quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Abstinência de álcool agravou psicose de Van Gogh

 


Abstinência de álcool agravou psicose de Van Gogh

Estudo feito por psiquiatras e neurologistas nos Países Baixos mostra que a bebida e a desnutrição acentuaram os transtornos mentais do pintor


ISABEL FERRER

Haia - 05 NOV 2020 - 09:02 COT

Vincent van Gogh pintava sem parar, comia tão mal que ficava desnutrido, fumava muito e dormia pouco, e sofreu episódios de psicose derivados do delirium tremens, a fase aguda da síndrome de abstinência do álcool. Ocorreu depois de cortar a própria orelha esquerda e ser internado em um sanatório, onde não podia beber. O frenesi no qual estava imerso deixou um famoso legado artístico, mas que literalmente lhe custou a vida, em 1890. Uma nova pesquisa sobre seu estado mental, feita por uma equipe de psiquiatras e neurologistas dos Países Baixos, mostra que, além dos surtos psicóticos, ele pode ter sofrido vários distúrbios com sintomas associados aos transtornos de personalidade borderline e bipolar. Todo isso exacerbado por seu alcoolismo e sua alimentação ruim. Publicado na revista International Journal of Bipolar Disorders, o estudo se apresenta como o mais amplo já feito sobre o assunto e relata que o estado do pintor se agravou, com momentos de depressão severa da qual não conseguiria se recuperar, o que explicaria seu suicídio.

Analisada com a perspectiva do tempo, a morte de Van Gogh foi lenta e visível a todos, e a amarração vital da pintura não foi capaz de evitá-la. Entretanto, suas aparentes oscilações – que o levou a ter bons amigos entre seus colegas, ao mesmo tempo em que rompia violentamente sua relação artística com o pintor francês Paul Gauguin, em 1888; a pintar sem freio durante dias, sustentado apenas pela bebida e o café; a se entregar com lucidez e carinho ao seu irmão, Theo, a quem escreveu centenas de cartas – escondia algo mais. Desde que se suicidou, na localidade francesa de Auvers-sur-Oise, proliferaram teorias sobre seu estado mental, e os médicos que o atenderam chegaram a várias conclusões. Felix Rey, de quem foi paciente em Arles (França) entre 1888 e 1889, diagnosticou uma “alienação transitiva” depois do corte da orelha. Jules Urpar, chefe de Rey, acrescentou “um ataque maníaco agudo com delírio generalizado”. Em Saint-Rémy, onde foi internado em 1889, o doutor Théophile Peyron falou de “ataques de epilepsia separados por intervalos longos”.

Para a nova análise, coordenada pelo psiquiatra holandês Willem A. Nolen, os pesquisadores do Hospital Universitário de Groningen entrevistaram três historiadores da arte especialistas em sua correspondência e consultaram os prontuários médicos da época. Revisaram também as cartas do pintor e consideram pouco provável que Vincent tivesse esquizofrenia. Tampouco porfiria, uma doença metabólica que provoca uma disfunção do sistema nervoso, ou neurosífilis, uma infecção bacteriana da medula espinhal ou do cérebro, ocorrida quando se teve a doença sexualmente transmissível sem tratamento durante anos, e que foi o que matou Theo. Não se convencem de que tenha se intoxicado com o monóxido de carbono dos lampiões a gás, e duvidam a respeito de uma possível epilepsia. “O mais provável é que Van Gogh sofresse de comorbidades [vários transtornos associados a um primário]. Desde sua juventude, deve ter desenvolvido traços de um distúrbio subjacente de limite da personalidade, junto com o bipolar. Agravada pelo álcool [bebia absinto, que pode ter até 70% de álcool], a desnutrição e tensões psicossociais, a crise resultante derivou em sua mutilação da orelha. Depois, pode ter sofrido delirium tremens pela abstinência forçada da bebida, por estar internado, e vários episódios depressivos severos com traços psicóticos”, diz Nolen por telefone. O artista se matou com um tiro em 29 de julho de 1890, aos 37 anos, “e embora acreditemos que teve problemas psicológicos desde a juventude, a diferença é que hoje dispomos de tratamentos que teriam facilitado sua existência”, continua. E depois acrescenta: “Suas relações com as mulheres foram complicadas e só vendeu um quadro em toda a sua vida, apesar do muito que pintou. Depois o alcoolismo agravou seus problemas mentais”.

