quarta-feira, 21 de setembro de 2022

Brooke DiDonato / A House Is Not a Home

 


Brooke DiDonato

A House Is Not a Home: the self-portraits of Brooke DiDonato – in pictures



Brooke DiDonato is a photographic artist based in Austin, Texas. Her latest body of work, A House is Not a Home, is a series of self-portraits that call into question the boundaries of reality and the psychological mindset. She draws on early work positioning her and other people’s bodies in familiar domestic settings – straddling the line between the mundane and the absurd

Saturday 17 September 2022


segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Queen Elizabeth meets the stars

 

Actor Raquel Welch shakes hands with Queen Elizabeth in March 1966.


Queen Elizabeth meets the stars – in pictures


When stars align: the Queen has had celebrities, from Elizabeth Taylor and Marilyn Monroe to Paul McCartney and Frank Sinatra, queuing up to meet her throughout her reign

Saturday 17 September 2022

The Queen receiving Carol Ann Duffy at Buckingham Palace shortly
after Duffy became the poet laureate in 2009.
 


Queen Elizabeth talks to actor Joan Collins during the Dramatic Arts reception at Buckingham Palace,
February 2014


Elizabeth meets Hollywood actor Marilyn Monroe Miller, standing next to Victor Mature,
during the Royal Film Performance, October 1956

sexta-feira, 16 de setembro de 2022

A eterna Clarice Lispector / Nada além de humana

 

Clarice Lispector


A eterna Clarice Lispector

Nada além de humana

23 MAIO 2022, 

Entre a memória e o imaginário surge o pensamento. Nele, cabe a essência de nossas histórias. Esta essência, por alguns audaciosos são escritas, pintadas ou declamadas. Embora seja difícil desenhar a alma de uma pessoa, cabe aos poetas e aos escritores essa difícil tarefa. Para tanto, há quem possa revelar alguns mistérios escondidos na alma? Claro, vai necessitar de muitas lembranças que envolvam o coração. Foi assim, que nasceu uma estrela que se denominava pernambucana. A partir dos 13 anos de idade, Clarice Lispector registra seus pensamentos. Observadora dos detalhes existentes nas relações sociais, Clarice começa a desenhar no seu pensamento as palavras de seu vasto mundo interior.

Andarilha desde seu nascimento, trouxe na sua bagagem, todos as nuvens dos lugares que passou. Por isso, em suas obras, há vestígios de suas fragilidades no percurso da vida. Nascida na Ucrânia, veio com a família para o Brasil para se livrar do desespero da perseguição ao povo Judeu. Primeiro a família aportou na cidade de Maceió, Alagoas, mas, depois veio para a cidade do Recife, Pernambuco. Viveu no Recife dos cinco aos quinze anos, tempo suficiente para declarar seu sentimento à capital Pernambucana. Pela sensibilidade em dizer que era do Recife, construiu em seu universo particular o aporte necessário para elaboração de suas obras. É sabido que na infância nossos sonhos virão brincadeiras. Por isso, “A criança quando brinca não está vivendo nem o passado nem o futuro, e sim, o tempo da eternidade”, segundo a médica francesa da educação Françoise Dolto. Esse tempo de eternidade, tempo infinito, o tempo da infância no Recife, fez instantes eternos na memória de Clarice Lispector. Foi na praça Maciel Pinheiro, que Clarice brincava e se encantava com as belezas do Recife. Sua casa, cor de rosa, ficava em frente à Praça. Foi nela que Clarice brincou, sorriu e chorou. O cenário da praça, os cantos dos pássaros, os pombos, as árvores facilitaram o desabrochar de suas vivências. Porque a praça Maciel Pinheiro alinhavou seus pensamentos.

Igualmente importante foram os intercâmbios culturais ocorridos entre os mais diversos grupos sociais que por lá passaram, como os imigrantes de origem judaica, que, no século passado, se instalaram nas ruas adjacentes à praça e imprimiram práticas vividas até hoje. Entre eles estava Clarice Lispector, que morou na casa de número 347 durante a sua infância e que, no presente, encontra-se representada na escultura situada ao lado do chafariz da praça. O sobrado onde ela cresceu ainda existe e nas suas paredes podem ser vistas artes e mensagens de saudade a Clarice, e votos de que no futuro seja atribuído à edificação um novo uso que homenageie e rememore a trajetória da escritora, revertendo o triste estado de abandono atual.

A praça foi um belo local para uma infância saudável e alegre. Recife com suas pontes e encantos, cercada pelo rio Capibaribe, serviram de cenário para as ideias de Clarice Lispector. Realmente, como diz o escritor pernambucano Raimundo Carrero, o sol do Recife é diferente, é contagiante. Para entendermos Clarice como Pernambucana devemos conhecer os contos - Restos de Carnaval e banhos de mar. Disse ela em seu referido conto:

...Como se as ruas e praças do Recife enfim explicassem para que tinham sido feitas. Como se vozes humanas enfim cantassem a capacidade de prazer que era secreta em mim. Carnaval era meu, meu...

Recife tem disso, o carnaval é nosso. Só quem nasce com a sobrinha de frevo na mão sabe a imensa alegria de ser folião. Tudo de ruim escapa na época do carnaval.

... Fui correndo vestida de rosa - mas o rosto ainda nu não tinha a máscara de moça que cobriria minha tão exposta vida infantil - fui correndo, correndo, perplexa, atônita, entre serpentinas, confetes e gritos de carnaval. A alegria dos outros me espantava...

Nitidamente observamos a importância do humano em Clarice. A escritora Olga Tokarczuk afirma que “O tempo, por sua vez, parece uma ferramenta simples para medir pequenas mudanças, uma régua escolar com escala simplificada de apenas três pontos: foi, é e será.” Clarice traz um mundo pelo passado, presente e futuro. Na verdade Clarice brinca entre o foi, é e será na hora que escreve. Há de se considerar o cotidiano como um dispositivo, como um limite epistemológico para seu processo de criação. De espírito infantil, ainda no belíssimo conto Resto do Carnaval ela continua:

... Só horas depois é que veio a salvação. E se depressa agarrei-me a ela é porque tanto precisava me salvar. Um menino de uns 12 anos, o que para mim significava um rapaz, esse menino muito bonito parou diante de mim e, numa mistura de carinho, grossura, brincadeira e sensualidade, cobriu meus cabelos, já lisos, de confete: por um instante ficamos nos defrontando, sorrindo, sem falar. E eu então, mulherzinha de 8 anos, considerei pelo resto da noite que enfim alguém me havia reconhecido: eu era, sim, uma rosa.

