Mostrando postagens com marcador Slavoj Zizek. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Slavoj Zizek. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de agosto de 2019

Slavoj Zizek / O filósofo viral


Slavoj Zizek


Slavoj Zizek

O filósofo viral

Pensador esloveno estoura nas redes sociais com vídeos e linguajar sem preconceitos

JOSEBA ELOLA
Madri 2 JUL 2017 - 18:48 COT

Desenvolver um discurso lúcido misturando pornô com subjetivismo, escatologia com refundação da esquerda, Lacan com Ernst Lubitsch, temperado com piadas locais e referências a Taylor Swift –eis uma coisa que não está ao alcance de muita gente. No caso do filósofo Slavoj Zizek (Liubliana, Eslovênia, 1959), isso se transforma em arte. Ou espetáculo, como dizem seus críticos.

O pensador esloveno é um filósofo controverso e polêmico, um agitador de consciências alinhado com o politicamente incorreto. Sua erudição, sua fluidez teórica e seu amplo leque cultural o transformaram em uma espécie de Sartredeste começo de século, pelo menos quanto à sua capacidade de expansão na esfera pública, segundo seus defensores. A um só tempo, sua capacidade de comunicação (esmagadora), o uso de um linguajar desprovido de preconceitos (nas antípodas da Academia) e seu domínio das referências da cultura pop o ajudaram a levar sua mensagem a jovens de 20 e 30 anos insatisfeitos com o estado atual das coisas, inconformados com a ordem estabelecida pelo paradigma neoliberal. Ele se ligou a eles por aquilo que defende.


E pelos vídeos no YouTube.
A viralidade de suas intervenções, como a da hilariante explanação em que explica as diferenças entre o pensamento francês, inglês e alemão fazendo uma analogia com a forma com que são desenhados os vasos sanitários em cada um desses países, ajuda a explicar, ao menos em parte, a fila que se formou na quarta-feira passada nas proximidades do Círculo de Belas Artes de Madri para assistir à palestra intitulada Alegações em defesa de um socialismo burocrático. Cerca de 500 pessoas, segundo os cálculos feitos nesse centro cultural da cidade, ficaram do lado de fora.




PÉROLAS E PIADAS


Pérolas. Em seu encontro de quinta-feira com jornalistas no Museu Reina Sofía, Zizek soltou frases como...
“Ao ver Trump, a gente sente saudade de George Bush”.
“A alternativa política será alguma forma de comunismo. O capitalismo está chegando perto de seu limite”.
“Não confio nas máquinas. A tecnologia não é neutra”.
Piadas. O autor esloveno gosta de rechear suas intervenções com piadas. Na quarta-feira passada, ele explicou, no Círculo de Belas Artes, porque os marxistas gostam tanto da psicanálise: "porque é a única explicação para o fato de as pessoas ainda não terem feito a revolução."

O caso de Carlos Fulgado, jovem estudante de Física de 18 anos, ajuda a explicar o fenômeno. Na quarta-feira, ele chegou pouco antes das 17h no Círculo de Belas Artes para reservar um bom lugar para assistir à conferencia, marcada para as 19h30. Fulgado conta que chegou a Zizek “pelo lado mais mainstream [tendência da moda]”, ou seja, ouviu falar dele e viu pedaços de seus vídeos no YouTube, principalmente trechos do seu Guia de cinema para pervertidos e do Guia ideológico para pervertidos, documentários escritos e apresentados por ele. Tentou ler coisas maiores e mergulhar no livro Em defesa da intolerância, que se mostrou uma droga pesada para um garoto com apenas 15 anos na época. Ele foi o primeiro a se aproximar para dar um aperto de mão quando o filósofo chegou ao local. “Ele subverteu a forma clássica de abordar a filosofia”, diz o jovem espanhol, “em vez de falar de cima de uma torre de marfim, apelou para o fenômeno hipster. Sabe criar empatia com a juventude, com essas referências que utiliza, David Lynch, Starbucks...”. Conta também que, hoje, já devorou de oito a dez livros de Zizek. Isso, com seus 18 anos.
Pouco antes dele, às 15h45, chegou Pablo Castellano, de 24 anos, o primeiro da fila, estudante de filosofia que confessa não ter lido os livros mais importantes de Zizek (leu Lacrimae Rerum; ensaios sobre o cinema moderno e ciberespaço, mas conhece bem seus vídeos no YouTube). “Entre os alunos da faculdade é muito popular, mas academicamente não tem presença, não é estudado.”

