sábado, 25 de março de 2017

Por que os cachorros se parecem com seus donos? Ou vice-versa?


Por que os cachorros se parecem com seus donos? Ou vice-versa?

Indivíduo feliz, bicho de estimação feliz. Indivíduo desajeitado, animal desajeitado


CAROLINA PINEDO
19 ABR 2015 - 00:12 CEST


Cholo anda com sua dona pela rua: devagar e tranquilo. Ao contrário do que ocorre com Ana e seu cocker de três anos, que é nervoso e tende a brigar com os outros cães que encontra durante o passeio pelo parque. As pessoas que convivem com cachorros costumam relatar que seus companheiros de quatro patas se parecem com eles em seu comportamento e caráter: dorminhocos, sedentários, ativos, tímidos ou gulosos.

Mas, o que existe de realidade nessa percepção? “De maneira instintiva, escolhemos animais com características compatíveis com as nossas; e, por isso, ao lado de uma pessoa nervosa, costuma haver um cachorro agitado ou, ao contrário, um cão tranquilo convive com um dono calmo”, explica Carmen Castro, psicóloga especializada em terapias com animais. “Barry era como eu; forte, robusto e trabalhador; não desistia nunca”, lembra Gregorio Sánchez, dono do cachorro que morreu há dois anos. Agora tem outro animal, Gus, um pitbull de um ano e meio que também é muito teimoso e desligado. “De fato, uma vez trombou com um poste, como aconteceu comigo”, acrescenta, rindo.
Mas essa decisão inicial não é o único motivo pelo qual pessoas e cães são parecidos, também pesa a capacidade de imitação do animal de estimação. A adaptação ao ambiente é chave para a sobrevivência de um animal; e os que dependem dos indivíduos para satisfazer suas necessidades (alimento, abrigo, carinho) e vivem em grupo exploram a fundo suas habilidades instintivas e sociais, para sentir empatia e agradar seus donos.
“Na realidade, pessoas e animais são muito semelhantes. E esse mimetismo produzido entre cachorros e seres humanos que convivem é comparável ao que acontece com os casais, que acabam por se tornar parecidos no caráter e forma de atuar”, afirma Miguel Ibáñez, psiquiatra de animais da Clínica do Comportamento da Faculdade de Veterinária da Universidade Complutense de Madri.
Outros pesquisadores confirmam a capacidade dos cachorros para imitar seus donos. É o caso de Claudia Fugazza e Adám Miklósi, da Universidade Eötvös Loránd, da Hungria, que estudaram a capacidade dos cães de imitar as pessoas, e descobriram que esses animais podem lembrar e repetir as ações dos indivíduos, como girar em torno de si mesmos, mesmo depois de alguns minutos.
CholoDina e Amy são os três cachorros adotados por Eva María Blanco, que concorda com a ideia de que os cães imitam a personalidade de seus donos. “No meu caso, se parecem comigo porque são tranquilos, madrugadores e, como não gosto que latam, é raro vê-los fazendo isso. Além disso, também não brigam com outros cachorros: como eu, evitam o conflito.”

Gatos, a exceção à regra

A capacidade dos animais de imitar as pessoas depende, em grande medida, que sua faceta social esteja mais desenvolvida. Por isso, além dos cachorros, há outras espécies que não são domésticas e nem terrestres, mas aquáticas, e possuem a capacidade de imitar movimentos e atitudes humanas. “Acredita-se que com a intenção de brincar e de desfrutar com a interação de outro ser vivo”, destaca Ibáñez, psiquiatra de animais, referindo-se aos golfinhos e baleias.
Depois, estão eles, os originais e independentes gatos que, apesar de compartilhar o mesmo teto com os humanos, não precisam do grupo para sobreviver em liberdade. Essa independência também tem a ver com a personalidade. “Embora cada gato tenha sua própria personalidade e sempre possa haver exceções, em geral, são animais individualistas que não têm a capacidade de imitação e empatia com seus donos tão desenvolvida, como os cachorros, o que não impede que tenham apego a eles, gostem deles e sejam carinhosos”, afirma Javier Zorriqueta, veterinário da clínica Bris.
Adana e Enchilada são duas gatas irmãs, de 8 anos. Cada uma delas tem uma personalidade diferente, a primeira é mais carinhosa e, a segunda, mais autossuficiente. A dona das gatas, Raquel Sierro, que também é secretária da Associação Felina Espanhola (ASFE), comenta: “O gato é muito particular, sempre é ele mesmo, não imita ninguém”.
O provérbio espanhol — como também pensam psicólogos como Manuel Nevado, membro do conselho do Colégio de Psicólogos de Madri — confirma que “dois que dormem no mesmo colchão, ficam na mesma condição” e que “tudo gruda, menos a beleza”. Por isso, adotar um lindo cachorro para ficar mais bonito é apenas uma bela utopia.
Embora, cuidado, o psicólogo japonês Sadahiko Nakajima tenha conduzido um estudo na Universidade Kwansei Gakuin para mostrar que cachorros e donos possuem semelhança em seus traços faciais, especialmente nos olhos. Chegou a essa conclusão depois de mostrar vinte pares de cachorros e donos a pessoas que não os conheciam. A ideia era que ligassem o cão ao seu correspondente dono: obteve 74% de acertos. Uma casualidade? Na opinião da psicóloga Carmen Castro, provavelmente.

