quarta-feira, 16 de outubro de 2019

A história por trás de 21 grandes brigas na história do rock e do pop

Joe Perry e Steven Tyler estão juntos desde o começo dos anos setenta. Muito tempo e muito ego acumulado. Sua primeira separação foi em 1979. Não foi a última.

A história por trás de 21 grandes brigas na história do rock e do pop


Estrelas da música não costumam se destacar por sua humildade. Pelo contrário: esses são alguns dos maiores conflitos entre célebres egomaníacos



LUIGI LANDEIRA
15 Oct 2019

Para retirar algo positivo das contínuas brigas entre Keith Richards e Mick Jagger durante certa época, o guitarrista afirmou que esses conflitos são a melhor gasolina para o motor da criatividade. Ou seja, que essas brigas dão lugar a grandes músicas como Brown SugarJumpin' Jack Flash e Tumbling Dice. Se é assim, todos felizes, principalmente o amante da música. Mas, infelizmente, isso nem sempre acontece. Aqui resumimos vinte e um exemplos de brigas entre estrelas e a história que há por trás...

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Miriam Reyes / Meu corpo despido está aqui


Miriam Reyes
Meu corpo despido está aqui


Meu corpo despido está aqui
e não em outro lugar.
Entra e verás o que há
detrás do esmalte dos dentes.
Entra e verás.

Meu rosto não è o meu rosto.
A pequena garota sem nome
a bonce com lágrima.
Por favor por favor por favor
leva-me para casa
Por favor por favor
brinca comigo.

A autômata me protege
com seu corpo de menina bonita de borracha homologada.
Que doce, que doce e perfeita
em seu ventre vazio ouve-se o mar.

Encanta todo mundo.
Encanta a concha na qual o crustáceo ermitão sobrevive.
A gente prefere as conchas, levam-nas para casa
levam-nas ao ouvido
e as escuta.


sábado, 12 de outubro de 2019

Olga Tokarczuk / “E agora prestem atenção!”


Olga Tokarczuk


“E agora prestem atenção!”, o capítulo de um livro de Olga Tokarczuk, a Nobel de Literatura 2018

A Editora Todavia publica em novembro o livro 'Sobre os Ossos dos Mortos', da polonesa agraciada com o maior prêmio literário do mundo referente ao ano de 2018


OLGA TOKARCZUK

11 OCT 2019

 
Outrora dócil, e em perigosa senda,
O justo seguiu seu curso ao longo
Do vale da morte.
Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Peter Handke após ganhar o Nobel de Literatura / “Agora me sinto livre”


Peter Handke após ganhar o Nobel de Literatura: “Agora me sinto livre”

Escritor recebe os jornalistas em sua casa, nos arredores de Paris. “Como escritor você nasceu culpado, e hoje não me sinto assim", conta sobre suas sensações