Assim, Clarice revela sua essência de menina entre a dor e alegrias. Como todo ser humanos, como a vida. Perigosa e maravilhosa, a vida é assim, humana. Digamos que as obras de Clarice sejam parecidas com as pinturas de Marc Chagall, coloridas e com sentimento de sonho. O russo Chagall, assim como Clarice, vivencia choque de realidades e culturas, proporcionando um sentimento de sonho em suas obras. O sentimento de sonho pelo choque de realidades, fez de Clarice uma escritora que fotografou sua aldeia, pelo seu mundo interior. Clarice também pintava quadros. O que ela queria mesmo, era mostrar os diversos horizontes existentes no ser humano. Como dizia o escritor Júlio Cortázar:

Provavelmente de todos os nossos sentimentos o único que não é verdadeiramente nosso é a esperança. A esperança pertence à vida, é a própria vida se defendendo.

Então, o que faz de Clarice Lispector tão humana? Sua maneira de interpretar os sentimentos? Ou quem sabe como dizia o poeta Carlos Drummond de Andrade, “Tenho apenas duas mãos e sentimento do mundo...” Clarice também carrega esse sentimento, só que, o sentimento do cotidiano do mundo. Há de se considerar que Clarice Lispector é a autora mais citada na internet nesses tempos de pandemia da Covid-19. Tempo de isolamento social. As obras de Clarice evidenciam a maneira do ser humano existir e carregar angustias, sofrimentos e ao mesmo tempo esperança. Bem atual para época de descrenças em todos os sentidos. Tudo isso aponta para a performance de vida da referida escritora, por ter vivido em vários lugares do mundo. Por sua vez, Clarice demonstra mais mistérios do que explicações. Mas, o que seria a vida, então? O mistério não necessita de tradução, só precisa existir. De difícil tradução, Clarice, queria mesmo dizer ao mundo, que era nada além de humana.

De tal modo que a escritora afirma em Água Viva: 'gênero não me pega mais', porque ela rompe realmente com a estrutura dos gêneros literários", explica. "O que me interessa realmente na Clarice é o questionamento que ela faz da linguagem, de seus limites, de sua incapacidade de expressar a vivência humana. Há duas frases dela que são expressivas disso: 'Viver não é relatável' e 'A realidade não tem sinônimos'. A obra dela me parece extremamente importante, porque é inovadora exatamente neste questionamento que faz da linguagem.

Então, Clarice sempre manteve viva sua forma de ver o mundo. “Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida.” (Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998).Acreditamos que sua vivência pelo Recife, fez Clarice descobrir o mundo.

“… os dias seguintes eram a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez. (Clarice Lispector, no livro “A descoberta do mundo”. (Rio de Janeiro: Rocco, 1999). Assim, como o pernambucano Cícero Dias em sua pintura por volta de 1929, “Eu vi o mundo...Ele começava no Recife”, que agitou o mundo, provocando polémicas. Clarice também tinha esse sentimento, mantendo vivo o Recife dentro de seus pensamentos. Não conseguia fingir, nem fugir das lembranças do Recife.

Pernambuco marca tanto a gente que basta dizer que nada, mas nada mesmo nas viagens que fiz por este mundo contribuiu para o que escrevo. Mas Recife continua firme", escreveu Clarice em A descoberta do Mundo, em trecho destacado por Benjamin Moser na biografia Clarice, (Companhia das Letras). Em diversas ocasiões, tanto em entrevistas quanto na sua produção literária, ela falou da relevância que os dez anos passados em Pernambuco tiveram em sua formação. E a Praça Maciel Pinheiro, em especial o sobrado cor de rosa 387, indica o marco zero da geografia recifense de Clarice Lispector. A infância e o início da adolescência desta então jovem filha caçula de imigrantes ucranianos ocorreu principalmente pelo bairro da Boa Vista, na Rua da Aurora e pelo Cais. O Recife de Clarice é o centro da efervescência intelectual e cultural do modernismo pernambucano. Perto dali se encontrava a Cafeteria Glória, palco do assassinato de João Pessoa em 1930. No mesmo ano deste trágico acontecimento que mudaria os rumos da política nacional com a ascensão de Getúlio Vargas - e na mesma vizinhança -, era inaugurada por Jacob Berenstein a primeira Livraria Imperatriz. Também nos arredores ficava o Colégio Hebreu-Iídiche Brasileiro, onde Clarice estudou até entrar no Ginásio Pernambucano, localizado não muito longe, em 1932.

O Recife sempre efervescente chacoalhava e fazia rebuliço na vida dos intelectuais da época. Também, Recife apresentou para Clarice um “aconchegante coletivo” com diz o sociólogo Zigmund Bauman em seu livro sobre comunidade. No Recife existe a primeira Sinagoga da Américas, o que faz a família Lispector a ideia de pertencimento de lugar. Mas, foi no conto Banhos de Mar que Clarice mergulhou na infância e transmitiu a dor e alegria de seu cotidiano no Recife. Surpreendente e impressionante as nítidas lembranças de Clarice ao descrever a vida na infância, coberta de sentimentos e descobertas. O que a eterna escritora queria mostrar era o seu desabrochar na descoberta do mundo. O nome de batismo de Clarice – Chaya – significa “vida” na língua hebraica (foto: Arquivo-Museu da Literatura Brasileira, Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro). O cenário do mar de Recife e Olinda foram inevitáveis para as observações detalhadas da criança em Clarice. Para G. Tillion, “Basta viver para convencer de que os acontecimentos vividos são a chave dos acontecimentos observados.”

Não só o mar permaneceu vivo em Clarice, mas a urbanidade do Recife, melhor dizendo o “rurbanidade” como dizia o sociólogo Gilberto Freyre. O rural e o urbano foram essenciais para que Clarice escrevesse o romance, A Cidade Sitiada.

A cidade da memória da infância, das lembranças do tempo vivido no Recife, dos arrecifes e das camadas de pedras que guardam a história de um Novo Mundo, a esperança de construção da nova sociedade de muros menos intransponíveis das cadeias invisíveis. Algumas atribuídas ao credo e “questões de raça”. A cidade de pedra, guardadora de almas, como o que fica para trás não pode ser revista. Quem partiu e corre o risco de virar estátua de sal.

Ou seja, a constante mutação de seus personagens e as angustias em suas narrativas fazem de Clarice simplesmente humana. A inconfundível nobreza da escritora está em sua fragilidade e ao mesmo tempo sua vontade de dizer ao mundo sua infinitude. Dizia ela em A paixão segundo G. H. “Eu sou mansa, mas a minha função de viver é feroz.” Havia uma força em Clarice, mesmo que estranha, mas que faz parte de ser no mundo. Mesmo porque, não é fácil viver. De maneira frágil e feroz, Clarice se destaca pela sua fome de viver. ‘Não cumpro nada: apenas vivo. (Clarice Lispector, no livro “Água viva”. Rio de Janeiro: Rocco, 2009)”. Clarice fez aulas de piano, por isso, havia requinte e audácia na ânsia de mostrar seu pensamento através da escrita como uma lucidez perigosa.

