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domingo, 27 de março de 2022

Orgulho e Preconceito de Jane Austen: resumo e análise do livro


Orgulho e Preconceito 

de Jane Austen: 

resumo e análise do livro


Rebeca Fuks
Rebeca Fuks
Doutora em Estudos da Cultura

Orgulho e preconceito é a obra-prima da escritora britânica Jane Austen que tem como pano de fundo a burguesia inglesa do início do século XIX.

Vemos no romance como as relações movidas por amor e dinheiro podem ser promíscuas e mesquinhas, encobertas pelo véu da sociedade burguesa.

O clássico inglês foi adaptado para o cinema quatro vezes, a versão mais consagrada ganhou as telas em 2005 sob a direção de Joe Wright.

Resumo

O enredo de Orgulho e preconceito gira em torno da família Bennet, composta por marido, mulher e cinco filhas (Jane, Elizabeth, Mary, Kitty e Lydia).

A história se passa em uma zona rural da Inglaterra durante o início do século XIX.

Elizabeth Bennet, a segunda filha mais velha, será a protagonista da trama. Uma jovem bela, orgulhosa, de personalidade forte e vanguardista para o seu tempo, Lizzie, como é chamada pelos íntimos, carrega dentro de si inquietações com as convenções sociais do seu tempo.

Sua mãe, ao assistir as opiniões e atitudes da filha, a considera um caso perdido em relação a possibilidade de conseguir um casamento.

Vale lembrar que na Inglaterra, durante esse período histórico, o único papel social da mulher era ser mãe e esposa, não possuindo qualquer hipótese de ambição profissional.

Em termos sociais, as mulheres valiam tão pouco que, em caso de falecimento do patriarca, o patrimônio deixado deveria seguir para o filho varão e, caso não houvesse, a fortuna seria encaminhada para o homem mais próximo da família.

A trama do romance se desenrola com a chegada de dois jovem solteiros afortunados na região (Mr.Bingley e Mr.Darcy). A mãe das meninas vê no surgimento dos rapazes uma oportunidade para resolver os problemas da família.

Mr.Bingley, um homem muito sóbrio e distinto, se apaixona por Jane Bennet, a mais velha das irmãs. Caroline Bingley, a irmã do rapaz, mostra-se porém contra a relação devido a classe social da moça.

Mr.Bingley se aproxima de Jane e vai contra a opinião da irmã. No entanto, o jovem subitamente desaparece da cidade, deixando Jane sem qualquer explicação.

O amigo Mr.Darcy, por sua vez, cai de encantos pela irmã Elizabeth, embora num primeiro momento se recuse a assumir os sentimentos que tinha por saber que a jovem era de origem humilde. Elizabeth, contudo, acha Mr.Darcy um homem arrogante e o repudia.

A relação entre os dois é, portanto, pautada pelo preconceito, pela atração, pela paixão e pela raiva. Um misto de sentimentos completamente discrepantes.

Mr.Darcy, porém, afinal toma coragem e pede a moça em casamento. Elizabeth, contudo, permanece firme nos seus ideais e recusa o pedido ao enxergar nele um homem prepotente e inescrupuloso.

Aos poucos, a jovem acaba por perceber que o rapaz tem boa índole e admite os seus sentimentos. As coisas mudam especialmente depois do recebimento de uma carta que Mr.Darcy escreve à ela justificando as suas atitudes. Após a leitura, Elizabeth consegue ver que há ali um homem de bem. Felizmente Mr.Darcy reitera o pedido de casamento e Elizabeth afinal aceita. O casal vai viver em Pemberley.

O final feliz também acontece para Jane, irmã de Elizabeth. Mr.Bingley retorna à cidade e explica as suas motivações para ter ido embora repentinamente. O rapaz suplica o perdão à amada e a pede em casamento. Ela aceita o pedido e os dois ficam vivendo em Netherfield.

Personagens principais

Sr. e Sra. Bennet

Inquietos com o futuro da família, o casal tem como preocupação central casar bem as cinco filhas. A mãe foca a sua energia em procurar (e apresentar) bons genros para as meninas. O próprio narrador constata: "A única preocupação da sua vida era casar as filhas. Seu consolo, fazer visitas e saber novidades.". O pai, por sua vez, parece ser mais descontraído, curioso, dono de um humor sarcástico, embora também fosse bastante preocupado com o futuro financeiro do clã.

