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quarta-feira, 10 de junho de 2026

Literatura e arte / Diferentes perspectivas sobre o que chamamos de arte


A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático
A palavra arte provém do latim ars e corresponde à palavra grega techné, que em português aparece em palavras como técnica, tecnologia; conhecer a origem da palavra, nesse caso, não resolve o problema. Se há certo consenso em classificar as pinturas de Velázquez, Goya e Picasso e as músicas compostas por Beethoven, Bach e Mozart como arte, a situação se complica quando se trata de uma pintura rupestre, de cantos indígenas ou folclóricos. Mas não precisamos nos reportar a manifestações artísticas primitivas para ver que o conceito de arte é problemático

Literatura e arte

Diferentes perspectivas sobre o que chamamos de arte

2 JUNHO 2026, 

A definição mais comum de literatura é que se trata de uma forma de arte que tem por matéria-prima a palavra. Essa definição, no entanto, parece não resolver o problema de se conceituar com precisão o que é literatura, na medida em que leva a uma discussão mais ampla: o que é arte? 

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Isadora Santana Dias / O papel da arte na promoção da saúde mental coletiva


A arte, em suas múltiplas expressões — música, teatro, literatura, dança, artes visuais —, funciona como um espelho e um refúgio para a mente. Ela traduz emoções, dá forma a experiências e possibilita que comunidades inteiras se reconheçam e se conectem. Mais do que entretenimento, a arte é uma linguagem universal capaz de gerar pertencimento, esperança e sentido, três elementos essenciais para a manutenção da saúde psíquica coletiva
A arte, em suas múltiplas expressões — música, teatro, literatura, dança, artes visuais —, funciona como um espelho e um refúgio para a mente. Ela traduz emoções, dá forma a experiências e possibilita que comunidades inteiras se reconheçam e se conectem. Mais do que entretenimento, a arte é uma linguagem universal capaz de gerar pertencimento, esperança e sentido, três elementos essenciais para a manutenção da saúde psíquica coletiva

O papel da arte na promoção da saúde mental coletiva

Espelho e refúgio da mente

12 MARÇO 2026, 

Nos últimos anos, o tema da saúde mental deixou de ser um tabu e passou a ocupar lugar central nas discussões sobre qualidade de vida, bem-estar e desenvolvimento humano. No entanto, quando falamos de saúde mental coletiva, ainda prevalece a ideia de que ela está restrita a tratamentos clínicos ou políticas públicas voltadas a transtornos psicológicos. Embora esses recursos sejam fundamentais, há um campo igualmente poderoso que pode atuar de forma preventiva, educativa e transformadora: a arte.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Um Brasil vivo entre a arte e o algoritmo

 

A capacidade humana de ressignificar é uma constante na cultura brasileira, principalmente marcada por um processo de antropofagia cultural (conceito cunhado por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropofágico de 1928), que defende a ideia de devorar influências externas, a fim de transformá-las em algo genuinamente nacional. Essa postura, ao mesmo tempo crítica e criativa, está presente no modernismo, nas batalhas de slam, dos ateliês às redes sociais
A capacidade humana de ressignificar é uma constante na cultura brasileira, principalmente marcada por um processo de antropofagia cultural (conceito cunhado por Oswald de Andrade, no Manifesto Antropofágico de 1928), que defende a ideia de devorar influências externas, a fim de transformá-las em algo genuinamente nacional. Essa postura, ao mesmo tempo crítica e criativa, está presente no modernismo, nas batalhas de slam, dos ateliês às redes sociais

Um Brasil vivo entre a arte e o algoritmo

Uma análise interpelativa sobre o impacto da hiperconectividade na produção e consumo da arte brasileira

1 ABRIL 2026, 

Num mundo 100% conectado, — que ao acordar, verifica as notificações escassas da madrugada e quando se põe a dormir, o último estímulo é uma notícia trágica ou meme aleatório — a arte, por mais distante que possa aparentar estar, se apresenta como o grito da liberdade, da visibilidade palpável, da transmutação entre a revolta com a sociedade e o anseio de mudança, de jovens, brasileiros e criativos, que buscam pelas respostas não ditas no mundo.

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Arte e psicanálise / Relações entre o inconsciente e a expressão artística


A força no punho e a manifestação do inconsciente através do desenho
A força no punho e a manifestação do inconsciente através do desenho

Arte e psicanálise

Relações entre o inconsciente e a expressão artística

25 DEZEMBRO 2023, 

A relação entre arte e psicanálise é um balletintricado que transcende o tempo e as fronteiras disciplinares, proporcionando uma visão única das profundezas do ser humano. Desde os primórdios, o homem busca compreender-se através da criação artística, e é no âmago da psicanálise que encontramos as ferramentas para desvelar os segredos de nossa psique. Sigmund Freud, em sua obra monumental, reconheceu na arte não apenas uma forma de entretenimento, mas uma porta de entrada para o inconsciente, onde os anseios e os tormentos repousam como tesouros ocultos.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Impossível viver sem arte / Como a arte influencia nossas vidas e emoções através de experiências pessoais



