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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

"História de Amor" / Como JFK Jr. e Carolyn Bessette-Kennedy realmente se conheceram?


Carolyn Bessette-Kennedy e Calvin Klein comparecem ao evento beneficente City of Hope em Nova York, 1992. — Foto: Getty Images

Carolyn Bessette-Kennedy e Calvin Klein comparecem ao evento beneficente City of Hope em Nova York, 1992. —
Por 
Anna Grace Lee

 

Carolyn Bessette e uma modelo conversam ao telefone nos bastidores do desfile de primavera de 1994 da Calvin Klein. — Foto: Gettty Images
Carolyn Bessette e uma modelo conversam ao telefone nos bastidores do desfile de primavera de 1994 da Calvin Klein. — Foto: Gettty Images 


“Você vai me agradecer por isso”, diz Calvin Klein, enquanto conduz Carolyn Bessette em direção a John F. Kennedy Jr. Eles atravessam uma sala iluminada por velas, passando por convidados de gala de fraque e smoking, bebendo champanhe, enquanto modelos posam sobre plataformas. Os futuros namorados se encontram com o olhar, e o mundo ao redor parece parar.


Essa é a forma como um dos casais mais famosos do mundo se conheceu — pelo menos na versão televisiva. 

No primeiro episódio da nova série de Ryan Murphy, História de Amor: John F. Kennedy Jr. & Carolyn Bessette, Klein os apresenta: “John, esta é Carolyn Bessette. Ela é nossa ‘sussurradora de V.I.P.’ na empresa.” Depois de algumas conversas rápidas, Kennedy pede o número de telefone de Bessette, mas ela não entrega. Ela responde: “Você sabe onde eu trabalho. Tente a recepção”, e se afasta.

Na vida real, a história de como o casal se conheceu é um pouco diferente. Na primavera de 1992, Bessette trabalhava na Calvin Klein como vendedora — e de fato era uma “sussurradora de V.I.P.” Segundo Elizabeth Beller em Once Upon a Time: The Captivating Life of Carolyn Bessette-Kennedy, o livro que inspirou a série de Murphy, foi justamente o talento de Bessette para lidar com celebridades — sua habilidade de manter a calma diante da fama — que levou ao encontro com Kennedy, quando ela tinha 26 anos e ele 31. Na época, Kennedy era promotor assistente em Manhattan e tinha um horário marcado para um provador na sala V.I.P. da Calvin Klein.

Klein, sua então esposa Kelly, e sua assistente MJ Bettenhausen decidiram que Bessette seria a pessoa a mostrar a Kennedy peças da coleção masculina, pois ela era “a pessoa mais efervescente do salão de vendas”, escreve Beller. Kennedy teria saído dessa prova com alguns ternos e com o número de telefone de Bessette. (Isso provavelmente inspirou outra cena no piloto, em que Kennedy vai ao escritório da Calvin Klein para se ajustar para um terno). Poucos dias depois, ele ligou para ela e a convidou para acompanhá-lo em um jantar de gala. No jantar, ele estava sentado com outra mulher, que ela pensou ser sua acompanhante (e talvez fosse), então recusou o convite para a festa depois do evento. Na época, Kennedy tinha um relacionamento intermitente com a atriz Daryl Hannah. 

Em maio, eles se encontraram novamente em um evento beneficente (provavelmente inspiração para o “meet-cute” da série): o Don’t Bungle the Jungle II, no Amazon Village, no Pier 25, em benefício dos “povos indígenas das florestas tropicais do mundo”, segundo o programa do evento. O artista Kenny Scharf presidia o evento, e estilistas como Issey Miyake, Jean Paul Gaultier, Isaac Mizrahi, Thierry Mugler, Marc Jacobs, Calvin Klein, Anna Sui, Gianni Versace, entre outros, doaram peças inspiradas na selva para leilão silencioso, narrado por Fran Lebowitz, seguido de uma festa com apresentação de Queen Latifah.

No evento, Bessette e Kennedy foram vistos em profunda conversa. Naquele verão, começaram a namorar, indo a jantares pela cidade, dançando e passeando juntos. Ele a levou para Sea Song, a casa de veraneio em Long Island que alugava com seu primo, Anthony Radziwill. Eles terminaram o relacionamento apenas uma semana após a viagem a Long Island, escreve Beller. Kennedy havia recebido uma carta anônima alegando que Bessette era uma “exploradora, festeira, que buscava fama e fortuna” e que “namorava caras pela cidade”. Eles só se reuniriam novamente dois anos depois, em 1994. 

