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domingo, 30 de outubro de 2016

John Banville / O Príncipe das Astúrias das Letras

John Banville


John Banville, o Príncipe das Astúrias das Letras

O escritor irlandês, autor de obras como "O mar" e "Luz antiga" e da série de policiais noir com seu alter ego Benjamin Black superou autores como McEwan, Salter e Murakami


WINSTON MANRIQUE SABOGAL
Madri 4 JUN 2014 - 11:00 COT

Três escritores em um. Três mundos com claros-escuros: dois saídos de sua cabeça e outro, alheio, aumentado por ele. Esse é John Banville (Wexford, Irlanda, 1945). E foi quem ganhou o 34º Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014. Porque o romancista irlandês é o criador de deliciosos e inquietantes universos privados e emocionais em obras como Eclipse, O mar ou Luz antiga; também é o criador de zonas mais escuras com seu alter ego Benjamin Black nos romances policiais; e, não contente com isso, e sob o nome de Black se atreveu a reviver Philip Marlowe, o célebre detetive criado por Raymond Chandler.

O jurado destacou a "inteligente, profunda e original criação de sua obra e seu outro eu, Benjamin Black, autor de romances policiais perturbadores e críticos". A ata do juri conclui dizendo: "Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano." Banville superou candidaturas como as de Ian McEwan, James Salter e Haruki Murakami.
Ao conhecer a notícia, o escritor se emocionou e depois perguntou a sua editora na editora Alfaguara, María Fasce: "Então, o prêmio não será entregue pelo Príncipe, mas pelo Rei?" A pergunta se deve a que os Príncipes de Astúrias, Dom Felipe e Dona Letizia, terão sido coroados reis quando o prêmio for entregue em outubro. A entrega corresponderia a sua filha Leonor, de 8 anos. Neste momento, a Fundação Príncipe de Astúrias estuda se muda ou não o nome dos prêmios. As opções são: Prêmios Princesa de Astúrias ou Prêmios do Principado de Astúrias, como era originalmente.





ATA DO JÚRI


Reunido em Oviedo, o Júri do Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014, integrado por Xuan Bello Fernández, Amelia Castilla Alcolado, Juan Cruz Ruiz, Luis Alberto de Cuenca y Prado, José Luis García Martín, Álex Grijelmo García, Manuel Llorente Manchado, Rosa Navarro Durán, Carme Riera i Guilera, Fernando Rodríguez Lafuente, Fernando Sánchez Dragó, Ana Santos Aramburo, Diana Sorensen, Sergio Vila-Sanjuán Robert, presidido por D. José Manuel Blecua Perdices e atuando como secretário D. José Luis García Delgado, concorda em conceder o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014 ao romancista irlandês John Banville pela inteligente, profunda e original criação de sua obra, e seu outro eu, Benjamin Black, autor de perturbadores e críticos romances policiais.
A prosa de John Banville abre-se em deslumbrantes espaços líricos através de referências culturais onde os mitos clássicos são revitalizados e a beleza anda junto com a ironia. Ao mesmo tempo, mostra uma análise intensa de complexos seres humanos que nos prendem em sua descida à escuridão da vilania ou em sua fraternidade existencial. Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano.
Oviedo, 4 de junho de 2014

