A relação entre pais e filhos na Inglaterra da década de 50 era muito formal. Eric Ernest Hitchens e seu filho, Christopher, não fugiam à regra. Avesso a conversas, Eric era um homem comum, que trabalhou por décadas na Marinha britânica, apegado à estabilidade e nada contestador. Totalmente diferente do filho. Christopher Hitchens é um dos mais sagazes colunistas do jornalismo americano. Contribui para as revistas Vanity Fair e Slate (esta, online), e seus textos são republicados quinzenalmente por ÉPOCA. Em 1978, ele lidou com a morte do pai, acometido por um ataque cardíaco pouco tempo depois de saber que sofria de câncer no esôfago. Em junho, Hitchens descobriu ter a mesma doença do pai. Para fazer as sessões de quimioterapia, teve de cancelar o tour que faria para promover sua autobiografia, Hitch-22, a memoir (Hitch-22, memórias, Twelve Books, 435 páginas, sem previsão de lançamento no Brasil). Uma relativa ironia, porque Hitchens dá mais destaque no livro às contribuições para sua formação intelectual, sem se apegar muito a questões pessoais.
O gosto pela contestação permeia o livro, a começar pelo título. Trata-se de uma referência à obra Catch-22, escrita em 1961 por Joseph Heller, em que o autor faz uma sátira à burocracia militar americana na Segunda Guerra Mundial. Nos Estados Unidos, “catch-22” tornou-se uma expressão para designar situações de difícil solução. Algo adequado para o modo de vida cético que Hitchens passou a ter com as frustrações ideológicas. Aos 15 anos, ele começou a demonstrar interesse por causas sociais – o que culminou na sua adesão à Internacional Socialista. Ele se via como um cara à frente do seu tempo, “uma daquelas pessoas da década de 60 com cara de década de 80”. “Eu vendia exemplares do 'Trabalhador Socialista', fazia grafite pró-vietcongs, discutia com os sociais-democratas, comunistas ou antitrotskistas”. Ao mesmo tempo, porém, sua racionalidade não o cegava. Ele sempre foi um crítico dos exageros do comunismo. A primeira grande decepção se deu em uma visita a Cuba, onde viu e viveu um regime totalitário que, segundo ele, controlava até seus horários para sair do hotel.
Nos anos 80, Hitchens se muda para os EUA. Primeiramente, Washington. Depois, Nova York, que o fascina. “Como uma sociedade podia ser conservadora, liberal e revolucionária ao mesmo tempo?”. No fim daquela década, ele assiste à falência dos regimes comunistas, o que o torna ainda mais ácido sobre modelos políticos autoritários. Talvez a mudança de opinião mais radical tenha sido sobre o Iraque. Em sua juventude, na década de 70, Hitchens achava que Saddam Hussein se tornaria um socialista e traria progresso aos iraquianos. Trinta anos depois, para surpresa de muitos colegas, ele estava apoiando a guerra do Iraque, conduzida pelo ex-presidente George W. Bush com o argumento nunca provado de que Saddam tinha armas de destruição em massa. Durante visita ao país, em 2003, Hitchens diz ter ouvido de iraquianos que “sem o senhor Bush muitos deles já estariam mortos”. Mas seu aval à guerra causou uma perda humana, contada com detalhes em Hitch-22.
Mark Daily, um jovem californiano de 23 anos, casou-se pouco tempo antes de ser enviado ao Iraque, onde ele morreu na explosão de uma granada, em janeiro de 2007. Até aí, nada demais. O que colocou Daily na vida de Hitchens, sem ele nem saber, foram seus próprios textos. Daily era contrário à guerra. Por meio de uma reportagem do jornal Los Angeles Times, Hitchens descobriu que a maneira como ele defendia e justificava a guerra no Iraque foi determinante para fazer Daily se alistar. O jovem contou à família que pretendia ser uma espécie de correspondente para Hitchens diretamente do front, mas o soldado, uma vez na guerra, não conseguiu contato com o autor. “Tanto lixo chega diariamente à minha caixa de emails, mas esse importante contato não me alcançou”, diz Hitchens. Quando teve conhecimento do caso, ele procurou a família de Daily, que o apresentou à história. Ele não se sentiu culpado, mas se deu conta da influência de suas opiniões.