A arte tem o poder de transformar nossas vidas e sensibilidades, influenciando nossa percepção do mundo e nossas emoções. descubra como a convivência com a obra de roberto de almeida moldou minha relação com a arte ao longo dos anos
A arte tem o poder de transformar nossas vidas e sensibilidades, influenciando nossa percepção do mundo e nossas emoções. descubra como a convivência com a obra de roberto de almeida moldou minha relação com a arte ao longo dos anos

Impossível viver sem arte

Como a arte influencia nossas vidas e emoções através de experiências pessoais 

29 AGOSTO 2024, 

Não passamos imunes ao contato com arte. A arte em si e a relação com ela nos dizem muito sobre nós mesmos, como indivíduos e como comunidade. Sempre extraímos elementos que acrescentarão algo as nossas vidas, mesmo que não tenhamos consciência disso.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

O poder da arte na Itália


O nascimento de Vênus, de Botticelli. Diante das obras de Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Caravaggio, Boticcelli, Rafael e tantos outros, mergulhei em um universo bem particular. Enquanto o fluxo de turistas seguia seu ritmo frenético em busca de uma selfie, meus pensamentos se voltavam para dentro de mim, em um momento valioso de introspecção
O nascimento de Vênus, de Botticelli. Diante das obras de Michelangelo, Leonardo Da Vinci, Caravaggio, Boticcelli, Rafael e tantos outros, mergulhei em um universo bem particular. Enquanto o fluxo de turistas seguia seu ritmo frenético em busca de uma selfie, meus pensamentos se voltavam para dentro de mim, em um momento valioso de introspecção


O poder da arte na Itália 

Percorrer as ruas de Florença, onde Leonardo Da Vinci caminhou, transportou-me para outras dimensões

29 ABRIL 2025, 


Um dos momentos mais marcantes da minha vida e da minha conexão com a arte aconteceu há alguns anos, durante uma viagem à Itália. Lá, eu tive a oportunidade de contemplar, ao vivo, obras que por tanto tempo admirei e estudei apenas em páginas de livros. As emoções que senti tornaram-se verdadeiros tesouros da minha memória, pois reconheço a preciosidade de viver algo tão transformador.

domingo, 13 de agosto de 2023

Dialogue Boxes on Street Windows / Traçando fronteiras, o público e o privado na cartografia das cidades contemporâneas

 


*Dialogue Boxes on Street Windows*, Faro, Portugal, 2009



Dialogue Boxes on Street Windows

Traçando fronteiras, o público e o privado na cartografia das cidades contemporâneas

22 AGOSTO 2014, 

“O homem que cavalga longamente por terrenos selváticos sente o desejo de uma cidade”‒. Italo Calvino

Vivemos numa época em que um vale-tudo no campo das Artes promove uma autêntica dessacralização dos termos e dos usos, no bom e no mau sentido. No bom sentido, promovendo uma aproximação entre a arte e vida, permitindo que os lugares considerados do saber sejam convertidos em lugares do sabor, da possibilidade lúdica da criação artística que ultrapassa fronteiras diversas. No mau sentido, por promover uma deseducação do público e um crescente afastamento do mesmo em relação àquilo que é artístico. Arte Pública é um termo historicamente consagrado, com diversas manifestações que, ao longo do século XX e no século XXI, esteve ligado a um princípio que não pode ser esquecido: intervir no espaço urbano é uma atitude política. É um ato que afeta a comunidade envolvente e, como tal, deve pensar o seu papel e conhecer a sua função.

No início do século XX, o Dr. ATL (pseudónimo do pintor e escritor Gerardo Murillo) publicou um manifesto defendendo a necessidade de uma arte pública. Em Barcelona, alguns anos mais tarde, o artista mexicano David Alfaro Siqueiros fez apelo aos artistas da América proclamando a necessidade de se lançarem todos na tarefa de promover uma arte capaz de falar às multidões: “Pintaremos os muros das ruas e das paredes dos edifícios públicos, dos sindicatos, de todos os cantos onde se reúne gente que trabalha”. O muralismo mexicano é um dos grandes exemplos de Arte Pública com uma função político-social inegável, que buscou levar a arte ao público, que de outra maneira não poderia ser por ela atingido. Não só levar a arte para o público como transformar os muros das grandes cidades e painéis de edifícios em superfícies especulares onde a classe trabalhadora se revia. No contexto do seu nascimento, o muralismo mexicano refletia sobre três questões fundamentais: a questão do nacionalismo, a ideia de classes populares e os princípios revolucionários. O povo, sobretudo os autóctones, não estavam representados nas camadas do poder e não tinham sequer direito à representação da sua imagem e a difusão dos seus princípios estéticos. A arte retratava o mundo europeu, conforme regras europeias e afastava tudo aquilo que se mostrasse como um desvio destes princípios. Assim sendo, a proposta de Siqueiros é duplamente revolucionária – ele propunha que as identidades nacionais fossem resgatadas e que se refletisse na produção artística mexicana. Além disso, era no espaço público que esta batalha deveria ser travada, retirando do universo elitista da produção e circulação da arte as obras que tinham uma função político-social bastante definida: uma arte feita para o povo e sobre o povo.