Para os pesquisadores, o próprio Van Gogh não entendia o que lhe acontecia. Escreveu a Theo sobre “uma febre nervosa mental ou loucura, não sei bem como chamar”. Quando o pintor residia em Amsterdã, em 1877, escreveu: “Minha cabeça arde frequentemente e estou confuso e tenho um grande temor”. Também se descreveu como um homem capaz de cometer loucuras e depois se arrepender, que tinha “os amores mais impossíveis”, dos quais saía “envergonhado”. Nolen salienta que suas cartas não eram uma lista de sintomas destinada ao médico, e sim a parentes e amigos, “e é possível que minimizasse sua importância ou a suavizasse para não alarmá-los”. Em um autorretrato assinado em 1889, que pertence à coleção do Museu Nacional de Oslo (Noruega), Van Gogh acabava de adoecer e se mostra com a cabeça rapada e olhar de esguelha para o espectador. Os historiadores da arte acreditam que tentou refletir seu estado. Os pesquisadores resenham essa versão e concluem seu próprio estudo com estilo: “Queremos salientar que não só foi um pintor grande e influente, e sim um homem inteligente, com enormes doses de força, resistência e perseverança. Que só deixou de criar durante os episódios mais severos de psicose”. A desordem, apaixonada, de Van Gogh.





quarta-feira, 25 de novembro de 2020

‘O Gambito da Rainha’ / A série que mostra o xadrez como nunca antes na televisão


 


‘O Gambito da Rainha’, a série que mostra o xadrez como nunca antes na televisão

Adaptação do clássico de Walter Tevis retrata uma jovem prodígio que abre caminho no competitivo mundo do esporte enquanto luta para não sucumbir aos seus vícios


Laura Fernández
Barcelona, 13 nov 2020

Assim como no clássico de Stefan Zweig Novela de Xadrez, Walter Tevis ―um escritor excessivamente atraído pelo tormento do gênio e pela condição de outsider―, construiu seu romance The Queen’s Gambit (“o gambito da rainha”), onde narra os avatares dickensianos de uma jovem prodígio e professora de xadrez, baseando-se no duelo sempre apetitoso entre o irracional e o racional. O muito humano e o nada humano. Em seu caso, diferentemente de Zweig, fez isso tomando partido por uma irracionalidade desenfreada que lhe permite explorar a conexão entre gênio e loucura, ou entre dom e psicose. Tevis entendia o talento como algo às vezes insuportável, algo que exige um sacrifício, como a famosa abertura, o gambito ―um dos movimentos no xadrez―, que dá nome ao romance no qual se baseia O Gambito da Rainha, a nova série da Netflix.

Viciante e trepidante ―pelo menos a partir do segundo capítulo, quando a vida da protagonista, Beth Harmon, dá uma guinada longe do isolamento do orfanato―, a série é estrelada por uma Anya Taylor-Joy (O Segredo de Marrowbone) à altura do hieratismo da personagem, tão marciana como o David Bowie que protagonizava a adaptação do outro grande clássico de Tevis, O Homem que Caiu na Terra. Com seis capítulos, a série é, ao mesmo tempo, um retrato do submundo do xadrez ―esse universo paralelo com suas próprias estrelas, e que o próprio Tevis conhecia bem (embora tenha sido apenas um jogador de terceira categoria)― e um bizarro coming of age que toma o pulso feminista de uma época em que um espaço tão fechado como o do xadrez parece presa na tempo. Mas há mais do que isso. Muito mais. A relação entre Harmon (Taylor-Joy) e sua mãe adotiva, Alma (Mariele Heller), por exemplo, é puro fogo maldito.

