terça-feira, 26 de maio de 2020

Amy Winehouse também foi feliz


A cantora Amy Winehouse, em uma imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.
A cantora Amy Winehouse, em uma imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.BLAKE WOOD


Amy Winehouse também foi feliz

Um livro de fotografias inéditas mostra a rainha do soul relaxada e natural como nunca antes se viu



Maria Salas Araá

Madri, 11 nov 2018

Por trás do inconfundível cabelo, das tatuagens e do agressivo delineador de olhos de Amy Winehouse (1983-2011), rainha do soul falecida há sete anos, escondia-se uma mulher sensível, extremamente vulnerável, que desejava se afastar de seus vícios e da perseguição da mídia para curtir em segredo a praia e conversas íntimas com um de seus grandes amigos: o fotógrafo Blake Wood. A imagem que ficou marcada é a de uma vida pública que os tabloides transmitiram ao vivo, repleta de aparições em que estava embriagada, de declarações explosivas e, no final, o famoso show de Belgrado, o último —pouco mais de um mês antes de sua morte—, no qual Winehouse mal pôde balbuciar, entre vaias, algumas palavras inaudíveis.

Mas havia outra face. Seu amigo Blake Wood foi um dos poucos a conhecer a sensibilidade que a poderosa imagem de Winehouse escondia, a mesma que interrompeu Bono, do U2, durante seu discurso nos prêmios Q Music Awards com um “cala a boca, não estou nem aí com o que você diz”. Viajando por Londres, Paris ou Santa Lúcia, o fotógrafo registrou com sua Polaroid momentos privados da artista, cuja faceta mais alegre, oculta até agora, é revelada pela primeira vez. O livro Amy Winehouse by Blake Wood, editado pela Taschen, reúne 85 fotografias em preto e branco, na maioria inéditas. Foram tiradas entre 2008 e 2009, um dos períodos mais complicados da cantora. O ano de 2008 foi o mais devastador, com detenções por posse de drogas, uma briga a socos com um fã em um show e a separação de seu polêmico marido Blake Fielder-Civil, com quem se casara meses antes, em maio de 2007. Suas brigas e reconciliações, entre crack, heroína e álcool, encheram os tabloides. A espiral destrutiva continuou com a entrada de Fielder-Civil na prisão, de onde pediu o divórcio, assinado em 2009. Winehouse sempre disse que foi o amor de sua vida.




A cantora Amy Winehouse, em outra imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.
A cantora Amy Winehouse, em outra imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.


É surpreendente que naquele momento de vícios, transtornos alimentares e depressão, a jovem fosse retratada sorridente e natural, sóbria, com o cabelo ao vento, brincando com a areia e montando a cavalo. Ela só teve essa confiança com Blake Wood, só deixou que ele a fotografasse, sabendo que não escondia más intenções nem procurava, como muitos outros, imortalizar suas desgraças. Com ele, encontrava a paz. A amizade entre os dois foi quase imediata. Conheceram-se em janeiro de 2008 em Londres, quando ele aspirava a ser fotógrafo e ela já era uma artista consagrada, com uma fama que não se via desde os Beatles. O livro conta que a britânica nunca agiu como uma estrela, e sim com ternura, comovida pela história de Wood, que atravessava um mau momento depois de um rompimento amoroso. Ela o apoiou, cantou-lhe Some Unholy War e acariciou-lhe o cabelo até ele dormir. Tornaram-se inseparáveis.



A cantora Amy Winehouse, na portada do livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.
A cantora Amy Winehouse, na portada do livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.





Em pouco tempo o fotógrafo viu como Winehouse “vivia prisioneira” e tentou afastá-la de seu apartamento no bairro londrino de Candem, onde os paparazzi tinham acampado, para que se sentisse livre e se afastasse dos excessos. Acompanhou-a durante a reabilitação —“não foi fácil”— e celebrou seu triunfo nos prêmios Grammy de 2008, uma edição apoteótica em que a cantora bateu recordes. Ganhou cinco, um deles o de melhor canção do ano por Rehab, a história rebelde, contada em primeira pessoa, de uma mulher que se refugia no álcool para superar um rompimento e se nega a ir para uma clínica de reabilitação.