Este movimento foi protagonizado por três grandes artistas: Diego Rivera, David Alfaro Siqueiros e José Clemente Orozco. O ciclo de frescos pintados por Orozco na Escola Nacional Preparatória e os murais de Rivera no pátio do Ministério da Educação aparecem como ponto alto deste período artístico revolucionário, que tem início na década de 20 do século XX, e que se expande, a partir dos anos 30, além-fronteiras para países como Brasil, Estados Unidos e Peru. O muralismo consolidou-se como a arte representativa do período pós-revolucionário, seguindo “seu generoso anseio de servir a causa do homem: dos campesinos, dos trabalhadores, dos sobreviventes da dramática contenda da guerra civil, com um saldo de milhões de mortos” (1).

Seguindo os passos do muralismo mexicano, o artista norte-americano George Biddle propõe em 1933, ao então presidente Roosevelt, a criação de um projeto nacional para as artes. Surge aquilo que ficou conhecido com a Arte do New Deal, que originou dois tipos de apoio do governo aos artistas da época, promovendo, ao mesmo tempo, a criação de um acervo nacional e público da obra daqueles artistas. Através de dois projetos, o Public Works of Art Project e o Federal Art Program, 5.000 artistas, durante quase 10 anos, produziram cerca de 2500 frescos, 18 mil esculturas, 108 mil pinturas, 200 mil cópias de gravuras e 200 mil cartazes. Um crítico da época, Francis O’Connor, definiu a Arte do New Deal como “uma arte para milhões”. A ideia era precisamente esta: através da arte tentar promover o rejuvenescimento espiritual de que o país necessitava em tempo de crise.

Biddle acreditava que a arte poderia servir de base para a construção de um projeto social inclusivo e democrático. Acreditava no papel do Estado como patrocinador ou mecenas da arte. Numa entrevista concedida a Harlan Phillips para o Archive of American Art, em 1963, Biddle refere a sua experiência com os três grandes artistas mexicanos e o papel que o muralismo mexicano teve na arte do New Deal, influenciando toda uma geração de jovens artistas norte-americanos (2).

A relação entre arte pública e política nem sempre é explícita ou está enquadrada num programa ou movimento revolucionário. Durante o século XX a arte foi abandonando os lugares tradicionais de exibição e foi ampliando o seu alcance em busca de criar novas linguagens e de repensar o papel da arte na nossa cultura. Exemplo disto é o que aconteceu com a Land Art e suas diversas vertentes como a Environmental Art: o espaço deixa de ser um motivo e converte-se no suporte. Obras como a de Robert Smithson e Michael Heizer questionam a própria ideia de objeto/obra de arte e convidam o espectador a penetrar na obra para vivenciá-la plenamente. A natureza distante torna-se visível através das intervenções de artistas que provocam reações diversas no público e desestabilizam a ideia da obra de arte mercantilizável. O espaço abre-se para novas experiências, seja fora ou dentro dos centros urbanos. O limite entre arte-não arte, público-privado, real-representação torna-se cada vez mais diluído e permite aos artistas experimentarem novos formatos e proporem novas experiências/vivências.

A arte reclama novos critérios de validação e novos espaços, desafiando constantemente as classificações habituais. A partir da 2ª Guerra Mundial, as obras articulam cada vez mais novas e múltiplas linguagens e tentam dirigir a criação artística às coisas do mundo. Numa abordagem menos político-ideológica, mas não menos interessante, o argentino Lucio Fontana, escreve o seu Manifiesto Blanco em 1946, onde cria a teoria do espacialismo. Neste manifesto, Fontana propunha a colaboração estreita entre arte e ciência no desenvolvimento e na síntese de novas ideias e materiais. O desejo de Fontana, e de outros artistas que assinam também o manifesto, era o de projetar cores e formas num espaço real, utilizando técnicas como luz néon e a televisão, ao mesmo tempo que negava num espaço ilusório criado na pintura tradicional. Em 1947, o artista apresenta a obra inaugural do movimento ‒ uma sala pintada de preto ‒ designando-a Ambiente Espacial Negro, e reafirma as ideias do manifesto publicado no ano anterior com a divulgação do Manifesto Técnico do Espacialismo, que exalta a importância do espaço real, existente além da tela e da escultura, e o uso da ciência e da tecnologia na transformação plástica desse ambiente. A ideia chave de Fontana era invadir o espaço, extra-tela e extra-muros, para modificá-lo através da arte, provocando no público reações distintas e estimulando o nascimento de um novo olhar para o espaço circundante.

Assim, de diversas maneiras, a arte pública pode ser vista como uma arte fisicamente acessível, que modifica a paisagem, de modo permanente ou temporário. Seja através de técnicas tradicionais, como o Muralismo mexicano, ou da junção arte/tecnologia, proposta por Fontana, o essencial é que a proposta desta Arte, que invade os espaços fora dos tradicionais museus e galerias, é o de alterar a paisagem ordinária. Em alguns casos, promovendo a recuperação de espaços degradados e provocando um debate cívico.

O conceito de Arte Pública voltou a ganhar visibilidade a partir do início dos anos 70 do século XX e serviu para caracterizar um novo tipo de intervenção artística no espaço público que se distinguia do tradicional monumento comemorativo. Na passagem do século XIX para o século XX, artistas como Rodin, Brancusi e Picasso vão realizar obras que negam o conceito de monumentalidade da arte pública tradicional. O importante, para estes artistas, era a dessacralização do espaço tradicional de exibição da arte bem como a penetração no tecido urbano com obras que revelam um novo olhar diante do mundo. O espaço urbano vai, aos poucos, ser convertido num local por excelência da experimentação artística. Entre os anos 60 e 70 houve uma explosão de ideias que levou à invasão do espaço urbano, provocado pela necessidade de a arte, uma vez mais, afirmar-se como tal num mundo agora convertido em local de consumo.

