sábado, 18 de novembro de 2017

Salman Rushdie / A eterna polêmica


Padma Lakshmi e Salman Rushdie

Salman Rushdie, a eterna polêmica

Um dos maiores escritores vivos explica por que não se rende à intolerância e do ódio


ÁLVARO ENRIGUE
3 OUT 2015 - 16:00 COT

Quem sabe que razões levaram Anis Khaliqi Dehlavi a mudar de nome. Era um jovem milionário de uma família de ascendência muçulmana de Mumbai e um estudioso sério do Islã – ainda que fosse militantemente ateu. Antes de ter filhos, chamava-se Anis Rushdie em homenagem a seu filósofo preferido, Ibn Rushd, conhecido no Ocidente pela versão latinizada de seu nome, já que era cordovês: Averroes. A mudança de nome revelou-se visionária, mas o dom profético de Anis só se manifestaria na geração seguinte. Durante os 11 anos de vigência da fatwa imposta a ele pelas autoridades iranianas, Salman Rushdie, o filho de Anis, encarnou a defesa dos ideais seculares de tolerância e liberdade de expressão contra as definições unicamente religiosas do mundo.
Borges se perguntava em O Golem se existe uma rosa nas letras da palavra “rosa”. Estaria Salman no sobrenome Rushdie? Como Ibn Rushd, o escritor inglês sofreu uma perseguição desproporcionada por defender uma visão racionalista do mundo – Ibn Rushd foi tradutor de Aristóteles. Ambos foram enclausurados, ambos viram seus livros arderem em fogueiras. Averroes recuperou a liberdade em 1197 e deixou Al-Andalus. Morreu no exílio em 1198. Salman Rushdie teve melhor sorte; desde março de 2002 anda livre e em paz pelo mundo. É um homem alegre. Bastam alguns minutos em sua presença para se contagiar do entusiasmo quase infantil com que vê as coisas.
Entrevistei Salman Rushdie no escritório de seu agente, Andrew Wylie. Pudemos nos reunir para falar durante os dias mais quentes do ano na Costa Leste dos Estados Unidos, em que faz tanto calor e a umidade é tanta que altera a visão. Nova York é, nesses dias, uma miragem, no pior sentido da palavra: parece estar inteira atrás da fumaça de uma turbina de avião.
Rushdie é um homem de sua geração. Apesar da absoluta inclemência do tempo, chegou à entrevista de camisa, paletó e calças de lã – tudo leve, mas insuportável nesses dias. Vestia-se com a formalidade de um escritor britânico de sua idade – 68 anos – que comparece a uma entrevista marcada. Tirou o chapéu e sentou-se na principal poltrona da sala em que foram assinados contratos mais caros da história da literatura. Foi só então que notei que os alicerces de seu traje não condiziam com o resto de sua aparência: usava grandes tênis brancos – talvez a contribuição de Nova York a seu look – sem meias. É ali embaixo, naquilo que está tão evidente que não vemos a menos que prestemos muita atenção, onde talvez se defina inteiro. Rushdie parece o que se espera dele, mas, de perto, está claro que não o é. Perguntou para que time de beisebol torço. Respondi que para o Orioles. “Então lamento te informar”, disse, “que somos rivais: sou torcedor dos Yankees”.


Antes precisava de uma arquitetura prévia ao conceber um romance. O que escrevo hoje não obedece a nenhum plano geral”

