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quinta-feira, 11 de junho de 2026

Palavra e contexto / Como o sentido nasce e em quê se transforma


Árvore genealógica. Não se pode negar que, dependendo do contexto, o significado mais ou menos permanente que aquelas palavras possuem pode se alterar. Árvore na expressão árvore genealógica já não designa um vegetal lenhoso. Branco pode referir-se a uma determinada etnia, cadeira pode significar uma disciplina, ou os quadris
Árvore genealógica. Não se pode negar que, dependendo do contexto, o significado mais ou menos permanente que aquelas palavras possuem pode se alterar. Árvore na expressão árvore genealógica já não designa um vegetal lenhoso. Branco pode referir-se a uma determinada etnia, cadeira pode significar uma disciplina, ou os quadris


Palavra e contexto

Como o sentido nasce e em quê se transforma

2 MAIO 2026, 


Não há como negar que grande parte das palavras tem significado independentemente do contexto. Somos capazes de atribuir um significado a palavras como árvore, branco, cadeira e café mesmo que elas apareçam isoladas, já que elas têm significados mais ou menos permanentes. 

quarta-feira, 10 de junho de 2026

Literatura e arte / Diferentes perspectivas sobre o que chamamos de arte


A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático
A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático

Literatura e arte

Diferentes perspectivas sobre o que chamamos de arte

2 JUNHO 2026, 

A definição mais comum de literatura é que se trata de uma forma de arte que tem por matéria-prima a palavra. Essa definição, no entanto, parece não resolver o problema de se conceituar com precisão o que é literatura, na medida em que leva a uma discussão mais ampla: o que é arte? 

terça-feira, 14 de abril de 2026

A ficção da objetividade em textos jornalísticos / Entre a narrativa dos fatos e a interpretação

 




A ficção da objetividade em textos jornalísticos 

Entre a narrativa dos fatos e a interpretação

2 JANEIRO 2026, 
ERNANI TERRA
 
O leitor deve estar atento às marcas linguísticas de subjetividade presentes em textos jornalísticos, particularmente naqueles em que a objetividade e a imparcialidade deveriam ser uma de suas características principais; no caso, as notícias, identificando opiniões em textos que, teoricamente, deveriam passar aos leitores uma exposição que tendesse o mais possível à objetividade. A percepção da subjetividade nos textos é algo que pode e deve ser aprendido. Nesse sentido, a escola assume uma função muito importante para a formação de leitores críticos
O leitor deve estar atento às marcas linguísticas de subjetividade presentes em textos jornalísticos, particularmente naqueles em que a objetividade e a imparcialidade deveriam ser uma de suas características principais; no caso, as notícias, identificando opiniões em textos que, teoricamente, deveriam passar aos leitores uma exposição que tendesse o mais possível à objetividade. A percepção da subjetividade nos textos é algo que pode e deve ser aprendido. Nesse sentido, a escola assume uma função muito importante para a formação de leitores críticos

No artigo, discuto que, embora persigam um ideal de objetividade e de imparcialidade, notícias de jornal, mesmo as da imprensa dita séria, trazem em si marcas de subjetividade. 

domingo, 12 de abril de 2026

Um gênero narrativo / O miniconto


O miniconto é um gênero textual que guarda certa semelhança com as piadas e os provérbios. Como as piadas, minicontos são narrativas breves com final surpreendente. Muitos provérbios são, de certa forma, micronarrativas. Um importante filósofo alemão afirmava que provérbios são ruínas de antigas narrativas
O miniconto é um gênero textual que guarda certa semelhança com as piadas e os provérbios. Como as piadas, minicontos são narrativas breves com final surpreendente. Muitos provérbios são, de certa forma, micronarrativas. Um importante filósofo alemão afirmava que provérbios são ruínas de antigas narrativas


Um gênero narrativo

O miniconto

2 FEVEREIRO 2026, 


Ao contrário do que muita gente imagina, o miniconto não surgiu por causa das redes sociais, especialmente do X, (o antigo Twitter). Muito antes da internet, o gênero já circulava, não com a rapidez de hoje, é claro. Franz Kafka, escritor checo de língua alemã, falecido em 1924 e Ernest Hemingway, um excepcional contista norte-americano, falecido em 1961, escreveram minicontos; Augusto Monterroso, um escritor hondurenho, publicou O dinossauro, um dos minicontos mais conhecidos em 1959. 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