Silencioso, cauteloso, prudente, pausado, incisivo, elegante... Banville é um narrador que não apenas acredita no feitiço de contar uma história, também, e de maneira crucial, considera que a beleza do escrito é essencial. Suas obras retratam sentimentos, emoções e dúvidas do ser humano frente a situações íntimas e levam o leitor a se refletir nelas. "O único dever de um autor é escrever bons romances. Quando tentam misturar arte e política, pode ser que o resultado final seja má arte e má política", disse o escritor em um chat aos leitores de EL PAÍS, no ano passado. Banville ganhou o Prêmio Booker (por O mar) e outros prêmios como o Prêmio Allied Irish Bank Fiction por Kepler.
Até 2007, o autor irlandês era pouco conhecido na Espanha, mas era bastante cultuado. É a partir desse ano quando aparece seu alter ego,Benjamin Black, em O pecado de Christine, que sua popularidade começa a crescer. E já são sete romances com este narrador. Em uma entrevista a este jornal, em fevereiro último, para a promoção de The black-eyed blonde, disse que estava com uma idade na qual gostava de tentar coisas novas para não "murchar": "Sempre estou escrevendo um romance de Banville, mas sobra energia literária que derivo para Benjamin Black e, agora, para Chandler. Isso me diverte e estou em um momento no qual posso me permitir assumir riscos, fazer besteiras".
John Banville disse várias vezes que para ele escrever é como respirar. E ler é seu complemento, o ar... a viagem: "Quando comecei, era uma maneira de fugir da minha cidade, do meu tempo. À medida que continuava lendo descobri que era, na verdade, o caminho para entrar no mundo."
John Banville é hoje um dos poucos escritores que supera a si mesmo com cada novo livro, assegura sua editora na Espanha, María Fasce. "A prova é Luz antiga,mas também The black-eyed blonde, o último romance que assinou com seu pseudônimo para romances noir, Benjamin Black. Gosta de dizer que Black é um artesão e Banville um estilista: é só outra amostra de seu humor. Banville e Black nos fazem lembrar da mesma forma quanta beleza, prazer e emoção existe na literatura. Disse também que não se importa com os prêmios, mas me escreveu comovido com a notícia."
O Banville jornalista e crítico literário colabora em publicações como The New York Times Review of Books. Nascido na Irlanda em 1945, o escritor trabalhou na empresa aérea Aer Lingus. Nos anos setenta trabalhou como jornalista no diário Irish Press, até seu fechamento em 1995. Depois passou a subdiretor do Irish Times, com a dupla função de editor literário até 1999.
Banville se une à lista de ganhadores do Príncipe de Astúrias das Letras na qual estão autores como Mario Vargas Llosa, Antonio Muñoz Molina, Philip Roth, Margaret Atwood, Amoz Oz, Doris Lessing, Susan Sontag, Claudio Magris, Carlos Fuentes, Günter Grass, Álvaro Mutis, Claudio Rodríguez e Juan Rulfo.







BIBLIOGRAFIA


NARRATIVA
Long Lankin, relatos 1970
Nightspawn, 1971
Birchwood, 1973
Copérnico, 1976
Kepler, 1981
The Newton Letter, 1982
Mefisto, 1986
O livro das provas, 1989 - Record, 2002
Ghosts, 1993
The Broken Jug, 1994
Athena, 1995
O Intocável, 1997 - Record, 1999
Eclipse, 2000
O mar, 2005 - Nova Fronteira, 2007
Os infinitos, 2009 - Nova Fronteira, 2011
Luz antiga, 2012 - Biblioteca Azul, 2013
Como Benjamin Black
O pecado de Christine, 2006 - Rocco, 2011
O cisne de prata, 2007 - Rocco, 2013
The Lemur, 2008
Elegy for April, 2010
A Death in Summer, 2011
Vengeance, 2012
The Black-Eyed Blonde, 2014

EL PAÍS


FICCIONES


PESSOA

DRAGON


quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Relatório oficial / “Altamente provável” que Neruda tenha sido assassinado

Pablo Neruda

Relatório oficial: “altamente provável” que Neruda tenha sido assassinado



Até agora a morte do poeta, em setembro de 1973, era atribuída a um câncer de próstata


