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sexta-feira, 21 de junho de 2013

Artur Xexéo / Saudades do metrô

Guitarra y vino
Ipanema, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas

Artur Xexéo
Saudades do metrô



Fevereiro de 2013. O ônibus, ao lado da Estação Siqueira Campos, está superlotado. Os passageiros descem e logo formam uma fila para entrar no metrô. Empurra-empurra, chega pra lá, confusão. O esquema que as autoridades organizaram para suprir a falta das estações Cantagalo e General Osório, do precário metrô do Rio, não está dando certo. Dizem que o usuário pode substitutir o trem que pegava nessas estações pelo metrô de superfície, uma maneira irônica com que nossas autoridades costumam chamar os ônibus quando querem fingir que são responsáveis por um sistema de transporte eficiente. Que metrô de superfície é esse que para no sinal fechado e enfrenta, como qualquer outro veículo, as agruras de um engarrafamento no trânsito? 

Março de 1979. Eu não conseguia esconder a empolgação. Depois de anos vendo trechos do Centro do Rio escondidos por tapumes, estava ali, na Estação Cinelândia, numa pequena fila, aguardando para comprar o meu bilhete do metrô. Não me lembro do preço. Mas me lembro do trajeto. Saí da Cinelândia e fui até a Estação Presidente Vargas. Ali, mudei de lado e retornei. Deslumbrado. Tudo era bonito. Mármore nas estações, trens limpinhos, confortáveis, espaço para todo mundo, boa sinalização. Não era para levar muito a sério. Servia só como passeio mesmo. O metrô, velho sonho da cidade, foi inaugurado com apenas cinco estações: além da Cinelândia e da Presidente Vargas, podíamos usar as da Praça Onze, da Central e da Glória. Só funcionava das nove da manhã às três da tarde. Tinha quatro trens que chegavam a cada oito minutos. Transportava 60 mil pessoas por dia. 

Naquela primeira viagem de 34 anos atrás, acreditei, como toda a população, que o Metrô tinha futuro. Hoje, são duas linhas, 35 estações e 640 mil passageiros por dia. E o caos. O ar refrigerado não funciona. Os trens vivem abarrotados. A limpeza dos primeiros anos transformou-se num mafuá onde se vende de tudo. As escadas rolantes não rolam. Os elevadores não se mexem. E a extensão, convenhamos, é ridícula. Tenho vergonha quando me dou conta de que nosso metrô cobre uma área menor que a do metrô de Brasília. Comparando com o de São Paulo, então, é bom nem falar. 

Um sistema de transporte eficiente que integrasse toda a cidade ficou no sonho. O metrô carioca parece uma minhoca que se estende infinitamente. Era óbvio que não se encontraria uma alternativa para o o fechamento das duas última estações da Zona Sul. As linhas não se cruzam e as estações são muito distantes uma da outra. Perdendo-se uma estação, o usuário tem que apelar para outro tipo de transporte. 

Quem está chegando agora pode pensar que foi sempre assim. Não é verdade. Durante quase 20 anos, a extensão de nosso metrô cresceu e a limpeza e eficiência continuaram funcionando. O caos se implantou a partir da concessão para uma empresa privada em 1998. O carioca nunca foi conhecido por cuidar de sua cidade. O metrô era uma exceção. Tornou-se exemplo de civilidade. Ninguém tinha coragem de jogar um papel de bala no chão. Com ele, aprendemos que, quando o serviço é bom, o usuário cuida e respeita. Hoje, o usuário trata mal o metrô. A culpa é do serviço. Ninguém gosta de pagar caro — e o metrô é caro à beça — por um produto medíocre.


http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/?a=916&periodo=201303



quinta-feira, 20 de junho de 2013

Artur Xexéo / Em busca da felicidade

Sillas
Ipanema, Rio de Janeiro, 2013
Foto de Triunfo Arciniegas
Artur Xexéo
Em busca da felicidade


Nos últimos dias, tenho vivido uma experiência diferente. Ao acordar, antes até de sair da cama, digo pra mim mesmo: “Sou feliz!”. Totalmente influenciado pela pesquisa que O GLOBO vem publicando que associa morar no Rio à felicidade, encho o peito e repito: “Sou carioca! Sou feliz!” 