A poesia lírica / Como o eu lírico transforma linguagem em emoção


Há casos em que a poesia lírica não está voltada para o subjetivo, mas para a realidade objetiva e outros em que trata da passagem da objetividade para a subjetividade. Mesmo quando deixaram de ser acompanhados por instrumentos musicais, os poemas líricos mantiveram o aspecto musical, reforçado pelo uso de recursos sonoros, como o ritmo, a métrica, as rimas, o refrão etc. Os poemas líricos podem se apresentar em várias formas, fixas ou livres. Como exemplo de forma fixa, podemos citar o soneto e o rondó
Há casos em que a poesia lírica não está voltada para o subjetivo, mas para a realidade objetiva e outros em que trata da passagem da objetividade para a subjetividade. Mesmo quando deixaram de ser acompanhados por instrumentos musicais, os poemas líricos mantiveram o aspecto musical, reforçado pelo uso de recursos sonoros, como o ritmo, a métrica, as rimas, o refrão etc. Os poemas líricos podem se apresentar em várias formas, fixas ou livres. Como exemplo de forma fixa, podemos citar o soneto e o rondó

A poesia lírica

Como o eu lírico transforma linguagem em emoção

2 MARÇO 2026, 

O adjetivo lírico provém de lira, instrumento musical de cordas. O nome lírico se explica em razão de esse gênero, originalmente, ser cantado tendo por acompanhamento o som produzido por instrumentos musicais como a flauta e a lira. O gênero lírico costuma estar centrado no individual, por isso tende a se voltar para a subjetividade, para a emoção, para o sensível. Quem fala no poema, por meio de versos, é um eu individualizado, por isso mesmo chamado de eu lírico, que, como o narrador nos romances, contos e novelas, não deve ser confundido com o autor empírico. 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

O gênero épico e suas vozes / Autor empírico, autor textual e narrador

 

O autor textual é o enunciador no texto literário e pode delegar a função de enunciador a um narrador ou mais de um narrador. No caso das narrativas com narrador não explicitado, esse se confunde com o autor textual. Como essas entidades são ontologicamente distintas, pode haver entre eles distâncias, particularmente de natureza ideológica, de onde não se pode julgar o autor empírico pelo autor textual


O gênero épico e suas vozes

Autor empírico, autor textual e narrador

2 ABRIL 2026, 

O que caracteriza o gênero épico é o fato de contar algo em prosa ou verso, por isso se trata de um gênero essencialmente narrativo. A presença de um narrador é condição essencial do gênero épico. O narrador é o autor da obra? Nas narrativas ficcionais, não. O autor é o sujeito empírico, ou seja, o indivíduo biológico com responsabilidades jurídicas e sociais cujo nome (ou pseudônimo) aparece na capa e/ou no frontispício da obra (Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, José Saramago, Marques Rabelo), a quem cabe a autoria em todas as suas instâncias, quer a direitos, quer a deveres. Em sua atividade, o autor empírico, entidade real, é o responsável pelas estratégias discursivas: escolha de um autor textual, do(s) narrador(es), gênero, tema, personagens etc. 

terça-feira, 11 de julho de 2023

O que é mesmo literatura? / Entre tentativas de resumi-la e acepções plurais

 



O que é mesmo literatura?

Entre tentativas de resumi-la e acepções plurais

2 JUNHO 2023, 

Invariavelmente, em aulas e palestras, me fazem perguntas como estas: o que faz com que um texto escrito seja considerado literário? O que distingue um texto literário de um não literário? Por que obras de Flaubert, Dostoiévski, Machado de Assis, Guimarães Rosa e Clarice Lispector são consideradas literárias e livros de Paulo Coelho, Dan Brown e John Grismann não? Essas perguntas podem ser resumidas numa só: mas o que é mesmo literatura?

Essa é uma daquelas perguntas que não são fáceis de responder, pois a conceituação do que é literário varia muito, até mesmo entre estudiosos do tema. A professora Leyla Perrone-Moysés, na apresentação de seu livro Mutações da literatura no século XXI, é clara nesse sentido, ao afirmar que:

Fala-se em literatura como se todos soubessem do que se trata. Mas na verdade não existe um conceito de literatura, mas acepções que variam de uma época a outra.