A sociedade contemporânea vive num estado de psicastenia: perda dos limites espaciais. Este termo, utilizado por Celeste Olalquiaga, representa uma das muitas condições contemporâneas: “A psicastenia, definida como uma perturbação da relação entre o eu e o território em torno, é um estado em que o espaço definido pelas coordenadas do próprio organismo se confunde com o espaço representado” (3). Ou seja, o corpo do sujeito confunde-se com o ambiente e torna-se parte deste, perdendo, durante o processo, a sua condição de entidade própria. O processo é típico das culturas urbanas e já foi, de alguma maneira, retratado por Edgar Allan Poe no seu conto O Homem da Multidão, editado em 1840. No conto, Poe narra a história de um homem que se depara com um novo ser, desconhecido e não reconhecível, “o homem da multidão” – uma criatura que se confunde com o ambiente em que vive e, como uma espécie de camaleão, camufla a sua presença tornando-se invisível aos olhos mais desavisados. O conto de Poe mereceu a atenção de Baudelaire que, ao refletir sobre a ideia de Modernidade, usa a imagem de Poe para situar o novo homem que surgira no século XIX, após a Revolução Industrial e durante o processo de metropolização das grandes capitais europeias.

O espaço urbano, e a condição de quem nele vive, alteram-se profundamente no século XIX e esta mudança vai tornar-se cada vez mais visível no decorrer do século XX. Há uma crescente perturbação da relação entre o eu e o território que nos rodeia. O nosso organismo, dificilmente, consegue traçar as coordenadas que dividem o espaço da experiência real com o da experiência virtual. Espaço e representação se (con)fundem. Isto porque, além da relação constante com as novas teletecnologias, que comprimem e alteram a nossa relação espácio-temporal, as cidades há muito que se converteram em galerias a céu aberto, onde anúncios diversos, grafites, fios, luzes, cartazes, montras e muitos outros elementos, promovem uma saturação sensorial onde o corpo, para defender-se, metamorfoseia-se e confunde-se com o espaço que palmilha. Por isto a questão do espaço tem sido uma constante entre os artistas contemporâneos. É necessário promover uma nova cartografia, recriar este espaço saturado e apropriar-se dele, traçando necessárias fronteiras para que o olhar volte, novamente, a ver. Para que a Arte seja, novamente, um gesto de intervenção e provocação.

Dialogue Boxes on Street Windows

Na terceira edição do programa Art Allgarve, em 2009, foi pela primeira vez integrada uma componente regional, para a qual contribuíram docentes e alunos de Artes Visuais da UAlg – os primeiros enquanto curadores (Alexandre Barata/Xana e Mirian Tavares), os segundos enquanto artistas. O projeto Dialogue Boxes on Street Windows, composto por diversas intervenções produzidas por quatro artistas de renome e dez estudantes da UAlg, esteve nas ruas do centro histórico de Faro durante três meses, desde Junho até ao final de Setembro. Foi, comprovadamente, a exposição mais vista do Algarve já que as pessoas circulavam pelas ruas da baixa e do centro histórico de Faro conseguiram fruir, mesmo não intencionalmente, da arte que estava ali, ao lado delas. O projeto teve ainda uma vertente pedagógica pois tentou-se mostrar aos transeuntes, através do contraste entre as obras e o seu em torno, que nem tudo que está exposto na via pública é arte.

Dialogue Boxes on Street Windows visava, por um lado, recuperar a ideia inicial da Arte Pública como um processo de invasão do espaço urbano, promovendo a sua reconfiguração e, por outro, aproximar a arte do público que, em geral, não está habituado a ir a locais de exposição convencionais como galerias, centros de arte e museus. Nestas intervenções a arte afirma-se como um espaço de promoção do diálogo entre as pessoas, envolvendo-as e questionando-as. Foi um convite ao olhar crítico, à participação ativa no processo de construção de uma cidade de cultura e, obviamente, de uma cidade voltada para a cultura.

Há, com frequência, espaços que são esquecidos, ruas por onde não circulam pessoas, lugares que se tornam quase invisíveis, tão invisíveis que ninguém repara nas suas casas e fachadas, como se houvesse uma cidade oculta sob aquela mais solar. Assim, neste contexto, a ideia fundamental do projeto Dialogue Boxes on Street Windows foi o de criar uma cartografia alternativa, um percurso diverso que obrigasse as pessoas a olharem à cidade; (re)descobrirem cantos e recantos, deixarem-se perder em ruas transversais, em ruas por onde não costumam andar mas em que há muito que ver/viver. Se este património continuar escondido, deixará de fazer sentido no mapa da cidade e, perdendo assim a sua função, poderá ser destruído, não restando nem a sua memória: apenas um espaço vazio.

Os artistas e as obras

Os artistas escolhidos têm percursos muito diferentes mas possuem, como característica comum, um lado profundamente instigante e experimental em tudo o que fazem. António Costa Pinheiro nasceu em Moura em 1932 e muito cedo percebeu que a situação de repressão no país não o permitiria realizar grandes experimentações artísticas e culturais, assim sendo, emigrou à procura de um espaço para expor novas ideias.