    Um documento oficial do Ministério do Interior do Governo do Chile reconhece pela primeira vez que é bem possível que Pablo Neruda tenha sido assassinado. Segundo o documento, ao qual EL PAÍS teve acesso, o poeta e Prêmio Nobel de Literatura de 1971 não morreu “em consequência do câncer de próstata de que padecia”, mas é “claramente possível e altamente provável a intervenção de terceiros”. Neruda morreu em 23 de setembro de 1973, um domingo, às 10 e meia da noite na Clínica Santa María, de Santiago, no Chile. Nesse dia, segundo “está comprovado no processo”, diz o documento oficial, aplicaram-lhe uma injeção ou o fizeram ingerir algo que teria precipitado a sua morte, seis horas e meia depois. Tudo isso, poucas horas antes de o Nobel partir em um avião rumo ao México, onde, como diz o texto do ministério, possivelmente iria liderar um Governo no exílio para denunciar a atuação do general Augusto Pinochet, que havia dado o golpe de Estado em 11 de setembro.
    Essas são as principais conclusões do documento que o Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior do Chile enviou ao magistrado Mario Carroza Espinosa, encarregado da investigação da morte de Pablo Neruda (1904-1973). O documento, com data de 25 de março de 2015, integra a parte confidencial do processo número 1.038-2011. Trata-se da principal revelação incluída na nova biografia de Neruda, escrita pelo historiador alicantino Mario Amorós e intitulada Neruda. El Príncipe de los Poetas. O livro será publicado pelas Ediciones B na próxima quarta-feira na Espanha e no dia 23 no Chile.
    Embora seja verdade que o juiz Carroza Espinosa tenha reconhecido a este jornal a série de coincidências e as provas testemunhais e documentais que levam o Governo a dar um parecer de alta probabilidade de assassinato, o magistrado não estará cem por cento seguro enquanto não tiver as provas científicas que corroborem o fato: “Nós sempre seguimos essa linha de que houve algo estranho nos últimos dias. Neruda tinha câncer, mas não estava agonizando nem em fase terminal. Ainda assim, em 23 de setembro seu mau estado de saúde se acelerou de repente e ele morreu em seis horas”. Mas há um penúltimo achado, e o juiz aguarda: “Estou à espera do resultado de uma última prova científica revelada em maio. Trata-se de uma bactéria, o gérmen do estafilococos aureus, achado no corpo do poeta. Ainda estou recolhendo antecedentes”. Essa bactéria não está presente nos tratamentos do câncer, é um microorganismo que alterado pode ser altamente tóxico e acelerar a morte em qualquer pessoa.
    Em decorrência do relatório e teoria do Programa de Direitos Humanos do Governo, diz Carroza Espinosa, foram iniciadas novas diligências, como a da ficha de ingresso de Neruda na clínica, e foram obtidos outros elementos.


    Atestado de óbito de Pablo Neruda.

    O chofer do poeta

    caso Neruda foi aberto em 2011, quando o motorista do poeta, Manuel Araya, denunciou o assassinato. Na época, o Partido Comunista do Chile apresentou uma queixa. Foi pedida a exumação do cadáver, o que foi feito em 8 de abril de 2013. A investigação científica foi entregue a uma equipe de especialistas internacionais, que em 9 de novembro desse mesmo ano afirmou em um parecer que não havia encontrado agentes ou substâncias estranhas, provenientes de envenenamento, no corpo do poeta. “Chegamos a uma conclusão técnica e científica que deve ser completada com a investigação judicial. A verdade final será determinada pelo juiz Mario Carroza. O que nós observamos é que “não encontramos restos de veneno’, mas isso não significa que não tenha sido envenenado, e outra equipe com outras técnicas pode achar restos”, afirma o médico-legista espanhol Francisco Etxeberria, que participou da investigação de 2013. Em março de 2015 o Governo chileno entregou seu relatório de “altamente provável intervenção de terceiros”, que está na parte confidencial do processo, e em maio uma nova prova científica detectou o gérmen do estafilococos aureus, sobre o qual a entrega do resultado tem como prazo março de 2016.
    Etxeberria, acadêmico da Faculdade de Medicina da Universidade do País Basco, que também participa desta segunda prova pericial, com médicos forenses e especialistas internacionais de países como Estados Unidos, Canadá, Espanha e outras nações europeias, assegura que o juiz Carroza Espinosa aceitou essa nova hipótese levando em conta a concatenação de coincidências e perseguições vividas por Pablo Neruda depois do golpe de Estado de Pinochet, em especial naquele domingo de sua morte. “Nesse dia ele está sozinho na clínica, onde já estava havia cinco dias, seu estado piora, telefona para sua mulher, Matilde Urrutia, para que vá imediatamente para lá porque diz que lhe aplicaram algo e não se sente bem. Por fim, morre pouco depois, para surpresa de todos, em uma clínica boa, e se estabelece a suspeita”, recorda Etxeberria. Quanto à nova prova, o médico acrescenta que “embora seja verdade que o gérmen do estafilococos aureus seja mais ou menos comum, se for alterado e aplicado em altas doses pode produzir a morte de uma pessoa”.
    O que a equipe científica analisa agora é algo inédito na ciência forense, explica Etxeberria: “Tentaremos identificar o DNA desse estafilococos aureus. Ou seja, estabelecer se é o comum da época e da zona, ou se foi manipulado. Há antecedentes disto em arsenais militares que alteraram a cepa. O que procuramos é muito difícil: se era um estafilococo alterado, tentaremos identificar o arsenal ou o país onde pode ter sido manipulado”. Além disso, recorda Etxeberria, há o antecedente da morte do ex-presidente chileno Eduardo Frei em janeiro de 1982, quando passou por uma cirurgia de hérnia de hiato. Dias depois, sua saúde piorou e ele morreu rapidamente, e falava-se de envenenamento. Sobre esse fato, o juiz Carroza Espionsa diz: “No governo militar trabalharam com substâncias químicas em laboratórios para eliminar pessoas, e o presidente Frei é uma das vítimas. O que se supõe é que isto pode ter sido iniciado tão logo começou o golpe de Estado, porque dias depois morreu Neruda, e no seu caso pode ter sido o gérmen”.

