terça-feira, 4 de maio de 2021

Alberto Moravia / Os bons escritores


Alberto Moravia
David Levine


Alberto Moravia
OS BONS ESCRITORES

Os bons escritores são monótonos, como os bons compositores. Vivem para aperfeiçoar o problema que nasceram para compreender.



sábado, 1 de maio de 2021

Nomadland’ faz história no Oscar moldado para defender o futuro do cinema



Chloé Zhao recebe o Oscar de melhor direção por 'Nomadland' neste domingo, 25 de abril, em Los Angeles.


‘Nomadland’ faz história no Oscar moldado para defender o futuro do cinema

Longa levou as estatuetas de melhor filme, melhor direção e melhor atriz principal. Hollywood defendeu neste domingo a diversidade na indústria e a relevância do setor


LUIS PABLO BEAUREGARD
Los Angeles - 25 ABR 2021 - 23:26 COT

Hollywood defendeu neste domingo o futuro do cinema e a diversidade na indústria. Um dos principais motores do entretenimento quis mostrar porque esse setor ainda é relevante. A trama surge quando os cinemas são apenas uma vaga memória para bilhões de pessoas. 2020 foi o ano do coronavírus e para a indústria um ano de cadeiras vazias e expositores à beira da falência, causado pelo golpe do vírus na economia global.

Talvez tenha sido, em parte, o que levou os membros da Academia a escolherem como grande vencedor da noite um filme sobre os estragos da crise e a busca de um norte para o povo comum. Nomadland, da cineasta chinesa Chloé Zhao, consagrou-se na 93ª edição da premiação. Será um filme lembrado como o Oscar atípico da pandemia. “Veja nosso filme na maior tela possível. E, quando vocês puderem, coloquem o máximo de pessoas possível em uma sala escura para compartilhar essa experiência”, disse Frances McDormand, que também ganhou seu segundo Oscar de melhor atriz em quatro anos.

Zhao se tornou no domingo a segunda mulher a ganhar o prêmio de direção em uma noite que premiou especialmente mulheres e afro-americanos. “Isso é para qualquer pessoa com fé e que se apega à bondade que tem dentro de si”, disse a diretora, que trouxe para a gala algumas das pessoas que falam sobre sua vida na ficção. A última diretora a levar o prêmio foi Katheryn Bigelow, por Guerra ao terror, há 10 anos. Zhao é a primeira cineasta asiática e não branca a triunfar na categoria. São distinções em uma gala que não apenas mudou em suas formas, mas também tentou mostrar transformações de conteúdo. No total, 32% dos indicados esta noite eram mulheres, um aumento, ainda pequeno, se comparado aos anos anteriores. Esta foi a primeira vez que duas cineastas aspiraram ao Oscar. A outra candidata foi Emerald Fennell, que ganhou o primeiro Oscar da noite, de melhor roteiro original por Bela vingança, filme que ela rodou em apenas 23 dias.

Os produtores queriam adicionar surpresa com uma reviravolta inesperada. Depois de anos terminando a cerimônia com o maior prêmio, o de melhor filme, este ano eles queriam dar um final típico de Hollywood. O prêmio de melhor ator fechou a noite. Anthony Hopkins venceu pela interpretação de um velho sofrendo de demência em Meu pai, dirigido pelo dramaturgo francês Florian Zeller. Hopkins, que visitou o túmulo de seu pai no País de Gales neste domingo, não esteve presente na cerimônia, onde atualizou seu recorde no Oscar desde que venceu em 1991 por sua interpretação do canibal Hannibal Lecter. Meu pai é o primeiro longa-metragem de Zeller, um experiente homem do teatro que nega sua fama de romancista. Zeller recebeu de Paris o Oscar por sua adaptação para o cinema, prêmio que dividiu com o veterano Christopher Hampton, o roteirista que também venceu em 1988 por Relações perigosas.

O triunfo de Hopkins frustrou o que muitos consideravam natural, o reconhecimento póstumo de Chadwick Boseman, que morreu aos 43 anos em agosto do ano passado de câncer de cólon. O ator encerrou sua carreira interpretando Levee, um ambicioso trompetista da banda de Ma Raineys, uma poderosa cantora de blues. O filme da Netflix, A voz suprema do blues, conquistou os prêmios de figurino e penteado e maquiagem, que teve entre os vencedores o espanhol Sergio López-Rivera, maquiador pessoal da protagonista Viola Davis.

