domingo, 20 de agosto de 2017

Cortázar / O velho cronópio


Julio Cortázar

O velho cronópio

Em entrevista à CULT, o tradutor Eric Nepomuceno retoma a obra e o método do escritor Julio Cortázar, falecido há 30 anos
Patrícia Homsi
“E era muito natural eu atravessar a rua, subir as escadas da ponte, dar mais alguns passos e aproximar-me da Maga, que sorria sempre, sem surpresa, convencida, como eu, de que um encontro casual era o menos casual em nossas vidas e de que as pessoas que marcam encontros exatos são as mesmas que precisam de papel pautado para escrever ou que começam a apertar pela parte de baixo o tubo de pasta dentifrícia”, disse Horacio Oliveira, o protagonista de Rayuela, ou O jogo da amarelinha, do argentino Julio Cortázar.
Cortázar, como sua personagem, de fato não precisava de papel pautado para escrever. Escrevia e reescrevia, e revisava até o fim de sua vida, em 12 de fevereiro de 1984, há exatos 30 anos. Tradutor de Edgar Allan Poe (reconhecidamente, sua melhor tradução ao espanhol) e crítico compulsivo das próprias obras, Cortázar produziu tanto que, mesmo após sua morte, ainda havia um grande número de textos não publicados, contos e “entrevistas em frente ao espelho”, organizados no livro Papéis Inesperados (Civilização Brasileira, 2010). Em um dos textos, por exemplo, o autor revela sua surpresa em observar a identificação dos jovens comRayuela. Cortázar compara o desejo dos jovens com o arremesso da pedra – destinada aos quadrados de giz da amarelinha desenhada no chão – ao céu. “E este céu, e isto é o que nos une, eles e eu chamamos de revolução.”
Cortázar foi casado com Aurora Bernárdez, uma tradutora argentina com quem viveu em Paris – cenário de O jogo da amarelinha – e com Carol Dunlop, falecida antes do escritor, que morreria dois anos mais tarde em decorrência de uma leucemia. Julio Cortázar foi enterrado junto à esposa, no Cemitério de Montparnasse, em Paris, onde também estão Samuel Beckett, Simone de Beauvoir, Jean-Paul Sartre, Serge Gainsbourg e Charles Baudelaire. Acima de sua lápide há um poético e pomposo Cronópio – criatura alegre e sonhadora idealizada e almejada pelo escritor.
Em 2014, além de relembrar a morte do autor, a literatura argentina comemora seu centenário, no próximo mês de agosto. De hoje ao aniversário de nascimento de Cortázar (26 de agosto), haverá eventos em Buenos Aires e Chivilcoy, província argentina em que morou na época em que dava aulas de literatura.
Junto ao centenário de Cortázar, sua obra de maior expressão, Rayuela, comemora 50 anos. A exposição Rayuela, 50 años fica em cartaz até julho em Buenos Aires e traz mais de 30 primeiras edições de Julio Cortázar preservadas pela Biblioteca Nacional.
Aqui no Brasil, a editora Civilização Brasileira relançou Bestiário e prepara para este semestre uma nova tradução de O jogo da amarelinha.
CULT conversou com Eric Nepomuceno, tradutor de algumas obras de Cortázar, sobre os métodos e influências do autor:
CULT – Qual foi a maior dificuldade na tradução da obra de Cortázar para o português?
Eric Nepomuceno – Traduzi As armas secretas e estou terminando a nova tradução deRayuela, ou seja, O jogo da amarelinha. Toda e qualquer tradução tem suas dificuldades, e não é possível comparar as de um autor às de outro. No caso de Cortázar, tanto nos contos como neste romance, o primeiro desafio é manter o ritmo da sua escrita. Depois, a construção das frases. Especialmente em Rayuela, essa arquitetura é especialmente intrincada, inventiva, com um aspecto lúdico muito complexo e, ao mesmo tempo, com muita carga poética. Impossível dizer qual a maior dificuldade. Melhor seria dizer das muitas dificuldades, mas que acabam resultando num desafio irresistível.
Apesar de ter começado a escrever muito cedo, Julio Cortázar publicou seu primeiro livro depois dos quarenta anos. Em sua opinião, isso afetou na qualidade e na técnica do autor?
Nunca pensei nesse aspecto, para falar a verdade. Cortázar domina uma técnica muito pessoal, extremamente difícil, justamente pela simplicidade da escrita. É um contista formidável, sua prosa é sempre impregnada da fala, do ritmo, da textura, da respiração de Buenos Aires. Mesmo nos contos fantásticos, de grande inventividade, está sempre permanente o humor e a melancolia da cidade. Claro que, como em todo autor, seus textos de iniciantes não têm a consistência do que veio depois. Acho que a partir de Bestiário ele assume o controle absoluto da escrita, que dominou até seus textos derradeiros. Enfim, ele sempre foi extremamente zeloso pelo acabamento de seus textos, mas não creio que se tivesse publicado, digamos, aos 30, teria sido menos exigente.
O senhor considera que a paixão de Cortázar pelo jazz influenciou seu ritmo de escrita?
Sem dúvida. Conto uma coisa: só consigo entrar no ritmo da escrita dele se ouvir música enquanto traduzo. Em minhas jornadas de traduzir Rayuela, ouço muito Gil Evans, Miles Davis, Egberto Gismonti e, principalmente, Astor Piazzolla.
O próprio Cortázar foi considerado o melhor tradutor de Edgar Allan Poe para a língua espanhola. O senhor acredita que seu ofício como tradutor era beneficiado por seu estilo na literatura?
Sempre – sempre – que um escritor traduz outro escritor, a relação será beneficiada. Um tradutor que não seja ficcionista (e há muitos deles que são tradutores formidáveis) jamais terá a mesma cumplicidade com a palavra escrita. Veja bem: não falo do estilo de Cortázar na hora de traduzir Poe ou qualquer um dos muitos outros autores que ele traduziu. Falo da sua cumplicidade.
O senhor pode me contar sobre a influência do momento em que Cortázar foge do governo Perón e se muda para Paris em sua obra?
É um tema muito complexo. O Cortázar que abandona a Argentina nos tempos finais da primeira etapa de Perón (1947-1955) é um homem muito pouco informado, pouco politizado. A partir da Revolução Cubana ele passa a ver a realidade latino-americana com outros olhos. E é esse Cortázar politizado, solidário e ativo militante, um homem progressista e íntegro, o que vale.
Por serem conterrâneos, Cortázar e Jorge Luis Borges são muito frequentemente relacionados, pelo menos, aqui no Brasil. Em que pontos a literatura destes argentinos se encontra ou se afasta?
Borges escrevia com o cérebro. Cortázar, com a alma. Essa a principal diferença. Um era humano. O outro, nem tanto… Mestres os dois, é claro. Mas apenas com um deles eu e meus amigos compartilhamos alegrias, tristezas, esperanças, desesperanças, pão, vinho e vida.

CULT

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Julio Cortázar / Continuidade dos parques




Julio Cortázar

Continuidade dos parques

Tradução de Remy Gorga Filho.

