O ator Stellan Skarsgård recebendo o Globo e Ouro: agradeceu a sua família, como de praxe, mas destacou algo mais raro: a alegria de ver um filme norueguês, independente e sem orçamento para publicidade alcançar o público daquela maneira e, sobretudo, ser visto no cinema, segundo ele, uma espécie em extinção. E concluiu com uma imagem simples e perfeita: num cinema, quando as luzes se apagam e eventualmente você divide o braço da cadeira com outra pessoa, isto é magia! Cinema deve ser visto no cinema
Lugar de cinema é no cinema
A sala de cinema como espaço mágico e coletivo
Luiz Felipe barreto
28 JUNHO 2026
Ao subir ao palco do Globo de Ouro para receber o prémio pelo seu desempenho em Valor Sentimental(Sentimental Value - 2025), o ator Stellan Skarsgård proferiu um dos mais belos discursos das últimas temporadas de premiações. Agradeceu a sua família, como de praxe, mas destacou algo mais raro: a alegria de ver um filme norueguês, independente e sem orçamento para publicidade alcançar o público daquela maneira e, sobretudo, ser visto no cinema, segundo ele, uma espécie em extinção. E concluiu com uma imagem simples e perfeita: num cinema, quando as luzes se apagam e eventualmente você divide o braço da cadeira com outra pessoa, isto é magia! Cinema deve ser visto no cinema.
Somos transportados para a vida da família protagonista desse drama e levados a compartilhar o desenrolar de uma tragédia íntima de proporções desumanas
Hamnet, da realizadora Chloé Zhao, é um filme que nos dá uma pista para responder a uma pergunta filosófica recorrente. Qual o sentido da Arte? Por que a Arte é necessária?
Nuremberg é um filme de ficção, baseado no livro O Nazista e o Psiquiatra de Jack El-Hai que narra a história do psiquiatra Dr. Douglas M. Kelley, convocado pelas forças aliadas para avaliar a saúde mental dos prisioneiros nazistas e assegurar que eles estivessem aptos a enfrentar o julgamento
Nuremberg: um filme necessário
Cinema, verdade e responsabilidade: a evolução do cinema de guerra
Assisti recentemente ao filme Nuremberg, que retrata o famoso julgamento por um tribunal internacional de líderes nazistas capturados ao fim da Segunda Guerra Mundial, tendo como fio condutor a relação entre um jovem psiquiatra e o “Reichsmarschall” Hermann Göring, braço direito e provável sucessor de Adolf Hitler. Göring entregou-se às forças de ocupação aliadas após a derrota da Alemanha, foi preso e levado a julgamento pelos crimes de guerra, junto com outros altos oficiais nazistas.
Em seis dias, o filme já conquistou a quinta maior bilheteria de estreia da história (Reprodução)
Pantera Negra: uma mensagem de diversidade
Pedro Fonseca E. Silva
Há 10 anos, a Marvel Studios iniciou um projeto ousado que renderia bilhões nas bilheterias mundiais com o filme Homem de Ferro (2008). Desde então, a empresa já conta com mais de uma dezena de filmes sobre super-heróis, conquistando um espaço único para si com sua famosa “Fórmula Marvel”. Enquanto muitos esperam a consagração de toda essa jornada com Vingadores: Guerra Infinita, recebemos um presente antecipado com a estreia de Pantera Negra, que traz consigo um ar revigorante para as adaptações de quadrinhos.
Após a morte do rei de Wakanda, T’Chaka, o príncipe T’Challa deve voltar ao seu país e assumir oficialmente o trono como Pantera Negra, defensor de Wakanda. O novo rei terá que batalhar para provar ao seu povo que é digno de liderar o país mais avançado da Terra, que há muito exilou-se do resto do mundo, ao mesmo tempo em que enfrenta algumas figuras do passado de Wakanda.
Pantera Negra não é o primeiro herói dos quadrinhos a atuar no continente africano. Antepassados como o Fantasma, personagem da década de 20, ou mesmo um nome mais conhecido como Tarzan são situados na África. Porém, T’Challa é um personagem genuinamente africano, e esse fato emblemático trouxe peso simbólico ao filme. Para realizar essa empreitada, a produção reuniu um elenco predominantemente negro com nomes como Chadwick Boseman, Michel B. Jordan, Lupita Nyong’o e Daniel Kaluuya. Com direção de Ryan Coogler (Creed (2015)), a obra possui também uma trilha sonora com faixas inéditas do rapperKendrick Lamar que conferem um ritmo moderno e intenso à história.