Elizabeth Bennet

Protagonista da história, Lizzie é descrita como uma jovem bela, culta e inteligente. Inconformada com a ordem social, ela não se subjuga e decide casar apenas por amor. Uma das características centrais da personagem é o forte senso de independência que possui, Elizabeth é definitivamente uma mulher deslocada do seu tempo histórico. Num contexto em que as meninas eram criadas para serem esposas e mães, Lizzie enxerga além, não se conformando em seguir o status quo e reproduzindo relações por conveniência.

Jane Bennet

A primogênita da família Bennet, considerada uma moça dócil e sonhadora, muito próxima da irmã Elizabeth, com quem trocava frequentemente confidências. A irmã mais velha do clã Bennet é descrita como sendo profundamente tímida, recatada e extremamente bela.

Mary

Uma das irmãs Bennet, é aquela que tem obsessão por livros e a que mais cultiva o intelecto. É considerada por todos uma moça de muito juízo e de grande sabedoria devido a infindável curiosidade que herdou do pai.

Kitty e Lydia

As irmãs caçulas não são quase mencionadas, o pouco que se sabe é que elas costumavam arranjar problemas. Sabe-se que Lydia tinha extremo senso de humor e era a irmã mais extrovertida do grupo. Kitty, por sua vez, tinha em Lydia a sua melhor amiga, as duas costumavam cochichar em voz baixa partilhando segredos.

Mr. Bingley

Um jovem muito rico, de boa família, que aluga a mansão de Netherfield e se encanta rapidamente por Jane Bennet. Mr. Bingley parece ser um bom rapaz, que carrega valores sólidos, mas acaba por ser um tanto influenciável pela opinião alheia e demonstra possuir uma personalidade fraca, sendo dominado principalmente pela mãe e pela irmã. Logo que Mr. Bingley aparece na trama, os pais das irmãs Bennet demonstram interesse em casa-lo com uma das filhas.

Mr. Darcy

Grande amigo de Mr. Bingley, descrito como fechado e distante, não nutre a princípio nenhum afeto pelas irmãs Bennet, que considera serem de estatuto inferior. No princípio da narrativa, Mr. Darcy carrega um ar arrogante e superior, como se estivesse deslocado do universo da família Bennet. No entanto, com o passar do tempo e com a convivência com as irmãs, acaba por se apaixonar por Elizabeth.

Caroline Bingley

Irmã de Mr.Bingley, condena veementemente a relação do rapaz com Jane Bennet por acreditar que ela pertence a uma classe social inferior. Carolina é, de certa forma, arrogante e acredita que o seu sobrenome não deve ser misturado com o de famílias consideradas reles.

Análise de Orgulho e Preconceito

Um retrato da época

O enredo é bastante rico e há uma preocupação nítida da autora em retratar detalhadamente a sociedade inglesa do século XIX com a sua cultura, os seus hábitos e os seus valores morais. Como rapidamente se percebe, a dualidade entre o amor e o dinheiro é a engrenagem que faz mover a narrativa.

Observamos ao longo do texto, por exemplo, a forte importância dada ao dinheiro e o preconceito dos personagens em relação a origem das famílias dos indivíduos. É certo que Austen muitas vezes faz de seus personagens caricaturas sociais, no entanto, através do comportamento deles é possível encontrar uma espécie de retrato da sociedade inglesa da época.

A história de Orgulho e Preconceito é das mais adaptadas para o cinema, para o teatro e para a televisão. Jane Austen é tida como a autora inglesa mais importante para o país depois de Shakespeare.

A partir do exemplo de Meryton, o subúrbio rural imaginado por Austen localizado nos arredores de Londres, podemos reconstruir um pouco da atmosfera da aristocracia rural inglesa durante o século XIX .

O romance como uma crítica à lei do morgadio

A história construída por Jane Austen tece uma forte crítica à sociedade da sua época, regida pelas ambições econômicas e por relações construídas a partir do interesse. Não por acaso a primeira frase que inicia o enredo é:

“É uma verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro na posse de uma bela fortuna necessita de uma esposa.”