Alguns capítulos de Hitch-22 são dedicados a amigos de Hitchens que o influenciaram de alguma maneira. Um deles é James Fenton, poeta inglês, que dividiu casa com Hitchens em Oxford. Fenton foi o responsável por introduzir Hitchens nos vícios do cigarro e do álcool – sobre os quais ele evita falar durante o livro, embora assuma exageros. Fenton também ajudou Hitchens no começo de sua carreira como jornalista em Londres. Outro amigo antigo contemplado é o ensaísta britânico Martin Amis, de quem admira o sucesso com as mulheres. Foi Amis quem apresentou Hitchens a Margaret Thatcher, a Dama de Ferro. Ele a considerou “surpreendentemente sexy”. Em resposta, foi chamado de “garoto safado”. Com Salman Rushdie, autor dos Versos Satânicos – polêmico livro que provocou uma reação irada de líderes muçulmanos –, Hitchens compartilha opiniões contra o colonialismo.
Nos poucos momentos em que fala da vida pessoal, Hitchens é sucinto. Narra rapidamente um relacionamento homossexual que teve com um garoto de sua idade, no colégio. Eles trocavam poemas e ficavam juntos, mas foram descobertos e obrigados a se afastar. Hitchens diz que a proibição o “matava”. Sobre a religião, também poucas palavras. Hitchens é ateu convicto (ele é autor do livro Deus Não é Grande) e nunca teve a religião como um assunto marcante dentro de casa. Sua mãe, Yvonne, a quem Hitchens agradece pelo interesse intelectual despertado nele, era judia, mas manteve isso em segredo até a morte, temendo as dificuldades que Hitchens e seu irmão, Peter, poderiam encontrar por serem de uma família. Ambos só souberam mais de dez anos depois de Yvonne morrer, por meio de uma tia. Hitchens classifica a religião como uma forma de imposição, pelo mais forte, de medo e amor. Logo, rezar pela saúde de alguém que não acredita em oração seria um grande paradoxo. O jornalista americano Jeffrey Goldberg, amigo de Hitchens, tocou justamente nesse assunto em um artigo no site da revista The Atlantic, com uma pergunta irônica. “Devemos orar por ele?”. Na semana passada, Goldberg entrevistou Hitchens, já bastante abatido pelo tratamento do câncer. Perguntou se ele se importava com as orações. “Não”. Mesmo que isso não mude nada, emendou Hitchens.
São raros os intelectuais públicos sem amarras ideológicas, livres-pensadores guiados por uma bússola moral própria. Um deles se foi na última quinta-feira, dia 15, aos 62 anos. Radicado nos Estados Unidos, o jornalista e ensaísta britânico Christopher Hitchens morreu de pneumonia, provocada por uma complicação do câncer de esôfago contra o qual lutava desde 2010.
Colaborador das revistas americanas The Atlantic, Vanity Fair e Slate e colunista de ÉPOCA, Hitchens foi um intelectual franco-atirador. Dois de seus principais inimigos se encontram em polos opostos da política americana: Henry Kissinger e Bill Clinton. O primeiro, ex-secretário de Estado americano, mereceu um livro sobre seus “crimes de guerra”. Em O julgamento de Kissinger, Hitchens o chama de “mentiroso, assassino e pseudoacadêmico”. Contra Bill Clinton, seu contemporâneo na Universidade de Oxford, onde estudou filosofia, política e economia, as acusações são do mesmo calibre: “Clinton (...) é um testa-de-ferro subserviente de todo tipo de interesses corporativos”, escreveu Hitchens em sua autobiografia, Hitch 22.
A batalha mais notória de Hitchens, porém, foi contra Deus. Seu pai era cristão. Sua mãe escondeu da família até a morte que era judia. Ele era ateu convicto. No livro Deus não é grande(2007), ataca de forma erudita o fanatismo e o obscurantismo religiosos. As discrepâncias entre o discurso e os atos de líderes religiosos sempre serviram de argumento para suas críticas. Sobre o Dalai-Lama, prêmio Nobel da Paz em 1989, dizia que dominava de forma tirânica o povo tibetano. Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), Nobel da Paz em 1979, foi chamada por Hitchens de “fraude católica”.
Em meio à agitação dos anos 1960, Hitchens se juntou a uma turma de promissores futuros intelectuais, entre eles os escritores Martin Amis, Ian McEwan, Julian Barnes e James Fenton. Aderiu ao trotskismo por ser contra a tirania totalitária de Stálin. Mas gradualmente migrou para a direita. “Troquei as ilusórias e contraproducentes utopias da juventude pela sofrida e realista sabedoria da meia-idade”, disse certa vez. No auge dessa metamorfose, tornou-se um dos maiores defensores da invasão do Iraque por George W. Bush.
