sexta-feira, 26 de maio de 2017

Anton Tchekhov / O inimigo


Anton Tchekhov

A noite desceu há muito sobre a paisa-gem de neve, uma noite escura e pro-funda, que envolve seres e coisas no silêncio e na paz. Àquela hora, talvez somente Varka esteja ainda acordada, debruçada sobre o berço onde o menino não quer dormir. Varka tem apenas treze anos, é pouco mais que menina, e seus olhos sonolentos são tristes e vagos. Agora impulsiona suavemente o berço e canta baixinho, com voz branda, uma canção de ninar. “Dorme, menino bonito, que o bicho vem pegar…” Uma lamparina verde, acesa junto ao ícone, enche o quarto com sua luz fraca e incerta; peças de roupa, pendidas de uma corda que atravessa o compartimento, flutuam de leve. A luz projeta no teto um grande círculo verde, as sombras das peças de roupa se agitam como se fossem sacudidas pelo vento, e tremem inquietas so-bre a estufa, sobre Varka e sobre o berço.
Tudo assume um aspecto carregado e denso como a noite, a atmosfera cheira a fel. O menino chora, está rouco de tanto gritar, mas continua chorando sempre, com todas as suas forças. Varka tem um sono terrível, seus olhos se cerram apesar de todos os esforços; e ela acha que o menino jamais se acalmará. Por mais esforço que faça, sente que as pálpebras se ligam, começa a cabecear, tonta, muito tonta. Pode apenas mover os lábios. Dentro dela cresce uma impressão estranha, parece-lhe que o rosto é de madeira e que a cabeça é pequena, como a de um alfinete. “Dorme, menino bonito…” Sua voz é apenas perceptível, um cicio trêmulo na noite profunda. Ouvese agora o canto monótono de um grilo escondido em qualquer greta da estufa. No quarto ao lado roncam o mestre, e o aprendiz Afanas; o berço geme, tristíssimo.
Todos esses ruídos se misturam com a voz suave de Varka, produzindo uma doce música, boa para fazer dormir. Mas Varka não pode deitarse, nem sequer pode encostar-se, pois sabe que, se dormir, os patrões a pegam, talvez lhe batam. Por isso aquela música aca-lentadora deixa-a desesperada, aumenta o sono terrível que a subjuga. Quando poderá estenderse no chão e dormir, dormir profundamente, dormir e não acordar nunca mais?
A lamparina está a ponto de apagarse, a chama tênue oscila incerta. O círculo verde do teto e as sombras continuam a agitar-se ante os olhos semicerrados de Varka, em sua cabeça meio adormecida nascem sonhos vagos e fantásticos. Através dos sonhos ela vê nu-vens negras correndo no céu, nuvens que choram aos gritos, como crianças de peito. O vento, porém, varre todas as nuvens, e Varka pode ver agora um caminho largo e cheio de lodo, por onde passam coches, pessoas com sacos às costas e sombras, muitas sombras. Num e noutro lado do caminho existem bos-ques cobertos de neve. Subitamente os caminhantes e as sombras se estendem sobre o solo lodoso. Muito espantada, Varka pergunta então:
- Por que é que vocês fazem isso?
- Para dormir! – dizem todos. Quere-mos dormir!
E dormem tranqüilamente, a sono solto, indiferentes e calmos. Varka observa o ritmo das respirações, o argar suave dos peitos desnudos, e sente uma vontade imensa de chorar.
De repente percebe que muitos corvos, pousados no fio do telégrafo, fazem tudo para despertálos. “Dorme, menino bonito…” Entre os sonhos a voz de Varka é mais débil ainda.
Pouco depois sonha que está em casa de seu pai, uma casa velha e escura, isolada e muito triste. Seu pai chamavase Efim Stepanov, já morreu há muito tempo, mas ela o sente agora revolvendose no chão. Não pode vêlo, mas ouve os seus gemidos prolongados, profundos gemidos de dor. Sofre muito, atacado de uma doença que ela desconhece, e nem sequer pode falar. Contorcese e range os dentes.
