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domingo, 7 de junho de 2015

O aprendizado do sexo em "Paixão Selvagem"

Jane Birkin

O APRENDIZADO DO SEXO 

EM "PAIXÃO SELVAGEM"


PUBLICADO EM CINEMA POR CRISTIANO CONTREIRAS

Filme polêmico e ousado de Serge Gainsbourg cria tensão sexual através de uma relação erótica entre a então sua esposa e cantora, Jane Birkin, com o ícone fetichista da subcultura gay, Joe Dallessndro. "Paixão Selvagem" ainda é uma abordagem crua e instigante sobre a força de um relacionamento firmado em sensos mais carnais.

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No fim da década de 1960, o cantor Serge Gainsgourg já era popular por conta de seu vício em álcool, cigarros e constante polêmica em relação a uma vida caracterizada por escândalos sexuais envolvendo orgias e casos tórridos com mulheres. Era perceptível sua vulnerabilidade em dois quesitos — a paixão pela música e o vício no sexo feminino. O apelo libidinal em volta de sua figura na mídia foi potencializada quando casou-se com a então modelo inglesa Jane Birkin (através desse envolvimento nasceu Charlotte Gainsbourg), ambos passaram a produzir diversos discos juntos, além da famosa canção erótica “Je t'aime, moi non plus” — tornou-se febre e encabeçou o topo de paradas de sucessos em rádios no mundo. A mídia mediava essa relação dos dois e creditava como símbolo de explosão do sexo e sentimento.
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Durante o período que foram casados, justamente esse apelo carnal era algo que mais a mídia trazia à tona. Diversos jornais e revistas faziam questão de explorar o lado mais quente, a prova de que ali existia um envolvimento de proporção sexual sem precedentes — existia a lenda que Gainsbourg tinha um vício imoderado por sexo e que a compulsão era também um problema para o matrimônio. Paralelo a isso, o ator americano Joe Dallesandro era considerado o modelo sexual masculino mais proeminente de vários filmes independentes americanos do século XX, um símbolo fetichista da subcultura gay. Envolveu-se com trabalhos fotográficos de erotismo conceitual e foi muso/galã de Andy Warhol em várias produções dele.
O soft-porn "Paixão Selvagem" foi uma produção idealizada, musicada e dirigida por Gainsbourg e que gerou bastante polêmica no terreno francês por conta de suas intenções maliciosas, sem tabus; um exercício de sexualidade e desejos obscuros. A película trouxe Jane Birkin e Joe Dallessandro como personificações da sensualidade hormonal, bem condizente com aquele momento onde essas duas figuras eram símbolos perfeitos da sedução na mídia.
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No filme, Dallessandro é Krassky, um caminhoneiro homossexual que trabalha com seu namorado transportando lixo, Padovan (Hugues Quester). O que parecia uma relação pacífica e também dotada de tédio, torna-se um senso conflituoso quando Krassky depara-se com uma garçonete andrógina numa beira de estrada, Johnny (Birkin). A aparência um tanto masculinizada, misteriosa e tímida da mulher, faz com que Krassky demonstre certo fascínio e admiração por ela, além de um gradual tesão que faz com que seu relacionamento gay gere um curto-circuito. O roteiro não tem receios e é objetivo em logo escancarar esse interesse mútuo de um homossexual por uma mulher de corpo esguio, quase sem seios, cabelos curtos e sem contornos femininos.
O filme é interessante em demonstrar esse calor inicial, já que a primeira metade centra-se mais nas percepções de cada um, para depois promover um exercício mais carnal e de sexualidade violenta na relação tensa que vai desabrochar. Krassky claramente sente desejo por Johhny por conta de sua aparência mais associada à masculinidade — porém, ao passo que o roteiro tende a criar um envolvimento mais íntimo e emocional entre ambos, como na bela seqüência que os dois dançam e se beijam demoradamente ao som de “Je t'aime, moi non plus”, o público percebe que ali possa existir algo que não se centra, apenas, na modulação de um envolvimento carnal.