A vida pessoal de Hitchens foi tão conturbada quanto a pública. Sua mãe se suicidou depois de fazer um pacto de morte com o amante. A relação com o pai, Eric, um rigoroso oficial da Marinha, era péssima – ironicamente, Hitchens morreu da mesma doença que ele. Foi casado duas vezes, teve três filhos e inúmeros casos amorosos com ambos os sexos. Tão folclóricos quanto seus romances eram os porres, interrompidos apenas com o diagnóstico do câncer. Em sua última aparição pública, disse que não se arrependia da vida regada a cigarros e bebedeiras. E arrancou aplausos com a seguinte frase: “Eu não vou desistir até que seja forçado a isso”.
Com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguia “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu
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Como tantas das experiências da vida, a novidade do diagnóstico de um câncer maligno tende a se dissipar. As coisas começam a ficar tediosas, até mesmo banais. É possível se acostumar ao espectro da morte como um velho entediado e letal, espreitando no corredor no final da noite, esperando uma oportunidade de me abordar. E não me oponho a ele segurar meu casaco daquele modo formal, como que me lembrando que é hora de seguir caminho. Não, é o risinho abafado que me deprime.
Christopher Hitchens
(1949-2011) foi um jornalista britânico. Colaborador da revista Vanity Fair, do site Slate e colunista de ÉPOCA, consagrou-se como um dos maiores polemistas de seu tempo. Este texto faz parte do livro Últimas palavras (Globo Livros), em que o autor narra sua luta contra um câncer no esôfago
Com demasiada regularidade, a doença me serve um atrativo especial do dia, ou um sabor do mês. Podem ser feridas e úlceras aleatórias, na língua ou na boca. Por que não um toque de neuropatia periférica envolvendo pés dormentes e frios? A existência diária se torna uma coisa de bebê, medida não nas colheres de café do Prufrock de T.S. Elliot, mas em pequenas doses de alimento, acompanhadas de barulhos encorajadores dos espectadores ou de discussões solenes e em tom maternal com estranhos sobre as operações do sistema digestivo. Nos dias menos bons, me sinto como aquele leitão de perna de pau da família sadicamente sentimental, que só consegue comê-lo um pedaço de cada vez. Com a diferença de que o câncer não é tão... atencioso.
O mais desalentador e alarmante, até agora, foi o momento em que minha voz de repente se transformou num agudo guincho infantil (ou talvez suíno). Ela, então, começou a variar bastante, de um sussurro rouco e rascante até um balido frágil e melancólico. Em certos momentos ameaçava, e agora ameaça todos os dias, desaparecer completamente. Eu tinha acabado de voltar de duas palestras na Califórnia, onde, com a ajuda de morfina e adrenalina, ainda conseguira “projetar” com sucesso minhas falas, até que fiz uma tentativa de chamar um táxi na frente de casa – e nada aconteceu. Fiquei de pé, paralisado, como um gato bobo que, de repente, perdeu seu miado. Eu costumava ser capaz de deter um táxi nova-iorquino a trinta passos de distância. Conseguia também, sem microfone, alcançar a última fila e a galeria de uma lotada sala de conferências. Pode não ser algo de que se vangloriar, mas as pessoas me diziam que, mesmo na sala ao lado, com o rádio ou o televisor ligados, elas sempre conseguiam identificar meu tom e saber que eu estava “no ar”.
Como a própria saúde, tal perda não pode ser imaginada até que acontece. Assim como todo mundo, brinquei de versões do jogo juvenil “o que você preferiria?”, no qual normalmente se debatia se o mais opressivo seria a cegueira ou a surdez. Não me lembro de ter especulado muito sobre de repente ficar mudo. A privação da capacidade de falar é mais como um ataque de impotência, ou a amputação de parte da personalidade. Em grande medida, em público e em particular, eu “era” minha voz. Todos os rituais e a etiqueta da conversa – desde pigarrear nos preparativos para contar uma piada longa e exigente até (nos dias de juven-tude) tentar tornar minhas propostas mais persuasivas, enquanto eu estrategicamente baixava o tom em uma oitava de constrangimento – eram inatos e essenciais para mim. Nunca fui capaz de cantar, mas podia recitar poesia e citar prosa, e algumas vezes era até mesmo convidado a fazê-lo. Timing é tudo na fala: há o momento preciso para arrematar uma história, para enfatizar um verso, para produzir riso ou para ridicularizar um oponente. Eu vivia para momentos assim. Agora, quando quero entrar numa conversa, tenho de chamar a atenção de outra forma, e suportar o fato terrível de que as pessoas então me escutarão “com compaixão”. Pelo menos, elas não precisam emprestar sua atenção por muito tempo: não consigo mantê-la e, de qualquer forma, não aguentaria fazê lo.