Começara a ler o romance dias antes. Abandonou-o por negócios urgentes, voltou à leitura quando regressava de trem à fazenda; deixava-se interessar lentamente pela trama, pelo desenho dos personagens. Essa tarde, depois de escrever uma carta a seu procurador e discutir com o capataz uma questão de parceria, voltou ao livro na tranquilidade do escritório que dava para o parque de carvalhos. Recostado em sua poltrona favorita, de costas para a porta que o teria incomodado como uma irritante possibilidade de intromissões, deixou que sua mão esquerda acariciasse de quando em quando o veludo verde e se pôs a ler os últimos capítulos. Sua memória retinha sem esforço os nomes e as imagens dos protagonistas; a fantasia novelesca absorveu-o quase em seguida. Gozava do prazer meio perverso de se afastar linha a linha daquilo que o rodeava, e sentir ao mesmo tempo que sua cabeça descansava comodamente no veludo do alto respaldo, que os cigarros continuavam ao alcance da mão, que além dos janelões dançava o ar do entardecer sob os carvalhos. Palavra por palavra, absorvido pela trágica desunião dos heróis, deixando-se levar pelas imagens que se formavam e adquiriam cor e movimento, foi testemunha do último encontro na cabana do monte. Primeiro entrava a mulher, receosa; agora chegava o amante, a cara ferida pelo chicotaço de um galho. Ela estancava admiravelmente o sangue com seus beijos, mas ele recusava as carícias, não viera para repetir as cerimônias de uma paixão secreta, protegida por um mundo de folhas secas e caminhos furtivos. O punhal ficava morno junto a seu peito, e debaixo batia a liberdade escondida. Um diálogo envolvente corria pelas páginas como um riacho de serpentes, e sentia-se que tudo estava decidido desde o começo. Mesmo essas carícias que envolviam o corpo do amante, como que desejando retê-lo e dissuadi-lo, desenhavam desagradavelmente a figura de outro corpo que era necessário destruir. Nada fora esquecido: impedimentos, azares, possíveis erros. A partir dessa hora, cada instante tinha seu emprego minuciosamente atribuído. O reexame cruel mal se interrompia para que a mão de um  acariciasse a face do outro. Começava a anoitecer.
Já sem se olhar, ligados firmemente à tarefa que os aguardava, separaram-se na porta da cabana. Ela devia continuar pelo caminho que ia ao Norte. Do caminho oposto, ele se voltou um instante para vê-la correr com o cabelo solto. Correu por sua vez, esquivando-se de árvores e cercas, até distinguir na rósea bruma do crepúsculo a alameda que levaria à casa. Os cachorros não deviam latir, e não latiram. O capataz não estaria àquela hora, e não estava. Subiu os três degraus do pórtico e entrou. Pelo sangue galopando em seus ouvidos chegavam-lhe as palavras da mulher: primeiro uma sala azul, depois uma varanda, uma escadaria atapetada. No alto, duas portas. Ninguém no primeiro quarto, ninguém no segundo. A porta do salão, e então o punhal na mão, a luz dos janelões, o alto respaldo de uma poltrona de veludo verde, a cabeça do homem na poltrona lendo um romance.
 Do livro Final do jogo. 


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Juan Carlos Onetti / Três poemas

Juan Carlos Onetti

Três poemas 

Tradução de Nina Rizzi


E o pão nosso
Só conheço de ti
o sorriso monalisa
com lábios separados
o mistério
minha teimosa obsessão
por desvendá-lo
e avançar obstinado
e surpreendido
tateando seu passado
Só conheço
o doce leite de seus dentes
o leite brando e zombeteiro
que me separa
e para sempre
do paraíso imaginado
da impossível manhã
de paz e da felicidade silenciosa
de abrigo e pão compartilhado
de algum objeto cotidiano
que eu pudesse chamar
nosso

Querida Litty
Há meses
com inusitada frequência
não me deixa o carteiro cartas tuas.
Será amnésia de homem
ou talvez as empilhe
em um canto limpo
de seu quarto de solteiro
solteirão
e em algum dia me traga
numa fita rosa
todas juntas
como um banquete
para o esquecido faminto
que se pode imaginar
desde agora
uma clara catarata
de ternuras e recordações.

Balada do ausente
Então não me dê um motivo, por favor,
Não dê consciência à nostalgia,
Ao desespero e ao jogo.
Pensar-te e não ver-te
Sofrer em ti e não alçar meu grito
Ruminar sozinho, graças a ti, por minha culpa,
No único que pode ser
Inteiramente pensado
Chamar sem voz porque Deus quis
Que se Ele tem compromissos
Se Deus mesmo te impede contestar
Com dois dedos a saudação
Cotidiano, noturno, inevitável
É necessário aceitar a solidão,
Confortar-se irmandado
Com o cheiro de cachorro, nesses dias úmidos de sul
Em qualquer regresso
Em qualquer hora mutável do crepúsculo
Teu silêncio
E o passo indiferente de Deus que não vê nem saúda
Que não responde ao chapéu de luto
Golpeando os joelhos
Que teme a Deus e se preocupa
Pelo que opina, condena, resmunga, impõe
Não me dê consciência, grito, necessidade, nem ordem.
Estou nu e longe, o que me deixaram
Girou para o mundo e seu segredo de musgo,
Até a claridade dolorosa do mundo,
Nu, sozinho, desarmado, rolou meu corpo magro
Tropeço e avanço
Aproximo-me talvez de uma fronteira
A um ódio inútil, à sua crescente miséria
E tampouco é consolo
Essa doce ilusão de paz e de combate
Porque a distância
Não é já, se dissolve na espera
Graciosa, incompreensível, de ajudar-me
A viver e esperar.
Nenhum outro país é para sempre
Meu pé esquerdo na barra de bronze
Fundido com ela.
O moço que compreende, ajuda a esperar, acredita que pode ignorar.
Aceitam-se todas as apostas:
Eternidade, inferno, aventura, estupidez
Mas sou maior
Já nem sequer creio
Em romper espelhos
Na noite
E lamber o sangue dos dedos
Como se tivesse traído desde lá
Como se a salobra mentira se engrossasse
Como se o sangue, pequena dor afiada,
Aproximasse-me ao que resta vivo, brando e ágil.
Morto pela distância e o tempo
E eu a perco, dou minha vida,
Mudo de velhices e ambições alheias
Cada dia mais antigas, vilmente desejosas e estranhas.
Voltei e não voltarei, não posso cair.
Apoiarei o sapato na viga de bronze
E espero sem pressa sua velhice, sua singularidade, seu minúsculo não ser.
A paz e depois, afortunadamente, em seguida, nada.
Lá estarei. O tempo não tocará meu pelo, não inventará rugas, não me inchará as bochechas
Aí estarei esperando uma nomeação, um encontro
Que não se cumprirá. 


