sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

A Terra não é quadrada / Processo versus finalidade



A Terra não é quadrada

Processo versus finalidade

4 NOVEMBRO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

As clássicas e populares questões de onde viemos, para onde vamos e o que somos ainda hoje permeiam todas as abordagens filosóficas e psicológicas acerca do humano. Não é possível desvincular estas perguntas e suas possíveis respostas do cenário, ou melhor, do background epistemológico bem explícito e resumido no antagonismo entre questões dialéticas e teleológicas.
Entendendo dialética, fundamentalmente, como processo, e teleologia como finalidade, estabelecemos dois parâmetros irreconciliáveis quanto à concisão e coerência, desde que a relação entre oposição e transformação - dialética e processo - não se assemelha às explicações causalistas, deterministas, que desembocam em explicações finalistas como determinantes de acertos e consistência. Tudo se desenvolve nestes contextos, nestas vertentes opostas; assim se percebe, assim se pensa, assim se dialoga e discute, mesmo sem saber a que referencial se pertence. Acreditar ser fruto da evolução das espécies ou ser por Deus criado, também exemplifica esta filiação.
Nas constatações empiristas - nas quais o pregnante é a sensorialidade - o verificado é o denso, o funcional, a finalidade que tudo explica e justifica. Nas visões dialéticas, processuais, os processos e suas mediações se impõem. Quando se diz, por exemplo, que o importante para o homem é o prazer, é sentir-se bem, mesmo sofrendo ou fazendo sofrer, como é o caso das mundanas explicações do livro Cinquenta Tons de Cinza e outros equivalentes (restabelecendo o sadomasoquismo do Marquês de Sade), se afirma finalidades como justificativa de comportamento: neste caso é o prazer, em outros pode ser a vingança, o poder ou o encontro com Deus.
Finalidades não definem o homem, elas nada explicam desde que são contingenciais aos seus propósitos e implicam em negar como relacional, a estrutura biológica, neuropsicológica do humano. Quando não existe este entendimento, surgem explicações elementaristas, explicações causalistas acerca das questões o que somos o que é humano através, por exemplo, de conceitos como natureza humana, instinto ou fruto de um criador, como construtores do homem. O ser humano é um organismo que se realiza enquanto satisfação de necessidades, mas ele é também uma possibilidade de relacionamento. Esgotar possibilidades em necessidades é transformar-se em animal, em máquina (robô, despersonalizado), por isso, quanto mais o indivíduo se situa enquanto finalidades, enquanto resultados, mais se desumaniza. Autorreferenciar-se em sua estrutura biológica, em sua estrutura orgânica é despersonalizar-se, animalizar-se e assim ser capaz de qualquer atuação para realizar desejo, para conseguir prazer e ultrapassar a presença do outro, transformando-o em objeto de prazer, poder ou fúria. Neste referencial orgânico das necessidades, não há transcendência, não há consideração, não há questionamentos, consequentemente impera a lei do mais forte, onde tudo pode ser feito para sobreviver, para obter satisfação de desejos. Quando os únicos critérios são os da finalidade, os do resultado (como por exemplo, ter prazer), nada há que interdite o pedófilo, o necrófilo, o zoófilo, os processos são reduzidos às relações causais predeterminadas e determinantes.
Quando se torna mais pregnante a dimensão relacional, o indivíduo descobre-se com possibilidades além de necessidades contingenciais, além de necessidades biológicas, percebe que subordinar suas motivações às finalidades e resultados, segmenta, mutila a existência em função de vantagens/desvantagens, conveniências/inconveniências, satisfação/insatisfação. Virar um subproduto de ordens econômicas, sociais e religiosas é desumanizar-se, tanto quanto é também desumanizador se preparar para viver buscando prazer, redenção de atos, absolvição de culpas, construção de blindagens e proteções através de poder e riqueza.
Buscar finalidades é construir escala para valores que balizem, contenham e justifiquem as entregas às religiões, às instituições (família etc) e aos divertimentos prazerosos das drogas ao sexo, por exemplo. Questionamentos ao que é bom ou ruim são sempre propícios, embora o mais importante seja não estar balizado por estes critérios teleológicos, para que então se possa globalizar a míriade de variações estruturantes e contextuais dos processos relacionais.




quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Comportamento sexual / Acertos, contratos, preconceitos

Robert Mapplethorpe - Lara Harris, 1988

Comportamento sexual

Acertos, contratos, preconceitos

4 OUTUBRO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Preconceitos e restrições estão assumindo novas formas e estas distorções, decorrentes da não globalização de fenômenos e comportamentos, criam divisões, polaridades e consequentes explicações despropositadas sobre comportamento humano. Exemplificaremos.
Ainda hoje, inúmeras pessoas (inclusive pesquisadores, médicos e psicólogos) falam de homossexualidade e heterossexualidade como imposição orgânica e genética, como atitude ou orientação sexual não escolhida. Persistem, nesta abordagem, duas ideias extremamente problemáticas: a primeira é a da existência de uma natureza prévia, anterior e determinante da construção cultural da identidade (sexo igual a organismo, natureza e gênero igual a construção identitária, cultural) e a segunda, a de que escolher é exercer liberdade, exercer preferência independente de contextos limitadores. Ambas ideias reafirmam preconceitos seculares, dualismos e reducionismos acerca do comportamento humano.
Não existe natureza humana, não existe prévio natural como condição determinante do comportamento. O comportamento humano não resulta de “forças naturais” e “instintos”, resulta sim de dinâmicas relacionais, necessidades e possibilidades relacionais caracterizadas por autonomia, medo, justificativas, metas etc.
Pensar na escolha como exercício de preferência é contraditório, é entendê-la como a priori, como compromisso com motivações, com situações, com posições prévias e, portanto, como comportamento condicionado. Penso escolha como evidência. Escolher é estar presente, é a imposição do diálogo. Sempre que participamos estamos escolhendo isto ou aquilo, sem pausa para avaliação, sem conflito, sem dilema. Neste sentido, podemos mesmo dizer que não existe escolha, a vida é participação, evidência. Parar para escolher é constatar a não participação, é constatar a quebra, é vivenciar o corte e querer emendá-lo.
Há pouco tempo circulou nas redes sociais um pôster que pretendia criticar a discriminação a pessoas e grupos, baseada em preconceito sexual, étnico, estético etc. Apesar da ‘boa intenção’, o pôster veiculava os enganos mencionados acima e ainda a ideia altamente preconceituosa de que “o que é natural” impõe-se e justifica-se por si só, ao passo que “o que é escolhido” é passível de condenação e rejeição. Seus dizeres eram:
“Coisas que as pessoas não escolhem:
  • Orientação sexual
  • Identidade de gênero
  • Aparência
  • Deficiências
  • Transtornos mentais
  • Cor, etnia, raça
Coisas que as pessoas escolhem:
  • Ser um babaca com as pessoas por coisas que elas não escolhem”
