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sábado, 19 de dezembro de 2015

Brasileiro é coprodutor de 'Love', sexo em 3D que escandaliza Cannes


Brasileiro é coprodutor de 'Love', 

sexo em 3D que escandaliza Cannes

Melodrama explícito das relações sexuais de diretor francoargentino decepcionou críticos


Cena de 'Love'. / WILD BUNCH
Love estava programado para o escândalo e cumpriu sua obrigação. O novo trabalho de Gaspar Noé, o cineasta francoargentino que dirigiu títulos como Irreversível e Enter the Void, já se transformou em um dos filmes que passam à história do festival de Cannes. O filme é uma coprodução de Rodrigo Teixeira, um dos produtores brasileiros mais importantes hoje, que resume a trama em “esperma, fluídos e lágrimas". A expectativa, construída por meio de uma inteligente campanha de marketing, estava no máximo. O que explica que as filas tenham sido quilométricas na Croisette: até três horas de espera, com massas de espectadores frustrados ficando de fora. Sua forma explícita e (supostamente) realista de retratar o sexo não esfriou os compradores, muito pelo contrário. A produtora Wild Bunch anunciou nesta quinta-feira que o havia vendido a 36 mercados em todo o mundo, incluindo os Estados Unidos, onde a distribuidora Alchemy pretender lançá-lo em sua versão integral, apesar de submeter-se à classificação NC-17, veneno assegurado para a bilheteria, que já foi dada a títulos como Vício Frenético,ShowgirlsA Má EducaçãoShame ou Desejo e Perigo.
O primeiro plano do filme anuncia emoções fortes: o pênis ereto do protagonista, um expatriado norte-americano em Paris, ejacula em direção ao espectador (e para maior escárnio, em três dimensões). Sucedem-se diversos planos-sequência de vários minutos, espalhados por duas horas e 15 minutos, que buscam reproduzir com fidelidade a verdadeira natureza do coito heterossexual. Seus protagonistas, encarnados por três jovens atores, esbeltos e não profissionais (Karl Glusman, Aomi Muyock e Klara Kristin), se acasalam repetidamente em modalidades distintas –em dupla, em trio, em grupo – antes de passar à introspecção psicológica, a refletir sobre a frustração que a vida familiar acarreta ou meditar sobre o significado oculto da existência.


Seu diretor deu explicações nesta quinta-feira, diante dos órgãos da mídia, sobre a vontade que o seu filme expressa: romper definitivamente um tabu que impera no cinema desde sua invenção. “Tenho amigos que gostam do dinheiro, outros gostam de cocaína e outros preferem o cinema. O que todos têm em comum é que todo mundo gosta de praticar o sexo”, explicou Noé. “Por que está tão mal representado no cinema? Tem a ver com pressões do tipo comercial e legal”, acrescentou o diretor. Para quem pedia explicações sobre o caráter explícito de algumas cenas, Noé respondeu: “Fiz um filme sobre o amor, não sobre a banca suíça nem a Cientologia.
O diretor artístico do evento, Thierry Frémaux, também defendeuLove dos ataques. “Noé fez um filme que alguns amam e outros odeiam. A literatura e a pintura enfocam a questão da representação do corpo, do sexo e do amor físico, mas muito poucos diretores fizeram algo assim nos 120 anos de história do cinema”, disse ele, para justificar a inclusão de Love no programa do festival de Cannes, onde foi projetado fora da competição.
Love marca um novo capítulo na história de amor entre o festival e os filmes concebidos para o escândalo. Em quase toda a edição um filme aparece no programa oficial para semear o pânico entre os credenciados. De fato, a película foi produzida pelo todo-poderoso Vincent Maraval, que também se encarregou de tornar possível AVida de Adèle, ganhadora da Palma de Ouro em 2013. Na edição do ano passado, Maraval marcou outro tento com Bem-Vindo a Nova York, inspirada nas andanças de Dominique Strauss-Kahn no Sofitel nova-iorquino. No passado, outros filmes provocaram escândalos parecidos, como Crash – No LimiteBaise-moi, o já citadoIrreversível ou The Brown Bunny, com sua legendária cena de felação no final, que quase termina com a carreira de Chloë Sevigny. O falecido Roger Ebert, figura de proa da crítica norte-americana, o qualificou como “o pior filme na história de Cannes”. Seu diretor,Vincent Gallo, respondeu chamando-o de “porco gordo com físico de comerciante de escravos”.