Os casamentos são vistos como meros acordos comerciais e vemos, ao longo das páginas, como a mesquinhez e o interesse permeiam as relações humanas.

Austen aborda e denuncia a lei do morgadio, isto é, a organização familiar baseada a partir da noção de uma linhagem. Nesse tipo de sociedade as propriedades eram inalienáveis e indivisíveis e eram transmitidas ao primogênito descendente varão.

No caso da família Bennet, que protagoniza o romance, como se tratava de cinco meninas, não havia um filho varão que herdasse as propriedades.

Ou seja, segundo as normas da época, apesar de haver descendência direta, os bens deveriam seguir para o parente mais próximo do sexo masculino. Na família Bennet, o patrimônio não seria herdado nem pela mulher nem pelas filhas, e sim por Mr.Collins, um primo. É a essa organização social que Austen dirige as suas maiores críticas.

Elizabeth Bennet e o protofeminismo

A crítica costuma enxergar em Elizabeth Bennet uma protofeminista porque, ao contrário das mulheres da sua geração, ela não persegue um casamento promissor achando que vai encontrar em um homem a solução para os seus problemas financeiros e sociais.

Elizabeth luta contra uma sociedade conservadora e machista:

— Seu plano é bom — replicou Elizabeth — quando está em jogo apenas o desejo de se casar bem; e, se eu estivesse decidida a arranjar um marido rico, ou um marido qualquer, seria este o plano que adotaria. Mas estes não são os sentimentos (...)

A personagem discute e se rebela com o seu contexto porque deseja ser independente, repudiando um casamento movido pela conveniência. Não é que a moça fosse propriamente contra o matrimônio, o que ela detestava eram os valores que moviam as mulheres a encontrarem um marido abastado.

O comportamento de Elizabeth é extremamente peculiar para a época. Desde muito cedo a menina se rebelou contra aquilo que ficou conhecido como a santíssima trindade, isto é, o poder do pai, do tutor ou do marido. Às mulheres da época cabia o espaço da casa e a regência da família, enquanto os homens dominavam os espaços públicos, as propriedades e as finanças.

A jovem Lizzie é extremamente admirada pelo pai, um curioso incurável, mas é profundamente criticada pela mãe, que teme pelo futuro de Elizabeth devido as suas ideias consideradas revolucionárias.

História da publicação

A obra-prima de Jane Austen teria tido originalmente outro título: First impressions (em português Primeiras impressões) acabou sendo alterado para Pride and Prejudice.

Escrito entre 1796 e 1797, o romance que a autora chamava de "meu filho querido", foi lançado somente em janeiro de 1813.

Apesar de ter sido escrito há tantos anos, até hoje Orgulho e Preconceito continua ocupando o top livros mais lidos. A cada ano são comercializados 50.000 exemplares apenas no Reino Unido.

Uma curiosidade sobre o clássico: um exemplar da primeira edição foi encontrado e levado a leilão, em Londres, no ano de 2003. A obra foi arrematada por cerca de 58 mil euros.

Frontispício da primeira edição de Pride and prejudice (Orgulho e preconceito).
Frontispício da primeira edição de Pride and prejudice (Orgulho e Preconceito).

Em 2009 foi publicada uma paródia de terror do livro que teve imenso sucesso. Pride and Prejudice and Zombies (em português Orgulho e Preconceito e zumbis) foi adaptado para o cinema em 2016 sob a direção de Burr Steers (confira abaixo o trailer).

Filme Orgulho e Preconceito

Em 2005, o clássico romance de Jane Austen ganhou a sua mais famosa adaptação cinematográfica.

Antes disso, a obra-prima já tinha recebido outras três adaptações para o cinema (uma realizada em 1940, outra em 2003 e mais uma em 2004).

A produção de 2005 foi dirigida por Joe Wright e o roteiro adaptado foi assinado por Deborah Moggach.

O longa metragem foi indicado aos Óscares de melhor atriz (Keira Knightley), melhor figurino, melhor trilha sonora e melhor direção de arte. O filme também foi indicado ao Globo de Ouro em duas categorias (melhor filme e melhor atriz). Por fim, Orgulho e Preconceito levou para casa o Bafta de melhor revelação (pelo trabalho de Joe Wright).