Lamentável a confusão entre natural e adquirido, entre biológico e social, entre indivíduo e sociedade. Tudo isto junto no cadinho, no liquidificador do preconceito, pois só no âmbito do mesmo é que imanências biológicas como aparência, cor de pele, desorganizações cerebrais, deficiências físicas são consideradas contingências, circunstâncias passíveis de valoração e equivalentes a poder ou não ser escolhidas - situações onde colocar possibilidade de escolha é negá-las como evidência humana. Não se trata de ter direito de ser negro, homem, aborígene ou manco, mas sim, se é negro, homem, aborígene, manco e isto é humanidade com suas diversificações. Quando se diz que se deve aceitar cor, raça, etc. porque não são escolhas, esta afirmação em si mesma é preconceituosa. E mais, o pôster é gerado no bojo do preconceito e do reducionismo biológico, ao dizer que orientação sexual e identidade de gênero não se escolhe.
Orientação sexual é atitude, é motivação, é um dado relacional vivenciado enquanto participação ou dificuldade. Aceitar as motivações afetivas em relação ao outro, suas implicações sexuais, independente de ser do mesmo sexo ou de sexo diferente, é uma disponibilidade que permite vivenciar as motivações ou, em posicionamentos de dificuldade, impede suas viviencias pelo medo, culpa, certeza de inadequação e de erro ao fugir dos padrões estabelecidos. Os indivíduos são livres ou limitados para vivenciar sexualidade, independente da diferença ou igualdade de sexo.
Sexualidade não se define por anatomia, tanto quanto prazer não resulta de condições anátomo-sociais. Nas vivências problemáticas, o ser humano é omisso e limitado para vivenciar sua sexualidade, pois para ele esta vivência pode ser apenas uma senha para ser aceito em um grupo, para constituir família, para garantir seu futuro, para permitir exercer suas molduras e escaladas sociais.
Falar de identidade de gênero como escolha/não escolha é andar na contramão, “perder o bonde da história”, em uma época onde exatamente o que se discute e admite é não haver gênero, desde que ele seria apenas resultado de autoritarismos enviesados dos “machistas”, tanto quanto das “feministas”. Identidade é uma organização social e psicológica que independe de diferenças sexuais biológicas, de ser homem ou mulher. Admitir identidade de gênero, dizer que ela não é escolhida, é ressuscitar preconceituosos protocolos de feminino e masculino, é equivalente a reduzir tudo ao azul e rosa.
Escolher ou não escolher não são referenciais importantes. Não podemos polarizar e validar o comportamento nestes aspectos. Escolher sempre implica em compromisso e vice-versa.
Pensar em escolha como participação, como disponibilidade, flexibilidade, permite configurar melhor as possibilidades humanas, mas é preciso não esquecer que toda possibilidade pode estar contextualizada em necessidades e que as mesmas são limites que podem permitir transcendência - exercendo possibilidades - ou podem ser limites polarizantes de possibilidades, estruturando a redução das mesmas às suas circunstâncias configuradoras.
Tudo pode ser escolhido, tudo pode implicar em disponibilidade, participação ou limitação, desde que, no encontro com o outro e com o mundo, as contradições, inserções e complementações surgem. Sintonias, distonias e atonias estruturam o ritmo, a sinfonia do ser com o outro, do estar no mundo.
WSI