Quando você fica doente, as pessoas lhe dão CDs. Pela minha experiência, com frequência são de Leonard Cohen. Recentemente aprendi uma canção, intitulada “If it be your will”. É um pouquinho piegas, mas belamente interpretada. Começa assim: “If it be your will/that I speak no more/and my voice be still/as it was before...” (Se for seu desejo/que eu não fale mais/e minha voz ainda seja/como foi antes...). Acho melhor não ouvir isso tarde da noite. Leonard Cohen é inimaginável sem, e indissociável de, sua voz. (Duvido que quisesse, ou suportasse, ouvir essa canção com qualquer outro intérprete.) Digo a mim mesmo que, de certa forma, conseguiria me arrastar, me comunicando apenas por escrito. Mas só por causa de minha idade. Caso tivesse sido privado de minha voz antes, duvido que teria conseguido progredir no papel. Tenho uma enorme dívida para com Simon Hoggart, do Guardian, que, há trinta e cinco anos, me advertiu que um artigo meu era bem concebido mas tedioso – e me aconselhou rispidamente a escrever “mais do modo como você fala”. Na época, fiquei quase sem palavras com a acusação de ser tedioso. Jamais agradeci adequadamente.
Mais tarde, ao dar minhas aulas de redação, começava dizendo que qualquer um capaz de falar também pode escrever. Depois de animar a turma com essa escada fácil, então a substituía por uma enorme cobra odiosa: “Quantas pessoas nesta turma vocês diriam que sabem falar? Quero dizer, falar de verdade?”. Tinha um efeito deprimente. Eu dizia a eles para ler seus textos em voz alta, preferencialmente para um amigo de confiança. As regras são quase as mesmas: fuja das frases feitas (como da peste, costumava dizer William Safire) e das repetições. Não diga que “quando garoto, sua avó costumava ler para você”, a não ser que, naquele estágio da vida, ela realmente tivesse sido um garoto, circunstância que, de qualquer forma, provavelmente exigiria de você uma introdução melhor. Se algo merece ser escutado, muito provavelmente merece ser lido. Então, descubra sua própria voz.
O cumprimento mais prazeroso que um leitor pode me fazer é dizer que sente que me dirijo a ele. Pense em seus autores preferidos e veja se essa não é uma das coisas que o cativam, sem que você tenha percebido. Uma boa conversa é o único equivalente humano: é quando você percebe que observações decentes são feitas e compreendidas, que há ironia envolvida, e elaboração, que um comentário tedioso ou óbvio seria quase fisicamente doloroso. Foi como a filosofia evoluiu nos simpósios, antes de ser escrita. A poesia começou com a voz como único instrumento de execução, e o ouvido, de registro. Não conheço nenhum escritor realmente bom que fosse surdo. Henry James e Joseph Conrad ditaram seus romances tardios, e Saul Bellow ditou muito de Humboldt’s Gift. Sem nossa correspondente compreensão do idioleto – a marca no modo como alguém fala e, portanto, escreve –, seríamos privados de um mundo de simpatia humana e de seus prazeres em tom menor de imitação e paródias.
De modo mais solene: “Tudo o que tenho é uma voz”, escreveu W.H. Auden em “September 1, 1939”, sua tentativa agoniada de compreender o – e se opor ao – triunfo do mal radical. “Quem pode alcançar o surdo?”, perguntou ele, desesperadamente. “Quem pode falar pelo mudo?” Mais ou menos na mesma época, a judia alemã Nelly Sachs, futura ganhadora do Nobel, descobriu que o surgimento de Hitler a deixara literalmente sem fala: roubara dela sua voz pela total negação de todos os valores. Nosso próprio idioma cotidiano preserva a ideia, embora amenizada: quando uma figura pública morre, os obituários com frequência dizem que ela foi “uma voz” para os não ouvidos.