Porque Harmon não se limita a ser um gênio, ela é um gênio maltratado. Filha de uma mulher que também é um gênio (neste caso, da matemática), totalmente doida ―a mãe bate o carro, com ela e a menina dentro, no início da série, e some do mapa―, Beth passa a infância em um orfanato, onde acontecem duas coisas com ela: descobre o xadrez, graças a um zelador que joga sozinho em um porão, e fica dependente de tranquilizantes, que na década de 1950 pareciam totalmente indicados para crianças. As duas coisas ficarão unidas para sempre no cérebro ao mesmo tempo matemático e intuitivo da menina Beth, que daí em diante necessitará de qualquer tipo de entorpecente ―álcool, comprimidos― para sentir que pode suportar a pressão que, na verdade, ela mesma exerce contra si. Porque ela é o verdadeiro rival a ser vencido. Quando estuda, não estuda as fraquezas de seu adversário, e sim suas próprias fraquezas.

E faz isso para se tornar invencível. Para controlar o incontrolável. “Gosto do xadrez”, diz Harmon à jornalista da Life que vai entrevistá-la quando ganha seu primeiro torneio estadual, “porque é um mundo em 64 casinhas. Um lugar para se sentir segura. Previsível, controlável”. Enquanto o mundo exterior e sua própria condição de mulher são difíceis de compreender ―outra constante na obra de Tevis, a do outsider, que em O Homem que Caiu na Terra era, literalmente, um extraterrestre que tentava imitar o comportamento humano―, quando Beth joga xadrez ela está, de certa forma, em casa. Por isso, diz em determinado momento que o xadrez “não é só competitivo, também pode ser precioso”, um mundo dentro do mundo, a família que nunca terá, ou aparecerá para ela como uma miragem. Um dos melhores jogadores do mundo, Garry Kasparov, afirma que nunca tinha visto uma série que respeitasse tanto as estratégias e os tempos do xadrez: diz que é a mais realista das pouquíssimas séries já feitas sobre um esporte que, definitivamente, é pouco visual.

Embora complicada e cruel no início, a relação de Beth com sua mãe adotiva, uma alcoólatra inveterada, decola no momento em que ela decide que, apesar de tudo, pode tentar ser “uma mãe”, e consegue ser uma excelente, porque faz o principal: respeita sua filha e acredita cegamente nela. Sua relação, a de uma dupla de desajustadas tentando não se adaptar a nada, nem a elas mesmas, é uma pequena joia dentro de uma produção que dispara contra o machismo que rodeia tudo que tem a ver com o mundo do xadrez ―principalmente nas camadas mais baixas, onde a prepotência da mediocridade é insuportável―, e que, como relata com perfeição a mestra enxadrista Judit Polgár, nascida em 1976 e considerada a melhor jogadora da história, no documentário Los Otros: Judit Contra Todos, continua totalmente vigente.

Eis aqui a razão pela qual o livro de Tevis, cedo ou tarde, teria de ser adaptado para a tela. Porque, embora pareça um de tantos produtos da Netflix, as tentativas de adaptar O Gambito da Rainha datam de 1983, ano em que um jornalista do The New York Times comprou os direitos. A morte de Tevis pouco depois impediu que isso ocorresse, mas, menos de uma década mais tarde, Allan Scott, o mesmo roteirista que aparece nos créditos da produção da Netflix, comprou esses direitos, e escreveu um roteiro de cinema transformado em série em parceria com Scott Frank, que adaptou Minority Report: A Nova Lei para Spielberg. O resultado acerta as contas, de forma notável e principalmente apreciável, com todos os fantasmas do jogo que é considerado o mais difícil do mundo, e de quebra com o preço a pagar ―sempre existe um― pelo talento.