A importância da sua obra, iniciada em finais da década de 50 e pouco depois integrada na ação do Grupo KWY, fez dele um dos mais significativos artistas da segunda metade do século XX em Portugal.

Para Dialogue Boxes on Street Windows, Costa Pinheiro recuperou parte da sua obra realizada entre 1967 e 1975, Citymobil – Arte-Projeto, que está integrada na fase conceptual do artista. Neste trabalho ele utilizou objetos que se organizam em narrativas dentro de uma cidade que é, permanentemente, transformada pelos seus habitantes. Ideia que se encaixou perfeitamente na proposta curatorial deste projeto e que continua a ser inovadora e instigante, mesmo após tantos anos.

Ana Vidigal nasceu em Lisboa em 1960, tendo estudado pintura na Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa. Entre 1985 e 1987 foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian. Foi pintora residente, de 1998 a 1999, no Museu de Arte Contemporânea na Fortaleza de S. Tiago, no Funchal. Fez inúmeras exposições individuais e coletivas, entre as quais se destacam: I Exposição Ibérica de Arte Moderna, em Campo Maior e Cáceres; Feminine Dialogue, para a UNESCO em Paris; Portuguese Contemporary Artists, no World Trade Center de Nova Iorque; Portugal Hoy, no Centro Cultural Conde Duque em Madrid; Pintoras Portuguesas do Século XX, na Galeria de Exposições do Leal Senado em Macau e Quando o Mundo Nos Cai em Cima, no Centro Cultural de Belém. Em 1995, Ana Vidigal foi convidada pelo Metro de Lisboa a realizar um painel de azulejos para a estação de Alvalade, tendo, sete anos mais tarde, executado vários painéis de azulejo para a estação de Alfornelos.

No projeto Dialogue Boxes on Street Windows Ana Vidigal decidiu explorar o espaço público através de um olhar, ao mesmo tempo, perverso e infantil, ao utilizar figuras que parecem saídas de ilustrações dos anos 50. Os painéis da artista colocaram o público na incómoda posição de voyeur, que participa, voluntariamente ou não, de uma série de jogos propostos por duas meninas, especulares, mas de tamanhos diferentes ‒ o que marca uma relação de poder e submissão. As janelas abrem-se de par em par e deixam que o público invada, completamente, o espaço privado, e sagrado, da inocência infantil.

Susanne Themlitz nasceu em Lisboa em 1968. Vive em Lisboa e Colónia. Em 1993, concluiu os estudos de Desenho e Escultura no Ar.Co, em Lisboa, tendo passado o ano de 1992 no Royal College of Art, em Londres. Em 1995, concluiu um mestrado na Kunstakademia de Düsseldorf. O seu trabalho, nas diversas técnicas e materiais que utiliza, é caracterizado pela presença de figuras assustadas, mutantes e insólitas, numa condição visivelmente marginal. O carácter onírico é acentuado pela ideia de que as figuras e paisagens indiciadas em seus trabalhos estão fora do tempo, como se habitassem um espaço mítico.

Neste projeto, Susanne Themlitz desenvolveu um trabalho inquietante, onde um edifício deixa de ter fronteiras entre o espaço de fora e o espaço de dentro – ambos passam a conviver, lado a lado, numa superfície externa. Não é preciso espreitar para dentro das janelas, a casa, como que esventrada, é exposta ao olhar de todos. Os elementos, que convivem na superfície do edifício, estão também eles fora do tempo e do espaço apropriados, remetendo-nos para o universo onírico da artista.

Manuel Batista nasceu em Faro em 1936. Em 1957, matricula-se em Arquitetura, curso que abandona para se dedicar exclusivamente à pintura. Em 1962, conclui o Curso Complementar de Pintura na ESBAL. Entre 1962 e 1963, está em Paris como bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian e, em 1968, em Ravena, como bolseiro da Alta Cultura. Foi assistente de Pintura na ESBAL entre 1964 e 1972. A partir de 1977, desloca-se regularmente a Lippstadt e Schmallenberg, na Alemanha, onde trabalha e realiza tapeçarias para a fábrica Folke. Vive e trabalha em Faro e em Lisboa.

O seu trabalho, que sofre modificações ao longo dos anos, pode ser caracterizado pela ideia de desconstrução e recomposição das superfícies. Há um cruzamento entre uma paisagem apenas sugerida e uma forte tendência ornamental. As cores são utilizadas no intuito de valorizar o seu brilho e transmitir um tom alegre e despreocupado.

Manuel Baptista trabalhou a dualidade entre as superfícies, a ideia de bidimensionalidade e de tridimensionalidade que se cruzam e se complementam, criando um efeito ornamental e decorativo, sem deixar de ser provocador. Uma provocação que evoca a Pop Art, recheada de ironia e bom humor, tornando o espaço público atraente e vivo, buscando atrair também o olhar do público que passa e que já não vê o espaço que o circunda.