Quando os personagens de Rushdie, – incluído Joseph Anton, o de suas memórias – se lembram da Índia, cedo ou tarde retornam ao prazer de jogar críquete à tarde nas ruas de Mumbai. Saiu de seu país de nascimento aos 13 anos, para ir ao internato na Inglaterra, e nunca voltou; estudou História em Cambridge, foi publicitário em Londres, pertence a uma deslumbrante geração de escritores: Amis, Hitchens, Barnes, McEwan. Dele se pode esperar tudo, menos a mais docemente gringa de todas as atividades: assistir a jogos de beisebol todos os dias, ir ao estádio com frequência. “Adoro beisebol”, disse. “A experiência do estádio é interessantíssima, mas o que gosto mesmo é, ao fim de um dia de trabalho, ligar no jogo dos Yankees e sentar-me para vê-lo durante horas. Isso relaxa, você vai adormecendo, se desligando”.
É um homem de estatura mediana, com o cabelo já muito espaçado pela idade. Suas pálpebras cansadas – são uma condição física, não um estado de ânimo – dão a ele o aspecto de certo distanciamento, mesmo que esteja muito atento à conversa. Não demora nada a esquecer-se de que é um escritor sendo entrevistado para falar com desenvoltura sobre essa coisa afinal tão estranha que é o ofício da escrita: contar histórias como profissão. “É a única coisa que faço. Acordo de manhã, sento-me e escrevo durante o dia. Vejo os amigos ou o beisebol quando termina minha jornada”. Em Joseph Anton (2012), sua autobiografia, Rushdie relata que, quando criança, seu pai lhe contava as fábulas e histórias míticas da vasta tradição literária indiana. E diz algo essencial: que ouvindo essas narrativas aprendeu que as histórias pertencem a todos e estão aí para serem reconstruídas e contadas como você quiser.
Quando conversamos, disse a ele que Two Years, Eight Months and Twenty-Eight Nights (Dois anos, Oito Meses e 28 noites), seu novo livro, não parecia produto dessas jornadas cartesianas que me descreveu. É um romance muito romance, mas, como as Mil e Uma Noites a que se refere seu título, é composto por uma série de relatos fantásticos que ricocheteiam, se entrelaçam e desentrelaçam, vão e voltam sem uma ordem convencional pelo tempo e a geografia. Pensou um pouco e me disse: “É minha própria loucura: o que escrevo não obedece a nenhum plano geral. Quando era mais jovem precisava de uma arquitetura bem trabalhada antes de poder escrever um romance, porque sem isso me perdia. Agora tenho alguns personagens e algumas ideias que coloco em jogo, vejo aonde me levam. Descubro o livro, em vez de fazê-lo antes de fazê-lo”. O romance é, ao mesmo tempo, uma peça literária contemporânea, um livro de ficção científica contada mil anos depois dos fatos que relata, e uma coleção de relatos sobre o que aconteceria se o mundo dos gênios do Oriente se irritasse com a Nova York de nosso tempo.
Rushdie se estende falando das raízes de seu método de trabalho com fruição infantil: “Na Índia, as histórias ainda são uma versão da história. Há contadores que reúnem grande quantidade de pessoas e narram contos de uma maneira muito pouco convencional. Normalmente começam com uma anedota mitológica, que depois se conecta a um evento político contemporâneo, que irradia para uma história pessoal, que pode chegar a transformar-se em uma musiquinha. Não existem regras. Qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento”.
Ouvindo-o falar entendi que na maneira de contar seu novo romance havia sim um plano, ainda que não fosse evidente – é, afinal de contas, o britânico com tênis de jogador de basquete. O que se desdobra diante do leitor é o conto da destruição mítica de Nova York, narrado mil anos depois. “Quando falamos do futuro”, disse-me, “há uma bela mistura do que é sólido com o que é líquido, assim pensei: se trato o presente como costumamos tratar o futuro, nosso presente adquiriria essa textura, seria nosso presente e, ao mesmo tempo, seria fictício”.
Mais adiante confirmou que não se vê como autor unicamente de literatura fantástica: “Kundera diz que o romance tem dois pais: um deles é a Clarissa de Samuel Richardson, e o outro, o Tristram Shandy de Laurence Stern. Eu venho de duas tradições: as fábulas mágicas do Oriente, mas também fui estudante de História. O que me interessa é juntar ambos os caminhos”.
Dois Anos, Oito Meses e 28 Noites começa em Lucena, na Espanha do século 11, onde Ibn Rushd, já velho, vive exilado em uma comunidade judaica que finge ter se convertido ao Islã. Ali é visitado certo dia por uma adolescente que fica com ele cumprindo as funções de dona-de-casa e amante.
Rushd era a epítome da racionalidade em seu tempo, assim nunca se deu conta de que Dunia, a mulher com quem teve dezenas de filhos, era uma jiniri, uma gênia. Muito menos suspeitou que, quando 900 anos mais tarde começasse a Era da Estranheza e os jinn maus e bons retornassem ao mundo, seriam os descendentes mestiços do filósofo e Dunia que poderiam negociar a continuidade do mundo tal como o conhecemos. Um deles, o senhor Geronimo, jardineiro de Long Island, absolutamente ignorante não só de que é descendente de Averroes, como também de que é idêntico a ele, é a primeira vítima do senso de humor selvagem com que os jinn atacam: a partir de certa manhã não pode mais fazer seu trabalho porque foi abandonado pela gravidade. Caminha, dorme e senta-se a cinco milímetros acima da superfície de contato.
Há muito do próprio Rushdie no senhor Geronimo, obrigado a lutar com a intolerância dos jinn; algo desses tênis gigantes na flutuação de seu personagem. “Minha vida”, diz, “sempre se caracterizou pelo movimento, estive em muitos lugares. Às vezes invejo esses escritores que passaram a vida toda em um único lugar e o conhecem magnificamente.
Faulkner trabalhou com um pedacinho de terreno. Interessam-me as coisas com raízes profundas, mas afinal você precisa trabalhar com o que tem, e o que me foi dado como artista é o oposto, uma vida que aconteceu aqui e ali. Parte na Índia, parte na Inglaterra, parte nos Estados Unidos. Deu-me outras possibilidades e eu faço uso delas”.