A mãe de Varka saiu correndo, rumo à casa senhorial, para dizer que o marido está morrendo, e ainda não voltou. Por que estaria ela demorando tanto? Foi há muito tempo, já devia ter chegado.
Varka está encostada na estufa, continua sonhando e ouvindo o pai ranger os dentes. De repente, dentro daquele sonho ruim, ela ouve o trotar de cavalos, sente pessoas que se aproximam. Da casa senhorial enviaram um médico ainda moço para ver o agonizante. Entra em silêncio. Varka não consegue vê-lo na obscuridade, mas ouve a sua tosse e o ranger da chave fechando a porta.
- Acenda a luz – diz ele, por fim.
Efim Stepanov range os dentes em res-posta e a mãe de Varka anda de um lado para outro no quarto escuro, à procura de velas. Depois de um longo silêncio o doutor tira uma do bolso e acende-a.
As faces do doente estão roxas, as pupi-las brilham intensamente e os olhares pare-cem fundir-se estranhamente agudo no doutor e nas paredes.
- Que é isso, homem? – pergunta o médico inclinandose sobre ele. – Há muito tempo que está doente?
- Chegou na hora, doutor – respondeu Efim Stepanov penosamente. – Não tenho ilusões.
- Não diga tolices. Você vai ver como fica bom.
- Obrigado, doutor. Eu sei, porém, que não há remédio. Quando a morte diz “aqui estou”, é inútil lutar contra ela.
O médico olha demoradamente o velho e declara:
- Já não posso fazer nada. É preciso leválo ao hospital para ser operado imediatamente. Ainda que seja tarde, não importa. Darei um bilhete para o diretor e ele receberá você. Mas sem perda de tempo!
- Doutor, como havemos de levá-lo? – pergunta a mãe. – Não temos cavalos.
O médico olha-a um instante e depois diz:
- Não tem importância. Explicarei isso lá na casa senhorial e eles mandarão um.
O médico se vai, a vela se apaga, e de novo se ouve o ranger de dentes do moribun-do.
Meia hora depois um coche pára à porta e em seguida se distancia conduzindo Efim para o hospital.
Passa enfim a noite e sai o sol, a manhã clara e bonita se abre nos campos de neve, tudo parece alegre e vivo, mas na verdade Varka está triste. Sua mãe foi ao hospital ver como passa o marido e ainda não voltou. Varka olha a paisagem através da janela meio carcomida, contempla a extensão de neve, o coração se confrange a solidão pesa sobre ela como um mau agouro. Um menino chora, uma canção suave quebra a paz de neve, e Varka, sem saber por que, julga que é a sua própria voz que canta.
Agora vê na distância o vulto negro de sua mãe na larga faixa branca, uma pequena mancha que vem crescendo para ela. Entra em casa persignandose.
- Acabaram de operá-lo, mas ele morreu! Deus o tenha no céu. O doutor disse que a operação foi feita demasiado tarde.
Varka sai de casa e se dirige para o bosque, ao longe. Cresce dentro dela um profundo sentimento de dor e de mágoa, a terra lhe parece vazia e grande demais para ela sozinha. Ainda sem saber como, o corpo dolorido, os pés terrivelmente frios a enterraremse na neve. Talvez nunca chegue ao bosque, a distância aumenta cada vez mais…
Nesse momento do sonho, em que ela se sente horrivelmente abandonada, recebe uma tremenda pancada na nuca, um soco que a faz dobrar para a frente, por cima do berço. Acorda e vê com terror a cara tirânica do patrão, que grita:
- Peste! O menino chorando e tu dor-mindo!
O patrão ainda lhe puxa as orelhas com força brutal, deixa-a humilde e atônita e sai indiferente ao seu sofrimento. Agora ela sacode a cabeça com força, para afugentar o sono irresistível, e põese de novo a embalar o berço, cantando com voz afogada.