Os inimigos Killmonger e Pantera Negra. O antagonista foi inspirado em Cidade de Deus (Reprodução)
Todo esse esforço para montar um grupo de peso provou-se digno logo nos primeiros minutos de filme. Como esperado, todos foram capazes de executar perfeitamente seus papéis e, assim, criar o vínculo necessário com o público. Em meio a todas essas grandes personalidades, o jovem astro Michael B. Jordan e seu personagem, Killmonger, toma para si o destaque.
O ator está acostumado com o universo dos super-heróis: ele já atuou como Tocha Humana no remakeQuarteto Fantástico (2015) e emprestou a voz para o herói Cyborg na animação Justice League: The Flashpoint Paradox (2013). Mas é como antagonista que ele finalmente alcança seu ápice e consegue construir o vilão mais completo do universo Marvel. Killmonger atua como o contraponto de T’Challa, representando a visão de quem teve que conviver com todo o preconceito do mundo sem nenhuma proteção e agora deseja alterar essa realidade da maneira que puder. O ator consegue equilibrar muito bem o desejo inocente de um jovem com a visão de um homem corrompido. É através da disputa de visões entre Killmonger e T’Challa que se dá o maior embate do filme.
O longa inspirou campanhas para levar crianças de comunidades negras ao cinema (Reprodução)
A produção é a segunda da Marvel a apresentar um super-herói negro como protagonista – a primeira foi a trilogia Blade, o Caçador de Vampiros (1998-2004) . Tal empreitada traz consigo uma enorme responsabilidade por representar a cultura de um povo que sofreu por séculos com um processo de escravização e preconceito que permanece enraizado até hoje na sociedade. Em tempos nos quais visões preconceituosas marcham nas ruas protestando por um mundo desigual e grandes líderes mostram-se complacentes a todo esse absurdo também é justo que se faça uma alusão ao papel da política nesse cenário.
Essa alusão vem representada no papel de Chadwick Boseman, o rei T’Challa. Recém-empossado como monarca de Wakanda, o país mais desenvolvido do mundo, ele deve decidir entre manter-se preso a uma visão isolacionista e conservadora ou lutar pelo desejo de um mundo integrado e pacífico.
Okoye, Nakia e Ayo (Florence Kasumba). Okoye e Nakia se contrapõem (Reprodução)
Com esse debate em pauta é preciso novamente elogiar a tomada de escolha do elenco, pois através dela foi possível abrir uma brecha para tocar em outro ponto fundamental: a força da mulher na sociedade. A escolha de um elenco repleto de grandes atrizes tornou possível representar um núcleo de personagens femininas que cercam o trono de Wakanda e que por vezes trazem pautas e tomadas de decisões mais importantes do que o próprio protagonista. Elas atuam como líderes, rainhas, cientistas e guerreiras.
Um ótimo exemplo são as personagens de Nakia (Lupita Nyong’o), amiga de infância de T’Challa, e Okoye (Danai Gurira), a líder das defensoras do rei, as Dora Milaje. Em um conflito semelhante ao de T’Challa e Killmonger, as duas mulheres representam pontos de vista distintos: Nakia anseia pela mudança em um país cercado pelo conservadorismo enquanto Okoye luta para se manter fiel à postura que sempre guiou e protegeu seu reino.
Mesmo com tantos pontos positivos, o filme peca ao executar algumas de suas principais promessas. Em parte, o roteiro do filme se mostra clichê na clássica “jornada do rei” que muito lembra a trama de O Rei Leão (1994). Além disso, a publicidade do filme apontava um maior destaque para a cultura africana em cenas com os habitantes de Wakanda, representados por uma variedade de vestimentas e cores. Porém, a falta de segurança do diretor com os efeitos de computação gráfica e a necessidade de contar parte da história com ambientação em outros países impediram que ele explorasse ao máximo o país fictício e fez com que se limitasse ao arco da família real.
Imperfeito, porém único – essa é a melhor maneira para descrever o novo longa da Marvel Studios. A obra de Ryan Coogler pode não ter conseguido explorar todo o potencial do personagem, mas foi a primeira a apresentar um tom mais sério e fugir da velha “Fórmula Marvel”. Abordando temas sintonizados à atualidade, o filme construiu uma figura de herói para aqueles que mais precisavam e uma nova base para filmes desse nicho.
