importavam: só queriam vencer o primeiro jogo contra a Hungria, que parecia mais fácil do que a Argentina ou a Bélgica.
Então, decidiram tentar, ir para o ataque, mas, aos cinco minutos, já estavam perdendo. Quando estava 0 x 5, um atacante salvadorenho, "Pelé" Zapata, fez um gol —que passaria a ser conhecido depois como gol de honra— e seus companheiros interromperam a comemoração para não irritar aqueles hunos sedentos. Talvez não tenham se irritado; continuaram goleando com sorrisos. Guevara poderia ter sofrido menos: quando havia levado apenas seis, seu treinador decidiu substituí-lo, mas o goleiro substituto se recusou a entrar e Guevara teve que continuar. No final, os húngaros conseguiram o resultado mais impressionante das Copas do Mundo: 10 x 1. Nos mil jogos disputados desde o início do torneio, em 1930 em Montevidéu, nunca houve nada igual.
Tem mérito, se reconhece pouco. A arte de vencer é fácil, quase óbvia; a arte do fracasso é mais complexa. Naquele dia, Guevara levantou, sem querer, seu monumento: o fato que seria inscrito na memória. Tinha 20 anos e já era o que seria para sempre: o homem que levou o maior número de gols em um jogo da Copa do Mundo, um vencedor às avessas.




Guevara era o símbolo do desastre: o inimigo público que todos queriam atacar e, também, o pobre coitado do qual todos gostavam de ter pena

O esporte se tornou o evento cultural mais difundido de nossos tempos, porque é simples. Parece complexo, cheio de nuances, mas, em última análise, oferece uma facilidade que a vida escamoteia: um resultado. Em um esporte está claro o que é ganhar e o que é perder, quem vence e quem não. Por isso, é raro quando esses casos confusos aparecem: aquele que se torna inesquecível por sua derrota.
El Salvador voltou a perder outros dois jogos, só que mais discretamente. Alguns dias depois, quando "la Selecta" —como a equipe é chamada em seu país— chegou a São Salvador, milhares e milhares de compatriotas os esperavam para insultá-los nas ruas. E Guevara era o símbolo do desastre: o inimigo público que todos queriam atacar e, também, o pobre coitado do qual todos gostavam de ter pena; ele não sabia o que doía mais. Mas também não permitiram que escolhesse: já na alfândega abriram sua mala e, uma semana depois, atiraram no carro onde estava. Foram 22 tiros, e não defendeu nenhum.
Luis Ricardo Guevara Mora teve que começar sua vida quando esta já estava definida para sempre. Deixou seu país, continuou jogando futebol por outras duas décadas, sobreviveu. Agora trabalha, modestamente, mais gordo, em um centro esportivo de uma cidade salvadorenha e, a cada quatro anos, alguém lembra que foi o pior de todos. Ele, certamente, nunca soube como esquecer isso.

sexta-feira, 25 de março de 2016

“Eu cobrava 8000 reais por programa”, diz Viviane Brunieri, ex-Ronaldinha xlisto




“Eu cobrava 8000 reais por programa”, diz ex-Ronaldinha