segunda-feira, 25 de setembro de 2017

O macaco apertou o botão, mas os direitos autorais não são seus

Naruto
2017
Poster de T.A.

O macaco apertou o botão, mas os direitos autorais não são seus

Julgamento sobre direitos de uma selfie que um macaco tirou termina com um acordo entre as partes


TOMMASO KOCH
Madri 12 SET 2017 - 11:27 COT


A sefile de Naruto, em 2011
A sefile de Naruto, em 2011 WIKIMEDIA

Naruto sorriu. E apertou o botão. Clique. Ainda não se sabe por que o macaco teria se aproximado da câmera que o fotógrafo David Slater tinha deixado sobre um tripé. Mas a verdade é que a tocou e disparou. Assim, o macaco conseguiu fazer um selfie. Como milhões de seres humanos. Embora, claro, seja um animal. Nem Naruto nem qualquer cérebro humano, de qualquer forma, poderia imaginar que, naquele dia de 2011, começaria uma história de seis anos, debates, ações judiciais, falências e milhares de euros que, da selva da Indonésia, terminaria diante de um tribunal de San Francisco.
Na segunda-feira, o julgamento do recurso entre Slater e a organização PETA (que defende um tratamento mais ético para os animais), que reivindicava em nome do macaco sua autoria sobre a imagem, terminou com um acordo: o fotógrafo doará 25% da renda futura gerada pela foto para organizações que protegem Naruto e outros macacos-de-crista da Indonésia.

“PETA e David Slater concordam que este caso levanta questões inovadoras sobre a expansão dos direitos legais para os animais, um objetivo que ambos apoiam e para o qual continuarão trabalhando”, disse um comunicado conjunto após o encerramento do julgamento. A mídia norte-americana e britânica tentou, sem sucesso, entrar em contato com Slater para perguntar quanto dinheiro os direitos do selfie renderam. A PETA reproduziu ao EL PAÍS as palavras de seu conselheiro-geral nos EUA, John Kerr: “O caso gerou uma discussão internacional sobre a necessidade de estender os direitos fundamentais aos próprios animais, e não em relação à forma como os humanos podem explorá-los. Graças ao acordo, as vendas das fotos tiradas sem dúvida por Narutoajudarão a protegê-lo e apoiá-lo, a sua comunidade de macacos e seu lar na Indonésia”. Para quem quer visitar a reserva de Tangkoko, com certeza encontrará Naruto.
No entanto, este longuíssimo périplo traz, com seu epílogo, um dilema: os animais teriam direitos autorais? “Não, a lei esclarece que apenas uma pessoa natural é considerada criadora de uma obra”, responde o advogado Andy Ramos. Especialista em direitos autorais, ele explica que existem exceções para pessoas jurídicas, mas não para um animal. “Mesmo que um elefante pinte um quadro, não tem propriedade intelectual sobre ele”, acrescenta. Excluindo o macaco, Ramos acredita que Slater também não é o autor da foto, pois não a tirou: a imagem pertence ao domínio público, de acordo com o advogado.