Apropriação cultural, racismo institucional, a solidão da mulher negra, relacionamentos inter-raciais. Podemos dizer que, pelo menos nos últimos 20 anos, nunca essas questões foram tão debatidas e tiradas do tabu quanto tem sido agora. E é claro que tais pautas seriam usadas – como sempre foram – pela sétima arte. Os últimos bons exemplos foram Moonlight: Sob a Luz do Luar(2016) que debate a busca por identidade enquanto homem negro e gay e o documentário indicado ao Oscar Eu Não Sou Seu Negro, que conta a história de James Baldwin a partir de um manuscrito inacabado do escritor, tal como a trajetória de luta de Malcolm X, Medgar Evers e Martin Luther King Jr., ativistas pelos direitos dos negros nos EUA. Agora o mais novo lançamento nos cinemas americanos inova ao debater o racismo disfarçado e os relacionamentos inter-raciais por uma ótica diferente, o terror.
Daniel Kaluuya
Em Corra! (Get Out), Chris (Daniel Kaluuya) é um jovem fotógrafo negro que está prestes a passar um final de semana com sua namorada branca, Rose (Allison Williams) na casa dos pais dela. Mas o que poderia ser uma recepção extremamente amorosa por parte da família branca de classe média de Rose, acaba sendo um pesadelo desesperador para Chris. O diretor e roteirista Jordan Peele, no entanto, não tem muitas experiências com filmes de terror, sendo este sua estreia tanto na direção quanto no gênero, já que o seu campo de trabalho sempre foi o ramo das comédias, especialmente trabalhando no meio do Stand Up.
Mas a ideia do filme vem do humor. Peele revelou em entrevista ao Entertainment Weekly que a inspiração para a trama e título do filme surgiram de um show de comédia de Eddie Murphy em que o ator fala da experiência de conhecer os pais de uma namorada branca. Com essa trama que facilmente poderia ter saído também da cabeça dos irmãos Wayans, o diretor aproveita para retratar o racismo estrutural na sociedade americana e como ele pode se tornar um pesadelo para os afrodescendentes americanos.
Conhecendo o histórico do diretor, é possível compreender porque, em certos momentos, há a garantia de boas risadas. Usando o segurança do aeroporto Rod Williams (LilRel Howery), amigo de Chris, como alívio cômico, o personagem distrai com piadas relativas à situação em que o amigo se encontra, sem perder a tensão original da obra.
Assim, o “hype” do filme já pode ser visto em seu trailer, por conter terror e um pano de fundo que lida com o racismo. Em contrapartida, esse foi mais um daqueles trailers em que a prévia conta o todo, o que foi extremamente prejudicial, já que as cenas mostradas que prometem ser impactantes acabam perdendo o sentido no longa. Logo, o longa perde em não ter os sustos que promete. Ainda assim, esse artifício não se encontra necessariamente em causar medo ou ainda fazer com que o espectador não durma de noite; a ideia está em colocar medo em sua representação, nos fazendo pensar nos pormenores da cena em si, pois por mais bizarra e extrapolada que possa ser a experiência de Chris, devemos lembrar que isso nada mais é do que uma metáfora para o racismo cotidiano.
Mais do que causar medo, o que acontece é o espectador se sentir desconfortável pelo “show de horrores” demonstrado pelos personagens nas cenas de maior impacto do filme. Em uma delas, é realizada uma festa na casa dos pais da garota em que há apenas um negro dentre dezenas de brancos ricos. Lá, Chris é alvo de comentários que para os olhares brancos despercebidos tratam-se de elogios, mas não passam de preconceitos raciais implícitos. Sua genética “melhor”, “o preto está na moda” e negros são necessariamente diferentes no sexo e no físico são alguns dos comentários que o protagonista tem que ouvir. Racismo, pois não é a etnia de uma pessoa que vai decidir se ela será boa ou ruim nisso ou naquilo.
Nessa cena, o diretor ao mesmo tempo revela o conflito na trama e coloca a marca principal de realidade durante o longa, não sendo, nesse caso, nem uma metáfora nem uma analogia, e sim algo em que podemos identificar a realidade nua e crua da nossa sociedade. Por coincidência ou não, o filme foi rodado no Alabama, um estado americano fortemente marcado por raízes racistas.
Chris e Rose em uma das poucas cenas felizes do casal
Além de acertar nos pequenos detalhes e diálogos, Jordan Peele revela ter uma boa mão também direção. Em Corra!, há precisos takes longos e distantes, já clássicos do gênero, que adicionam um toque de tensão à obra. Para somar, temos a excelente atuação de Daniel Kaluuya, com faces de desespero que conseguem fazer o espectador entender ou ao menos compreender não só o que seu personagem, mas toda uma população negra americana sente. E se essa era a intenção do diretor, pontos para Peele.