quinta-feira, 23 de março de 2017

Desvendado o mecanismo do amor entre os cachorros e seus donos



Desvendado o mecanismo do amor entre os cachorros e seus donos

O olho no olho entre donos e mascotes faz disparar a produção do hormônio do afeto



MANUEL ANSEDE
17 ABR 2015 - 01:33 CEST



"O amor pelo cachorro é voluntário, ninguém o impõe [...]. E o principal: nenhuma pessoa pode outorgar a outra o dom do idílio. Isso só o animal sabe fazer [...]. O amor entre um homem e um cachorro é um idílio. Nele não há conflitos, não há cenas angustiantes, não há evolução”, escreveu Milan Kundera em A Insustentável Leveza do Ser. No romance, a protagonista, Teresa, chega a pensar que o amor que sente por sua cachorra Karenin é muito melhor do que o que sente pelo marido.



Esse sentimento se repete em um número sem fim de obras artísticas e se condensa na frase “Quanto mais conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro”, atribuída a dezenas de autores, embora possivelmente possa ser assinada por dezenas de milhões. Hoje, uma equipe de cientistas lança luz a esse processo de enamoramento entre cachorros e seus donos: retroalimentam sua felicidade olhando-se nos olhos.
Os pesquisadores, encabeçados pelo veterinário japonês Takefumi Kikusui, colocaram 30 cachorros com seus donos em um mesmo quarto, durante 30 minutos, e observaram o que ocorria: olhares, carícias, vozes carinhosas. Antes e depois do experimento, mediram a quantidade do chamado hormônio do amor, a oxitocina, tanto na urina dos mascotes como na dos donos.
As conclusões de Kikusui, da Universidade de Azabu (Japão), são surpreendentes: quanto mais os cachorros e seus donos se olhavam nos olhos, mais oxitocina seus cérebros produziam. Em seguida, o experimento foi repetido com lobos criados com mamadeira. O hormônio, ingrediente químico fundamental do carinho que sentimos em nosso cérebro, não aumentava.





A equipe de cientistas foi ainda mais além. Em um terceiro experimento, borrifou oxitocina no focinho de alguns cachorros e voltou a colocá-los em um quarto com os donos e duas pessoas desconhecidas. Nos vídeos, é possível ver como alguns mascotes ficavam congelados olhando nos olhos dos donos, que, por sua vez, produziam mais oxitocina, em uma quantidade correlacionada com a de seus animais.
“Esses resultados respaldam a existência de um circuito de oxitocina que se autoperpetua na relação entre humanos e cachorros, de uma maneira similar à que ocorre com uma mãe humana e seu filho”, argumenta a equipe de Kikusui, que publica suas conclusões na capa da prestigiada revista científica Science. Durante o processo de domesticação, ao longo de milhares de anos, os cachorros teriam evoluído para imitar um comportamento, o olhar das crianças,que provocava recompensas e agrados. “A alma que pode falar com os olhos também pode beijar com o olhar”, recitava o poeta Gustavo Adolfo Bécquer. Kikusui diz o mesmo, mas dos cachorros e seus donos.
As implicações do estudo são importantes do ponto de vista médico. Os resultados endossam as terapias com cachorros para pessoas com autismo ou transtorno de estresse pós-traumático, duas patologias nas quais, de fato, a oxitocina está sendo empregada como tratamento experimental.