RIMBAUD


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Liberdade, sua exeqüibilidade / Prisões contemporâneas



Liberdade, sua exeqüibilidade

Prisões contemporâneas

4 SETEMBRO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Ser livre é um anseio secular.
A vida em sociedade, desde sempre, organiza-se gerando os submetidos, os escravos e os livres. Na Pólis grega, por exemplo, havia forte distinção entre escravos e homens livres. Platão considerava isto uma realidade inevitável à partir da qual tudo seria estabelecido. Os homens eram escravos ou senhores por nascimento e esta era uma associação ou organização não advinda de convenções e acordos; tratava-se de características humanas. Da antiguidade aos dias atuais, a mão-de-obra escrava tem sido um dos pilares que sustenta sociedades e seus sistemas econômicos, embora, na contemporaneidade, ambiguidades dispersem e camuflem sua visibilidade.
A vida contemporânea não se assemelha à vida na antiguidade, ao contrário, se afirma como uma evolução em relação a esta, onde o progresso se define positivamente não só como conquistas tecnológicas, mas também como conquistas sociais em prol dos direitos e liberdades individuais (base de reivindicações de inúmeras minorias). Entretanto, nunca vivemos tão aprisionados à produção, à velocidade, ao encaixe padronizado, ao ajuste/desajuste, à burocratização e às dificuldades de relacionamento, como agora, consequentemente, as escravidões se mantém e por isso nunca percebemos, tão ambiguamente, o que é ser livre!
Costumamos pensar por paradoxo e antinomia e neste sentido, a liberdade é percebida como oposta à escravidão ou no mínimo, como o que a exclui. Deste modo, o conceito de liberdade se anula através de uma construção oposta: o que é necessário (a escravidão é necessária, por exemplo) e o que é impeditivo (o necessário impede a liberdade). Ser escravo é não ser livre, ser livre é não ser escravo, esta tautologia pouco esclarece e em nada amplia o entendimento da liberdade, que, como tudo, é relacional e só pode ser apreendida à medida que seus estruturantes tornem-se nítidos.
A questão da liberdade, do ponto de vista existencial, nos remete à definição do humano: a essencia humana é possibilidade de relacionamento. O homem é um ser no mundo com os outros e ser livre é exercer possibilidades de relacionamento. Quando se vive para satisfazer necessidades, para suprir desejos e metas, se estabelece apegos, compromissos, carências, medos, enfim, sistematizações aprisionantes e limitadoras. Para se ajustar, busca-se proteção e segurança em soluções criadoras de relações afetivas baseadas em compromisso, ilusão de empregos solucionadores, oportunismos, dogmas, regras e esquemas.
Ser livre é ultrapassar limites, é não ser por eles definidos. Estas alternativas, liberdade e limite, não se colocam como polaridades em função das quais a questão da liberdade ou não liberdade, se desenrola. Não se trata de continuidade entre dois polos de um mesmo eixo, senão seria simplesmente ser livre como oposição a ser escravo, a ser preso, a ser contido e neste sentido a questão seria de acréscimo ou decréscimo, de aposição ou oposição.
Liberdade é transcender limites, é transcender obstáculos e esta transcendência não acontece na continuidade dos processos. A ruptura se impõe, ou seja, transcender é ir além, é fazer surgir outro processo. A linearidade das situações estabelecidas é sempre binária, lógica, previsível, enquanto o que transforma, o que quebra e modifica é a apreensão da unidade nela contida (a relação configurativa entre os polos de um mesmo eixo), ou seja, é o espiralado, é a sincronização que atinge outros planos, outros referenciais. Neste sentido, toda a filosofia religiosa, desde Sto. Agostinho e São Tomás, fala nas coisas que não são deste mundo, fala da liberdade em Deus, na fé, por exemplo - é a metafísica.
Sempre podemos transcender limites, sempre podemos ser livres: o amor, o pensamento, a criatividade, as mudanças sociais, os novos paradigmas que constituem a ciência e tecnologia, ampliam espaços, neutralizam temporalidade, mas só conseguem quebrar as polaridades estabelecidas pelo sistema, pelo outro e por nós mesmos, quando não nos estrutura no passado ou nos apoia no futuro. A insistência e pressão social em nos estimular em direção ao acúmulo, à construção de imagens, à fixação de metas sociais e econômicas, impede a vivência do presente, fragiliza, gera ansiedade, depressão, medos, compromissos, ou seja, dificulta o livre exercer da dinâmica de ser com o outro. Viver o presente, sem os referenciais de medo, apego e expectativa, é a única maneira de ser livre. Quanto mais nos estabelecemos em sistemas e referenciais solucionadores ou problematizadores, menos liberdade, mais sobrevivência, mais ansiedade, angustia e adequação/inadequação.
Liberdade é ultrapassar limites integrando-os, é viver o presente sem as proteções e interrupções dos desejos, medos e compromissos. Ser livre é ser inteiro. Esta unidade vivencial só é conseguida através da autonomia, através da aceitação das próprias limitações e dificuldades.
Ser livre é a humanização que acontece cada vez que se consegue dizer não à alienação e cooptação.





RIMBAUD




segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Recursos humanos infinitos / Vidas realizadas, vidas destroçadas