Confira o trailer abaixo:

Para saber mais, leia: Filme Orgulho e Preconceito: resumo e comentários

Quem foi Jane Austen

Jane Austen nasceu no dia 16 de dezembro 1775, em plena era georgeana, em Hampshire, Inglaterra, filha do casal de boa reputação Cassandra e George Austen. O pai, um intelectual, sempre estimulou o lado criativo dos filhos e fez de tudo para que frequentassem a sua farta biblioteca pessoal.

Encantada pelo mundo dos livros, já durante a adolescência Jane começou a escrever pequenos romances em cadernos de espiral. Outras paixões importantes na vida da autora foram a música (especialmente o piano) e a dança.

Em 1801, Jane mudou-se com a família para Bath. Quatro anos mais tarde o pai veio a falecer. Como consequência, a família passou a enfrentar dificuldades financeiras que obrigaram a sucessivas mudanças.

Aos 30 anos, Jane Austen começou a publicar anonimamente os seus escritos. A autora não recebeu propriamente reconhecimento em vida, tendo ganhado popularidade a partir de 1869.

Jane faleceu jovem, aos 41 anos, no dia 18 de julho de 1817, em Hampshire.

CULTURA GENIAL




quinta-feira, 10 de março de 2022

Livros para quebrar o mar gelado em nós


13 LIVROS PARA QUEBRAR 

O MAR GELADO EM NÓS


Publicado por Valter Nascimento

Franz Kafka via a leitura como um processo sem fim de redescoberta. Para ele, os livros deveriam ser incômodos, diretos, genuínos. Esta é uma lista de alguns livros que me ajudaram a quebrar o gelo das leituras banais, me oferecendo uma experiência para além do mero entretenimento.


Em 1904 Kafka escreveu a seu amigo Oskar Pollak: “No fim das contas, penso que devemos ler somente livros que nos mordam e piquem. Se o livro que estamos lendo não nos sacode e acorda como um golpe no crânio, por que nos darmos ao trabalho de lê-lo? [...] Precisamos é de livros que nos atinjam como o pior dos infortúnios, como a morte de alguém que amamos mais do que a nós mesmos, que nos façam sentir como se tivéssemos sido banidos para a floresta, longe de qualquer presença humana, como um suicídio. Um livro tem de ser um machado para o mar gelado de dentro de nós. É nisso que acredito”.
Eis alguns livros (uns mais conhecidos, outros malditos ou esquecidos do grande público), que considero capazes proporcionar ao leitor uma experiência simbólica e inesquecível:
O conto da Aia, de Margareth Atwood.

Num futuro distópico, sem liberdade de expressão, livros ou jornais, a concubina Offred narra a vida das mulheres escravizadas pela sociedade patriarcal. Eu sei, parece bem atual, e é. Na visão sombria criada pela autora canadense, mulheres são apenas objeto de uso para a reprodução dentro de uma sociedade cristã que derrubou o Estado e impôs leis religiosas a todos os cidadãos. Um livro que reflete sobre a condição da mulher, sobre os poderes que conferimos aos religiosos e de como o futuro pode ser pior do que pensamos.
O nariz, de Nikolai Gogol

As aventuras de um nariz que foge de seu dono e luta para ser uma pessoa independente. Apesar do mote surreal, beirando a comédia escrachada, O nariz é uma pequena grande história sobre poder, individualidade e hipocrisia. Uma crítica feroz a sociedade russa da época, ao governo corrupto e a superficialidade do indivíduo, avaliado sempre pelo que aparenta ser, e não pelo o que é, mesmo que seja apenas um nariz.

Ambientado na África do Sul pós-apartheid, Desonra narra a vida de um professor de literatura que se envolve com uma de suas alunas, dando início a um círculo trágico que revela as diferenças culturais, raciais e políticas do país. Escrito com uma prosa limpa, carregado de poesia e cenas horrendas, este é um livro sobre humanismo sem concessões ou sentimentalismo barato.
Justine, ou Os sofrimentos da virtude, do Marquês de Sade