Não há uma resposta simples e objetiva para aquelas indagações, pois não há um único critério que permita classificar um texto como literatura. O que faz com que um texto seja considerado literário não são aspectos apenas imanentes, isto é, relativos apenas a obra em si mesma. Existem também fatores institucionais que se levam em conta na classificação de uma obra como sendo literatura. Por esse critério, considera-se literário aquilo que é legitimado e proclamado como tal pela crítica, pela universidade, pelos intelectuais, pela escola. Como o conceito de literário varia de época para época e de sociedade para sociedade, o que é hoje legitimado por essas instâncias como literário não significa que sempre tenha sido assim. Autores como Edgar Allan Poe, Flaubert e Balzac, hoje expoentes da literatura ocidental, tiveram, cada um em sua época, sua obra depreciada e não reconhecida como literária.

Para orientar aos que me perguntam, tenho preferido discutir os critérios que se usam para alçar uma obra à categoria do literário e, por extensão, excluir outras, além de apelar para o bom senso e bom gosto daqueles que me perguntam.

Numa perspectiva que leva em conta a imanência do texto, foca-se na obra em si mesma e abstraem-se aspectos exteriores a ela, aquilo transcende a obra, como autor, época, gênero, etc. Aqueles que adotam o critério imanentista postulam que textos literários se caracterizam pela literariedade, ou seja, que existiriam certas características, especialmente linguísticas, que permitiriam classificar um texto como literário.

Consideram que a literatura apresenta uma linguagem especial, que se afasta da chamada linguagem ordinária. A linguagem literária seria, por assim dizer, uma linguagem que vai além do conteúdo informacional, aquilo que se diz, voltando-se para a forma como se diz, explorando seus aspectos sensíveis como a sonoridade e a forma de se combinarem palavras e frases. Em síntese: a linguagem literária seria uma linguagem que se volta para si mesma, que enfatiza a expressão, ou seja, o como se diz.

O linguista Roman Jakobson, num texto que se tornou clássico, Linguística e poética, chamou esse uso da linguagem de função poética. Como o próprio nome indica, ela é mais facilmente identificada na poesia, pois nesse gênero de texto a expressão é bastante enfatizada mediante recursos sonoros e rítmicos, como nestes versos de Fernando Pessoa:

Mas em torno à tarde se entorna
A atordoar o ar que arde
Que a eterna tarde já não torna!

Embora menos frequente, recursos sonoros são também explorados em textos em prosa como nessa passagem de Clarice Lispector:

A vigília da barata era vida vivendo, a minha própria vida vigilante se vivendo.

A função poética, apesar do nome, não é exclusiva de textos literários, podendo ser observada em outra esferas, como na publicidade, em canções e ditados populares que também exploram a sonoridade da expressão linguística. Evidentemente, não podemos reduzir a linguagem literária apenas a aspectos relativos à sonoridade da expressão linguística, pois ela explora também aspectos sintáticos e semânticos, combinando palavras de maneiras diferentes do usual e explorando novos significados para as palavras, ou seja, a linguagem literária faz uso também das chamadas figuras de retórica. Quando Machado de Assis, em Dom Casmurro, diz que na missa:

Havia homens e mulheres, velhos e moços, sedas e chitas, e provavelmente olhos feios e belos, mas eu não vi uns nem outros, as palavras sedas e chitas ganham novos significados, revelando que entre as pessoas presentes havia ricos e pobres.

Assim como o destaque à sonoridade dos textos, as formas inusuais de combinar palavras e de explorar novos sentidos para elas, não são monopólio da literatura. Isso revela que classificar um texto como literário apenas a partir do uso especial da linguagem não é critério suficiente para afirmar que um texto pertence à literatura, o que nos obriga a não ficar restrito a um único critério.