A lucidez perigosa Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar? assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise. Estou por assim dizer vendo claramente o vazio. E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço. Além do que: que faço dessa lucidez? Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano – já me aconteceu antes. Pois sei que – em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade – essa clareza de realidade é um risco. Apagai, pois, minha flama, Deus, porque ela não me serve para viver os dias. Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis. Eu consisto, eu consisto, Amém.

A subversiva e revolucionária Clarice, revelou ao mundo mais incertezas do que explicações. Talvez, fosse esse o pretexto, porque ela gostava mesmo é de uma verdade inventada. De inquietudes rebuscadas Clarice Lispector não conseguia esconder seus sentimentos, certo que por vezes utilizou códigos, mas, fez questão de mostrar que somos feitos de histórias, sentimentos e cotidianos. “Cada coisa é uma palavra. E quando não se a tem, inventasse-a.” (Clarice Lispector, no livro “A hora da estrela”. Rio de Janeiro: Rocco, 1998).

E, de tanto inventar-se, a eterna Clarice Lispector, é, nada além de humana.

Referências:

Bauman, Z. Comunidade: A busca por segurança no mundo atual. 1ª Ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003. Lispector, Clarice. Água viva. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
Lispector. Clarice. Felicidade Clandestina, Ed. Rocco, 1971 – Restos do Carnaval.
Lispector, Clarice. A hora da estrela. Rio de Janeiro: Rocco, 1998.
Lispector, Clarice. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
Kopenawa, Davi. ALBERT, Bruce. A queda do Céu: Palavras de um Xamã yanomami. 1º ed. São Paulo: Companhia das letras, 2015.
Dissertação de Mestrado de Geórgia Priscila Alves, [O Retrato do recife de Clarica LIispector](O Retrato do recife de Clarica LIispector), Recife 201.


A arte de transformar emoções em livros.
Guia de turismo e viagem de Salvador, Bahia e Nordeste Brasileiro.
Na sua literatura e lembranças, Clarice Lispector sempre manteve vivo o Recife onde passou a infância.
Françoise Dolto, uma médica de educação.
Praça maciel pinheiro.
Por que Clarice Lispector, uma escritora de difícil leitura, é uma das autoras brasileiras mais citadas na internet.

MEER




segunda-feira, 12 de setembro de 2022

Azáfama da ficção / Venturas e desventuras no desabrochar das histórias

 

Jacques Rancière


Azáfama da ficção

Venturas e desventuras no desabrochar das histórias

23 ABRIL 2022, 


O mundo é codificado e há no ser humano a vantagem de querer codificá-lo à sua maneira. Digamos que vivemos nas margens da ficção. Aprendemos desde cedo a seguir o caminho da “Ordem”. Mas, que “ordem” é essa que nos afasta do sentido da vida?

Acredito que a ciência deva andar par e passo com a literatura. Ambas, sinalizam o sentido da vida. Somos feitos de vivências nas diversas fases da vida. Atravessamos pelo tempo e muitas vezes nem percebemos a diferença entre distância e ausência. Há de se considerar que, como diz a escritora Clarice Lispector “tenho mais fragilidades do que qualidades”, que somos frágeis e é na fragilidade e nos atropelos das nossas escolhas, que construímos nossas qualidades. Os conflitos criados diante de uma soberania moral formam nossas expectativas para codificar o mundo. Por isso, muitas vezes queremos decifrar qualidades em vez de compreender as fragilidades humanas, que é bem mais difícil.

Isso tudo pode assustar, mas, temos nas nossas vivências o poder das nossas histórias. Graças ao desabrochar das histórias que o mundo se refaz. E, ainda bem que existe a ventura e a desventura para compor as fragilidades na história. Com isso, temos a história oral e a história escrita irrigada pela imaginação. Dizia Bachelard Assim, “somente quando a alma e o espírito estão unidos num devaneio pelo devaneio é que nos beneficiamos da união da imaginação e da memória” (Bachelard, 2009, p.99).

Então, percebemos que na era da cultura do algoritmo nos distanciamos do devaneio. O escritor Oscar Wilde dizia que “nós, não precisamos de muita coisa, apenas um do outro e de sonhos” Para tanto, o que vem causando conflitos na era digital é apenas a falta de sonhos para o desabrochar das histórias.

Não se assustem, porque tem muita moçada fabricando sonhos e escrevendo sobre várias histórias. O que estou querendo lembrar é do atropelo na fabricação desses sonhos.

Mas, qual o significado de ficção? Para Jacques Rancière, que escreve em seu livro - As margens da Ficção, “O que distingue uma obra de ficção da experiência trivial do dia a dia não é a falta da realidade, mas o acréscimo de racionalidade. Ao mesmo tempo sucessivo do cotidiano em que uma coisa simplesmente acontece após outra, a ficção organiza ações, encadeia causas e consequências de tal modo que os acontecimentos pareçam se engendrar uns aos outros e, ao final, inesperadamente, as expectativas se invertem, a ventura se transforma em desventura e a ignorância em saber.” (Rancière, 2021, p. 7)

Daí, se a história oral perpassa pela riqueza do imaginário, a escrita perpassa pela riqueza da ficção, ou seja, pelo acréscimo de racionalidade. Continua Rancière, “A racionalidade da ficção está em que as aparências – ou as expectativas, já que a mesma palavra em grego diz as duas coisas – se invertem.” (Rancière, 2021, p. 7)

Digamos que é nítido em muitos escritores essa inversão entre as expectativas e as aparências. Melhor dizendo, entre a estética e a ética. Nos tempos atuais, onde a estética ganha uma dimensão a seu favor, nada mais interessante do que a ficção ganhar visibilidade mediante a cultura do algoritmo. Desse modo, ressalta Rancière que na literatura, “A verdade se impõe como reviravolta daquilo que as aparências levaram a esperar.” (Rancière, 2021, p. 9) Então, são novos dilemas para um mundo na era digital. A escrita passa por uma nova dimensão, onde olhava-se para o passado, agora olha-se para o futuro.

Mas, será que estamos preparados para isso? Digamos que precisamos ter ao mesmo tempo o passado e o futuro e devemos entender que para escrever precisamos de vários aspectos como cotidiano, sonhos, venturas e desventuras e por aí segue. Penso que algumas escolas e a academia ainda não estão preparadas para este modelo de pensamento rápido para o futuro. Ainda estão atropeladas para esse novo mundo que faz parte do crescimento e do ciclo no desenvolvimento da humanidade.

Embora os rituais estejam se reatualizando, não podemos nos separar da natureza nem do cotidiano. Saliento, que necessitamos de saber das validades e das pretensões na fabricação de nossas histórias. Sabemos que há mudanças e assimilações nas tradições, então, devemos compreender que feição queremos dar para reformular nossas histórias.