Atravessar o deserto em um barco

Recursos humanos infinitos

Vidas realizadas, vidas destroçadas

4 AGOSTO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS


Todo ser humano tem recursos, isto é, qualidades específicas que permitem estabelecer realização de possibilidades e satisfação de necessidades. Neste sentido, os recursos são infinitos e passam a ser sinonimizados com possibilidades. Acontece que tudo que existe evidencia-se em contextos - em situações estruturantes de limites e condições -, consequentemente gerando obstáculos, tanto quanto liberações.
Quando o ser humano constata suas possibilidades, ele descobre recursos. Caso este processo, esta percepção, seja realizada no contexto de autonomia, que mesmo na infância pode existir, os recursos são fontes possibilitadoras de relacionamentos e de infinitas mudanças, de satisfações e descobertas.
Quando a identificação dos recursos é realizada no contexto da não autonomia, eles são meios de conseguir que o outro realize os próprios desejos e deste modo o recurso se caracteriza pela capacidade de usar, de criar condições - do engano à sedução - para que o outro realize o que se necessita.
O contínuo exercício desta atitude cria dependências afetivas, despersonaliza e transforma pessoas em objetos de prazer, de trabalho, de amor, de incentivo. Quanto mais se realiza desejos, mais se esvazia. Este sistema de drenagem estrutura os deprimidos, os viciados, os desumanizados. Transformar os próprios recursos, as próprias possibilidades relacionais, em normas e padrões determinantes de realização de desejos e objetivos só é possível quando se deixa de perceber o outro como um ser humano, quando se começa a percebê-lo como objeto, como receptáculo de desejos, como apoio para consecução de objetivos.
Transformado na expectativa do que deseja ou espera, o indivíduo consegue alienar recursos, viver em função do investimento dos mesmos. A atitude não autônoma, resultante de autorreferenciamento, aumenta cada vez mais a falta de autonomia, a falta de vontade, a falta de motivação e determinação. Deste modo, os recursos são transformados em busca de oportunidades que, para acontecer, precisam de ajuda, de suporte. Esta circunstancialização referencia tudo em termos de sorte ou de azar. Assim o indivíduo perde individualidade, perde possibilidades humanas, tanto quanto aumenta a ansiedade para realização do desejado, do prometido e esperado. Ansiedade, medo, dúvida, angustia passam a ser seus constantes e únicos recursos. Neste quadro, para não estourar, utiliza drenos representados por remédios, ajudas comunitárias, crenças protetoras e salvadoras: deuses, gurus e até políticos.
Todo ser humano é cheio de recursos, entretanto, quando esvaziado pelo autorreferenciamento, pela não autonomia criadora de metas (desejos relacionados a situações totalmente diferentes e alheias às que vivencia, mas que considera salvadoras: desde ganhar na loteria, encontrar príncipes ou princesas encantados/as, até ser ungido como poderoso que tudo consegue), ele se fragmenta, se divide, perdendo a continuidade do estar no mundo, vivenciando o presente como escuridão e parede que gera angustia e medo. Nesta situação de esvaziamento, alienação e despersonalização, seus recursos são estes: sonhos não realizados, possibilidades e potencialidades perdidas, traumas e arrependimentos criadores de medo, desconfiança e temor, consequentemente, relacionamentos frustrados, falas amargas, dúvidas nunca esclarecidas.
As possibilidades, os recursos transformados em necessidades criam entraves, dificuldades. Terra chacinada, vida destruída, humanidade superada e sufocada pelo uso, consumo e abuso do outro e de si mesmo. Ao utilizar os próprios recursos como maneira de alimentar o autorreferenciamento, se realiza autofagia; é como se nutrir do próprio organismo para continuar vivo.