Minha vida se caracterizou pelo movimento. Invejo os escritores que passam a vida toda em um único lugar e o conhecem magnificamente”

Salman Rushdie é a celebridade literária por excelência: foi, talvez, o escritor mais famoso do mundo durante toda a minha vida profissional que chegou perto disso, por causa dessa movimentação de loucos que invocou em nossa conversa. Ele é era o convidado de honra no primeiro evento literário realmente glamouroso para o qual fui chamado – um jantar na casa de Carmen Boullosa, há pouco menos de 20 anos, na qual estavam todos os radicais chics da Cidade do México. Naquela época, ainda estava protegido por um esquema de segurança intimidante. Na festa, o escritor britânico passava de grupo em grupo com a velocidade de um anjo. Eu, que provavelmente nunca conversara com um escritor estrangeiro, não me atrevi a me aproximar. Eu o vi muitas vezes depois dessa primeira, em diferentes cidades do mundo, e sempre me pareceu que ele se movia rápido demais para ser agarrado. Ou tem um talento natural para se deslocar pelo mundo como uma celebridade, ou permaneceu durante tanto tempo no exclusivo clube dos autores mais famosos do mundo, ocupando o palco principal, que é difícil se aproximar com naturalidade porque sente que deve estar neles.
No último Hay Festival de Xalapa, eu o vi fazer uma conferência em um auditório imenso e lotado; vi-o no palco do Conselho Britânico, no mero centro de uma mesa tão comprida que ocupava todo um pátio do restaurante. Em seguida, no coquetel da editora mexicana Sexto Piso – sempre a festa mais exuberante -, ele ocupava uma mesa que teria sido apropriada ao senhor Gerónimo: estava cerca de um metro acima de todas as demais.
Quando conversei com ele no escritório de Andrew Wylie, insisti apenas na questão da mobilidade. “Vou com frequência à Espanha”, disse-me. “Vou muito. É por isso que tantas paisagens dos meus livros estão ali. São lugares onde estive pessoalmente e nos meus livros, porque o período árabe da Espanha foi sempre muito interessante para mim”. Carmen Boullosan se lembra de ter viajado com ele para Cholula e Oaxaca, de ter visitado mais sítios arqueológicos do que poderia recordar. O próprio Rushdie me contou de uma viagem a Tequila, Jalisco, que fez com Carlos Fuentes. Fez um gesto engraçado com os olhos antes de começar a história e preferiu guardá-la para si: “Acabamos muito mal”. Ele conhece a Nicarágua com perfeição, e fala de Buenos Aires com familiaridade.
Aproveitei o momento para lhe perguntar sobre sua relação com a literatura latino-americana: Carlos Fuentes está presentíssimo em Os Filhos da Meia-Noite(1980); García Márquez é a figura totêmica que respira debaixo do decisivo Versos Satânicos (1988) e no recente Two Years, Eight Months and Twenty-Eight Nights (“Dois anos, oito meses e 28 noites”, em tradução literal). “Uma das coisas que sinto sobre a América Latina como lugar, mas também como casa literária, é que tem muitas semelhanças com a Índia”, disse. “Ambas são regiões que padeceram de um sistema colonial forte, em ambos os casos uma língua europeia se desenvolveu de maneira vigorosa, a religião é importantíssima, têm problemas políticos parecidos. São regiões com diferenças abismais entre ricos e pobres, e a vida no interior e na cidade é diametralmente distinta. Lembro que quando comecei a ler a literatura latino-americana tive um choque de reconhecimento. São mundos parecidos também no fato de que a literatura se desloca livremente em ambas as regiões”.
Em todas as ocasiões em que vi Rushdie antes de poder falar com ele, me pareceu um homem poderoso, onipresente, cinético, envolvido com todo o vigor no que fazia. Durante os anos em que Rushdie foi presidente do Festival Vozes do Mundo do PEN, de Nova York, o evento passou de ser uma reunião de leitores com curiosidade sobre as literaturas estrangeiras a uma máquina que paralisa a cidade uma semana por ano. Além disso, é um homem com um perfeito treinamento midiático. Quando perguntei-lhe como via sua condenação à morte a 15 anos de ser cancelada, me respondeu com uma cortesia tão requintada quanto taxativa: “Uma das coisas boas de escrever minhas memórias foi tirar de cima esse peso, não ter que voltar a falar desses anos. Pus 600 páginas sobre a mesa: se alguém quiser falar sobre isso, que vá a essa janela”. Sabe dirigir uma conversa perfeita e gentilmente.