Quando todos temiam seu fim, que demorou três anos para chegar, Winehouse e Wood se refugiavam durante temporadas na ilha caribenha de Santa Lúcia, sua proteção, o ambiente onde se sentiu a salvo. “Houve momentos incrivelmente brilhantes em meio a todo o caos e isso é o que vejo nestas imagens”, explica no livro o autor das fotos mais pessoais já vistas da cantora. Nadavam, tomavam sol, brincavam no balanço, faziam ioga, e Winehouse vivia com ele uma transformação física e mental. Vê-se uma Amy saudável, forte, alegre, que desfruta a natureza e brinca com seu amigo. “Quero demonstrar que nem tudo foi tão ruim naqueles anos, houve momentos bons e divertidos, e quero mostrar de uma forma jamais vista como capturei sua beleza ao natural. Ela não sabia o quanto era linda. Tentei dizer isso a ela”, acrescenta.





A cantora Amy Winehouse, em outra imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.
A cantora Amy Winehouse, em outra imagem inédita publicada no livro 'Amy Winehouse by Blake Wood'.
A favorita de Wood é a foto de Winehouse em uma cadeira de praia tomando sol seminua. “Era estranho para mim vê-la dessa maneira, sóbria e tranquila, simplesmente sentindo-se bem e cômoda em sua própria pele. Irradiava energia”, recorda. O fotógrafo conta que sonhavam com o futuro. “Íamos fazer uma viagem pelos Estados Unidos. Ela me disse: ‘Vamos rir em nossas cadeiras de balanço algum dia’”. Todo foi interrompido em 23 de julho de 2011 por um consumo letal de vodca que tirou a vida de Winehouse aos 27 anos, uma idade maldita, e a transformou em lenda. Através de suas fotografias, Wood quer que todos descubram a pessoa que ele conheceu e apreciem “essa luz, essa luz brilhante e amorosa” que só uns poucos puderam ver em Amy Winehouse.



segunda-feira, 18 de maio de 2020

Um Diário Perdido de Miguel Torga




Um Diário Perdido de Miguel Torga

Um Diário Perdido de Miguel Torga


Durante o Verão de 1950, entre Agosto e Outubro, Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, um dos maiores vultos da cultura portuguesa do século XX, percorreu alguns países europeus como França, Itália, o Principado do Mónaco, Suíça e Espanha.