As obras dos jovens artistas

Andreia Filipe, Alexandre Lima, Guilherme Gonçalves, Gustavo de Jesus, Joana Bárbara, Mara Barth, Paulo Quaresma, Tatiana Barreiros, Tiago Custódio e Úrsula Mestre foram os dez jovens artistas e estudantes recém-licenciados do curso de Artes Visuais da UAlg que invadiram o centro histórico de Faro, interpelando os transeuntes com várias abordagens. Os seus trabalhos seguiram caminhos muito diversos, desde a utilização de uma linguagem de banda desenhada, onde as personagens espreitam das janelas das casas para a rua que as envolve, até à presença de noivas suicidas, enquadradas num espaço real que se converte em espaço cénico. As técnicas utilizadas foram as mais variadas, passando por pinturas realizadas diretamente sobre a superfície das casas até ao trabalho realizado sobre materiais, como telas e madeiras, e posteriormente colocado nas fachadas.

Além dos trabalhos realizados nas fachadas de algumas casas do percurso, estiveram ainda expostas peças tridimensionais que ocuparam o passeio e os largos e que abrigaram, em muitos casos, performances dos alunos/artistas, que tiveram lugar ao longo do Verão, aos sábados à noite, dando assim uma dimensão ainda mais dinâmica e intensa à relação da arte com o espaço público. Foi o caso, por exemplo, da obra de Úrsula Mestre, com a instalação performativa Saia que gritas, que abordava as questões de género no século XXI através de três peças ‒ três saias das quais três mulheres se tentam libertar ‒, e da obra de Paulo Quaresma, que no contexto do projeto O meu abrigo é o meu templo encarnou a personagem de um sem-abrigo e criou uma casa de papelão, que levava às costas e montava em vários espaços da cidade.

O projeto, que esteve visível por três meses, entre Julho e Setembro de 2009, proporcionou aos habitantes da cidade e aos que a visitaram no período, uma experiência sensorial única que, deveria ser repetida mais vezes. Este poderia ser um trabalho mais continuado para que Faro, e outras cidades, pudessem sentir como a arte é capaz de transformar o espaço que a rodeia e criar novos itinerários dentro da mesma cidade.

Este projeto proporcionou ainda um momento único de aprendizagem para os alunos da licenciatura em Artes Visuais da UAlg bem como para os recém-formados que participaram na exposição enquanto artistas, pois aprenderam a trabalhar em condições complicadas, em superfícies inovadoras e a criar algo para uma exposição site specific, o que não é uma tarefa fácil.

Tentou-se, efetivamente, provocar um diálogo entre a cidade e as pessoas que nela habitam ou que por ela passam, todos os dias e quase já nem a veem. A cidade torna-se invisível pelo cansaço do olhar que vê sempre o mesmo e que acaba, por conseguinte, deixando de ver. Mesmo que a política de uma forma mais explícita não estivesse presente em nenhuma das obras, a atitude do projeto foi uma atitude profundamente politizada, provocando uma ligação entre a Arte Contemporânea, muitas vezes tão distante do público em geral e a cidade, intervindo de maneira a evitar os lugares-comuns que habitualmente povoam as ruas e criando uma proposta instigante para que as ruas da baixa de Faro, muitas delas quase desertas, pudessem ser novamente repovoadas e reabilitadas.

Notas
(1) Arenal de Siqueiros, Angélica, Vida y obra de David Alfaro Siqueiros, México, FCE, 1975, pp. 8-9.
(2) Oral history with George Biddle
(3) Olalquiaga, Celeste, Megalópolis. Sensibilidades Culturais Contemporâneas, São Paulo, Nobel, 1998, p. 24.

MEER


sábado, 5 de agosto de 2023

Manuel Baptista / Desenhos

 



Manuel Baptista

Desenhos

4 OUTUBRO 2014, 

O espaço em branco à volta dos desenhos é o outro lado. O lado onde a gente entra. Leonilson

Manuel Baptista nasceu em Faro, o que faz dele um artista local (coisa que ele nunca foi). Trabalhou em França e na Alemanha, entre os anos 60 e 70, sem deixar, no entanto, de participar da vida artística do seu país. A arte não pode ser localizada num espaço específico, ela não é fruto apenas da origem do seu autor, mas é um compósito de experiências, de vivências e de trocas. É fruto ainda do seu tempo, das exigências que este faz ao artista ao confrontá-lo com a História, que fica para trás, mas que pode permanecer como uma referência e como um ponto de partida. Como disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset, eu sou eu e as minhas circunstâncias. A arte não vive fora do mundo, mas é parte essencial da sua própria composição e artistas como Manuel Baptista, que buscaram sempre estar adiante do seu próprio tempo, trazem, como marca, o símbolo da constante inquietação, que é uma das principais características da arte contemporânea.

Manuel Baptista experimentou formas, técnicas, suportes, linguagens. Experimentou movimentos e experimentou também não ostentar rótulos. Experimentou, de alguma forma, a solidão. E esta inquietude é visível nos desenhos que expõe agora: a mão do artista não para, desliza na superfície criando formas, sugerindo imagens, plasmando sombras. A sua obra, e sobretudo os seus desenhos, podem ser caracterizados pela ideia de desconstrução e de recomposição das superfícies. Há um cruzamento entre uma paisagem apenas sugerida e uma forte tendência ornamental. O ornamento, para o artista, não deve ser reprimido porque o tempo assim o exige. Há um lado solar, mesmo nas obras a preto e branco, que Manuel Baptista não pretende ocultar.