Uma trilha sonora excelente, composta por Michael Abels, acompanha a abertura do longa, com direito à música “Redbone” do rapper Childish Gambino tocando de fundo enquanto o título do filme aparece em meio a uma filmagem rápida das árvores da estrada e fotografias tiradas pelo protagonista. Uma sequência digna para o início do filme, onde o clima sombrio ainda não foi estabelecido. Ademais, o trabalho do diretor de fotografia Toby Oliver merece destaque com cenas bem definidas com luzes frias sobre os personagens que garantem o tom sombrio do filme.
Betty Gabriel na atuação mais perturbadora do filme
Mas por mais que o diretor tenha acertado em retratar o racismo no longa como a “ferramenta” e o branco como “o vilão do filme de terror”, ele peca em pontos do desenvolvimento do filme. Se por um lado ele acerta em realizar tomadas de longe com uma visão que reflete todo o cenário e em momentos específicos da obra, por outro ele não convence ao colocar a hipnose como motivo quase central do longa. Não só isso, a instituição chefiada pela família da namorada é apresentada muito rapidamente, sem muitas explicações, e desemboca numa resolução de conflito rápida demais para finalizar com cenas de violência e revolta do protagonista.
Porém, nenhum desses miúdos comprometeu seu sucesso. Corra! conseguiu alcançar merecidas marcas na bilheteria, sendo o filme de maior arrecadação, 162.8 milhões de dólares, dirigido por um cineasta negro ao ser lançado em versão caseira. Como se não bastasse, Peele conseguiu o pódio de filme mais rentável nas bilheterias por um roteiro original de um diretor e roteirista, batendo o roteiro original de “A Bruxa de Blair”, em 1999.
Por fim, além de estar presente na história dos recordes cinematográficos por algum tempo, é possível dizer que Corra! entra também na lista de filmes necessários dos últimos tempos. Lançado em uma época tão propícia em que o debate sobre as questões raciais, felizmente, está cada vez mais caloroso, o diretor conseguiu juntar um tema tão difícil e urgente a um gênero que sempre é aclamado pelo grande público nas salas de cinema, além do fato de somar um ator de peso e conhecido pelo público (Kaluuya repete o bom trabalho no segundo episódio da primeira temporada de Black Mirror). Para fazer o público pensar sobre o racismo escondido de todos nós, inserindo nos diálogos diversas falas minuciosamente preconceituosas que nem todos se dão conta do perigo inserido, Corra! é mais do que recomendado, é obrigatório.
Pecadores é o quinto filme de Ryan Coogler com Michael B. Jordan no elenco (Foto: Warner Bros.)
A noite é negra e dos Pecadores
Davi Marcelgo
Há mais de um século, no coração da Europa, F. W. Murnau dirigia o clímax de Nosferatu (1922), ocasião em que o vampiro, tomado pelo desejo, esquece o perigo de existir sob a luz do sol, falecendo ao amanhecer. O terror expressionista tem um quê de LGBT+, pois as vivências da comunidade, quanto mais em 1922, eram consumadas à noite – essa interpretação existe sobretudo porque o diretor tinha relações homoafetivas. E que pavor seria ao dia descobrirem o Drácula dentro de você.
De William Friedkin a Sebastian Meise, há uma enxurrada de longas que retratam a vida noturna, assim como histórias de monstros têm como pano de fundo alegorias sobre pessoas marginalizadas. O romance Frankenstein (1818) de Mary Shelley, é metáfora para mulheres e pessoas trans, e o polêmico A Hora do Pesadelo 2 – A Vingança de Freddy de 1985, uma experiência gay, são exemplos marcantes da categoria. Pecadores, de Ryan Coogler, é uma mistura desses dois mundos.
Na trama, Fumaça e Fuligem (ambos interpretados por Michael B. Jordan) são irmãos gêmeos realizando o sonho de inaugurar um bar de Blues. A ideia é que o espaço seja um ambiente de liberdade e alívio para as pessoas negras do Mississípi em 1930, que convivem com a segregação racial e são sujeitas a trabalhos braçais e pagamentos em ‘tickets’. Porém, a supremacista Ku Klux Klan e um trio de vampiros têm outros planos para os donos e seus clientes: morte e transformação, respectivamente.
Miles Caton também é artista musical, em 2023 lançou o single This Ain’t It (Foto: Warner Bros.)