Quando nos apoiamos em fatores institucionais para legitimar uma obra como literária, o critério é da ordem da transcendência, pois levamos em conta fatores exteriores a ela, ou seja, saímos do texto, mas sem desconsiderá-lo, recorrendo a elementos contextuais. Com base nesse critério, consideramos literatura aquilo que as fontes legitimadoras definem como tal. Mas quem são essas fontes que têm autoridade e legitimidade para dizer que uma obra é ou não literária? São, basicamente, a academia, a crítica literária e a intelectualidade. A escola, embora não seja propriamente uma fonte legitimadora, tem papel relevante em legitimar o que é literário, pois afiança e reverbera a legitimação, exercendo papel importante na formação de leitores literários e na divulgação e preservação de um cânone.

Há ainda quem procure resolver a questão do que é literatura afirmando que ela é do domínio da arte, que o texto literário se diferencia dos demais por ser um texto artístico, que, portanto, tem por finalidade a fruição, o prazer estético. Essa definição, no entanto, nos leva a uma discussão mais ampla: mas o que, afinal, é arte?

MEER




sábado, 8 de julho de 2023

O conto, um gênero narrativo / "Limitado" à sua estrutura, o conto inaugura diversas possibilidades de fruição

 


O conto, um gênero narrativo

"Limitado" à sua estrutura, o conto inaugura diversas possibilidades de fruição

2 MAIO 2023, 

As narrativas começam com a própria história da humanidade e fazem parte de todas as civilizações e apresentam-se sob os mais variados gêneros: mito, lenda, fábula, conto, novela, romance, histórias em quadrinhos, cinema, etc.

Roland Barthes, no texto Introdução à análise estrutural da narrativa afirma que:

não há em parte alguma povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos humanos têm suas narrativas…

Sobre o papel das narrativas, o escritor austríaco Robert Musil (1880 – 1942), em sua obra mais conhecida, o romance O homem sem qualidades, afirma que

no relacionamento básico com si mesmo, a maioria dos homens são contadores de histórias.

As narrativas materializam-se em textos, eles sejam verbais orais ou escritos, não verbais e mistos, aqueles que misturam linguagens diferentes, como as histórias em quadrinhos. As reflexões sobre a narrativa que apresento neste artigo restringem-se a textos exclusivamente verbais.

Dispomos de uma competência narrativa. Isso significa que conseguimos distinguir textos que contam uma história dos que não contam. Somos também capazes de reconhecer versões diferentes de uma mesma história, de resumi-la, de contá-la para outros e de reconhecer quem é o narrador. As narrativas podem se referir a um fato real ou imaginário. O fato narrado em geral é uma ação atribuída a agente humano ou antropomorfizado (como nas fábulas). A principal característica das narrativas literárias é o fato de serem ficcionais. Suas formas mais comuns na atualidade são o conto, o romance e a novela. Como adiantei no título, neste artigo trato apenas do conto.

O Conto

O conto é um gênero narrativo que costuma ter sido definido pela sua extensão, o que determina que possua, quanto à sua estrutura, características especiais, que o diferenciam de outras formas narrativas em prosa (novela e romance). Não há propriamente uma definição de conto, o melhor seria dizer que há teorias do conto, enquadradas numa teoria mais ampla, a narratologia, que é o estudo das formas narrativas literárias e não literárias.

Mário de Andrade (1893 – 1945), para quem conto é aquilo que seu autor batizou de conto, já chamava a atenção para esse fato ao iniciar seu conto Vestida de negro com a seguinte afirmação:

Tanto andam agora preocupados em definir o conto que não sei bem se o que vou contar é conto ou não, sei que é verdade.

O conto, assim como os outros gêneros, se manifesta de formas diferentes dependendo do autor e da época. Isso é visível quando se compara um conto recolhido pelos irmãos Grimm a contos de Cortázar, Hemingway, Borges, Dalton Trevisan, Clarice Lispector, por exemplo. Por isso não apresento uma definição de conto. Prefiro, apoiado em alguns autores e teorias sobre o conto, apresentar as características desse gênero literário, por meio de analogias a outras formas narrativas, particularmente o romance.

O conto é uma narrativa condensada (em inglês é denominado short-story), que apresenta um número pequeno de personagens, unidade de tempo restrito, normalmente centrado em um único evento, abdicando de análises minuciosas, digressões e descrições pormenorizadas. Se o romance é um gênero ligado à tradição escrita, o conto tem, como assinalei, suas origens na tradição oral, no ato de contar histórias, que eram passadas de geração a geração.