Da garganta humana também podem emergir terríveis venenos: pranto, monotonia, queixumes, gritos, incitação (“o lixo militante mais vazio”, como Auden definiu no mesmo poema) e mesmo risinhos abafados. É a chance de erguer pequenas vozes serenas contra essa torrente de falatório e ruído, as vozes de perspicácia e contenção. Todas as melhores lembranças de sabedoria e amizade, da Apologia de Sócrates, por Platão, ao Life of Johnson, de James Boswell, vibram com os momentos não ditos, não programados, de interrelação, razão e especulação. É em embates como esse, competindo e se comparando a outros, que se pode esperar descobrir o fugidio e mágico mot juste, a palavra certa. Para mim, lembrar amizade é lembrar conversas que parecia um pecado interromper, aquelas que transformavam o sacrifício do dia seguinte em algo banal. Foi o modo pelo qual Calímaco escolheu lembrar seu amado Heráclito: “Eles me contaram, Heráclito; eles me contaram que você estava morto. Eles me levaram notícias amargas de ouvir, e lágrimas amargas a derramar. Chorei quando lembrei com que frequência você e eu havíamos cansado o sol conversando”. Ele sustenta a imortalidade do amigo na doçura de seus tons: “Ainda estão tuas vozes agradáveis, teus rouxinóis despertos; pois a Morte leva tudo, mas elas, não pode levar.” Talvez meio exaltado demais no verso final...
Na literatura médica, a corda vocal é uma mera “prega”, um pedaço de cartilagem que se esforça para se esticar e tocar sua gêmea, criando efeitos sonoros. Mas sinto que tem de haver uma relação profunda com a palavra “corda”: a vibração ressoante que pode despertar lembranças, produzir música, evocar amor, gerar lágrimas, conduzir multidões à piedade e turbas à paixão. Podemos não ser, como costumávamos nos vangloriar, os únicos animais capazes de falar. Mas somos os únicos que podem usar a comunicação verbal por prazer e diversão, combinando isso com razão e humor para produzir sínteses mais elevadas. Perder essa habilidade é ser privado de uma gama de capacidades: certamente é morrer mais que um pouco.
Meu maior consolo neste ano vivendo moribundo tem sido a presença de amigos. Já não consigo comer ou beber por prazer, então, quando eles se oferecem para vir, é só pela abençoada oportunidade de conversar. Alguns desses camaradas podem facilmente encher um auditório de pagantes ávidos para ouvi-los. São falantes com quem é um privilégio simplesmente estar. Agora eu, pelo menos, posso escutar de graça. Eles podem vir e me ver? Sim, mas só eles falam, eu escuto. Então, agora, todo dia vou para uma sala de espera e vejo as notícias terríveis sobre o Japão na TV a cabo (frequentemente em closed caption, apenas para me torturar), e espero impaciente que uma grande dose de prótons seja disparada para dentro do meu corpo a dois terços da velocidade da luz. O que espero? Se não uma cura, uma remissão. E o que quero de volta? Na mais bela composição de duas das palavras mais simples do idioma, freedom of speech*.
* Liberdade de expressão (literalmente, liberdade de fala)
O grande polemista Christopher Hitchens conta, com a inteligência e a ironia que marcaram a sua obra, como é a vida no mundo novo e muito peculiar no qual são lançadas as pessoas a partir do diagnóstico de um câncer
Por ELIANE BRUM
Li o último (e aqui o último tem um sentido maior) livro do britânico Christopher Hitchens durante um voo de Porto Alegre para São Paulo, na semana passada. Quando acabou, a experiência da leitura tinha dado ao voo curto uma extensão inusitada. Sentada na janela, esperando os outros passageiros desembarcarem, eu me sentia de luto por alguém que nunca vi. Como disse Graydon Carter, editor da Vanity Fair, revista americana na qual Hitchens travou alguns de seus mais ardorosos embates, a capacidade de produzir a certeza de que ele escrevia diretamente para cada um de nós era um de seus trunfos. Em seus artigos, Hitchens ofertava-se por inteiro, com o ímpeto desassombrado e feroz que provocou amores e ódios, fez amigos e inimigos. Sempre parecendo estar muito satisfeito pela chance de enveredar por alguma polêmica cabeluda, ao atacar personagens tão diversos quanto Henry Kissinger e Madre Tereza de Calcutá. Tão destemido para escrever quanto era para beber e fumar. Não é diferente neste Últimas palavras (Globo), livro no qual Hitchens espeta seu olhar afiado na convivência com o câncer que acabaria por matá-lo, aos 62 anos, em 15 de dezembro de 2011. Ao desembarcar do avião e do livro, descobri que estava dolorida. Não apenas pelo que ele tinha vivido, não apenas porque ele tinha morrido, mas por uma razão bem egoísta: já não haveria textos de Christopher Hitchens para ler.
Provocar essa sensação no leitor ao final de um livro no qual narra o fim da própria vida mostra o enorme poder de Christopher Hitchens como escritor. O mais provável, neste tema, seria evocar pena, compaixão e lágrimas. Ou, no caso de seus numerosos opositores, uma sensação de vingança saciada pelo sofrimento ao qual foi submetido – seguido pela morte da qual não pôde escapar.