O diretor e roteirista Ryan Coogler propõe uma história sobre legado, temática já vista em outros filmes do cineasta, e formas de se imortalizar. Nesta narrativa, há duas: se transformando em um sugador de sangue ou através da música, que aqui se relaciona com espíritos e ancestralidade. Para transpor em takes seus conceitos, Coogler se joga na fantasia – e até no horror camp –, em destaque a cena de Sammie (Miles Caton) cantando enquanto personas místicas do passado e futuro da música negra se apresentam e dançam com os frequentadores do clube.
Em momentos pontuais – infelizmente, porque o elemento é divino – Coogler ousa com transições e fios de guitarra tocando na edição, dando ao filme mais personalidade e caráter de Terror fantasioso. A aposta marca o Cinema do americano de uma forma diferente, acostumado a fazer filmes encomendados por grandes estúdios, como a duologia Pantera Negra, ele vagamente se permitia fugir do realismo, ora por sua opção ou imposições dos engravatados.
A direção de fotografia de Autumn Duraldconsegue captar a sensualidade dos vampiros e o calor de uma noitada em um clube que possibilita a liberdade para ser quem se é. Com cores quentes ao escurecer, ótimas atuações, cenas de sexo e música boa, a unidade fílmica é a experiência de se apaixonar e ser mordido por um vampiro.
Em sua estreia, Pecadores lucrou mais que o remake Branca de Neve (Foto: Warner Bros.)
Pecadores entendeu bem a natureza do ser folclórico que está lidando, junto às incontáveis pesquisas sobre narrativas de monstros e seus subtextos. Sugadores de sangue podem não ser apenas criaturas, mas também espaço para tematizar política com a forma articulada ao roteiro. O fato do trio principal de vampiros ser músicos e brancos reflete o apagamento e a absorção da cultura negra que a branquitude fez e ainda faz. À medida que Coogler compara a existência do ser ficcional às vivências reais da comunidade negra e segregada nos Estados Unidos, ele deixa uma ideia: pertencer só é possível em alguns espaços e sob o céu escuro.
Seja no século XIX, XX ou no mais futurista ano de 2025, os monstros ainda têm espaço entre as peças inteligentes de muitos autores, como a versão de Nosferatu, dirigida por Eggersem 2024. Por muitas injustiças, algumas pessoas ainda se sentem como criaturas desprezadas, marginalizadas e pecadoras, salvas por breves momentos de curtição e de Arte, como Sammie, que aproveitou sua música na noite mais sangrenta de sua vida.
Na versão original, o nome do autor aparece antes do título do filme, Wes Craven’s New Nightmare (Foto: New Line Cinema)
Já faz 30 anos que Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger deixa Hollywood sem dormir
CategoriasDavi Marcelgo 11/12/2024
Franquias em Hollywood não faltam, tem para todo tipo e gosto. Mas o que acontece quando elas, ou até mesmo um gênero, se tornam um pesadelo? Quando em 1984, o primeiríssimo A Hora do Pesadelo estreou, mal sabia Wes Craven que, dez anos mais tarde teria, que desconstruir sua maior criação: Freddy Krueger. O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger (1994) completa 30 anos em 2024 com muita coisa a ensinar ao Cinema, principalmente ao de super-heróis.
Além do primeiro e último filme (até 1994), a saga teve outras cinco sequências, todas com outros diretores, algumas com outros protagonistas e uma que até ignora o original. Chegou um momento em que o título original, A Nightmare On Elm Street (algo como O Pesadelo da Rua Elm, em tradução livre) perdeu sentido: a rua nem era mais a protagonista. O local onde os jovens de 1984 viviam é de suma importância para narrativa; a residência que deveria ser lar de proteção é inseguro, namorados e amigos moram em frente, as relações entre os personagens e o público são dependentes da geografia.
Os personagens deixaram de ser filhos dos responsáveis pela morte de Krueger (Robert Englund) e, cada vez mais, os longas entravam em uma espiral de novos conceitos mirabolantese cenas de ação (não mais Terror) cada vez mais absurdas, tudo para, de alguma forma, manter-se relevante e cativante ao público. Diferente de outros assassinosslasher, subgênero que sofreu com um tremendo desgaste nas décadas de 1980 e 1990, os filmes do ‘bicho-papão’ não são de todo mal. O quarto filme possui uma atmosfera teen maravilhosa, que combina bem com o fim dos sonhos – afinal, quem mais aspira do que adolescentes? –, e, com todo teor gay, o segundo, apesar das polêmicas, é excelente. Ainda com acertos, os pesadelos ficaram piores e desconectados do que um dia foi a rua Elm.