O círculo verde do teto e as sombras produzem um efeito letal sobre Varka. Um minuto depois que o patrão sal ela volta a dormir, começa outra vez a sonhar – e o largo caminho cheio de lodo se estende a perder de vista, uma infinidade de gente dorme sobre a terra úmida. Ela também quer deitarse, mas sua mãe caminha ao lado e não deixa. Varka não pode dormir, ambas se dirigem a uma grande cidade em busca de trabalho. De repente a mãe olha a multidão, pára e estende a mão, pedindo:
- Uma esmolinha, pelo amor de Deus! Compadeceivos de nós, bons cristãos!
Mas uma voz bem conhecida de Varka ressoa desmanchando os fragmentos do sonho, partindo a visão que lhe resta da mãe.
- Dáme o menino! Outra vez dormindo, peste!
Ela se levanta bruscamente, olha em torno e toma pé na realidade; não há caminho nem caminhantes, nem a mãe está junto dela. Só vê a patroa, que veio dar de mamar ao menino, empurrando-a sem piedade, os olhos vermelhos de rancor.
Enquanto o menino mama, ela espera de pé, pacientemente, meio tonta, esforçandose para não dormir diante da patroa.
O espaço começa a azularse atrás dos vitrais, o círculo verde do teto e as sombras vão empalidecendo, desmaiando nas pare-des, a manhã vem surgindo maravilhosa-mente branca.
A patroa acaba de amamentar o menino, esconde o seio e abotoa a camisa. Voltase para Varka berrando:
- Toma o menino! Não sei o que está acontecendo. Sempre chorando, chorando!
Ela estende os braços, deita a criança no berço e embalao. O círculo verde e as sombras, menos perceptíveis a cada instante, já não exercem nenhuma influência sobre Varka, que já não os percebe. Apesar disso, entretanto, ela tem sono, um sono terrível, e sua necessidade de dormir é imperiosa, irresistível. Apóia a cabeça na borda do berço e deixa o corpo embalarse, acompanhando o movimento rítmico, que provoca um ruído seco e monótono, como um gemido. Os olhos estão quase a fechar-se, mas ela ouve a voz da patroa, gritando do outro lado da porta:
- Varka! acende a estufa!
Já é dia, vai começar agora o trabalho mais exaustivo e penoso. Ela deixa o berço, corre à estufa. Anima-se um pouco, acha mais fácil resistir ao sono andando do que assentada. A névoa que envolvia sua cabeça vaise dissipando.
- Varka! prepara o samovar! – grita a patroa.
As ordens não cessam, são muitas e confundemna.
- Varka, limpa as botinas do patrão!
Enquanto limpa as botinas, pensa que seria delicioso meter a cabeça num daqueles sapatões e dormir um tempo enorme. Subitamente a botina que estava limpando cresce, parece tomar um espaço enorme, côncava e macia, boa para recostar o corpo. E Varka deixa a escova escorregar da mão lentamente, põese a dormir.
Um minuto apenas, e acorda sobres-saltada, faz um grande esforço, sacode a cabeça, abre os olhos o mais que pode.
- Varka! Vai lavar a escada! Está tão suja que sinto vergonha quando o padre sobe por ela.
Varka lava a escada, varre os quartos, acende depois outra estufa, anda pela casa num vaivém interminável. São tantos os afazeres que ela não tem um momento livre. O que lhe parece mais penoso é ficar de pé, imóvel, diante da mesa da cozinha, descas-cando batatas. A cabeça se inclina, sem que lhe seja possível evitá-lo, e chega quase a tocar a mesa. As batatas tomam formas fan-tásticas, suas mãos já não podem sustentálas. Mas não pode deixarse vencer pelo sono, tem de reagir sempre, abrir muito os olhos. Ali está a patroa, gorda e má, indiferente ao seu suplício. Há momentos em que a invade um violento desejo de estender-se no chão e dormir, dormir, dormir.
