Mostrando postagens com marcador João Ubaldo Ribeiro. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador João Ubaldo Ribeiro. Mostrar todas as postagens

domingo, 27 de setembro de 2015

Danilo Venticinque / A tristeza de perder um escritor


João Ubaldo Ribeiro

A tristeza de perder 

um escritor

Os últimos dias têm sido difíceis para amantes da literatura

DANILO VENTICINQUE
24/07/2014 - 11h29 - Atualizado 24/07/2014 11h29


Perder um ídolo é como perder um amigo. Todo fã já sentiu essa dor, não importa do que e de quem sejamos fãs. Mas tenho a impressão de que os fãs de literatura sofrem mais. Talvez seja da natureza da atividade, que não nos dá tempo para nos prepararmos para a perda. Torcedores apaixonados começam a experimentar o luto quando seus ídolos no esporte se aposentam. Quem ama música está acostumado às turnês de despedida, uma forma humana e lucrativa de preparar fãs e ídolos para o fim. Não há nada parecido na literatura. São raríssimos os autores que fazem como Philip Roth e anunciam sua aposentadoria quando ainda têm plenas condições de produzir. Pelo contrário. Para nossa sorte, a maioria segue trabalhando e encantando leitores enquanto saúde permite, numa velhice cheia de eventos e projetos literários. Nossos heróis sempre morrem no auge.
Daí vem a nossa dificuldade para lidar com dias difíceis como esses. De uma hora para outra não temos mais João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e, agora, Ariano Suassuna. Nunca perdemos tanto em tão pouco tempo, e nunca estivemos preparados.
A literatura virou um assunto triste. Na internet, cada um busca a melhor maneira de homenagear seu escritor favorito. Frases, fotos e casos tentam resumir o irresumível e captar em poucas linhas a essência de quem deixou milhares de páginas para seus leitores.
Além de demonstrar o carinho dos leitores, essas homenagens ajudam a levar um pouquinho da obra desses escritores para quem nunca teve a sorte de conhecê-los em vida. É a única notícia boa nesses dias difíceis para a literatura brasileira. Nunca se falou tanto em João Ubaldo Ribeiro, Rubem Alves e Ariano Suassuna. Mesmo quem só leu meia dúzia de páginas vira fã, e divulga o trabalho do ídolo para quem não o conhecia nem de nome.
Há fãs antigos que se revoltam contra os recém-convertidos. Reclamam que basta um escritor morrer para que todos se tornem seus admiradores. Que os novos fãs são movidos não pelo amor à obra do autor, mas pela vontade de participar da comoção coletiva. Sentem que são um pouquinho "donos" do autor por tê-lo conhecido antes, e que, por isso, a dor deles é maior do que a da maioria.
Talvez estejam certos. Cada um lida com o luto à sua maneira. Mas talvez a melhor forma de homenagear o escritor seja acolher os novos fãs em vez de reprová-los. "Eu sei que vou morrer, mas meus personagens ficarão todos com vocês", disse Suassuna em sua última aula. Quanto mais pessoas conhecerem seus textos, mais vivo estará o autor. Para honrar a memória de um escritor, nada melhor do que consumi-lo e espalhá-lo. Ler sua obra e cuidar para que ela seja lida.
Além de demonstrar tristeza por perder um ídolo, é hora de lembrar por que eles merecem tantas homenagens. Reler nossos textos favoritos, descobrir livros que ainda não conhecíamos e compartilhar nossas descobertas com outros leitores. Por que não aproveitar o momento para finalmente criar coragem para enfrentarA pedra do reino, ou reencontrar o Sargento Getúlio? Quando um grande escritor morre, a leitura é a melhor homenagem possível. Talvez a única homenagem à sua altura.