Antes da cerimônia, Glenn Close falou sobre a versão reduzida do tapete vermelho, do peso simbólico desta edição. “Fazemos parte de uma indústria que está se redefinindo, está se reinventando. E acho que de alguma forma isso será refletido esta noite”, disse a atriz, que saiu de mãos vazias pela oitava vez. “É muito menos barulhento”, disse Close, apreciando o número reduzido de convidados. Os indicados só puderam trazer um acompanhante e tiveram que se submeter a três testes de antígenos para comparecer à gala sem usar máscara. Close perdeu para a sul-coreana Yuh-Jung Youn, indicada por Minari – em busca da felicidade, e que proporcionou ao público um dos discursos mais engraçados da noite graças ao seu frescor.

As palavras de Youn refrescaram uma cerimônia rígida que reduziu a escala emocional e a potência. Os organizadores prometeram surpresas e uma linguagem visual nunca antes vista, sob comando do diretor Steven Soderbergh, que foi um dos produtores da gala. Além da grande sequência de abertura, uma longa caminhada de Regina King pela bilheteria da Union Station até o palco, a cerimônia ficou sem muito do que a Academia supostamente guardava com zelo para revelar esta noite. O toque épico estava ausente na Union Station, a última grande estação ferroviária construída nos Estados Unidos, onde mais de 150 filmes foram rodados, incluindo Blade Runner e Batman, de Christopher Nolan.

Em 2020, a bilheteria global arrecadou apenas 12 bilhões de dólares, uma queda de 72% que responde ao fechamento de cinemas. Ao mesmo tempo, o mercado de streaming cresceu 33% nos Estados Unidos e 30% no resto do mundo. Os assinantes desses serviços online cresceram 26% em 2020 em todo o mundo, ultrapassando um bilhão de pessoas pela primeira vez em plataformas como a Netflix, que liderou as indicações este ano (36, no total). Essa gigante de Hollywood ganhou alguns prêmios, mas nenhum nas principais categorias. Os sete de Chicago, de Aaron Sorkin, foi embora de mãos vazias. Outra de suas grandes apostas, Mank, de David Fincher ganhou o prêmio de melhor fotografia e design de produção.


quarta-feira, 28 de abril de 2021

A desconhecida vida de Anthony Hopkins, o vencedor do Oscar 2021 que aprendeu a ser feliz aos 75

 

Anthony Hopkins
Foto de James Mollison


A desconhecida vida de Anthony Hopkins, o vencedor do Oscar 2021 que aprendeu a ser feliz aos 75

Artista britânico, gigante da interpretação e literalmente um lorde, se tornou neste domingo o mais idoso a receber prêmio na categoria principal. Foi o corolário perfeito para uma carreira cheia de marcos, fracassos e de uma vida pessoal atormentada




Juan Sanguino
25 abril 2021

Quando em dezembro passado Anthony Hopkins (Port Talbot, País de Gales, 1937) comemorou em um vídeo do Twitter os seus 45 anos sem beber álcool, a revelação surpreendeu os seus seguidores. Sua imagem pública é a de um ator de máximo prestígio no teatro e no cinema, gentil cavalheiro do Império Britânico e, de uns anos para cá, o velhinho favorito da internet. A verdade é que Hopkins, que aos 83 anos bateu o recorde de idade como vencedor da categoria de melhor ator do Oscar por Meu pai, narrou em várias ocasiões a sua luta contra o alcoolismo, a depressão e os ataques de ira. E o remorso por ter abandonado uma filha recém-nascida. E seu ódio a Shakespeare e a tudo que é britânico. Senhoras e senhores, com vocês: o outro Anthony Hopkins.

“Lembro o primeiro dia de aula com aquele cheiro de leite estragado, canudinhos e casacos úmidos. Sentei lá, totalmente petrificado, e aquele sentimento permaneceu comigo durante toda a minha infância e adolescência”, contou à revista Playboy, sobre suas primeiras lembranças em Port Talbot, a localidade siderúrgica do sul de Gales onde cresceu. Os professores, os colegas e seus pais lhe repetiam que era tonto demais para qualquer trabalho. Nunca teve nenhum amigo e passava as tardes desenhando ou tocando piano. Às vezes não ia nem à própria festa de aniversário. “Eu me sentia o mais idiota da classe, talvez tivesse problemas de aprendizagem, mas o fato é que eu não conseguia entender nada. Minha infância foi inútil e inteiramente confusa. Todo mundo me ridicularizava”, revelou ao The New York Times.