Atento a isso, o escritor Roland Barthes afirma, "A escrita está longe de ser neutra, pelo contrário, está sobrecarregada com signos mais espetaculares da fabricação.” (Barthes, 1953, p. 62)

Notem que a escrita é recheada de invenção entre o que podemos criar envolvidos pelo cotidiano e pelos sonhos. Cabe analisar que escrever sobre o social e para sociedade não é tarefa fácil. Primeiro porque a sociedade está acostumada com a lógica aristotélica, segundo que a academia ainda não fez a ruptura do rigor de seus limites epistemológicos. Como seria então escrever esse novo social para sociedade? Edgar Morin, diz que há muita ciência engavetada.

Devemos desabrochar para que se possa dizer numa redação cientifica os sentimentos ocorridos no fluxo do social? O que seria então escrever para a sociedade? Seria privilegiar o cotidiano e os sonhos? Ou, o que os mestres e os brincantes da cultura popular gostariam de saber? Ou melhor, de que eles se interessam? Precisamos saber qual é a feição da escrita nos tempos da cultura digital e como podemos dar visibilidade a novas histórias. Para isso, devemos ponderar e procurar qual feição queremos dar para nossa história.

Primeiramente a educação literária poderia ser uma saída na diminuição de uma escrita realizada por uma soberania moral fundada em intimidação. Necessitamos de uma escrita motivada numa feição de virtudes, o que corresponde aos muitos clássicos da literatura, como Tolstói, Dostoievsky, Dante Alighieri, Machado de Assis, Sant Exupéry, Jane Austen, Victor Hugo, Graciliano Ramos, George Orwell, Gabriel García Márquez, Rainer Maria Rilke, Aloísio de Azevedo, entre ouros que não foram mencionados, mas, foram pensados.

O escritor angolano da literatura lusófona Gonçalo M. Tavares diz que a “literatura é um lugar de refazer começos.” Realmente o lugar da literatura é precioso, traz justamente o coração de nossa moral e o cérebro da nossa ética.

Então, como desabrochar novas histórias num mundo da cultura do algoritmo?

Receitas não faltam. O que devemos compreender é que os fragmentos estão em alta na era da cultura digital. Para tanto, os mestres da cultura popular, os brincantes, os artesões, os indígenas, as pessoas de matriz africana estão desabrochando novas histórias entre as suas venturas e desventuras. Porque, como dizia Joseph Beuys “Pensar é esculpir. A revolução somos nós. Todo homem é um artista.”

O que precisamos escrever é sobre as transformações do homem na sociedade. Essa é a dica. Passamos muito tempo escrevendo sob alguns constrangimentos, agora na era digital, devemos entender que a escrita deve falar de transformações.

A esse respeito o professor Luiz Henrique Lopes dos Santos em seu livro intitulado - O olho e o microscópio, afirma que, “Para qualquer ciência, a verdade é o ideal último a atingir; para a lógica, ela é o tema mais próprio de reflexão sistemática. “Descobrir verdades é tarefa de todas as ciências, à lógica compete conhecer as leis do ser verdadeiro.” (Lopes dos Santos, 2008, p.27)

Por isso, devemos formar o ato de pensar baseado na educação literária para o desabrochar das histórias no mundo. Para isso acontecer, o ato de pensar deve ser construído na busca do refinamento humano. Segundo o Professor Lopes dos Santos, “diferentemente do filósofo grego Aristóteles, que empregou como modelo a linguagem ordinária, o sistema lógico fregiano (Gottlob Frege) parte da linguagem aritmética. No livro, o autor estabelece essa distinção.”

O pensamento de Frege refere-se a lógica aritmética pelo sentido e referência.

Nesse estudo, do desabrochar das histórias, é importante salientar que estamos numa era onde devemos encontrar na escrita uma saída para um mundo melhor. Sei que não estou escrevendo, ainda, para sociedade, mas, penso que o sentido da vida seja escrito. Mudar a forma de pensar, ainda é um trabalho que custará muito tempo. Enquanto isso, busquemos um novo modo de ponderar os atropelos criados na esfera do social, O social é amplo, é dinâmico. Cabe nele muitas invenções. Se a escrita é uma invenção, cabe nela muita ficção. O que podemos fazer é colocar óleo na máquina humana pela literatura, como dizia o meu professor, orientador, Welington Pereira da Universidade Federal da Paraíba - UFPB.

“Portanto toda escrita atual existe uma dupla postulação: há um movimento de uma ruptura e o de um advento, há o próprio desenho de qualquer situação revolucionária, cuja ambiguidade fundamental é o fato de a Revolução ser obrigada a extrair daquilo que quer destruir a imagem do que quer alcançar. Como a arte moderna na sua totalidade, a escrita literária contém simultaneamente a alienação da História e o sonho da História: como Necessidade, atesta o dilaceramento das linguagens, inseparável do dilaceramento das classes como Liberdade, é a consciência desse dilaceramento e o próprio esforço que pretende ultrapassá-lo. Sentindo-se constantemente culpada da sua própria solidão, ela não deixa de ser por isso uma imaginação ávida de uma felicidade das palavras, precipita-se para uma linguagem sonhada cuja frescura, por uma espécie de antecipação ideal, representa a perfeição de um novo mundo adâmico onde a linguagem já não seria alienada. A multiplicação das escritas institui uma Literatura nova na medida em que está só inventa a sua linguagem para ser um projeto: a Literatura tornou-se a Utopia da linguagem.” (Barthes, 1952, p. 78, Livro: O grau zero da escrita.)

Assim, há muita confusão na ficção, e isso é o mote da existência das venturas e desventuras no desabrochar das histórias. E, pasmem, é pela azáfama da ficção que a história se refaz. Necessitamos de escritores ativistas, que narrem seus cotidianos, escritores negros, indígenas que desabrochem seus sonhos. Necessitamos da eterna sensação de sonho para dar sentido à vida, porque somos feitos de vivências que desabrocham em histórias.

MEER




sábado, 10 de setembro de 2022

Em busca do império dos afetos "Fragmentos de um discurso amoroso"

 

Dançarinos se misturam com pessoas nas ruas do México


Em busca do império dos afetos

"Fragmentos de um discurso amoroso"

31 AGOSTO 2022, 

Encontramos nas culturas populares dispositivos para modos de sobrevivência. Esses mecanismos existem como suporte que gera a liga da convivência na sociedade. Por sua vez, as culturas populares impulsionam a mudança social pela vontade de lugar de fala, pelo descontentamento da ordem imposta e para a reatualização de sua dinâmica. As culturas populares são provocadoras. E como são!

Digamos que as culturas populares reagem ao sistema de maneira singular e surpreendente. Por sua forma de sobrevivência, elas ressoam modos de vida entre o céu e a terra, onde precisamos da ternura. Como diz Luis Carlos Restrepo, a “ecoternura é desburocratizar o conhecimento, convertendo sua produção e conservação numa prática de autogestão” (Restrepo, 1998, p. 85). Ainda acrescenta Restrepo, “conviver num ecossistema humano implica uma disposição sensível a reconhecer a diferença, assumindo com ternura as ocasiões que nos oferece o conflito para alimentar o mútuo crescimento.”