Alguns artistas fazem do vazio uma arte, tornando vívido o que não é visível. Os desenhos de Manuel Baptista jogam com as entrelinhas, como os espaços em branco. Mas no seu caso, não é o espaço em branco que determina a imagem. É a presença das linhas, ora robustas, ora delicadas, que preenchem o espaço em branco com as suas inquietações.


MEER


quinta-feira, 3 de agosto de 2023

Edgar Massul / #Other free Works

 

Edgar Massul *das tuas margens, algumas plantas espremidas, 2014 (séries)



Edgar Massul

#Other free Works

22 JULHO 2014, 

“Para entrar em estado de árvore é preciso partir de um torpor animal de lagarto às 3 horas da tarde, no mês de agosto. Em 2 anos a inércia e o mato vão crescer em nossa boca. Hoje eu desenho o cheiro das árvores”. ‒ Manoel de Barros

T’avonde, no dialeto algarvio, significa basta. O termo deriva do latim abundare. A nova exposição do artista Edgar Massul, #Other free Works, é concebida a partir do espaço que atualmente o rodeia, o Algarve. E neste espaço ele tenta penetrar nos subtextos que abundam na região. A sua obra é um processo de constante desvelamento: nada está feito, as obras necessitam de tempo e são constituídas por tempo e espaço, mais do que de qualquer outra matéria. Nas paredes de uma ruína, à beira da Ria Formosa, o artista planeou escrever t’avonde. A obra não realizada concretiza-se na imagem do cartaz da exposição. Ao apropriar-se de um termo arcaico, da mesma maneira que os algarvios se apropriaram do latim, Massul assina um manifesto sutil mas efetivo: basta. Basta de ruínas que a contemporaneidade produz e descarta. Ruínas de um património material e imaterial, natural e construído.

A exposição integra três núcleos de obras, que se dividem entre a Galeria TREM e o Museu Municipal de Faro. O primeiro núcleo, na galeria, é composto pela instalação Teu espelho (2013) ‒ um tanque construído com areia e água da Ria Formosa. Água e areia são elementos que se movem, que se adequam ao espaço, que se absorvem. Todo o processo será fotografado e o resultado afixado nas paredes da galeria que se convertem numa time line. O espelho de Massul é reflexivo na medida em que o artista permite à matéria que se ajuste, que se adapte, que assuma a sua impermanência. Não é um reflexo cego, mas uma atitude pensada.

No Museu Municipal, que outrora foi uma fábrica de cortiça, Massul vai instalar uma peça no centro do claustro, thermal body (mother), (2013). A matéria aqui é a cortiça queimada de S. Brás ‒ restos que sobreviveram ao incêndio que devastou a serra algarvia e que destruiu parte de uma cultura secular, a dos sobreiros. À volta desta peça, que funciona como um totem ancestral, ainda informe, o artista expõe os seus desenhos, feitos de matéria orgânica ‒ lama, folhas e frutos esmagados sobre o papel. De tuas margens algumas plantas espremidas (2014) é um conjunto de desenhos, em técnica mista, que revelam e escondem a sua origem natural. No papel pressentimos os rastos, mas o que vemos é o resultado de uma organização trabalhada do e no espaço. Se a matéria é orgânica e se o processo revela o caos presente na natureza indomada, o resultado é domesticado pelo artista que concebe e experimenta texturas, traços, cores e manchas.

A obra de Edgar Massul necessita de tempo. Para ser feita, para ser apreciada, para existir. As peças que ele compôs, ao longo da sua vasta carreira, não são demasiadas. Porque o artista não tem pressa em produzir. Ele negoceia com os objetos que lhe vão ditando formas, maneiras, modos. É uma obra sobretudo matérica: cada objeto diz, na sua textura específica, de onde procede. Não diz para onde vai, porque aponta sempre para o infinito da multiplicidade de sentidos que as coisas simples possuem. E a simplicidade não é fácil. É preciso estar atento para que a obra, na sua delicadeza, se revele.

Para fechar o ciclo, ou para reiniciá-lo, o artista apresenta-nos um livro, Formosa, a love story book, (2014). Técnica mista sobre papel, encadernado de maneira artesanal. Como na peça que expôs no Centro de Artes de Sines, em 2010, onde o artista escrevia e ocultava um poema de Al Berto com a terra vermelha da região, o seu livro também esconde e revela uma história por trás das muitas histórias que ele decide contar: as histórias de uma ria, de suas margens que ora aprisionam, ora se expandem em busca do mar ao fundo. O caminho da ria é no fundo uma deambulação pelas terras, é um adiamento da chegada ao mar. A ria é um compósito de matérias, de formas, de percursos. E está tão presente que se torna, muitas vezes, invisível. E a arte de Massul tem esta função: revelar o invisível ou ajudar-nos a voltar a ver. Entre a impermanência da matéria orgânica e a permanência da memória das coisas, o seu trabalho dialoga com a arte mais contemporânea e com a natureza ancestral.