Luis Leal
26 Janeiro 2020
Advertência ao leitor:
Durante o Verão de 1950, entre Agosto e Outubro, Miguel Torga, pseudónimo de Adolfo Correia da Rocha, um dos maiores vultos da cultura portuguesa do século XX, percorreu alguns países europeus como França, Itália, o Principado do Mónaco, Suíça e Espanha. O périplo espanhol, do ano em questão, levou-o à Salamanca do seu admirado Unamuno, à capital Madrid, ao Escorial de Filipe II, a Toledo e à cidade condal de Barcelona, com passagens por Maiorca e por Ávila. 
   Foi nesta última cidade, mais precisamente numa pensão do centro histórico, onde se encontrou uma primeira edição do livro La sombra del ciprés es alargada de Miguel Delibes com uma quartilha escrita em língua portuguesa dentro. O exemplar foi encontrado em 2013 por um turista português que se alojou no estabelecimento familiar e que a transcreveu para o seu blog pessoal.
Infelizmente, só tenho constância desta transcrição que me foi facilitada pelo próprio viajante, cuja sorte de ter consultado o original, na biblioteca pessoal do pai do actual dono da pensão de Ávila, me foi narrada com encanto de leitor e de bibliófilo. Eu apenas o auxiliei a contextualizar nos Diários esta entrada que nos parece estar extraviada da obra diarística de Torga.
Ao contrário do português, Miguel Delibes nunca assumiu a sua humanidade “com as dimensões da Península, com todas as contradições que a dilaceram harmonizadas”, contudo, o seu humanismo, sincero em amor a Castela e, desse território, ao mundo, sempre me pareceu estar destinado a encontrar-se com o de Torga. Não se encontraram ao abrigo dum negrilho, sim à sombra de um cipreste. Já este meu casual encontro foi com alguém que, se não existisse, merecia a pena ser imaginado.
«Ávila, 29 de Agosto de 1950 – A pedra destas muralhas está que parece que saiu hoje da pedreira. Compenetrada da sua função de não deixar fugir a mais pequena parcela do fanatismo que sitia, não deu sequer pela erosão que passou ao seu lado. Granito temporal a cercar granito intemporal!
Chama-me à atenção um livro num escaparate duma livraria, La sombra del ciprés es alargada, de um jovem chamado Miguel Delibes. Em português, A Sombra do Cipreste é Longa.
Luis Leal, crónica habitar
Entro e após uma conversa com a senhora da livraria que me atendeu, Teresa de nome, como a santa aqui da terra e da nossa Ibéria, liberto as pesetas da algibeira e trago comigo a novela deste meu tocaio. A minha intuição foi laureada com o Prémio Nadal de 1947, vejo, sem me despertar mais interesse do que aquele que já tenho graças à sombra dessa árvore tão ascética como profunda em raízes espalhadas por terra onde abundam corpos à espera da eternidade do húmus.
Está ambientada aqui no burgo abulense, mas este jovem tem território bem demarcado. É de Valladolid, essa cidade rainha de Castela, onde Cervantes acabou de escrever as andaduras do cavaleiro da triste figura. Quevedo também por lá andou e eu espero por lá andar, quem sabe em breve.    
Não sei se foi uma obra de sinceridade, esta obra de principiante. Porém, é uma obra honesta, fiel a qualquer coisa que levou este Miguel Delibes a escrever o seu Pedro na primeira pessoa. O protagonista é como esta pedra de Ávila, uma pedra que não foi protegida ao sair da canteira e acabou por ficar encerrada por todas as outras a conformarem estas muralhas frias até mesmo para este mês de Agosto.   
Ainda não pude terminar com a sombra desta árvore. A pouca luz desta pensão não me permite serões de leitura, mas antevejo mar nas páginas que pude ler. Quando há pessimismo o mar ajuda a aliviar a carga do fim e balança-nos em memórias amnióticas do ventre materno. Portugal aventurou-se ao mar por isso, sabemo-lo bem, e não fosse ele órfão de pai e desavindo em carinho com a mãe.
Há futuro para este Pedro, para esta personagem de Ávila. Cresce na narrativa equilibrado com a vida e não sei como acabará. Talvez amanhã, ou depois, descubra se escapou ao pessimismo da vida ou se sucumbiu a ele, inevitavelmente.
E há futuro para este Miguel Delibes. Este jovem escritor de Castela procura o seu estilo pessoal para além do seu território, da sua cidade e da ruralidade do seu entorno. Fá-lo sem se impor, sem afã de conquista e de submissão. Caminha, página a página, pelos dos montes de pobreza oculta destas terras, cegas pelo orgulho castelhano, porém iluminadas pelo sol peninsular.
Se for caçador, parece-me que será uma boa espingarda. Sabe ao que aponta e não aponta por apontar. Seria um bom companheiro para ir às perdizes. É inteligente e a sua prosa parece-me sincera, sem qualquer necessidade de se comprometer com destinos de poeta. Prefiro assim. Gosto de admirar. E só o espírito me deslumbra o espírito. Delibes começou bem e estas pedras intemporais de Ávila dizem-me que vai acabar melhor.»

RAYANOS








quinta-feira, 14 de maio de 2020

Os renovados 32 anos de Adele


Adele, ao comemorar 32 anos.
Adele
Os renovados 32 anos de Adele

Para agradecer as felicitações, cantora publica em suas redes uma foto que mostra a mudança física que acompanha sua nova forma de ver a vida


EL PAÍS
6 May 2020

Adele Adkins está comemorando. A cantora britânica que é sucesso de vendas fez 32 anos na terça-feira. Como tantos outros conterrâneos, a intérprete de Hello e Someone Like You passou o aniversário confinada em sua residência devido à pandemia do coronavírus. Mesmo assim, com seu habitual bom humor, a britânica fez questão de agradecer a seus fãs o carinho e as felicitações.

“Obrigado por todo o amor que me enviaram por meu aniversário”, escreveu Adele na manhã desta quarta-feira. “Espero que todos estejam a salvo e saudáveis neste tempo louco. Quero agradecer ao pessoal de primeiros socorros e aos trabalhadores essenciais que nos mantêm a salvo enquanto arriscam suas vidas. Vocês são nossos autênticos anjos”, prosseguiu com carinho a cantora, concluindo sua mensagem com um toque divertido. “2020, ok, tchau, obrigado”.