John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette em um passeio inicial após reatarem o romance em 1994. — Foto: Getty Images
John F. Kennedy Jr. e Carolyn Bessette em um passeio inicial após reatarem o romance em 1994. — Foto: Getty Images 

Assim começou um relacionamento que cativaria o público e a imprensa, gerando uma tempestade de atenção midiática e obsessão, enquanto as idas e vindas do casal eram constantemente documentadas pelos tabloides.


História de Amor, cujos três primeiros episódios estrearam na quinta-feira (12.02) no Disney+ no Brasil, acompanha a vida do casal meados dos anos 1990, antes de eles e a irmã de Bessette-Kennedy, Lauren Bessette, falecerem tragicamente em um acidente de avião em 16 de julho de 1999. A série começa, de maneira emocionante, no ponto que todos já conhecem o desfecho de sua história. Como ela vai contar o resto?


VOGUE / GLOBO







DE OTROS MUNDOS

'Era accesible, realista, irritante': la historia de amor de la vida real de JFK Jr y Carolyn Bessette


Sarah Pidgeon habla sobre lo que le llevó a convertirse en Carolyn Bessette-Kennedy

RIMBAUD

Carolyn Bessette semblait vivre une « Love Story » parfaite avec JFK






quinta-feira, 1 de junho de 2023

"Rabo de Peixe" está a ser um sucesso / Série portuguesa chega ao top 10 mundial da Netflix

 

Série "Rabo de Peixe".
Série "Rabo de Peixe".
TWITTER/NETFLIX PORTUGAL

"Rabo de Peixe" está a ser um sucesso: série portuguesa chega ao top 10 mundial da Netflix


Em Portugal, “Rabo de Peixe” está em primeiro lugar do top da plataforma de streaming, mas o sucesso não fica limitado ao território nacional. A série portuguesa tem sido bem recebida em dezenas de países, o que lhe garantiu a entrada para o top 10 mundial da Netflix.


01.06.2023 10:39


A série portuguesa “Rabo de Peixe” já entrou no top 10 mundial da Netflix, encontrando-se esta quinta-feira no sexto lugar, de acordo com o site FlixPatrol.

A série, que em Portugal ocupa o primeiro lugar do top das mais vistas, tem feito sucesso em vários países europeus e da América do Sul. Na Argentina e no Uruguai, por exemplo, está em 4.º lugar do top e em Malta e no Luxemburgo em 2.º. Em Espanha, tem ocupado o terceiro posto do ranking nos últimos dias.

Também no Brasil está entre as séries favoritas, fixando-se no 5.º lugar. Aliás, é esse mesmo lugar que ocupa no top de vários países europeus: Croácia, Grécia, Itália. Nas Bahamas, está em 2.º lugar.

“Rabo de Peixe” chegou na passada sexta-feira à Netflix e tem sido um sucesso. Foi um dos 10 projetos vencedores do concurso de argumentistas promovido pela plataforma de streaming em parceria com o Instituto do Cinema e Audiovisual.

A série é uma produção Ukbar Filmes, escrita e criada pelo açoriano Augusto Fraga e com a realização de Fraga e Patrícia Sequeira.

Inspirada num evento real, "Rabo de Peixe" é um thriller que conta a história de quatro amigos cuja vida sofre uma reviravolta quando uma tonelada de cocaína dá à costa da pequena vila açoriana. Um caso que foi abordado pela SIC na Reportagem Especial “A ilha traída pelo mar”, emitida em agosto de 2019.

Esta é a segunda série portuguesa original da Netflix depois de "Glória", de Tiago Guedes, ter inaugurado em 2021 o catálogo nacional do serviço de streaming.

SIC




quarta-feira, 25 de novembro de 2020

‘O Gambito da Rainha’ / A série que mostra o xadrez como nunca antes na televisão


 


‘O Gambito da Rainha’, a série que mostra o xadrez como nunca antes na televisão

Adaptação do clássico de Walter Tevis retrata uma jovem prodígio que abre caminho no competitivo mundo do esporte enquanto luta para não sucumbir aos seus vícios


Laura Fernández
Barcelona, 13 nov 2020

Assim como no clássico de Stefan Zweig Novela de Xadrez, Walter Tevis ―um escritor excessivamente atraído pelo tormento do gênio e pela condição de outsider―, construiu seu romance The Queen’s Gambit (“o gambito da rainha”), onde narra os avatares dickensianos de uma jovem prodígio e professora de xadrez, baseando-se no duelo sempre apetitoso entre o irracional e o racional. O muito humano e o nada humano. Em seu caso, diferentemente de Zweig, fez isso tomando partido por uma irracionalidade desenfreada que lhe permite explorar a conexão entre gênio e loucura, ou entre dom e psicose. Tevis entendia o talento como algo às vezes insuportável, algo que exige um sacrifício, como a famosa abertura, o gambito ―um dos movimentos no xadrez―, que dá nome ao romance no qual se baseia O Gambito da Rainha, a nova série da Netflix.