quarta-feira, 16 de agosto de 2017

A Literatura de Horácio Quiroga


A Literatura de Horácio Quiroga


A América Latina apresentou ao mundo grandes escritores que hoje são considerados verdadeiros clássicos da literatura universal. Artistas nascidos numa sociedade localizada na periferia do capitalismo, dona de rara heterogeneidade cultural e refém de gritantes clivagens sociais, desenvolveram uma maneira peculiar de expressar as contradições e injustiças do desenvolvimento do capital.
Portanto, grandes artistas como Gabriel Garcia Marques, Arthur Engrácio, Machado de Assis, Milton Hantoum, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa ou Graciliano Ramos, estão expondo, numa linguagem própria, o sofrimento, as angustias e os desejos coletivos do povo latino americano, bem como o andar melancólico e trágico da implantação da modernidade em sociedades subalternas — processo este que passaria despercebido aos escritores vindos do “centro” do mundo.
Entre estes autores quem mais chama atenção é o escritor uruguaio Horacio Quiroga (1878-1937) cuja singularidade não está necessariamente na critica social de suas narrativas, ao contrário de outros artistas mais engajados comoRamos, Engrácio ou Marques — a critica social de Quiroga, quando surge, é um simples adorno complementar na narrativa. Seu grande trunfo estilístico reside na forma como sua imaginação literária extraiu toda a tragédia e as decepções de sua vida para criar grandes obras primas do conto sul-americano.
Em certos aspectos a obra e a vida de Quiroga convergem, exatamente como convergem vida e obra de uma de suas maiores influências, Edgar Allan Poe(1809-1849). A morte, a tragédia e a decepção parecem ter pairado sobre a existência do autor uruguaio, exatamente como ela se agarrou à curta vida do autor de A Queda da Casa de Usher, que viveu pouco, sofreu muito e tornou-se um dos mais célebres contistas da literatura universal. Quiroga é direto, conciso, consegue dizer muita coisa em poucas palavras, com uma linha ele é capaz de criar todo um arco dramático ou descrever satisfatoriamente uma paisagem inteira; em muitos momentos lembra um escritor de nossa terra, Arthur Engrácio, em outras, pela sua força em armar historias trágicas, se parece muito com seu mestre Poe.
A primeira tragédia da vida do autor de o Travesseiro de Plumas ocorreu quando ainda era uma criança — o pai morreu durante uma caçada, num suposto acidente. Quando adolescente presenciou o padrasto paralítico se matar com um tiro de escopeta na boca; pouco depois, enquanto manuseava uma pistola, acabou matando seu melhor amigo, Frederico Fernando. Na vida amorosa também não fora feliz, seus dois casamentos naufragaram.
O universo literário de Quiroga esta prenhe destes temas: decepções, tragédias que se abatem prematuramente sobre vidas que parecem ter sido marcadas com a insígnia do infortúnio. A narrativa O Solitário, por exemplo, mostra a condição enfermiça do casamento entre um velho e hábil joalheiro e sua jovem esposa, que não o ama, mas que deseja as jóias que não o pertencem. A intensidade da história vai evoluindo até desembocar de maneira inteligente para um terrível desfecho.
Já no conto A Galinha Degolada, um dos mais assustadores e cruéis do autor, é retratado o cotidiano de uma família que se deteriora por completo em virtude dos pais não conseguirem gerar um filho normal. Esta narrativa é prenhe de uma tensão e de um prenúncio cujo leitor sente logo na primeira frase — um artifício que o uruguaio aprendeu muito bem lendo Poe. A historia nos permite perceber a situação de extremo preconceito a que eram submetidos no inicio do século XX os deficientes intelectuais: O dia todo, sentados num banco no quintal, estavam os quatro filho idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos, e viravam a cabeça com a boca toda aberta.
No já citado e famoso O Travesseiro de Plumas, é narrada a decadência lenta e angustiante da vida de uma jovem moça que é vitimada por um parasita que lhe sorve todo o sangue.
O autor, que também residiu por muito tempo na região rural da Argentina, retratou com maestria o estilo de vida da região. Em À Deriva, por exemplo, narra a má sorte de um trabalhador rural que, ao ser picado por uma jararacuçu, morre horrivelmente em sua canoa sobre o rio, quando tentava chegar ao povoado vizinho para conseguir assistência médica. O leitor pode perceber como naquela região era difícil o acesso á medicamentos em situações de emergência — não muito diferente do que acontece na Amazônia com as comunidades tradicionais mais afastadas dos grandes centros.
Os Mensá é o conto de maior cunho social de Quiroga. Conta a historia de dois lenhadores da região das missiones, cansados de serem explorados pelo senhor de terras, empreendem uma arriscada fuga, que termina de uma maneira inusitada: trágica, cômica e irônica. Aqui podemos perceber que a escravidão por dividas, endêmica até hoje na Amazônia e no Nordeste, não foi um privilegio destas regiões, mas ocorre em qualquer região rural onde o poder público é incapaz de coibir a dominação de uma aristocracia sedenta de lucros sobre trabalhadores e trabalhadoras desemparados. O nível de degradação moral e econômica a que são submetidos assemelha-se muito com a dominação que Arthur Engrácio retratara como poucos ao narrar a vida da decadente economia extrativista na Amazônia.
Há outras histórias que procuram mostrar a vida rural dos pampas hispânicos, são Arame Farpado, Yguaí e o sinistro A Insolação. Todos estes contos são envoltos numa atmosfera trágica onde a morte não é apenas um prenúncio, mas uma certeza…
A decepção amorosa também é explorada no bucólico Uma estação de Amor, que narra um namorico de um jovem de quinze anos, pertencente a uma família aristocrática, que terá serias consequências muitos anos depois em sua vida; e no belíssimo A morte de Isolda, da qual Quiroga nos mostrar a impossibilidade de encontrar o amor verdadeiro, e mesmo quando este surge perante nós e temos total facilidade para agarrá-lo, não o fazemos por estarmos tão cegos diante dos prazeres da vida.
Como todo grande artista, Quiroga consegue adaptar sua arte para explorar com maestria os mais variados temas como exploração, morte, doenças, insanidade, tristeza, doença ou amor. Ao escrever o famoso texto Decálogos do Contista, um trecho chama especial atenção por ser a descrição exata de seu método literário: Pegue seus personagens e conduza-os pela mão até o final, sem deixar que nada o desvie do caminho traçado. Não abuse do leitor. Um conto é um romance depurado de resíduos.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Horacio Quiroga / À deriva






Horácio Quiroga

À deriva
Tradução de Jádson Barros Neves 





O homem pisou algo brando e mole e, em seguida, sentiu a picada no pé. Saltou para frente, e ao se voltar com um palavrão, viu a jararacuçu que se recolhia sobre si mesma; preparava outro ataque.
      
O homem lançou uma rápida olhada a seu pé, de onde duas gotinhas de sangue engrossavam dificultosamente, e então sacou o facão da cintura. A víbora viu a ameaça, e fundiu mais a cabeça no centro mesmo de sua espiral; porém o facão caiu sobre ela, deslocando-lhe as vértebras.
      
O homem abaixou-se para olhar a mordida, limpou as gotinhas de sangue, e durante algum tempo contemplou. Uma dor aguda nascia dos dois pontinhos violeta, e começava a expandir-se por todo o pé. Apressadamente, amarrou o tornozelo com o lenço que trazia amarrado à cintura, e seguiu pela picada até seu rancho.
      
A dor no pé aumentava, e de repente, o homem sentiu dois ou três fulgurantes pontadas que como relâmpagos haviam-se irradiado da ferida, até a metade da panturrilha. Movia a perna com dificuldade; uma sede metálica na garganta, seguida de uma sede ardente, arrancou-lhe outro palavrão.
      
Chegou finalmente ao rancho, e abraçou a roda do moinho. O dois pontinhos violeta desapareciam agora na monstruosa inchação do pé inteiro. Parecia-lhe enfraquecida, e a ponto de ceder, de tão tensa. O homem quis chamar sua mulher, mas sua voz se quebrou num grunhido rouco de garganta ressecada. A sede o devorava.
      
__ Dorotea! – conseguiu lançar um grito. – Me dá cachaça!
      
Sua mulher correu com um copo cheio, que o homem sorveu de três tragos. Porém não havia sentido gosto algum.
      
 __ Te pedi cachaça, não água! – rugiu de novo. – Quero cachaça!
__ Mas é cachaça, Paulino! – protestou a mulher, espantada.
__ Não, me deste água! Quero cachaça, te digo!
      
A mulher correu outra vez, voltando com o garrafão. O homem bebeu um atrás do outro três copos, porém não sentiu nada na garganta.
      
__ Bom, isto está feio... – murmurou então, olhando seu pé lívido e já com um brilho gangrenoso. Sobre a intensa atadura do lenço, a carne transbordava como uma pavorosa morcela.
      
As dores fulgurantes sucediam-se em relâmpagos contínuos, e chegavam agora à virilha. Além disso, a atroz sequidão da garganta que o esforço parecia esquentar mais, aumentava. Quando pretendia encorpar-se, um fulminante vômito manteve-o meio minuto com a testa apoiada na roda de madeira.
      