Hitchens, porém, não permite nem piedade, nem vingança. Ele termina sua vida por escrito com uma inteligência e uma honestidade intelectual tão luminosas que só conseguimos lamentar nossa orfandade de suas letras. Em suas últimas palavras, ele consegue escrever sobre si mesmo com o olhar agudo de quem escreve olhando para um outro – mas sem apartar-se de si. Olha de fora e de dentro – ao mesmo tempo.
Há quem possa se chocar quando ele trata o câncer, talvez a palavra mais intoxicada de sentidos do nosso tempo, com tanta sem-cerimônia. Mas não é desrespeito pela dor, nem a sua nem a do outro. Pelo contrário. Vale a pena perceber o quanto é importante que alguém possa olhar para o câncer que o consome também com ironia, até mesmo com humor – não porque é uma experiência menor, mas justamente porque é grande. E poucos seriam capazes dessa ousadia além de Christopher Hitchens.
Nos 19 meses entre o diagnóstico de câncer no esôfago e a sua morte, muitas foram as apostas sobre quantos dias ou semanas ele demoraria antes de capitular e sucumbir à religião – ele, que foi um dos mais dedicados defensores do ateísmo. Contra todos os prognósticos, Hitchens morreu sem perder a coerência. Como ele mesmo diz, diante da expectativa explícita de seus adversários: “Imaginar que eu descarte os princípios que sustentei por toda a vida na esperança de conseguir favores no último minuto? Espero e confio que nenhuma pessoa séria ficaria impressionada com tal escolha barata. O deus que iria recompensar covardia e desonestidade e punir dúvida irreconciliável está entre os muitos deuses em que não acredito”.
Até o fim, um tipo de cristão – mais comum do que todos nós, religiosos e não religiosos, gostaríamos – atacou-o com ódio. Como nesta “contribuição” pinçada por Hitchens na internet, entre tantas: “Quem mais acha que Christopher Hitchens ter câncer de garganta terminal (sic) foi a vingança de Deus por ele usar sua voz para blasfemá-lo? Ateus gostam de ignorar FATOS. Gostam de agir como se tudo fosse uma ‘coincidência’. Verdade? É apenas ‘coincidência’ (que) de todas as partes do seu corpo Christopher Hitchens tenha conseguido um câncer na única parte de seu corpo que usou para blasfemar? Tá, continuem acreditando nisso, ateus. Ele vai se contorcer de agonia e dor e se reduzir a nada, e depois ter uma horrível morte agonizante, e ENTÃO vem a parte realmente divertida, quando ele é mandado para sempre para o FOGO DO INFERNO, para ser torturado e queimado”.
Hitchens escuta e responde mesmo a estas demonstrações de ódio – para além de qualquer mágoa que pudesse sentir por um outro ser humano desejar-lhe tanta dor pelo simples fato de não compartilhar de suas crenças. Como fará durante todo o livro, ele desnuda cada argumento. A começar por esclarecer o crente vingativo de que blasfemou também com outras partes do seu corpo, não atingidas pelo câncer. Entre várias observações, aponta: “Por que não lançar um raio sobre mim, ou algo similarmente assombroso? A divindade vingativa tem um arsenal tristemente pobre se a única coisa em que consegue pensar é exatamente o câncer que minha idade e ‘estilo de vida’ sugeriam que eu pudesse ter”.
Se Hitchens tivesse abdicado de suas convicções no percurso do morrer, nenhum de nós deveria julgá-lo. Do mesmo modo que jamais devemos julgar alguém que tenha delatado seus companheiros durante uma sessão de tortura. A tortura e a doença letal têm causas e implicações diversas, mas compartilham de uma premissa: são dois momentos cuja dimensão e intensidade só são alcançadas por quem os experimenta – e ninguém pode garantir qual será o seu comportamento antes de ter vivido um ou outro. Podemos apenas desejar manter-nos fiéis aos nossos princípios, mas garantir jamais.
Fico contente, porém, que Hitchens tenha conseguido viver até o fim com tudo o que era. Sua coerência deu vigor a suas últimas palavras. E por causa dela ele tornou-se capaz de escrever sobre a vida no que chamou de “Tumorlândia” – como nomeou o mundo novo e muito peculiar no qual são lançadas as pessoas que descobrem um câncer. Importa menos concordar ou discordar de suas ideias – e importa mais a lucidez com que ele tratou o momento possivelmente mais difícil da vida de um homem. Suas últimas palavras constituem um ensaio valioso sobre o morrer – de câncer, no Ocidente, no início do século 21.