MARC BASSETS

Chaville - 10 OCT 2019 - 17:51 COT


Quando o telefone tocou, pouco depois do meio-dia desta quinta-feira, Peter Handke achou que se tratava de um advogado norte-americano cuja ligação estava esperando. Em seguida entendeu que o interlocutor era alguém da Academia Sueca. Depois, saiu para caminhar pelos bosques próximos de Chaville, o povoado dos subúrbios de Paris onde reside. Às 15h45 (hora local), retornou por um dos caminhos de terra que levam à sua casa com jardim. Uma dezena de jornalistas já o esperava.
“Passem ao jardim”, convidou-os, desafiando sua reputação de escritor antissocial e isolado. “Não sei se estou feliz, mas estou emocionado”, declarou. “Mas não posso demonstrar para as câmeras e máquinas fotográficas. É difícil estar emocionado. É preciso ser ator para está-lo diante de vocês”. Depois revelou: “Não sei como comemorar. Eu gostaria de beber, mas não comi nada hoje. Não estou com fome.”
Suas sensações eram estranhas. “Como escritor você nasceu culpado. E hoje, a esta hora, não me sinto culpado, sinto-me livre. Talvez às seis da tarde volte a me sentir culpado”, afirmou.
Nobel 2019 chegou ao escritor austríaco quando muitos tinham deixado de esperá-lo, começando por ele. Seus ensaios em defesa da Sérvia durante as guerras balcânicas dos anos noventa, e mais o gesto de assistir ao enterro do líder nacionalista sérvio Slobodan Milosevic, morto em 2006, pareciam tê-lo relegado, embora cada ano continuasse figurando nas bolsas de apostas. Ele garantia que não esperava o prêmio.
“Pelos problemas que tive há anos nunca pensei que me escolhessem”, disse o autor de O Medo do Goleiro Diante do Pênalti e A Perda da Imagem. “Houve muito ruído quando escrevi de um modo diferente sobre a guerra civil na Iugoslávia, e posso entender. Por isso acredito que a decisão da Academia de Estocolmo foi corajosa.”
Amável e hospitaleiro com os jornalistas, alternando entre o alemão, o inglês, o francês e algo de castelhano, Handke se mostrou incomodado com as perguntas sobre suas posições a respeito da Sérvia e de Milosevic. “Não tenho nenhuma posição”, disse em várias ocasiões. Sobre sua presença no funeral do líder nacionalista, replicou: “É um crime? Você acha um crime?”.
Filho de mãe eslovena, Handke sempre foi defensor da posição sérvia nas guerras da desaparecida Iugoslávia e viajou para Belgrado em 1999 para mostrar sua solidariedade quando o país estava sendo bombardeado pela OTAN para que parasse a limpeza étnica no Kosovo. Ele deixou sua opinião clara em livros como Uma Viagem de Inverno ao DanúbioSaveMoravia e Drina ou Justice for Serbia (1995) e Apêndice de verão a uma Viagem de Inverno (1996). Criticou duramente o Tribunal de Haia por crimes na Iugoslávia: em um ensaio, o descreveu como ilegítimo e considerou a acusação de Milosevic um erro.
“Não tenho nada a mudar”, prosseguiu. “Todo dia eu gostaria de mudar. Mas minha natureza é minha natureza. É a natureza de um escritor, não de um jornalista. Meu sentimento mais profundo é o sentimento épico, como Cervantes, como Homero, como Tolstói. Este é meu mundo. E escritores austríacos como Adalbert Stifter, Heimito von Doderer, Ivo Andric.”
Também mencionou a influência da Espanha, país onde passou temporadas e é cenário de alguns de seus livros. Cita Juan da Cruz, Teresa de Ávila, Cervantes. “Também as paisagens, sobretudo”, acrescenta. “Eu gosto da Castela: mil metros sobre o mar, e está vazio. Mas gostar não é a palavra. Sinto apego.”
Há alguns anos, Handke declarou que “é preciso suprimir [o Nobel]”. “É uma falsa canonização”, disse. Hoje, com um toque de humor, matiza. “Agora corrigiram isso. Talvez continuem pelo bom caminho. Não tenho nada a criticar”, disse. E, mais sério, explicou: “Quando critiquei o prêmio Nobel, não falava como autor, e sim como leitor. Minha existência consiste em ler. Sinto-me em meu lugar quando começo a ler, a decifrar, a encontrar as palavras”. Cada manhã dedica um momento a ler alguns versos de Píndaro e outros autores em grego antigo. “É bom para a cabeça e para o coração, para a saúde”, comenta.
Outra pergunta incômoda. Em que gastará o dinheiro? “Ah, mas que perguntas… Não muito sutis. Quando era jovem escutava uma canção de Ray Davies, dos Kinks, com uma frase de que eu gostava de muito: ‘Tem muita coisa na minha cabeça’. Agora, não me pergunte sobre o dinheiro…”
E depois do Nobel? “É preciso continuar como se nada tivesse acontecido. É um de meus temas na vida: fazer de conta que nada aconteceu. Como disse Ibsen, ainda há muitas flechas no arco para disparar. Mas não quero dizer isso, porque Ibsen morreu depois de dizê-lo. Tenho vontade de continuar. Ainda tenho coisas pra contar, para rimar, para imaginar”.


FICCIONES
Casa de citas / Peter Handke / Madre I

DE OTROS MUNDOS

MESTER DE BREVERÍA
Peter Handke / Veinte años

PESSOA


quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Nobel de Literatura de 2018 e 2019


Olga Tokarczuk e Peter Handke

Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham o Nobel de Literatura de 2018 e 2019

Depois dos escândalos de abusos sexuais e vazamentos de 2017, a Academia Sueca concedeu no mesmo dia os prêmios de dois anos consecutivos. Escolha de europeus contraria apostas