Estertores do capitalismo

O carisma de Zizek ao vivo é incontestável. A sala de colunas do Círculo de Belas Artes se abarrotou com cerca de 500 pessoas, a grande maioria na faixa dos vinte e trinta anos, que ali foram para escutar sua digressão em defesa de uma burocracia socialista. Seu provocador slogan esconde uma reflexão: depois da rebelião nas praças, é necessário um maquinário invisível que se encarregue das coisas importantes de nossa rotina, a Saúde, a Educação. Zizek proclamou que estamos vivendo os estertores do capitalismo; clamou contra o vazio de Emmanuel Macron, candidato do establishment francês; disparou contra a globalização; e fez um chamado à esquerda para que lute por constituir uma maioria moral. Tudo isso, alinhado com referências a Lacan, Althusser e Malcom X, e declamado em um estilo aparentado ao de Roberto Benigni, tanto pelo sotaque, como pela capacidade de sedução, e a facilidade para fazer a audiência rir. O público se deparou com alguém brilhante no monólogo, aos atropelos e caótico, incisivo, que empregou toda uma coleção de tiques que o transformam em um personagem: agarra o nariz, tira a língua pela direita, arranca a camisa, joga o cabelo para trás, faz uma parada brusca: e tudo, assim, como uma compulsão, enquanto faz jorrar suas reflexões contra a corrente.

Na quinta-feira, em um encontro com jornalistas no Museu Reína Sofía –onde na tarde deste sábado dará a conferência Lições do ‘Airpocalipse’–, disse que considera ser muito difícil dar uma palestra séria a mais de 40 pessoas, mas que é crucial expandir os limites da filosofia. “Chegou o momento de voltar às grandes questões metafísicas. Não vivemos na era da superficialidade. Há um público para grandes e sérios trabalhos teóricos.” E se reportou aos 10.000 exemplares que vendeu a versão inglesa de Menos que Nada – Hegel e a Sombra do Materialismo Dialético (lançado no Brasil pela Editora Boitempo), obra de fôlego em que lida com Hegel.
Há quem pense que o personagem criado por Zizek e sua viralização devoraram o pensador que ele é. Mas o certo é que há um pensador por trás de seu personagem.




O AGITADOR QUE GOSTA DOS DEBATES


“Zizek escreve muito bem”, argumenta o filósofo espanhol César Rendueles. “Tem grande capacidade argumentativa e habilidade para nos levar a lugares reflexivos que não esperávamos e nos quais, na realidade, preferiríamos não entrar. Nisso é insuperável: sabe como lançar debates incômodos.”
O autor esloveno, que teve editado na Espanha, no final de 2016, Problema no Paraíso (Editado no Brasil pela Zahar, em 2015), é um filósofo rejeitado por uma parte da Academia, que o considera um showman. “Está longe da filosofia light de [José Antonio] Marina ou [José Luis] Pardo”, afirma Fernando Castro Flórez, professor de Filosofia na Universidade Autônoma de Madri, que dirigiu uma tese de doutorado sobre o polêmico e corajoso (ou ousado, conforme se olhar) intelectual, que teve entre seus últimos atrevimentos reescrever e analisar Antígona, a tragédia de Sófocles. “Seus livros não são ligeiros. Eu continuo lendo-o. Busco o Zizek pensador. Na realidade, é um filósofo anti-pós-moderno, mais inclinado a Hegel que ao século XXI. Mas é muito mais dinâmico que os fósseis da Academia, com essa coisa que têm de sotaina”.
O prolífico autor esloveno, um escritor compulsivo, capaz de publicar até três ou quatro livros por ano (alguns, compilações de artigos) soube antecipar, tal como aponta Rendueles, o “esgotamento da globalização neobliberal” e “proporcionou”, como escreve Rendueles por email, “armas filosóficas para entender a crise”.
Seu carisma na Espanha também tem a ver com La Tuerka, o programa televisivo de Pablo Iglesias, dizia na quarta-feira uma das espectadoras da conferência, a estudante de Direito e Economia María Merchán, de 24 anos.
E, claro, com sua capacidade de se conectar com uma juventude descontente, que se sente deixada de lado, menosprezada, essa com que se consolidou o ajuste salarial –os menores de 40–, como na própria sexta-feira indicou um estudo do INE.
EL PAÍS



domingo, 18 de agosto de 2019

Slavoj Zizek / “As pessoas estão dopadas, adormecidas. É preciso despertá-las”

Slavoj Zizek


Slavoj Zizek: “As pessoas estão dopadas, adormecidas. É preciso despertá-las”

O filósofo esloveno diz não defender o velho comunismo, e sim um novo comunitarismo globalista. Os novos desafios, afirma, são a ecologia, a renovação do Estado do bem-estar e a prevenção da “guerra digital cognitiva”