Minha determinação não dura muito tempo. Ao sair de casa, o porteiro me entrega a correspondência. Como acontece uma vez por mês, recebo mais uma carta de um cartão de crédito que já tenho. Ele me oferece as vantagens de me tornar associado. Como não preciso de dois cartões de crédito da mesma bandeira, rasgo a correspondência e procuro uma lixeira para livrar-me dela. Perto da minha casa existem três. E todos os dias me pergunto como, às 8 da manhã, já estão todas abarrotadas de lixo. Nelas não cabe nem minha carta rasgada. Pior: na calçada, no espaço em torno das lixeiras, o carioca joga fora caixas de papelão, sacos de plásticos, garrafas vazias... O Rio é sujo. Dá pra ser feliz em meio à sujeira? 

Procuro não pensar nisso, pego um táxi e... fico preso dez minutos num engarrafamento dentro do Túnel Velho. Alguém pode me dizer que, no Rio, até engarrafamentos são felizes. Imagine estar engarrafado na Lagoa. Não dá para reclamar da paisagem em volta. Não tenho muito tempo para raciocinar sobre isso. Após me livrar do engarrafamento no túnel, fico engarrafado em frente ao Cemitério São João Batista e, admirando jazigos perpétuos, tenho vontade de perguntar ao motorista do carro ao lado: “Tá rindo de quê?” 

Desisto da felicidade inerente a minha condição de morador do Rio e procuro alguém que seja pessimista como eu. Dizem que no Morro da Mangueira mora um carioca infeliz. Desempregado, descrente da UPP e arrasado porque, após a última chuva, as águas invadiram seu barraco e levaram toda a cozinha, ele contraria as pesquisas. Um vizinho, felicíssimo, lembra ao morador desiludido que no Rio tem carnaval. Foi o bastante para nosso infeliz personagem cair no choro, lembrando-se que a Mangueira ficou em oitavo lugar no último desfile de escolas de samba. 

Não sei quando começou essa moda de associar felicidade a regiões geográficas. Talvez seja uma invenção do rei do Butão que, nos anos 70 do século passado, criou o índice de Felicidade Interna Bruta para compensar o péssimo PIB de seu país. No Butão, o budismo leva à felicidade. O Brasil também anda com o PIB lá embaixo. Só nos resta a felicidade. 

Felicidade, hoje, é lazer barato, oportunidade de emprego, paisagem bonita. Sou do tempo em que felicidade era algo mais abstrato. Lembro-me de uma telenovela, das primeiras a serem produzidas pela televisão brasileira lá pela década de 60, que chamava-se “Em busca da felicidade”. Na trama, Carlos Zara mantinha duas esposas, Lolita Rodrigues e Odete Lara. Uma não sabia da existência da outra. Ele era feliz com as duas. Na mesma década, um filme francês escandalizou o país. Chamava-se “Le bonheur” e, além de nos ensinar que, em francês, felicidade é um substantivo masculino, contava a história de um homem feliz no casamento, que arranjava uma amante, com quem também era feliz. No Brasil, ganhou o título de “As duas faces da felicidade” e uma frase publicitária que mexeu com a cabeça dos espectadores: “Pode um homem amar duas mulheres ao mesmo tempo?” 

Na novela, quando uma esposa descobre que existe a outra, a felicidade de Carlos Zara vai pro brejo. No filme, o triângulo amoroso é desfeito pelo suicídio de um dos vértices. Resumindo: nos anos 60, felicidade era ser bígamo. Resumindo de novo: a felicidade dura pouco. 

A poesia já nos ensinou isso há muito tempo. Vinícius de Moraes disse que “a felicidade é como a gota de orvalho numa pétala de flor”. E concluiu: “Tristeza não tem fim, felicidade, sim.” 