ANDRE AGUILAR / TOMMASO KOCH
10 oct 2019

A polonesa Olga Tokarczuk e o austríaco Peter Handke ganharam o Nobel de Literatura de 2018 e 2019, respectivamente, anunciou a Academia Sueca nesta quinta-feira. A instituição volta a apostar em dois autores europeus, contrariando as especulações que indicavam o favoritismo de literaturas pouco representadas na história do organismo. Pela primeira vez, a instituição concedeu no mesmo dia os prêmios de dois anos consecutivos, depois dos escândalos de abusos sexuais e vazamentos de 2017
Em 2017, a instituição que concede o prêmio Nobel se viu envolta num escândalo tão grande que a obrigou a suspender a premiação de 2018. Aquela interrupção transformou a jornada desta quinta-feira em uma sessão excepcional, rodeada de grande expectativa. O número de escritores que aguardavam o telefonema provavelmente era o mesmo, mas as chances de recebê-lo eram dobradas. Talvez por isso o desconcerto nas bolsas de aposta parecia multiplicado também.
Há poucos dias, o acadêmico sueco Anders Olsson havia declarado que a diversidade era uma das prioridades adotadas pelo comitê atualmente. “Precisamos ampliar nossa perspectiva”, afirmou ele à imprensa. “Tínhamos uma visão eurocêntrica da literatura, e agora estamos olhando para o mundo todo. Anteriormente, estávamos mais enfocados nos homens. Hoje há muitas mulheres que são realmente excelentes.”
Só 14 autoras (12,3% dos 114 premiados) receberam o Nobel de Literatura até hoje. Além disso, os números revelam também os desequilíbrios geopolíticos do reconhecimento: 83 premiados (quase 73%) procediam da Europa, com a França como o país com mais escritores contemplados, 14. A América do Norte ocupa o segundo lugar, com 12 premiados (10,5%): 10 dos Estados Unidos e 2 do Canadá. Sete prêmios Nobel de literatura foram para a Ásia, seis para a América Latina, quatro para a África e só um para a Oceania, com o australiano Patrick White. Há ainda o caso do caribenho Derek Walcott, cuja obra foi escrita em inglês, idioma oficial do país, a ilha de Santa Lucia.
língua portuguesa foi premiada apenas uma vez, com José Saramago, em 1998. Da América Latina, já foram reconhecidos dois chilenos (Gabriela Mistral e Pablo Neruda), um colombiano (Gabriel García Márquez), um mexicano (Octavio Paz), um guatemalteco (Miguel Ángel Asturias) e um peruano (Mario Vargas Llosa, o mais recente, em 2010). Quase tão lembradas quanto eles, porém, são as polêmicas ausências de escritores da região nessa lista, como a do argentino Jorge Luis Borges. Para efeito de comparação, a Suécia conta com sete autores premiados, e a área escandinava como um todo, somando também Noruega, Finlândia, Dinamarca e Islândia, reúne 15 prêmios Nobel de Literatura.

Olga Tokarczuk, no festival internacional do livro de Edimburgo, em agosto de 2017.
Olga Tokarczuk, no festival internacional do livro de Edimburgo, em agosto de 2017.ROBERTO RICCIUTI/GETTY IMAGES

A entrega do prêmio correspondente a dois anos, inédita na história do Nobel, que é concedido desde 1901, deve-se ao escândalo sexual e de supostos vazamentos que sacudiram a instituição em novembro de 2017. O Dagens Nyheter, principal jornal sueco, publicou na ocasião uma reportagem em que 18 mulheres acusavam Jean-Claude Arnault, marido da acadêmica Katarina Frostenson, e ele próprio muito próximo da instituição, de ter cometido abusos e assédio sexual. Contra Arnault, cidadão francês de 72 anos, uma celebridade nos ambientes culturais de Estocolmo e possuidor de uma das mais altas distinções suecas, já haviam sido formuladas algumas denúncias anônimas uma década antes, em outro jornal sueco, sem que a Academia se visse questionada por isso. Mas no final de 2017 o número denunciantes tinham subido para 18, e o movimento #MeToo tinha chegado para mudar tudo.
Uma investigação interna concluiu que Frostenson tinha incorrido em conflito de interesses ao ser coproprietária com seu marido do Fórum, uma espécie de clube cultural influente em Estocolmo, generosamente financiado pela instituição que concede o prêmio Nobel de Literatura. E teve que abandonar seu posto na Academia perante as acusações de ter vazado informação sigilosa sobre os Prêmios Nobel ao seu cônjuge. Arnault, enquanto isso, cumpre uma pena de dois anos e meio de prisão por dois crimes de estupro (na maioria dos casos, os fatos denunciados já estavam prescritos ou não puderam ser comprovados) em uma penitenciária destinada a sentenciados por delitos sexuais.

