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quinta-feira, 7 de maio de 2015

Gabriel García Márquez / O jornalismo como literatura

Gabriel García Márquez
Cartagena, 1991

O jornalismo como literatura

Trabalhou em jornais, escreveu matérias e criou uma fundação para jornalistas


Gabriel García Márquez. / ULF ANDERSEN (GETTY IMAGES/ARQUIVO)



Talvez uma das maiores contribuições de Gabriel García Márquez ao ofício do jornalismo, para além do valor de sua obra de ficção, tenha sido o de afirmar, durante toda a sua vida, que ele era, sobretudo, um jornalista, e de dar mostras —com fatos concretos e declarações nas quais dizia coisas como “Aprendi a escrever contos escrevendo crônicas e reportagens” ou “O jornalismo me ajudou a escrever”— de que falava sério. Começou a exercer o ofício aos 20 anos, noUniversal, de Cartagena das Índias, e desde então e até seu último empreendimento jornalístico, quando em 1998 comprou a revista colombiana Cambio, todos os seus atos indicaram que, para ele, o jornalismo não era um ganha-pão nem um ofício bastardo, mas uma forma de literatura para a qual valia a pena entregar a vocação e a vida.
Se fizermos um paralelo entre sua obra jornalística e sua obra de ficção se vê que, por exemplo, enquanto trabalhava no El Espectador, de Bogotá (e dava forma, em 1955, às vinte entregas consecutivas do que seria depois o livro Relato de um náufrago, ou era correspondente da agência Prensa Latina, escrevia Ninguém escreve ao coronel e Má hora: o veneno da madrugada. Ainda depois de Cem anos de solidão, o romance que 1967 que o colocou sob os holofotes, continuou publicando artigos no El Tiempo, da Colômbia, e depois no EL PAÍS, da Espanha. Depois de um ano do lançamento de O amor nos tempos do cólera, em 1985, publicou um livro de não ficção: Miguel Littin, clandestino no Chile. E, quando já não precisava demonstrar a ninguém o que podia fazer, pesquisou e escreveu Notícia de um sequestro, em 1996.
Foi um dos poucos autores latino-americanos de sua geração —outro, inesquecível, é Mario Vargas Llosa—, que acreditou que o jornalismo bem-feito poderia ser uma arte, e que agiu de acordo.
Quando ganhou o Nobel, em 1982, convocou o argentino Tomás Eloy Martínez para fazer, com o dinheiro do prêmio, um jornal que se chamaria El Otro, e que nunca chegou a existir. Em 1992 fez parte do QAP, um noticiário televisivo de muito sucesso na Colômbia. Finalmente, em 1994, quando fazia doze anos que ganhara o prêmio Nobel e vinte e sete que escrevera Cem anos de solidão, criou a Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano. Já estava há quase três décadas no centro do palco, recebendo todo tipo de honras como escritor de ficção e, no entanto, decidiu apoiar um projeto destinado a pessoas que vivem de contar histórias reais para estimular “as vocações, a ética e a boa narração no jornalismo”. Desde então, a Fundação trabalha de várias formas —sobretudo, ainda que não apenas, organizando oficinas para jornalistas— em torno desse assunto.
Hoje o panorama da crônica de língua hispânica não é idílico, mas também não é o pior possível. O prêmio concedido pela Fundação —reeditado em 2013 sob o nome de Gabriel García Márquez— se transformou em um dos mais prestigiosos e mais bem remunerados do ofício. Nos últimos anos, quase todas as editoras têm uma coleção de crônicas e várias revistas do continente americano —El Malpensante, Etiqueta Negra, Soho, Anfibia, Gatopardo— cultivam o gênero. Para as novas gerações, as referências do ofício já não são apenas Tom Wolfe e Truman Capote, mas também —e talvez sobretudo— jornalistas de língua hispânica, muitos dos quais foram seus mestres em oficinas da Fundação: Alma Guillermoprieto, Martin Caparrós, Alberto Salcedo Ramos, Juan Villoro.
É difícil pensar no estado da não ficção na América Latina sem levar em conta esse gesto de García Márquez, que, há vinte anos, decidiu criar essa fundação para jornalistas quando, com todo o seu nome, com todo o seu poder, poderia ter feito qualquer outra coisa: um festival de cinema, um prêmio para romances ou nada. Se hoje muitos jornalistas de novas gerações se dedicam a seu ofício sem sentir que necessitam validar seu trabalho com, além disso, uma potente obra de ficção, é, em boa parte, graças a esse gesto.



segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

David Brooks / Não sou Charlie Hebdo


ATENTADO TERRORISTA NA FRANÇA

Não sou Charlie Hebdo

É um bom momento para adotar uma postura menos hipócrita em relação às nossas próprias figuras provocadoras


Os jornalistas do Charlie Hebdo são aclamados agora justamente como mártires da liberdade de expressão, mas sejamos francos: se tivessem tentado publicar seu jornal satírico em qualquer campus universitário norte-americano durante as últimas duas décadas, não teriam durado nem trinta segundos. Os grupos de estudantes e docentes os teriam acusado de incitação ao ódio. A Administração teria cortado seu financiamento e encerrado suas atividades.
A reação pública ao atentado em Paris revelou que há muitas pessoas que se apressam em idolatrar aqueles que são contra as opiniões dos terroristas islâmicos na França, mas que são muito menos tolerantes em relação àqueles que são contra suas próprias opiniões em seu país.
Apenas vejam todas as pessoas que reagiram de maneira exagerada às microagressões no campus. A Universidade de Illinois despediu um professor que analisava a postura da Igreja Católica em relação à homossexualidade. A Universidade do Kansas expulsou um professor por criticar no Twitter a Associação Nacional do Rifle. A Universidade Vanderbilt desqualificou um grupo cristão que insistia em ser dirigido por cristãos.
Os norte-americanos podem elogiar o Charlie Hebdo por ser corajoso o suficiente para publicar caricaturas que ridicularizavam o profeta Maomé, mas quando Ayaan Hirsi Ali é convidada ao campus, há frequentemente pedidos para que suas palestras sejam proibidas.
Por isso, este pode ser um momento para se aprender algo. Agora que estamos horrorizados pelo massacre daqueles escritores e editores em Paris, é um bom momento para adotar uma postura menos hipócrita em relação às nossas próprias figuras polêmicas, provocadoras e satíricas.
A primeira coisa a dizer, suponho, é que independentemente do que você tenha postado em sua página do Facebook na quarta-feira, é incorreto para a maioria de nós afirmar “Je suis Charlie Hebdo” ou “Sou Charlie Hebdo”. A maioria de nós na verdade não adota o humor deliberadamente ofensivo no qual esse jornal é especializado.
Podemos ter começado assim. Quando se tem 13 anos, parece ousado e provocador épater la bourgeoisie [escandalizar a burguesia], enfiar o dedo no olho da autoridade, ridicularizar as crenças religiosas de outros.
Mas, depois de um tempo, isso nos parece pueril. A maioria de nós passa a adotar pontos de vista mais complexos sobre a realidade e mais tolerantes em relação aos demais. (A ridicularização se torna menos divertida à medida que tomamos maior consciência a respeito de nossa própria e frequente ridicularidade). A maioria de nós tenta mostrar um mínimo de respeito frente às pessoas de diferentes credos e religiões. Tentamos começar a conversa escutando em vez de insultando.
Mas, ao mesmo tempo, a maioria de nós sabe que os provocadores e outras figuras bizarras desempenham um papel público útil. Os humoristas e cartunistas expõem nossas fraquezas e vaidade quando nos sentimos orgulhosos. Eles esvaziam o autoelogio inflado dos bem-sucedidos. Nivelam a desigualdade social ao rebaixar os poderosos. Quando eficazes nos ajudam a enfrentar nossas fraquezas em comunidade, já que o riso é uma das experiências de aproximação no final das contas.
Além disso, os especialistas em provocação e ridicularização expõem a estupidez dos fundamentalistas. Os fundamentalistas são pessoas que levam tudo ao pé da letra. São incapazes de adotar pontos de vista diferentes. São incapazes de ver que, embora sua religião possa ser digna da mais profunda veneração, também é verdade que a maioria das religiões é um tanto estranha. Os humoristas expõem aqueles que são incapazes de rir de si mesmos e ensinam aos demais que provavelmente deveriam fazer a mesma coisa.
Em resumo, ao pensar naqueles que provocam e ofendem, desejamos manter normas de civilidade e respeito e, ao mesmo tempo, abrir espaço a esses tipos criativos e desafiadores que não têm as inibições dos bons modos e do bom gosto.
Quando se tenta combinar esse delicado equilíbrio com as leis, as normas de discurso e oradores vetados, o resultado é uma censura nua e crua e conversas abafadas. É quase sempre um erro tentar silenciar o discurso, fixar normas e cancelar convites a palestrantes.
Por sorte, os costumes sociais são mais maleáveis e flexíveis do que os códigos. A maioria das sociedades conseguiu manter padrões de civilidade e respeito ao mesmo tempo em que deixam o caminho aberto para os divertidos, malcriados e ofensivos.
Na maioria das sociedades, adultos e crianças comem em mesas separadas. As pessoas que leem o Le Monde ou as publicações institucionais sentam-se à mesa com os adultos. Os bobos da corte, os excêntricos e pessoas como Ann Coulter e Bill Maher estão na mesa das crianças. Não são totalmente respeitados, mas são escutados porque, com seu estilo de míssil descontrolado, às vezes dizem coisas necessárias que ninguém mais está dizendo.
As sociedades saudáveis, em outras palavras, não silenciam o discurso, mas concedem um status diferente aos diversos tipos de pessoas. Sábios e renomados estudiosos são escutados com grande respeito. Os humoristas são escutados com um confuso semirespeito. Os racistas e antissemitas são escutados através de um filtro de opróbrio e desrespeito. As pessoas que desejam ser escutadas com atenção têm que conquistar isso por meio de sua conduta.
O massacre de Charlie Hebdo deveria ser uma oportunidade para por fim às normas sobre o discurso. E deveria nos lembrar que, do ponto de vista legal, temos que ser tolerantes com as vozes ofensivas, embora sejamos exigentes do ponto de vista social.