Em 1968, deixou a primeira mulher, com quem tinha um bebê de quatro meses, porque percebeu que era “egoísta demais” para criar uma família. A um jornalista do The Guardian, há três anos, afirmou vir “de uma geração na qual os homens eram homens. E a parte negativa disso é que não nos damos bem com receber amor ou dá-lo. Não entendemos”. Apesar de uma tentativa de aproximação nos anos noventa, Hopkins nunca teve relação com sua filha, e hoje não sabe nem sequer se tem netos.

Durante os anos setenta, ganhou certa fama de “ator temperamental”. Sofria ataques de ira durante as filmagens, chegava a sair no braço com os diretores, ou sumia sem dar explicações. Anos depois, ele mesmo admitiria que, como não queria beber durante a jornada de trabalho, sua agressividade aflorava porque sempre estava de ressaca. Em 29 de dezembro de 1975, amanheceu num motel de Phoenix sem ter a menor ideia de como tinha chegado lá. Nunca mais voltou a beber. “Admiti que tinha medo, o que me deu uma liberdade maravilhosa. Eu me sentia inseguro, paranoico, aterrorizado. Temia não servir para nada, que não me encaixava em nenhum lugar”, confessou à The New Yorker no mês passado.

Tentou apaziguar seu caráter mediante a sobriedade, mas seus demônios continuavam por trás dele. Às vezes, entrava no seu carro e dirigia durante semanas; outras vezes passava dias sem dirigir a palavra a ninguém. Em 1981, quando já tinha ganhado dois Emmys, seu pai morreu. Nas últimas horas dele, Anthony aproveitou para lhe dizer que o amava (era a primeira vez que dizia isso a alguém na vida), mas só se atreveu a beijá-lo depois de morto. “Ao recolher seus pertences, encontrei um mapa dos Estados Unidos. Sempre quis ir lá. Morreu sem ir”, lamentaria Hopkins. O médico lhe informou que o coração do homem tinha se inchado por causa de anos e anos de esforço. “Quando penso em como meus pais se escravizaram a vida toda numa padaria para ganhar uma miséria... para mim foi tudo fácil demais. Tenho vergonha de ser ator. Deveria estar fazendo outra coisa. Atuar é uma arte de terceira. Pagam-nos muito e dão muita trela para nós. Gosto da atenção e do dinheiro, mas me sinto como um vigarista”, lamentou-se no The Guardian.

Apesar do sucesso de Magic, O Homem elefante e Rebelião em alto-mar, sua carreira em Hollywood não decolava, e teve que voltar a Londres. “Essa parte de minha vida acabou, é um capítulo encerrado. Suponho que terei que me conformar em ser um ator respeitável no teatro e fazer trabalhos respeitáveis na BBC durante o resto da minha vida”, declarou na época. Uma tarde foi ao cinema ver Mississippi em chamas e sentiu inveja, raiva e frustração por não ter uma carreira como a de Gene Hackman. Dias depois, seu agente norte-americano ligou para ele: Hackman tinha recusado o papel de Hannibal Lecter, e ele era a segunda opção.

Anthony Hopkins e Jodie Foster seguram o Oscar que cada um ganhou por seu papel em ‘O silêncio dos inocentes’, em 1992.
Anthony Hopkins e Jodie Foster seguram o Oscar que cada um ganhou por seu papel em ‘O silêncio dos inocentes’, em 1992. JOHN T. BARR / GETTY IMAGES


Bastaram a Hopkins 17 minutos em O silêncio dos inocentes para entrar para a história do cinema. Aquele triunfo lhe trouxe um Oscar, um título de sir e a percepção coletiva de ser o que o grande público chama de “um senhor ator”. Mas seu maior triunfo foi pessoal. “Queria curar minha ferida interna, queria vingança. Queria dançar sobre as tumbas de todos os que me fizeram infeliz. Queria ser rico e famoso. E consegui”, gabava-se na época na Vanity Fair.