Transcorre o dia igual aos demais, sempre o trabalho excessivo, as ordens infindáveis, os cílios prestes a ligaremse pesados, o grande esforço para não dormir e os gritos da patroa.
Enfim chega a noite e Varka olha as trevas através da janela, sente aquela mesma impressão estranha de que seu rosto é de madeira. Sorri de modo estúpido, completamente sem motivo. As trevas alagam seus olhos, fazem renascer na sua alma a espe-rança de poder dormir.
Há uma visita naquela noite, movimentos diferentes, vozes confusas.
- Varka, acende o samovar!
O samovar é pequeno, e para que todos possam tomar chá, é necessário acendêlo muitas vezes. Servido o chá, Varka fica de pé a pequena distância, aguardando outras ordens, os olhos fixos nos visitantes.
“Varka, serve a vodca! Varka, onde está isso? Varka, limpa um arenque!”
Finalmente a visita se vai, apagamse as luzes, os patrões se recolhem. E ela ouve a última ordem:
- Varka, pega o menino!
Novamente o quarto, a atmosfera carregada, o cheiro de fel. O grilo canta escondido numa greta qualquer da estufa, o círculo verde do teto e as sombras voltam a agitar-se ante os seus olhos meios cerrados, deixandolhe a cabeça enevoada. “Dorme, menino bonito…”
A mesma voz sonolenta de Varka, aquela voz triste e arrastada, abafada pelos gritos do menino que chora como um condenado, a ponto de perder o fôlego.
Meio adormecida, ela sonha de novo com o caminho largo e enlodado, com sua mãe; sente confusamente a figura do pai mo-ribundo crescer. A realidade lhe foge, desfaz-se a presença de tudo que a cerca. Só sabe que alguma coisa a paralisa e pesa sobre seu corpo cansado, impedindoa de viver. Faz um esforço supremo e abre os olhos assombrados para a noite, indagando de si mesma que força, que potência é essa, tão estranha e tão grande, que a faz sofrer dessa maneira, que a paralisa e não a deixa dormir. Mas não compreende nada, nenhuma idéia precisa lhe acode. Já sem forças, trêmula e abatida, olha o círculo verde e as sombras. Exatamente nesse momento o menino chora, e seu grito repercute no coração de Varka, enchelhe a cabeça cansada, como uma súbita revelação. Durante um segundo ela se interroga e faz a descoberta. “Esse é o inimigo que não me deixa viver. O inimigo é o menino.” Põe-se a rir, acha estranho não ter compreendido isso até agora, a idéia lhe parece clara e simples. “O inimigo é o menino.” Completamente ab-sorvida por esse pensamento, levanta-se e, sempre sorrindo, dá alguns passos pelo quarto. Sente uma grande alegria ao pensar que em breve se libertará do menino inimigo. É só matálo, e depois poderá dormir o tempo que quiser, tranqüilamente.
Rindo muito, cada vez mais calma, Varka dobra o corpo, pisca os olhos maliciosamente e se aproxima do berço, pisando de leve. Inclinase sobre o menino, qualquer coisa de trágico empresa uma extrema naturalidade aos seus gestos. Tudo lhe parece agora simples, objetivo – uma sensação de leveza em todos os seus movimentos. As mãos ágeis apalpam o pequeno corpo, sobem até a gar-ganta, e vão apertando, apertando, entrelaçadas, como elos de aço. O menino torna-se azul, contorcese num rápido e último movimento de desespero, depois estremece apenas, o corpinho frágil e distendido se aquieta para sempre. Está morto.
Então Varka se estende no soalho, alegre e imensamente feliz, a alma alagada de uma doce sensação de liberdade. E submergese num grande sono, profundo e sem sonhos.