Adele usou o Instagram como canal de comunicação com seus fãs. Embora tenha mais de 33 milhões de seguidores nessa rede social, não a usa com muita frequência: esta é sua primeira foto de 2020, já que a anterior data de 23 de dezembro de 2019, quando fez uma publicação para desejar Feliz Natal. Na nova imagem, a cantora aparece no jardim de uma casa, no meio de um círculo de madeira decorado com folhas e rosas brancas, usando um vestido preto justo com mangas largas e sapatos de salto alto. Um aniversário muito diferente do de 2019, quando fez uma grande festa em sua nova casa de Beverly Hills (Califórnia).





No ano passado, depois desse 31º aniversário, Adele escreveu em suas redes: “Aprender a amar a si mesmo de verdade é tudo, e acabo de perceber que é mais do que suficiente”, escreveu. Parece que essa aprendizagem chegou pouco a pouco, como compartilharam amigos da cantora e como se reflete nela mesma.

A imagem de Adele é muito diferente da que nos lembrávamos. Em uma grande mudança pessoal, buscou uma maneira de se sentir mais saudável e decidiu largar o álcool e perder peso fazendo dieta e praticando esporte. “É fácil se concentrar apenas em sua transformação física, mas a mudança tem a ver com algo muito maior. Ela chegou a um ponto em que não se sentia bem. Sabia que tinha de mudar algo, porque queria ser a mãe mais saudável possível”, disse uma fonte próxima à cantora em janeiro.

Foi então que ela foi vista passando as férias de Natal no Caribe. A cantora se mostrou divertida, próxima e carinhosa e tirou fotos com muitos fãs. “Todo seu foco durante esta processo de perda de peso foi ver como podia se sentir mais saudável e tratar melhor seu corpo. Nunca foi uma questão de perder quilos, isso ocorreu porque cortou drasticamente o consumo de álcool e está apreciando mais comida de verdade. Mas também adora sua transformação física. Está mais confiante, veste-se de maneira diferente e parece mais feliz em geral”, afirmou na ocasião a mesma fonte. “É uma mulher nova, com todo seu senso de humor. Adora seus amigos e se sente mais confiante.”

A mudança pessoal de Adele foi acompanhada por uma série de circunstâncias. Um dos elementos que a levou a mudar foi a depressão pós-parto que sofreu depois do nascimento de seu filho Angelo, em outubro de 2012, como ela mesma contou, assinalando que ficou muito assustada depois de dar à luz. “Eu me sentia muito inadequada, como se tivesse tomado a pior decisão da minha vida”, contou. “O que sei da etapa pós-parto é que você não quer estar com seu filho, você tem medo de machucá-lo e de não estar fazendo um bom trabalho.”

O divórcio de seu agora ex-marido Simon Konecki também impulsionou a reviravolta em sua vida. Há um ano, em um dos períodos mais complicados de sua existência, ela anunciou sua separação e uma mudança de vida. No início do mês passado, assinaram o divórcio e decidiram sobre a custódia de seu filho e a divisão de um patrimônio de mais de 170 milhões de euros (1 bilhão de reais).





terça-feira, 12 de maio de 2020

Morre Little Richard, grande pioneiro do rock n’ roll



Little Richard, em um estúdio de gravação em 1959.
Little Richard, em um estúdio de gravação em 1959.MICHAEL OCHS ARCHIVES 

Morre Little Richard, grande pioneiro do rock n’ roll

Criador do “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom” e fundador do gênero nos anos cinquenta, com Chuck Berry e Jerry Lee Lewis, sai de cena aos 87 anos


El País
9 May 2020

Richard Wayne Penniman, conhecido como Little Richard, faleceu neste sábado aos 87 anos. Afetado por problemas de saúde há anos e vítima de vários ataques cardíacos, a morte daquele que é considerado um dos três pais do rock ao lado de Chuck Berry e Jerry Lee Lewis foi confirmada pelo filho à revista Rolling Stone, embora a causa não tenha sido mencionada.

Little Richard (1932, Macon, Geórgia) conquistou os jovens dos anos cinquenta com singles como Tutti Frutti (1956), seguido por uma esmagadora lista de sucessos: Long Tall Sally Rip It Up no mesmo ano, Lucille, um ano depois e Good Golly Miss Molly em 1958. “Acho que meu legado deve ser exatamente esse, quando comecei no show business, não havia parecido ao rock‘n’roll. Quando lancei Tutti Frutti foi quando o rock começou a atacar”, disse em uma entrevista em 2013, quando anunciou a aposentadoria.