A minha felicidade, aquela felicidade estimulada por ser carioca, dura pouquíssimo. Dura o tempo de ler o jornal. Esta semana mesmo, enquanto saboreava a pesquisa do GLOBO, ao mesmo, ficava perplexo com a tragédia do incêndio do Leblon. Trancado por uma porta blindada com quatro fechaduras (ué, o carioca não vive uma maior sensação de segurança?), um casal encontra a morte jogando-se do quarto andar para fugir do fogo. O incêndio se apaga sozinho, após consumir todo o apartamento. Os bombeiros chegaram meia hora depois, não tinham escada Magirus, não havia água no hidrante da rua. É esse o Rio feliz? 

A pesquisa diz que a felicidade do carioca está também associada ao otimismo. Temos lixo, engarrafamentos, enchentes, incêndios, mas tudo vai melhorar porque estamos nos preparando para os grandes eventos. Em outras palavras: se a gente já é feliz agora, imagina na Copa!


http://oglobo.globo.com/cultura/xexeo/?a=916&periodo=201303






terça-feira, 21 de maio de 2013

Artur Xexéo / 50 tons de branco



Artur Xexéo
50 TONS DE BRANCO

No meu tempo de criança, minha cor preferida era o maravilha. O que me atraía nela não eram exatamente seus tons. Em primeiro lugar, gostava do maravilha por poder usar no masculino uma palavra que era evidentemente feminina. Imagino que o maravilha tenha ganhado este nome por lembrar a cor da flor homônima. Eu sei que, nos dias de hoje, ninguém reconhece uma maravilha _ assim, no feminino mesmo, quando é para se falar da flor. E, se reconhecesse, certamente não identificaria a cor a que estou me referindo. Afinal, a maravilha pode ser amarela, branca, vermelha... Mas, assim como a rosa também tem várias possibilidades de cor e todo mundo sabe como é a cor de rosa, a maravilha mais popular é... cor de maravilha! 

Para quem não acredita que um dia existiu o maravilha, posso provar usando o Aurélio. Está lá a definição: “carmim de um rosa arroxeado e brilhante.” Às vezes, acho que só eu e o Aurélio nos lembramos do maravilha. Nunca foi uma cor vulgar. Não fazia parte das cores que habitavam nossos armários por exemplo. Neste quesito, o azul e o amarelo sempre foram mais populares. Talvez a blusa de uma mãe pudesse ser maravilha. Mas nada além disso. 

O maravilha existia apenas nas caixas de lápis de cor. E era tão superior a todas as outras cores que seu lápis nunca era chamado para participar de misturas. A principal função de uma caixa de lápis de cor era proporcionar a possibilidade de misturas. Crianças do meu tempo estavam sempre atentas à descoberta de uma nova cor. O que aconteceria se o verde fosse misturado ao azul, ou se o amarelo se juntasse ao rosa? O maravilha não precisava participar dessas experiências. Ele já era muitas numa só. 

Isso tudo é para dizer que já faz tempo que o maravilha saiu do nosso vocabulário. Como é que se resume hoje, numa só palavra, o carmim de um rosa arroxeado e brilhante? Imagino que já tenha dado para notar que esta é uma coluna de protesto. Depois de acabar com meu maravilha, o mundo da moda quer acabar com a mais básica de todas as cores: o branco. Isso mesmo: é uma fita-banana. Algumas considerações deste colunista sobre o espanto com que ouviu especialistas em moda classificarem alguns modelos do último Fashion Rio como off-white o que ele acreditava ser gelo transformaram a questão no principal assunto da minha caixa de correio eletrônica. 

“Off já dá a indicação de que é um branco não tão branco, ou seja, é um branco puxando para o pérola, ou quase marfim”, explica a leitora Maria Moura. “Gelo é aquele branco que quase dói nos olhos, é quase translúcido, é a cor da geleira. E o branco normal tem o tom que se poderia dizer leitoso.” 


Em poucas linhas, aprendi que, além do off white, existe o branco não tão branco, o pérola, o marfim, o gelo, o branco normal e o leitoso. Isso me parece anúncio de sabão em pó, quando tem sempre um que lava mais branco. Pobre da minha caixa de lápis de cor que só tinha um tom de branco! 