Salman Rushdie.ampliar foto
Salman Rushdie. PASCAL PERICH


Há alguns meses, eu o vi esperando para cruzar a guarita de entrada nos Estados Unidos no aeroporto JFK, de Nova York. Estávamos os dois na triste fila de residentes no país que merecem uma segunda inspeção. São filas lentas e ele não sabia quem eu era. Portanto, pude estudá-lo com certa impunidade. Ali, sozinho e confuso, me pareceu pela primeira vez um homem já mais velho a quem pesava seguir arrastando uma maletinha esquálida e um blazer amarrotado. Talvez este perfil tenha começado a se delinear ali: ele era mais velho do que eu pensava e estava cansado, mas tinha uma vida interior muito mais vasta que a dos passageiros que o rodeavam. Não olhava para o vazio. Murmurava. Fazia pequenos gestos. Claramente, estava pensando, talvez discutindo com um interlocutor ausente.
Rushdie é um homem que passou a vida guerreando. Por sua crítica ao Governo e à figura de Indira Gandhi em Os Filhos da Meia-Noite (Companhia das Letras) foi processado pela primeira-ministra por difamação. Recentemente, protagonizou uma polêmica brutal contra meio mundo literário de Nova York, defendendo um prêmio que a organização PEN entregou aos sobreviventes do ataque terrorista ao Charlie Hebdo. Pouco depois de ser alvo de um fatwa[decreto religioso] pelo qual o aiatolá Khomeini o condenou à morte por considerar blasfemo um episódio de Os Versos Satânicos (Companhia das Letras), sua primeira declaração numa entrevista pela TV foi: “Gostaria de ter escrito um livro muito mais crítico”.
Essa habilidade para se meter em problemas vem de uma valentia notável: fala do que tem vontade e com enorme clareza, seja quando se refere à agenda política dos outros, ao seu próprio trabalho ou ao de seus colegas. Em nossa conversa me falou, por exemplo, sobre Roberto Bolaño: “Foi muito imprudente com García Márquez e muito grosseiro comigo, por isso já tenho preconceito contra ele.” Com essa frase, deslizou que não vai perder tempo lendo Bolaño. Sua crítica sobre outro autor que está na moda é muito mais ácida e divertida – falávamos da vitória absoluta do realismo na literatura inglesa e hispana. Disse: “Tudo está homogeneizado. Estamos ante a vitória de Knausgård, essa autoficção que consiste em contar como você lava a roupa.”
Suspeito que Rushdie se vê como um sobrevivente, mas não pela obviedade de ter enfrentado um fatwa especialmente inflamado e persistente, mas por sua devoção a um tipo de escritor mais comprometido com a literatura que com o desenho de sua própria pessoa, mais afeito a opinar sobre assuntos políticos urgentes que a entregar um relato diminuto e primoroso. Escritor com ambições extraordinárias. Um tipo de autor que talvez já não exista, o que sai tão caro que a indústria editorial global dele prefere prescindir. Desde que a morte levou Günter Grass, Carlos Fuentes e Gabriel García Márquez, Rushdie talvez se sinta um pouco sozinho – me pergunto se seria com os seus fantasmas que discutia no JFK. Fala deles e de Kundera com um respeito que não dedica a ninguém mais. Seus livros podem agradar ou não, mas não se pode dizer que ele seja irrelevante.
“Quando eu crescia, na Inglaterra”, disse “houve uma mudança de humor e minha geração beneficiou-se disso, de uma urgência em ler coisas novas. Durante 20 anos foi assim, mas de repente algo aconteceu e voltamos ao realismo mais bobo”. Às vezes seus olhos brilham atrás das pálpebras sonolentas. Então fala o Rushdie mais profundo, o do princípio. Não o historiador britânico, nem o nova-yorkino que assiste ao beisebol de noite, e sim o menino de Mumbai que escutava, alucinado, as histórias míticas que seu pai contava. “Mas há uma coisa que aprendi com a literatura”, conclui. “É cíclica.” E sorri, como possuído por uma picardia sobrenatural, prima-irmã da dos anjos e gênios que povoam seus livros.
Quando nos despedimos, me perguntou com muita ansiedade pela tradução de seu romance ao espanhol. Respondi que era muito boa, embora fosse um livro difícil. Assentiu, abotoando o casaco como se lá fora não fizesse o calor de 40 graus: “O estranho: quanto mais velho você fica, mais se preocupa com o momento do lançamento.” Insisti que Javier Calvo, seu novo tradutor ao espanhol, tinha feito um bom trabalho. Colocou o chapéu. “A tradução ao inglês também é bastante boa”, respondeu.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Da fatwa ao WhatsApp


Salman rushdie
Foto de Pascal Perich


Da fatwa ao WhatsApp

Salman Rushdie foi condenado à morte por Khomeini há um quarto de século, o mesmo ano em que caía o muro de Berlim, havia uma matança na praça Tiananmen e surgia a web. O que mudou até hoje?


