quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Vargas Llosa / Os estudantes

Os estudantes
Fernando Vicente


MARIO VARGAS LLOSA

Os estudantes

A mais importante batalha pela liberdade está se dando nas ruas da Venezuela e não é justo que os jovens, que a lideram, não obtenham o apoio de Governos e organizações democráticas



3 MAI 2014 - 17:00 COT

As palavras também se gastam com o uso. Liberdade, democracia, direitos humanos, solidariedade vêm a nossos lábios com frequência e quase já não querem dizer nada porque as utilizamos para dizer tantas coisas, ou tão poucas, que se desvalorizam e se tornam fantasmas ao extremo de se transformarem em meros ruídos. Mas, de repente, circunstâncias sociais e políticas as recarregam de conteúdo e de verdade, as impregnam de sentimento e de razão –e é como se ressuscitassem e expressassem de novo o sentir de todo um povo.
É o que vivo nestes dias na Venezuela, escutando dirigentes estudantis e líderes da oposição, homens e mulheres comuns e normais que nunca antes fizeram política e agora a fazem, pondo em jogo os trabalhos, a tranquilidade, a liberdade e até a vida, impelidos pela consciência de que, se não houver um choque nacional democrático que o desperte e mobilize, o país vai à ruína, a uma ditadura totalitária e à pior catástrofe econômica de toda sua história.
Embora o processo venha de trás – as últimas eleições viram crescer de modo gradual a oposição ao regime chavista –, a mudança qualitativa teve lugar no começo de fevereiro deste ano, em San Cristóbal, Estado de Táchira, quando uma tentativa de violação de uma jovem na Universidade dos Andes levou os estudantes a convocar uma grande marcha contra a insegurança, a falta de alimentos, os sequestros, os desmandos dos assassinos e a sistemática restrição das liberdades dos cidadãos. O regime decidiu usar mão dura. A Guarda Nacional e as forças paramilitares – indivíduos armados com pistolas, facas e bastões, montados em motos e com os rostos cobertos – atacaram os estudantes, os espancaram e balearam, matando vários deles. Levaram dezenas de detidos a quartéis distantes onde foram torturados com choques elétricos, golpes, sodomizados com paus e fuzis, e as moças,
A ferocidade repressiva resultou contraproducente. A mobilização estudantil se estendeu por todo o país e em todas as cidades e povoados da Venezuela gigantescas manifestações populares expressaram seu repúdio ao regime e sua solidariedade com as vítimas. Por toda parte se levantaram barricadas e o país inteiro pareceu viver um despertar libertário. Os 500 advogados voluntários que constituíram o Foro Penal Venezuelano, para defender os detidos e denunciar os assassinatos, desaparecimentos e torturas, elaboraram um relatório que documenta com riqueza de detalhes a selvageria com que os herdeiros do comandante Chávez tratam de fazer frente a esta formidável mobilização que mudou a correlação de forças na Venezuela, atraindo para as fileiras da oposição uma inequívoca maioria de venezuelanos.


Maduro fracassará se tenta calcar o movimento estudantil com um banho de sangue

Minha impressão é que este movimento seja irrefreável e mesmo que Maduro e seus cúmplices tentem esmagá-lo com um banho de sangue, fracassarão – e a matança só servirá para acelerar sua queda. A liberdade ganhou as ruas da terra do verdadeiro Bolívar (não a caricatura que fez dele o chavismo) e o apregoado “socialismo do século 21” está ferido de morte.
Quanto mais rápido ele for embora, melhor será para a Venezuela e para a América Latina. A maneira como o regime, em seu empenho frenético de coletivizar e estatizar a nação, empobreceu e destruiu um dos países potencialmente mais ricos do mundo ficará como um caso emblemático dos desvarios a que pode conduzir a cegueira ideológica em nosso tempo. Além de ter a inflação mais alta do mundo, a Venezuela é o país de menor crescimento em todo o continente, o mais violento, e no qual a asfixia burocrática se reproduz mais rápido, ao extremo de manter na paralisia quase total a administração pública. O regime de controles, preços “justos” e intervencionismo estatal esvaziou todos os armazéns e mercados de produtos, e o mercado negro e o contrabando alcançaram extremos de vertigem. A corrupção é o único item em que o país avança a passos de gigante.
Desconcertado pela mobilização popular encabeçada pelos estudantes que ele não consegue esmagar mediante a repressão, o governo de Maduro, com a cumplicidade dos países da Alba, tenta ganhar tempo, abrindo diálogos de paz. A oposição tem feito bem participando deles, mas sem se desmobilizar e exigindo, como prova de boa fé governamental, pelo menos a libertação dos presos políticos, começando pela de Leopoldo López, a quem o governo, ao encarcerá-lo, converteu, segundo todas as últimas pesquisas, no líder político mais popular da Venezuela, juntamente com María Corina Machado. Conheci a mãe e a esposa de López, duas mulheres admiráveis, que enfrentam com coragem fora do comum a perseguição de que são vítimas por estar na vanguarda da batalha pacífica que a oposição trava para impedir o desaparecimento das últimas frestas de liberdade que ainda restam na Venezuela.
Mas queria sublinhar uma vez mais o papel destacadíssimo que desempenham os estudantes na grande gesta libertária que vive a Venezuela. A chavista deve ser a única revolução em sua história que mereceu, desde o começo, a hostilidade quase generalizada dos intelectuais, escritores e artistas, assim como a dos estudantes, que, neste caso, deram muito mais demonstrações de lucidez e olfato político que, no passado, seus congêneres latino-americanos.