T’avonde significa basta. Mas significa também que já nada é necessário, porque já se tem o suficiente. Na arte nunca se tem o suficiente, quer-se sempre mais. #Other free Works é uma exposição que dá continuidade ao projeto de curadoria da Galeria Trem, realizado pela licenciatura em Artes Visuais da UALg, em parceria com a Câmara Municipal de Faro. Com este trabalho completam-se dois anos de colaboração intensa e profícua. O convite ao artista Edgar Massul foi feito no sentido de celebrar o fim de um ciclo e o princípio de um novo ano de parceria. Porque a sua obra, como disse no começo, é um processo que não para, que se expande, que se reinventa e que volta, ciclicamente, ao começo.


MEER


terça-feira, 1 de agosto de 2023

Do público ao privado / As vias e os desvios de Nuno Viegas

 



Nuno Viegas, uma imagem da exposição *Privado*, Convento de St. António, Loulé, 2014


Do público ao privado

As vias e os desvios de Nuno Viegas

22 MAIO 2014, 

“Pensé en un laberinto de laberintos, en un sinuoso laberinto creciente que abarcara el pasado y el porvenir y que implicara de algún modo los astros”. - Jorge Luís Borges

O percurso do artista Nuno Viegas começou nas ruas da sua cidade natal, Quarteira, no Algarve, Portugal. A Arte Urbana, sobretudo o Graffiti, é uma influência ainda visível na sua obra contemporaneamente. Após acabar a licenciatura em Artes Visuais na Universidade do Algarve, ele decidiu continuar o seu percurso como artista e investigador avançando para um mestrado que culminou numa exposição que ele intitulou, ironicamente, Privado. O que, a partida, parecia uma negação às raízes da sua arte, reconhecidamente pública tornou-se, nesta exposição, um gesto estudado de desvendamento. Nuno Viegas revela o outro lado das ruas, não apenas as reais, palmilháveis, por onde circulamos quotidianamente, mas as virtuais que se configuram como infovias e que nos conectam ao mundo todo sem que tenhamos de sair de casa.

Através de suportes diversos, o artista trata no fundo de uma questão: o limite entre o público e o privado. Entre aquilo que se revela e aquilo que se oculta. Na arte, este limite é estabelecido de formas variadas, por exemplo, a moldura dos quadros ou o ecrã funcionam como a zona de corte, o lugar exato em que o artista permite que se entre na sua obra. O resto fica de fora. Os trabalhos de Nuno Viegas são janelas fechadas sobre si mesmas. Revelam apenas vislumbres daquilo que poderia estar do lado de dentro. Como a janela pintada de preto de Marcel Duchamp que assume que a arte não está limitada ao enquadramento mas que pode ser, ela mesma, um enquadramento, suas obras mostram o que não está lá. Porque as ruas, e o mundo que elas constituem, já estão superpovoados de imagens e mensagens que provocam um estado de cegueira – não vemos de tanto ver.

Estamos na era da superinformação. Um tempo que corrobora as palavras de Santo Agostinho: “Apesar do homem se inquietar em vão ele caminha na imagem”. Caminhamos nas imagens que nos rodeiam quotidianamente e somos também convertidos em imagem, através das câmaras de videovigilância que se espalham por todos os lugares. Torna-se cada dia mais difícil traçar uma linha divisória entre o espaço público e o privado, já que a nossa imagem, a partida um bem privado, torna-se pública e pode ser captada mesmo quando não estamos à espera. O trabalho de Nuno Viegas incide sobre uma questão premente na contemporaneidade: como é que os artistas são afetados pela acelerada produção e difusão de imagens e como é que as imagens produzidas por estes dispositivos, caso das câmaras de videovigilância, podem ser usadas num contexto artístico.

Privado foi, ao mesmo tempo, uma exposição e um projeto de investigação que fez parte das preocupações do artista desde que concluiu a sua licenciatura. Nuno Viegas questiona, com o seu trabalho, o papel da imagem na vida quotidiana, a banalização dos corpos - pela presença constante das câmaras e o direito à imagem privada que nos é roubado cada vez que saímos à rua. Por outro lado, utiliza como recurso estético as imagens que são produzidas por estes dispositivos de videovigilância, subvertendo a própria lógica destas imagens que não são produzidas para serem exibidas e muito menos para serem exibidas como arte.

A contemporaneidade é marcada pelo excesso de exposição, de produção de distribuição de imagens e de significações. Os pensadores da pós-modernidade sustentam que a época em que estamos deixou a humanidade numa grande encruzilhada, cada dia mais presa ao “tédio radical”. Cada vez mais a angústia do vazio absoluto se instaura, e as pessoas, perdem, paulatinamente, os seus referenciais e o contato pleno com a realidade, criando assim os seus próprios labirintos. As cidades foram convertidas em labirintos híper vigiados - ninguém está a salvo do controle do olhar. O panótico de Foucault reaparece como o modelo da sociedade em que vivemos: uma construção de onde podemos divisar todo o resto a partir do centro. É este modelo panótico e vigiado que a obra de Nuno Viegas questiona. Não apenas através de metáforas, mas, de maneira ousada, através da criação de dispositivos que simulam, e evidenciam, a nossa situação. A arte, neste caso, é um instrumento contundente e perturbador que põe em causa o processo de “naturalização” dos dispositivos de vigilância e questiona, ainda, a legitimidade da arte que se apodera dos mesmos dispositivos e os converte em novas formas artísticas.

MEER