domingo, 11 de janeiro de 2015

Je suis Ahmed


Momento em que um dos terroristas mata o policial Ahmed Merabat. / AFP

ATAQUE TERRORISTA EM PARIS

“Je suis Ahmed”

Policial assassinado durante a fuga dos terroristas se transforma em um ícone da tragédia



    A mensagem solidária de Je suis Charlie – Eu sou Charlie – se espalhou poucas horas depois do atentado contra o jornal satírico francês. A primeira imagem que circulou do crime, entretanto, não tinha relação nenhuma com os trabalhadores da publicação. Um vídeo amador mostrava o assassinato a sangue-frio de um policial que fazia sua ronda no momento em que a revista foi atacada.
    As imagens mostravam os dois autores do crime, os irmãos Chérif e Said Kouachi, descer de um carro. Ao passar ao lado do agente, enquanto este pedia clemência a gritos após ter sido baleado no pé, um dos assassinos lhe deu um tiro fatal na cabeça. Sem olhá-lo. Sem compaixão. O agente morto se chamava Ahmed Merabat e, segundo vários meios de comunicação franceses, era muçulmano. Enquanto os cartunistas do Charlie Hebdo foram reconhecidos por sua luta pela liberdade de expressão, Merabat se transformou em um ícone por ter morrido em defesa de um jornal atacado por insultar a fé que ele mesmo professava.

    Imagens cedidas pela Polícia francesa de Amedy Coulibaly (acima), um conhecido islamista radical francês de 32 anos e suposto autor da tomada de reféns em um supermercado de Paris e do assassinato ontem de uma policial municipal francesa, sua colega Hayat Boumeddiene, de 26 anos, relacionada com o assassinato ontem em plena rua em Montrouge, no sul de Paris, e dos principais suspeitos do massacre no semanário "Charlie Hebdo", os irmãos Said e Chérif Kouachi (abaixo).

    A mensagem de Je suis Charlie foi crescendo, principalmente nas redes sociais, ao mesmo tempo em que ganhava força a de Je suis Ahmed – Eu sou Ahmed –, em solidariedade ao agente assassinado. “Eu não sou Charlie, sou Ahmed, o policial morto. Charlie ridicularizou minha fé e cultura e morri defendendo seu direito de fazer isso”, escreveu no Twitter o ativista árabe e escritor Dyab Abu Jahya, fazendo referência à expressão do filósofo francês Voltaire.
    “Ele foi morto de uma forma muito covarde por pessoas que interpretaram erroneamente seu texto sagrado”, lamentou Christophe Crépin, porta-voz de um dos sindicatos policiais franceses, segundo a imprensa local.
    Merabat era um oficial de 42 anos, solteiro e sem filhos, que pertencia à delegacia do distrito 11 de Paris, onde fica a sede do Charlie Hebdo. Seus pais eram originários do norte da África e, segundo declarações de outro agente divulgadas por vários meios de comunicação franceses, residia em um bairro do norte de Paris com uma grande tradição de recebimento de imigrantes.