Então, para construir um império dos afetos, será necessário irmos em busca do direito à ternura, que anda bastante esquecida na nova era virtual. Ainda que, por muito tempo, fomos criados para não apresentarmos fraqueza afetiva, que colaborou com o início do analfabetismo afetivo. Segundo Restrepo, o “analfabetismo afetivo” dificulta compreender as raízes de nosso sofrimento e ainda impede de encontrar as chaves para melhorar nossa vida cotidiana. Só nos resta então sentir com as vísceras, splacnisomai!

Splacnisomai é uma palavra que corresponde à conjugação de um verbo desaparecido entre os séculos II e III, do original grego do Novo Testamento. Utilizado pelos evangelistas, o termo refere-se à dimensão milagrosa de Cristo, afirma Restrepo. Tiramos da educação o tato, o olfato e o paladar. Com isso, ocorreu uma fratura nos afetos. Em muitos lugares, o cheiro é sinônimo de sabedoria. Mas nem tudo está perdido.

Temos no folclore ou cultura popular um patrimônio cultural que exala ternura. Por exemplo: como nasce um bumba meu boi? Como se dança o cacuriá no Estado do Maranhão? O que devemos oferecer à comadre florzinha? Qual a receita do bolo de rolo de Dona Maria, em Pernambuco? Qual a melhor cantiga de ninar para embalar um filho? Será que devo deixar meu chinelo emborcado? Qual a melhor oração para acalmar uma criança? Por onde anda o homem do saco e o papa figo? E a gata pintada? Quem te pintou?

Tudo isso forma o império dos afetos. Já dizia Roland Barthes, “Onde és terno, dizes plural”. Para tanto, ser humano é considerar que temos fragilidade. É uma pena o sistema não reconhecer a cognição afetiva. Ela está presente no folclore, onde produz e reproduz singularidades. Como exemplo temos os mestres da cultura popular, onde cada um apresenta seu afeto com sua manifestação e seus folguedos. Não existe o melhor, existe a ternura. Os mestres têm formosura. São capazes de falar de política, religião e brincadeira sem perder a ternura. Sabem por quê? Porque a ternura está sempre presente. Mesmo assim, com tanta tecnologia e com a exaltação do consumo, os brincantes não confundem razão com ternura. Eles sabem que uma ideia se vence com outra ideia, sem perder a essência do encontro e das vivências entre o céu e a terra. Para tanto, devemos observar a potencialidade de cada ser humano. Mas por que não fazemos da educação uma consciência afetiva? Qual projeto de futuro queremos para a educação? Quais os caminhos possíveis para unirmos ciência com afetos? Como pode um trabalhador que corta cana de açúcar usar o surrão, fantasia do maracatu rural?

A socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz afirmava que é pelo afeto. O afeto explica toda forma de ternura nas relações sociais. Nas convivialidades, o que ressoam são os costumes. Por sua vez, a cultura popular é uma fonte de ternura.

Digamos que a crise nas ciências sociais esteja voltada pela distância na cultura, que é fonte de identidade. A tradição é a ressonância da ternura entre o antigo e o que está por vir. Não se pode separar os costumes das questões políticas.

Assim, somos conectados com o mundo e por isso somos ressonantes diante de nossas convivialidades. O cotidiano é solo fértil de ressonâncias. Como afirma Hartmut Rosa, “os seres humanos são, antes de mais nada, seres ressonantes”.

Por isso a simplicidade é a maior sofisticação, como afirma Leonardo da Vinci.

Digamos que essas questões são de muita utilidade no cotidiano, que é lugar de recriação da ordem. E, para tanto, necessitamos de uma conexão com o folclore e a cultura popular. Esta conexão faz dos seres humanos mais humanos. Talvez precisaremos deixar de nos acostumar com a pedagogia do terror, segundo Restrepo. Quando a singularidade desaparece damos espaço para a violência. Por tudo isso devemos apresentar caminhos possíveis para a pedagogia da ternura por meio da cidadania do afeto. Ternura não é só simpatia, pois a ternura é concebida como ato de conquista.

Não precisas trazer presentes, nem rimas, nem flores e nem nada. Basta trazeres o que sentes.

(Carlos Drummond de Andrade)


MEER

sexta-feira, 9 de setembro de 2022

A cultura modela a vida ou a vida modela a cultura? / Não há estrutura social sem cultura

O festival de Kerala Theyyam, na Índia: a cultura estabelece um movimento de circulação e visibilidade para facilitar as oportunidades que surgem no mundo


A cultura modela a vida ou a vida modela a cultura?

Não há estrutura social sem cultura

23 JULHO 2022, 

A cultura traz no seu contexto uma complexidade na sua tradução e significados. Por sua vez, a cultura é polissêmica atua como um caleidoscópio é transformadora para vida social dos seres humanos. Há de se considerar, que a cultura exerce com muita polêmica a dinâmica na vida social dos seres humanos. Portanto, não há estrutura social sem cultura. Digamos que a estrutura social funcione como a brincadeira de “cabo de guerra”. O povo de um lado com seu repertório a partir de ferramentas ativas utilizadas no dia a dia para sobrevivência e para o trabalho. E do outro lado máquina estatal preparando seus argumentos e leis diante da revelação dos poderes. Cada um com suas ferramentas ativas de provocações revelam suas nuances.

No mundo vertiginoso dos acontecimentos, a cultura estabelece um movimento de circulação e visibilidade para facilitar as oportunidades que surgem no mundo. Podemos considerar que a cultura não pode ser separada de nós. Tudo que fazemos, pensamos, agimos e queremos tem resposta e perguntas na cultura. Para desenvolver qualquer projeto de vida necessitamos da cultura. O grande pesquisador da cultura Antonio Monegal afirma que “A cultura não é um luxo decorativo, é a base da nossa experiência vital.” Para tanto, os papéis sociais e principalmente o nosso status na sociedade tem como base o repertório formado pelas ferramentas da cultura.

O que ocorre é que a cultura age de forma invisível porque permeia o nosso dia a dia. Já ouviram falar que são os detalhes que fazem a diferença, pois é, esses detalhes proporcionam a mudança social. Sentir, interagir, agir, planejar e desenvolver são necessários para compor o repertório de significados e significantes da cultura. Todo esse movimento foi registrado pelos estudiosos, Mário de Andrade com O turista Aprendiz, Renato Almeida com a Inteligência do Folclore, Alceu Maynarde com o Folclore Nacional, Rossini Tavares com A ciência do folclore, Théo Brandão com Folguedos Natalinos de Alagoas, Câmara Cascudo com o Dicionário Brasileiro de Folclore, Mário Souto Maior com Orações que o povo reza, Roberto Benjamin com Folguedos e danças de Pernambuco, entre outras almas sensíveis que tiveram a preocupação de não separar a cultura da vida social. Por isso, a cultura exerce divinamente a responsabilidade de nos tornarmos melhores. Sem ela as metáforas não existiriam, nem as poesias ousariam em aparecer, nem as crenças se tornariam diamantes, nem as pinturas, as danças e as músicas sobreviveriam.