Encarcerar Leopoldo López o transformou no líder político mais popular do país

É estimulante e rejuvenescedor ver que o idealismo, a generosidade, o desprendimento, o amor à verdade e a coragem estão tão vivos entre a juventude venezuelana. Aqueles que, frustrados pela futilidade das lutas políticas em seus países de democracia medíocre e rotineira, tornam-se cínicos, desprezam a política e optam pela filosofia do “quanto pior, melhor” deveriam dar uma volta pelas guarimbas venezuelanas, como aquela da avenida Francisco de Miranda, no centro de Caracas, onde moços e moças convivem já há várias semanas, organizando conferências, debates, seminários, explicando aos passantes seus projetos e desejos para a futura Venezuela, quando a liberdade e a legalidade retornem e o país desperte do pesadelo que vive há 15 anos.
Aqueles que chegaram à deprimente conclusão de que a política é uma atividade imunda, de medíocres e ladrões, e que é preciso, portanto, dar-lhe as costas, venham à Venezuela, onde ouvindo estes jovens, falando e aprendendo com eles, comprovarão que a ação política pode ser também nobre e altruísta, uma maneira de enfrentar a barbárie e derrotá-la, de trabalhar pela paz, convivência, justiça e liberdade, sem dar tiros nem detonar bombas, com razões e palavras, como fazem os filósofos e os poetas – criando a cada dia gestos, espetáculos, ideias, como fazem os artistas, que comovam e eduquem os outros e os embarquem num empreendimento libertário. Centenas de milhares, milhões de jovens venezuelanos estão dando nestes dias à América Latina e ao mundo inteiro um exemplo de que ninguém deve renunciar à esperança, de que um país, não importa quão profundo seja o abismo no qual a demagogia e a ideologia o precipitaram, sempre pode sair dessa armadilha e redimir-se.
Alguns desses jovens já passaram pela prisão e sofreram torturas, e alguns deles podem morrer, como os cerca de 50 companheiros que já perderam a vida nas mãos dos assassinos encapuzados com que Maduro pretende calá-los. Não os silenciarão, mas não é justo que estejam tão sozinhos, que os governos e as organizações democráticas não os apoiem e às vezes até fiquem do lado de seus verdugos. Porque a mais importante batalha pela liberdade de nossos dias está ocorrendo nas ruas da Venezuela e tem um rosto juvenil.




segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Vargas Llosa / O mago do Norte

O mago do Norte
Isaiah Berlin o Johann Georg
Fernando Vicente
Mario Vargas Llosa

O mago do Norte

Isaiah Berlin recopilou textos do teólogo e filósofo alemão Johann Georg Hamann, inimigo mortal da Ilustração e porta-voz do irracionalismo. O resultado é uma festa das ideias