Pontos frágeis

O trabalho de Kikusui, no entanto, tem pontos frágeis. Os cachorros borrifados com oxitocina que ficavam congelados olhando para seus donos eram todos fêmeas. Um estudo similar em humanos, realizado em 2012 com 35 pais e seus filhos de cinco meses em Israel, não encontrou essas diferenças por gênero. Os adultos eram borrifados com oxitocina e o hormônio do amor subia ao mesmo tempo nas crianças, fossem meninos ou meninas. “É fascinante ver que a oxitocina disparou somente entre os proprietários das cachorras”, opina o principal autor daquele estudo, o médico Omri Weisman, da Universidade de Yale (EUA).
Para a equipe de Kikusui, é possível que as cachorras sejam mais sensíveis à administração intranasal da oxitocina ou, até mesmo, que o hormônio aplicado artificialmente aos machos desencadeie um mecanismo de agressividade ante a presença de estranhos.
Em 2009, o húngaro Józef Topál, especialista em comportamento animal, publicou outro estudo na revista Science que mostrava que os cachorros e os bebês de 10 meses de idade buscavam um objeto em seu esconderijo inicial mesmo tendo visto que havia sido mudado de lugar, em parte por causa do olhar enganoso da pessoa que o escondia, que indicava o esconderijo original. No trabalho de Kikusui, Topál sente falta de experimentos com lobos mais socializados, treinados para olhar nos olhos de seus donos.
O pesquisador, da Academia Húngara de Ciências, recorda que até os lobos criados com mamadeira evitam o olhar de seus donos, porque para eles esse comportamento está associado à ameaça. Mas os lobos podem aprender a se comunicar de maneira amável com o olhar, segundo demonstrou um estudo de 2011. Na avaliação de Topál, incluir esses lobos nos experimentos de Kikusui teria servido para discernir se o olhar desse animal gera também o hormônio do amor no cérebro de seus donos ou se se trata de uma característica unicamente canina.
“O estudo de Kikusui é impressionante, mas qualquer conclusão sobre a coevolução desse processo é prematura”, afirma. “Não se pode excluir a hipótese de que esse circuito de oxitocina que se autoperpetua possa existir entre as pessoas e qualquer outro animal, sempre que o animal apresente comportamentos de afiliação socialmente relevantes, como a tendência a olhar para os humanos”, sentencia. O cachorro é o melhor amigo do homem, mas qualquer outro animal bem treinado também poderia ser, sugere.