Durante os anos noventa, Hopkins era o ator mais prestigioso do mundo. Interpretou personagens históricos que, a priori, não seriam seus (Nixon, Picasso), contribuiu com distinção para o “cinema de porcelana” (Retorno a Howard’s End, Terra das sombras, Vestígios do dia), e sua definição do trabalho do ator entrou para o folclore de Hollywood: “Seja pontual, aprenda os diálogos e tenha certeza de que seu agente recebeu o cheque”. O público assumiu que Hopkins era um senhor sensível e retraído como os personagens que interpretava, mas ele corrigia essa percepção: “Posso ser um tirano. Sem escrúpulos. Eu quero o que quero. Sou muito, muito egoísta. Algo me atormenta, não sei o que é, mas me provoca muita inquietação”, confessava em 1996. “Fui num psicólogo e acabei chorando na primeira sessão. Senti tanta vergonha. Ensinaram para mim que os homens não choram”. Não voltou mais à terapia.

Em 1993 Hopkins teve uma aventura com uma ex-namorada de Sylvester Stallone que conheceu nos Alcoólicos Anônimos, e sua esposa se mudou para Londres. “Jenni não entende. Adoro estar em Los Angeles. É a terra do Mickey Mouse! Tem tanto dinheiro. Mais de que você poderia sonhar. Ela acha que parece uma cidade de brinquedo, com um entusiasmo e efusão excessivos. Pois a mim é isso que me maravilha”, contava o ator. Seu novo status como estrela, ao menos, lhe permitia conseguir o que queria sem precisar gritar nem encarar ninguém. “Agora basta pedir amavelmente ao produtor”, sugeria.

Durante as entrevistas promocionais de No Limite, um thriller coprotagonizado por Alec Baldwin e um urso, quando era perguntado sobre o arco do seu personagem, Hopkins respondia: “Não tenho a mínima ideia do que você está falando”. Quando lhe perguntavam o que o atraíra a determinado projeto, costumava responder: “O dinheiro”. Era como queria desmontar a imagem que o público criou dele. O lorde britânico com boas maneiras de repente enfrentava seus compatriotas (“Se amam tanto esse lugar sujo, chuvoso e cheio de merda de cachorro nas calçadas, que fiquem. São um bando de fracos, chorões, chatos, invejosos que só são felizes se estiverem desgraçados. Estão obcecados com que o sucesso não me suba à cabeça, e raivosos porque eu consegui fugir de lá. Que se fodam”).

Anthony Hopkins e Antonio Bandeiras em ‘A máscara do Zorro’ (1998). Hopkins se referia ironicamente a papéis desse tipo como sendo os que “dispensam interpretação".
Anthony Hopkins e Antonio Bandeiras em ‘A máscara do Zorro’ (1998). Hopkins se referia ironicamente a papéis desse tipo como sendo os que “dispensam interpretação".RONALD SIEMONEIT / GETTY IMAGES


As eventuais concessões comerciais (A máscara do Zorro, ou uma cena em Missão impossível 2, pelas quais ganhou 26 e 13 milhões de reais, respectivamente) começaram a ser a norma com franquias como O lobisomem, Thor e Transformers. Filmes em cujos roteiros Hopkins anotava a sigla NRA (de “no acting required”, ou “sem necessidade de interpretação”). Durante a rodagem de Transformers, Mark Wahlberg o incentivou a abrir uma conta no Twitter, uma rede social na qual hoje Hopkins parece se divertir mais do que nenhum outro usuário. Seus vídeos cotidianos, a meio caminho entre a crônica de costumes e o dadaísmo, causam tamanha sensação que ele abriu também um canal no TikTok. Lá Hopkins publicou vídeos dançando músicas de Drake, do Fleetwood Mac com seu gato e de Elvis Crespo com sua mulher, a colombiana Stella Arroyave. Ela o convenceu a compartilhar suas composições musicais e seus quadros com o mundo. As críticas dos especialistas, além disso, foram positivas.

Perto de completar 70 anos, começou a sonhar todas as noites com Gales e decidiu visitar sua terra mais frequentemente. Naquela época também dirigiu um filme, Slipstream – Um sonho dentro de um sonho, que satirizava Hollywood. Hopkins confessou que, depois de chegar ao topo, descobriu apenas que “não tinha nada lá em cima”. “Pelo amor de Deus, eu deveria estar em Port Talbot. Ou morto, ou trabalhando na padaria do meu pai”, refletia. O maior alívio em sua maturidade foi um diagnóstico de Asperger leve, uma condição no espectro funcional do autismo que afeta as interações sociais. Essa descoberta, explica, o ajudou a entender melhor a si mesmo e a explicar por que passou a vida toda querendo estar sozinho.