Little Richard, em um show no intervalo de u m jogo de futebol americano da NFL em 2004.
Little Richard, em um show no intervalo de u m jogo de futebol americano da NFL em 2004.ANDY LYONS / AFP


Sempre crítico em relação ao seu lugar na história, Richard tinha muito claro que o nascimento do rock‘n’roll se deveu ao fato de que os brancos o terem tirado da comunidade negra e não tinha qualquer inibição de afirmar, como fez em Gijón em 2005: “Fomos nós, os negros, que criamos o rock‘n’roll. Elvis era incrível, mas ele não foi um criador. Não quero dizer com isso que fosse pior, mas os autênticos criadores do rock‘n’roll. foram negros. Agora está acontecendo o mesmo com Eminem e o rap, que é outro estilo também criado pelos negros”.

Embora sempre tenha se sentido um pouco menosprezado, Little Richard, Chuck Berry e Jerry Lee Lewis romperam regras e abriram caminho para mitos como Elvis Presley, os Beatles, que sempre reconheceram sua influência, e os Rolling Stones. Para a memória ficam muitas canções e seu famoso grito de guerra: “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom”.


domingo, 10 de maio de 2020

Little Richard / O músico que libertou a música dos tabus



Little Richard



Little Richard

O músico que libertou a música dos tabus

Pioneiro do gênero, idolatrado pelos Beatles a David Bowie, inspirou uma geração que sem ele não teria trilhado o caminho da liberdade pregado pelo rock n’roll



Diego A. Manrique
09 May 2020

O rock n’roll, quando se manifestou em meados da década de cinquenta, trazia promessas de libertação. No entanto, Little Richard, que morreu neste sábado aos 87 anos, já tinha sido libertado quando os holofotes se voltaram para ele. Nascido em Macon, no Estado da Geórgia (EUA), em 1932, cresceu em uma família numerosa com fortes crenças religiosas. Exuberante demais para um meio tão pacato, foi expulso de casa quando ainda era adolescente. E não voltou até completar vinte anos, depois do assassinato do pai, quando teve de contribuir com o orçamento familiar, mesmo que fosse lavando pratos na rodoviária de Macon (por outro lado, um bom lugar para paquerar, reconheceu).

Little Richard


Naqueles dias, um homossexual podia se integrar sem problemas ao submundo dos “medicine shows” (espetáculos em que charlatães vendiam “remédios milagrosos”) e das casas noturnas mais libertinas do chamado chitlin’ circuit. Gravou discos avulsos para a RCA e a Peacock quando ainda não tinha um estilo definido: para conseguir essa diferenciação foram essenciais os ensinamentos de Esquerita, um selvagem do piano vindo da Carolina do Sul, que também dominava as artes da maquiagem, dos penteados e da indumentária de fantasia.

Richard Wayne Penniman tinha uma banda própria eficaz, os Upsetters, mas o selo californiano Specialty exigiu que gravasse em Nova Orleans. Lá, no agora mítico estúdio de Cossimo Matassa, sob a direção de Bumps Blackwell, com instrumentistas que trabalhavam regularmente para Fats Domino, aconteceu uma espécie de fusão nuclear: Tutti Frutti (1956), com seu delirante grito de “A-wop-bop-a-loo-bop-a-wop-bam-boom”, que mais tarde daria título a um livro memorável de Nik Cohn.

Little Richard


Tutti Frutti foi ofuscada, como era habitual então, pela versão asseptizada de um cantor branco, Pat Boone. Mas entre 1956 e 1957 Little Richard estava incandescente: a cada poucas semanas lançava singles irresistíveis, frequentemente reforçados por lados B ―Slippin’ and Slidin, Ready Teddy― que também alcançaram enorme popularidade. Seus shows eram terremotos e algo disso se nota em Sabes o que Quero, um filme disparatado que misturava Jane Mansfield com algumas das figuras do emergente rock n’roll. Sem explicitá-lo, pregava a possibilidade de ser sexualmente diferente. Do outro lado do Atlântico, um futuro camaleão, David Bowie, entendeu imediatamente a mensagem.


Tudo mudou de rumo em 1957, em uma turnê pela Austrália, quando durante um voo noturno achou que tinha visto uma luz celestial ―segundo seus companheiros, poderia ser o combustível do próprio avião ou inclusive do Sputnik soviético― algo que interpretou como uma mensagem divina que o instava a se arrepender dos pecados e voltar à música de igreja. A verdade é que a gravadora continuou lançando avassaladoras canções profanas, como Good Golly Miss Golly e Oh My Soul. Somente em 1959, depois de se formar pregador batista em uma escola no Alabama e de se casar com Ernestine Harvin, começou a gravar gospel. Sem muita sorte, apesar de ter produtores como Jerry Wexler e Quincy Jones.