domingo, 14 de janeiro de 2018

Origem, começo e causalidade / Determinantes e resultantes


Um pequeno planeta cheio de vida
Origem, começo e causalidade

Determinantes e resultantes

4 JULHO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Wassily Kandinsky dizia que tudo começa no ponto. Ele simplificou ou esqueceu, que o ponto é uma interseção de retas.
A afirmação de Kandinsky enfatiza idéias de começo, de origem, de causalidade. Quando se pensa em começo, em início, busca-se origens, busca-se causas do existente. Descobrir o início é a grande pergunta da ciência, tanto quanto açambarca toda idéia de criador e criatura, remetendo a um absoluto, a uma causa explicativa de tudo.
Onde começa o eu? Quando inicia o mundo? Qual a causa das grandes paixões e dos encontros não realizados, não continuados? Qual o instante abismal que colapsa perspectivas, o ponto responsável pela mudança, pela continuidade contingencial criadora de interseção? Frequentemente o entendimento destas questões é expresso através de variáveis deterministas, que procuram abranger e especificar o que é considerado causa explicativa.
Nada começa, nada finda, tudo continua e esta é a reversibilidade inexorável que cria os processos. São sequências de variáveis, interseções infinitas ocasionadas pelos processos, tanto quanto deles resultantes, que estabelecem pontos, variáveis, sistemas que insinuam começo e fim. Não há começo, não há origem, não há fim, não existe causalidade. O que existe são processos relacionais, movimentos convergentes e divergentes, criadores de posicionamentos, lacunas e abismos. Diante deles somos referenciados em contingências e estruturas que determinam nosso estar no mundo. Estas posições podem significar começos à medida que suas variáveis configuradoras são descontinuadas, fragmentadas. Buscar causas é negar a dialética dos processos, é transformar o processo da vivência humana em regra linear.
Na esfera psicológica, querer saber quando começa o medo, quando começa a dificuldade de relacionamento, por exemplo, e encontrar “traumas” como resposta, ou explicar pela situação de pobreza, de riqueza ou outras situações onde a rejeição era constante, são explicações que não globalizam o processo humano, são maneiras de amesquinhá-lo através do aprisionamento à referenciais históricos, à referenciais socio-econômicos. Medo é omissão diante do que ocorre, é a não resposta, a não participação, geralmente resultante de ter sido posicionado, arrebentado, despersonalizado em outros processos, em outras variáveis criadoras de atitudes, de comportamentos alienados.
Tudo começa onde acaba exatamente porque são insinuados parâmetros configuradores de realidades das quais se está diante. É a interseção de situações que impede a pontualização, tanto quanto permite a explicação globalizante. Imaginar começos, pontos de origem e causas é aristotélico, causalista, também cartesiano. Ato e potência, res extensa e res cogitans são abordagens lineares baseadas em tipificações, em classes, baseadas na divisão denso e sutil estabelecedora de dualismos e complexidade como a clássica idéia de matéria e espírito, de consciência como pré-existência do conhecimento, sede da alma, mais tarde sinonimizada como sujeito, favorecendo abordagens de viés introspectivo.
Penso que sujeito e objeto são aspectos de uma polaridade, não começam, nem terminam, não estão dentro, nem fora, são apenas polos de um eixo. Não há o mundo do sujeito (classicamente configurado como subjetivo pela filosofia e psicologias causalistas, principalmente as de fundamentação psicanalista), nem o mundo do objeto, da mundaneidade. Há um ser humano que percebe e isto é a dinâmica relacional do estar no mundo. Conceituações e denominações classificatórias de sujeito e objeto criam estagnações, criam divisões na maneira de enfocar o homem. É através da percepção que se estruturam o sujeito e o objeto. O ser humano não é sujeito nem objeto, ele é ser humano, que a depender da própria percepção, se configura em sujeito ou objeto, ocorrendo o mesmo em relação à percepção do outro - o outro ao me perceber configura a mim como sujeito ou como objeto.
Tudo começa no ponto, isto é, na interseção das retas que o configuram. Sabemos que a reta é uma infinita sucessão de pontos, consequentemente de interseções. Kandinsky sempre desenhou o relacional, apesar de achar que tudo começava em um ponto. Configurando a trajetória do ponto, ele sequenciava suas interseções.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Ferocidade / Redes de crime e opressão