EL PAÍS



quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Miguel Torga / QUASE UM POEMA DE AMOR





Miguel Torga
QUASE UM POEMA DE AMOR

Há muito tempo já que não escrevo um
Poema de amor
E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
A nossa natureza Lusitana
Tem essa humana Graça Feiticeira
De tornar de cristal
A mais sentimental
E baça Bebedeira

Mas ou seja que vou envelhecendo
E ninguém me deseje apaixonado,
Ou que a antiga paixão
Me mantenha calado
O coração
Num intimo pudor,
- Há muito tempo já que não escrevo um poema
De amor.



Lisboa, 1 de Janeiro de 1940


terça-feira, 3 de novembro de 2020

domingo, 1 de novembro de 2020

Morre o ator Sean Connery, aos 90 anos

Sean Connery

 

Morre o ator Sean Connery, aos 90 anos

Intérprete de James Bond em sete filmes, o escocês ganhou um Oscar de melhor ator coadjuvante pela atuação em ‘Os Intocáveis’


31 oct 2020

O ator Sean Connery morreu aos 90 anos, de acordo com a BBC. O ator Thomas Sean Connery nasceu na cidade escocesa de Edimburgo (Reino Unido) em 25 de agosto de 1930. Filho de um caminhoneiro e de uma faxineira, o ator lembrou da pobreza que viveu em sua infância, da qual não tinha consciência porque era a situação pela qual todos os seus vizinhos passaram. Ele parou de ir à escola aos 13 anos e foi trabalhar como entregador de leite. Aos 16 anos ingressou na Marinha, com a intenção de permanecer sete anos de serviço, mas a deixou aos 19 anos.

Após seu retorno à vida civil, ele executou vários trabalhos menores em construção ou funerárias, além de ser modelo na Escola de Belas Artes de Edimburgo. Em 1953 participou da eleição de Mister Universe em Londres, onde atraiu a atenção de um diretor teatral que lhe ofereceu um papel no musical South Pacific. Foi então que o ator decidiu fazer seu nome artístico Sean Connery. Ele começou a atuar em filmes e programas de televisão na BBC. Em 1957 fez Vítima de uma Paixão, com Lana Turner, do diretor Lewis Allen.

Durante as filmagens ela brigou com Johnny Stompanato, namorado da atriz, no mesmo set. Havia rumores de que Connery tinha um caso com Turner, o que teria desencadeado o incidente. Mas foi em 1962 encarnou o personagem que o catapultou para a fama, James Bond, o agente 007 dos serviços secretos do Reino Unido na adaptação cinematográfica do romance Doutor No, de Ian Fleming. O extraordinário sucesso popular de 007 contra Doutor No foi seguido por mais seis episódios da série de filmes com o mesmo personagem estrelados por Sean Connery: Moscou contra 007 (1963), Goldfinger (1964), 007 contra a chantagem atômica (1965), Com 007 só se vive duas vezes (1967), Os Diamantes são eternos (1971) e Nunca mais outra vez (1983).

O ator não ficou rotulado pelo seu mais famoso personagem, pois participou de projetos e grandes diretores , como no filme de guerra O Mais longo dos dias (1962), Marnie, Confissões de uma ladra, de Alfred Hitchcock (1964) ou A colina dos homens perdidos, de Sidney Lumet (1965). Seu papel como monge-detetive no filme O Nome da Rosa, de Jean Jacques Annaud (1986), baseado na peça homônima de Umberto Eco, foi premiado pela Academia Britânica de Cinema e em 1988 ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante por Os intocáveis, de Brian de Palma. Em 2008 publicou sua autobiografia, intitulada Being a scot.

Teve problemas com a Justiça suíça em 2009 por alguns negócios feitos 30 anos antes com um investidor cujos descendentes estavam reivindicando dinheiro de um empréstimo. Um ano depois, a Justiça espanhola reivindicou sua declaração como réu pela reclassificação irregular das terras em Marbella onde ele tinha sua residência, mas o ator não apareceu na data marcada alegando problemas de saúde.