    O biógrafo

    A história dessa penúltima suspeita no caso de Pablo Neruda é contada por Mario Amorós, seu biógrafo: “O chefe da Área Jurídica do Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior, Rodrigo Lledó, deu a conhecer, em maio, o resultado do relatório proteômico de análise dos restos do poeta, que o doutor Aurelio Luna, catedrático de Medicina Legal e Forense da Universidade de Murcia, havia entregado ao magistrado Carroza. A perícia buscava estabelecer possíveis ‘agentes externos’ que pudessem ter sido administrados e ter acelerado sua morte”. O médico espanhol detectou o estafilococos aureus e esse é o resultado de laboratório que o magistrado Mario Carroza aguarda para ditar a sentença.
    Segundo o relatório do Programa de Direitos Humanos do Ministério do Interior do Chile, no dia anterior à viagem de Neruda ao México, o poeta “morre, atribuindo-se como causa da morte, sem maiores exames nem verificações, o câncer de que padecia. No entanto, é possível se perguntar se a doença aparece como causa efetiva da morte ou como mera justificativa de uma morte abrupta, cujo objetivo era impedir a viagem de D. Pablo Neruda ao México”.
    Em agosto, conta Amorós, a investigação judicial já acumulava mais de 2.400 páginas distribuídas em sete tomos e “a parte separada de relatórios e perícias abrangia quase 900 páginas em três volumes”.
    O biógrafo levou quatro anos e meio estudando a vida de Neruda. E quatro anos e meio demorou a investigação judicial. Logo, diz o escritor, “a equipe internacional de cientistas dirá se houve intervenção de terceiras pessoas na morte do poeta, ou seja, se a ditadura de Pinochet perpetrou o assassinato de Pablo Neruda por meio de uma injeção letal. Tudo estava preparado para sua viagem ao México, como me explicou o embaixador mexicano da época, Gonzalo Martínez Corbalá, e no exílio o poeta teria se convertido na principal voz de denúncia da junta militar. Neruda tinha somente 69 anos, e um mês antes o urologista que o atendia lhe havia dado uma esperança de vida de uns cinco anos em função do câncer de próstata. Foi o que disse em uma infinidade de ocasiões Matilde Urrutia, sua esposa. O golpe de Estado e a derrota da Unidade Popular, a morte do presidente Salvador Allende e a perseguição contra seus companheiros, cuja magnitude finalmente foi desvendada, o levaram a uma agonia física e emocional terrível”.
    As provas testemunhais e os fios condutores dos fatos daqueles dias levam ao diagnóstico do Governo chileno. No entanto, aquele 23 de setembro de 1973, em especial aquela tarde, está enevoada, cheia de meandros intrincados. Ninguém lembra que médico pode ter aplicado ou dado a Neruda aquela substância. O que parece comprovado é que a saúde do poeta se agravou depois de uma injeção e, como diz o documento oficial, seis horas depois ele morreu.




    segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

    Marga Gil Roësset / Já não consigo viver sem ti, Juan


    Juan Ramón Jiménez
    Juan Ramón Jiménez

    Já não consigo viver sem ti, Juan

    O comovente diário da escultora Marga Gil, que se apaixonou em segredo pelo poeta ganhador do Nobel, é editado 83 anos depois do suicídio dela