Sade é mais conhecido pelo grotesco 120 de Sodoma, mas em Justine ele combina o seu espírito libertino com doses de poesia, filosofia e política. A jovem Justine é boa, dona de qualidades invejáveis. É religiosa, amável, solidária, humilde e honesta; mas um livro de Sade não é um livro sobre o lado bom da vida. A cada boa ação de Justine a vida lhe dá justamente o oposto. Nenhuma heroína que eu conheça jamais sofreu como Justine. A graça (e o horror) deste livro, ferozmente avançado para o seu tempo (Justine apareceu pela primeira vez em edições clandestinas em 1791), reside na visão cínica da vida que não recompensa os justos, e se não há justiça na Terra, para que devemos ser bons?
A vida e as opiniões do cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne

A proposta do livro é uma biografia de um nobre do século XVIII, mas o que lemos é uma confusão maravilhosa. Capítulos faltando, críticas contra toda e qualquer instituição social e um protagonista que não aparece quase nada. O tal Tristram é um pretexto, sua história nunca é contada por inteiro e o leitor tem a sensação de que qualquer coisa pode acontecer na página seguinte. Este é o primeiro grande romance experimental moderno e há quem ache que Tristram Shandy seja maior que o Dom Quixote.
Matadouro 5, de Kurt Vonnegut

Alienígenas abduzem soldado da Segunda Guerra transformando-o num homem “livre do tempo”, capaz de analisar a saga humana de um ponto de vista privilegiado. Eis o principal tema deste romance feroz e cheio de sagacidade, sem paralelo na literatura mundial. Para Vonnegut, que conheceu de perto a rotina das tropas, a máquina da guerra, o horror da morte e a insignificância da vida são tão irracionais quanto qualquer história de ficção científica, e sob este ponto de vista, alienígenas cruzando o espaço e o tempo não parece uma coisa tão difícil de se acreditar.
O tambor, de Günter Grass

Confinado num sanatório, acusado de um crime que não cometeu, Oskar Matzerath escreve suas memórias como forma de se manter são. Entre suas inúmeras habilidades desenvolvidas ainda na infância, ele se orgulha de poder quebrar vidros com um grito agudo e de ter parado de crescer aos 4 anos, tornando-se assim anão por conta própria. Sua história como anão de circo durante a Segunda Guerra se confunde com a história da Polônia e da Alemanha, a ascensão de Hitler e do nazismo e flerta com o realismo fantástico como forma de escape perante o horror.
Reparação, de Ian McEwan

A primeira parte deste livro se passa no verão de 1935 quando Briony, com então 13 anos, presencia uma cena que julga ser algo sexualmente inapropriado entre sua irmã e o filho da governanta. Eis o estopim para um dos mais belos e tocantes livros da literatura moderna, que usa com maestria o conceito de metalinguagem, pondo uma história dentro da outra, para entregar ao leitor um final terno e amargo. Um livro sobre o poder da interpretação, amores não vividos e de como a literatura pode ser a mais sublime forma de redenção.
Budapeste, de Chico Buarque

Chico Buarque é, além de um dos maiores compositores brasileiros, um romancista e dramaturgo de talento irretocável. Mas nenhum de seus romances tem a graça, o frio na barriga e o desaforo de Budapeste. A história fala das peripécias de José Costa, um ghost-writer que se vê por acaso em Budapeste, uma cidade que conhece apenas dos guias de viagens. A cidade real e a inventada, o homem real e o imaginado. Chico usa a profissão nada nobre de escritor de encomenda para brincar com os limites do indivíduo e questionar o que é o real, o que é a linguagem e de fato o que é escrever.
Diário de um ladrão, de Jean Genet

A vida de Genet foi um festival de desgraças. Filho de uma prostituta, abandonado pela mãe e criado num orfanato. Com os meninos de rua ele aprendeu a arte de roubar, sendo preso diversas vezes por isso. Em Diário de um ladrão, Genet narra sua vida de delinquente, homossexual despudorado e profundo conhecedor dos segredos do submundo. Este é um livro que tira poesia da desgraça, que rasga pudores e fala abertamente de temas que ninguém quer falar, por isso mesmo honesto e contundente.
O senhor das moscas, de William Golding

Um grupo de meninos presos numa ilha. O que começa como uma tentativa de sociedade justa e natural se torna aos poucos numa alegoria sobre os impulsos primitivos e a crueldade. É um livro belo e bárbaro, repleto de personagens memoráveis como Porquinho, Ralph e O Bicho. A ideia de que o homem é naturalmente bom é posta em debate. O senhor das moscas é visto como um contraponto a Robinson Crusoé, o náufrago que impõe os valores humanos a uma ilha selvagem. A selvageria de Golding é de caráter humano, o que faz da obra uma das mais influentes de todos os tempos.
A invenção de Morel, de Adolfo Bioy Casares