O ator afirma que nunca foi tão feliz como depois de completar 75 anos. Tanto que até arrumou um amigo, que ainda por cima é ator: Ian McKellen, com quem trabalhou no filme O fiel camareiro, da BBC, em 2015. A experiência o estimulou a voltar a Shakespeare, também com a BBC, em Rei Lear. E durante a filmagem finalmente compreendeu por que tanta gente gosta de Shakespeare. Ultimamente sonha com elefantes, como os que viu quando criança com seu avô no clássico de aventuras Elephant boy, de 1937. “Também penso muito em um dia que passei com meu pai na praia”, contou à Interview. “Eu estava chorando porque um doce que ele tinha comprado para mim havia caído na areia. Penso naquele menino medroso, que estava destinado a crescer e virar um idiota na escola. Atrapalhado, solitário, raivoso. E quero dizer a ele: ‘Não se preocupe, garoto, a gente se virou bem’.”Esta reportagem foi atualizada para refletir o resultado do Oscar.

sexta-feira, 2 de abril de 2021

Scott Fitzgerald / O estranho caso de Benjamin Button


F. Scott Fitzgerald
O estranho caso de Benjamin Button
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues



I
No longínquo ano de 1860 a maneira correta de nascer era em casa. Presentemente, segundo me dizem, os sumo-sacerdotes da medicina decretaram que os primeiros vagidos dos recém-nascidos devem ser soltos no ar antiestético de um hospital, de preferência de um hospital em voga. Por isso, Mr. e Mrs. Roger Button estavam cinqüenta anos à frente do estilo da época quando, num dia do Verão de 1860, decidiram que o seu primeiro bebê nasceria num hospital. Jamais se saberá se este anacronismo teve alguma influência na espantosa história que estou prestes a contar. Contarei o que aconteceu e deixarei que julguem por si mesmos. Os Roger Button ocupavam uma posição invejável, tanto social como financeiramente, na Baltimore de antes da guerra. Eram aparentados com Esta Família e com Aquela Família, o que, como todos os habitantes do Sul sabiam, lhes conferia o direito de pertencerem àquele enorme pariato que povoava largamente a Confederação. Esta era a sua primeira experiência relacionada com o fascinante velho costume de ter bebês. Mr. Button sentia-se, naturalmente, nervoso. Esperava que fosse um menino para poder enviá-lo para o Yale College, no Connecticut, em cuja instituição ele próprio fora conhecido durante quatro anos pela alcunha um tanto quanto óbvia de «Bainha».

sexta-feira, 19 de março de 2021

Leila Slimani / “Não se deve ignorar que a miséria provoca violência e loucura”



Leïla Slimani

Leila Slimani: “Não se deve ignorar que a miséria provoca violência e loucura”

Um dos principais nomes da literatura em francês, marroquina é convidada da Flip deste ano


Álex Vicente
12 MAR 2018 - 17:21 COT

Seu avô não via contradição nenhuma entre observar o jejum do Ramadã e depois se fantasiar de Papai Noel para os netos. À mesa familiar se sentavam uma avó alsaciana que falava alemão e um tio judeu a quem a Resistência francesa protegeu durante a Segunda Guerra Mundial. Um avô argelino que havia sido coronel do Exército colonial convivia, ombro a ombro, com outra avó de religião católica, mas que havia peregrinado a Meca. Às vezes brigavam, mas quase sempre conseguiam conviver em paz, inclusive entre risos. Leila Slimani (Rabat, 1981) sonha com uma sociedade que se pareça com essa família. 

Jornalista e autora de vários artigos onde se opõe com virulência ao fundamentalismo islâmico, também assinou dois romances. O último, Canção de Ninar, que será lançado no Brasil pelo selo Tusquets nesta semana, é inspirado no caso real de uma babá que matou as crianças de quem cuidava, ganhou de forma surpreendente o prêmio Goncourt de 2016, fazendo com que Slimani se tornasse da noite para o dia um dos nomes mais promissores das letras francesas. Não à toa, Slimani é uma das convidadas da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontecerá entre os dias 25 e 29 de julho. A entrevista a seguir aconteceu em Paris, onde a autora, de educação muçulmana, porém francófona – admite falar mal o idioma árabe –, chegou aos 17 anos para prosseguir seus estudos. Amável, porém reservada, cansada da atenção constante que desperta desde que recebeu o importante prêmio literário francês, afirma que preferiria terminar seu novo ensaio, sobre a vida sexual dos magrebinos, a passar os dias concedendo entrevistas. Diz ter um lema que norteia sua vida: “Minha pena é minha arma”.