Por sua vez, algumas pessoas não conseguem enxergar a cultura como prioridade no surgimento de nossa identidade voltada para produção simbólica. Os símbolos existem porque o mundo é codificado, segundo Vilém Flusser, “Em suma: as formas não são descobertas nem invenções, não são ideias platônicas nem ficções; são recipientes construídos especialmente para os fenômenos.” (Flusser, 2013: 28).

Então, é na cultura que encontramos esses recipientes. Nesse contexto a cultura tem como privilégio organizar a sociedade. Os artistas e os fazedores de cultura acumulam sensibilidade para exporem ou decifrarem esses códigos. Ainda como afirma Antônio Monegal a cultura é um “ecossistema” alimenta a política, instituições e a vida social. A cultura é crucial nas vendas, no trabalho, na mídia e pasmem, até nos sonhos. Quem pode explicar melhor é o poeta Carlos Drummond de Andrade com a poesia - Lembrete "Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, Mas a poesia (inexplicável) da vida."

Para refletir melhor, a cultura traz o sentido da vida. Construímos memórias afetivas pela cultura porque somos feitos de histórias

Tudo porque a cultura vive dos detalhes inacabados. E hajam detalhes! Então, pelos mistérios existentes entre o céu e a terra, a cultura se faz presente. É viva! É dinâmica! É exuberante! Nela temos a tradição, a refuncionalização, a reatualização e muito sentimentos. A cultura carrega , como diz o poeta Carlos Drummond, o “Sentimento do mundo”. Por isso, a cultura acompanha a dor, a moral, a ternura, a magia, os costumes, a fé entre outros sentimentos. Há-de se considerar que a cultura carrega tanto a pureza da tradição popular quanto a euforia frenética da pós modernidade. Como até hoje ninguém sabe quem nasceu primeiro se foi o frevo ou passo, assim é a cultura que modela a vida, e ao mesmo tempo, a vida modela a cultura. Vai tornando, vai fazendo, vai acontecendo, tudo na vida, por conta da cultura. O popular amadurece o erudito, e o que era novo, hoje é antigo.

Nessa complexidade, a cultura traz e faz o tempo. O que, inevitavelmente, gera contradições, incertezas e crises. “A ideia dominante em seus últimos escritos afirma que a cultura é atravessada tanto por mudanças abruptas e lacerantes, fontes de ondas epidêmicas de terror (Lotman, 1985 [1984], p.145), como também por novos caminhos imprevisíveis.” Assim, a espontaneidade e os imprevistos são responsáveis pelo repertório da cultura, existentes também nas culturas populares, que regulam o trabalho e a vida.

E, para você que está duvidando das ferramentas ativas da cultura, basta lembrar do que você faz quando acorda? O que você escuta? O que você come? O que você assiste? Entre outras atividades. Tudo que nos cerca, é cultura. O ritual adotado que privilegiamos, a religiosidade, as crenças, as comidas, constroem a identidade de um povo.

A identidade proporciona um conjunto que nos fortalece e nos dá segurança. Nesse universo formamos nossa essência. Cada povo, cada comunidade, revela sua identidade por diversas maneiras. No jeito de falar, pelas comidas, pelo comportamento e pelo modo de como acreditam em algo, seja bom ou ruim. Na identidade revelam-se os fenômenos existentes na cultura. Ou seja, a identidade é guiada pela produção cultural.

Desde elaboração de memes, danças pelo aplicativo tiktok, entre outros repertórios ativos realizado pelo uso da tecnologia na tradição popular. Por sua vez, a identidade traz e faz a diferença mediante o mundo padronizado da globalização. Existe então, uma grande questão ao mesmo tempo que a identidade salva, também pode ser deturpada. É o caso do preconceito em relação aos nordestinos, aos povos originários, aos negros, que cá prá nós, é inadmissível! Somos frutos da mistura e mistérios do imaginário de várias etnias. Basta comprar um suco de uva, por exemplo e ler na embalagem o lugar de fabricação, e se deparar, por exemplo, com Pernambuco, um Estado do Nordeste. E se a gente for procurar nos folguedos e danças, encontraremos traços e vestígios de vários povos do mundo. Necessitamos aprender com a cultura.

Cultura é o sistema de ideias vivas que cada época possui. Melhor: o sistema de ideias das quais o tempo vive.

(José Ortega y Gasset)

Cabe, a “todos seres humanos trazer clareza ao mundo”, ainda como diz Ortega y Gasset, porque a infância da cultura está no popular, no folclore. A cultura popular ou folclore é banhada por espontaneidade e ineditismo. Há uma sabedoria nas culturas populares que conseguem driblar a “ordem” devolvendo a sensação de sonhos. Nela existe o charme do caboclo de lança com o cravo na boca, o reflexo do espelho nas fantasias, o gingado da capoeira, o genuíno e a malemolência no passo do frevo, a força da fé, cadência de uma ciranda, e a produção maravilhosa das narrativas. Tudo isso, nos envolvem. Para Carlos Gomide fundador da Carroça de Mamulengos “um mundo carece de Vida Viva” E a cultura é vida viva! Não podemos dispensar o que nos faz melhor. Mas, não esqueçam, que a imaginação para Ambrose Bierce é um “entreposto de fatos, de propriedade de dois sócios: um poeta e um mentiroso.”

Mesmo assim, com tanta complexidade, a cultura é surpreendente!

MEER


quarta-feira, 7 de setembro de 2022

É possível viver sem crenças? / Saiba como andam as superstições na era do imprevisto

 


É possível viver sem crenças?

Saiba como andam as superstições na era do imprevisto

23 JUNHO 2022, 

Desde que o mundo é mundo os mistérios existem e habitam no imaginário coletivo da humanidade. Quando Deus disse " Faça-se luz" tudo ficou bem mais claro! Será? Nem tudo, não é? Ainda temos muito a desbravar, e, enquanto isso não ocorre, colocamos medo e esperança nas nossas vivências. Crença é aquilo que a gente suspeita em acreditar para trazer um conforto, uma segurança ou mesmo uma proteção diante dos imprevistos do dia a dia.