      A escultora e pintora espanhola Marga Gil Roësset, em 1932. / EL PAÍS
      “Não o leia agora.” Foram as últimas palavras que Marga Gil Roësset disse a Juan Ramón Jiménez, na casa desse premiado poeta espanhol, na rua Padilla, em Madri, enquanto deixava uma pasta amarela sobre a mesa de trabalho dele. Continha a revelação do seu amor impossível por ele, que a havia levado a uma decisão fatal. Marga saiu do escritório de Juan Ramón, dirigiu-se ao ateliê onde havia trabalhado nos últimos meses e destruiu todas as suas esculturas, exceto um busto de Zenobia Camprubí, a esposa do seu amado. “Não o leia agora...” Saiu de lá para cumprir o destino que havia previsto. Passou primeiro pelo parque do Retiro; depois apanhou um táxi até a casa de seus tios em Las Rozas, e lá disparou um tiro na têmpora.
      Era quinta-feira, 28 de julho de 1932. Ela tinha 24 anos; ele, 51. Oito meses antes, havia conhecido o poeta e a mulher dele, com quem estabeleceu uma sincera e afetuosa amizade. Mas dentro da jovem pintora e escultora, a quem Juan Ramón e Zenobia chamavam de “menina”, também cresceu em silêncio uma paixão amorosa não correspondida. Ameaçadora. Até que esse amor colonizou toda a sua vida e se transformou em tragédia.
      “…É que…
      Já não consigo mais viver sem você
      …Não… Já não consigo mais viver sem você…
      …Você, como consegue mesmo viver sem mim
      …Deve viver sem mim…”
      Esse desejo ela eternizou com sua letra angulosa, em uma das folhas guardadas na pasta que entregou a Juan Ramón Jiménez (1881-1958). Escreveu-as nas últimas semanas daquele verão espanhol. O autor respeitou o pedido. “Não o leia agora.” Um pouco de sombra cobriu seu coração para sempre. Um pouco de luz saiu dali para sua obra poética. Poucos meses depois do fato, ele quis homenageá-la publicando o manuscrito do diário de Gil, mas não conseguiu. Em 1936, ele se exilou de forma mais ou menos repentina, por causa da Guerra Civil. Agora, 83 anos depois do suicídio de Marga Gil e da vontade de Juan Ramón Jiménez (JRJ), esse desejo do poeta se torna realidade. Chama-se MargaEdición de Juan Ramón Jiménez, e foi lançado pela Fundação José Manuel Lara. Inclui um prólogo de Carmen Hernández-Pinzón, representante dos herdeiros de JRJ, um texto de Marga Clarck, sobrinha da artista, e escritos do poeta e da sua mulher sobre Marga Gil. Um relicário literário acompanhado por fac-símiles das anotações da escultora e vários de seus desenhos e fotos.


      Página do diário de Marga Gil Roësset. /EL PAÍS
      Amor, silêncio, alegria, desespero, amor. O desconcerto transparece no bilhete que a jovem deixou para Zenobia Camprubí: “Zenobita… você vai me perdoar... Eu me apaixonei por Juan Ramón! Embora gostar… e se apaixonar seja algo que acontece porque sim, sem que você tenha culpa... para mim pelo menos, pois assim aconteceu comigo... senti isso quando já era… natural… que se você se dedicasse a andar unicamente com pessoas que não a atraem... você eliminaria todo o perigo... mas isso é estúpido”.
      Essa confissão figurava nesse diário extraviado por muitíssimos anos – desde 1939, quando três assaltantes roubaram a casa de JRJ, que estava no exílio. O poeta, que ganharia o Nobel de Literatura em 1956, inquietava-se com o destino desses documentos. Sempre perguntava por eles a seu grande amigo Juan Guerrero. Quem conta isso é Carmen Hernández-Pinzón, filha de Francisco, sobrinho do escritor e representante de seus herdeiros. Parte dos manuscritos havia sido divulgada em 1997 pelo jornal ABC. O suicídio do Gil afetou muito JRJ e sua mulher. “Os dois ficaram muito abatidos, e ele não quis escrever durante um tempo. Nunca a esqueceram”, diz Carmen.
      Esse “Não o leia agora” é um aceno ao amor que revitaliza a vida e, por sua vez, esteriliza quem não é correspondido, enquanto vive de migalhas secretas que são o triunfo da sua existência:
      “…E você não me vê… nem sabe que eu vou… mas eu vou… minha mão… na minha outra mão… e tão contente…
      …Porque vou ao seu lado.”
      Agora todos sabem. E ela foi mais que esse feliz e fatal sussurro amoroso. “Quero que seja conhecida como a genial artista que foi e continua sendo. Muitas estudiosas e especialistas nas vanguardas do século XX dedicaram seu tempo a pesquisar sua obra”, conta Marga Clarck. Ela considera importante a publicação do diário, agora que a figura da sua tia começa a ser reconhecida. Acredita que servirá “para que ela possa navegar sozinha, pois sua obra é muito potente. E Juan Ramón queria que ela passasse à história como artista”.
      O poeta sabia. Esse amor desconhecido era parte feliz da sua vida, mesmo sem que ele pedisse. Era dele, também. Um canto da sua casa imortalizou esse amor. Depois da morte de Marga, mandou fazer um aparador de carvalho sobre o qual instalou o busto da Zenobia esculpido pela “menina”. O rosto do amor de sua vida, cinzelado pela mulher que não suportou viver sem ele.



