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segunda-feira, 3 de junho de 2013

Nuno Júdice / Oferta


Nuno Júdice
OFERTA

O que tenho para te dar? Uma gramática de sentimentos,
verbos sem o complemento de uma vida, os substantivos
mais pobres de um vocabulário íntimo -o amor, o desejo,
a ausência. Que frase construiremos com tão pouco?
A que léxico da paciência iremos roubar o que nos falta?

Então, ofereço-te uma outra casa. As paredes têm a
consistência do verso; o tecto, o peso de uma estrofe.
Abro-te as suas portas; e o sol entra pela janela de
uma sílaba, com o seu fogo vocálico, como se uma
palavra pudesse aquecer o frio que te envolve.

E pergunto-te: que outras palavras queres? A música
sonora de um ócio? O espesso manto com que o veludo
se escreve? O fundo luminoso do azul? Poderia dar-te
todas as palavras na caixa do poema; ou emprestar-te
o canto efémero em que se escondem do mundo.

Mas não é isso que me pedes. E a vida que pulsa
por entre advérbios e adjectivos esfuma-se depressa,
quando procuramos seguir a linha do verso. O que fica?,
perguntas-me. Um encontro no canto da memória. Risos,
lágrimas, o terno murmúrio da noite. Nada, e tudo.



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domingo, 2 de junho de 2013

Nuno Júdice / Poema



Nuno Júdice
POEMA

Ouvindo as canções de kurt weil, sob
um céu de chuva em lisboa, posso pensar
que estou em berlim, sob um céu de neve,
ou noutro sítio assim, onde quando chove
se escreve.

Ouvindo essas canções que martelam
sílabas secas, com um piano que empurra
os sentidos para o fim da frase, espero
que a chuva venha do norte, e que os cinzentos
cantem, com tons negros na sua base,
um destino sem sorte.

Ouvindo a chuva que já não canta,
com o rumor apressado de quem não está
para ficar, colecciono os sons de
kurt weil, como gotas ásperas na boca,
bebendo até ao fim as suas canções
em que não entra a chuva, como se assim
começassem os grandes nevões.
Cantar, então, com uma nuvem
em cada mão.



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