Os Beatles o salvaram da irrelevância. Idolatrado especialmente por Paul McCartney, os ingleses interpretaram temas dele (ou que haviam descoberto em sua voz, caso de Kansas City). Pouco a pouco Little Richard entendeu que podia ganhar a vida no nascente circuito da nostalgia, onde só precisava recriar seus sucessos e exagerar seus maneirismos. Não tolerava concorrentes: desistiu dos serviços guitarrísticos de um ainda desconhecido Jimi Hendrix por sua espetacularidade cênica. Anos depois, tampouco teria conexão com Prince, que era visualmente seu descendente.

Little Richard




Mas Little Richard acreditava ser capaz de fazer música do momento, especialmente soul. Embora não tenham ocupado o topo das paradas se sucesso, durante os anos sessenta e início dos setenta, já instalado em Los Angeles, fez grandes canções com Don & Dewey, Johnny Guitar Watson, H. B. Barnum, Don Covay e ―o mais perigoso de todos― Larry Williams. Como contaria em sua fantasiosa biografia, Quasar of Rock, é quase um milagre que Richard e Williams tenham evitado sérios aborrecimentos com policiais, traficantes e amantes despeitados.

Houve recaídas nas drogas e em sua muito flexível religião, até que em meados dos anos oitenta estabeleceu-se em Hollywood. Conseguiu fazer pontas em filmes de sucesso e se transformou em algo como o pastor favorito das celebridades, especializado em unir casais em matrimônio, com ambientação de rock n’roll. Podia entender melhor as extravagâncias dos milionários californianos do que os jogos do glam rock a partir da identidade sexual. De fato, durante temporadas detestou seu papel de ídolo gay: “Fazia isso para que os brancos aceitassem que era capaz de comover suas namoradas”.

Diante da indiferença do mercado, abandonou a gravação de discos, mas não os shows. Pude vê-lo em ação em um festival realizado em Gijón (Espanha) em 2005, quando esgotou a paciência dos organizadores ao exigir as chaves de uma igreja onde pudesse rezar em solidão. Para ir do camarim até o palco pediu um carro de luxo que chacoalhava por um terreno montanhoso, sem estradas. É verdade que, uma vez que encarou o público, parecia entrar em combustão. Como seus espectadores, que sentiram seus corpos renascerem. Esse era o verdadeiro prodígio do reverendo Penniman.


terça-feira, 5 de maio de 2020

Escritor chileno Luis Sepúlveda morre de covid-19 na Espanha


O escritor Luis Sepúlveda.
O escritor Luis Sepúlveda.foto de LUIS SEVLLANO ARRIBAS / EL PAÍS
PANDEMIA DE CORONAVÍRUS
Escritor chileno Luis Sepúlveda morre de covid-19 na Espanha

O romancista, que tinha 70 anos, foi um dos primeiros casos diagnosticados no país, no fim de fevereiro


EL PAÍS
Madri, 16 Ab 2020


O escritor Luis Sepúlveda (Ovalle, Chile, 1949) morreu nesta quinta-feira, aos 70 anos, no Hospital Universitário Central das Astúrias, no norte da Espanha. Ele foi um dos primeiros casos confirmados da covid-19 na Espanha e lutava havia um mês e meio contra a doença causada pelo novo coronavírus.

O autor de Um velho que lia romances de amor (Ática) começou a se sentir mal em 25 de fevereiro, e em seguida recebeu o diagnóstico de uma pneumonia aguda sem antecedentes. Uma vez confirmado o resultado positivo para o coronavírus, o paciente foi transferido para o hospital universitário em Oviedo, a capital regional.

Autor de mais de 20 romances, livros de viagem, guias e ensaios, Sepúlveda deixou o Chile em 1977 após sofrer represálias da ditadura de Augusto Pinochet. Depois de um longo périplo pela América Latina, que incluiu sua participação na revolução sandinista da Nicarágua (também esteve na Argentina, Uruguai e Brasil), em 1977 chegou a Gijón, na província de Astúrias.