      sábado, 7 de junho de 2014

      John Banville / O Príncipe das Astúrias das Letras


      John Banville

      John Banville, o Príncipe das Astúrias das Letras

      O escritor irlandês, autor de obras como "O mar" e "Luz antiga" e da série de policiais noir com seu alter ego Benjamin Black superou autores como McEwan, Salter e Murakami


      Três escritores em um. Três mundos com claros-escuros: dois saídos de sua cabeça e outro, alheio, aumentado por ele. Esse é John Banville (Wexford, Irlanda, 1945). E foi quem ganhou o 34º Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014. Porque o romancista irlandês é o criador de deliciosos e inquietantes universos privados e emocionais em obras como Eclipse, O mar ou Luz antiga; também é o criador de zonas mais escuras com seu alter ego Benjamin Black nos romances policiais; e, não contente com isso, e sob o nome de Black se atreveu a reviver Philip Marlowe, o célebre detetive criado por Raymond Chandler.
      O jurado destacou a "inteligente, profunda e original criação de sua obra e seu outro eu, Benjamin Black, autor de romances policiais perturbadores e críticos". A ata do juri conclui dizendo: "Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano." Banville superou candidaturas como as de Ian McEwan, James Salter e Haruki Murakami.
      Ao conhecer a notícia, o escritor se emocionou e depois perguntou a sua editora na editora Alfaguara, María Fasce: "Então, o prêmio não será entregue pelo Príncipe, mas pelo Rei?" A pergunta se deve a que os Príncipes de Astúrias, Dom Felipe e Dona Letizia, terão sido coroados reis quando o prêmio for entregue em outubro. A entrega corresponderia a sua filha Leonor, de 8 anos. Neste momento, a Fundação Príncipe de Astúrias estuda se muda ou não o nome dos prêmios. As opções são: Prêmios Princesa de Astúrias ou Prêmios do Principado de Astúrias, como era originalmente.