Mas o homem não queria morrer, e descendo à costa, subiu em sua canoa. Sentou-se na popa e começou a remar até o centro do Paraná. Ali, a correnteza do rio, que nas imediações do Iguaçu corre por seis milhas, o levaria antes de cinco horas a Tacurú-Pucú.
      
O homem, com fatigada energia, pode efetivamente chegar até o meio do rio; no entanto, ali suas mãos dormentes deixaram cair o remo na canoa, e por causa de um novo vômito – de sangue esta vez -, dirigiu um olhar ao sol que transpunha a montanha.
      
A perna inteira, até metade da coxa, era já um pedaço disforme e duríssimo que rompia a roupa. O homem cortou a ligadura e abriu a calça com a faca: a parte inferior desbordou inchada, com grandes manchas lívidas e terrivelmente dolorosas. O homem pensou que não poderia jamais chegar sozinho a Tacurú-Pucú, e decidiu pedir ajuda a seu compadre Alves, embora fizesse muito tempo estivessem intrigados um com o outro.

A correnteza do rio precipitava-se agora para a costa brasileira, e o homem pode facilmente atracar. Arrastou-se pela picada costa acima, porém a vinte metros, exausto, ficou estendido de costas.

__
 Alves! – gritou com a força que pode; e prestou atenção em vão.
__
 Compadre Alves! Não me negue este favor! – clamou de novo, levantando a cabeça do solo.

No silêncio da selva, não se ouviu um só rumor. O homem teve ainda forças para chegar até sua canoa, e a correnteza, apoderando-se dela de novo, levou-a à deriva.

O Paraná corre ali no fundo de uma imensa depressão, cujas paredes, com altura para lá de cem metros, estreitam funebremente o rio. Desde as margens cercadas de negros blocos de basalto eleva-se o bosque, negro também. Adiante, às costas, sempre a eterna muralha lúgrube, em cujo fundo o rio afunilado se precipita em incessantes erupções de água lodosa. A paisagem é agressiva, contudo, sua beleza sombria e calma cobra uma majestade única.

O sol havia já havia caído, quando o homem, estendido no fundo da canoa, teve um violento calafrio. E, de repente, com assombro, pôs na vertical pesadamente a cabeça: sentia-se melhor. Somente a perna lhe doía, a sede apagava-se, e seu peito, livre já, abria-se em lenta inspiração.

O veneno começar a ir-se, não havia dúvida. Achava-se quase bem, e embora não tivesse forças para mover a mão, contava com a vinda do orvalho para repor-se todo. Calculou que antes de três horas estaria em Tacurú-Pucú.

O bem-estar progredia e, com ele, uma letargia cheia de recordações. Não sentia mais nada na perna nem no ventre. Viveria ainda seu compadre Gaona em Tacurú-Pucú? Por acaso veria também seu ex-patrão, mister Dougald, e o encarregado de obras?

Chegaria repentinamente? O céu, a poente, abria-se agora num resplendor de sangue, e o rio se havia avermelhado também. Da costa paraguaia, já em trevas, a montanha deixava cair sobre o rio sua frescura crepuscular, em penetrantes eflúvios de flores de laranjeiras e mel silvestre. Um casal de araras cruzou o céu muito alto e em silêncio até o Paraguai.

Lá embaixo, sobre o rio de ouro, a canoa derivava velozmente, girando de tempos em tempos sobre si mesma, ante a erupção de um remoinho. O homem que ia nela se sentia cada vez melhor, e pensava no tempo justo em que havia passado sem ver seu ex-patrão Dougald. Três anos? Talvez, não tanto. Dois anos e nove meses? Talvez. Oito meses e meio? Isso sim, certamente.

De repente, sentiu que estava gelado até o peito. Que seria? E a respiração...

Ao madeireiro de mister Dougald, Lorenzo Cubilla, havia conhecido em Puerto. Esperança em Sexta-feira Santa...Sexta-feira? Sim, ou quinta-feira...

O homem estendeu lentamente os dedos da mão.

__
 Uma quinta-feira...

E parou de respirar.      


Horacio Quiroga (1878 – 1937), nasceu em Salto, no Uruguai, foi poeta, romancista, diplomata e dramaturgo. Sua vida foi marcada por acontecimentos trágicos — a morte violenta do pai, o suicídio do padrasto, o falecimento de dois de seus irmãos, o suicídio da primeira esposa e, posteriormente à sua morte, também por suicídio ao saber que sofria de um câncer gástrico, seus três filhos se suicidaram. Conviveu em Paris com Rúben Darío, foi professor de castelhano em Buenos Aires – Argentina, trabalhou como fotógrafo em uma expedição às ruínas jesuíticas de Misiones, onde morou. Algumas de suas obras: Los arrecifes de coral (1901 – Os recifes de coral), Cuentos de amor, de locura y de muerte (1917 – Contos de amor, de loucura e de morte), Cuentos de la selva (1918 – Contos da selva), Los desterrados (1926 – Os desterrados), e Más Allá (1935 – Mais além), última obra do autor.
 
(O conto acima foi extraído do livro "Cuentos de amor, de locura y de muerte", constante na obra TODOS LOS CUENTOS, da Editora ALLCAXX/SCIPIONE CULTURAL.)  




domingo, 13 de agosto de 2017

Horacio Quiroga / A galinha degolada


Horácio Quiroga
A galinha degolada

O dia inteiro sentados num banco do pátio, ficavam os quatro filhos idiotas do matrimônio Mazzini-Ferraz. Tinham a língua entre os lábios, os olhos estúpidos vazios e se voltavam com a boca aberta. O pátio era de chão batido, fechado a oeste por um muro de ladrilhos. O banco ficava paralelo a ele, a uma distância de cinco metros, e ali os filhos se mantinham imóveis, com os olhos fixos nos ladrilhos. O sol desaparecia detrás do muro e, ao declinar, os idiotas faziam festa. A princípio, a luz alucinante chamava sua atenção e, pouco a pouco, seus olhos se animavam: riam finalmente estrepitosos, congestionados pela mesma hilaridade ansiosa, contemplando o sol com uma espécie de alegria bestial..

Outras vezes, alienados no banco, zumbabam horas inteiras, imitando o bonde elétrico. Os ruídos violentos sacudiam desta forma sua inércia e então corriam, mordendo a própria língua e bramando, ao redor do pátio. Contudo, quase sempre estavam apagados, imersos na profunda letargia do idiotismo, e passavam todo o dia sentados em seu banco, com as pernas suspensas e quietas, empapando a calça de uma saliva grossa.

O mais velho tinha doze anos e o menor, oito. Em todo seu aspecto sujo e miserável, notava-se a falta absoluta de um mínimo cuidado maternal..

Esses quatro idiotas, no entanto, tinham sido um dia o encanto de seus pais. Com três meses de casados, Manzzini e Berta orientaram seu estreito amor de marido e mulher, mulher e marido, para um futuro muito mais vital: um filho. Que maior felicidade para dois apaixonados que essa honrosa consagração de seu carinho, libertado já do vil egoísmo de um mútuo amor sem fim nenhum e o que é pior para o amor mesmo, sem esperanças possíveis de renovação?

Assim estavam Mazzini Berta, e quando o filho nasceu, aos catorze meses de casamento, acreditaram cumprida sua felicidade. A criança cresceu bela e radiante, até um ano e meio. Porém, no vigésimo mês, sacudiram-na uma noite convulsões terríveis, e na manhã seguinte não conhecia mais seus pais. O médico  examinou-o com essa atenção profissional de quem está visivelmente buscando o mal nas enfermidades dos pais.