domingo, 20 de julho de 2014

Morre o escritor João Ubaldo Ribeiro aos 73 anos no Rio de Janeiro


Morre o escritor João Ubaldo Ribeiro 

aos 73 anos no Rio de Janeiro

O membro da Academia Brasileira de Letras sofreu uma embolia pulmonar



João Ubaldo Ribeiro, em uma imagem de arquivo. / ROGELIO REIS (TYBA)
Dizem que o baiano nunca tem pressa, mas, para a escritora Nélida Piñón, João Ubaldo Ribeiro foi embora antes do tempo. "Morreu moço, tendo tanto ainda a dar à língua do Brasil", disse ao jornal O Estado de S. Paulo. O escritor se sentiu mal em sua casa, na zona sul do Rio de Janeiro, e faleceu às 5 da madrugada por uma embolia pulmonar, informa a Academia Brasileira de Letras (ABL). O membro que ocupava a cadeira 34 da ABL há 20 anos é autor de obras como Sargento Getúlio, Viva o Povo Brasileiro e A Casa dos Budas Ditosos, e também escreveu inúmeras colunas no jornal carioca O Globo e em O Estado de São Paulo, além de contos e ensaios. A ABL decretou três dias de luto por sua morte.
O romancista, que publicou seu primeiro livro aos 27 anos com ajuda do amigo de faculdade e cineasta Glauber Rocha, foi um colecionador de prêmios nacionais e internacionais. Entre eles estão duas edições do Jabuti (1972 e 1985) e um Camões (2008), um dos mais importantes da língua portuguesa.
Antes de ser um célebre e um "quase clássico" escritor, já que se negava a admitir que sua maior obra, Viva o Povo Brasileiro, fosse memorável por sua atualidade e difusão, Ribeiro nasceu e cresceu na tranquila ilha de Itaparica, em frente ao litoral de Salvador, na Bahia. Seu pai, segundo relatou em entrevistas à Globo na década de 1980, fez com que sua formação intelectual fosse "muito rigorosa". Felizmente, a rigidez do pai acabou precipitando sua paixão pelos livros e, posteriormente, pela escritura. Em uma entrevista ao Estado de São Paulo, contou: "Eu vivia cercado de dicionários, tamanho o fascínio que tenho pela palavra". E confessou que chegou a criar contos somente para encaixar uma palavra descoberta, algo que afetou o destino de personagens.
Essa parte de sua biografia, assim como seu livro mais famoso, foram o tema de um samba enredo apresentado na Sapucaí pela escola Império da Tijuca, em 1987. Também ganharam vida outras obras suas, como o Diário do Farol, que teve uma adaptação para o teatro em 2011, e Sargento Getúlio, um longa-metragem estrelado por Lima Duarte em 1983 no cinema.
Como jornalista, Ribeiro, que também estudou Direito sem nunca exercer a profissão, deixava de lado o principal traço que o identificava como baiano além do sotaque: a tranquilidade. Em seus textos incendiários, distantes de sua literatura harmoniosa de bonitas palavras, foi um férreo contestador do Governo, tanto do PT quanto do PSDB. Foi especialmente duro com os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Suas críticas vinham com a propriedade de quem era, além de um intelectual de referência, também mestre em Administração Pública com ênfase em Ciência Política pela Universidade da Califórnia do Sul (USC).
Sua voz grave e seu bigode talvez impusessem respeito, mas seu sorriso e sua própria modéstia o fez reconhecer publicamente, em várias ocasiões, que não acreditava que tivesse "cara de escritor". Simples e simpático, o intelectual vivia de bermuda e chinelo e, às vezes, usava a camiseta do Vitória, seu time do coração. Assim como Jorge Amado, também baiano, falava em seus textos daquilo que era o cotidiano de ambos, do que viam e conheciam: a alma, a realidade e o caráter do brasileiro, incluindo "todas as suas contrariedades". "Eu escrevo sobre a minha terra, que é aquilo que conheço", costumava falar. Em outra ocasião, chegou a dizer ao Estado que era o "rei da biografia", já que contava histórias de pessoas comuns, daquilo que via e ouvia pela rua ou praia. A repercussão de sua morte fez com que muitos leitores brasileiros compartilhassem nas redes sociais trechos de narrativas marcantes, frases célebres e fotos de seus livros.
Enquanto muitos escritores dizem que o mais difícil do ofício de escrever é ter a ideia para a história ou a tal da inspiração, Ribeiro garantia que isso, para ele, não era um problema. Durante uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, em 2012, expôs o seu grande dilema: "Eu só preciso de tempo para escrever".