Maria Teresa Fernandes parece fazer parte do meu time: “Se é que ainda cabe algum comentário sobre a dita cor, gostaria de acrescentar que off-white me parece o branco que foi mas não é mais, talvez em decorrência do tempo ou da falta do cuidado necessário às roupas da alva cor para que mantenham seu brilho e, obviamente, sua brancura. O que significa dizer que, com perdão dos fashionistas de plantão, off-white nada mais é do que branco encardido, como diria minha avó. Realmente nada tem de gelo ou cinza, sequer pérola. É branco com ar retrô (agora os fashionistas ficarão felizes) e nada mais.” 

Estou quase chegando lá. A leitora me ensinou que o oww-white é a viúva Porcina das cores, aquela que foi sem nunca ter sido. 

O leitor Ronald Lyrio acrescenta um pouco de ciência à discussão: “Apesar de eu ser daltônico, branco é branco, off white é off White. Off white é o branco-neve em que se adiciona um pingo ou pingos de outra cor, preto, amarelo, marrom, enfim, pelo que entendo, qualquer cor que quebre a brancura-rinso.” Talvez o branco-neve do Lyrio tenha a ver com a cor de geleira da Maria Moura. Ou não. 

Sinceramente, acho que a discussão do off-white já deu o que tinha que dar. Considero o branco uma cor perdida. Nunca será recuperada. Mas faço aqui um apelo a todos os especialistas em moda; por favor, devolvam meu maravilha. 
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Na discussão dos muitos tons de branco, escrevi uma bobagem. Eu sei que isso não espanta ninguém, bobagem é a matéria-prima deste colunista. Mas não custa nada corrigir quando ela é percebida. Talvez perturbado pela descoberta de tantas de suas variações, escrevi que o branco _ o branco básico, aquele da caixa de lápis de cor _ era a ausência de cores. Ledo engano. É justamente o contrário. É a mistura de todas as cores. O preto é que é a ausência de cores. Ou, como diz o leitor Leo Madureira, “uma superfície branca reflete a faixa visível do espectro eletromagnético (luz). Uma superfície preta absorve a faixa visível”. Agora, nunca mais vou me esquecer. 
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Nessa história do quadro de Vik Muniz, no valor de R$ 40 mil, que o governador Sergio Cabral deu de presente para o presidente Obama, só queria saber uma coisa. Eu sei que é tradição presentear visitantes estrangeiros. Eu sei que Vik Muniz representa a arte brasileira. Eu sei que um quadro de Vik Muniz é um bom presente. Mas... O artista disse que vendeu a obra, o governador disse que foi de graça, o artista pensou duas vezes e se lembrou de que foi “uma doação em conjunto”. Então, vem cá, se fosse tivesse doado um quadro para a Casa Branca, mesmo “em conjunto”, você se esqueceria disso?




domingo, 19 de maio de 2013

Artur Xexéo / Anna Karenina



Artur Xexéo
ANNA KARENINA

De todos os filmes que chegaram a nossos cinemas na esteira do último do Oscar, poucos provocam tanto impacto no público quanto “Anna Karenina”, de Joe Wright. Não foi por acaso que ganhou o prêmio de melhor figurino do ano. Não seria injusto se levasse ainda a estatueta de melhor direção de arte, categoria a que também correria. Os figurinos, a direção de arte e a fotografia de “Anna Karenina” são mesmo deslumbrantes. Mas limitar as qualidades do filme a sua excelência técnica seria reduzir o poder de “Anna Karenina” sobre as plateias. 




“Anna Karenina” é uma experiência única. O figurino impecável, a direção de arte aplicada, a fotografia vistosa estão a serviço de uma maneira peculiar de se contar uma história. “Anna Karenina” é teatral. E não esconde esta intenção. O palco, os bastidores, a iluminação são mostrados ao espectador como numa peça de teatro. Mas limitar “Anna Karenina” a sua adesão à linguagem teatral seria reduzir ainda mais a força do filme. “Anna Karenina” é teatral mas não é teatro. O que se vê na tela não poderia ser mostrado no palco de uma sala de espetáculos. O que fica claro é que ele é filmado em estúdio, o diretor não tenta imitar a realidade, mas o teatro está a serviço do cinema. “Anna Karenina” é cinema. E ótimo cinema. 