Depois de alguns dias, os membros paralisados recuperaram o movimento; porém a inteligência, a alma, até o instinto se haviam ido tudo: tinha ficado profundamente idiota, babão, pendente, morto para sempre sobre os joelhos da sua mãe.

— Filho, meu filho querido!— soluçava esta, sobre aquela espantosa ruína de seu primogênito.

O pai, desolado, acompanhou-a ao médico.

— A você se pode dizê-lo. Creio que é um caso perdido. Poderá melhorar, educá-lo com todas as limitações de seu idiotismo, porém não mais longe.

— Sim…! Sim — assentia Mazzini. — Porém, diga-me: você acredita que é hereditário, que...?

— Quanto à hereditariedade paterna, já lhe disse o que acreditava quando vi seu filho. Respeito sua mãe, mas há ali um pulmão que não sopra bem. Não vejo nada mais, porém há um sopro um pouco áspero. Faça com que ela o examine bem.

Com a alma destroçada pela aflição, Mazzini redobrou o amor a seu filho, o pequeno idiota que pagava pelos excessos do avô. Teve assim mesmo que consolar, prestar apoio sem trégua a Berta, ferida no mais profundo por aquele fracasso de sua jovem maternidade.

Como é natural, o casamento pôs todo seu amor na esperança de outro filho. Nasceu este, e sua saúde e seu riso límpido reacenderam o futuro entinto. Porém, aos dezoito meses as convulsões do primogênito se repetiram, e no dia seguinte amanheceu idiota.

Desta vez, os pais mergulharam em profundo desespero. Logo seu sangue, seu amor estavam malditos! Seu amor, sobretudo! Vinte e oito anos ele; vinte e dois, ela, e toda sua apaixonada ternura não conseguia criar um átomo de vida normal. Já não pediam mais beleza e inteligência como no primogênito; mas apenas um filho! Um filho, como todos!

Do novo desastre brotaram novas labaredas do dolorido amor, um louco desejo de redimir uma vez para sempre a santidade de sua ternura. Vieram gêmeos, e ponto por ponto, repetiu-se o processo dos dois mais velhos.

Mas, por cima de sua imensa amargura, ficava em Mazzini e Berta uma grande compaixão por seus quatro filhos. Teve que arrancar do limbo da mais funda animalidade, não já suas almas, senão o instinto mesmo abolido. Não sabiam deglutir, trocar de lugar, nem mesmo sentar-se. Aprenderam finalmente caminhar, porém se chocavam contra tudo, por não se dar conta dos obstáculos. Quando os banhavam, mugiam até injetar-se de sangue o rosto. Animavam-se somente ao comer, ou quando viam cores brilhantes ou quando ouviam trovões. Riam-se, então, jogando para fora a língua e rios de baba, radiantes de frenesi bestial. Tinham, em troca, certa faculdade imitativa; porém não se pode obter nada mais. Com os gêmeos parecia haver-se concluído a aterradora descendência. Contudo, transcorridos três anos, desejaram de novo ardentemente outro filho, confiando em que o longo tempo transcorrido houvesse serenado a fatalidade.

Não satisfaziam suas esperanças. E nesse ardente desejo que se exasperava,  em razão de sua infrutuosidade, acidularam-se. Até esse momento, cada qual havia tomado sobre si a parte que lhe correspondia na miséria de seus filhos; porém a desesperança de redenção ante as quatro bestas que haviam nascido deles, jogaram fora essa imperiosa necessidade de culpar aos outros, que é patrimônio específico dos corações inferiores..

Iniciaram-se com a troca do pronome: teus filhos. E, além do insulto, havia a insídia, a atmosfera se carregava.

—Me parece — disse-lhe uma noite Mazzini, que acabava de entrar e lavava as mãos— que poderias deixar mais limpos os meninos.

Berta continuo lendo como si não o houvesse ouvido.

— É a primeira vez — refez-se a tempo— que te vejo inquietar-te pelo estado de teus filhos.

Mazzini voltou um pouco a cara para ela com um sorriso forçado:

— De nossos filhos, me parece?

— Bom; de nossos filho. Fica bem assim? —levantou ela os olhos.

Desta vez,  Mazzini expressou-se claramente:

— Creio que não vais dizer que eu tenho a culpa, não?

—Ah, não! — sorriu Berta, muito pálida — porém eu tampouco, suponho...! Não faltava mais...! —murmurou

— O quê, não faltava mais?

— Que se alguém tem a culpa, não sou eu, entenda-o muito bem! Isso é o que queria te dizer.

Seu marido olhou-a por um momento, com um brutal desejo de insultá-la.

— Deixemos! — articulou, secando-se por fim as mãos.

— Como quiseres; porém se quiseres dizer….

— Berta!

— Como quiseres!

Este foi o primeiro choque, e lhes sucederam outros. Porém, nas inevitáveis reconciliações, suas almas uniam-se com duplo arrebatamento e loucura por outro filho.

Nasceu assim uma menina. Viveram dois anos com a angústia à flor da pele, esperando sempre outro desastre. Nada aconteceu, entretanto, e os pais puseram nela toda sua complacência, que a pequena levava ao mais extremos limites do mimo e da má criança.

Se assim nos último tempo Berta cuidava sempre de seus filhos, ao nascer Bertita, esqueceu-se quase de todo dos outros. Só sua recordação a horrorizava, como algo atroz que a houvessem obrigado a cometer. A Mazzini, bem que em menor grau, acontecia o mesmo.

Não por isso a paz havia chegado a suas almas. À menor indisposição de sua filha, corria para fora, com o terror de perdê-la, os rancores de sua descendência podre. Tinham acumulado ressentimento de sobra para que o vaso ficasse tenso, e ao menor contato o veneno o veneno se esvaziasse para fora. Desde o primeiro desgosto inoculado, haviam-se perdido o respeito; e se há algo que o homem se sente trasladado com cruel gozo é quando já se começou a humilhar de todo a uma pessoa. Antes se continham pela mútua falta de êxito; agora que este havia chegado, cada qual, atribuindo-o a si mesmo, sentia maior a infâmia das quatro aberrações que o outro lhe havia forçado a conceber.

Com estes sentimentos, não houve já para os quatro filhos maiores nenhum afeto possível.  A empregada doméstica os vestia, dava-lhes de comer, deitava-os, com visível brutalidade. Quase nunca os banhava. Passavam quase todo o dia sentados de frente para o muro, abandonados de qualquer remota carícia.

Deste modo, Bertita cumpriu quatro anos, e nessa noite, por causa dos doces que era aos pais absolutamente negar-lhe, a menina teve calafrios e febre. O temor de vê-la morrer ou tornar-se idiota, tornou a reabrir a eterna ferida.

Fazia três horas que não se falavam e o motivo foi, como quase sempre, os fortes passos de Manzini.

— Meu Deus! Não podes caminhar mais devagar? Quantas vezes...?

— Bem, é que me esqueço. Acabou-se. Não o faço de propósito.

Ela sorriu com desdém:

— Não, não te acredito tanto!

— Nem eu, jamais, tinha acreditado tanto em ti....tisiquinha!

— Quê! Quê disseste...?

— Nada!

— Sim, ouvi algo de ti! Olha, não sei o que disseste; porém te juro que prefiro qualquer coisa a ter um pai como o que tens tido tu!

Manzini ficou pálido.

— Por fim! —murmurou com os dentes cerrados.— Por fim, víbora, hás dito o que querias!

— Sim, víbora, sim! Porém eu tive pais sadios! Ouves? Sadios! Meu pai não morreu de delírios!Eu havia de ter tido filhos como os de todo o mundo! Esses são filhos teus, os quatro, teus!