Viciante e trepidante ―pelo menos a partir do segundo capítulo, quando a vida da protagonista, Beth Harmon, dá uma guinada longe do isolamento do orfanato―, a série é estrelada por uma Anya Taylor-Joy (O Segredo de Marrowbone) à altura do hieratismo da personagem, tão marciana como o David Bowie que protagonizava a adaptação do outro grande clássico de Tevis, O Homem que Caiu na Terra. Com seis capítulos, a série é, ao mesmo tempo, um retrato do submundo do xadrez ―esse universo paralelo com suas próprias estrelas, e que o próprio Tevis conhecia bem (embora tenha sido apenas um jogador de terceira categoria)― e um bizarro coming of age que toma o pulso feminista de uma época em que um espaço tão fechado como o do xadrez parece presa na tempo. Mas há mais do que isso. Muito mais. A relação entre Harmon (Taylor-Joy) e sua mãe adotiva, Alma (Mariele Heller), por exemplo, é puro fogo maldito.

Porque Harmon não se limita a ser um gênio, ela é um gênio maltratado. Filha de uma mulher que também é um gênio (neste caso, da matemática), totalmente doida ―a mãe bate o carro, com ela e a menina dentro, no início da série, e some do mapa―, Beth passa a infância em um orfanato, onde acontecem duas coisas com ela: descobre o xadrez, graças a um zelador que joga sozinho em um porão, e fica dependente de tranquilizantes, que na década de 1950 pareciam totalmente indicados para crianças. As duas coisas ficarão unidas para sempre no cérebro ao mesmo tempo matemático e intuitivo da menina Beth, que daí em diante necessitará de qualquer tipo de entorpecente ―álcool, comprimidos― para sentir que pode suportar a pressão que, na verdade, ela mesma exerce contra si. Porque ela é o verdadeiro rival a ser vencido. Quando estuda, não estuda as fraquezas de seu adversário, e sim suas próprias fraquezas.

E faz isso para se tornar invencível. Para controlar o incontrolável. “Gosto do xadrez”, diz Harmon à jornalista da Life que vai entrevistá-la quando ganha seu primeiro torneio estadual, “porque é um mundo em 64 casinhas. Um lugar para se sentir segura. Previsível, controlável”. Enquanto o mundo exterior e sua própria condição de mulher são difíceis de compreender ―outra constante na obra de Tevis, a do outsider, que em O Homem que Caiu na Terra era, literalmente, um extraterrestre que tentava imitar o comportamento humano―, quando Beth joga xadrez ela está, de certa forma, em casa. Por isso, diz em determinado momento que o xadrez “não é só competitivo, também pode ser precioso”, um mundo dentro do mundo, a família que nunca terá, ou aparecerá para ela como uma miragem. Um dos melhores jogadores do mundo, Garry Kasparov, afirma que nunca tinha visto uma série que respeitasse tanto as estratégias e os tempos do xadrez: diz que é a mais realista das pouquíssimas séries já feitas sobre um esporte que, definitivamente, é pouco visual.

Embora complicada e cruel no início, a relação de Beth com sua mãe adotiva, uma alcoólatra inveterada, decola no momento em que ela decide que, apesar de tudo, pode tentar ser “uma mãe”, e consegue ser uma excelente, porque faz o principal: respeita sua filha e acredita cegamente nela. Sua relação, a de uma dupla de desajustadas tentando não se adaptar a nada, nem a elas mesmas, é uma pequena joia dentro de uma produção que dispara contra o machismo que rodeia tudo que tem a ver com o mundo do xadrez ―principalmente nas camadas mais baixas, onde a prepotência da mediocridade é insuportável―, e que, como relata com perfeição a mestra enxadrista Judit Polgár, nascida em 1976 e considerada a melhor jogadora da história, no documentário Los Otros: Judit Contra Todos, continua totalmente vigente.