TIMOTHY GARTON ASH
8 MAI 2014 - 17:00 COT

Há 25 anos ocorreram quatro grandes acontecimentos cujos ecos ainda estão presentes em nosso mundo. Caiu o Muro de Berlim e com ele o império que Vladimir Putin adoraria restaurar. A matança da praça Tiananmen situou a China em uma trajetória diferente até chegar ao país que é hoje. Um pesquisador britânico pouco conhecido, chamado Tim Berners-Lee, inventou o que se transformaria na World Wide Web. E o aiatolá Khomeini ditou sua fatwa contra Salman Rushdie.
No domingo passado estive falando com Rushdie em Nova York, no Festival de Vozes do Mundo, organizado pelo PEN Club norte-americano, sobre as consequências que aqueles fatos tiveram para a liberdade de expressão em todo o mundo. Eu lhe perguntei como havia vivenciado as revoluções de veludo de 1989 e onde estava quando o Muro caiu. Não se lembrava com exatidão –certamente, em algum esconderijo– e confessou que havia sentido certa inveja ao ver outros, incluindo Nelson Mandela, alguns anos depois empreendendo o caminho da liberdade enquanto ele permanecia cativo.
Hoje não restam vestígios daquilo. Depois dos atos dos quais participamos, saímos a passear pelas ruas de Nova York com vários outros escritores, e Salman parou um táxi em uma esquina. Quem sabe de onde era o taxista, talvez iraniano? Essa vida tão normal para um escritor, e que durante tanto tempo lhe pareceu inalcançável, é uma vitória. No entanto, é preciso que nos perguntemos se a luta pela liberdade de expressão, contra fanáticos e opressores de todo o tipo, está avançando de verdade ou se encontra em retrocesso.
No Reino Unido, e na Europa em geral, a maioria dos muçulmanos aceitou de uma ou outra forma as normas básicas de convivência pacífica em uma sociedade liberal e pluralista. Já não dizem –como fez um muçulmano britânico chamado Iqbal Sacranie em 1989, enquanto alguns de seus correligionários queimavam exemplares de Os Versos Satânicos— que a morte era um destino “fácil demais” para Rushdie. Um pequeno sintoma dessa melhoria nas relações foi a discreta reação de quase todos os muçulmanos britânicos em 2007, quando o polêmico romancista foi nomeado cavaleiro. (Rushdie se lembra de que, depois de lhe dar os golpes do cerimonial no ombro com a espada, a rainha lhe perguntou: “Você continua escrevendo livros?”). Claro que sua majestade –na realidade, Tony Blair por intermédio dela– havia nomeado cavaleiro dois anos antes o próprio Sacranie. Uma solução muito britânica: dar aos dois um título.
Voltando ao que importa: na Grã-Bretanha, como em muitos outros países europeus, a evolução geral da grande maioria dos muçulmanos lhes levou a aceitar e até mesmo apoiar a liberdade de expressão, que por força inclui o direito (embora não o dever) de ofender.
Não obstante, Rushdie afirma –e uma pesquisa minuciosa o endossa– que uma pequena minoria nessas comunidades muçulmanas da Europa ainda está perigosamente radicalizada. E o medo e a autocensura continuam corroendo as bordas da vida cultural do Ocidente, tanto nas universidades como no mundo editorial e no teatro. Os públicos de Londres e Nova York desfrutam o musical satírico O Livro do Mórmon. Não parece que alguém tenha pensado em fazer um espetáculo chamado O Livro de Maomé.
Em muitos Estados de maioria mulçumana, a limitações à liberdade de expressão continuam sendo espantosas. Este ano, a Arábia Saudita ditou novas leis que tratam os ateus como se fossem terroristas. No dia de nossa apresentação em Nova York, o The New York Times informava sobre um homem chamado Alexander Aan que esteve mais de 19 meses preso na Indonésia, acusado de incitar o ódio religioso. Que crime havia cometido? Declarou-se ateu na Internet. E outro dado preocupante: o fato de que Estados que tendiam a ser laicos, como Turquia, estarem agora dando uma volta para a direção errada. 
Este tipo de intimidação não é monopólio dos mulçumanos, em absoluto. Falei também com Rushdie sobre seu país natal, a Índia. Ali são os extremistas hindus quem lideram hoje a classificação do segundo esporte nacional: sentirem-se ofendidos. Por exemplo, a Penguin Índia retirou faz pouco tempo das livrarias uma história alternativa dos hindus escrita pela respeitada especialista norte-americana Wendy Doniger, diante das pressões exercidas por um grupo hindu dirigido por um antigo professor escolar. M. F. Husaín, com certeza o principal pintor moderno do país, morreu em exílio depois de sofrer ataques ferozes por suas representações irreverentes e modernas das divindades hindus. E dá a impressão de que as coisas vão piorar se Nahendra Modi ganhar as eleições. Ao mesmo tempo, do outro lado da fronteira, na Birmânia, turbas compostas por pessoas que se autodenominam budistas dedicam-se a linchar os rohingya, mulçumanos.
Na China, o sistema que tem se desenvolvido desde 1989 gerou ao mesmo tempo uma economia que logo será a maior do planeta e um esquema de censura que já é o maior do mundo. Ao mesmo tempo em que em outros países alguns poderes religiosos específicos perseguem os ateus e crentes de outras religiões, na China o Partido-Estado comunista assedia qualquer um que tente organizar um grupo religioso sem sua autorização, sejam eles cristãos ou Falun Gong. (Já praticar a espiritualidade privadamente não constitui problema nenhum, e muitos membros do esquema do fazem). 
Uma das razões pelas quais a China movimenta numa maquinaria de censura tão imensa é que hoje se fala muito mais e é necessário vigiar muito mais a expressão do que há 25 anos, graças à Internet e à World Wide Web. WeChat, o equivalente chinês ao WhatsApp, conta com mais de 300 milhões de usuários. Dick Costolo, vencedor do prêmio de liberdade digital concedido este ano pelo PEN Club dos Estados Unidos, que é o presidente e diretor executivo do Twitter, nos lembrou em Nova York que diariamente circulam mais de 500 milhões de tuítes. É uma tremenda vitória quantitativa a liberdade de expressão que, no entanto, está emaranhada nos próprios perigos. Os regimes autoritários não são os únicos que aproveitam a Internet como ferramenta para vigiar a população. Uma pesquisa feita pelo PEN Club entre os escritores norte-americanos revelou que eles estão preocupados não apenas com o programa de vigilância da NSA, vazado por Edward Snowden, mas também que alguns deles, agora, sentem a necessidade de autocensurar-se. Quer dizer, a descoberta teve consequências terríveis. 
“Sobre a batalha a propósito dos Versos Satânicos”, escreveu Rushdie em seu livro de memórias Joseph Anton, publicado em 2012, “ainda era difícil saber se ia acabar em vitória ou derrota”. O mesmo se pode dizer sobre as repercussões daqueles quatro grandes acontecimentos de 1989. Mas isso é o que acontece com a luta pela liberdade de expressão: nunca se perde completamente, nunca se ganha de forma contundente.