Peter Handke, em Madri, em 2017.
Peter Handke, em Madri, em 2017.BERNARDO PÉREZ

O escândalo forçou a Academia a um período de reflexão e a uma mudança profunda. Precipitaram-se demissões em uma instituição cujos cargos eram vitalícios. Vários jornais informaram também que Arnault tinha divulgado antecipadamente o nome dos ganhadores em diversas ocasiões. Mas aquela cobiçada informação deve ter se mantido em um círculo muito fechado, porque para a grande maioria a notícia do Nobel sempre cai como uma surpresa. “Não se pode ter nada previsto, porque são sempre muitos os que podem ganhar, e muitos que seriam certeza, como Amos Oz e Philip Roth, nunca o receberam”, diz por telefone Verónica García, da distribuidora de livros espanhola Machado. “Assim que recebemos a notícia entramos em contato com o editor para que mande todos os livros que puder do ganhador e começamos a receber pedidos. É raro que haja mais de 5.000 exemplares disponíveis.”
Hoje, muitos irão às livrarias procurando obras dos ganhadores Tokarczuk e Handke, mas pode ser, como ocorreu com Svetlana Alexievich e seu livro sobre Chernobil, que seja necessária uma série de televisão para decolarem como fenômeno editorial.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

Fernando Pessoa / Mísia / Dança de mágoas


Fernando Pessoa
Dança de mágoas

Como inútil taça cheia 
Que ninguém ergue da mesa, 
Transborda de dor alheia 
Meu coração sem tristeza. 

Sonhos de mágoa figura 
Só para Ter que sentir 
E assim não tem a amargura 
Que se temeu a fingir. 

Ficção num palco sem tábuas 
Vestida de papel seda 
Mima uma dança de mágoas 
Para que nada suceda. 



Mísia
Dança de mágoas
Garras dos Sentidos, 1998




segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Carolina Borges / A multiplicidade de Fernando Pessoa

Pessoa
David Levine

A multiplicidade de Fernando Pessoa

por Carolina Borges

É tarefa impossível escrever sobre vida e obra de Fernando Pessoa utilizando os padrões biográficos comuns. Só para começarmos a falar desse gênio da literatura é preciso ter em mente que não existe um único Fernando Pessoa, mas exatamente 127 heterônimos que vão muito além da ideia de se esconder ou se proteger atrás de um nome falso. Em se tratando de Pessoa, cada heterônimo possui escrita e personalidade próprias, além de uma história de vida única. Segundo o crítico literário Harold Bloom, sua obra pode ser considerada um “legado da língua portuguesa ao mundo”.

Formalmente sabemos que Fernando António Nogueira Pessoa, que deu vida a tantos outros seres, nasceu em Lisboa no dia 13 de junho de 1888 e morreu na mesma cidade em 30 de novembro de 1935, foi educado na África do Sul, onde aprendeu fluentemente o inglês (escrevendo poesia e prosa nessa língua também) e ao longo da vida trabalhou em várias firmas comerciais de Lisboa como, o próprio define, “correspondente estrangeiro”. Foi também empresário, editor, crítico literário, jornalista, comentador político, tradutor, inventor, astrólogo e publicitário, ao mesmo tempo em que produzia a sua vasta obra literária em verso e em prosa. Teve um longo relacionamento com Ophélia Queiroz, mas não chegou a casar-se nem ter filhos.

José Paulo Cavalcanti Filho tentou explicar essa trajetória no livro Fernando Pessoa – uma quase autobiografia (Editora Record) , o livro é fragmentado, misturado, recortado e costurado, assim como a própria obra do autor português. Não poderia ser de outra forma nessa “quase autobiografia” que tenta condensar e explicar essa obra descontínua (e genial), na qual poemas, prosa e personalidades se misturam como um fluxo de pensamento .

O próprio Fernando Pessoa, numa tentativa de elucidar (ou confundir ainda mais) as questões a respeito de quem seria o verdadeiro homem por trás do(s) escritor(es), escreveu em 1935 uma Ficha Pessoal, também referida como nota autobiográfica, intitulada Fernando Pessoa, dactilografada e assinada pelo escritor em 30 de março. Publicada pela primeira vez, muito incompleta, como introdução ao poema À memória do Presidente-Rei Sidónio Pais, editado pela Editorial Império em 1940, foi finalmente publicada em versão integral em1988, na obra Fernando Pessoa no seu Tempo(Lisboa, Biblioteca Nacional)


Alguns trechos da Ficha são bastante interessantes, por exemplo, ele define sua profissão como a de tradutor, mais especificamente de “correspondente estrangeiro” e afirma que ser poeta e escritor não constitui profissão, mas vocação. Além disso, ele define ser o sistema monárquico o mais próprio para Portugal, se declara um cristão gnóstico e “portanto inteiramente oposto a todas as igrejas organizadas e, sobretudo, à Igreja Católica”, também afirma ser anti-reaccionário, anti-comunista e anti-socialista. Como se não bastassem tantas informações sobre essa personalidade ímpar, na Ficha ainda descobrimos que Pessoa “tem íntimas relações com a Tradição Secreta em Israel (a Santa Kabbalah) e com a essência oculta da Maçonaria” além de se considerar um “partidário de um nacionalismo místico, de onde seja abolida toda a infiltração católico-romana”. Ele afirma ter como ídolo Jacques de Molay, Grão-Mestre dos Templários e, por fim, se compromete a sempre combater os assassinos de Molay: a Ignorância, o Fanatismo e a Tirania.