Eis aqui a razão pela qual o livro de Tevis, cedo ou tarde, teria de ser adaptado para a tela. Porque, embora pareça um de tantos produtos da Netflix, as tentativas de adaptar O Gambito da Rainha datam de 1983, ano em que um jornalista do The New York Times comprou os direitos. A morte de Tevis pouco depois impediu que isso ocorresse, mas, menos de uma década mais tarde, Allan Scott, o mesmo roteirista que aparece nos créditos da produção da Netflix, comprou esses direitos, e escreveu um roteiro de cinema transformado em série em parceria com Scott Frank, que adaptou Minority Report: A Nova Lei para Spielberg. O resultado acerta as contas, de forma notável e principalmente apreciável, com todos os fantasmas do jogo que é considerado o mais difícil do mundo, e de quebra com o preço a pagar ―sempre existe um― pelo talento.

EL PAÍS



terça-feira, 9 de julho de 2019

A obsessão por ver séries está absorvendo a nossa vida?




A obsessão por ver séries está absorvendo a nossa vida?

A seriefilia nos leva a permanecermos atualizados, não como prazer, mas como exigência

Quantas séries você está acompanhando atualmente? Quantas delas você acha importantes? Quantas continuará recordando com o passar do tempo? A seriefilia deixou de ser uma maldição para virar uma tortura que aflige até os mais fanáticos. Não é raro acabarmos chafurdando em conversas cheias de lamentações sobre o pouco tempo que temos para nos atualizar, como se estar em dia com os lançamentos fosse não mais um prazer, e sim uma exigência.
A pergunta é evidente: esse vício está nos destruindo? Já cansados da Igreja, do futebol e dos programas de celebridades, nós, da imprensa, temos de vez em quando a mania de coroar o novo ópio do povo. Fazemos isso inclusive literalmente, a tal ponto de que uma vez por ano costuma haver uma febre de artigos surpreendendo-se com a volta da heroína às ruas. Pode ser que meter As Séries — assim mesmo, com as devidas maiúsculas — nessa roda-gigante de clichês seja um absurdo, mas não é demais questionarmos o lugar que dedicamos a elas em nossas vidas.
Pensemos.
Você sai para trabalhar. Pega o transporte público. Senta-se. Pronto, em meia hora chegará ao seu destino. Enquanto revira a bolsa ou a mochila em busca daquele livro com o qual pretende se distrair no trajeto, as luzes do ônibus ou do metrô lhe parecem escassas para a leitura, o que o deixa indignado, porque você se sente no direito de exigir uma iluminação digna para ler esses míseros dois parágrafos obrigatórios antes de cochilar. E, olha, que indignação a sua! A alienação da vida moderna faz com que você dedique uma grande importância a esses dois parágrafos de vida interior zumbi. É um placebo de cultura leprosa que se desfaz na sua cabeça como um comprimido efervescente; a armadilha de acreditar que você dá sentido aos momentos mortos da rotina, que um minuto depois acabam se necrosando em uma sesta.





Assim como os ‘junkies’, mentimos para nós mesmos quando vemos que esse novo vício assume o controle das nossas vidas. “Bom, pelo menos é cultura”, dizemos para nós mesmos.

Depois você chega em casa. E aí? Vai reabrir o livro? Ah, bem poderia. Mas não seria melhor deixá-lo para logo antes de ir dormir? Ler na cama, essa quimera. Se você já pega no sono por aí, nas esquinas do transporte público, o que espera que aconteça quando se posicionar entre lençóis cada vez menos frios e mais aclimatados ao seu corpo alquebrado? O que você faz ao chegar em casa não é ler. O que você faz é preparar quatro tranqueiras para o jantar e se colocar na frente desses serviços de streaming tão legais que você contratou por um preço ridículo. Todas as séries do mundo por menos de 30 reais por mês.
E um filme? Quanto tempo faz que você não vê um filme em casa? Ah, você está bem cansado, não vai aguentar duas horas. Além disso, falaram bem dessa série que tem só dez capítulos por temporada e… puxa vida. Vicia. Tinha razão aquele colega, aquele thread do Twitter, aquele amigo da sua namorada, aquela matéria do EL PAÍS que havia botado a série nas nuvens. Você põe mais um capítulo. E mais um. Você não tinha tempo para dedicar sua atenção completa a uma história de 90 minutos, e de repente se vê, como um maníaco salivante, engolindo seis capítulos de 50 minutos cada um, todos eles repletos de subtramas absurdas.
É óbvio que há séries extraordinárias; e é óbvio também que muitas delas, como antes nas décadas de 1950 ou 80, se concentram numa espécie de época dourada, de momentum. A proliferação de plataformas digitais de conteúdo, dispostas a brigar com os serviços de TV cabo, está dando lugar a um excesso que acaba virando um hábito bulímico de consumo. Não é só algo que nos proporciona prazer; é algo que, além disso, nos dá certo status. Permite simular uma espécie de erudição portátil que preenche o papo do elevador, do escritório ou do balcão do bar, já que todos estamos vendo séries e, frequentemente, todos estamos vendo as mesmas séries.