Embora seja a protagonista do clássico de 1984, Heather Langenkamp estrela apenas três longas (Foto: New Line Cinema)
Depois de tanta profanação, como fazer do pesadelo um sonho? Wes Craven achou a saída na metalinguagem. Transformou A Hora do Pesadelo em um mero filme dentro de outro filme, e a protagonista Nancy (Heather Langenkamp), na verdade, é Heather, uma atriz de Hollywood. Na trama, ela convive com intensos terremotos e ligações ameaçadoras, a situação se agrava quando seu filho começa a ter crises de sonambulismo.
Ao longo das sequências, Krueger virou um ícone da cultura pop, e passou de vilão para um personagem ácido e carismático. Quando Wes Craven deu à luz ao ícone, ele havia atribuído tais características, porém, ainda parecia apavorante. A partir do terceiro filme não mais tememos os pesadelos, mas ansiamos para vê-los. Então, o diretor e roteirista decide repaginá-lo.
Em O Novo Pesadelo, ele perde a ‘malemolência’, agora, é malvado em sua totalidade, como um fenômeno da natureza, definido por nascença. Além de mudar a aparência, Craven aposta em uma direção que esconde o personagem. As aparições, em primeiro momento, se garantem em garras saindo do lençol e sentimos a presença de Krueger através de sonhos e elementos familiares, como a cena em que a criança tem facas de cozinha encaixada nos dedos. Quando ele finalmente aparece, é filmado com muita imponência. Ali, o ícone ressuscitava.
Além de sete longas nas décadas de 1980 e 1990, a franquia teve série de TV, remake e até crossover com Jason de Sexta-Feira 13 (Foto: New Line Cinema)
A estratégia de descrever uma obra por si mesmo foi utilizada, mais uma vez pelo diretor, dois anos mais tarde, no célebre Pânico(1996), que também crítica o desgaste do gênero. No entanto, não é ‘só’ isso que é motivo de êxtase no último filme da rua Elm dirigido por Wes Craven. Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, todos contos de fada que você já leu, ouviu, assistiu e sabe se lá mais o que fizeram com eles, também se tornaram banais, fato é que perderam até o tom macabro pós-adaptação da Disney. O cineasta, então, permite fazer de Freddy Krueger como um conto, capturado por ele e usado tantas vezes que perdeu o sentido e o medo. Só quem poderia sentir medo seria uma criança, que nunca tivera antes contato com esse personagem. Nessa hora, Dylan (Miko Hughes), filho de Heather, entra na história.
O papel inverte, Heather agora é a mãe que precisa proteger, não mais ser protegida. Nessa tarefa, a nota dela é dez. No que pode ser considerado como um dos grandes momentos do filme, ela confronta médicos que a julgam de louca, mas é ela quem entra no mundo dos pesadelos para salvar seu filho. Em uma bela alusão ao conto João e Maria, dos irmãos Grimm, que é lido por ela antes de pôr o menino para dormir, eles conseguem, juntos, enfiar Krueger no forno.
Wes Craven entende que, para novamente provocar medo, é preciso voltar às origens, no que provocava medo no passado e o que faz o público fazer xixi nas calças: a relação de mãe e filho parece uma boa pedida. Uma mãe que luta e acredita em seu filho. Nada adianta sonhos megalomaníacos se a conexão de espectador com personagens seja escassa, inclusive, todas as sequências oníricas do filme nem passam perto da loucura dos filmes anteriores. São mais sutis e simples.
Miko Hughes ficou conhecido por seu papel como Aaron em Full House (Foto: New Line Cinema)
Tal movimento sobre o gênero se repete agora com o de super-herói. O número de produções ao ano aumentou desde o pré-histórico X-Men (2000), assim, o público caminha para uma certa saturação – ainda que alguns filmes alcancem uma bilheteria grande – e as histórias ficam cada vez mais maximalistas. Porém, com a repetição formulaica e visando somente lucro, a potência desses atos ficaram vazios. Um raio azul em Nova York é só um raio azul; um primeiro voo é só um voo; vestir o traje é vestir pijama. Assim como o slasher perdeu o poder de apavorar, os heróis não encantam.
Deadpool(2016) fez uma espécie de crítica aos arquétipos e clichês dos filmes, mas nada tão a fundo quanto Deadpool & Wolverine (2024) fez ao esbanjar da metalinguagem e auto referências de estúdios. O fato é que Shawn Levy, o diretor, não é Wes Craven. A função linguística é usada por mero fanservice, não para discutir como está o gênero e para onde ele vai. Os poucos filmes que deram certo na leva pós Vingadores: Ultimato (2019) foram justamente os que tinham um certo coração, de personagens com vínculos entre si e com público, como Guardiões da Galáxia Vol.3 (2023).