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O roteiro traça a gradual sedução do casal desde o primeiro contato até a primeira transa, quando fica evidente que Krassky só conseguirá sentir-se excitado com o sexo anal — obviamente, por ser gay ativo, não consegue sentir nenhum desejo pelo corpo feminino, só tendo prazer através dessa prática sexual, tendo, no caso, a fêmea ali despida e entregue a ele de costas. Daí surge boa parte do desconforto que a obra transmite ao espectador, além da polêmica subversiva por adentrar a um sexo mais selvagem e até masoquista do casal.
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Cinema marginal?
Indubitavelmente, "Paixão Selvagem" não é um estudo sobre um romance de um homossexual com uma hétero, quem espera aqui um traço profundo de envolvimento mais poético e sensível pode se frustrar. A relação de dos dois é de uma frieza carnal absurda, selvagem e ríspida. Muitos questionaram a intenção de Gainsbourg e sua provável falta de tato na maneira como aborda o sexo e os diálogos dos dois, mas o cineasta decide aqui investigar a problemática situação de um envolvimento sexual de duas pessoas tão opostas e de perspectivas divergentes, mas em busca de um orgasmo mútuo. A dificuldade de um homossexual sentir prazer através do sexo com uma mulher, conceito tão abordado já em outros filmes, aqui ganha um contorno mais apelativo já que o roteiro prefere permanecer na fissura do sexo anal — diversas cenas onde Krassky tenta sodomizar Johnny em motéis precários, num processo doloroso já que a moça sofre dores diversas e os gritos são constantes, impossibilitando a consumação total e fazendo com que ambos sejam, constantemente, expulsos dos locais por conta dos “barulhos e gritos” que fazem. E, ironicamente, sentimos que a barreira para o casal viabilizar o amor se condiciona neste aprendizado de coito tão difícil. De fato, é um filme que trata o prazer de maneira mais árdua, cruel e brutal; talvez por isso muitos considerassem a obra um tanto doentia. Não há um tom suave, nem muito menos delicado na aproximação desses amantes.
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Com uma premissa tão transgressora e marginal, além de um senso de estética meio "suja" e underground, câmera na mão e cenas onde os atores parecem improvisar — já que os diálogos são fluídos e carregados de uma naturalidade informal —, este filme discute muito bem os traços dos tabus da sexualidade colocando um casal tão improvável numa relação provocativa. Há certos diálogos que beiram à vulgaridade por conta da provocação articulada, mas não é algo que proporcione uma repulsa. Ademais, há ainda espaço para mostrar questões que envolvem a homofobia — o namorado enciumado de Krassky sofre violência física por parte de alguns moradores da localidade — e indagações sobre o papel da submissão feminina.
Fica visível que Johnny se submete a uma transa desagradável, a típica demonstração de mulher que aceita servir a um homem egoísta — já que este só quer o sexo dessa forma, sem se preocupar com sua parceira. Mas, no fim, o que fica mais nítido é que não há como sustentar uma relação se o sexo não for tão primário e em sintonia, além de que o sentimento deve ser privilegiado. O filme é objetivo, sem muitos adornos tanto na concepção fotográfica quanto no aspecto do desenvolvimento narrativo, mas é eficaz no que pretende: colocar uma relação tão rude e desprovida de delicadeza. O sexo aqui é um elemento tão necessário, mas o que deixa rastros é como a humanidade ainda sofre pela carência. Filme plenamente controverso, ousado e astuto.

OBVIOUS


domingo, 1 de setembro de 2013

Mulheres / Jane Birkin I



MULHERES
Jane Birkin
















Jane Birkin, 1969Jane Birkin by David Bailey, 1969
tumJane Birkin by David Bailey, 1965
Jane Birkin by Jeanloup Sieff,Rome, Italy, Harper’s Bazaar, 1966Jane Birkin by Jeanloup Sieff, Rome, Italy, Harper’s Bazaar, 1966
jane-birkin-textJane Birkin – Je T’aime Moi Non Plus
JANE BIRKIN PORTRAIT EXTERIEUR EN 1973Jane Birkin by Francois Gaillard, 1973
Jane Birkin by Patrick Lichfield, 1969Jane Birkin by Patrick Lichfield, 1969