O fotógrafo, por outro lado, publica um amplo relato em seu site, onde atribui a si “o famoso selfie do macaco”. Em 2011, Slater viajou à ilha indonésia de Sulawesi e passou três dias fotografando os macacos-de-crista da reserva de Tangkoko.
Empenhou-se principalmente em tirar fotos dos macacos de perto com uma objetiva grande-angular. Não havia, no entanto, maneira de conseguir o que queria: “Algo os incomodava”. Então, o fotógrafo freelance mudou de estratégia: configurou a câmera com o autofoco, a deixou em seu lugar, se afastou e esperou que os próprios macacos se aproximassem e se imortalizassem por conta própria. Naruto mordeu a isca. “Não foi algo casual, foi preciso muita perseverança”, Slater disse ao jornal The Guardian há dois meses, assim que começou o julgamento do recurso.
O criador acrescentou que não podia comparecer perante o tribunal em San Francisco nem comprar uma câmera para substituir a que havia quebrado ou pagar o advogado que o defendia. Dizia que estava arruinado e que pensava em começar a trabalhar como “passeador de cães”. E isso mesmo com a foto de Naruto tendo sido compartilhada durante anos por milhões de usuários e sites em todo o mundo. O macaco era uma celebridade e podia-se pensar que Slater estava com a vida ganha graças aos direitos autorais. Nada mais longe da realidade.
Seu site, onde o fotógrafo oferece um link para o envio de doações e vende o selfie, autografado por ele mesmo, a partir de oito euros (cerca de 30 reais), fornece uma pista sobre sua situação. Slater publicou pela primeira vez a imagem, juntamente com outras, no livro Wildlife Personalities, em 2014. No entanto, pouco depois, encontrou a foto on-line, em blogs e sites como a Wikipedia. Pediu para ser retirada, mas recebeu uma e outra vez a mesma resposta: o macaco havia tirado a foto sozinho e, portanto, pertencia ao domínio público. O Escritório de Direitos Autorais dos EUA decidiu então que os animais não tinham direitos autorais.
Mas podiam, pelo menos, recorrer aos tribunais. E Slater descobriu, alguns meses depois, que um macaco havia iniciado um processo contra ele. Por trás estava a PETA, que havia identificado Naruto como o autor da foto e decidiu defender seus direitos. O julgamento levantou polêmicas e inúmeras questões éticas e legais, cômicas talvez para alguns, mas, ao mesmo tempo, muito sérias. Naruto teria direito a todas as receitas com a imagem? Como um macaco recebe uma notificação por escrito de um julgamento? Uma vez que o macaco esteja morto, os direitos passarão para seus herdeiros? Qual deles seria legítimo ou ilegítimo? A PETA poderia assumir sua defesa? E, além disso, Naruto era realmente o famoso macaco do selfie? Porque, de acordo com Slater, era uma fêmea, que tampouco tinha 6 anos.
Em 2016, o juiz determinou que a Lei de Direitos Autorais (Copyright Act) não abrange os animais. A PETA recorreu, e em julho o caso do selfie do macaco voltou à Justiça. Desta vez, antes que o tribunal respondesse, houve acordo entre as partes. Aparentemente, todos contentes. Slater e Naruto, agora, sorriem juntos.

domingo, 24 de setembro de 2017

Larry Flynt, o último rei da pornografia: “Nem um escândalo sexual acabaria com Trump”


Larry Flynt


Larry Flynt, o último rei da pornografia: “Nem um escândalo sexual acabaria com Trump”

Ainda em plena forma, pioneiro do 'pornô hardcore’, dono de um império de mídia e ícone da liberdade de expressão nos EUA, volta a acertar contas com os conservadores do país que o atacam há décadas


PABLO XIMÉNEZ DE SANDOVAL
23 SET 2017 - 18:45 COT

Nos Estados Unidos é um direito constitucional rir de qualquer pessoa e de sua mãe. Ou dos dois ao mesmo tempo. Graças a Larry Flynt. Fundador da marca Hustler, um império da pornografia. Sobrevivente de uma vida de excessos. Paraplégico por causa de um atentado. Seu nome é sinônimo de incômodo para políticos. Pervertido por profissão e ícone dos direitos civis, Flynt é um personagem irreproduzível em qualquer país que não seja os Estados Unidos. Estamos diante de um ícone norte-americano.

Para quem está fora dos Estados Unidos, Larry Flynt tem o rosto e a energia do ator Woody Harrelson e sua história é aquela contada no filme de Milos Forman O Povo contra Larry Flynt (1996). Hoje ele é um homem de 74 anos preso a uma cadeira de rodas de ouro empurrada por guarda-costas. Fala lentamente e com dificuldade, arrastando as palavras. Tem o rosto inchado. Custa-lhe manter o olhar fixo. É preciso falar com ele bem alto porque não escuta bem. Mas sob as dificuldades físicas continua existindo um gozador com um discurso contundente.
Não oculta sua raiva com o que está acontecendo nos Estados Unidos. No último mês de janeiro, Flynt publicou uma carta aberta aos meios de comunicação de seu país. Acusava-os de ter dado asas a Donald Trump ao cobrir sua campanha pensando só na audiência e sem questionar o que ele dizia. “A falta de jornalismo responsável de vocês traiu esta grande nação”, escreveu. O que irrita Flynt é o fato de, durante a campanha, a imprensa não ter sido capaz de chamar as mentiras de mentiras. “Há artigos mais corretos na [revista] Hustler do que na maioria da cobertura que vimos nas últimas eleições”.