O conto popular distingue-se do conto literário na forma de transmissão e, consequentemente, na de recepção. No primeiro, a transmissão é oral e a recepção se dá em tempo real. A narrativa é dirigida a um auditor. No segundo, a transmissão é escrita e a recepção se dá a posteriori. A narrativa é dirigida a um leitor. Essas diferenças trazem consigo outras, como a mudança da linguagem e, no caso do conto literário, a expansão do público receptor, que passa a ser mais heterogêneo, uma vez que a circulação dos textos passa a não se restringir apenas à comunidade sociocultural para quem as histórias são narradas.

Outra distinção entre o conto popular e o conto literário reside na autoria, enquanto os primeiros são anônimos, os segundos possuem autoria definida. Os contos populares têm servido de matéria-prima para a elaboração de obras literárias, por isso é comum encontrar ecos ou referências diretas ou indiretas a eles em contos e romances modernos. A personagem Oskar do romance O tambor, do escritor alemão Günther Grass, é inspirado no Pequeno Polegar. Guimarães Rosa inicia seu conto Conversa de bois fazendo referência aos contos maravilhosos:

Que já houve um tempo em que eles conversavam, entre si e com os homens é certo e indiscutível, pois que bem comprovado nos livros das fadas carochas.

Nos contos do escritor moçambicano Mia Couto, em que realidade e fantasia se fundem, ressoam vozes de histórias da tradição oral africana.

O romance é cumulativo, ou seja, nele há uma sucessão de eventos que se encadeiam em direção ao clímax e, posteriormente, ao desfecho. O conto, por ser limitado em sua extensão, procura captar um momento, um instantâneo.

O contista e teórico do conto Júlio Cortázar (1914 – 1984) compara o romance a um filme enquanto o conto é comparado a uma fotografia. Para esse autor, o romance realiza uma abordagem horizontal; o conto, uma vertical. Por ser uma narrativa condensada, o conto elimina tudo o que é acessório, centrando-se naquilo que é essencial à trama, evitando intrigas acessórias. Uma frase de Cortázar ilustra bem a diferença entre o conto e romance:

o romance ganha sempre por pontos, enquanto o conto deve ganhar por nocaute.

Para um outro grande contista e também teórico do conto, Edgar Allan Poe, a extensão é requisito fundamental do conto, já que esse gênero literário deve buscar uma unidade de efeito, enganar, aterrorizar, encantar ou deslumbrar, e essa só pode ser conseguida se o texto for possível de ler numa assentada, de meia a duas horas.

MEER




quinta-feira, 6 de julho de 2023

Uma breve história do conto / Uma não estrutura que o governa e multiplica

 


Uma breve história do conto

Uma não estrutura que o governa e multiplica

2 JULHO 2023, 

O conto é um gênero narrativo presente em diversas culturas cujas origens se perdem no tempo, por isso é praticamente impossível se escrever uma história do conto. Sabe-se que suas primeiras manifestações se deram na forma oral. Pessoas se reuniam em torno de uma fogueira e alguém narrava histórias que encantavam a todos. A autoria dessas narrativas transmitidas de geração em geração era desconhecida. Não se pode falar que essas primeiras manifestações do conto tivessem um narrador como conhecemos hoje. Aquele que contava o conto não era seu autor, sequer organizava a narrativa. Ele apenas era um intérprete do texto.

Estudos recentes desenvolvidos pelo antropólogo Jamie Tehrani, da Universidade de Durham, que trabalhou com a pesquisadora de folclore Sara Graça da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, publicados na revista científica Royal Society Open Science, afirmam que alguns contos populares remontam à pré-história e não aos séculos 16 e 17, como se acreditava. Segundo a pesquisa, a origem do conto João e o pé de feijão remonta há mais de 5 mil anos. Os contos A bela e a fera e O anão saltador têm cerca de 4 mil anos de idade.

Esse ancestral do conto moderno tinha suas raízes na cultura popular e veiculava temas ligados a essa cultura. Do ponto de vista de sua estrutura, eram narrativas bem simples, centradas num único episódio, com uma sequência temporal, em que os acontecimentos sucediam na linha do tempo. Muitas delas apresentavam o elemento maravilhoso, integrado normalmente na narrativa.