XAVIER VIDAL-FOLCH
15 DEZ 2018

Slavoj Zizek, o grande provocador. Genial, paradoxal, contraditório, torrencial, midiático. As reflexões sobre a atualidade desse filósofo esloveno de 69 anos, pós-marxista, psicanalítico, cinéfilo ao infinito e apaixonado pelas piadas como espelho côncavo da vida, continuam provocando paixões. Jamais deixa ninguém indiferente.
O autor do trepidante Problema no Paraíso, entre muitos outros títulos, acaba de lançar dois livros: A Coragem da Desesperança (Zahar) e uma pequena síntese da sua obra (“Sempre me canibalizo, me autoplagio”, alega). Intitula-se A Vigência do ‘Manifesto Comunista’, embora nele argumente que “hoje em dia o comunismo não é o nome de uma solução, e sim o nome de um problema”. Descabelado e de verbo sedutor, recebe-nos entre seus livros, na sua casa em Liubliana (Eslovênia).PERGUNTA. Você saudou a ascensão de Donald Trump.
RESPOSTA. Porque Trump é uma bênção, embora protagonize um tipo de conduta horrível, capaz de todas as rupturas. Justamente por isso pode despertar, desencadear, alguma reação. O que Trump faz é uma loucura, mas antes ocorria o mesmo paulatinamente. Com o meio ambiente, com tudo. Alguns esquerdistas fazem comparações errôneas. Se você não gosta de Trump ou do novo autoritarismo, e tem preguiça de analisá-lo, a analogia é cômoda: “Ah, é fascismo!”. Essa analogia com os anos trinta é muito simples. É mais adequado nos remetermos à decadência anterior à Primeira Guerra Mundial quando, assim como hoje, todos se preparavam para a guerra, mas ninguém achava ser possível.
P. A tese leninista de “quanto pior, melhor” nunca trouxe nada de bom.
R. Lênin sustentou que a guerra era boa porque traria a revolução. Duvido que agora uma guerra contribuísse para nada. Minha afirmação era específica para os EUA, não para outros casos. Agora estão acontecendo coisas cruciais no Partido Democrata, surgem os novos democratas de esquerda. Isso não teria ocorrido sem Trump. Foi ele quem rompeu o consenso liberal centrista. As democracias são homogêneas e funcionam muito bem; todas as lutas se dão compartilhando um pano de fundo de valores e procedimentos. Por isso, quando a direita chegou pela primeira vez ao poder na Suécia, manteve o sistema social-democrata. Republicanos e democratas também compartilhavam muitas coisas. Agora esse pacto está se quebrando.
P. Enquanto isso, muita gente sofre mais com Trump do que sem ele. Essa suposta boa notícia custa caro a cidadãos concretos.
R. Sim, mas não idealize o estado das coisas antes de Trump. O que o levou a poder? O abandono das classes média e baixa. Este processo já existia antes. Não culpe Trump de tudo. De onde ele chegou? Da lua?
P. Pelo contrário, a reforma da saúde de Obama protegia a classe média-baixa.
R. Concordo que o sinal de Trump pode ser extremamente perigoso. Os EUA atravessam um estado de guerra civil fria interna. As correntes políticas não falam a mesma língua. Não são capazes de pactuar. Isso não durará. É preciso partir para outro consenso, que será mais radical, algo mais à esquerda. Já ocorre com [o ex-pré-candidato democrata Bernie] Sanders e seus seguidores. Ou com o milagre de Jeremy Corbyn [líder trabalhista britânico].





“Eu defenderia certa abertura [das fronteiras à imigração]. Mas com condições.”

P. Que milagre! Não é um arauto do futuro, e sim do passado.
R. Eu o entendo, nem sequer tem grandes ideias. Mas é um milagre no sentido de que ninguém o teria previsto há 10 anos. Vivemos uma época estranha. Muitas sociais-democracias eram mais radicais há meio século que os Sanders e Corbyns de hoje.
P. Você sustenta que os problemas da imigração não são só culpa nossa, mas também da própria imigração.
R. Por ter dito isto, sabe quantos esquerdistas já me tacharam de neofascista? O grande erro da esquerda não é pensar que não há problemas, mas sim que o único culpado é o nosso racismo, que nosso colonialismo provocou a desgraça em todo o mundo, e portanto, haja o que houver, somos culpados. Que não somos bastante abertos para integrar os imigrantes. Por que supomos que querem se integrar? Muitos não querem, preferem manter seu estilo de vida. Não formam um grupo único. Na Alemanha muitos jovens se tornam mais radicais que seus pais.
P. Então é preciso fechar fronteiras?