Pervertido por profissão e ícone dos direitos civis, é um personagem irreproduzível em qualquer lugar que não os EUA

Flynt recebe o EL PAÍS em um escritório enorme com uma ampla vista das montanhas de Los Angeles e uma decoração indescritível. É a ala norte do 10o andar de um prédio marrom com uma placa com as letras LFP (Larry Flynt Publications) no pedaço mais caro de Beverly Hills. Na porta há uma estátua de John Wayne a cavalo em relevo que representa o enterro do cowboy como se fosse uma cena bíblica. De um lado, sobre um cavalete, repousa o livro gigante da editora Taschen sobre nus de Helmut Newton. Em cima de uma mesa do tamanho daquela presente no Salão Oval se acumulam cartas e exemplares tanto da revista Hustler como das concorrentes. Um clipe segura uma nota de dólar na qual está escrito “9-11” (em lembrança aos ataques do 11 de Setembro). O filme sobre sua vida foi rodado aqui. O cineasta Milos Forman decidiu que não fazia sentido tentar reproduzir em um estúdio o delírio rococó onde o magnata trabalha, rodeado de porcelanas, cornucópias, molduras douradas e móveis palacianos. Toda noite, no fim do expediente nos escritórios da Flynt Publications, a equipe de filmagem tomava conta do andar inteiro para gravar no cenário verdadeiro.


Larry Flynt, o último rei da pornografia: “Nem um escândalo sexual acabaria com Trump”
ADAM IANNIELLO

Sobre a mesa também há duas charges de jornal emolduradas e fotos com personalidades como o reverendo Jesse Jackson e os presidentes Bill Clinton e Jimmy Carter. Não há retratos com republicanos. “Tenho opiniões muito fortes sobre os republicanos e os democratas”, afirma. “Nenhum deles é perfeito. Mas te digo que os republicanos só se preocupam com eles mesmos. E acredito que, no fundo, há racismo no partido. Não estou dizendo que todos os republicanos são racistas. Estou dizendo que se você é racista, seu partido é o republicano”.
Tínhamos pedido uma entrevista com ele para falar de pornografia, internet e liberdade de expressão. Mas este país entrou em um turbilhão inescapável. Chama-se Donald Trump e inunda toda a vida norte-americana, todas as conversas. Começando por aquela carta aberta e continuando com o jornalismo na “era Trump”. “Não é possível olhar para atrás na história e encontrar um candidato presidencial que mentisse tanto, durante tanto tempo, sem que a imprensa exigisse dele responsabilidades. Deveriam simplesmente chamá-lo de mentiroso. Essa é a definição para aquilo que ele faz. George Washington não era capaz de mentir. Richard Nixon não era capaz de dizer a verdade. E Trump não é capaz de distinguir uma coisa da outra”.
Uma empresa de análise da mídia calculou que as televisões deram de graça a Trump publicidade que deveria ter custado 2 bilhões de dólares. “Se levam alguém a um programa e a pessoa mente, não deveriam voltar a convidá-lo”, prossegue Flynt. “Se você diz uma mentira para uma audiência de milhões de pessoas, esse moderador tem uma responsabilidade. Mas há pessoas em suas torres de marfim que só se preocupam com seus lucros, e Trump é bom para aumentar a audiência. É bom para o mais básico. Esta não é a América onde quero viver”. A carta aberta que publicou no início do ano foi um puxão de orelhas indignado na imprensa. “Essa gente tem que ter orgulho e batalhar, defender os princípios de uma imprensa livre”.


Um supremacista branco atirou em Larry Flynt em 1978 na entrada de um dos inúmeros tribunais que enfrentou como dono e máximo responsável pela revista pornográfica ‘Hustler’. Flynt está desde então em uma cadeira de rodas, por causa das lesões provocadas pelos disparos
Um supremacista branco atirou em Larry Flynt em 1978 na entrada de um dos inúmeros tribunais que enfrentou como dono e máximo responsável pela revista pornográfica ‘Hustler’. Flynt está desde então em uma cadeira de rodas, por causa das lesões provocadas pelos disparos ESTEVE HELBER