Sabemos da existência desses contos, porque muitos deles foram posteriormente copilados para a forma escrita. Essas narrativas, agora na forma escrita, continuaram a ser passadas de geração em geração e chegaram a povos diferentes. Mesmo escritas, não perderam seu caráter de oralidade, já que muitos povos, em diversas culturas, têm o hábito de contar histórias, sobretudo para crianças que ainda não foram alfabetizadas.

Algumas dessas narrativas são bem conhecidas, na forma tradicional, ou em adaptações feitas especialmente para crianças. As histórias do Livro das mil e uma noites é um bom exemplo de contos que se perdem no tempo. Simbad, o navegante, Ali Babá e os quarenta ladrões e Aladim e a lâmpada mágica são exemplos de narrativas que circulam em diferentes culturas e em semióticas diversas, animações, filmes, novelas gráficas, etc.

Na Idade Média, aparece o Decameron, de Giovanni Boccaccio, cujas histórias foram escritas entre 1349 e 1351 (ou 1353), logo após a peste negra que assolou a Europa. Trata-se de uma obra de qualidades artísticas inegáveis, com uma estrutura bem mais complexa do que as narrativas toscanas da tradição oral. Em 1386, surgem na Inglaterra os Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, cuja estrutura é inspirada no Decameron, de Boccaccio. Em 1613, aparece na Espanha o livro Novelas exemplares, de Miguel de Cervantes. Nele, o autor de Dom Quixote apresenta histórias sobre temas diversos.

Na história do conto, Charles Perrault (1628 – 1703), considerado o pai da literatura infantil, ocupa lugar de destaque, por ter dado tratamento literário a um gênero de grande aceitação, o conto de fadas. Entre os contos mais conhecidos desse gênero estão Chapeuzinho vermelhoA bela adormecidaO pequeno polegarO gato de botas.

O que chamamos hoje de conto moderno surge no século XIX com o norte-americano Edgar Allan Poe (1809 – 1949), um grande contista e teórico do conto. Pode-se afirmar que foi Poe quem criou o conto policial com Os mistérios da rua Morgue. O século XIX vê surgirem ainda dois dos maiores contistas da literatura ocidental, o russo Anton Tchekhov (1860 – 1904) e o francês Guy de Maupassant (1850 – 1893). Esses dois autores serão considerados modelos para os contistas que vêm depois deles. De certa forma, a produção do conto clássico ou se prende a Maupassant ou a Tchekhov. Isso significa que qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais profundamente esse gênero obrigatoriamente terá de ler contos desses dois autores.

Tchekhov é um mestre do conto cuja matéria é um incidente do cotidiano. Acontecimentos banais, na mão de Tchekhov, se transformam. No conto Pamonha, por exemplo, uma simples cena de um patrão acertando as contas com a governanta de seus filhos transforma-se num conto que traz à tona o tema da exploração e da humilhação do pobre pelo rico.

Os contos de Maupassant trazem um viés de crítica social e abordagem psicológica. Bola de sebo é um conto magistral que nos mostra como, em decorrência da situação, uma pessoa pode ser vista como boa ou má. A personagem que dá título ao conto é uma prostituta que viaja durante a guerra da França com a Prússia em uma carruagem acompanhada por pessoas “de bem”, representantes de diversas classes sociais e que desprezam e marginalizam a prostituta, mas uma mudança dos acontecimentos faz com que passam a depender dela, o que altera o modo de agir em relação a ela.

Para os brasileiros, o século XIX também é o século da consolidação do conto literário com a publicação das obras do nosso maior contista, Machado de Assis. Seus contos não deixam nada a dever a seus romances, sendo muitos deles verdadeiras obras-primas como O espelhoA cartomanteO enfermeiro e A causa secreta.

O século XX é aquele em que mais uma vez se vê uma mudança no gênero. O conto passa a incorporar o elemento fantástico, há uma ruptura no modo tradicional de narrar e o psicológico passa a se sobrepor sobre o cronológico. Sem dúvida, Franz Kafka (1883 – 1924) é um dos maiores representantes do que se pode chamar de conto moderno e serviu de influência para muitos outros contistas do século XX e XXI. No Brasil, há que se destacar ainda a importância de Guimarães Rosa pela riqueza temática e pela forma com que rompe com uma linguagem tradicional.


MEER