Pergunta. O que mudou com o prêmio Goncourt?

Resposta. Agora estou mais ocupada e se presta mais atenção ao que faço. Mas, basicamente, não mudou nada. Nem minha vida nem minha pessoa. É uma honra e uma alegria, mas tento não me tomar por alguém mais importante do que sou. O fundamental é continuar trabalhando. Tenho só 35 anos [agora 36] e toda uma vida pela frente, que penso dedicar à escrita.

P. O prêmio não a fez se sentir legitimada?

R. Não. A literatura é um ofício dominado pela dúvida. Ganhar um prêmio, por mais importante que seja, não imuniza a pessoa contra escrever um romance muito ruim. Por outro lado, é crucial conservar esse sentimento de ilegitimidade, porque é um motor na escrita e na vida. É o que faz você seguir em frente. Perder esse sentimento de impostura seria cair numa armadilha. Para os escritores, essa angústia não é nociva.

P. Depois de receber esse reconhecimento, você declarou que via nele uma tripla dimensão simbólica, por ser mulher, jovem e magrebina.

R. Na verdade, não quero ser símbolo de nada. Os símbolos são imóveis, como as estátuas. E eu não gosto das estátuas. Prefiro ser um modelo ou um exemplo. Graças a esse prêmio talvez haja quem diga a si mesma que ser uma mulher jovem de origem estrangeira não é um obstáculo num mundo como o da literatura, tradicionalmente dominado por homens brancos e mais velhos.

P. Você teve modelos?

R. Quando se escreve, nem sempre é bom tê-los. Adoro Tchekhov, Zweig e Beauvoir, mas quando você se põe a escrever não pode observá-los de longe, com admiração, como se fosse uma criança pequena. Eu diria que meus verdadeiros modelos foram meus pais. Ensinaram-me o que era o humanismo, o respeito pela dignidade humana. Incutiram-me que cada ser é merecedor de respeito, seja ele branco ou negro, velho ou jovem, homem ou mulher. Também me transmitiram o pudor com relação às opiniões políticas e religiosas, a humildade de não aspirar a obrigar os outros a pensarem igual a você.

P. Apesar das diferenças de estilo, forma e estrutura, seu livro parece beber da literatura do século XIX, quando autores como Balzac, Hugo e Zola adotaram Paris como observatório das diferenças sociais.

Leila Slimani: “Não se deve ignorar que a miséria provoca violência e loucura”

R. São referências fundamentais para mim. Graças a eles, quando eu vivia em Rabat soube o que era Paris antes de colocar os pés nela. Para mim é impossível contar o que é Paris sem recorrer a esses autores. Mas, ao mesmo tempo, acredito que não foram uma referência direta. Não os reli para escrever Canção de Ninar, optei por uma escrita mais depurada e menos descritiva. Mas compartilho da ideia que Zola e Balzac apregoaram: todo romancista deve observar os seus contemporâneos e deixar um rastro do que foi a sua época.

P. Quando você observa os seus contemporâneos, o que vê?

R. Vejo uma grande contradição entre as palavras e os fatos. Vejo uma sociedade dividida entre as boas intenções, favorável à diversidade e à igualdade, e uma série de estratos muito antigos, mas plenamente vigentes: a hierarquia social, a luta de classes, a condição das mulheres e sua maneira de confrontar a maternidade… No livro, tentei misturar umas coisas com as outras, sobrepor tempos e problemas diferentes, e depois ver o que acontece.

P. Considera que a desigualdade e a miséria são iguais a dois séculos atrás?

R. Certamente. Quando a gente lê livros sobre Paris ou Londres do século XIX, tem a impressão de que a pobreza e a indignidade eram muito maiores. Mais visíveis, e também mais terríveis. Hoje a mortalidade infantil já não é a mesma, e as crianças são proibidas de trabalhar, mas isso não significa que não continuem acontecendo coisas muito preocupantes.