Entre as várias dedicações profissionais de Flynt está a de revirar os lençóis dos políticos para revelar seus escândalos sexuais. Um de seus maiores êxitos foi fulminar o congressista republicano Bob Livingston ao descobrir que estava envolvido em um affaire quando liderava o processo de impeachment contra Bill Clinton. Agora ofereceu 1 milhão de dólares por qualquer gravação comprometedora de Trump. “Obtivemos algumas respostas”, afirma. Nada conclusivo ainda. “Mas chegamos a um ponto em que há mais hipocrisia em Washington do que em qualquer outro lugar, um ponto no qual um affaire não seria suficiente para acabar com ele. Há 30 anos, sim. Mas hoje, não. É preciso também de corrupção”.

Ofereceu 1 milhão de dólares por qualquer gravação comprometedora de Donald Trump: “Obtivemos algumas respostas”

Larry Flynt cresceu como indigente em Kentucky. Sua ascensão até este escritório de ouro em Beverly Hills começou com um bar no fim dos anos sessenta, em Ohio. Ali colocou garçonetes nuas. Em poucos anos tinha transformado o pardieiro em uma rede de clubes de strip-tease chamada Hustler (“malandro”). Flynt começou então a distribuir um boletim entre os clientes sobre as garotas de seus clubes. O boletim acabou se transformando em uma revista pornográfica, a Hustler, em 1974. A publicação ficou famosa no verão de 1975, quando revelou fotos roubadas de Jacqueline Onassis nua em uma piscina. A partir daí, Flynt se tornou uma autoridade em mau gosto. Sua revista viria a mostrar as fotos mais explícitas e as brincadeiras mais ofensivas da florescente indústria de revistas e filmes pornôs da época. Choveram reclamações. Em 1978, recebeu um tiro de um supremacista branco na porta de um desses julgamentos. Ficou paraplégico e desde então está em uma cadeira de rodas. No meio da espiral de drogas em que se meteu nos anos seguintes, passou seis meses na prisão por se apresentar em um tribunal usando a bandeira dos Estados Unidos como fralda. Sua mulher e co-fundadora da Hustler, Althea, morreu de Aids em 1987. Um retrato dela ainda decora a sala de reuniões da Flynt Publications.
Eram os anos da revolução moral do presidente Ronald Reagan. O homem que tinha feito da imoralidade um modo de vida encontraria a causa de sua existência. Flynt publicou na revista um falso anúncio satírico contra um dos grandes nomes daquele momento: o reverendo televisivo Jerry Falwell. A peça imita uma publicidade de Campari, com uma foto do reverendo e o texto: “Jerry Falwell fala de sua primeira vez”. O texto é uma falsa entrevista com Falwell em que aparecem delícias como estas:
“— Minha primeira vez foi em um banheiro em Lynchburg, Virginia.
— Não era um pouco apertado?
— Não, depois de expulsar a cabra.
— Entendi. Vai ter que me contar tudo.
— Nunca esperei que o faria com minha mãe, mas como ela tinha feito tão bem a todos os outros rapazes da cidade, pensei: ‘Que diabos!’”


Larry Flynt em meados dos anos setenta
Larry Flynt em meados dos anos setenta


A piada não foi bem recebida pelo reverendo Falwell. Graças à sua insistência em pedir uma indenização pelo atentado à sua honra, o caso acabou na Suprema Corte, e essa página da Hustler terminaria se tornando um símbolo da liberdade de expressão nos Estados Unidos. Em uma sentença histórica, em 1988, o tribunal decidiu por unanimidade que a sátira é liberdade de expressão e é protegida pela Primeira Emenda.
“Passamos 200 anos sem que a paródia e a sátira fossem protegidas como liberdade de expressão”, recorda Flynt. “Você podia ser processado, apenas era necessário provarem que você tinha ferido os sentimentos de alguém, de sua mulher, de seu cão. O que mudou com o meu caso é que é preciso provar um dano, senão não se pode pedir indenização. Isso deu cobertura para a imprensa. Conteve muitos processos contra cartunistas. O autor da história em quadrinhos Doonesbury [Gary Trudeau] disse em uma entrevista: ‘Esse cara, o Flynt, me deu um salvo-conduto para evitar a cadeia’. Porque quando um cartunista faz uma charge com intenção, o que quer é causar danos, quer que alguém sinta a adaga bem cravada. Vivem disso, é o que os excita. E, claro, o atingido não fica muito contente”.