Bioy Casares é, ao lado de Jorge Luiz Borges e Julio Cortázar, um dos três grandes nomes da literatura argentina, e também o menos conhecido pelo grande público. Neste livro, considerado por Borges como o “romance perfeito”, um preso político se refugia numa ilha infectada por uma doença mortal. Lá passa a observar os turistas que frequentam uma parte específica do lugar. Sua observação o leva a descobrir que os visitantes sempre se comportam da mesma maneira, repetindo seus gestos e falas, dando a entender que o real não é verdadeiro, e que alguma coisa comanda, secretamente, as leis do lugar. O resto você tem que ler e se preparar para a surpresa.
Triângulo das águas, de Caio Fernando Abreu
Composto por três novelas de prosa fluída e pessoal, este é um livro que demoramos a digerir. Em Dodecaedro diversos personagens entram em cena numa composição que capta o passar do tempo de maneira inusitada. Em O marinheiro, pra mim uma das coisas mais bonitas já escritas em língua portuguesa, a saudade e a expectativa de um encontro são desenhados de maneira sutil e melancólica. Em Pela noite, a história com os mais típicos elementos da prosa do autor, dois personagens se perdem entre discos, bebidas e atos de amor.


obviousmagazine


VALTER NASCIMENTO

Já atuei como produtor, diretor cultural e cineclubista. Atualmente sou livreiro, escritor e possuo grande interesse sobre o universo dos livros e seus leitores. Escrevo ainda para o site Medium e nas horas vagas sou gamer inveterado e cinéfilo compulsivo.
Mais em: www.valternasco.wordpress.com



terça-feira, 1 de junho de 2021

Mulheres


MULHERES ET LIVROS
by Lissy Laricchia





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segunda-feira, 8 de julho de 2019

Por que nos esquecemos dos livros que lemos



Por que nos esquecemos dos livros que lemos

Lembramos onde lemos aquela obra ou como era a capa. Mas costumamos ter mais dificuldade em evocar o argumento


ALOMA RODRÍGUEZ
24 JUL 2018 - 17:35 COT

É muito frequente lembrar os lugares onde lemos: na esteira da praia, à sombra das árvores; em um parque de diversões; em um apartamento minúsculo onde dava para ouvir o trem; na mesa da cozinha de casa. Mas é um pouco mais difícil se lembrar de qual livro foi lido em que lugar, quem era o autor, ou o enredo. Mesmo que às vezes se lembre que tinha capa vermelha ou que era uma edição de bolso.
Ou seja, guardamos lembranças da sensação física da leitura, mas menos do que foi lido. “Quase sempre me lembro de onde estava e me lembro do livro. Lembro-me do objeto físico”, disse Pamela Paul, editora do New York Times Book Review, a Julie Beck em uma reportagem na The Atlantic. Ela continua: “Eu me lembro da edição, da capa e, geralmente, de onde comprei ou quem o deu para mim. O que não lembro —e isso é horrível— é todo o resto.” “O que mais me lembro sobre a coleção de contos de Malamud O Barril Mágico é a luz morna do sol na cafeteria às sextas-feiras, onde eu o lia antes de ir para o colégio. Faltam os pontos mais importantes, mas já é alguma coisa. A leitura tem muitas facetas, uma delas pode ser a mistura indescritível, e naturalmente fugaz, de pensamento e emoção, e as manipulações sensoriais que ocorrem no momento e logo desaparecem. Quanto da leitura é, então, uma espécie de narcisismo, um marcador de quem você era e sobre o que estava pensando quando se encontrou com um texto?”, escreve Ian Crouch na The New Yorker sobre ler e esquecer o que se leu.
Há sortudos capazes de lembrar os enredos de filmes, séries e livros, mas para a maioria, como escreve Beck, é “como encher uma banheira, entrar nela e ver a água descer pelo ralo: pode deixar uma fina película na banheira, mas o resto não está mais lá”. Existem algumas razões científicas para explicar isso e têm a ver com a chamada “curva do esquecimento”, que é a velocidade com a qual nos esquecemos de algo, mais intensa durante as primeiras 24 horas depois que aprendemos alguma coisa, a menos que se faça uma revisão. Isso explicaria por que os livros lidos em um fôlego só, ou as séries devoradas em uma sentada, são esquecidos mais facilmente: não se pôs a memória da recuperação para trabalhar.