Mazzini explodiu por sua vez:

— Víbora tísica!Isso é o que lhe disse, o que quero te dizer! Pergunta-o ao médico, pergunta ao médico quem tem a maior culpa da meningite de teus filhos: meu pai ou teu pulmão doente, víbora!

Continuaram cada vez mais com maior violência, até que um gemido de Bertita selou instantaneamente suas bocas. À uma da manhã, a ligeira indigestão havia desaparecido, como acontece fatalmente com todos os casais jovens que têm se amado intensamente uma vez sequer, a reconciliação chegou, tanto mais efusiva quanto  mais ofensivos foram os ultrajes. 

Amanheceu um dia esplêndido, e enquanto Berta se levantava, cuspiu sangue. As más emoções e a má noite passada tinham, sem dúvida, grande culpa. Mazzini a reteve abraçada um longo tempo, e ela chorou desesperadamente, porém sem que nenhum se atrevesse a dizer uma palavra..

Às dez decidiram sair, depois de comer. Como mal tinham tempo, ordenaram à empregada 
que matasse uma galinha.

O dia radiante havia arrebatado os idiotas de seu banco. De modo que enquanto a empregada degolava na cozinha a ave, dessangrando-a com parcimônia (Berta havia aprendido de sua mãe este bom modo de conservar a carne mais fresca), acreditou sentir algo como respiração atrás dela. Voltou-se, e viu aos quatro idiotas, com os ombros emparelhados um ao outro, olhando estupefatos a operação...Vermelho...Vermelho....

— Senhora, os meninos estão aqui na cozinha.

Berta chegou; não queria que jamais pisassem ali. E nem ainda nessas horas de pleno perdão e felicidade reconquistada, podia evitar-se essa horrível visão! Porque, naturalmente, quando mais intensos eram os  êxtases de amor a seu marido e sua filha, mais irritado era seu humor com os monstros.

— Que saiam, Maria! Expulse-os! Expulse-os, lhe digo!

As quatro pobres bestas, sacudidas, brutalmente empurradas, foram para seu banco.

Depois de almoçar, saíram todos. A empregada foi a Buenos Aires, e o casal a passear pelas chácaras. Quando o sol baixou voltaram, porém, Berta quis saudar um momento suas vizinhas de frente. Sua filha escapou-se em seguida rumo a casa.

Entretanto os idiotas não se haviam movido todo o dia de seu banco. O sol já havia transposto o muro, começava a fundir-se, e eles continuavam contemplado os ladrilhos, mais inertes do que nunca.

De repente, algo se interpôs entre seu olhar e o muro. Sua irmã, cansada de cinco horas junto ao pai, queria observar por sua conta. Parada ao pé do muro, olhava pensativa o cume. Queria subir, isso não oferecia dúvida. Por fim decidiu-se por uma cadeira, sem fundos, porém faltava mais. Recorreu então a uma caixa de querosene e seu instinto topográfico fez-lhe colocar o móvel na vertical, com o qual triunfou.

Os quatro idiotas, com o olhar indiferente, viram como sua irmã lograva pacientemente dominar o equilíbrio, e como, na ponta dos pés, apoiava a garganta sobre o topo do morro, entre suas mãos delicadas. Viram-na olhar para todos os lados, e buscar apoio com o pé para elevar-se mais.

Porém o olhar dos idiotas havia se animado. Uma mesma luz insistente estava fixa em suas pupilas. Não afastavam os olhos de sua irmã, enquanto uma crescente sensação de gula bestial ia transtornando cada linha de seus rostos. Lentamente avançaram até o muro. A pequena, que tendo conseguido calçar um pé, ia já montar a cavalo no muro e a cair do outro lado, seguramente, mas sentiu-se segura pela perna. Debaixo dela, os oito olhos cravados nos seus lhe deram medo.

— Solta-me! Deixa-me! —gritou sacudindo a perna. Porém foi atraída.

— Mamãe! Ai, Mamãe! Mamãe, papai! — chorou imperiosamente. Tratou ainda de agarrar-se à borda, porém sentiu-se arrancada e caiu.

— Mamãe, aí! Ma... — Não conseguiu gritar mais. Um deles lhe apertou o pescoço e os outros arrastaram-na por uma só perna até a cozinha, onde essa manhã haviam dessangrado a galinha, bem submissa, arrancando-lhe a vida por segundos.

Mazzini, na casa em frente, acreditou ouvir a voz de sua filha.

— Me parece que te chama — disse-lhe Berta.

Prestaram atenção, inquietos, porém não ouviram mais nada. Contudo, um instante depois se separaram, e enquanto Berta ia deixar seu chapéu, Manzzini avançou no pátio:

—Bertita!

Ninguém respondeu.

— Bertita! —elevou mais a voz, já alterada.

E o silêncio foi tão fúnebre para seu coração sempre aterrorizado, que a coluna se lhe gelou de um horrível pressentimento

— Minha filha! — correu já desesperado até os fundos. Porém ao passar em frente da cozinha, viu no piso um mar de sangue. Empurrou violentamente a porta entreaberta, e lançou um grito de horror.

Berta, que já se havia lançado correndo por sua vez ao ouvir o aflito chamado do pai, ouviu o grito e respondeu com outro. Porém ao precipitar-se na cozinha, Manzini, muito lívido, interpôs-se, contendo-a.

— Não entres! Não entres!

Berta conseguiu ver o piso inundado de sangue. Só pôde jogar seus braços sobre a cabeça e abraçar-se ao marido com um áspero suspiro.


Horacio Quiroga / A almofada de penas


sábado, 12 de agosto de 2017

Gil Perini / Na esquina, perto do fim do mundo


Na esquina, perto do fim do mundo


O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror.
Eu sou Agramunt. Posso pecar por arrogância, nunca por timidez ou modéstia: escolhi o meu nome, determinei a vida que levo. Na escolha do nome hesitei entre este de que me orgulho e Almedíxer. Recolhi os dois em um romance de cavalaria, Tirant lo Blanc, sobre o qual, no Quixote, diz o cura ao barbeiro “este é o melhor livro do mundo” e que, como toda obra clássica, recebe mais citações que leitura. 

Da vida não me arrependo, eu a dediquei a uma causa. Os meus detratores falam em fanatismo, quando não em loucura; esquecem-se de que são como eu e que lutam por causas deploráveis. Ficaria envergonhado se gastasse a minha vida em busca de dinheiro, ambição que reprovo. Abomino também os que lutam pelas glórias do poder temporal. A minha vida pertence à Organização; não me cansarei de defendê-la e de admirar aquele que a dirige com inquestionável saber. Inúteis seriam minhas palavras se não servissem para dignificar o chefe.

O chefe sabe das coisas. O chefe sabe de todas as coisas. Sabe da guerra e da arte de guerrear; sabe matar sem usar arma nenhuma e até mesmo como aniquilar o inimigo com armas que não matam e que, pior que a morte, trazem o medo e o horror.

Ele já viveu milênios e muitos outros milênios viverá. Não o assombraram as máscaras de pavor dos inimigos que viram a morte rasgar o espaço cavalgando o fio de sua espada. Não o assustaram bravatas como as dos que, de forma insultuosa e covarde, se insurgiram, em indefinido tempo, contra o seu poder. Estes já não contam entre os vivos; que de alguma divindade menor possam receber piedade.

O chefe distribui paz aos seus e guerra a todos os contrários. Em um passado que não determino, esteve entre os que queimaram aldeias na Ásia Menor, secundando o Macedônio. Foi o único sobrevivente do massacre que as hordas de um Clã impuseram ao seu pequeno país, destruídos os templos, as bibliotecas, os palácios, os moinhos de papel.