Após uma sentença histórica em 1988, a revista ‘Hustler’ acabou se tornando um símbolo da liberdade de expressão nos EUA

Flynt e o reverendo Falwell, dois profissionais com bom olho para a publicidade, acabaram se tornando amigos e dando conferências em universidades e entrevistas conjuntas. Desde então, Flynt não perde nenhuma oportunidade de ofender um famoso. Há três anos, quando hackers ligados à Coreia do Norte atacaram a Sony Pictures para boicotar a exibição do filme A Entrevista, em que se parodiava o ditador norte-coreano Kim Jong-un, Larry Flynt decidiu que precisava reavivar a batalha pela liberdade de expressão. E o fez à sua maneira. Financiou uma versão pornô do filme, ainda mais ofensiva que a original. “Passei a vida inteira lutando pela Primeira Emenda e nenhum ditador estrangeiro vai tirar o meu direito à liberdade de expressão. Se Kim Jong-un e seus capangas estão irritados, espera para que vejam o filme que vamos fazer”, disse ele, na época. Hoje, com Trump, não para. A Hustler é um festival de farpas ao presidente.
Neste século, o império Hustler vai muito além da revista. Se os jornalistas espremem os cérebros para descobrir como valorizar seu trabalho no mundo da internet e do excesso de informação instantânea, mais grave ainda foi a revolução digital para o negócio da pornografia em um contexto em que até casais fazem suas gravações em casa e as divulgam gratuitamente na web. Como tornar rentável a pornografia profissional? “Foi algo que eu pressenti nos anos oitenta e noventa”, diz Flynt. “Continuo publicando a revista em papel, mas faturo 5% do que há 20 anos. Sou o último que ainda está de pé. Não sei quanto vai durar. Mas fomos espertos ao diversificar o negócio, porque a tecnologia da internet mudou tudo”.


Coleção de capas da revista ‘Hustler’, com a qual Larry Flynt lançou seu império pornográfico. 
Coleção de capas da revista ‘Hustler’, com a qual Larry Flynt lançou seu império pornográfico.  ADAM IANNIELLO


A publicação mensal chegou a vender 3 milhões de exemplares em seus melhores anos. Hoje vende pouco mais de 100.000, ainda que Flynt garanta que a revista continua sendo rentável. A diversificação a que se refere e que lhe permitiu sustentar seu império e sua marca passa por vídeos online, cassinos, imóveis e as lojas Hustler, com uma flagship de artigos sexuais que se apresenta como destino turístico no Sunset Boulevard de Los Angeles. “Nossas lojas modernas não são como um estabelecimento para adultos, mas sim um destino. Vêm casais para conferir as últimas novidades, mas também muitas mulheres sozinhas. Nosso cliente médio é mulher”.
Todo o universo de Larry Flynt mudou. As mulheres agora são suas clientes, não sua mercadoria. E ninguém paga para ver sexo explícito. Ser um pervertido não é suficiente para destruir um político. Bem, nem tudo. Atualmente, ele está enfrentado uma nova onda conservadora. Os Reagan e os Falwell agora têm outros nomes. “Sessions, Ryan e esses..., Mike Pence como vice-presidente. Digo para as pessoas não terem tanta pressa para eliminar o Trump porque Pence é pior. Como governador de Indiana, ele aprovou uma lei que obriga as mulheres que abortam a fazer um funeral para o feto. Você não tem condições de pagar um aborto ou mesmo de ter um filho, como vai gastar 5.000 dólares em um funeral? Já conheceu alguém que passou por esse inferno? E ele é vice-presidente dos Estados Unidos, está a um passo da Presidência”.
Larry Flynt foi, em suas origens, um hillbilly nascido na miséria do Meio Oeste, como aqueles que encontraram em Trump uma mensagem de salvação. Completou a viagem até o extremo oposto deste país, um escritório de ouro em Beverly Hills de onde pode reclamar rodeado de milhões. Pelo caminho, viu de tudo. De sua cadeira de rodas de ouro, o pervertido mais famoso dos Estados Unidos não compra o discurso da suposta grandeza do passado. “Isso é o que os populistas dizem sempre. Voltemos à era Reagan. Quando você compara os Estados Unidos com o resto do mundo, estamos levando tudo muito bem. Temos muitos problemas, mas estamos levando tudo muito bem”.