Joe Wright apostou no risco e fez um filme que ainda não tinha sido feito. O surpreendente é que isso aconteceu com um argumento mais do que conhecido. Para que filmar mais uma vez “Anna Karenina”? O IMDB, o site que é a Bíblia dos pesquisadores de cinema, contabiliza mais de 30 adaptações para o cinema do romance de Tolstoi. A primeira é de 1910. Eu, que sou cafona, me lembro de uma novela de TV: “A mulher que amou demais”, com Tonia Carrero, numa TV Rio de muitas décadas atrás. A novela nunca chegou ao fim. Tonia já me deu uma explicação: “Trouxeram um galã do México, que era lindo, mas muito canastra”. O galã em questão era Milton Rodrigues, um ator brasileiro, não muito talentoso, que conseguiu uma sobrevida artística no México. Mas ele não deve receber a culpa. A TV Rio já estava em crise e, era muito comum emissoras em crise tirarem programas do ar sem muita explicação. 


Para não fazer mais um drama de época, como as muitas versões de “Anna Karenina”, Joe Wright apostou no risco. E a inovação vem sempre do risco. Não é um filme fácil. Pode ser considerado artificial demais. O elenco atua coreograficamente. É quase uma dança. É uma maneira de deixar mais explícito o artificialismo da sociedade russa do século XIX. Quanto os personagens deixam expor sua verdade, o filme sai do estúdio. Deixa de ser teatro e finge ser cinema realista. O público pode estranhar. Afinal, o cinema nunca foi assim. E talvez não venha a ser outra vez. Por isso “Anna Karenina” merece atenção. É um filme único. 

Junte a tudo isso Keira Knightley, uma Karenina que não fica a dever nada a Greta Garbo e Tonia Carrero. O diretor não foi tão feliz na escolha dos dois atores que dividem a cena com ela, Jude Law _ carismático demais para ser o marido rejeitado _ e Aaron Taylor-Johnson _ com uma aparência de mais velho do que realmente é para interpretar o jovem Conde Vronsky. Mas nada disso perturba a experiência de se aproveitar uma experiência cinematográfica realmente original.






sábado, 18 de maio de 2013

Artur Xexéo / Meus labradores



Artur Xexéo
MEUS LABRADORES

Convivi, nos últimos 14 anos, com uma entusiasmada família de labradores. O primeiro a chegar foi Sultão. Veio de São Paulo. Desembarcou na esteira do Santos Dumont para deleite dos passageiros que esperavam suas bagagens. Era um pouco maior que a palma da minha mão. Mas já se mostrava uma estrela.

Eu sei que todo dono de animais de estimação acha que seu bicho é especial. Mas o Sultão era especial mesmo. Tinha uma cara quadrada que eu nunca vi em outro cachorro da raça. Nos quatro primeiros meses de vida, ele ficou no apartamento do Bairro Peixoto. Foi o tempo necessário para ser educado. Ficou educadíssimo. Nunca fez suas necessidades fisiológicas em casa. Sempre na rua. Mesmo que para isso me acordasse às 3 da manhã, exigindo uma voltinha no quarteirão. Fazia isso quase todo dia. Eu nunca reclamei. Afinal, era a maneira que ele tinha de mostrar seus bons modos. Com o tempo, ele desenvolveu um insaciável interesse por pés de mesa e sapatos. Um interesse gastronômico. A mesa de jantar ficou manca e os sapatos... bem, houve um dia em que simplesmente não tinha nenhum para calçar. Sultão comera todos.

Sultão abria portas. E as fechava também. Teve uma noite em que ele nos trancou do lado de fora do apartamento. Ele gostava de mostrar que sabia usar os trincos. Quando, enfim, foi transferido para uma casa com quintal em Vargem Grande, passou a demonstrar habilidades de saltar. Saltava muros, grades e qualquer obstáculo que pretendesse prendê-lo em algum lugar. Sultão era adepto da liberdade. Provou ser hábil nadador também, transformando a piscina, que supostamente era de todos, em seu playground particular.