Em relação às obras publicadas, o próprio Pessoa é o mais indicado para nos apresentá-las, na Ficha Pessoal, ele preenche o tópico Obras que tem publicado, da seguinte forma : “A obra está essencialmente dispersa, por enquanto, por várias revistas e publicações ocasionais. É o seguinte o que, de livros ou folhetos, considera como válido: 35 Sonnets(em inglês), 1918; English Poems I-II e English Poems III (em inglês também), 1922; livroMensagem, 1934, premiado pelo Secretariado de Propaganda Nacional na categoria Poema. O folheto O Interregno, publicado em 1928 e constituído por uma defesa da Ditadura Militar em Portugal, deve ser considerado como não existente. Há que rever tudo isso e talvez que repudiar muito”.

Certa vez ouvi que Fernando Pessoa abandonou a faculdade de Letras para se tornar a própria faculdade de Letras, provavelmente ele achava que perdia muito tempo no mundo universitário ( e tinha certa razão). Hoje, ironicamente, ele é o um dos autores mais estudados e intrigantes, tanto para quem estuda as Letras, quanto para qualquer um que seja minimamente curioso e aprecie literatura. É simplesmente incrível ver escritas tão diferentes vindas da mesma pessoa e de pessoa alguma, os heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro (só para citar alguns dos mais famosos) se apresentam não como Fernando travestido de outros nomes, mas como autores completamente diferentes com biografias, temas e poética tão diversa como conflituosa, constantemente um heterônimo desmentia o outro, tomando posições e ideologias antagônicas.

Já que é impensável definir, e sendo assim acabar por limitar Fernando Pessoa, podemos certamente dizer que trata-se de um gênio que via a tumultuada transição do século XIX para o XX não de uma posição única que pressupunha a verdade absoluta mas, através dos heterônimos, pôde nos deixar uma vasta obra que abarca senão todos, a maior parte, dos aspectos e possíveis visões desse período, além, é claro, de uma literatura nova, reflexiva e, sobretudo, bela.



domingo, 6 de outubro de 2019

Fernando Pessoa / A tua voz




Fernando Pessoa
A tua voz


A tua voz fala amorosa...
Tão meiga fala que me esquece
Que é falsa a sua branda prosa.
Meu coração desentristece.

Sim, como a música sugere
O que na música não está,
Meu coração nada mais quer
Que a melodia que em ti há...

Amar-me? Quem o crera? Fala
Na mesma voz que nada diz
Se és uma música que embala.
Eu ouço, ignoro, e sou feliz.

Nem há felicidade falsa,
Enquanto dura é verdadeira.
Que importa o que a verdade exalça
Se sou feliz desta maneira? 


sábado, 5 de outubro de 2019

Casar pela metade, a nova fórmula de convivência que funciona em Hollywood


Gwyneth Paltrow e seu marido, Brad Falchuk, vivem em casas separadas e ficam juntos quatro noites por semana.

Casar pela metade, a nova fórmula de convivência que funciona em Hollywood

A nova tendência social entre os casais mais modernos é o 'part-time marriage' ou viver separados alguns dias por semana. É a solução para a rotina conjugal?


SILVIA CAPAFONS
3 OCT 2019

O part-time marriage, ou, o que dá na mesma, o casamento por tempo parcial, tenta reacender a chama do amor quando não brilha mais como antes. Estamos diante de uma possível solução para uma crise sentimental? Borja Vilaseca é especialista em crescimento pessoal e divulgador da tendência, como aborda em seu livro Ni Felices Ni Para Siempre (Nem felizes nem para sempre). A ideia é recuperar o espírito de quando o casal namorava, fazendo acordos para respeitar a liberdade um do outro e impedir que o amor “caia nas garras da rotina, do tédio e da monotonia”, conta Borja ao EL PAÍS.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Festival Gabo / O jornalismo como ferramenta essencial para a sociedade


Soledad Gallego-Díaz, Carmen Aristegui e Pedro Doria abordam, no Festival Gabo, os desafios de informar em um mundo complexo.DAVID ESTRADA LARRAÑETA