    sábado, 10 de janeiro de 2015

    Vargas Llosa / Je suis Charlie Hebdo



    ATENTADO TERRORISTA EM PARIS

    “Je suis Charlie Hebdo”

    Querem que o mundo livre renuncie a valores básicos da civilização


    (DE OTROS MUNDOS)



      Acredito que o ocorrido em Paris recentemente não seja apenas um fato horrível que arrepia por sua crueldade e selvageria, mas também uma escalada do que é o terror. Até agora matavam pessoas, destruíam instituições, mas o assassinato de quase toda a redação do Charlie Hebdo significa algo ainda mais grave: querer que a cultura ocidental, berço da liberdade, da democracia, dos direitos humanos, renuncie ao exercício desses valores, que comece a exercitar a censura, pôr limites à liberdade de expressão, estabelecer assuntos proibidos, quer dizer, renunciar a um dos princípios mais fundamentais da cultura da liberdade: o direito à crítica.
      O que pretendem com esse assassinato em massa de jornalistas e cartunistas é que a França, a Europa Ocidental, o mundo livre renunciem a um dos valores que são a base da civilização. Não poder exercer essa liberdade de expressão que significa usar o humor de uma maneira irreverente e crítica significaria pura e simplesmente o desaparecimento da liberdade de expressão, quer dizer, de um dos pilares do que é a cultura da liberdade. Acredito que o Ocidente, a Europa, o mundo livre devem se dar conta de que há uma guerra que acontece em seu próprio território e que devemos ganhá-la se não quisermos que a barbárie tome o lugar da civilização.
      É preciso agir com firmeza, sem complexos de inferioridade em relação aos que representam o fanatismo, mas também respeitando rigorosamente a legalidade que é tão importante quanto a liberdade. Um dos riscos mais graves desse horrível ataque terrorista é o estímulo à xenofobia nos partidos extremistas que são tão perigosos para a democracia quanto os fanáticos islâmicos.
      Esse assassinato em massa vai atrair adeptos para partidos como a Frente Nacional e todos os grupos e facções que quiseram destruir a Europa e levar os países europeus de volta à época dos nacionalismos intolerantes e xenófobos. É preciso fazer um esforço para evitar que isso ocorra e que a Europa seja destruída tanto por seus inimigos quanto por aqueles que pretendem defendê-la através de outras formas de intolerância e fanatismo.
      A França foi uma das fundadoras da cultura da liberdade com a declaração de direitos humanos, que estabeleceu constitucionalmente uma liberdade de expressão que seus cidadãos, seus intelectuais e seus políticos têm exercitado de maneira exemplar ao longo de toda sua história. Por isso a tragédia vivida pela França nestes dias é uma tragédia que afeta todas as mulheres e todos os homens livres deste mundo, que devem repetir como estão fazendo milhares de franceses todos os dias: “Je suis Charlie Hebdo”.
      Mario Vargas Llosa é prêmio Nobel de Literatura.




      PESSOA

      quinta-feira, 8 de maio de 2014

      Gabriel García Márquez / Entre a disciplina e a farra

      Gabriel García Márquez junto a Alma Guillermoprieto, Jaime Abello Banfi, Gustavo Bell, José Salgar,
      Javier Darío Restrepo y Sergio Ramírez na sede da FNPI em Cartagena, 2006. /
      ARCHIVO FNPI

      Gabriel García Márquez

      Entre a disciplina e a farra

      A escritora lembra de sua relação com García Márquez através da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano





      ALMA GUILLERMOPRIETO 19 ABR 2014 - 19:55 BRT

      Muitas pessoas que nunca o conheceram e a quem nunca fez danos falavam horrores dele. Que era orgulhoso, déspota, demasiado próximo ao poder. Por outro lado, não notavam que ele hipnotizava igualmente o poder e os poderosos, o jornalismo e os jornalistas, ou qualquer outro ofício que se exercesse com esforço e maestria; que passava inventando projetos para usufruto de outros, e que no círculo de suas verdadeiras amizades ele e Mercedes mantiveram por igual aos velhos amigos dos tempos duros e aos resplandecentes protagonistas líderes.
      Eu o conheci trabalhando—me chamou um dia para que participasse nan construção da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano— e desde essa primeira tarde me assombrou não só a generosidade do telefonema senão a energia que o levou a criar uma e outra vez projetos deslumbrantes e ambiciosos. Não coloco aqui a palavra "sonhadores", porque nunca me pareceu que sonhasse muito. Entusiasmava-se, fazia.
      Certamente era vaidoso; seu trabalho tinha custado a ele acumular os lucros para justificá-lo. Egoísta era, como todo artista que vive defendendo a muralha que protege sua criatividade do mundo. Que se aproximou do poder? Aí sim, nem se fala: hipnotizado, mais bem, pelo poder, indiscutível e incompreensivelmente, e de frente. Tudo fazia parte de sua voraz curiosidade e sua fome de mundo, suas vontades de tudo: de triunfar, de admirar, de saber, de festejar. Neste último dava aulas apesar da idade e da enfermidade: nas reuniões da Fundação davam a uma, as duas, as três da manhã, vinga beber, vinha rumba, rumba ia, iam caindo um depois do outro os celebrantes, e ele e Mercedes, incólumes.
      Quando o conheci já exercia mais a disciplina que a farra, e pouco a pouco fui percebendo não só sua enorme capacidade de trabalho, senão o orgulho que produzia ser capaz de trabalhar assim. Nunca o ouvi se ufanar de tal livro ou tal frase bem construída. Presumia, ao contrário, do trabalho que lhe tinha custado a conseguir. "A mim o que me dá medo", disse uma e outra vez, "é que me vejam na carpintaria". Mas não era verdadeiro: a carpintaria—a estrutura inexpugnável de cada um de seus romances, as pontes e as transições invisíveis entre seus episódios, os ritmos síncopes e velozes da cada frase, o empurrão tão tremendo dinâmico no uso dos verbos—era o trabalho que levava a cabo arduamente. O talento tinha o presenteado algum deus—Hermes, quiçá, tão traveso e comunicador—e portanto não pertencia a ele. O que Gabo contribuía era o esforço e o trabalho, e isso sim era de sua propriedade. Não por nada Aureliano Buendía não é um artista senão um ourives.

      sábado, 3 de maio de 2014

      García Márquez e a Escola de Jornalismo

      Gabriel García Márquez

      Gabo e a Escola de Jornalismo

      No dia 6 de setembro de 1995 um grupo de alunos da Escola de Jornalismo do EL PAÍS escutou pela primeira vez o início de 'Notícia de um sequestro'



        O escritor Gabriel García Márquez durante a conversa-colóquio na Escola de Jornalismo da UAM em 1994. / GORKA LEJARCEGI
        Desatou-se um vendaval e as luzes se desligaram para não voltar em um bom tempo. Na sala de aulas La Cristalera da Universidade Autónoma de Madri (UAM), no povoadinho madrilenho de Miraflores de la Sierra, a 60 quilômetros da capital, Gabriel García Márquez pediu velas e continuou com sua oficina de Reportagem e Redação para uma dúzia de privilegiados alunos da Escola de Jornalismo UAM/ EL PAÍS. No meio da estrepitosa tormenta, os congregados ouviram pela primeira vez o seguinte parágrafo: “Antes de entrar no carro olhou para acima do ombro para ter certeza de que ninguém a espreitava. Eram as sete e cinco minutos da noite de Bogotá. Tinha escurecido uma hora antes, o Parque Nacional estava mal iluminado e as árvores sem folhas tinham um perfil fantasmagórico contra o céu turvo e triste, mas não havia à vista nada que temer”. Parecia uma metáfora do que nesse momento estava ocorrendo em Miraflores. Era 6 de setembro de 1995 e um grupo de jornalistas que amadurecia escutava pela primeira vez o começo deNotícia de um sequestro.
        No final de 1993 Gabo viajava a Madri. Quer se entrevistar com os responsáveis e os alunos da Escola de Jornalismo para conhecer in situseu funcionamento. Gabo se tranca por cerca de três horas com professores e alunos, e dá sua visão do jornalismo e do que quer fazer e, sobretudo, pergunta para sanar suas dúvidas, se afiançar de algumas ideias e corrigir outras. Permite aos alunos que gravem essa conversa, que é inédita e que se conserva no arquivo da Escola. Apenas um trimestre depois, a conversa se repete em Bogotá, com mais intensidade. No café do hotel Charleston da capital colombiana, García Márquez comenta que está muito decidido a liderar “algo” relacionado com a formação dos jornalistas. É a origem da Fundação Novo Jornalismo Iberoamericano (FNPI, em sua sigla em espanhol).