Slavoj Zizek.
Slavoj Zizek. ANTONIO OLMOS / EYEVINE / CONTACTO


R. Não. Eu defenderia certa abertura. Mas com condições. Primeiro, moralizar o problema de aceitar ou não os imigrantes é errado. Devemos pensar de uma maneira mais estratégica: por que eles vêm? Repensemos nossa política na Síria,Iraque, Líbia, Iêmen. Eles vêm. Fazem parte do problema do mau funcionamento do capitalismo atual. Não é só um problema moral. E sim econômico. Segundo, assumamos que há um conflito entre estilos de vida. Deveríamos admitir que há um crescimento do fundamentalismo em todo o mundo. Que explode como reação ao progresso ocidental nos direitos dos homossexuais, dos transexuais…
P. Também vêm por causas políticas, são atraídos pela liberdade europeia.
R. Isso já é mais problemático.
P. Fogem da guerra, então vêm pela liberdade.
R. Em princípio, sim. Concordo… Mas o que você quer dizer com liberdade? Nossa liberdade?





“É fundamental para a Europa continuar unida como União Europeia, com todas suas imperfeições.”

P. Sim. Falar com liberdade, publicar como você publica…
R. Estou de acordo, só me pergunto se a maioria… Você idealiza a situação. A maioria das pessoas que vêm, refugiados pobres, se preocupa é com a segurança e a fome, mas me pergunto até que ponto vêm pela liberdade em nosso sentido ocidental.
P. Muitos querem se beneficiar do direito de asilo, consagrado na lei internacional. Onde colocar os limites entre refugiados econômicos e políticos?
R. Meu argumento contrário é este: por que só falamos dos nossos limites, se vivemos em um mundo global? O que é preciso mudar nele? O erro é que já somos cúmplices da sua criação. Veja a Líbia. Ficamos incomodados com a maneira pela qual derrocamos Gadafi. Ou com o Congo e outros países africanos. Podem ser um caos, mas estão totalmente integrados no capitalismo mundial. Onde estabelecemos o padrão para a coexistência multicultural? O multiculturalismo é uma noção complicada. O primeiro padrão é a tolerância às outras culturas. Não deveríamos apenas tolerá-los, eles também deveriam nos tolerar incondicionalmente. E perante um conflito em sua comunidade? Não me preocupa que as muçulmanas se cubram. Mas sim que obriguem uma garota a se cobrir se ela não quiser. É uma vítima por falta de liberdade individual. Devemos protegê-la.
P. Porque afinal de contas os direitos humanos são uma ideologia válida em todo o mundo.
R. Aqui começam os problemas. Vão nos dizer: “Vocês impõem seu colonialismo”. Vão nos culpar por os direitos humanos europeus darem muita preferência ao indivíduo, que eles têm direitos coletivos. Os muçulmanos querem que respeitemos seu estilo de vida. Podem inclusive respeitar um cristão. Mas não respeitam gente como eu, que sou ateu.
P. As liberdades e o Estado de bem-estar continuam tendo um imenso poder de atração.
R. Aceitemos que as pessoas vêm para cá porque, apesar de toda a corrupção, continuamos oferecendo ao mundo aquele que talvez seja o grande modelo de bem-estar relativo, um único modelo que combina bem-estar e liberdade, o melhor até agora na história mundial. Portanto, deveríamos estar orgulhosos do nosso destino europeu. O fantástico da nossa tradição democrática é que a imperfeição está dentro do sistema, faz parte da capacidade da nossa democracia de ser crítica consigo mesma. É um sistema único, que inclui a autocrítica.
P. Existe algo assim como um capitalismo global?
R. Não no âmbito político. Existe como mercado mundial.





“Os muçulmanos podem respeitar um cristão, mas não respeitam gente como eu, que sou ateu.”