Os livros e séries devorados em uma sentada são mais facilmente esquecidos: não ativam a memória de recuperação

De fato, sabe-se que quem consome uma série assistindo um capítulo por semana ou um por dia se lembra dela melhor do que quem a vê inteira em um único dia. Ler um livro de uma só vez, às vezes, significa esquecê-lo mais cedo, porque só foi ativada a memória de trabalho, não há revisão. Em parte, sempre foi assim, mas de acordo com Jared Horvath, pesquisador da Universidade de Melbourne, citado por Beck, “a forma como se consome informação e entretenimento hoje mudou o tipo de memória que valorizamos”. A memória de recuperação se tornou menos necessária em parte graças à internet, agora a memória de reconhecimento é mais importante, afirma Horvath. A possibilidade de ter acesso à informação significa que não é necessário memorizá-la. Está disponível na internet, a grande biblioteca global, mas também em alguns de seus predecessores, como livros, cassetes ou VHS. De fato, Sócrates já era contra o “uso das letras” como uma espécie de memória externa que dificultaria a memorização. Hoje conhecemos a relutância do filósofo contra a letra escrita, e todo o seu pensamento, graças aos diálogos de Platão, que foram registrados por escrito.



A “curva do esquecimento” é a velocidade com que esquecemos. É mais intensa nas primeiras 24 horas se não se fizer uma revisão

Em The Solitary Vice: Against Reading[O Vício Solitário: Contra a Leitura], a professora e ensaísta Mikita Brottman recupera este fragmento de O Tempo Redescoberto, de Proust, um grande explorador da confluência entre leitura e memória: “Um livro que lemos não permanece unido para sempre apenas ao que havia em torno de nós; continua fielmente unido também ao que éramos então, e só pode ser sentido de novo, concebido, através da sensibilidade, através do pensamento, pela pessoa que éramos então”. Brottman também cita as memórias de Azar Nafisi, Lendo Lolita em Teerã, onde o autor escreve: “Se um som pudesse ser guardado entre as páginas da mesma forma que uma folha ou uma borboleta, diria que, entre as páginas do meu Orgulho e Preconceito, o romance mais polifônico de todos... está escondido, como uma folha de outono, o som daquela sirene [antiaérea].” Essa relação com os livros lidos e às vezes esquecidos explica a existência das memórias bibliófilas. O livro de Brottman pertence, em parte, a esse gênero, e Lendo Lolita em Teerã, completamente. É um gênero que tem seu próprio acrônimo: Bob, book of books.
Pamela Paul mantém o seu diário de leituras desde os 17 anos e foi com base nele que escreveu My Life with Bob: Flawed Heroine Keeps Book of Books, Plot Ensues [Minha Vida com Bob: a Heroína Defeituosa Mantém o Livro dos Livros, a Trama Continua]. De acordo com um artigo no Financial Times, estamos em um bom momento para bibliomemórias. Lucy Scholes escreveu sobre o gênero: “A bibliomemória é um convite aberto para olhar as prateleiras da biblioteca de outra pessoa; uma oferta que eu, e claramente muitos outros, acho difícil recusar”. O capítulo do expurgo da biblioteca de Dom Quixote sempre foi lido como uma crítica literária mais ou menos camuflada, e como uma declaração das fontes do Quixote, mas também é uma lista de livros lidos, ou seja, uma bibliomemória. O desejo de registrar sua biblioteca essencial foi o primeiro impulso que levou Ismael Grasa a escrever La Hazaña Secreta [A Façanha Secreta], um livro que, entre muitas outras coisas, é um diário de leituras. Alberto Manguel cultivou o gênero com resultados brilhantes. Em Packin’ My Library [Encaixotando Minha Biblioteca], ele escreve que escritores e leitores sempre se perguntaram se a literatura tem algum papel na formação de um cidadão. Lucy Scholes responde que “em sua exploração da relação simbiótica entre vida e literatura, a bibliomemória parece ser um grito de guerra afirmativo”.
Aloma Rodríguez é escritora e membro da redação de Letras Libres.