Sean Connery era um grande fã de golfe e expressou repetidamente seu apoio à causa da independência da Escócia. Ele foi casado com a atriz Diane Cilento entre 1962 e 1973 e tiveram um filho. Ela o acusou de maus-tratos e o ator fez algumas declarações apologéticas de violência contra as mulheres. Em 1975 ele se casou com a pintora Roquebrune Micheline, sua esposa até o fim de sua vida.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Gene Wolfe / A sombra do torturador

 


Gene Wolfe

A SOMBRA DO TORTURADOR

Alessandro Ciapina
20 de dezembro de 2014

A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer) é o primeiro livro da Tetralogia do Livro do Novo Sol, de Gene Wolfe. É considerado por muitos um dos melhores livros de Fantasia Científica já escritos, um gênero que combina elementos da ficção científica com a fantasia. Este primeiro volume relata a história de Severian, um aprendiz na Ordem dos que Procuram a Verdade e a Penitência (a Ordem dos Torturadores) e os eventos que o levaram à sua expulsão da Ordem e sua jornada para fora de sua cidade natal de Nessus. O estilo é o da narrativa em primeira pessoa, onde Severian – que alega possuir uma memória eidética (fotográfica) – conta sua história situada em um futuro muito distante, quando o Sol enfraqueceu transformando a Terra em um mundo frio e moribundo. Os livros dessa série são os seguintes:

  1. A Sombra do Torturador (The Shadow of the Torturer);
  2. A Garra do Conciliador (The Claw of the Conciliator);
  3. A Espada do Lictor (The Sword of the Lictor);
  4. A Cidadela do Autarca (The Citadel of the Autarch);
  5. Urth do Novo Sol (The Urth of the New Sun) – Este último é uma espécie de epílogo para a história de Severian.

Gene Wolfe (83 anos) não é um autor de best-sellers, fato que explica o completo desprezo das editoras brasileiras. Apesar disso ele é muito elogiado pela crítica e é reconhecido no meio literário como um dos maiores escritores vivos da língua inglesa, dono de uma prosa densa, rica em elementos alusivos e sem apego à convenções de gêneros literários. Neil Gaiman o considera possuidor de um “intelecto feroz”, Swanwick disse que Wolfe é “o maior escritor da língua inglesa vivo atualmente” e Disch considerou O Livro do Novo Sol como “uma tetralogia sofisticada, inteligente e suave.”
Os quatro volumes do Livro do Novo Sol são povoados por referências e metáforas cristãs, especialmente católicas – Gene Wolfe é um católico praticante – mas o leitor não precisa conhecer nada de teologia para aproveitar o livro pois essas referências ficam restritas ao background da história.
Um exemplo do uso de símbolos e referências católicas neste livro é o de Santa Catarina de Alexandria que foi presa por censurar a perseguição aos cristãos pelo imperador Maximino Daia. O imperador convocou 50 dos maiores sábios do mundo para convencê-la de que ela estava errada, e que deveria negar o Deus dos cristãos. Mas os argumentos de Catarina era tão eloquentes e convincentes que foi ela quem acabou convertendo os sábios ao cristianismo. Após a tortura Santa Catarina foi decapitada tornando-se uma das maiores mártires do católicos. Ironicamente a santa é apresentada como a padroeira dos Torturadores, e Severian, assim como os sábios da lenda católica, acaba traindo sua Ordem ao mostrar misericórdia à uma exultante da nobreza geneticamente alterada de Urth. Essa “traição”, acaba levando à jornada do exílio de Severian.

Antes de ser expulso para o exílio na longínqua cidade de Thrax, ele recebe de seu mestre a espada Terminus Est, uma impressionante espada, com a ponta quadrada, guarda mão de prata com duas cabeças entalhadas, punho de onyx com fita de prata e uma opala na ponta. As palavras Terminus Est gravadas em sua lâmina significam Esta é a Linha de Divisão. No meio da lâmina existe um canal por onde corre um metal líquido chamado de hidrargiro, mais pesado que o ferro, e que ao erguer a espada acima da cabeça desloca-se para a próximo do punho, e ao descer a espada desloca-se para a ponta, auxiliando o executor a manter o equilíbrio caso seja necessário manter a espada erguida durante muito tempo até o término de uma oração ou a ordem de um inquiridor.