Timothy Garton Ash está escrevendo um livro sobre a liberdade de expressão e dirige o site freespeechdebate.com, em 13 idiomas.






quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Salman Rushdie de pernas pro ar




Salman Rushdie de pernas pro ar


Rafael Pereira
05 / 08 / 2010

Rushdie, indiano radicado no Reino Unido, é um autor consagrado, vencedor de um Brooker Prize, um dos prêmios mais importantes da literatura mundial. Mas quem presenciou sua passagem na Flip, em 2005, vai sempre lembrar dele como o escritor que dançou com as mãos para o alto até o dia amanhecer. Foi em uma festa, e, no imaginário popular, ajudou a consolidar a Flip como um evento que aproxima ídolos da literatura a simples leitores. É ótimo lê-los, mas é possível tocar neles ou bater um papo. Ou dançar a noite inteira a seu lado. 



Cinco anos depois, Rushdie se diz mais velho, e impressiona-se com a popularidade da festa e as mudanças na estrutura da cidade. Ele veio à cidade lançar seu último romance, Luka e o Fogo da Vida, uma história de realismo fantástico inspirada em seu filho mais novo. Em entrevista descontraída, com as pernas pro alto no lobby de sua pousada, o autor conversou com ÉPOCA sobre o livro e suas motivações como escritor. Falou também sobre os dez anos em que passou cercado de seguranças depois de condenado a morte pelo aiatolá Khomeini, e de como o episódio mostrou-se a pré-história do que culminou no ataque às Torres Gêmeas, em 2001. 


ÉPOCA – Sua primeira visita à cidade de Paraty foi na Flip de 2005. Mudou muita coisa? 

Salman Rushdie – Da última vez que vim, tinha que ir para um ciber café para conseguir conexão com a internet. Agora tem conexão sem fio no hotel... É uma grande diferença (risos). 