1887.


quinta-feira, 25 de maio de 2017

Anton Tchekhov / Varka

Niña dormida
Camilo Minero
Anton Tchekhov
VARKA



Anoitece. Varka balança com o pé um berço onde chora uma criança, cantarolando monotonamente:
— Bain bainscki bain…
Uma lâmpada verde brilha diante de uma imagem de santo. Um par de grandes calças negras pende de uma corda. A lâmpada projeta uma mancha verde sobre as coisas e as calças fazem dançar sombras na parede e no berço. A chama vacila como tocada pelo vendo. O ar é sufocante, impregnado de um odor de sapatos, de couro, de tinta.
O menino chora. Não cessa de chorar e de gemer; está extenuado, sua vozinha tornou-se rouca; mas ele chora ainda, sem parar.
Varka tem sono. Seus olhos fecham-se, sua cabeça inclina-se para o peito. Mal pode abrir os olhos tanto lhe pesam as pálpebras.
— Bain bainscki bain… — murmura com voz extinta, — bain bain…
Um grilo estridula numa frincha do chão. No aposento vizinho, ouve-se a máquina do sapateiro.
O berço range lamentosamente. Varka cantarola, e tudo se confunde num doce murmúrio que convida ao sono. Mas não se deve dormir! Varka resiste ao torpor que a invade, porque, se por desgraça adormecer, o patrão bater-lhe-ia. A chama da lâmpada vacila. A mancha verde e a sombra negra dançam diante dos olhos fixos que Varka se esforça por conservar abertos. Sonhos indistintos vagam no seu cérebro amodorrado. Ela vê nuvens negras que se perseguem, gritando com voz infantil. As nuvens se desfazem e Varka divisa uma estrada, longa, negra e lamacenta. Filas de carros avançam lentamente; homens caminham vagarosamente, sombras se agitam aqui e acolá! Através de uma névoa cinzenta e fria ela entrevê os albergues, dos dois lados da estrada. As sombras se alongam, os viajantes perdem-se na estrada lamacenta.
— Por quê? — pergunta Varka.
— Para dormir, para dormir…
E dormem um sono de chumbo, profundamente, enquanto sobre os fios telegráficos corvos gritam, com voz infantil, para acordar aqueles homens…
— Bain bainscki bain… — canta Varka, e, súbito, acha-se numa mísera isba negra, acanhada e sufocante. Não é aquele seu pai, Efim Stepanov, que ali jaz por terra e se estorce em sofrimentos atrozes? Ela vê, mas não ouve os gemidos. É a sua hérnia que o atormenta. A dor é tão forte que ele não pode falar; respira penosamente, com um gargarejo contínuo:
— Groo… groo… groo…
Eis a mulher, Pelágia, que se precipita para fora da isba, para dizer ao patrão que Efim é moribundo. Quando voltará? Saiu já há muito tempo e Varka espera-a. Varka está acordada perto do fogão, mas não dorme e escuta o ofegar do moribundo:
— Groo… groo… groo…
Finalmente, um rumor de rodas que se dirige para a isba. Um médico vem visitar o doente. Entra no quarto. A escuridão é tanta que Varka não o vê, mas ouve a sua voz.
— Dê-me uma luz! — exclama ela.
A mãe acende uma vela. Efim sufoca.
— Que tem? pergunta o médico curvando-se sobre ele.
— Que tenho? Morro. Está acabado.
— Ainda não. Salvar-te-emos. Havemos de curar-te.
— Se vossa senhoria acha, agradeço-lhe muito. Mas se a morte está aqui, paciência.
O médico examinava o doente. Os minutos corriam.
— Não posso fazer nada — disse —, é preciso mandá-lo para o hospital para ser operado; mas isto depressa, sem perder um minuto. É tarde, e no hospital devem todos estar recolhidos, mas eu darei um bilhete de recomendação para o diretor. Compreendeu?
— Mas ele não pode andar, senhor! Nós não temos cavalo! — gemeu a mãe.
— Mandarei buscá-lo — disse o médico, e foi-se, e a vela apagou-se e Varka ouve novamente:
— Groo… groo… groo…
Alguns instantes depois pára um carro à porta. Recebe Efim e parte…
É dia. O tempo está alegre. A mãe vai ao hospital saber notícias. E volta. Entrando na isba, faz o sinal-da-cruz e chora.
— Operaram-no, e a princípio estava melhor, mas depois, pela madrugada, morreu. Que Deus o tenha em sua paz. Disseram que era muito tarde, que deveríamos tê-lo mandado mais cedo para o hospital.
Eis Varka no meio do bosque. Caminha ao lado da mãe, e chora, chora amargamente.
De repente ela recebe uma pancada na cabeça, tão violenta que cai e bate com a cabeça numa árvore. Abre os olhos e vê o patrão, o sapateiro:
