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quinta-feira, 18 de junho de 2015

Hemingway / As neves de Kilimanjaro


Ernest Hemingway
As Neves de Kilimanjaro

Hemingway / Las nieves del Kilimanjaro (De otros mundos)

Kilimanjaro é uma montanha coberta de neve, a 6.000 metros de altitude, e diz-se que é a montanha mais alta da África. O seu pico ocidental chama-se ‘Ngàge Ngài’, a Casa de Deus. Junto a este pico encontra-se a carcaça de um leopardo. Ninguém ainda conseguiu explicar o que procurava o leopardo naquela altitude.

— O que é fantástico é que isto é indolor — disse ele.
— É assim que ficamos a saber quando ela começa.
— É assim realmente?
— Absolutamente. Mas, desculpa este cheiro. Deve incomodar-te.
— Não! Por favor, não digas isso.
— Olha para eles —, disse ele. — É o que vêem ou o que lhes cheira que os atrai desta maneira? A cama de lona em que o homem estava deitado estava na extensa sombra de uma mimosa, e quando ele olhou para além da sombra, no brilho intenso da planície viam-se três daquelas aves obscenamente agachadas, enquanto, no céu, mais uma dúzia voava, fazendo sombras velozes quando passavam.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Hemingway / Carta de uma leitora


Ernest Hemingway
CARTA DE UMA LEITORA
Tradução de  A. Veiga Fialho
                                                                                                            
        Sentou-se à mesa do quarto, com o jornal aberto à frente, e parando apenas para olhar pela janela a neve cair e derreter-se no telhado ao cair. Escreveu esta carta, escreveu-a sem parar, sem necessidade de riscar ou reescrever qualquer coisa.

              Roanoke, Virgínia
              6 de fevereiro de 1933
              Prezado Doutor

        Escrevo para lhe pedir um conselho muito importante: Tenho uma decisão a tomar e não sei em quem posso confiar e não ouso perguntar a meus pais. Por isso, escrevo-lhe apenas porque, não tendo de enfrentá-lo cara a cara, posso confiar no senhor. A situação é esta: Casei-me com um rapaz que estava no exército americano em 1929 e, nesse mesmo ano, ele foi mandado para Xangai, China – lá ficou três anos – e depois voltou para casa, dando baixa no exército poucos meses atrás, e foi para a casa da mãe dele em Helena, Arkansas. Escreveu-me que eu fosse ter com ele; fui e descobri que ele estava tomando uma série de injeções e, naturalmente pergunto, descobrindo que ele está sendo tratado por causa de uma doença cujo nome não sei escrever direito, mas que parece ser “sífilus”. O senhor sabe o que eu quero dizer. Agora quero que me diga se posso viver com ele outra vez; não tive nenhum contato mais íntimo com ele desde que voltou da China. Ele me assegurou que está OK depois que terminar o tratamento médico. O senhor acha que está certo? Muitas vezes ouvi meu pai dizer que era melhor morrer do que ter essa doença. Creio em meu pai, mas desejo mais ainda crer em meu marido. Por favor, por favor, diga-me o que devo fazer; tenho uma filha que nasceu enquanto o pai estava na China.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Hemingway / Um gato à chuva


Ernest Hemingway
Um gato à chuva



Hemingway / Un gato bajo la lluvia (De otros mundos)

Apenas dois americanos estavam hospedados no hotel. Eles não conheciam nenhuma das pessoas com quem tinham cruzado pelas escadas, no movimento de “entra e sai” do quarto. Estavam hospedados no segundo andar, num apartamento que ficava de frente para o mar e também de frente para a praça e o monumento de guerra. Havia enormes palmeiras e bancos verdes na praça. Quando o tempo estava bom havia sempre um pintor com o seu cavalete por lá. Os artistas gostavam das formas das palmeiras e das cores brilhantes dos hotéis, de frente para os jardins e para o mar. Italianos vinham de longe para ver o monumento de guerra. Era feito de bronze e reluzia na chuva. Estava a chover. Gotas de chuva caiam das palmeiras. A água formava poças nos caminhos de cascalho. O mar quebrava numa extensa linha, na chuva, e deslizava rumo à praia para retornar e quebrar novamente numa longa linha, repetindo o mesmo movimento. Os carros já tinham deixado a praça, passando pelo monumento de guerra. Do outro lado, um garçom olhava a praça vazia, da porta de uma lanchonete. A mulher americana, de pé, próxima à janela, observava o movimento. Fora do hotel, bem debaixo da janela deles, uma gata estava encolhida debaixo de uma das mesas verdes encharcadas. A gata se enroscava para não molhar.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Hemingway / Uma estória muito curta

Ernest Hemingway
Ernest Hemingway
UMA ESTÓRIA MUITO CURTA
Tradução de  A. Veiga Fialho
Certa noite quente, em Pádua, carregaram-no para cima do telhado para que ele pudesse olhar a cidade de cima. Depois de algum tempo começou  a escurecer, e os holofotes apareceram . Os outros desceram e levaram as garrafas. Ele e Luz podiam ouvi-los no balcão, embaixo. Luz estava sentada na cama. Estava calma e fresca na noite quente.