Gaspar Noé, segundo à esquerda, com seu trio de protagonistas: Aomi Muyock, Klara Kristin e Karl Glusman. / GETTY
Por ora, a crítica reagiu ao filme com um entusiasmo bastante moderado. Peter Bradshaw, ilustre crítico deThe Guardian, afirmou que “se vê bem que um homem heterossexual dirigiu o filme”, ressaltando também “sua ênfase com as camisinhas” e o quão respeitável se torna o protagonista masculino na cena em que dorme com um transsexual. Mas o crítico também o define como “um filme que mostra o sexo de verdade, essa coisa que se usa para fazer bebês”, em lugar de aderir “à sensualidade tímida e ao glamour” que reina na maior parte do cinema comercial. Para a Indiewire, nota-se que foi terminado no último momento. “Parece uma versão fragmentada de um filme mais interessante”, afirmou seu crítico Eric Kohn, que acrescentou que lhe falta “substância” e disse que está “semiacabado” e “mal escrito”. De sua parte, a revista francesa Les Inrockuptibles falava nesta quinta-feira de “escândalo programado”, elogiando mais “a hábil campanha de marketing” do que as qualidades em si de Love, qualificado de “rígido” e “aterrorizado” ante qualquer indício de alteridade ao modelo heterossexual.




sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

França proíbe ‘Love’ a menores após pressões conservadoras




França proíbe ‘Love’ a menores 

após pressões conservadoras

Justiça muda a classificação do filme de Gaspar Noé, com cenas de sexo explícito

Filme tem coprodução do brasileiro Rodrigo Teixeira, um dos produtores mais importantes

Cena do trailer do filme
A Justiça francesa acaba de proibir o acesso de menores de 18 anos às salas de cinema que exibem Love, o novo filme do cáustico diretor Gaspar Noé (coproduzido pelo pelo brasileiro Rodrigo Teixeira). Trata-se de um melodrama de alto conteúdo sexual que colocou em pé de guerra os revitalizados círculos ultraconservadores do país. A associação Promouvoir, que luta pela “promoção dos valores judaico-cristãos” e pelo “impedimento do incesto, do estupro e da homossexualidade”, segundo seus estatutos, liderou uma bem-sucedida campanha para impedir que menores possam assistir ao filme.
Love estreou em 15 de julho nas salas francesas com a classificação “desaconselhável aos menores de 16 anos”, após receber o aval do Centro Nacional de Cinema, que concede as classificações para a exploração comercial dos filmes em lançamento. No entanto, o Tribunal Administrativo de Paris ordenou, em 31 de julho, que a qualificação fosse alterada e reservada à entrada aos maiores de 18 anos, após uma denúncia da associação conservadora. A Justiça argumentou que o conteúdo explícito “poderia ferir a sensibilidade dos menores”.


Gaspar Noé não demorou a reagir. “Encontramo-nos diante de um anacronismo absoluto, que é próprio dos reacionários, mas também doEstado Islâmico. O chocante não é o fato de isso existir, mas sim o fato de a França dar razão a eles”, afirmou ele ao jornal Libération. “Meu filme é inofensivo mas parece incomodar. O que me angustia é que, por causa desse tipo de coisa, os diretores e produtores possam começar a ter medo. Existe um risco de que os cineastas e os roteiristas se autocensurem”, declarou o diretor de 51 anos, nascido na Argentina e radicado em Paris desde os anos setenta. Em 2002, Noé já havia provocado escândalo com Irreversível, que continha uma brutal cena de estupro com nove minutos de duração.
Rodado em 3D e com atores desconhecidos, Love é protagonizado por Murphy, estudante de cinema norte-americano residente em Paris, que recebe uma ligação anunciando o desaparecimento de sua ex-companheira Electra, com a qual compartilhou um devastadoramour fou. O protagonista evocará então essa relação passional e excessiva que terminou com uma dolorosa separação. E o fará com luxo de detalhes, incluindo sexo a três, encontros em um clube de swing, uma cena com um transgênero (criticada pela transfobia do protagonista) e até mesmo uma ejaculação em close.
Sua elegante atuação e sua vontade de romper com a representação habitual do sexo nas telas não conseguem esconder, entretanto, um enredo bem fraco. Apresentado no último Festival de Cannes com críticas negativas, Love foi divulgado na França como o primeiro filme autoral com cenas de sexo reais.