'Twin Peaks: The Return'.
'Twin Peaks: The Return'.


Isto, por um lado, é positivo. A democratização da cultura derruba barreiras e enriquece as pessoas. Fenômenos populares como a seriefilia facilitam novas vias de conversação, de debate e inclusive de trolagem. E, sim, é verdade que ver muitas temporadas de algo (o que quer que seja) nos tira tempo para outras coisas, como ler, mas até que ponto queixar-se disso não é um sinal de esnobismo classista? Pretender que duas obras de arte sejam vistas por cima do ombro é puramente um exercício estúpido. As séries ruins são tão ruins quanto os romances ruins, e o mesmo acontece com as séries e romances (e filmes e discos) medíocres ou brilhantes.
Agora, a histeria viral que acompanha a seriefilia se torna repelente quando nivela o critério para enfrentar a linguagem. Não vemos séries, as seguimos. A cineasta Lucrecia Martel disse recentemente que as séries eram “um passo atrás”. Guillermo del Toro afirmou, em outra declaração recente à imprensa, que recordava muitos grandes momentos televisivos, mas pouquíssimas imagens indeléveis. É verdade que, na era da TV paga e da ficção por streaming, os roteiristas são os autênticos autores; e quase parece que, ouvindo esses cineastas, a realização dos roteiros fica nas mãos de vários operários que têm diante de si a tarefa quase industrial de traduzir suas arrevesadas e complexas tramas em uma sucessão de beabás visuais. Como se a profundidade aristotélica fosse sistematicamente passada pelo moedor do campo/contracampo.
Há muitas exceções; cada vez mais, aliás. Von Trier, Soderberg e Fukunaga se puseram à frente de temporadas inteiras (para não falarmos de Lynch e a odisseia inabarcável de Twin Peaks: O Retorno). Mas, deixando de lado esse ponto de vista meio territorial dos próprios cineastas, várias séries que seguem a linha de trabalho de alternar diretores revelaram momentos visuais comoventes ou belíssimos. Better Call Saul, Hannibal e The Leftovers são alguns exemplos em que a realização é tão importante quanto o roteiro. Então por que nos custa reter essa beleza? Talvez pelo excesso; o costume de ir às séries como o menino guloso vai às bolachas da avó. Colocamos a mão em um frasco de cultura e a levamos à boca com um furor doce e animal.



Quantas vezes você adiou o trabalho daquele projeto pessoal “por um capítulo a mais”? Quantos antissistema se derretem com maratonas de ‘Mr. Robot’?

Por isso, ao chegarmos moídos em casa seguimos as recomendações da nossa plataforma de streaming. Com a fé de encontrarmos um novo dínamo emocional, procuramos desconectar não mais por duas horas, e sim por duas temporadas. Ou quatro. Ou seis. Assim como os junkies, mentimos para nós mesmos quando vemos que esse novo vício assume o controle das nossas vidas. “Bom, pelo menos é cultura”, dizemos para nós mesmos, quando, com triste frequência, o que ativamos em nossas telas é um protetor de tela inteligente que reproduz os mesmos argumentos-clichês que já haviam nos prendido alguma vez (Isto explicaria o sucesso narcótico de Ozark entre os órfãos de Breaking Bad).
Quantos casais dissimulam esses últimos meses anteriores à separação em meio ao espesso nada do binge-watching? Quantas vezes você adiou o trabalho daquele projeto pessoal “por um capítulo a mais”? Quantos antissistema, desses que rimam “televisão” com “manipulação”, se derretem com maratonas de Mr. Robot?
A cultura mais desafiadora é a que nos dá aquilo que não sabemos que queremos, ao passo que as séries, inclusive as melhores séries, vivem por natureza de cumprir uma expectativa que alimentam constantemente. Por esse ralo deixamos que se perca, em espiral, o que há de cinza em nossa rotina. E nos sentimos, isso sim, mas descolados, mais cultos e mais felizes.