Depois veio a Nega. A ideia era casá-la com Sultão. Ela aceitou, mas eles nunca foram apaixonados. Nega também teve seu período de ajuste no Bairro Peixoto. Graças a Deus, ele não se interessava por pés de mesa ou sapatos. Preferia sofás. Comeu um inteirinho. Quando, enfim, também foi deslocada para Vargem Grande, ela mostrou preferir as áreas internas aos jardins, já ocupados por Sultão. Foi na sala que ela resolveu fazer seu parto. Sim, eles não eram apaixonados, mas nunca deixaram de cumprir  suas obrigações sexuais. Da união, nasceram oito labradorezinhos.

Na época,  acreditávamos que ficaríamos ricos com nosso canil. Mas os bichinhos foram crescendo, nós nos adaptando a eles, e nada de aparecer compradores. Alguns, a muito custo, foram vendidos. Outros foram dados. E sobraram Capitu e Lorelei. Na verdade, elas tiveram sinomose, uma doença quase sempre fatal nos cachorros. Foram para a clínica, tomaram soro e, quando esperávamos a notícia de que tinham morrido, elas reapareceram. Magérrimas, inapetentes, tristes. O veterinário disse que elas tinham que comer de qualquer jeito. Mas como convencê-las?

Elas minguavama a cada dia. E nada de comer. Até que _ era noite de Natal – minha mãe experimentou oferecer-lhes peru. Capitu e Lorelei comeram o peru inteiro. No dia seguinte, já aceitavam ração. E, vendo-as se recuperarem, nunca tivemos coragem de passá-las adiante.

Foi assim que ficamos com quatro labradores: Sultão, Nega, Capitu e Lorelei. Da sinomose, Capitu se recuperou sem sequelas. Com Lorelei, foi mais complicado. Teve problemas neurológicos, não desenvolveu parte do corpo, o veterinário não lhe dava muito tempo de vida. Fazia acupuntura, natação e, de vez em quando, era hospitalizada com doenças pulmonares. Mas era guerreira. Sempre voltava para casa animadíssima.

Capitu era sonsa. Bonita, a mais bonita da família,  se fazia de boba para conseguir o que queria.  Um dia apareceu grávida. O diagnóstico foi gravidez psicológica. Acreditamos, e, dois meses depois, tínhamos mais oito cachorrinhos em casa. Tratamos de dar todos rapidinho. Não acreditávamos mais na fortuna que ganharíamos com nosso canil.

O primeiro a partir foi Sultão. Foi de repente. Nunca ficara doente, só uma ou outra manifestação alérgica quando a gente tentava equilibrar o orçamento oferecendo a ele ração nacional. Sultão reagia com falhas no pelo. Só aceitava ração importada.  Aos 10 anos, começou a mancar de uma perna, foi diagnosticado um câncer ósseo, chegou a ter a perna amputada, mas não sobreviveu à cirurgia. A piscina de Vargem Grande nunca mais teve a alegria dos tempos em que ele a cruzava com velocidade de campeão.

Um ano depois, foi a vez de Nega. A situação dela foi mais complicada. Ela também teve câncer, mas reagiu bem a todos os tratamentos. Viveu quatro anos com a doença, sem demonstrar qualquer fragilidade. A gente só percebeu que havia alguma coisa errada quando ela começou a esbarrar nos móveis. Nega estava cega. A doença não tinha mais cura. Tudo aconteceu rapidamente, como com Sultão.

As ausências de Sultão e Nega fizeram com que Capitu e Lorelei tornassem-se muito apegadas. Dormiam juntas, alimentavam-se juntas, uma estava sempre atrás da outra. Há 20 dias, foi a vez de Capitu ir embora. Ela sofreu de um mal que é muito comum em labradores: displasia. Tinha dificuldade para se levantar, para andar e, isso é que era pior, não conseguia subir escadas, o que a afastava da sala e do hábito de ver televisão com a gente. Ela pesava 30 quilos e, duas ou três vezes por dia, a gente a carregava pela escada para que pudesse manter o costume. Mas Capitu não resistiu à interrupção de sua função renal.