Coincidentemente, James Gunn, diretor da trilogia cósmica da Marvel, está no comando de Superman (2025) e, talvez, este filme seja a resposta para o desgaste de gênero de super-herói. Retornando às origens, ao Superman: The Movie (1978) de Christopher Reeve, a inocente cueca por baixo da calça, aos pets, às histórias sinceras e não cínicas ou pessimistas. Por ironia do destino, Pânico já está cambaleando e sofrendo dos mesmos efeitos que um dia Hora do Pesadelo sofreu.
Freddy Krueger foi inspirado em um acontecimento da infância do próprio Wes Craven (Foto: New Line Cinema)
A metalinguagem não é mais novidade e a graça de adivinhar quem é o ghostface já virou conto de natal. Guilherme Leal, redator do Persona – olha aqui a metalinguagem –em sua crítica sobre Pânico 6 (2023), diz que “seria bom dar um descanso a sua imagem e deixá-lo se aposentar como um personagem icônico em vez de torná-lo maçante e superficial”. Era esse o sentimento na década de 1990, antes de O Novo Pesadelo. Infelizmente, Wes Craven não está mais entre nós para tirar sarro de sua própria criação e movimento, porque ele sim iria garantir ao seu público fiel, a pior noite de sono de suas vidas.
É como se o gênero tivesse nascido com ele. Afinal, desconstruir sua maior criação, deixá-lo de cara limpa e, ainda assim, manter a curiosidade, o suspense e a tensão na trama, ao mesmo tempo que critica a indústria – sobre fenômenos que acontecem ainda hoje – enquanto equilibra todos esses elementos em um filme que não deixa a ‘peteca’ cair, não é para qualquer um.
O cineasta intensifica os tormentos porque entende o Terror, o buscando nas origens e nas primeiras histórias que apavoram crianças. Acima de tudo, tal como uma criança chama de madrugada pela mãe, Wes Craven sabe que apenas quem nos ama pode nos tirar do pior pesadelo. Hollywood precisa olhar para as origens e traçar novos caminhos, aprender com Wes Craven, que sempre amou o Terror e foi um dos responsáveis pela solidificação do gênero nos EUA. Chegou a hora de chamar o pai.
Em 2022, o filme entrou no top 10 dos mais assistidos na Netflix no Brasil (Foto: Ghost House Pictures)
Após 15 anos de Arraste-Me para o Inferno, ser levado para os confins da Terra talvez não seja má ideia
Davi Marcelgo 02/12/2024
Desde Sally (Marilyn Burns) de O Massacre da Serra Elétrica (1974) até Grace (Samara Weaving) de Casamento Sangrento (2019), a final girl é praxe no Terror, principalmente no slasher. É ela quem vence o assassino, sobrevive e, de quebra, aparece nas continuações. Mas para Christine Brown (Alison Lohman), do grotesco Arraste-Me para o Inferno (2009), já faz 15 anos que ela está perpetuada nos confins da Terra. O aniversariante que não é um filme de mascarados empunhando facas, sem dúvidas garante uma curiosa discussão sobre mulheres no gênero.
O recorte de classe também é uma temática já perpassada pelo horror e, neste longa, também é comentado. Morto Não Fala (2018) e Alien, o Oitavo Passageiro (1979) são ótimos exemplos de como o mal age em corpos marcados por alguma razão de exclusão – no caso do filme de Ridley Scott, gênero e cor também fazem parte das discussões que o diretor propõe. Nele, os dois últimos personagens a morrer são um homem negro e uma mulher branca, ambos operários. A final girl, logicamente, é uma mulher. Ripley, sobrevivente, segue protocolos, normas e diretrizes de segurança durante toda história; o irônico é que, para sobreviver na realidade, mulheres e outras minorias também precisam seguir ‘regras’.
O filme mantém a marca autoral de Raimi; a estética combina nojeira com o cartunesco (Foto: Ghost House Pictures)
Sam Raimi, escritor e diretor, já tinha subvertido expectativas com o inaugural Evil Dead(1981), finalizando-o sem as esperanças de um amanhecer que traz tranquilidade após uma noite alucinante. Considerando os finais de filmes anteriores dirigidos por Raimi ao terror de 2009, era de se esperar conclusões impactantes, afinal, Homem-Aranha 2 e 3 encerram com sentimento agridoce. Com a história de Chris Brown não foi diferente: após o roteiro enganar os cinéfilos com uma falsa libertação da personagem contra seus demônios, ela é arrastada para o inferno. Na trama, Brown precisa conseguir uma promoção em seu emprego de bancária, para isso, ela recusa o aumento dos prazos para o pagamento das prestações da casa de uma senhora. Revoltada, a cliente a amaldiçoa com poucos dias de vida.