Para o professor pernambucano Getúlio César, em seu livro “Crendices suas origens e classificação”, Crença “é incongruente e insólita, gerada pelo medo doentio de pessoas que possuem religiosidade exaltada. O medo é o grande gerador dos crendeiros: medo do inferno, medo do diabo, medo do purgatório, medo de pecar, medo de ser perseguido por espíritos inferiores, medo de feitiço... Todas essas fobias criam pessoas crendeiras e supersticiosas e, concomitantemente, um sincretismo de crenças engendradas para transformar pecados em virtudes.” (Getúlio Cesar, 1975, p.17)

Na verdade, o crendeiro, como diz Getúlio César, é um fabulador. Arrebatado pelos mistérios e tentado por dúvidas incessantes, o fabulador cria sempre uma atmosfera de desconfiança. Diz ainda Getúlio César, “que o crendeiro se esquece que o pecado só aparece quando a lei é transgredida. E, da vacilação da pessoa surge a crença.” Será? Poderíamos dizer que o fabulador se reatualizou. Fez uma grande parceria com a tecnologia, é devoto do santo “Wi-fi” e vive criando memes e fake news de narrativas exóticas e aleatórias.

Quem pode nos ajudar é o professor de psicologia da universidade de Havard, o sensacional, Steven Pinker. O professor Pinker indaga – “Como é possível que a mesma espécie, que em menos de um ano desenvolveu vacinas contra a Covid-19 produza tamanha quantidade de notícias falsas, charlatanismo médico e teoria da conspiração?” O referido professor ainda indaga sobre a racionalidade por que parece está em falta e por que é importante?

Para tanto, estamos sempre querendo driblar a ordem. Desse modo, as crenças, as superstições, invadem nosso imaginário revelando os costumes e identidade de um povo. Como diz Mário Souto Maior, são os mistérios do faz mal! Para espantar o medo e viver conforme a ordem estabelecida muita coisa na vida pode fazer mal. “Faz mal dar sapato usado: dá azar. Faz mal dar lenço de presente: acaba amizade. Faz mal emprestar (é melhor dar) sal: dá atraso na família da casa. Faz mal deixar uma tesoura aberta: é agouro, porque a tesoura vai cortar a mortalha de alguém da casa. Faz mal limpar a teia de aranha: traz infelicidade... E por aí segue uma lista de mistérios do faz mal coletada por Mário Souto Maior.

As superstições invadem nosso imaginário revelando os costumes e identidade de um povo

Eu mesma nem dou conta de tanta superstição que minha mãe falava para mim. Não podia deixar os chinelos emborcados porque a mãe morria. Deus me livre! Cuidado com o papa-figo e com o homem do saco que rouba crianças! Assim, fui criando meu universo de mistérios do faz mal. Acredito que a maioria das pessoas lembrem de alguma superstição.

Até hoje, jogadores, empresários e artistas utilizam as superstições para garantir sua fé e sua sorte no trabalho. A superstição vem dos costumes que foram enraizados e gravados no coração como diz Rousseau, portanto, muito difícil e complicado de sair de nossos pensamentos e atitudes. Já deixei de comer tapioca antes de viajar, porque anuncia presságio ruim. Pelo sim e pelo não, é melhor evitar! Estamos e somos vulneráveis aos imprevistos, de todo modo é melhor não ir de encontro à oscilação da fé.

Então, para facilitar o estudo das crenças Getúlio César classificou as crenças como superstição, que nasce dá espontaneidade do povo e do imaginário coletivo. Como escutar uma coruja à noite é agouro de morte, ver um urubu pode trazer azar, quebrar espelho, não traz sorte, entre outros.

Também para adquirir proteção contra o mau-olhado existe o amuleto que cada pessoa pode carregar o seu e que pode ser de cunho religioso como medalha, escapulário, santinhos ou mesmo um patuá. Não esquecer do ex-votos, das rezas e das excelências atrelada a todo tipo de orações para facilitar a burocracia com o cosmo. Bem assim, temos as rezadeiras ou benzedeiras que rezam para curar doenças de crianças, fraqueza, dores da alma e da vida e do mau-olhado.

As superstições variam de pessoa para pessoa, e é bom ter cuidado para não resultar em exageros. Isso ocorre quando o medo é cristalizado. Daí, passa a ser um distúrbio que prejudica a convivência humana no dia a dia. Há alguns famosos supersticiosos lembrados por Getúlio César: “Napoleão, quando tinha vinte e sete anos, no meio de afanosas lutas na Itália, percebeu no turbilhão de um embate que no bolso se quebrara o vidro que protegia a miniatura de Josefina. Empalideceu horrivelmente, parou o cavalo e disse: “quebrou-se o vidro! Minha mulher está doente ou é infiel.”

Prossigamos! Latino Coelho retrocedia de uma viagem ou passeio se lhe aparecesse um gato preto. Conta Humberto de Campos que o escultor maranhense Celso Antônio presenteara Coelho Neto com uma estatueta de gesso de Vitor Hugo. Durante a conversa que se seguiu com a chegada do artista, o nosso escritor caiu em uma espécie de apreensão para desabafar, quando o apresentador se quis despedir. Disse-lhe Coelho Neto: ‘Você vai deixar essa estatueta? Leve-a o gesso me traz dissabores...” (G. César, 1975, p.24) Vai entender, não é?

São tantas coisas que alimentam o universo do imaginário que fica difícil conviver sem superstição. Eu mesma carrego o meu amuleto na minha bolsa dos importunos imprevistos. Para tanto, nem mesmo os cangaceiros corriam das superstições. O cangaceiro Antonio Silvino não acreditou no aviso que a alma de seu irmão apareceu para ele alertando sobre um determinado caminho. Por sua vez, Lampião carregava a oração da Pedra Cristalina1 para afastar animais peçonhentos e de todo mal.

Tempo atrás li sobre um museu na Europa que fazia uma atividade onde as pessoas traziam o seu amuleto. Talvez seja pelo viés da proteção que passamos a conhecer as pessoas. Tive um professor chamado Paulo de Jesus, na Universidade Federal Rural de Pernambuco, que começava as aulas com o seguinte questionamento - Qual é a sua esquisitice? Bem apropriado para os dias de hoje no uso aparente das narrativas.

O mundo contemporâneo, particularmente com o advento da internet e das redes sociais, alimenta um tipo de ilusão coletiva

Diz o professor e pesquisador Renato Ortiz “Pode-se ainda argumentar que a ciência é também uma narrativa e seu relato não invalidaria os outros. Estaríamos assim diante de uma arena de narrativas concorrente entre si, cada uma dela com a sua verdade. De certa maneira, é esta indefinição que contribui para o êxito e a conveniência na utilização do termo. O mundo contemporâneo, particularmente com o advento da internet e das redes sociais, alimenta um tipo de ilusão coletiva. Qualquer coisa dita com ênfase e paixão, torna-se convincente.” (Renato Ortiz, Artigo – A insustentável leveza que há nos relatos. Ideias sobre os usos contemporâneos do termo narrativa. P. 20. Suplemento Pernambuco, abril 2022).