— Que fazes, preguiçosa?! — grita ele. — O menino chora e tu dormes?
E puxa-lhe as orelhas; ela recomeça a balançar o berço, cantarolando:
— Bain bainscki bain…
A mancha verde e a grande sombra negra dançam na parede, e o cérebro dela se entorpece. Ei-la novamente na grande estrada lamacenta. Os viajantes dormem profundamente. Varka tem sono também, tem tanto sono e seria tão feliz se pudesse dormir… Mas sua mãe caminha sempre e arrasta-a pela mão. Dirigem-se à cidade em busca de trabalho.
— Uma esmola, pelo amor de Deus! — mendiga a mãe durante todo o caminho. — Tende piedade…
— Depressa, dá-me o menino! — responde uma voz tonitruante — dá-me o menino! Tu dormes, canalha! — grita a voz irritada e rude.
Varka levanta-se, estremunhada. Sim, compreende: não mais a longa estrada, os viajantes, a imagem da mãe. É a patroa que aparece no meio do quarto, que vem aleitar o menino. Aquele era o passado de Varka, visto em sonho; este é o presente.
Enquanto a gorda patroa aleita o menino, procurando adormecê-lo, Varka, de pé, lança os olhos pela janela. O céu empalidece, a sombra e a mancha verde estão quase desvanecidas: dentro em pouco será dia.
— Toma, segura o menino! — ordena a patroa, abotoando a camisa no peito. — Ele chora sempre. Tu com certeza o maltrataste!
Varka torna a deitar o menino e recomeça a embalá-lo. Que sono terrível! Os olhos se fecham, a cabeça pesa-lhe como chumbo.
— Varka, é tempo de acender o fogão — brada a voz do patrão.
É preciso levantar-se e trabalhar. Varka larga o berço e vai buscar a lenha. Está contente de poder mover-se, andar, espantar aquele sono tremendo. Está pronto o fogo. Suas idéias aclaram-se, seu rosto distende-se.
— Varka! o samovar! depressa! — grita a patroa.
Varka apronta o samovar e recebe nova ordem.
— Varka, vai limpar as botas do patrão!
E ela acocora-se para limpar as botas. Ah! como seria bom meter a cabeça dentro de uma daquelas botas e dormir! Varka escancara os olhos e sacode-se vigorosamente.
— Varka, vai lavar a sala! Está que é uma vergonha! E os fregueses não tardam!
Varka lava rapidamente o chão, varre tudo, limpa tudo, acende o outro fogão! O tempo urge: não há um momento a perder.
O dia passa. Varka vê com alegria a noite que chega. O ar fresco da noite promete-lhe um longo e profundo sono. Mas, quando a noite chega, chegam visitas.
— Varka! — grita a patroa — depressa, o samovar!
O samovar é pouco, e Varka deve ferver mais água, enquanto os patrões e os visitantes abancam-se em torno da mesa.
— Varka corre a buscar três garrafas de cerveja! Varka, os copos! Varka!
Vão-se finalmente os visitantes. Apaga-se a luz; os patrões vão deitar-se.
— Varka! vai embalar o menino! — dizem eles.
O grilo canta, a mancha verde e a sombra negra agitam-se novamente ante os olhos sonolentos e entorpecem-lhe o cérebro.
— Bain bainscki bain…
O menino grita… Varka revê a estrada lamacenta, os viajantes, a sua mãe Pelágia, seu pai Efim… Reconhece-os perfeitamente, mas não pode ver o monstro que a tortura, que a tem amarrada de pés e mãos, que a sufoca, que a impede de viver.
Volve a cabeça de todos os lados e procura aquele inimigo infernal, para libertar-se. Em um esforço supremo, abre os olhos, vê a mancha verde, a sombra negra que se agita, quando, de súbito, um grito do menino fere-lhe os ouvidos.
Finalmente! Varka encontrou o inimigo que a impede de viver. É aquele menino o seu inimigo impiedoso! E ela ri, espantada de o não haver descoberto antes. Que estúpida! A mancha, a sombra, o grilo, tudo ri com ela, tão estúpidos como ela. Uma idéia luminosa passa-lhe no cérebro pesado. Levanta-se vagarosamente do escabelo em que está sentada, com um claro sorriso no rosto embrutecido, e dá alguns passos. A idéia de libertar-se do menino aparece-lhe mais viva. Libertar-se daquele que a impede de viver! Precisa matá-lo, e depois dormir, dormir, dormir…
Sorrindo, rindo e piscando os olhos para a mancha verde, Varka avizinha-se do berço, curva-se sobre o menino: e sufoca-o. Depois estende-se rapidamente no chão, sorrindo de alegria ao pensamento de que finalmente poderá dormir. E adormece logo.
Varka dorme um sono profundo e pesado como a morte.