      Ata do júri

      Reunido em Oviedo, o Júri do Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014, integrado por Xuan Bello Fernández, Amelia Castilla Alcolado, Juan Cruz Ruiz, Luis Alberto de Cuenca y Prado, José Luis García Martín, Álex Grijelmo García, Manuel Llorente Manchado, Rosa Navarro Durán, Carme Riera i Guilera, Fernando Rodríguez Lafuente, Fernando Sánchez Dragó, Ana Santos Aramburo, Diana Sorensen, Sergio Vila-Sanjuán Robert, presidido por D. José Manuel Blecua Perdices e atuando como secretário D. José Luis García Delgado, concorda em conceder o Prêmio Príncipe de Astúrias das Letras 2014 ao romancista irlandês John Banville pela inteligente, profunda e original criação de sua obra, e seu outro eu, Benjamin Black, autor de perturbadores e críticos romances policiais.
      A prosa de John Banville abre-se em deslumbrantes espaços líricos através de referências culturais onde os mitos clássicos são revitalizados e a beleza anda junto com a ironia. Ao mesmo tempo, mostra uma análise intensa de complexos seres humanos que nos prendem em sua descida à escuridão da vilania ou em sua fraternidade existencial. Cada criação sua atrai e deleita pela maestria no desenvolvimento da trama e no domínio dos registros e matizes expressivos, e por sua reflexão sobre os segredos do coração humano.
      Oviedo, 4 de junho de 2014
      Silencioso, cauteloso, prudente, pausado, incisivo, elegante... Banville é um narrador que não apenas acredita no feitiço de contar uma história, também, e de maneira crucial, considera que a beleza do escrito é essencial. Suas obras retratam sentimentos, emoções e dúvidas do ser humano frente a situações íntimas e levam o leitor a se refletir nelas. "O único dever de um autor é escrever bons romances. Quando tentam misturar arte e política, pode ser que o resultado final seja má arte e má política", disse o escritor em um chat aos leitores de EL PAÍS, no ano passado. Banville ganhou o Prêmio Booker (por O mar) e outros prêmios como o Prêmio Allied Irish Bank Fiction por Kepler.
      Até 2007, o autor irlandês era pouco conhecido na Espanha, mas era bastante cultuado. É a partir desse ano quando aparece seu alter ego,Benjamin Black, em O pecado de Christine, que sua popularidade começa a crescer. E já são sete romances com este narrador. Em uma entrevista a este jornal, em fevereiro último, para a promoção de The black-eyed blonde, disse que estava com uma idade na qual gostava de tentar coisas novas para não "murchar": "Sempre estou escrevendo um romance de Banville, mas sobra energia literária que derivo para Benjamin Black e, agora, para Chandler. Isso me diverte e estou em um momento no qual posso me permitir assumir riscos, fazer besteiras".
      John Banville disse várias vezes que para ele escrever é como respirar. E ler é seu complemento, o ar... a viagem: "Quando comecei, era uma maneira de fugir da minha cidade, do meu tempo. À medida que continuava lendo descobri que era, na verdade, o caminho para entrar no mundo."
      John Banville é hoje um dos poucos escritores que supera a si mesmo com cada novo livro, assegura sua editora na Espanha, María Fasce. "A prova é Luz antiga, mas também The black-eyed blonde, o último romance que assinou com seu pseudônimo para romances noir, Benjamin Black. Gosta de dizer que Black é um artesão e Banville um estilista: é só outra amostra de seu humor. Banville e Black nos fazem lembrar da mesma forma quanta beleza, prazer e emoção existe na literatura. Disse também que não se importa com os prêmios, mas me escreveu comovido com a notícia."
      O Banville jornalista e crítico literário colabora em publicações como The New York Times Review of Books. Nascido na Irlanda em 1945, o escritor trabalhou na empresa aérea Aer Lingus. Nos anos setenta trabalhou como jornalista no diário Irish Press, até seu fechamento em 1995. Depois passou a subdiretor do Irish Times, com a dupla função de editor literário até 1999.
      Banville se une à lista de ganhadores do Príncipe de Astúrias das Letras na qual estão autores como Mario Vargas Llosa, Antonio Muñoz Molina, Philip Roth, Margaret Atwood, Amoz Oz, Doris Lessing, Susan Sontag, Claudio Magris, Carlos Fuentes, Günter Grass, Álvaro Mutis, Claudio Rodríguez e Juan Rulfo.

      Bibliografia

      NARRATIVA
      Long Lankin, relatos 1970
      Nightspawn, 1971
      Birchwood, 1973
      Copérnico, 1976
      Kepler, 1981
      The Newton Letter, 1982
      Mefisto, 1986
      O livro das provas, 1989 - Record, 2002
      Ghosts, 1993
      The Broken Jug, 1994
      Athena, 1995
      O Intocável, 1997 - Record, 1999
      Eclipse, 2000
      O mar, 2005 - Nova Fronteira, 2007
      Os infinitos, 2009 - Nova Fronteira, 2011
      Luz antiga, 2012 - Biblioteca Azul, 2013
      Como Benjamin Black
      O pecado de Christine, 2006 - Rocco, 2011
      O cisne de prata, 2007 - Rocco, 2013
      The Lemur, 2008
      Elegy for April, 2010
      A Death in Summer, 2011
      Vengeance, 2012
      The Black-Eyed Blonde, 2014


      sábado, 3 de maio de 2014

      Morre Gabriel García Márquez, gênio da literatura universal

      Gabriel García Márquez

      Morre Gabriel García Márquez, 

      gênio da literatura universal

      O escritor e jornalista colombiano morre na Cidade do México aos 87 anos. Obteve o Nobel em 1982 graças a obras como 'Cem anos de solidão'