terça-feira, 21 de março de 2017

Os cães entendem o que dizemos e como dizemos



Os cães entendem o que dizemos e como dizemos

Novo estudo sugere que aprendizagem do vocabulário não é exclusividade humana


Os cães compreendem tanto as palavras como a entonación. EL PAÍS VÍDEO
Os cachorros possuem a capacidade de diferenciar as palavras, assim como a nossa entonação, quando nos dirigimos a eles. É o que sugere um novo estudo publicado na revista Science. Além disso, utilizam áreas do cérebro semelhantes às utilizadas por nós, o que leva os pesquisadores à conclusão de que a capacidade de aprendizagem de vocabulário não é uma exclusividade humana. Para realizar o estudo, os cientistas colocaram treze cães de diferentes raças em um aparelho de ressonância magnética funcional para estudar as suas reações à linguagem. Os resultados revelaram que os cachorros reconheceram todas as palavras de forma diferente umas das outras, independentemente da entonação, e o fizeram utilizando o lado esquerdo do cérebro, como fazem os seres humanos.
Os cachorros reconheceram todas as palavras como sendo coisas diferentes e o fizeram usando o hemisfério esquerdo do cérebro, como os humanos
“Este estudo é o primeiro passo para entendermos como os cães interpretam a fala humana, e pode ajudar no entendimento de como funciona a comunicação entre os cachorros e as pessoas, para torna-la mais eficiente”, explica Attila Andics, principal autor do trabalho e professor da Universidade de Loránd, em Budapeste (Hungria).
As palavras são o principal elemento da linguagem e da comunicação. A entonação é uma outra forma de transmitir a informação. “Os seres humanos entendem a fala por meio do vocabulário e da entonação”, diz Andics. O objetivo dos pesquisadores era comprovar se esses dois mecanismos também funcionam com os cachorros separadamente e como isso ocorre. Para tanto, os animais ouviram gravações com as vozes de seus instrutores que combinavam diferentes palavras elogiosas ou neutras com diversos tipos de entonação. Enquanto isso, os pesquisadores monitoravam as reações em seus cérebros.
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Um dos cães junto a uma das pesquisadoras durante o estudo. ENIKÓ KUBINYI
A equipe comprovou que os cachorros distinguiram tanto o significado das palavras quanto a entonação com que elas haviam sido ditas, e que o fizeram com o hemisfério esquerdo do cérebro. Além disso, os animais processam a entonação de forma separada do vocabulário, como fazem os humanos. A partir daí Andics e sua equipe concluíram que os cães não só diferenciam aquilo que falamos e como o falamos, mas também conseguem combinar os dois elementos para interpretar corretamente o significado das palavras. “É muito semelhante ao que o cérebro humano faz”, acrescenta.
Os resultados, porém, não dizem respeito apenas à compreensão da linguagem humana pelos cães. Deles se podem tirar importantes conclusões sobre o próprio ser humano. Andics afirma que o seu estudo lança uma nova luz sobre o surgimento das palavras ao longo da evolução da linguagem.
Os cientistas afirmam que sua pesquisa lança uma nova luz sobre o surgimento das palavras ao longo da evolução da linguagem
Para explicar a compreensão da fala por parte dos cães, os autores assinalam que a domesticação desses animais pode ter tido uma influência no surgimento de uma estrutura cerebral que lhes permite possuir essa capacidade. Afirmam, no entanto, que é pouco provável que os animais desenvolvam as capacidades necessárias relacionadas à fala. “Os seres humanos continuam sendo os únicos que tem a possibilidade de inventar palavras”, conclui Andics.

segunda-feira, 13 de março de 2017

Como falar com seu cão, segundo a ciência




Como falar com seu cão, segundo a ciência

As pesquisas realizadas nas duas últimas décadas demonstram que esses animais são capazes de entender a comunicação humana como nenhuma outra espécie



THE CONVERSATION
JULIANE KAMINSKI
18 JAN 2017 - 06:55 COT
Os cães são especiais. Qualquer pessoa que tem um como animal de companhiasabe disso. Além disso, a maioria dos donos tem a sensação de que seu cachorro entende tudo o que eles dizem e qualquer gesto que fazem. As pesquisas realizadas nas últimas duas décadas demonstram que os cães são capazes de entender a comunicação humana como nenhuma outra espécie. E agora um novo estudo confirma que, se alguém quer adestrar um filhote e ter o máximo de possibilidade para que o animal faça o que se pede dele, é preciso falar com ele de uma determinada maneira.



Quando lhes falamos, utilizamos o que se denomina a “linguagem dirigida aos cães”

As pesquisas já trouxeram uma boa quantidade de evidências de que a forma como nos comunicamos com os cães é diferente de como fazemos isso com os seres humanos. Quando falamos com um cachorro utilizamos o que se denomina “linguagem dirigida aos cães”. Isso quer dizer que mudamos a estrutura das frases, encurtando-as e simplificando-as. Também costumamos adotar um tom de voz mais agudo. Fazemos o mesmo quando não estamos certos de que alguém nos entende ou quando nos dirigimos a crianças pequenas.
O novo estudo descobriu que, quando falamos com um filhote de cachorro, empregamos um tom ainda mais agudo, e que essa tática, de fato, ajuda os animais a prestar mais atenção. O estudo, publicado na revista Proceedings of the Royal Society B, mostrou que quando se fala com filhotes usando a linguagem dirigida aos cães, eles reagem e atendem melhor o instrutor humano do que quando se utiliza a linguagem normal.



A análise das gravações mostrou que os voluntários mudavam a forma com que falavam com cães de diferentes idades

Para comprovar isso, os pesquisadores utilizaram os chamados experimentos em playback. Gravaram pessoas dizendo a frase “Olá! Olá, meu querido! Quem é bonzinho? Vem cá! Muito bem! Bom menino! Isso! Vem cá, meu amor! Que menino bonzinho!” várias vezes. A cada vez, uma pessoa olhava fotos de filhotes, de cães adultos e de cães idosos, ou que não olhassem para foto alguma. A análise das gravações mostrou que os voluntários mudavam a forma com que falavam aos cães de diferentes idades.
Em seguida, os pesquisadores reproduziram as gravações a vários filhotes e cães adultos e registraram o comportamento de resposta. Notaram que os filhotes reagiam mais intensamente às gravações feitas enquanto os voluntários olhavam imagens de cães adultos (a linguagem dirigida aos cães).
O estudo não comprovou o mesmo efeito quando se tratava dos cachorros adultos escutando as mesmas gravações. Mas outras pesquisas que registraram a reação dos animais em interações humanas cara a cara, incluindo o que foi feito na minha própria pesquisa, indicam que a linguagem dirigida aos cães pode ser útil para se comunicar com esses animais, qualquer que seja sua idade.