segunda-feira, 22 de maio de 2017

Elizabeth Bishop / Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção


Elizabeth Bishop

Poeta, lésbica, modernista e brasileira de adoção: como o mundo está redescobrindo Elizabeth Bishop

Uma biografia e uma peça de teatro recuperam a figura da poeta norte-americana, que construiu parte de sua obra no Rio


MARTA REBÓN
9 ABR 2017 - 19:18 COT



Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.
Elizabeth Bishop, fotografada aos 43 anos na fazenda Samambaia.

Em 1951, aos 40 anos, a poeta norte-americana Elizabeth Bishop parte de Nova York em um cargueiro com o desejo de dar a volta ao mundo. Não é uma simples turista em busca de prazeres e inspiração. Ao se expatriar, deseja soltar lastro, escapar de um pesado fardo cheio de episódios de depressão e alcoolismo, alternados com fortes ataques de asma e surtos de eczemas, que ameaçam truncar sua carreira como escritora. A competitiva cena literária nova-iorquina, somada à solidão que ali a invade, choca-se com seu extremado acanhamento e fragilidade emocional, marcados pela ausência de um pai que, morto prematuramente, não chegou a presenciar seu primeiro aniversário, e de uma mãe que, afundada pela dor, não tardou a ser internada num manicômio e a desaparecer por completo da sua vida.


Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.
Anotações que mostram o rigor com que Bishop tratava seus poemas.


A partir de então, Elizabeth ficará às vezes sob os cuidados da família paterna, e às vezes da materna, sem chegar a encontrar o calor de um verdadeiro lar. Na verdade, quando vive com as irmãs de sua mãe, seu “sádico” tio a submete a abusos que só confessará, décadas mais tarde, ao seu psiquiatra, como revela a recente biografia Miracle for Breakfast (“milagre no café da manhã”), de Megan Marshall. Não é de estranhar que, numa entrevista à The Paris Review, Bishop tenha confessado que quando menina se sentia como uma convidada. “Acho que sempre me senti assim”, dizia. Marshall, ex-aspirante a jovem poeta e ex-aluna dela em Harvard em 1976, conta por email que Bishop “não acreditava que se pudesse ensinar a escrever, e dizia que os poemas, no seu caso, começavam como um mistério e uma surpresa, e que os concluía à base um de grande esforço e de árduo trabalho”.
O navio SS Bowplate, cujo destino era a Terra do Fogo, faz sua primeira escala no porto de Santos, e a escritora a aproveita para visitar, no Rio do Janeiro, um compatriota dela e sua mulher, Maria Carlota Costallat de Macedo Soares, a quem havia conhecido quatro anos antes em Manhattan. A viagem toma então uma direção imprevista: obrigada a passar semanas de cama por causa de uma intoxicação virulenta, acabará por permanecer mais de quinze anos no Brasil. Sua anfitriã, a quem todos chamam de Lotta, nascera em Paris e era filha de um magnata da imprensa carioca.


Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.
Lotta de Macedo Soares, companheira de Elizabeth Bishop durante 14 anos.