P. Por exemplo?

R. Acabo de voltar de San Francisco, a cidade que, proporcionalmente, tem o maior número de indigentes do mundo. Que um país tão rico, com tantos recursos e tanto espaço permita isso… E o mais terrível é que eles estão aí, mas se tornaram quase invisíveis. Dormem em plena rua, mortos de fome e drogados, enquanto seus concidadãos passam ao largo, sorvendo um café de seis dólares comprado no Starbucks. Existe uma incrível indiferença com uma parte da população que vive quase como na Idade Média. Só alguns quilômetros os separam do Vale do Silício, um dos lugares mais ricos do mundo, de onde nos dizem sem parar que, graças à tecnologia, todos os problemas serão erradicados. A verdade é que para mim isso parece atroz.

P. No livro, você sugere que essa miséria social, embora nunca justifique um crime, pode ajudar a entendê-lo.

R. De fato, o termo “justificar” é complicado. Mas o trabalho de um artista ou um escritor consiste, como você observa, em tratar de compreender. Não existem razões simples ou binárias para explicar o que acontece no meu livro, mas não se deve ignorar que a miséria provoca violência e loucura, e que pode levar a cometer atos terríveis. Quando alguém fere um animal, este se volta contra seu agressor e é capaz de devorá-lo. Inclusive quando está domesticado.

P. Esse discurso causa rejeição, a começar pela classe política. Depois dos atentados de novembro de 2015 em Paris, o então primeiro-ministro Manuel Valls disse que “tentar compreender é uma forma de começar a desculpar”.

R. Acho muito grave, mas isso não acontece só na França. Qual líder europeu fala hoje sobre as consequências da pobreza? Qual político diz, na Espanha, na Itália ou na Grécia, que essa miséria é suscetível de nos enlouquecer ou de nos levar ao suicídio? O que sabem os nossos políticos dessa miséria?

P. E você, o que sabe dessa miséria?

R. Não a conheço na carne. Mas, como todo escritor, não preciso tê-la vivido pessoalmente para contá-la. Trabalhei muito tempo como jornalista e estive nos lugares. Observei e perguntei. E, sobretudo, aprendi a escutar.

P. Você já disse que cresceu “numa bolha”. A que se refere?

Não tenho problemas em reconhecer que sou covarde e que calo certas coisas por medo de viver uma surpresa desagradável

R. Venho de um ambiente burguês e sem problemas de dinheiro. Passei minha infância e adolescência em um país pobre e quase ditatorial, o Marrocos de Hassan II, mas não estava cega ao que me cercava. Minha mãe era médica e me falou desde pequena dessa miséria. Desde muito pequena eu tinha consciência de que havia gente em situação diferente, que precisava implorar para ter direito a algo. O que quero dizer é que não éramos burgueses idiotas e descerebrados, que também existem.

P. Você recebeu uma educação liberal, mas com contradições. Por exemplo, disseram-lhe que você era dona do seu corpo, mas era proibida de passear a sós com um homem…

R. Essa situação esquizofrênica é própria de todos os países muçulmanos. Existe um abismo entre a esfera pública e a privada. Em público, a pessoa deve se portar de maneira piedosa, segundo a regra moral, guiada por Deus e a religião. Mas, em casa, você pode fazer o que bem entender. Praticar sexo homossexual, usar drogas, contratar prostitutas. Desde que os outros não saibam, não há nenhum problema.

P. Não existe essa dupla moral também no Ocidente?

R. Claro que sim. A diferença é que em Marrocos a pessoa vai para a cadeia por exercer a prostituição ou ser homossexual. O preço que se paga não é comparável. Se meus pais me proibiam certas coisas, não era por motivos morais, e sim legais.

P. Foi difícil se libertar quando chegou a Paris, aos 17 anos?

R. Não, foi um processo muito rápido. Acho que eu estava pronta para me libertar [risos]... A maior diferença foi sentir a liberdade na esfera pública. Sentir-me como um cidadão com uma série de direitos que você pode fazer valer quando precisar.

P. Canção de Ninar também fala da maternidade no século XXI, da dificuldade de ser uma boa mãe e uma boa profissional. É um desafio impossível?

R. Minha geração é a primeira que cresceu acreditando que poderia fazer tudo ao mesmo tempo. Quando você é pequena, acredita nisso. Quando cresce, vê que é bem mais difícil. Se for possível fazer tudo, é com muitos sacrifícios envolvidos. A energia que dedicamos a uma atividade não podemos investi-la na outra. O que eu me pergunto é se a igualdade real passa por viver a mesma vida que um homem, ou se a revolução feminista deveria implicar uma mudança global que imponha uma organização diferente do trabalho e da família. A família continua sendo regida por esquemas de outra época, por hierarquias sociais e modelos pós-coloniais que deveríamos superar.