sábado, 4 de novembro de 2017

Hemingway / Pamplona era otra fiesta



Ernest Hemingway

Pamplona era outra festa


Completam-se 90 anos da publicação do romance em que Hemingway colocou a Festa de San Firmino, na Espanha, no imaginário coletivo


Rodrigo Fresán
2 JUL 2016 - 17:17 COT

Noventa anos depois de sua publicação, o romance O Sol Também Se Levanta continua sendo um grande livro cujo tempo passou (seus hoje lugares comuns foram, é preciso ter claro, descobertos nele e por ele), mas para o qual o tempo não passou. Somente o seu primeiro capítulo ensina mais do que uma oficina inteira de escrita criativa. O mesmo não aconteceu –e não acontece com ninguém—com o seu autor.

O romance de Hemingway é um dos melhores guias de turismo de aventura jamais escritos. Dá saltos ao longo de 1925 entre a França e a Espanha, pondo Pamplona e o ritual das Festas de San Firmino no mapa do imaginário coletivo. Também é um dos textos-chave do que seria conhecido (Gertrude Stein dixit desde a epígrafe) como a Geração Perdida recuperando o tempo extraviado na Guerra Mundial. Certamente, o melhor romance publicado na vida por Hemingway e antecedente existencial-sentimental de On The Road – Pé na Estrada, de Jack Kerouac, e de tanto totem de inicialização posterior. E, last but not least, em boa parte o livro é o culpado inicial que autoriza estrangeiros a agirem de um modo descarado nas praias, discotecas, sacadas e piscinas de hotel.
Em perspectiva, O Sol Também Se Levanta é também a pedra fundamental do automitômano parque temático Papa Hemingwayland que, de tanto visitá-lo, converteu seu arquiteto em um viciado na própria lenda na qual o personagem se torna caricatura e pastiche de si mesmo.

Mas, antes de tudo isso, no Quartier Latin, o jovem contista e correspondente estrangeiro, quase desconhecido, mas em todos os lugares certos, se sentou para escrever este perfeito retrato de seu tempo e dos seus. Tudo orbitando ao redor da paixão já impossível de consumar entre a personagem da aristocrata boemia Lady Brett-Ashley (diretamente inspirada em Lady Duff Twysden) e Jake Barnes (chamado de Hem em uma primeira versão, mas com uma ferida de guerra mais grave e “incapacitante” que a de seu criador). São acompanhados pelo judeu errante chamado no romance de Robert Cohn (o também escritor e hoje quase esquecido Harold Loeb, anfitrião generoso de recém-chegados à café society parisiense, companheiro de tênis de Hemingway e rival em quase todo o resto, incluindo as atenções da volátil e promíscua Lady, pela qual chegaram aos socos), o igualmente instável e etílico prometido da Lady em questão, Mike Campbell (alter ego do arruinado Pat Guthrie), e uma manada de aristocratas decadentes e expatriados britânicos e norte-americanos e algum toureiro (por acaso o único centro moral do assunto), reescrito com base nos matadores Pedro Romero e Cayetano Ordóñez, e muitos touros.
A virtude do muito bem escrito e estruturado livro de Blume é que faz muitas coisas e faz todas bem. Funciona como estudo crítico, como panorama histórico, como biografia de uma personalidade patológica que já traçava friamente o plano de inevitável celebridade descartando a primeira esposa e aliando-se e traindo segundo conviesse, como making of editorial do que se tornou um muito risqué e instantâneo best-seller (proliferam nele lampejos de antissemitismo e homossexualidade), e como um vibrante livro de um admirador. Blume consegue o primário efeito secundário desejado em poucas páginas: a necessidade inadiável de voltar a ler O Sol Também Se Levanta.
Esta semana —invocando mais sua vida que sua obra— milhares de pessoas reais correrão pelas ruas de Pamplona tentando fazer com que nenhum touro Miura as transforme em personagens de selfies e tuiítes muito mas muito pior escritos e focados que o perfeito e não superado O Sol Também Se Levanta
Eu me pergunto quantos deles o terão lido.
Rodrigo Fresán é autor entre outras obras de La Parte Inventada.