FESTIVAL GABO

O jornalismo como ferramenta essencial para a sociedade

Soledad Gallego-Díaz, Carmen Aristegui e Pedro Doria abordam, no Festival Gabo, os desafios de informar em um mundo complexo


SANTIAGO TORRADO / CATALINA OQUENDO
Medellín, 3 oct 2019


O jornalismo, com frentes abertas no mundo todo, é atualmente mais necessário do que nunca para dar sentido a uma informação fragmentada. Em tempos de crise e de grande incerteza nas democracias, narrativas profissionais que informem e integrem as sociedades se tornam indispensáveis. Esse foi o diagnóstico compartilhado nesta quarta-feira pela diretora do EL PAÍS, Soledad Gallego-Díaz, pela jornalista mexicana Carmen Aristegui e pelo brasileiro Pedro Doria, que participaram de uma mesa-redonda em Medellín (Colômbia) dentro das atividades do Festival Gabo.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

Vargas Llosa / Volta à barbárie


Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

Volta à barbárie

O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história


31 Ago 2019




Volta à barbárie
FERNANDO VICENTE

O segundo homem forte da Venezuela, Diosdado Cabello, enfurecido porque, devido à vertiginosa inflação que açoita sua pátria, o bolívar desapareceu de circulação e os venezuelanos só compram e vendem em dólares, pediu a seus compatriotas que recorram ao “escambo” para desterrar do país de uma vez por todas a moeda imperialista.
É certeza que os desventurados venezuelanos não lhe farão o menor caso, porque a dolarização do comércio não é um ato gratuito nem uma livre escolha, como acreditava o dirigente chavista, e sim a única maneira pela qual os venezuelanos podem saber o valor real das coisas em um país onde a moeda nacional se desvaloriza a cada instante pela pavorosa inflação —a mais alta do mundo— à qual a Venezuela foi levada por seus irresponsáveis dirigentes, multiplicando o gasto público e imprimindo moeda sem respaldo. A alusão de Cabello ao escambo é uma diáfana indicação desse retorno à barbárie que a Venezuela vive desde que, em um ato de cegueira coletiva, o povo venezuelano levou o comandante Chávez ao poder.
O escambo é a forma mais primitiva do comércio, aqueles intercâmbios que nossos remotos ancestrais realizavam e que alguns pensadores, como Hayek, consideram o primeiro passo dados pelos homens das cavernas em direção à civilização. Certamente, comercializar é muito mais civilizado que matar-se entre si a pauladas, como faziam as tribos até então, mas suspeito que o ato decisivo para a desanimalização do ser humano tenha ocorrido antes do comércio, quando nossos antecessores se reuniam na caverna primitiva, ao redor de uma fogueira, para contar histórias. Essas fantasias atenuavam o espanto em que viviam, temerosos da fera, do relâmpago e dos piores predadores, as outras tribos. As ficções lhes davam a ilusão e o apetite de uma vida melhor que aquela que viviam, e dali nasceu talvez o primeiro impulso para o progresso que, séculos mais tarde, nos levaria às estrelas.
Neste longo trânsito, o comércio desempenhou um papel principal, e boa parte do progresso humano se deve a ele. Mas é um grande erro acreditar que sair da barbárie e chegar à civilização é um processo fatídico e inevitável. A melhor demonstração de que os povos podem, também, retroceder da civilização à barbárie é o que ocorre justamente na Venezuela. É, potencialmente, um dos países mais ricos do mundo, e quando eu era criança milhões de pessoas foram para lá procurar trabalho, fazer negócios e em busca de oportunidades. Era, também, um país que parecia ter deixado para trás as ditaduras militares, a grande peste da América Latina de então. É verdade que a democracia venezuelana era imperfeita (todas são), mas, apesar disso, o país prosperava num ritmo sustentado. A demagogia, o populismo e o socialismo, parentes muito próximos, fizeram-na retroceder a uma forma de barbárie que não tem antecedentes na história da América Latina e talvez do mundo. O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história. E não me refiro só aos mais de quatro milhões de venezuelanos que fugiram do país para não morrer de fome; também aos roubos abundantes com os quais a suposta revolução enriqueceu um punhado de militares e dirigentes chavistas cujas gigantescas fortunas fugiram e se refugiam agora naqueles países capitalistas contra os quais clamam diariamente Maduro, Cabello e companhia.