Sobre as cinzas de uma praça arrasada, clamou aos seus antepassados e jurou justiça. O chefe é justo, seus atos são equânimes — a razão e a lógica ocultam seus sentimentos e foram poucos os que o julgaram transtornado ou vingativo. Que sobre suas indignas almas se derrame o perdão.

Ele sabe falar uma língua arcaica e tecnicamente morta, desconhecida dos mais ilustrados filólogos, semiólogos e lingüistas. Interpõe vogais longas e sonoras a consoantes labiais suaves e a sua fala soa como poesia. Daí testemunharem que o chefe sabe do amor.

Dessa língua não se conhece a escrita, não que o chefe seja iliterato ou rude, mas não tendo outra pessoa que a possa ler, escrevê-la é desnecessário. Ele a utiliza em pequenas orações cantadas em voz baixa e em longas pregações políticas dirigidas ao seu estado-maior. Apenas um, entre tantos chegados, consegue entendê-la sem, contudo, se atrever a nela pronunciar sequer o nome de um deus. O Shift (é esse o nome da estranha língua) só é falado pelo chefe e, por curial hierarquia, traduzido pelo subchefe do estado-maior. Assim, o chefe pode ser compreendido pelos outros subcomandantes da Organização.

Em tempos, cogitou-se traduzi-lo ao latim, descartado pelo próprio chefe por sua difícil compreensão a eslavos e asiáticos, e depois ao grego clássico, excluído pela utilização exígua das vogais e pelo receio de que ele se emocionasse ante citações de Homero. Sim, o chefe é humano, mas suas emoções são mantidas in pectore; dele nunca se viu uma lágrima, nem que derramada sobre um improvável poema de Sjögren.

Ele me nomeou o seu escriba. Decerto não foi pelo reconhecimento de minhas eventuais habilidades literárias, por desconhecer minha letra quase ilegível ou julgar-me dotado de inteligência singular. Conquistaram-me esta honra meus precários conhecimentos acerca do PageMaker 6.5, um programa de editoração eletrônica complexo e já ultrapassado, nestes tempos de cibernética obsolescência.

Determinou que eu contasse a sua vida e, ante o meu espanto em me ver forçado a tentar descrever a eternidade, assegurou-me ficar satisfeito com o razoável: eu deveria relatar em livro a história da Organização e preparar o meu sucessor, que Organização e chefe sobreviveriam aos finitos dias que me pudessem restar.

Sugeriu que eu o fizesse em inglês, para que facilmente esse relato se espalhasse ao mundo; contrapus o português, pelo seu caráter quase criptográfico, argüindo a sua exatidão para o raciocínio. Exemplifiquei com Baruch Spinoza, holandês que escreveu em latim, mas pensando em português, toda a sua obra filosófica. Deu-me crédito e aquiescência quando afirmei que Spinoza escrevera sobre Deus e que, optando pelo português ao inglês, eu escreveria ao invés de iria estar escrevendo sobre a sua vida. Depois, ele poderia traduzir ao Shift ou então, com a sua anuência, seria criado o novo idioma universal.

Para confirmar nosso pacto ele disse... riverrun, tuvive ismui peligerous... que eu, riobaldamente, traduzi para... viver é muito perigoso... percebendo que o chefe era sabedor do esforço que alguns acadêmicos tupiniquins têm feito, para demonstrar que o rio que nasce nas escarpas de Joyce vem, por parabólicos vieses, desaguar no Mare Nostrum Rosianum destes triestes tropicões.

Todavia, não foi essa a interpretação do subchefe do estado-maior que entendeu que o chefe, após arrotar de tédio, reclamara que são demais os perigos desta vida e, pronto, convocou a cimeira de sábios e radicais para que fossem estabelecidas as novas normas de segurança pessoal do chefe e da Organização.

A bem da verdade, devo dizer que o chefe era um homem alto e forte, de tez acobreada, malares salientes, barba rala e amarelada e olhos de cor indefinida, caracteres que não permitiam, nem a observador atento, determinar com exatidão a sua origem. Poderia ser mongol ou ameríndio, berbere ou inuíte; provavelmente não era ariano.

O seu rosto lembrava os rostos dos vencedores e os dos vencidos; o chefe era a própria representação da Humanidade. Os cabelos, que nunca pude ver, estavam sepultados no mistério de um gorro de couro sem tintura; um bigode maltratado tentava encobrir a boca rasgada, de onde a língua, nos raros instantes de veemência, saía de entre os caninos a espargir saliva pelo espaço que deveria abrigar os incisivos superiores. Inexistem relatos confiáveis sobre as causas dessa anodontia.

Um antigo subchefe do estado-maior, caído em desgraça, ousou sugerir um implante ou uma prótese. Antes de sua execução por fuzilamento, o chefe explicou-lhe, com paciência, que aquele era o rosto da Organização, a logomarca da coragem e do destemor, a eternização da sua imagem como símbolo, o arremedo da máscara cabúqui de um samurai aterrador.

Completava a figura espectral uma longa túnica de lã escura, não deixando entrever parte alguma de seu corpo, exceto as mãos, de um branco violáceo, longos dedos de pianista, unhas tratadas de crupiê. Um anel de ferro com sinete cobria a falange proximal do anular direito e nenhuma cicatriz lembrava que aquelas eram as mãos de um guerreiro. Por baixo da túnica, a instantes, viam-se as pontas de grosseiros coturnos com biqueiras de metal.

A sua coragem era proverbial, do que dava testemunho a sua ousadia em afrontar leis e nações que ele dizia ilegítimas. Escarnecia de potências forjadas a sangue de inocentes e mantidas pela opressão de miseráveis; desconhecia fronteiras, abominava crenças e, em todo o orbe, apoiava qualquer insurgência que contrariasse poderes espuriamente estabelecidos.

Acreditava que a paz dos vencedores, a pax romana, era necessária, desde que a Organização a promovesse e a mantivesse sob seu comando e inspiração. Destarte, colecionava inimigos; a sua vida, para a Organização tão preciosa, era agora a preocupação do estado-maior que, reunido enquanto o chefe sesteava, tomou sábias decisões que a preservariam para a glória de pósteros e coevos.

Como primeira precaução, proibiu-se o Shift. Sendo o chefe o único que o falava, uma simples imprecação neste idioma poderia significar sentença de morte a quem a proferisse.

Tentei argüir uma nulidade conceitual, já que os inimigos desconheciam tão secreta língua. Cassaram-me a palavra, lembrando-me que eu não era membro do estado-maior, mas apenas o escrevente regulamentado; eram dispensadas as opiniões dos que desconheciam os meandros da Organização e as artes da guerra. Foi decidido que o chefe guardasse o Shift para suas quase silenciosas orações e para seus monólogos interiores, que a língua oficial seria o inglês, com sotaque oxfordiano ou do Harlem, pouco importando.

Diante da impossibilidade concreta de se ocultar o chefe — a sua presença era necessária à propaganda e ocultá-lo seria desestimulante aos propósitos da Organização —, cuidou-se de empreender manobra diversionista que confundisse o inimigo e preservasse a integridade e a sobrevivência do chefe. Procurariam um sósia, que seria exposto em situações de risco.

Tal figura deveria concentrar em si todas as competências e habilidades do chefe além de, fisionomicamente, ser dele indistinguível, pelo menos num primeiro olhar. Deveria ser capaz de pilotar um jato de combate, qualquer que fosse o seu fabricante, e realizar manobras radicais com helicópteros Bell, Sikorsky ou Agusta. Deveria reconhecer e montar-desmontar de olhos fechados um fuzil AR-15 ou um Kalashnikov e ter a pontaria de um campeão olímpico. Também saber manejar a espada, não importando quando, ou com que aço, teria ela sido forjada.