ÉPOCA – Em 2005, ficou marcada para sempre a imagem do senhor dançando com as mãos para o alto até o amanhecer. Já sabe onde será a festa este ano? 

Rushdie – Ainda não! Só não sei se posso dançar mais daquela maneira. Estou um pouco mais velho... 


ÉPOCA – O que move o senhor como escritor? 

Rushdie – Eu nunca quis fazer nada além de escrever. Tive uma frágil fantasia de que um dia seria ator, fazia algumas peças quando era estudante na universidade de Cambridge, mas nada sério. Eu sempre fui um leitor costumaz. Quando criança, adorava ler. E tenho a convicção de que a primeira característica de um bom escritor é amar livros.


ÉPOCA – E quando o senhor percebeu que era bom nisso? 

Rushdie – Demorou, o começo de minha carreira foi bastante incerto. Eu sempre fui um bom aluno de inglês, mas isso não ajudou muito. Escrevi um romance que ninguém publicou, outro que publicaram mas ninguém gostou e um terceiro, que não mostrei para ninguém porque eu mesmo odiava. E aí eu comecei a ter idéias para o que seria Os Filhos da Meia-Noite (livro com o qual Salman Rushdie ganhou o Booker Prize). E demorei cinco anos para escrevê-lo. 


ÉPOCA – Quanto tempo demorou do primeiro livro até Os Filhos da Meia-Noite

Rushdie – Deixei a universidade com 21 anos e Os Filhos da Meia-Noite foi publicado quando eu tinha 33. Ou seja, demorou 12 anos para que eu me firmasse como escritor. Alguns autores da minha geração alcançaram o sucesso muito mais cedo, como Julian Barnes e William Boyd, que também está na Flip. Eu sentia que tinha ficado na posição de largada. Demorou muito para eu recuperar o tempo perdido. 


ÉPOCA – E o que acabou por melhorar sua literatura? 

Rushdie – Acho que passei a me conhecer melhor. Para mim, um bom escritor tem que saber quem é. Se você não sabe quem é, não sabe de onde as palavras estão saindo. E quando você tem uma raiz fixa em um país, nasceu e cresceu em um mesmo lugar, isso é mais fácil. Mas quando você foi transplantando – nasceu em um lugar e cresceu em outro –, como eu, fica mais complicado. Agora, olhando para trás, vejo que existia uma questão séria de identidade, que me custou doze anos. 


ÉPOCA – O senhor está em Paraty com seu filho, certo? 

Rushdie – Isso, o mais novo, que inspirou meu último livro. 


ÉPOCA – E o que ele achou de Luka e o Fogo da Vida? 

Rushdie – Ele foi o primeiro leitor! Se ele não aprovasse eu não mostraria para mais ninguém. E ele aprovou. Ele é, antes de tudo, um bom leitor. Tem 13 anos, e tinha 12 quando escrevi o livro. Agora mesmo, deixei ele no quarto e ele resolveu pegar seu Cem anos de solidão (clássico do escritor colombiano Gabriel García Márquez) para ler. Ele está lendo Cem anos de solidão, e está adorando! (risos


ÉPOCA – Luka e o Fogo da Vida remonta o mesmo núcleo familiar de seu livro Haroun e o Mar de Histórias, de 1990, inspirado em seu filho mais velho. Qual foi a motivação para recuperar elementos de Haroun

Rushdie – Eu não queria voltar aos mesmo motivos que me levaram a escrever Haroun. Recriei apenas o núcleo familiar, um mundo imaginário, mas precisava de outras razões para voltar lá. Em Haroun, a mãe do garoto deixa o pai e o pai perde a habilidade de contar histórias. É a aventura do garoto tentando recuperar a mágica do pai. No livro atual, esse não é o problema. Nesse caso, é uma questão mais existencial, se você preferir. Tem a ver com o fato de que, quando eu tive meu filho mais novo, tinha 50 anos. O livro é sobre vida e morte. Agora, a criança precisa salvar a vida de seu pai, e não só sua habilidade de contar histórias. Isso me dá a razão para a nova jornada. E tive que criar todo esse novo mundo. O que é a parte mais divertida. O mundo que criei para esse livro corresponde ao mundo dentro de mim. Contém elementos dos clássicos, da cultura popular... Isso é o que está dentro da minha cabeça. 


