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quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Luciana Savaget / Marina colasanti

Luciana Savaget y Marina Colasanti


Luciana Savaget
MARINA COLASANTI


Marina Colasanti foi muito mais que uma companheira de viagem e escrita. Ela foi um presente que herdei da amizade com a minha mãe, uma dessas conexões raras que enriquecem a vida.

Sempre que nos encontrávamos, era uma festa. Marina era luz, inspiração e testemunha de muitos dos momentos importantes da minha trajetória.

Uma vez, em Cartagena, na Colômbia, ela insistiu que eu comprasse um par de brincos. “São esmeraldas! Compre, compre! Você vai ficar linda!” – dizia ela, com aquele entusiasmo contagiante. E sempre que nos víamos, perguntava pelas minhas “esmeraldas”, do tamanho de um grão de areia. Valor material? Nenhum. Mas o valor afetivo era imenso, porque era Marina quem os tornava preciosos.

Hoje, me despeço dela com o coração apertado. Marina não era apenas uma das escritoras mais brilhantes que conheci; ela era generosa, intensa e apaixonada pela vida.

Obrigada, Marina, por tantas memórias, tantas histórias e tanto amor. Você vai fazer falta, muita falta.

domingo, 18 de maio de 2014

Marina Colasanti / A moça tecelã


Marina Colasanti
A MOÇA TECELà

       Acordada ainda no escuro, como se houvesse o sol chegado atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se no tear.
        Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto la fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
        Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
        Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
        Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
        Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava seus dias.
        Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidados de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranquila.
        Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
       Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao lado.
       Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbeado, corpo emprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.
        Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.
        Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
        E feliz foi, por algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
        - Uma casa melhor é necessária – disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
        Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. -Por que ter casa, se podemos ter palácio? -Perguntou. Sem querer resposta, mediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates de prata.
        Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
        Afinal, o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
        – É para que ninguém saiba do tapete – disse. E antes de trancar a porta a chave advertiu: - Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
        Sem descanso tecia a mulher caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que queria fazer.
        E tecendo, ela própia trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
        Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça para não fazer barulho, subiu a longa escada do torrre, sentou-se ao tear.
        Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a defazer seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
        A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou, e espantado olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe o corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
        Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

Marina Colasanti
Doze reis e a moça no labirinto do vento
Rio de Janeiro, Nórdica, 1985

Contos Brasileiros Contemporâneos
 São Paulo, Editora Moderna, 1991, p. 56-57



terça-feira, 30 de julho de 2013

Marina Colasanti / Dois poemas


Portada del libro

Marina Colasanti
DOIS POEMAS

No escuro manchado de luz
Em noites de lua cheia
é tão intensa a vida
no jardim
que durmo aflita
como quando adormeço
no cinema
e a história leva adiante
amor e lutas
além das minhas pálpebras
fechadas
.


Foto de Marina Colasanti
Marina Colasanti

Antes de virar gigante
No tempo d'eu menina
os corredores eram longos
as mesas altas
as camas enormes.
A colher não cabia
na minha boca
e a tigela de sopa
era sempre mais funda
do que a fome.
No tempo d'eu menina
só gigantes moravam
lá em casa.
Menos meu irmão e eu
que éramos gente grande
vinda de Lilliput.



segunda-feira, 29 de julho de 2013

Marina Colasanti / Frutos e flores


Una mancha de helado
Washington Square, New York, 2012
Foto de Triunfo Arciniegas

Marina Colasanti
FRUTOS E FLORES

Meu amado me diz
que sou como maçã
cortada ao meio.
As sementes eu tenho
é bem verdade.
E a simetria das curvas.
Tive um certo rubor
na pele lisa
que não sei
se ainda tenho.
Mas se em abril floresce
a macieira
eu maçã feita
e pra lá de madura
ainda me desdobro
em brancas flores
cada vez que sua faca
me traspassa.




domingo, 28 de julho de 2013

Marina Colasanti / Morte sob o sol



Marina Colasanti
Morte sob o sol

Quando se abate uma casa
não se crava o machado de um só golpe
bem junto da raiz.
Nem é de pé que ela cai
com suas ramagens.
Uma casa
se mata devagar.

Extirpa-se primerio o corrimão da escada
abrindo para a queda os inúteis degraus.
Retiram-se as ferragens
as madeiras internas.
Depois se arrancam portas e janelas
vazam-se na fachada os alizares cegos.
E quem passa já sabe.
Aquí nã mais se mora.
Só então é a vez das telhas
esfoladas sem sangue uma por uma.

Ossos à mostra
Jaz
mais que morto
o descarnado esqueleto
no jardim.
Crua laparotomia dos meus fantasmas
a casa em que vivi é posta abaixo.
Vão-se os espectros todos sem abrigo
desfazendo as imágenes superpostas.
Vão nossos son gravados na poeira.
E as palavras
palavras tantas que fiamos juntos
e que as paredes guardam entranhadas
são desfeitas a golpes de marreta.



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Marina Colasanti / Morcego


Marina Colasanti
O MORCEGO

Nas beiradas de noite
esvoeja o morcego
meu coração desasado
não no tem sossego.


Marina Colasanti
Classificados e nem tanto
Galerinha Record, Rio de Janeiro, 2010




sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Marina Colasanti / Sereia

Para Ana Maria Santeiro
Ilustración de Marina Colasanti
Rio de Janeiro, 6 de febrero de 2013
Marina Colasanti
SEREIA

Abro a torneira

y na banheira
meneia
minha alma de sereia.


Marina Colasanti
Classificados e nem tanto
Galerinha Record, Rio de Janeiro, 2010




quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Marina Colasanti / Gato

Lele
Rio de Janeiro
Foto de Triunfo Arciniegas
Marina Colasanti
GATO

Tigre é tudo o que

o gato quer ser
quando crescer.


Marina Colasanti
Classificados e nem tanto
Galerinha Record, Rio de Janeiro, 2010