Os personagens já escritos e dirigidos pelo cineasta possuem semelhanças, por exemplo, assim como o trio de Um Plano Simples (1998), Peter Parker e Brown estão ligados pela falta de dinheiro. A only girl de Arraste-Me para o Inferno não só convive com a grana curta, mas também é oprimida pela família de seu namorado, Clay (Justin Long), que tem uma excelente condição financeira. Opressão condicionada inclusive no ambiente de trabalho, ao competir com um colega por um novo cargo, com a garantia de mais renda e status do ponto de vista da sogra.
O terror vivido por Chris Brown ultrapassa qualquer espírito ‘zombeteiro’ que arremessa panelas em sua cozinha. Começando antes mesmo da praga ser lançada sobre ela, estando presente no recorte social: mulher e pobre. Brown é incentivada a competir com alguém da mesma classe, uma lógica do capitalismo, além de ser incentivada a não ajudar uma senhora também pobre, quando podia fazer isso, sendo castigada pelas suas atitudes. Em uma sociedade patriarcal, ser mulher é estar nessa posição de ganhar menos que o namorado e ter que provar sua capacidade para homens em situações de poder, que vão a legitimar ou não. Vítima do sistema, a protagonista é penalizada sem qualquer análise das motivações durante a vida.
A atriz Adriana Barraza interpreta a exorcista que tenta tirar o demônio de Brown (Foto: Ghost House Pictures)
Em paralelo, no final da terceira temporada de The Good Place (2016-2020) é descoberto que, há mais de 500 anos, ninguém entra no bom lugar (céu), porque realizar uma ação intrinsecamente boa é uma tarefa difícil na contemporaneidade. De repente, comprar uma simples peça de roupa financia indiretamente tráfico humano ou adquirir uma fruta implica no apoio de indústrias alimentícias que expulsam famílias de suas terras. No caso de Chris Brown, ela não realizou uma ação boa, foi apenas para seu próprio benefício, mas assim como a humanidade da série citada, ela é vítima.
Neste caso, não é tão certo que Sam Raimi e seu irmão Ivan Raimi, que assinam o roteiro, estejam fazendo alguma crítica quanto ao capitalismo ou religiões punitivas, talvez, eles só estejam reproduzindo elementos do Terror sem nenhum tipo de recorte. Porém, na trilogia do aracnídeo, diferente do que muitos autointitulados ‘nerds’ pensam, a personagem Mary Jane (Kirsten Dunst) está longe de ser interesseira e infiel. O diretor sempre pensa em texto e encenação com muita delicadeza, exemplo é a cena de Homem-Aranha 3 (2007) em que ela se sente mais uma em meio a multidão. Raimi também sempre deixou com transparência o relacionamento abusivo com o pai, que leva a ruiva a ter certos comportamentos. Por isso, é possível estender a análise para uma crítica consciente ao capitalismo e seus operários.
Justin Jacob Long tem experiência no gênero, já atuou em Olhos Famintos (2001), Tusk (2014) e Noites Brutais (2022) [Foto: Ghost House Pictures]
Sites e espectadores via Reddit já comentaram que o filme faz uma alegoria a transtorno alimentar. Realmente, Chris Brown vomita e é alvo de vômitos sobre seu corpo ao longo do filme, passa por vitrine de doces e outras cenas que envolvem comida. Ademais, há uma citação sobre ela ter perdido peso e uma fotografia dela, alguns anos antes, posando ao lado de um porco. Dessa forma, outra camada de opressão é adicionada à história: adequação aos padrões estéticos.
Seja porque supostamente pecam contra a castidade, bebem ou aproveitam a juventude, é válido questionar o que já foi e é indagado no gênero e no Cinema: por que mulheres são mortas com tanta violência? Mas não pensando em como a Arte é um mal que deseja a morte de pessoas e, sim, como de fato é um espelho do contexto social em que estamos inseridos. Para sobreviver, Brown tem de se adaptar às regras das corporações, à etiqueta da família do namorado e também aos padrões de corpo. O verdadeiro terror, este não cartunizado como os outros do filme, é a injustiça de um sistema e de crenças justapostas contra um corpo feminino e pobre.