Algumas de suas obras foram adaptadas para o cinema, como História de uma gaivota e do gato que a ensinou a voar, pelo italiano Enzo D’Alò e em versão animada, e Um velho que lia romances de amor, dirigida pelo holandês-australiano Rolf de Heer.

Sepúlveda sempre disse que tinha nascido “profundamente vermelho”. Militou em várias formações comunistas e socialistas, mas acabou desencantado. Foi um grande viajante: adorava pesquisar as diferentes culturas e etnias. “É o maior tesouro da espécie humana”, dizia sobre as idiossincrasias regionais. Com uma grande consciência ambiental, trabalhou em um dos navios do Greenpeace durante vários anos da década de 1980. Dedicou um de seus romances, Historia de un perro llamado Leal, ao povo mapuche, etnia de um de seus avós. “O povo mapuche é constantemente perseguido. Suas reivindicações, que são bastante justas, são respondidas com repressão e a aplicação de uma absurda legislação antiterrorista”, afirmou na apresentação do romance, em 2016. Seu último livro foi Historia de una ballena blanca, de 2019.

Durante sua longa carreira como escritor, recebeu cerca de 20 prêmios, entre eles o Pégaso de Ouro, em Florença, e o Prêmio da Crítica, no Chile. Era, além disso, Cavaleiro das Artes e Letras da República Francesa e doutor honoris causa pela Universidade de Urbino, na Itália.

Em um encontro com leitores do EL PAÍS, Sepúlveda definia assim o tratamento dos personagens de seus romances: “O bom romance foi a história dos perdedores, porque os ganhadores escreveram sua própria história. Cabe aos escritores sermos a voz dos esquecidos”.

Em outro momento da conversa, explicou sua técnica narrativa: “Movo-me inteiramente pela história que estou contando e gosto de ser muito fiel aos meus personagens, me apaixonar por eles, porque sei que o leitor, ao ler, vai sentir uma emoção muito parecida com a que sinto ao escrever, e isso é o mais lindo que tem a literatura, poder compartilhar emoções e poder compartilhar sensações”.

Deixa a mulher, Carmen Yáñez.



domingo, 3 de maio de 2020

Pandemia de coronavírus / Confinados sem gasolina na Venezuela

Um homem pede esmola sentado na avenida Libertador, na capital da Venezuela.
Um homem pede esmola sentado na avenida Libertador, na capital da Venezuela. 
PANDEMIA DE CORONAVÍRUS

Confinados sem gasolina na Venezuela


A grave escassez de combustível tornou ainda mais feroz a quarentena sob o regime de Nicolás Maduro. Nem sequer os trabalhadores de setores essenciais têm como se deslocar