P. Seu primeiro ofício foi o de jornalista. Você disse certa vez que o deixou por ser “um trabalho muito escravo, no qual não se envelhece bem”.

R. Trabalhar numa redação até os 70 anos não era para mim. É um trabalho que pode enlouquecer a pessoa, porque a gente vê coisas muito fortes diariamente. Eu sou muito sensível. Teria me quebrado ao meio. Em todo caso, ajudou-me muito para escrever meus romances. Venho da escola da reportagem, o que ajuda você a se apagar da paisagem para se limitar a observar. A desenvolver um olhar agudo sobre as pessoas e os lugares. A entender que um gesto, uma roupa ou uma maneira de se sentar podem transmitir muita informação.

P. Você escreveu que nestes tempos conturbados o papel da literatura consiste em fornecer “complexidade e ambiguidade” a um mundo que as rejeita.

A literatura é mais necessária que nunca em um mundo que quer transformar tudo em uma superfície lisa

R. A literatura é um espaço de liberdade imenso, onde se pode dizer tudo, descolando-se das regras morais. Nesse sentido, acho-a mais necessária que nunca. Ela é capaz de opor resistência a um mundo que quer transformar tudo em uma superfície lisa, articular todo conflito num registro em preto e branco. A literatura serve para ressuscitar o humano, que sempre passa pelos tons de cinza.

P. Após publicar seu primeiro romance, você recebeu insultos nas redes sociais por parte de alguns círculos do islamismo. Acusavam-na de ser uma magrebina vendida ao Ocidente.

R. Sim, mas o que mais irritava os fundamentalistas era que eu escrevesse ficção. Consideram que o romance é uma invenção vil, porque se fundamenta numa mentira. Parece surrealista, mas faz certo sentido. Quando ouço um fundamentalista [cristão] opinar sobre a religião, sempre me fala da Virgem e do paraíso como se tivessem existido de verdade. Não percebem que são histórias. E, quando você se atreve a lhe dizer que a Virgem certamente não era virgem, eles enlouquecem. Não têm nenhuma percepção do que é a ficção, o que me parece terrível.

P. Você apoia o modelo ocidental?

R. Não, o que defendo é o desenvolvimento, seja ocidental ou não. Por acaso o Ocidente é mais evoluído, mas esse crescimento não pertence a ninguém em especial. Os ditadores árabes entenderam que, educando as pessoas, corriam o risco de serem derrubados. O fracasso dos países árabes se explica por essa ausência de educação.

P. Você defende esse “islamismo iluminista” pregado por intelectuais como Abdennour Bidar e Malek Chebel?

R. Não, eu defendo o iluminismo puro. Para mim a religião não interessa. Não é problema meu. A religião tem que ser algo íntimo. Se uma mulher quer se trancar na sua casa e colocar uma barraca de camping na cabeça, que faça isso. O que não quero é que me importunem no espaço público. Quando ouço falar de islamismo iluminista não entendo muito bem a que se referem. A religião é mais sombria que luminosa, em especial quanto aos direitos das mulheres. E acontece em todas as religiões, não só no islamismo. É como essa gente que se extasia com o papa Francisco: permitam-me recordar-lhes que ele continua sendo contra o preservativo e o casamento dos homossexuais. Com esse islamismo iluminista acontece o mesmo: não obrigar a sua mulher a colocar o niqab não faz de você um ilustrado.

P. Quando você enfrenta o islamismo em seus artigos e os intitula com frases como “Fundamentalistas, odeio vocês”, você sente medo?

R. Claro que tenho medo. Não sou uma mulher muito corajosa. Eu me preocupo, porque tenho pais e filhos. E porque vivo num mundo onde, às vezes, as ameaças são levadas a cabo. Não tenho problemas em reconhecer que sou covarde e que calo certas coisas por medo de viver uma surpresa desagradável.

P. Qual é o grande desafio deste século com relação às questões de identidade?

R. Bom, eu não acredito na identidade. Não devemos deixar que esse conceito nos defina. Para mim, a identidade é o que alguém transmite à geração que vem depois. Minha identidade é o que deixarei para o meu filho e, muito em breve, para a minha filha. O que ficará de mim são as ideias que lhes transmitirei.

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