Ferocidade. Violência e submissão

Ferocidade

Redes de crime e opressão

4 JUNHO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Ferocidade é característica de feras e também de seres humanos que se tornam violentos, desumanizados e ferozes. É rápido tornar-se feroz e é também fácil reduzir um ser humano a suas dimensões biológicas, às suas necessidades. É eloquente o depoimento abaixo e mostra como a interseção entre sistemas econômicos e sociais é uma regra de ouro, mantida entre opressores e oprimidos:
“ ‘Oito semanas’, recomeça o soldado barbudo, ‘oito semanas e tudo o que existe de humano no ser humano desaparece. Os Kaibiles descobriram uma maneira para anular a consciência. Em dois meses, pode ser extraído de um corpo tudo o que o diferencia dos animais. O que faz com que ele distinga maldade, bondade, moderação. Em oito semanas, você pode pegar são Francisco e transformá-lo em um assassino capaz de matar animais a dentadas, sobreviver bebendo só mijo e eliminar dezenas de seres humanos sem sequer se preocupar com a idade das vítimas. Bastam oito semanas para aprender a combater em qualquer tipo de terreno e em qualquer condição atmosférica, e para aprender a se deslocar rapidamente quando atacado pelo fogo inimigo.’ ” … “… kaibiles são o esquadrão de elite antissubversão do Exército guatemalteco. Nascem em 1974, quando é criada a Escola Militar que se tornaria o Centro de Adestramento e Operações Especiais Kaibil. São os anos da guerra civil guatemalteca, anos em que as forças do governo e paramilitares, apoiadas pelos Estados Unidos, se veem enfrentando primeiro guerrilheiros desorganizados e, depois, o grupo rebelde Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca. É uma guerra sem trégua. Nas malhas dos Kaibiles caem estudantes, trabalhadores, profissionais liberais, políticos da oposição. Qualquer um. Aldeias maias são arrasadas, os camponeses são trucidados e os seus corpos, abandonados para que apodreçam sob o sol inclemente.” - Zerozerozero de Roberto Saviano, Ed. Companhia Das Letras, pag.90-91
Sobreviver em regiões sócio-econômicas onde a desigualdade, tirania e medo predominam, é a sobrevivência limitada e determinada pelos sistemas opressores. Uma das maneiras de fugir da opressão maciça é trabalhar para o sistema, é ajudar as máquinas opressoras (tornando-se delator, torturador, etc). Outra maneira é arregimentar condições para violências pseudo reparadoras: roubar, matar, supliciar os que dispõem de dinheiro (não importa quanto), formando esquadrões e gangues de violência.
Para se manterem, as sociedades opressoras usam clandestinos, criam ferozes; foi assim, por exemplo, nos anos das ditaduras brasileira, argentina, uruguaia, chilena, com a formação de torturadores, tanto quanto agora é este mesmo suporte residual que se vê no tráfico de drogas, armas e sexo. Qualquer olhar atento para favelas, comunidades de baixa renda, revela este mosaico. Da mesma forma, no Leste europeu (ex União Soviética e seus satélites), após a Perestroika, vemos antigos dirigentes e líderes políticos, “promissores quadros do partido”, organizando bilionárias operações: redes de tráfico de armas, drogas e mulheres. Para realizar estas operações é preciso esvaziar o humano e fazer surgir feras capazes de manter os negócios. A mídia contribui e é fundamental na geração e manutenção dos desejos: a boa comida, a boa roupa e todos os fetiches de consumo e estilo divulgados e propagandeados.
Toda vez que não se aceita limites e restrições do que está acontecendo no presente, da condição socio-econômica, se fica reduzido à sobrevivência, à satisfação de necessidades e assim são criados complexados, pessoas que se sentem inferiorizadas por não serem ricas, não terem tido os brinquedos anunciados na TV, não morarem em apartamentos como os que possuem mais dinheiro. É um início de estruturação de ferocidade, posteriormente aprimorada, efetivada por variáveis de opressão estabelecidas pelos sistemas, pelas familias.
Este processo de não aceitação estabelece metas, desejos de realização, que também são responsáveis por retirar os pés do chão (sair do presente) e se agarrar aos desejos (metas), se agarrar em ilusões de melhora e a qualquer coisa considerada salvadora, desde exercer torturas para manter a ordem social vigente, à venda de drogas e armas para conseguir amealhar o primeiro milhão de dólares. É o esvaziamento humano gerado pela sedução do prazer, paraísos prometidos e nirvanas criadores de feras, tanto quanto de mártires (os que se explodem com bombas), esvaziamento mantido e ampliado por sistemas e situações opressoras.


sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Hedonismo alienante / Desejos e barganhas

Toni Servillo em A grande beleza

Hedonismo alienante

Desejos e barganhas

4 MAIO 2015, 
VERA FELICIDADE DE ALMEIDA CAMPOS

Tudo que se quer ou que não se quer é passível de ser desejado ou rejeitado pelo outro. Este é um dos contextos onde as trocas e relacionamentos ocorrem. A comercialização de bens, de mercadorias é sempre uma troca, geralmente viabilizada pelo dinheiro. A moeda, os padrões de aquisição permitem a circulação de produtos e idéias nas sociedades.
A comercialização foi ampliada, atingindo também os relacionamentos humanos. É cada vez mais frequente trocar afetos e experiências sexuais, transformá-las em objeto de consumo, onde o preço varia em função de habilidades e enganos admitidos. É uma prática existente no dia a dia das sociedades, evidente entre prostitutas e michês, menos explícita ou não rotulada em outros relacionamentos. Muitos casamentos, uniões estáveis, amizades inabaláveis, compromissos seculares são acertos estabelecidos em barganhas não explicitadas.

Anita Ekberg em La Dolce Vita

O mundo moderno, no século XXI, facilita o que antes era problemático, quebra tabus, mas possibilita distorções: o prazer, o desejo podem ser realizados em uma rápida discagem ou digitação, conseguindo o que se precisa, na hora que se quer. Esta facilitação, frequentemente, impede a vivência autêntica, a vivência legítima. Tudo é produzido, até mesmo o desejo. Ao indivíduo só resta administrar e criar recursos: desde o dinheiro, às motivações para ter desejos e para realizá-los. São máquinas desejantes, como falavam Guattari e Deleuze, só que não mais resultantes de traumas e experiências anteriores, mas sim, guiadas por selos de garantia, slogans de felicidade, de liberdade sem preconceitos. Estes paraísos anunciados criam demandas, motivam. Os protagonistas não são apenas os considerados pervertidos, são, principalmente, curiosos motivados por ter experiências sem continuidade, sem compromisso, quase anônimas, apenas marcadas por prazer, onde o outro é transformado em um objeto, um produto a ser consumido, mesmo que isto implique em sua destruição após descarte.
O ser humano conseguiu encurtar a distância entre a fonte de produção e o consumo do produto, ao virar ele próprio, produto, produzido para produzir. Vivendo para o prazer que satisfaz, consequentemente apenas para realizar o que dá prazer, se autoconsome pelo posicionamento autorreferenciado, criado pela perda da dinâmica, pela inexistência do outro, reduzido a uma única dimensão: fonte de prazer. É o equivalente da síndrome autoimune, onde o próprio organismo se devora. Mercantilizar afetos, negociar relacionamentos e desejar satisfação é paradoxal, esvazia a própria barganha, cria autômatos dependentes do outro, assim como, automatizados dependentes da aleatória cotação de mercadorias: qualquer coisa serve e torna-se necessária. Uniões que acontecem em função de acertos, são, por definição, contingentes, consequentemente, flutuantes, e assim, para mantê-las, suge a necessidade de contratos, compromissos e ilusões. É uma perversão que também cria pontos de resistência, como por exemplo: esperar consideração, esperar ter prazeres no que é dado, no que é disponibilizado, mesmo que tudo seja realizado através de engano. Entrar neste processo requer constante verificação, requer garantias para assegurar novas barganhas; não há liberdade, não há amor, só existe ansiedade e compromisso.

Dona Flor e Seus Dois Maridos

Não se pode dar o que não se tem; não se pode ligar quando não existem elos; não é possível continuidade na dispersão; não é possível humanidade quando esta foi perdida nas trocas aliviantes, nas sedações alienantes dos desejos e possibilidades. É o império da automação, que dirige a maneira alienada, coisificada de se situar em relação ao outro. As drogas lícitas e ilícitas, as dependências afetivas, as insatisfações sexuais, o medo e o desespero são os sintomas resultantes e denunciadores de todo este processo de desumanização.