Selecionei aqui algumas de suas observações mais provocativas, para nos ajudar a pensar sobre como lidamos com a doença e a morte:
1 - Manual de etiqueta do câncer
Numa sessão de autógrafos, Hitchens foi abordado por uma mulher com “estilo maternal”. Ela multiplicou o tempo de espera de quem estava atrás na fila ao lhe contar uma história escabrosa, arrematada por um “entendo exatamente o que você está passando”. A partir do episódio, Hitchens começou a pensar na conveniência de um pequeno “Manual de Etiqueta do Câncer”. A obra seria destinada “aos doentes e também aos simpatizantes”.
Hitchens explica: “Meu manual teria de impor deveres a mim, bem como àqueles que falam demais, ou de menos, na tentativa de disfarçar o inevitável constrangimento nas relações diplomáticas entre Tumorlândia e seus vizinhos”. Ele gostaria de lembrar às pessoas, em geral, que não circulava por aí com um enorme broche de lapela no qual estava escrito: “PERGUNTE-ME SOBRE CÂNCER DE ESÔFAGO EM METÁSTASE NO QUARTO ESTÁGIO E APENAS SOBRE ISSO”.
No manual, as pessoas seriam orientadas a contar sua história com mais parcimônia, tenha ela um final triste ou feliz, e a permanecer atentas à possibilidade de a plateia não estar interessada. Na posição de “doente de câncer”, ele também se compromete a não desfiar a série de misérias cotidianas que passaram a fazer parte da sua vida diante de um corriqueiro “como vai?”. A melhor resposta para esta pergunta tão educada quanto banal não seria discorrer longamente sobre o funcionamento bipolar do seu intestino. Para conhecidos e estranhos, ele sugere: “Ainda é cedo para saber”. Para a equipe médica: “Pareço ter um câncer hoje”.
Hitchens também sugere aos muito, muito íntimos, que não se precipitem na abordagem da morte, dizendo coisas como esta: “Imagino que chegue uma hora em que você precisa considerar que tem de partir”. Ao escutar isso de alguém, ele ficou chocado. Estava pensando nisso, sabia disso, mas preferia ser ele a dizer, e não um outro, por mais próximo que fosse. A estas pessoas, ele diz: “Eu me preocupo em encarar os fatos difíceis, obrigado”.
2 - Se conselho fosse bom...
Ao ser assolado por todo tipo de conselho bem-intencionado, Hitchens lembrou de um ensaio no qual a crítica de cinema Pauline Kael descreveu Hollywood como “um lugar onde se pode morrer de encorajamento”. E completa: “Na cidade do tumor você às vezes sente que poderia expirar apenas por conselhos”.
Hitchens foi aconselhado, entre outras coisas, a ingerir essência granulada de caroço de pêssego (“ou seria damasco?”), tomar grandes doses de testosterona, abrir seus chacras para adotar um “estado mental receptivo”, adotar dietas macrobióticas e vegetarianas, congelar-se por criogenia.
Com a ironia habitual, ele apreciou apenas o conselho de uma amiga cheyenne-arapaho, que rabiscou num bilhete algo assim: “Todos os meus conhecidos que apelaram para remédios tribais morreram quase que instantaneamente. Se te oferecerem qualquer remédio nativo americano, mova-se o mais rápido possível na direção oposta”.
3 - Ah, os eufemismos...
Hitchens aponta a tendência da medicina moderna de usar eufemismos ao lidar com pessoas com câncer, dando destaque para a palavra “desconforto”: “Como estamos indo hoje? Algumdesconforto?”. Diz ainda que “uma avenida de eufemismos” foi aberta pela abordagem empresarial: “Já se encontrou com nossa equipe de ‘gestão da dor’?”.
Sobre os eufemismos, ele afirma: “Assim que você ouve isso da forma errada, pode parecer um eco da prática do torturador de mostrar à vítima os instrumentos que serão usados nela, ou descrever a gama de técnicas e deixar que essas ameaças façam a maior parte do trabalho. (Galileu Galilei teria sido exposto a isso enquanto passava pela pressão gradual que acabou convencendo-o a se retratar)”.
Como jornalista, Hitchens submetera-se à tortura do waterboarding (“afogamento simulado”). No pós-11 de Setembro, comprovou-se que a CIA estava usando esse “método de interrogatório” em suspeitos de terrorismo. Diante da reação chocada de parte dos americanos, o governo de George W. Bush convocou especialistas para afirmar que não se tratava de tortura. Ao assumir a presidência, Barack Obama baniu o “procedimento”.