Fotos de Andrea Hernández
2 MAI 2020



Às 7h da manhã de uma quarta-feira, com apenas três horas na fila, Freddy Herrera ainda faz planos para o dia. É técnico radiologista numa clínica privada e pela segunda vez tentava encher o tanque de 85 litros de uma Grand Cherokee ano 99, seu único carro. A caminhonete tem um número escrito a giz no para-brisa: 262. Sua esposa dormia dentro. Como trabalhador de um setor considerado essencial —o da saúde, junto com o alimentício, o funcionalismo público, os meios de comunicação e os militares—, tem direito a abastecer em alguns postos de gasolina de Caracas, que desde que começou a pandemia vive, como toda a Venezuela, uma aguda escassez de gasolina enquanto atravessa três meses de quarentena para frear a expansão da covid-19.
Herrera é diabético e hipertenso. Tem 60 anos e chega ao posto de máscara e com o macacão verde de técnico radiologista. Depois de um descanso, pretende retornar ao trabalho para ajustar os equipamentos que tiram as chapas que confirmam as pneumonias decorrentes do vírus. Ele está no grupo de risco, mas sua preocupação hoje é outra. “Se puder encher todo o tanque, poderei buscar meus filhos, que estão retidos há mais de um mês na casa dos avós em Guatire [a 50 quilômetros da cidade]. Se só me derem 20 litros, como estão dizendo, terei que esperar uma semana a mais e voltar a abastecer.” O dia está só começando.
Organizações médicas alertam sobre a escassa disponibilidade de respiradores em todo o país: não chegam a 200 unidades
Ele chegou pouco antes das 4h e, pelo número que lhe coube na fila que cerca o posto de gasolina, achou que tinha chegado tarde. Mas atrás da sua caminhonete em poucas horas se juntaram mais de 100 outros veículos. A fila se perde entre vários quarteirões em torno dos postos. Assim é desde que teve início o racionamento de gasolina. Hoje só foi suficiente para 200 carros.
Os venezuelanos, após 20 anos de revolução bolivariana, entendem muito de filas, racionamentos, listas de espera, pessoas numeradas por algum militar e mercados informais. Mas a Venezuela em quarentena também deixou cenas como a descoberta de um posto de gasolina clandestino em um bairro luxuoso de Caracas, brigas entre motoristas cansados de esperar e a fúria de um bando de motociclistas bloqueando vias expressas em sua sede por gasolina. Sem combustível, o país com as maiores reserva de petróleo parou.
A Venezuela enfrenta o coronavírus com uma grande opacidade epidemiológica, na qual chama a atenção uma reduzida capacidade de verificar os contágios, que em 20 de abril alcançavam 256 confirmados e 9 mortes. O Governo de Nicolás Maduro diz ter feito o maior número de testes na região: 25.000 por dia. Mas quase a totalidade é de testes rápidos, não recomendados para um diagnóstico conclusivo. Há apenas um laboratório capaz de processar 93 exames de PCR por dia em Caracas. Também se assegura que há 23.000 leitos disponíveis (sendo 1.200 de UTI) entre hospitais, clínicas privadas, ambulatórios e hotéis, mas organizações de médicos indicam que a disponibilidade de respiradores no país não chega a 200. Desde 17 de março se aplica uma quarentena que ficou mais severa pela grave escassez de combustível, que agora é racionado. Essa situação que, junto com a falta de insumos médicos e de proteção para o pessoal sanitário e falhas nos serviços básicos, como a água, acendeu protestos em todo o país. A companhia estatal Petróleos da Venezuela (PDVSA) não consegue produzir os 135.000 barris de gasolina consumidos diariamente. Na última década, uma feroz corrupção que também alimentou o contrabando e a má gestão da empresa levaram a capacidade de refino a apenas 55.000 barris nas duas refinarias que estão operacionais, das seis instaladas. O país que vendia a gasolina mais barata do mundo agora precisa importá-la e paga caro por ela.






Uma mulher cruza a avenida Bolívar em frente ao Palácio de Justiça em Caracas, Venezuela, o 26 de março de 2020.
Uma mulher cruza a avenida Bolívar em frente ao Palácio de Justiça em Caracas, Venezuela, o 26 de março de 2020. 


Sob essa tempestade, na mesma fila de gasolina com Herrera, espera José Martínez, dono de uma companhia de atendimento médico a domicílio que presta serviços à PDVSA, que lhe deve pagamentos há ano e meio. Mais perto da meta, cochilando, está Josefina Morón, enfermeira de um hospital. Saiu de um plantão para o qual teria que voltar ao anoitecer, mas ficou sem gasolina e teve que comprar dois litros de gasolina por 22 reais para conseguir chegar até o posto. À frente dela, María Dagher faz fila no lugar do filho, médico plantonista em um dos centros de referência para o atendimento dos pacientes da covid-19. “É um Deus nos acuda”, diz, tentando descrever o que seu filho testemunhou nos últimos dias. Com a senha 198 em mãos, aguardava Mercedes Pichardo, de 72 anos, bioanalista em um hospital sem água.
Maduro manobrou nos últimos anos para administrar a crise, e Caracas ainda não tinha sofrido do mal da gasolina que há anos assola o interior do país. Na capital, é longínqua a lembrança da paralisação que o setor empresarial e a oposição promoveram depois de tentar um golpe de Estado contra o projeto de Hugo Chávez e seus primeiros sinais autoritários: um calhamaço de leis habilitantes que lhe permitiriam governar por decreto e ter o controle centralizado da petroleira.
A falta de gasolina em todo o país tornou ainda mais rigoroso o distanciamento social provocado pelo novo vírus que já contaminou 197 venezuelanos, dos quais nove morreram, segundo os dados oficiais. A escassez de combustível também deixou a comida mais distante para 80% dos venezuelanos que não ganham o suficiente para comprá-la, para quem vive do que vendem a cada dia e não pode contratar um serviço de entrega a domicilio, e muito mais longe os remédios, que os doentes de câncer e Aids só conseguem após horas de viagem rodoviária até a fronteira com a Colômbia, agora cheias de controles onde são exigidos salvo-condutos.