Abro um parênteses para comentar algo sobre o sub-gênero dessa história, o pouco conhecido Morte da Terra (tradução livre de Dying Earth) que difere do popular sub-gênero pós-apocalíptico por não tratar de uma destruição catastrófica, mas sim de uma exaustão entrópica da Terra. O primeiro livro desse gênero foi Le Dernier Homme (1805) que narra a história de Omegarus, o Último Homem na Terra, que mostra uma visão de futuro onde a Terra tornou-se completamente estéril. Outros autores modernos também escreveram excelentes livros nesse sub-gênero, como Arthur C. Clarke em A Cidade e as Estrelas (1956) e George R. R. Martin em Morte da Luz (1977).

A edição portuguesa, possui alguns erros de tradução e vários erros tipográficos, além de não possuir o apêndice que existe na edição em inglês: Social Relationships in Commonwealth. Esse apêndice apresenta, de forma sucinta, a curiosa divisão da sociedade de Urth (uma corruptela para Earth) em sete grupos básicos, entre eles: exultantes, armigers, optimates, religious, pelerines e cacogens. Mais tarde descobrimos que existem mais de 135 classes na complexa sociedade de Urth, algumas com números muito reduzidos como a dos Conservadores, responsáveis pela conservação dos livros da biblioteca de Nessus e manutenção do Jardim Botânico, uma espécie de museu vivo com ecossistemas há muito tempo extintos. Em meio à narrativa podemos entender melhor os papéis desses grupos e é fascinante como o autor consegue apresentar essa estranha sociedade de forma natural e convincente, utilizando-se da visão de Severian, agudamente sensível às impressões do mundo exterior, propiciando uma narrativa extraordinariamente enriquecida pelas reflexões do seu narrador.

É um livro extremamente difícil de encontrar no Brasil e em Portugal, pois existem poucas cópias no mercado de usados. Após buscas exaustivas localizei todos os livros da série: A Sombra do Torturador (Livraria Traça, R$23,27), A Garra do Conciliador (Estante Virtual, R$26,42), A Cidadela do Autarca (Estante Virtual, R$45,16), e o mais difícil de encontrar foi A Espada do Lictor (wook.pt, R$96,86 já incluindo o frete internacional).

Muito mais que uma simples fantasia épica, O Livro do Novo Sol é uma obra como poucas, escrita com qualidades estilísticas inquestionáveis que criaram um mundo cruel mas ao mesmo tempo fascinante e merecedor de nossa atenção. Se você tiver sorte de encontrar esse livro não pense duas vezes, é um livro obrigatório para qualquer estante de ficção!

LEITURAS PARALELAS


domingo, 25 de outubro de 2020

Louise Glück / Gratidão



Louise Glück

Gratidão

Não pense que não sou grata por tuas pequenas
gentilezas.
Gosto de pequenas gentilezas.
De fato as prefiro à gentileza mais
substancial, que está sempre a te cravar os olhos,
feito um grande animal sobre o tapete
até que tua vida inteira se reduza
a nada além de levantar manhã após manhã
embotada, e o sol luminoso rebrilhando em seus caninos.




segunda-feira, 19 de outubro de 2020

Louise Glück / Itaca



Louise Gülck

⁠Ítaca

O ser amado não 
precisa viver. O ser amado
vive na cabeça. O tear
é para os pretendentes, suspenso
como uma harpa de brancos filamentos.
Ele era duas pessoas.
Era corpo e voz, o fácil
magnetismo de um homem vivo, e então
o sonho revelado ou a imagem
formada pela mulher manejando o tear,
ali sentada num salão cheio
de homens de mentes literais.
Se te causa pena
o mar enganado que tentou
levá-lo para sempre
e devolveu apenas o primeiro,
o verdadeiro marido, deverias
sentir pena desses homens: eles não sabem
para o que estão olhando;
eles não sabem que quando alguém ama dessa maneira
o manto se torna um vestido de casamento.