Cosmopolita e envolvida na vida cultural e política do seu país, abre-lhe de par em par as portas da sua impressionante fazenda Samambaia, em Petrópolis, 70 quilômetros ao norte do Rio. Quando a relação entre ambas se estreita, Lotta, arquiteta e paisagista autodidata, manda construir um estúdio para a poeta. Suspenso no ar como um mirante de vidro, ergue-se de costas para a casa, alheio à azáfama doméstica e arrulhado pelas águas de um riacho.
O escritor Michael Sledge reconstrói em A Arte de Perder (Leya, 2011) a relação sentimental entre as duas mulheres. Uma história vivida com intensidade e com desenlace trágico: Lotta morreu de overdose – não se sabe se acidental – durante uma visita à sua já ex-amante em Nova York, em 1967. Durante os 14 anos de vida comum, a escritora cria memoráveis peças em prosa, nas quais recupera, por exemplo, os ecos da sua difícil infância na Nova Escócia (Canadá) e em Massachusetts; publica sua segunda coletânea poética, Uma Primavera Fria, prêmio Pulitzer em 1956, e concebe um terceiro, Questões de Viagem (1965), no qual lança a pergunta: “É falta de imaginação o que nos obriga a vir / a lugares imaginados, em vez de ficar em casa?”. A paisagista carioca, por sua vez, trabalha infatigável, durante os últimos anos do relacionamento, para dar à sua cidade o imponente Aterro do Flamengo: um projeto exaustivo, que cobrará um alto preço pessoal.


Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.
Parte da casa em que Bishop e Lotta de Macedo Soares viveram juntas.


Tudo o que Lotta tem de expansiva e segura, Bishop tem de tímida e introspectiva, mas da combinação desses polos opostos surge um vínculo que transformará a vida e a obra de ambas. Para Bishop, isso representou fincar raízes pela primeira vez em um lugar e se permitir ser merecedora do amor de alguém: "Às vezes, parece que só as pessoas inteligentes são estúpidas o suficiente para se apaixonar, e que só as estúpidas são inteligentes o suficiente para se permitirem ser amadas", escreveu em um caderno. Quando seus caminhos se cruzam -- Bishop já havia publicado um primeiro livro de poemas, Norte e Sul. Sledge observa que sua "escrita era um trabalho tão rigoroso que deixar um poema em um ponto aceitável podia levar anos".
Mais do que criar um mundo, como fazem muitos poetas, Bishop descreve com sobriedade o que vê, sem nunca ceder ao sentimentalismo, que detestava, e parece encorajar sossegadamente o leitor ao observá-lo mais de perto. Sua poesia é de percepção, na qual as palavras transmitem uma verdade transitória, nunca absoluta, sem entrar em detalhes em confissões ou verter frases categóricas. Em sua obra convergem, estranhamente, o impessoal com o íntimo. Bishop evitava os rótulos, quaisquer fossem eles: mulher, lésbica, modernista ou norte-americana. Sua dúzia de histórias e quatro livros de poemas, um por década desde seu começo, são um bom exemplo da exigência com a qual enfrentava cada composição.


La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.
La poeta, à esquerda, com o arquiteto Harold Leeds, o diretor Wheaton Galentine e Lotta de Macedo Soares.


Megan Marshall, sua biógrafa, acredita que a popularidade da escritora continuará aumentando e menciona, entre outros exemplos, a recente obra de teatro de Sarah Ruhl, Dear Elizabeth, que condensa 800 páginas de relacionamento epistolar entre Bishop e o também poeta Robert Lowell. Em um de seus melhores poemas, Bishop nos lembra de algo muito simples, embora essencial, que viver é aprender a conjugar o verbo perder: "Perca um pouco a cada dia. / Aceite austero, a chave perdida, a hora gasta bestamente. / A arte de perder não é nenhum mistério".


A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.
A poetisa com a cozinheira e escritora culinária Rosemary Manell.


Marshall aponta que Bishop nos "mostra que a perda é uma experiência universal, e, ao escrever tão bem sobre esse tema, consegue criar, paradoxalmente, algo que perdura". Acrescenta que a poeta era amante do espanhol, idioma que aprendeu quando adulta e ao qual se sentia unida "já que passou vários meses durante a Segunda Guerra Mundial no México, onde conheceu Pablo Neruda, e foi então que deve ter sabido da existência do poeta Miguel Hernández, cuja Elegia tentou traduzir em 1970, e que certamente influenciou a composição de seu imortal Uma Arte, sua elegia".