Fotografias em seu atual escritório, que mostram encontros com celebridades como Bill Clinton e o reverendo Jesse Jackson.
Fotografias em seu atual escritório, que mostram encontros com celebridades como Bill Clinton e o reverendo Jesse Jackson. ADAM IANNIELLO
EL PAÍS


sábado, 23 de setembro de 2017

Nabokov / Lolita, luz da minha vida



LO - LI - TA, LUZ DA MINHA VIDA, LABAREDA EM MINHA CARNE!


Lolita, do russo Vladmir Nobokov, é um dos livros mais importantes do Sec. XX. Tornou-se sinônimo de juventude sem ingenuidade.
É uma obra universal e deve ser apreciada sem moderação, com um bom som e uma coca gelada!


Lolita, luz da minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, contra os dentes. Lo. Li. Ta
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Lânguida e provocante em seus olhares!
Por uma semana e meia também fui um cativo dessa ninfeta, com seus ares e olhares. Lolita é uma das obras mais conhecidas da literatura, fruto da imaginação doentia de Vladimir Nabokov, um russo que fugiu da URSS e foi-se refugiar no ocidente.
Humbert Humbert o narrador, fustigado pelos olhares languidos da ninfeta, é um homem perturbado pela sombra das ninfas, que nos conta como foi levado à ruína por uma garota de 14 anos e como a levou à degenerescência total. O narrador brinca ao nos apresentar suas memórias, às vezes pouco conexas; até se encontrar, em uma cidadezinha da Nova Inglaterra, no EUA, com os olhos de uma garota e seu pirulito – uma cena antológica onde as cores e sombras misturam-se em uma dança diáfana, quase fáustica. Eles levam-se mutuamente à perdição, em uma relação quase incestuosa.
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Era o europeu típico em seus modos e comportamentos, preso em um mundo de pessoas grosseironas, sem grande senso estético e com nenhuma cultura. O típico professor, que por trás de seus óculos de aro grosso observa os movimentos das pernas das alunas ou das crianças que brincam no parque.
Ao contrário do que o senso comum me levou a crer, a ninfeta nunca seduziu o homem de meia idade. Humbert Hulbolt Humboldt Hum – encantado com a jovem ninfa, decide alugar um quarto na casa e quem acaba por apaixonar-se, é a mãe da garota, Charlotte Haze. Tudo o que queria e pretendia era ficar próximo e observar a ninfeta de jeitos grosseiros, mal educada e respondona. Lô era uma jovem típica, adorava modismos, revistas, roupas novas, revistas em quadrinhos, romances, músicas, filmes e revistas de fofoca. Não largava seus chicletes!
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Para não se afastar de Lô, Humbert casa-se com Charlotte, uma a típica americana do american way of life em sua falta de gosto ou inteligência. Casa-se com ela – um verdadeiro flagelo – só para ter perto de si a ninfeta.
A história é um misto de tensão policialesca e angústia romântica, que faz com que o peito fique pesado e a respiração falhe; em certos momentos, a narrativa quase se confunde com um Road movie. A melancolia dos dias de infância é roubada e substituída pela sombra dos amores indistintos.
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Ao longo da narrativa, o sentimento que persiste é o de pena – pena pela triste sina do pobre Humbert, que teve que suportar toda a fúria destrutiva de sua filha/amante. A relação ambígua dos dois exaspera aqueles que seguem pelas linhas tortuosas do livro.
A sina da ninfeta está introjetada na cultura ocidental e “Lolita” tornou-se sinônimo de juventude sem ingenuidade. Lô era tudo menos uma garotinha indefesa; tinha suas garras!
Em 1962 o livro foi adaptado para as telonas por Stanley Kubrick – que conseguiu repassar toda a angustiante atmosfera do livro. Além de ter sido adaptado e readaptado ao longo das últimas décadas e de ser fonte de inspiração para muitos outras obras um sem fim de vezes.
É um livro que deve ser lido... É universal e deve ser aprecido sem moderação, com um bom som e uma coca gelada!

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DE OTROS MUNDOS

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