O sósia deveria ser capaz de discorrer sobre Filosofia, Lógica, Economia, Psicanálise e Futebol em qualquer academia que o quisesse confrontar. As diversas seccionais da Organização foram instadas a encontrar o candidato perfeito.

De todas as partes do mundo começaram a chegar os pretendentes a exercer tão nobre ofício; causava espanto como eram entre si tão diferentes e quão pouco se pareciam com o chefe. Corroborava esta diversidade, segundo analistas do estado-maior, a dificuldade que certos gerentes de seccionais tinham em definir a figura do chefe, há muito esquecida ou confundida nos escaninhos de suas já desgastadas memórias.

Assim ninguém se assustou com a chegada daquela malta multifária e heterogênea, na qual se misturavam velhos, jovens, calvos, hirsutos, longi- e brevilíneos, caucasianos, sascatcheuanos, txucarramães e botocudos. O estado-maior reuniu-se e indicou um, o eleito, que, após passar por um período de adaptação, foi entregue ao conselho de sábios e depois ao de guerreiros, que o deveriam preparar.

Pessoalmente, não pude vê-lo antes de seu treinamento e caracterização e, quando pela primeira vez compareci a uma reunião presidida por ele e não pelo verdadeiro chefe, confesso que, se não tivesse sido avisado desta possibilidade com antecedência, poderia jurar que era o chefe quem estava lá. Jubiloso, anotei esta observação e a submeti ao subchefe do estado-maior que a repassou, com um sorriso, ao que seria o chefe. Ele retribuiu a cortesia e, ao sorrir, mostrou incisivos superiores perfeitos.

Percebi, com espanto, que haviam se esquecido desse detalhe; levei o indicador aos meus dentes e o subchefe, com evidente satisfação, comunicou ao estado-maior que um especialista em exodontia já estava autorizado a proceder a exérese dos incisivos superiores, completando a transfiguração.

Os problemas começaram no conselho de sábios. Concluíram que seria impossível, em breve tempo, infundir os conhecimentos para que o clone (assim o apelidou um sábio que dominava rudimentos de genética e biologia molecular) se ombreasse ao chefe em competências.

Também os guerreiros argumentaram que, face à velocidade com que nova tecnologia é agregada à arte de matar, seria impossível a um só homem adquirir tão alentado elenco de habilidades guerreiras, excetuado o chefe, que sabia das coisas.

Outra reunião foi realizada, enquanto chefe e clone faziam a sesta, sob o comando do subchefe do estado-maior que propôs uma pauta restrita, na qual se examinaria apenas a possibilidade de serem preparados outros sósias, abreviando sobremaneira a implantação das novas normas de segurança.

Da intenção ao gesto, o mínimo descompasso. Um número indefinido, até porque secreto, de novos sósias foi incorporado ao staff da segurança, alguns escolhidos por qualidades já adquiridas, outros apenas pela capacidade teatral de imitar o chefe e seus trejeitos, definitivamente descartada a semelhança física como requisito. Pronto estariam aptos a cumprir a gloriosa tarefa de substituir o chefe nos momentos de perigo e, suprema glória, morrer em seu lugar.

Algumas seccionais, cujos candidatos haviam sido preteridos, exerceram pressão diplomática para que também fossem consideradas e pretenderam impor outros aspirantes a clone, para que fosse assegurada a cada uma a sua importância política dentro da Organização.

Com o propósito de evitar o caos, o subchefe, ad referendum do estado-maior e com o velado consentimento do chefe (ou de seu clone, percebi depois), criou uma Academia de Transfiguração, a cochichos apelidada de Laboratório de Clonagem, redigiu seus estatutos, definiu normas pedagógicas e diretrizes curriculares e nomeou uma comissão diretiva encarregada de sua gerência e operacionalização.

As providências foram executadas com presteza e, a partir dessa época, as reuniões ordinárias passaram a contar sempre com um clone no lugar do chefe, de quem não se tinha mais notícias, a não ser as informações prestadas pelo subchefe que a cada dia se tornava mais poderoso, convocando e presidindo reuniões e mantendo o chefe, ou aquele que o representava, em um nicho um pouco afastado da mesa principal, envolto em penumbra, para que dele não se distinguisse o semblante ou o olhar.

Construí meu próprio patíbulo em uma dessas reuniões quando o “chefe” me chamou e pediu, em surdina, que eu não esquecesse de incluir em meus relatos a elegância de sua nova túnica, enfatizando talhe e caimento, além de mencionar a delicadeza do tecido, detalhes da trama e da urdidura e até os fios de prata dispostos em risca de giz.

Ao subchefe, reservadamente, fiz ver que eu não poderia escrever uma crônica de futilidades, uma história sobre o mundanismo, que Organização e chefe... “o verdadeiro, onde andaria?”... “recolhido em retiro espiritual, de onde em breve retornará com toda a sua força e poder para nos guiar à vitória final que se vislumbra”... foi a resposta, e eu completei... Organização e chefe eram determinantes sintagmáticos, complementares e necessários, e que o livro que eu me havia proposto escrever deveria ser verdadeiro, áspero e contundente, para que não restassem dúvidas sobre o seu valor e que ninguém soubesse dizer se ele era um atributo do chefe ou da Organização, ou se cada um deles era do livro apenas uma revelação ou um avatar.

O subchefe sugeriu que eu guardasse segredo destas observações assaz pertinentes (ele colecionava lugares-comuns), e que ficasse em silêncio obsequioso até ulterior deliberação, permanecendo recluso em meus aposentos sem nada mais escrever.

Alguns dias depois, procuraram-me o subchefe e dois clones já desdentados, que me transmitiram a decisão soberana do estado-maior: o meu trabalho de redator estava temporariamente suspenso e que eu seria, a partir desta data, o responsável pelos papéis da Organização. Lamentavam que eu tivesse de ser transferido para uma instalação de segurança máxima, e sentiriam a falta de minhas prudentes e tempestivas observações.

Achei que seria promovido de escrevente a notário e que teria sob a minha guarda, além da história, a memória da Organização. Quando me levaram ao meu novo local de trabalho, percebi que eu seria apenas o novo atendente do setor de suprimentos para escritório do Almoxarifado Central.

Não sei quanto tempo faz que estou aqui dentro, envolvido com o trabalho de embalar resmas, contar lápis e borrachas e escrever, corrigir, reescrever estas anotações que chamo de minhas singelas e ridículas memórias.

As coisas não vão bem e o chefe deveria saber. O almoxarifado entrou em decadência, os pedidos e as entregas de suprimentos rarearam, mas acho que é uma situação transitória, a Organização é poderosa, indestrutível, e persistirá com outro nome, em outro lugar, sempre com o chefe em seu comando, sobrevivendo a investidas de subchefes corruptos e usurpadores, mantendo seus prodigiosos sábios e suas legiões de guerreiros.

A Organização não morreu e nunca morrerá; ela continuará viva nos clones do chefe, que agora são muitos e andam soltos pelas ruas, como posso ver todos os dias na esquina em frente à minha janela, esta minúscula escotilha com grades de ferro, acanhado mirante de onde tento observar um pedaço do mundo.

Eles chegam maltrapilhos, sujos, barbudos e despenteados, a sorrir o seu sorriso desdentado, encostando as mãos em súplica nos vidros fechados dos automóveis que param no sinal.

Eu sei que algum dia também serei um deles, um clone do poderoso chefe. Eu só não queria que me arrancassem os dentes.

GIL PERINI é escritor, autor de O Pequeno Livro do Cerrado (Ateliê Editorial).