ÉPOCA – O livro usa referências de videogames e internet. Foi difícil entrar nesse mundo? Rushdie – Eu vejo meus filhos e seus amigos, e sei os jogos que eles gostam ou não. Não me interesso nos jogos em que se matam pessoas, mas gosto dos que são uma busca por algo. Mesmo nos mais simples, como Super Mario, ele se lança em uma jornada para salvar uma princesa. Assim como no livro, ele se lança em busca de uma coisa impossível de se conseguir. O link dos videogames com a vida é claro. E é uma discussão antiga, contida nas histórias clássicas. Como a busca pelo Santo Graal, por exemplo. Para se conseguir algo na vida, você precisa ultrapassar obstáculos. No jogo, existe um dragão no fim da fase, e você precisa matá-lo (risos). O interessante é que, depois de matar esse dragão, existe outro vilão ainda mais perigoso para matar. Um obstáculo mais difícil. E assim por diante. Quem criou videogames tinha uma bela idéia das histórias clássicas, que sempre funcionaram. Com uma pequena diferença... Nos videogames, a idéia de vida é diferente. Você morre, e pode começar de novo, cem, mil vezes. Já que Luka é uma história sobre a vida e a morte, achei interessante usar essa ferramenta. Foi uma maneira de atrair jovens leitores, que me agradou muito. 



ÉPOCA – O próximo livro do senhor será sobre o período da fatwa, a condenação de morte que o senhor sofreu do aiatolá Khomeini por ter escrito Versos Satânicos. Em que fase está o projeto? 

Rushdie – Estou começando a escrever. Passei alguns anos, primeiro, lendo o material sobre a época. Li os diários que escrevi durante esse período, mas também tudo o que foi dito pela imprensa sobre o assunto. Só então comecei a escrever, e já tenho algo em torno de sessenta páginas. Só devo terminar no fim do ano que vem, talvez um pouco antes. 


ÉPOCA – Qual era a relação do senhor com a fé quando escreveu o livro que rendeu sua condenação? 

Rushdie – Não existia. Nunca fui religioso, mas se você nasce na Índia e quer escrever sobre esse mundo, tem que se interessar pelo assunto. Mesmo não sendo religioso, as pessoas que você conhece são. E eu sempre me interessei muito por isso como estudioso. Meu pai também era como eu. Ele lia textos originais do Islã, sabia línguas, mas não tinha fé. Uma das heranças maravilhosas que meus pais nos deram, a mim e a meus irmãos, foi nos liberar da obrigação religiosa. Minha mãe não gostava que comêssemos carne de porco, mas isso foi o máximo de prática religiosa que tivemos em casa (risos). 


ÉPOCA – E qual foi a influência dos dez anos de fatwa no seu cotidiano? 

Rushdie – Estragou dez anos da minha vida, isso foi o que aconteceu. Eu fiquei feliz de poder continuar escrevendo, mas meu cotidiano foi muito influenciado. Meu filho mais velho, que hoje tem 31 anos, tinha 9 quando tudo aconteceu. Tinha 19 anos quando terminou. Ele teve que crescer naquela experiência, e para ele... Porque as coisas não aconteceram comigo apenas, mas com a minha família, com meus amigos. 


ÉPOCA – O senhor precisou ficar escondido?


Rushdie – Não gosto da palavra escondido, porque faz parecer que eu vivi em um buraco. Eu era cercado de muita segurança. O que é o oposto de se esconder, porque seguranças são muito visíveis. Tudo era possível, mas mais difícil. Foi como andar com sapatos de pedra. Dá para andar, mas se anda mais devagar, e é mais cansativo. 

ÉPOCA – Diante de tanto medo, foi possível tirar dali alguma lição?

Rushdie – Quando você está no meio de algo como isso, tem que entender muito claramente quem são seus inimigos, contra o que ou contra quem você está lutando. Senão você enlouquece. E isso eu aprendi muito bem. De um lado estava tudo que eu amava, de outro tudo o que eu detestava. E eu tinha uma boa sensação: “Quer saber? Pelo menos eu estou no lado certo”. Se você for um soldado americano no Iraque ou no Afeganistão, é possível ter a sensação de que se está no lado errado. “O que estamos fazendo aqui?”. 


ÉPOCA – É correto afirmar que, hoje, o mundo ocidental vive sob o medo de uma espécie de fatwa?


Rushdie – Existe um medo crescente no mundo. E o que sinto é que o ataque a Versos Satânicos foi um prólogo de tudo o que está acontecendo. E o ataque às Torres Gêmeas, em 11 de Setembro, foi o clímax, o evento principal. Minha condenação a morte foi um pequeno sinal do que aconteceria, e hoje todo mundo sabe o que é e está sofrendo com isso. Assim, desligando o escritor da pessoa, sinto que torna o assunto do livro que estou escrevendo sobre minha experiência mais interessante. Não é mais o que aconteceu comigo, mas sim o que está acontecendo com todos nós. Isso é o que eu estou tentando escrever.