Durante a controvérsia, Hitchens foi afogado em segredo por membros das Forças Especiais, nas montanhas da Carolina do Norte, por vontade própria. Ele queria provar aos leitores da Vanity Fair que não era uma simulação, mas afogamento de fato. A experiência de ser torturado lhe deixou sequelas e, sempre que aspirava algum tipo de umidade, corria o risco de um ataque de pânico. Ao longo do tratamento do câncer, mostrou-se difícil para ele receber alimentação líquida através de um tubo, ou mesmo ser banhado.
Em seu livro, ele diz: “Há práticas médicas e hospitalares cotidianas banais que lembram às pessoas da tortura praticada pelo Estado. (... ) Mesmo a ideia de algumas aplicações malfeitas de água ou gás, com a intenção de hidratar e nebulizar, para combater problemas respiratórios, são mais do que suficientes para me deixar gravemente doente”.
4 - O Cristo crucificado pode não ser uma visão tranquilizadora
A exibição de crucifixos na parede dos quartos de hospital tem sua desaprovação, com base no que chama de “associações sadomasoquistas pregressas”. Hitchens lembra que os condenados nas guerras religiosas e na Inquisição eram submetidos à visão compulsória da cruz até a morte. “Em algumas das pinturas fervorosas dos grandes autos de fé, não excluindo, acho, alguns dos queimados vivos pintados por Goya na Plaza Mayor, vemos a chama e a fumaça se erguendo perto da vítima, e a própria cruz suspensa sinistramente diante de seus olhos fechados.”
5 - “O que não me mata (NÃO) me fortalece”
Hitchens discorda da frase famosa, atribuída ao filósofo alemão Friedrich Nietzsche. Na sua experiência com o câncer, descobriu que aquilo que não o mata o enfraquece – e a fraqueza em geral é cumulativa e tem um final previsível. A partir dessa constatação, ele passou a refletir sobre a obstinação terapêutica dos médicos ou o que tem sido chamado aqui de “tratamentos fúteis”. E faz observações muito interessantes sobre este, que é um dos dilemas contemporâneos: se o avanço tecnológico assegurou vários benefícios à saúde e ampliou as possibilidades da medicina, teve como efeito colateral o prolongamento doloroso e inútil da vida.
Entre os exemplos trazidos por ele, há a extraordinária história do filósofo Sidney Hook, que morreu em 1989, mas gostaria de ter morrido antes. Depois de um angiograma ter provocado nele um derrame, numa experiência extremamente dolorosa, ele descobriu-se “na meca médica de Stanford, na Califórnia” e às voltas com o seguinte paradoxo: tinha à disposição um nível de cuidados sem precedentes na história e, ao mesmo tempo, era exposto a um grau de sofrimento que as gerações anteriores poderiam não ser capazes de suportar.
O filósofo pediu ao médico que suspendesse os mecanismos de sustentação da vida, com base em três argumentos: outro derrame doloroso poderia atingi-lo, obrigando-o a sofrer tudo de novo; sua família estava sendo obrigada a passar por uma experiência infernal; recursos estavam sendo investidos à toa. O médico recusou sua reivindicação, usando a seguinte frase: “Algum dia você perceberá a falta de sentido do seu pedido”. O filósofo cunhou então uma expressão poderosa para explicitar a situação a que a medicina condenava pessoas como ele: viver em “túmulos de colchão”.
Hitchens descobriu que algumas pessoas tinham não mais o desejo de morrer com dignidade, mas o desejo de já ter morrido.
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Estas são algumas das observações feitas por Christopher Hitchens sobre viver com câncer. Progressivamente, escrever foi se tornando uma conquista arrancada com muita dificuldade dos dias e das dores. A certa altura, ele viu sua poderosa voz, com a qual travou debates inesquecíveis, ir minguando, calada à força pelo tumor. Descobriu então – e este é um dos momentos mais belos do livro – que não tinha uma voz, era uma voz. Assim como não possuía um corpo, era um corpo. Do mesmo modo que não somente escrevia, mas era palavra escrita. “Escrever não é a apenas a minha forma de vida e de ganhar a vida, mas minha própria vida. (...) Sinto minha personalidade e minha identidade se dissolvendo enquanto contemplo mãos mortas e a perda das correias de transmissão que me ligam à escrita e ao pensamento.”
Christopher Hitchens morreu sendo por inteiro, mesmo que literalmente estivesse aos pedaços. A prova é que, como último ato de vida, ele escolheu pensar sobre a morte.