Ficou só Lorelei. A mais magrinha, a mais fraquinha, a mais doente, aquela que teria dois ou três anos de vida, completou 12 anos, sobrevivendo ao resto da família. E continuava serelepe como sempre. Faz pouco mais de uma semana que Lorelei partiu. O veterinário diagnosticou uma trombose. Mas acho que ela morreu de saudades de Capitu.

Tenho certeza de que meus cachorros foram felizes no tempo em que passaram aqui. Mas o mais feliz da família fui eu, que tive o privilégio de conviver com eles por 14 anos.




sexta-feira, 17 de maio de 2013

Artur Xexéo / Notícias de Londres



Artur Xexéo
NOTÍCIAS DE LONDRES
6.1.2013

O  disco de Adele, “21”, foi considerado o CD menos esperado do Natal. Apenas 47.315 cópias foram vendidas no Music Magpie, o mais popular site de vendas online da Grã-Bretanha. No Brasil, seria Disco de Ouro. Aqui, é fracasso absoluto.





O Natal na Grã-Bretanha foi mais triste para os milhões de seguidores de “Downton Abbey”, a série de TV mais popular do país. Em episódio especial transmitido na noite do dia 24 de dezembro, o protagonista Matthew Crawley morreu num acidente de automóvel. Seu ator, Dan Stevens, está fazendo teatro em Nova York e se prepara para estrear em Hollywood. Os produtores garantem que haverá uma quarta temporada. Mas sem o herdeiro de Downton Abbey.




A Grã-Bretanha está esperando um número recorde de turistas neste 2012. A previsão é de que o número de visitantes cresça 3% em relação a 2012, quando o país atraiu muita gente por causa do Jubileu da Rainha e dos jogos olímpicos. As principais atrações do novo ano são os festejos que celebrarão o nascimento do filho do duque e da duquesa de Cambridge, a comemoração dos 200 anos do lançamento de “Orgulho e preconceito”, de Jane Austen e a abertura oficial de todos os andares do Shard, o arranha-céu mais alto da Europa. Tem gosto pra tudo.




O lançamento cinematográfico do fim de ano foi “Midnight’s children”, adaptação de Salman Rushdie para o seu romance que ganhou o Booker Prize de 2008. Rushdie escreveu o roteiro, produziu e é o narrador do filme (com direito a mais falas do que qualquer outro personagem). O resultado? A crítica classificou a produção como “um desastre” e acusou Rushdie de megalomania.




A adaptação para os palcos do histórico “Cantando na chuva” é entediante. Um elenco sem carisma cumpre o árduo dever de repetir ao vivo os papéis que consagraram Gene Kelly, Debbie Reynolds e Donald O’Connor no cinema. Não são bem-sucedidos na tarefa. O texto repete quase literalmente o roteiro do filme, com menos ritmo e menos ação. Mas há um truque infalível. No fim do primeiro ato, o musical reproduz a cena clássica em que Kelly canta e dança na chuva. Chove de verdade no palco. E na plateia também. O público adora. No fim da peça, o elenco inteiro repete a brincadeira e volta a molhar os espectadores das cinco primeiras filas. Vale por estas duas cenas. E só. Não é por acaso que, apesar de o elenco contar com cerca de 30 figuras, os mais aplaudidos da noite são os faxineiros que secam o palco no intervalo.



Quem também está por aqui é Bruce Willis. Foi visto batendo perna na Bond Street.




Houve quem estranhasse meus votos de Feliz Natal na coluna publicada no dia 26 de dezembro. Alguns leitores acreditaram que eu já estava me referindo ao Natal de 2013. Devo uma explicação: as redações ficam diferentes nas duas últimas semanas do ano. Há equipes de plantão, rodízio de folgas, textos adiantados... Adiantei tantas colunas que acabei me confundindo com as datas. Mas, sinceramente, quando percebi o engano, antes da publicação, não quis corrigir. No fundo, desejo para meus leitores que o Natal dure para sempre, que sempre seja Natal. Ainda perdido no calendário, tudo me faz crer que hoje seja 6 de janeiro, Dia de Reis. É isso mesmo? Se for, ainda estou dentro do prazo de validade para desejar Feliz Ano Novo a todos. Ou não? Se não, fica a velha desculpa. Desejo que sempre seja um ano novo para meus leitores.