Pouco público

Nem mesmo o escândalo levou o público às salas: Love não conseguiu seduzir mais de 30.000 espectadores. Sua proibição aos menores não é somente simbólica; pode ter notáveis efeitos econômicos, como sua retirada de alguns cinemas e a diminuição de seu valor na exibição na televisão.
Somente uma última reviravolta poderá salvar Love. O ministério da Cultura apresentou um recurso ao Conselho de Estado, última instância da jurisdição administrativa na França, para revogar essa proibição. Curiosamente, a titular da Cultura, Fleur Pellerin, mostrou-se inicialmente favorável a vetar o filme aos menores e até mesmo exigiu que o Centro Nacional do Cinema reconsiderasse sua decisão inicial “com a esperança de obter uma classificação mais severa”, segundo o produtor e distribuidor do filme, Vincent Maraval, que interpreta em Love um pequeno papel de policial libertino. As reações de boa parte do setor do cinema francês, que denunciou um ataque à liberdade de expressão, forçaram a ministra a voltar atrás. O Conselho de Estado tem agora dois meses para dar a sentença.
Por enquanto, a associação Promouvoir conseguiu nova vitória na defesa por seus valores. A organização foi fundada em 1996 pelo advogado André Bonnet, ligado ao político ultradireitista Bruno Mégret. Desde então, conseguiu com que a justiça proibisse a presença de menores em filmes como Ken ParkJogos Mortais – O Final 3D e a segunda parte de Ninfomaníaca.
“Há 15 anos, diretores sem escrúpulos querem reintroduzir a pornografia nos circuitos para o grande público”, afirmou Bonnet em uma entrevista ao portal Allociné. “Frequentemente esse cinema tem como objetivo confesso participar na destruição das estruturas sociais e familiares em nome de um libertarianismo sem limites. E mira justamente os menores, como Valmont em Ligações Perigosas, com essa vertigem causada pela perversão dos mais jovens”.
Segundo o Le Monde, Bonnet participou dos recentes embates que a frente ultraconservadora travou contra o governo de François Hollande. Em 2013, acusou o Executivo de querer “eliminar a diferença entre gêneros” na escola e participou da poderosa mobilização conta o casamento homossexual, realizando intervenção em uma reunião na qual comparou o texto que legalizava o casamento com “a ascensão do nazismo e o marxismo-leninismo”.

Gaspar Noé
Contra as referências sexuais
A campanha contra Love é o último exemplo da incessante (e bem-sucedida) mobilização contra a cultura por parte dos grupos ultraconservadores na França. Em junho, um grupo de vândalos jogou tinta em uma obra do escultor Anish Kapoor nos jardins de Versalhes, depois do artista descrever sua escultura como a “vagina da rainha”, em referência ao seu aspecto, que poderia lembrar os órgãos genitais femininos.
Kapoor criticou na época “uma fração minoritária que vê todo ato criativo como um perigo a um passado sacralizado ao extremo”.
Em 2014, uma escultura inflável em forma de apetrecho sexual, do artista Paul McCarthy, foi desinflada em Paris, após gerar críticas do coletivo tradicionalista Printemps Français. Além disso, um grupo de manifestantes de extrema direita conseguiu interromper um espetáculo do coreógrafo Olivier Dubois na região de Vendeia. Protestavam porque os bailarinos estavam nus.