Seguir um dedo que aponta

Também foi demonstrado que podemos nos comunicar com esses animais através de gestos. Desde que são filhotes, os cães reagem a gestos humanos, como o de apontar, de uma maneira que outras espécies não conseguem. A experiência é muito simples. Coloque diante de seu cão duas vasilhas idênticas cobrindo pequenas porções de comida, e certifique-se de que o animal não pode enxergar o alimento e não tem nenhum tipo de informação sobre o conteúdo das vasilhas. Em seguida, aponte com o dedo para um dos recipientes enquanto estabelece contato visual com o cachorro. Ele seguirá seu gesto até a vasilha para a qual está apontando e a examinará na esperança de encontrar algo sob ela.



Os filhotes reagiam mais intensamente às gravações feitas enquanto os voluntários olhavam imagens de cães adultos

Isso ocorre porque o cão entende que a ação do dono é uma tentativa de se comunicar. Trata-se de algo fascinante porque aparentemente nem chimpanzés, que são nossos parentes vivos mais próximos, entendem a intenção de comunicação dos humanos nessa situação. Nem mesmo os lobos – os parentes vivos mais próximos dos cães -, mesmo quando foram criados em um entorno humano.
Isso levou cientistas a pensarem que, na realidade, as habilidades e o comportamento dos cães nesse terreno são adaptações ao ambiente humano. Ou seja, viver em estreito contato com os seres humanos durante mais de 30.000 anos fez com que os cachorros desenvolvessem aptidões comunicativas praticamente iguais às das crianças.
No entanto, existem diferenças significativas entre a maneira com que os cães percebem nossa comunicação e como a realizam as crianças. Segundo a teoria, diferentemente das crianças, os cães entendem o gesto de apontar como uma espécie de ordem suave que lhes indica para onde se dirigir, mais do que uma forma de transmitir informação. Por outro lado, quando esse gesto é feito para uma criança ela pensa que estamos informando-a sobre algo.



Os cães entendem o gesto de apontar como uma espécie de ordem suave que lhes indica para onde se dirigir

Essa capacidade dos cães de reconhecer as “diretrizes espaciais” poderia ser a adaptação perfeita à vida com os humanos. Por exemplo, durante milhares de anos esses animais foram usados como uma espécie de “ferramenta social” para ajudar no pastoreio e na caça. Nessas ocasiões era necessário conduzi-los por longas distâncias mediante instruções gestuais. As últimas pesquisas confirmam a ideia de que os cães não só desenvolveram a capacidade de reconhecer gestos como também uma sensibilidade especial para a voz humana, o que os ajuda a distinguir quando têm que responder ao que lhes é dito.
Juliane Kaminski é professora de Psicologia na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, e consultora da Dognition.
Este artigo foi publicado originalmente em inglês no site The Conversation.






Recordar a lista de compras sem esquecer nada é possível com a ajuda de algumas técnicas GETTY

Conta Cícero em sua obra dedicada à oratória que o precursor da mnemotécnica, Simônides de Ceos, sobreviveu ao desabamento de uma casa onde participava de um banquete porque havia se ausentado brevemente. Simônides foi o único capaz de identificar os corpos dos comensais, porque se recordava do lugar que cada um ocupava durante a festa. Percebeu que, associando cada pessoa a um espaço concreto, poderia se lembrar dos seus nomes, criando o método chamado loci (lugares, em latim), sobre o qual falaremos mais adiante.
Naquela época (em torno do ano 500 a.C.) não só não havia celulares nem computadores como também eram pouquíssimos os que sabiam escrever, razão pela qual a memória era um aliado muito valioso. Hoje, entretanto, é provável que muitos não déssemos uma dentro diante de uma tragédia como a que Simônides presenciou.

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