Pois bem, as crenças funcionam assim, pelo impulso das paixões dos crendeiros. Aqui no Brasil, principalmente no Nordeste na época das festas juninas, temos os costumes de realizar superstições. Muitas delas vindas dos solstícios de verão da Europa, dos povos ágrafos e de suas colheitas que foram propagadas por narrativas apaixonadas pelos colonizadores de várias regiões.

E numa mistura de culturas africana, indígena e europeia construímos um imaginário coletivo do ciclo junino. Tudo começa com Santo Antônio, o chamado Santo Casamenteiro. A moça começa fazendo a trezena de Santo Antônio, depois coloca o santo de cabeça para baixo até o noivo aparecer.

No município de Barbalha, Ceará, existe a festa das solteironas, onde muitas simpatias e superstições são feitas para arrumar um bom casamento. Temos também em Caruaru, Pernambuco, o melhor São João do mundo e em Campina Grande, Paraíba, o maior São João do Mundo. E, depois vem as fogueiras, que é uma marca forte das festas de São João.

Hoje, com o aparecimento da covid-19 e também pela proteção das árvores e do planeta, a fogueira se tornou virtual. Lembro que a fumaça ardia nos olhos e as roupas e os cabelos ficavam com cheiro de queimados. Mas, você poderia jogar na fogueira um papel escrito com tudo que aconteceu de ruim para ser queimado, em nome de Jesus! Jogar uma moeda na fogueira para no outro dia entregar ao primeiro homem que visse e perguntasse o nome do dito, seria o do seu futuro marido. Colocar uma faca na bananeira para adivinhar o nome do marido também eram superstições das moças do Nordeste. Escrever o nome de vários rapazes num papel amassado e jogar numa bacia de água e pela manhã verificar no papel que abriu o nome de seu futuro marido. Soltar fogos, balões que hoje é proibido em algumas regiões, também sinalizavam o ciclo junino.

Lembro como se fosse hoje o cheiro do milho assado na fogueira na casa do meu avô. Ao som do forró arrasta pé, as brincadeiras começavam. Precisamos compreender que até o astronauta que pisou na lua colocou o pé direito para dar sorte, dizia Mário Souto Maior. Então, “A crença é onipresente, está em todos os lugares, vive de sua insustentável leveza de ser, mas é preciso circunscrevê-la na sua falsidade mesmo a realidade tendo passado ao largo de sua existência. “(Ortiz, 2022, Suplemento Pernambuco)

As narrativas surgem das invenções, dos acontecimentos, das crenças e dos costumes. Há uma dinâmica polissêmica que envolve o enredo nas histórias contadas pelo povo. Digamos que a crença seja um modelo de narrativa entre o tempo da vida e o tempo do mundo. Talvez a crença tenha o perfume da fé banhada pelo descuido da realidade.

O imprevisto sempre existirá em nossas vidas, ele se alimenta do nosso imaginário, é através dele que as crenças renascem, por isso, é possível viver sem crenças?

Referências

Cesar, G. Crendices suas Origens e Classificações. Ministério da Educação e Cultura: Rio de Janeiro, 1975. Ortiz, Renato. Artigo – A insustentável leveza que há nos relatos. Ideias sobre os usos contemporâneos do termo narrativa. P. 20. Suplemento Pernambuco, Nº 194, abril 2022). Mário Boaventura Souto. Os mistérios do Faz Mal. Recife-PE,20-20. Comunicação e Editora, 1996.

MEER





terça-feira, 6 de setembro de 2022

Estanque / A proposição de Angelo Gonçalves

Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves


Estanque

A proposição de Angelo Gonçalves

28 SETEMBRO 2020, 

 

Pois a arte – e afinal não vejo outra definição que englobe todas as demais – é uma atividade que consiste em produzir relações com o mundo, em materializar de uma ou outra forma suas relações com o tempo e o espaço.

(Nicolas Bourriaud)

Dificilmente resisto à tentação de procurar sentidos nas palavras, para além daqueles que elas contêm. O escritor argentino Julio Cortázar dizia que as palavras eram um mistério que ele gostava de desvendar, de penetrar, para criar novas relações, e revelações, mesmo, e sobretudo, nas palavras banais do quotidiano:

Yo parezco haber nacido para no aceptar las cosas tal como me son dadas.

Angelo Gonçalves é um artista que, como o escritor argentino, não aceita as coisas como lhe são dadas – usa os objetos (palavras) banais do quotidiano e com eles cria a sua arte. Uma arte que está em processo desde que ele começou a explorar, de forma mais densa e consciente, as camadas de significação que se ocultam sob os tetos das palafitas, das casas provisórias, da impermanência do que devia ser permanente e sólido. Mas, ao contrário de diversos artistas contemporâneos, que agem sobre os objetos artísticos anteriores, que habitam, e tomam para si, as artes de outros e atuam sobre elas, num processo a que o Nicolas Borriaud chama de pós-produção, Angelo Gonçalves atua sobre o real, sobre a materialidade dos objetos que são, quase sempre, restos e sobras da sociedade de consumo.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Estanque é uma exposição e uma proposição – estancar é conter o curso dos líquidos, e é também esgotar-se, chegar a um ponto fixo, do qual não se consegue sair. O que não traduz o fluxo irreprimível do artista que apresenta, nessa exposição, 2 pinturas, 2 fotografias e 2 instalações construídas in situ. Nenhuma delas está estanque, pois são dialogantes – entre si mesmas e entre outras exposições do artista. Há, no entanto, um elemento comum: a água que está contida, representada através das palavras e das imagens, insinuada pelos recipientes que compõem os objetos, pelas manchas nas pinturas mas, efetivamente, ausente. A fragilidade das instalações corresponde à fragilidade da escultura fotografada que foi escolhida, pelo próprio artista, como a imagem desta exposição: uma palafita, com seus pilares à mostra, como desnudados pela água que parece rarear.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Há outra fotografia, que acompanha esta imagem, que mostra o manancial seco, com a casa/palafita no meio, perdida entre as margens que se estendem e tomam o lugar outrora ocupado pela água. Em galego, estanque é o nome que se dá a uma barragem, a um tanque artificial. Como aquelas que estancam os rios que deveriam fluir.


Estanque, exposição (proposição) de Angelo Gonçalves

Como disse, mais que uma exposição, Angelo Gonçalves apresenta-nos uma proposição que é antagônica à ideia de estancar, de cortar o fluxo, de chegar a um ponto, aparentemente, final. Marcel Broodthaers afirmou que “desde de Duchamp, o artista é o autor de uma definição”. O artista, como Cortázar, define a função dos objetos nas suas criações, afastando-os da sua aparente banalidade e criando novos sentidos que podem estar estagnados num tempo e espaço definidos, mas que continuam o seu percurso para além do momento exato, e estanque, da sua criação.

MEER