Venezuela é, em potencial, um dos países mais ricos do mundo, milhões de pessoas iam lá a buscar trabalho

As últimas notícias publicadas na Europa sobre a Venezuela mostram que a barbarização do país adota um ritmo frenético. As organizações de direitos humanos dizem que há 501 presos políticos reconhecidos pelo regime, e, apesar disso, isolados e submetidos a tortura sistemáticas. A repressão cresce com a impopularidade do regime. Os corpos de repressão se multiplicam, e o último a aparecer agora opera nos bairros marginais, antigas cidadelas do chavismo, mas transformados, devido à falta de trabalho e à queda brutal dos níveis de vida, em seus piores inimigos. As surras e assassinatos a rodo são incontáveis e querem sobretudo, mediante o terror, fortalecer o regime. Na verdade, conseguem aumentar o descontentamento e o ódio contra o Governo. Mas não importa. O modelo da Venezuela é Cuba: um país sonâmbulo e petrificado, resignado à sua sorte, que oferece praias e sol aos turistas, e que ficou fora da história.
Infelizmente, não só a Venezuela retorna à barbárie. A Argentina pode imitá-la se os argentinos repetirem a loucura furiosa destas eleições primárias, em que repudiaram Macri e deram 15 pontos de vantagem à dupla Fernández/Kirchner. A explicação deste desvario? A crise econômica que o Governo de Macri não conseguiu resolver e que duplicou a inflação que assolava a Argentina durante o mandato anterior. O que falhou? Penso que o chamado ”gradualismo”, o empenho da equipe de Macri em não exigir mais sacrifícios de um povo extenuado pelos desmandos dos Kirchner. Mas não deu certo; mais do que isso, agora os sofridos argentinos responsabilizam o atual Governo —provavelmente o mais competente e honrado que o país teve em muito tempo— das consequências do populismo frenético que arruinou o único país latino-americano que tinha conseguido deixar para trás o subdesenvolvimento e que, graças a Perón e ao peronismo, retornou a ele com perseverante entusiasmo.
A barbárie se assenhora também da Nicarágua, onde o comandante Ortega e sua esposa, depois de terem massacrado uma corajosa oposição popular, voltou a reprimir e assassinar opositores graças a umas forças armadas “sandinistas” que já se tornaram idênticas àquelas que permitiram a Somoza roubar e dizimar esse desafortunado país. Evo Morales, na Bolívia, dispõe-se a ser reeleito pela quarta vez como presidente da República. Fez uma consulta para ver se o povo boliviano queria que ele fosse novamente candidato; a resposta foi um não taxativo. Mas não lhe importa. Declarou que o direito a ser candidato é democrático e se dispõe a se eternizar no poder graças a eleições manufaturadas à maneira venezuelana.
E o que dizer do México? Escolheu esmagadoramente López Obrador, em eleições legítimas, e no país prosseguem os assassinatos de jornalistas e mulheres a um ritmo aterrador. O populismo começa a carcomer uma economia que, apesar da corrupção do Governo anterior, parecia bem orientada.
É verdade que há países como o Chile que, diferentemente dos já mencionados, progridem a passos de gigante, e outros, como a Colômbia, onde a democracia funciona e parece fazer avanços, apesar de todas as deficiências do chamado “processo de paz”. O Brasil é um caso à parte. A eleição de Bolsonaro foi recebida no mundo inteiro com espanto, por suas saídas de tom demagógicas e suas exortações militaristas. A explicação desse triunfo foi a grande corrupção dos Governos de Lula e Dilma Rousseff, que indignou o povo brasileiro e o levou a votar numa tendência contrária, não uma claudicação democrática. Certamente, seria terrível para a América Latina que também o gigante brasileiro começasse o retorno à barbárie. Mas não ocorreu ainda, e muito dependerá do que o mundo inteiro, e sobretudo a América Latina democrática, faça para impedi-lo.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Vargas Llosa / O regresso à Grécia

Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

O regresso à Grécia

Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu


17 AUG 2019

Um rapaz grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o rodeavam em seu país natal, conseguiu escapar para a Suécia. Enfrentou ali a difícil vida do imigrante. Sobrevivendo como podia, aprendeu o idioma – e tão bem que descobriu uma vocação de escritor e começou a escrever em sueco. Teve bastante sucesso. Tanto que pôde ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Casou-se com uma sueca, com quem teve filhos e netos. Comprou um apartamento, depois uma casinha de verão e um pequeno apartamento onde se encerrava de manhã e de tarde para ler e escrever.
Theodor já tinha feito 70 e tantos anos quando um dia, de repente, vivenciou algo que nunca até então havia conhecido: um bloqueio intelectual. Olhava o rolo de sua pequena máquina portátil e tinha a mente em branco, sem uma única ideia sobre a qual redigir. Saiu para caminhar à beira do oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; dias, semanas, meses esteve assim, sem nada a dizer, oprimido pela paralisia e a constipação intelectuais. Gunilla, sua mulher, inquieta, propôs uma viagem. Por que não à Grécia, sua terra natal? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.
Chegaram a Atenas de avião. Ali alugaram um carro e se lançaram à estrada, rumo ao Peloponeso, onde se encontrava aquele vilarejo diminuto, Molaoi, onde Theodor havia nascido. Lá estava, empoeirado, eterno e efusivo. Alguns parentes centenários continuavam ali, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as trepadeiras. Reconheceram-no na rua. A escolinha foi alertada. Os professores lhe organizaram uma homenagem que aconteceu ao anoitecer, quando uma leve brisa substituía o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como um queijo. Quando as crianças cantaram para ele, Theodor sentiu que duas grandes lágrimas deslizavam por sua velha face.
Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal se hospedava, Theodor se levantou logo cedo, como sempre havia feito na Suécia. Preparou sua maquininha portátil e, sentindo que todo o corpo tremia, começou a escrever. Com a mesma insegurança e o terror de se equivocar em cada palavra, como havia feito em cada manhã nesse meio século de vida sueca. Mas desta vez não escrevia em sua língua adotada, e sim em grego. Sem deixar de tremer, cada vez mais morto de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que vivenciou lá, no fundo dos tempos, quando escreveu sua primeira história sueca.
O livro escrito em grego por Theodor Kallifatides – o primeiro de sua história de escritor – acaba de ser traduzido ao espanhol por Selma Ancira (Galaxia Gutemberg) e se chama Otra Vida por Vivir (outra vida por viver). Comoveu-me profundamente. Pela história que conta e que acabo de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e a destreza que emprega ao contar, como se se tratasse de algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deve ter sido, para esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante, que, após aquele bloqueio traumático, redescobre o grego e ao mesmo tempo recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito belo, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.
Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o se deva a que, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há na minha vida o que há na sua, essa aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde partem suas lembranças. Eu não sei onde começam as minhas. Certamente não em Arequipa, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando tinha apenas um ano, antes do início das minhas recordações. Estas foram de Cochabamba, mas no casarão da rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as memórias da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba aprendi a ler, o melhor que me aconteceu, mas creio que só comecei a viver de verdade em Piura, que desapareceu sob uma modernidade que enterrou essa pequena cidade rodeada de areais, onde os burrinhos eram chamados de “piajenos” e as crianças, de “churres”, e onde aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos onze anos, e muitos anos se passaram antes que deixasse de detestar essa cidade que me distanciou de meus avós e meus tios.
Sempre pensei que ser um cidadão do mundo era o melhor que podia acontecer a uma pessoa, e continuo pensando assim. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos, que elas criam inimizades entre os povos e provocam as estúpidas guerras. E que, por isso, é preciso tentar afiná-las pouco a pouco, até que desapareçam totalmente. Isso está ocorrendo, sem dúvida, e essa é uma das boas coisas da globalização, embora haja também algumas ruins, como o aumento, até extremos vertiginosos, da desigualdade econômica entre as pessoas.
Mas é verdade que a língua primeira, aquela em que você aprende a dar nome à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que depois, com a azáfama da vida moderna, às vezes vai se perdendo, confundindo-se com outras, e isso é provavelmente a prova mais difícil que os imigrantes têm de enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que se amplia o abismo entre os países prósperos e os miseráveis, a de aprender a viver em outra língua, isto é, em outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, as crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.
Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se tal reconstrução linguística fosse alcançada de uma maneira natural, e não significasse algo dificílimo de conseguir, algo que está fora do alcance de uma enorme maioria de imigrantes, que jamais conseguem se integrar no seu novo país como ele conseguiu. Mas ele também conta como, ainda nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, persiste sempre, sepultada possivelmente no recôndito mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, aquele ponto de partida feito de paisagem, memória, língua, família, que, de repente, torna-se exigência peremptória, uma nostalgia que exige suas prerrogativas. Eu me lembro, em minha juventude em Miraflores, de um velhinho polonês que vendia peles e havia sobrevivido aos campos de extermínio nazistas. Dizia detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços quando aquilo ocorria, mas, sempre que conversávamos, ele voltava à Polônia, à sua família, ao vilarejo onde passara a infância, à cidade onde seu pai e seu avô também tinham comercializado peles. Às vezes seus olhos marejavam recordando essa terra que dizia detestar.
Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, cálido, necessário, e assim nos mostra Otra Vida por Vivir, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra cara da imigração e apresenta o amor ao que nos é próprio sem uma gota de patriotismo em excesso nem sentimentalismo.