      FRANCIS GIACOBETTI
      Sob um temporal extraviado, em 6 de março de 1927, nasceu Gabriel José García Márquez. Hoje, quinta-feira, 17 de abril de 2014, aos 87 anos, morreu o jornalista colombiano e um dos maiores escritores da literatura universal. Autor de obras clássicas como Cem Anos de SolidãoO Amor nos Tempos do CóleraNinguém Escreve ao Coronel,O Outono do Patriarca e Crônica de uma Morte Anunciada, foi o criador de um território sempre eterno e maravilhoso chamado Macondo.
      Nasceu na caribenha Aracataca, uma aldeia colombiana, em um domingo romanceável, e a partir daí o menino viveria uma infância à qual voltou muitas vezes e que o transformou em um dos grandes escritores de todos os tempos. Começou a escrever ficção em 1947, com o conto A Terceira Resignação; a glória chegou em 1967, com Cem Anos de Solidão, e sua confirmação em 1982, com o Nobel de Literatura. Agora, o afilhado mais extraordinário de Melquíades se foi, para ficar entre nós um homem que criou uma nova forma de narrar; um escritor que criou um universo e uma linguagem próprios, ampliando os limites da literatura; um jornalista que amava sua profissão, mas odiava as perguntas; uma pessoa que adorava os silêncios, e com um encanto que cativou intelectuais e políticos de várias gerações e enfeitiçou milhões de leitores em todo o mundo e de toda origem.

      LIVROS INESQUECÍVEIS
      García Márquez vendeu mais de 40 milhões de exemplares em mais de 30 idiomas.
      Romances: A Revoada (O Enterro do Diabo)(1955), Ninguém Escreve ao Coronel (1957), Má Hora (O Veneno da Madrugada) (1961), Cem Anos de Solidão (1967), O Outono do Patriarca(1975), Crônica de uma Morte Anunciada (1981),O Amor nos Tempos do Cólera (1985), O General em seu Labirinto (1989), Do Amor e Outros Demônios (1994), Memórias de Minhas Putas Tristes (2004).
      Grandes reportagens: Relato de Um Náufrago(1970), Noticia de Um Sequestro (1996), Obra Jornalística Completa (1999).
      Memórias (primeiro volume): Viver Para Contar(2002).
      Contos: Olhos de Cão Azul (1955), Os Funerais da Mamãe Grande (1962), A Incrível e Triste História de Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada (1972), Doze Contos Peregrinos(1992).
      Gabriel não era pra ser o seu nome. Iria se chamar Olegario. Acabavam de badalar os sinos dominicais da missa das nove quando os gritos da tia Francisca abriram caminho, entre o ruído do aguaceiro, pelo corredor das begônias:
      “Menino! Menino! [Tragam] rum, que está se afogando!” E novos alaridos envolveram a casa. Uma vez libertado do cordão umbilical enrolado no pescoço, as mulheres correram para batizar o menino com água benta. A primeira coisa que lhes veio à cabeça foi chamá-lo de Gabriel, pelo pai, e José, por ser o patrono de Aracataca. Ninguém tinha à mão o santoral. Do contrário, pelo santo do dia, teria se chamado Olegário García Márquez.
      Naquele domingo, 6 de março de 1927, Aracataca celebrou a chegada do primogênito de Luisa Santiaga e Gabriel Eligio. Foi o mais velho de 11 irmãos, sete homens e quatro mulheres. Embora na realidade, para os cataqueros, havia nascido o neto de Tranquilina Iguarán Cotes e do coronel Nicolás Ricardo Márquez Mejía, os avós maternos com quem se criou até os oito anos em uma terra coberta de bananais, sob sóis impiedosos do Caribe colombiano.