P. O mercado não é o capitalismo. Há muitas formas de capitalismo.
R. E coexistem. A questão é qual forma de capitalismo está se tornando predominante. O capitalismo social-democrata, com Estado do bem-estar, está ameaçado. Dizem que o comunismo não funcionou. Mas olhe o que aconteceu na China no último meio século. Houve alguma vez na história da humanidade um desenvolvimento econômico tão explosivo? É impressionante. A figura que anunciou nossa época foi Lee Kuan Yew, o falecido líder de Singapura. Ele criou a fórmula do autoritarismo “com valores asiáticos”. A China demonstra, em nível maciço, que isso funciona. O capitalismo chinês é o capitalismo sob o domínio de um partido autoritário. É uma nova combinação de capitalismo mundial em que o país participa do mercado global, mas ideologicamente funciona para dentro de uma maneira patriótica, etnocêntrica.
P. Inquietante.
R. O que me preocupa é que a Europa está perdendo. Por isso apoio o recente chamado de Emmanuel Macron e Merkel para criar um Exército europeu. É fundamental para a Europa continuar unida como União Europeia, com todas suas imperfeições e com sua corrupção. Trump e Putin trabalham sistematicamente para desunir a Europa. Esse é o seu objetivo. Putin, de uma maneira muito perversa, estava a favor da secessão da Catalunha. Ou do Brexit. Foi muito hipócrita. Sempre que a unidade europeia mostra problemas…
P. Sim, e tem problemas econômicos com a China, reduz sua demanda por causa das medidas protecionistas dos EUA.
R. A chave é o novo desenvolvimento dos carros elétricos. O temor é de que a China tente desenvolver esse tipo de carros. Pois não é mais apenas a linha de montagem da economia mundial, ela desenvolve sua própria economia. Os esquerdistas tradicionais odeiam duas coisas da ordem mundial atual: o livre mercado, louco, com seu caos, e os Estados autoritários. A China reúne ambas as coisas. Agora instaura o medo. Os dissidentes são marxistas, estudantes que estudam o marxismo e propõem organizar os trabalhadores, tão explorados por lá. Isto é o pior que você pode fazer na China hoje: proteger os direitos dos trabalhadores. [Esses ativistas] ficam “desaparecidos” durante 15 dias.


UM PROVOCADOR PROFISSIONAL


Zizek quis ser diretor de cinema. Incorpora essa paixão a todos os seus livros, infestados de filmes como parábolas. E ocupa muitas tardes como frequentador nas salas de exibição de Liubliana. Mas não considerou ter talento suficiente para a sétima arte. Optou por seu segundo amor, a filosofia. E agradece “a opressão comunista” por não ter encontrado emprego durante anos. Só bicos como tradutor e tarefas menores, para acabar num pequeno instituto de pesquisas. “Por isso sou totalmente livre para pesquisar, não como um professor de aldeia.”
Isso o catapulta a confrontar “os novos desafios”, que resume na luta ecológica, na renovação do Estado do bem-estar e na “digitalização direta do cérebro humano”,mediante a qual o computador “detecta o que você pensa” e deixa o indivíduo vulnerável a qualquer dominação sofisticada. “Não defendo o velho comunismo de maneira nenhuma”, esquiva-se, e sim um novo comunitarismo globalista, porque “nosso cérebro é nossa herança comum”.
Reconhece ser um provocador profissional, para incomodar o público e fazê-lo reagir. Considera que as pessoas estão “dopadas, adormecidas”, e que é preciso “despertá-las”. De modo que “a medida da liberdade de expressão é o direito de dizer às pessoas o que elas não querem ouvir”. Sobretudo à esquerda com a qual se sintoniza, e aquela da qual discorda. As liberdades ocidentais, argumenta, “podem ser falsas, mas as stalinistas não eram nem sequer falsas”; ou então: “Não acredito nisso de escutar as pessoas comuns, como diz [o dirigente esquerdista espanhol] Pablo Iglesias, porque as pessoas comuns estão presas à ideologia, são a favor de expulsar os imigrantes”.
Respeita Marx, pretende se comunicar com suas perguntas fundacionais, e ri de quem o tacha de “leninista louco”: “Minhas ideias”, diz, “são hegelianas”. Seu enfoque radica em centrar-se no que pode dar errado, e depois se perguntar até que ponto era necessário que fosse assim. “Por exemplo”, embora admire o vice-presidente da Bolívia, Álvaro García-Linera, tem “a honra de não ter sido enganado por Hugo Chávez”. Zizek advertiu durante anos que o militar acabaria mal, porque “não via o novo” e era só “um Fidel com dinheiro, que não resolvia os problemas, jogava dinheiro nos problemas”.
De modo que o pensamento crítico “dói” e “traz más notícias”. Mas sempre “é preciso provocar”. Embora, quando profetize males maiores, seja tão retumbante que fica difícil adivinhar-lhe a intenção provocadora. Assim, inquieta-se ao máximo com o “extraordinário progresso que a indústria do armamento está registrando”, por seu cruzamento com a civilização digital. Estamos nos encaminhando para “uma guerra digital, cognitiva”, que “influirá nos cérebros”.
A China pode ser o paradigma da nova tensão. Como está há décadas sem experimentar seu armamento sobre o terreno, diferentemente dos EUA, “precisa testá-lo, e a melhor forma de fazer isso é com uma guerra”. É “a situação mais perigosa”, explicita.
EL PAÍS