17 MAI 2014 - 15:06 COT


Isaiah Berlin foi um democrata e um liberal, um desses raros intelectuais tolerantes, capazes de reconhecer que suas próprias convicções podiam estar erradas, e acertadas as de seus adversários ideológicos. E a melhor prova desse espírito aberto e sensível, que contrastava sempre suas ideias com a realidade para ver se as confirmava ou contradizia, ele deu ao dedicar seus maiores empenhos intelectuais a estudar nem tanto os filósofos e pensadores afins à cultura da liberdade, mas sim os seus mais inflamados inimigos, como um Karl Marx ou um Joseph de Maistre, aos quais dedicou ensaios admiráveis por seu rigor e ponderação. Tinha a paixão do saber e, quanto aos que promoviam as coisas que ele detestava, como o autoritarismo, o racismo, o dogmatismo e a violência, antes de refutá-los queria entendê-los, averiguar como e por que haviam chegado a defender causas e doutrinas que agravavam a injustiça, a barbárie e os sofrimentos humanos.
Um bom exemplo de tudo isso é o volume intitulado The Magus of the NorthJ.G. Hamann and the Origins of Modern Irrationalism (1993), coleção de notas e ensaios que Berlin não chegou a integrar num livro orgânico e que foram recolhidas e prefaciadas por Henry Hardy, seu discípulo, a quem nunca poderemos agradecer suficientemente por seu extraordinário trabalho de rastreamento e edição das dezenas de trabalhos que Isaiah Berlin, por seu escasso interesse em publicar e por seu maníaco perfeccionismo, deixou dispersos em revistas acadêmicas ou inéditos. Eu acreditava ter lido todos os trabalhos do grande pensador liberal, mas este me havia escapado e acabo de fazê-lo, com o mesmo absorvente prazer que tudo o que ele escreveu.
O extraordinário dessas notas, artigos e esboços de ensaios que Berlin ao longo de sua vida dedicou ao teólogo e filósofo alemão Johann Georg Hamann (1730-1788), inimigo mortal do Iluminismo e ardoroso porta-voz do irracionalismo, é que, através deles, esse reacionário convicto e confesso aparece como uma figura simpática e em muitos sentidos até moderna. Sua defesa da sem-razão – as paixões, o instinto, o sexo, os abismos da personalidade – como parte integral do humano e sua ideia de que todo sistema filosófico exclusivamente racionalista e abstrato constitui uma mutilação da realidade e da vida são perfeitamente válidas, e suas audazes teorias, por exemplo sobre o sexo e a linguística, de certa forma prefiguram algumas das posições libertárias e anárquicas mais radicais, como as de um Michel Foucault. Do mesmo modo, é profética sua denúncia de que, se seguisse pelo caminho que havia tomado, a filosofia do futuro naufragaria em um obscurantismo indecifrável, máscara do vazio e da inanidade, que a poria fora do alcance do leitor comum.
Onde essas coincidências cessam é nessa encruzilhada onde aparece Deus, a quem Hamann subordina tudo o que existe e que é, para o místico germânico, a justificação e explicação única e final da história social e dos destinos individuais. Seu rechaço às generalizações e ao abstrato e sua defesa do particular e do concreto fizeram dele um porta-estandarte do individualismo e um inimigo mortal do coletivo como categoria social e signo de identidade. Nesse sentido foi por um lado, diz Berlin, um precursor do romantismo e do que dois séculos mais tarde seria o existencialismo (sobretudo na versão católica de um Gabriel Marcel), mas, do outro, um dos fundadores do nacionalismo e, inclusive, assim como Joseph de Maistre, do fascismo.
Hamann nasceu em Königsberg [atual Kaliningrado], filho de um barbeiro cirurgião, no seio de uma família pietista luterana, e sua infância transcorreu em um meio de gente religiosa e estoica, cujos antepassados desconfiavam dos livros e da vida intelectual; ele, entretanto, foi um leitor voraz e deu um jeito de entrar na universidade, onde adquiriu uma formação múltipla e algo extravagante em história, geografia, matemática, hebraico e teologia, ao mesmo tempo em que por conta própria aprendia francês e escrevia poemas. Começou a ganhar a vida como tutor dos filhos da próspera burguesia local e, durante algum tempo, pareceu conquistado pelas ideias que vinham da França de Voltaire e Montesquieu. Mas, não muito depois, durante uma estadia em Londres vinculada a uma misteriosa conspiração política, e após alguns meses de dissipação e excessos que o levaram à ruína, experimentou a crise que mudaria sua vida.
Ocorreu em 1757. Mergulhado na miséria, isolado do mundo, sepultou-se no estudo da Bíblia, convencido, como Lutero, conforme escreveria mais tarde, de que o livro sagrado do cristianismo era “uma alegoria da história secreta da alma de cada indivíduo”. Emergiu dessa experiência transformado no conservador e reacionário briguento e solitário que, em panfletos polêmicos que se sucediam como socos, criticaria com ferocidade todas as manifestações da modernidade, onde quer que aparecessem: na ciência, nos costumes, na vida política, na filosofia e, sobretudo, na religião. Tinha retornado, e com zelo ardente, ao protestantismo luterano de seus ancestrais. Arrumou adversários e inimigos a torto e a direito, devido ao seu caráter intratável. Estava acostumado, inclusive, a se inimizar com gente que o respeitava e queria ajudá-lo, como Kant, leitor dele e que tentou lhe conseguir um cargo na Universidade. Sobre ele disse que “era um homúnculo agradável para fofocar por um momento, mas totalmente cego perante a verdade”. Por Herder, que foi seu admirador confesso e se considerava seu discípulo, nunca teve o menor apreço intelectual. Não é estranho, por isso, que sua vida tenha transcorrido quase no anonimato, com poucos leitores, e que fosse extremamente austera, devido aos obscuros empregos burocráticos com os quais ganhava seu sustento.
Depois de morto, o Mago do Norte, como Hamann gostava de chamar a si mesmo, foi logo esquecido pelo escasso círculo que conhecia sua obra. Isaiah Berlin se pergunta: “O que há nele que mereça ser ressuscitado em nossos dias?”. A resposta dá lugar ao melhor capítulo do seu livro: “The Central Core” (“O núcleo central”). O verdadeiramente original em Hamann, explica, é sua concepção da natureza do homem, nos antípodas da visão otimista e racional que a respeito dela promoveram os enciclopedistas e filósofos franceses do Iluminismo. A criatura humana é uma criação divina e, portanto, soberana e única, que não pode ser dissolvida em uma coletividade, como fazem os que inventam teorias (“ficções”, segundo Hamann) sobre a evolução da história rumo a um futuro de progresso, em que a ciência iria desterrando a ignorância e abolindo as injustiças. Os seres humanos são diferentes, e também os seus destinos; e sua maior fonte de sabedoria não é a razão nem o conhecimento científico, e sim a experiência, a soma de vivências que acumulam ao longo da sua existência. Nesse sentido, os pensadores e acadêmicos do século XVIII pareciam-lhe autênticos “pagãos”, mais afastados de Deus que “os ladrões, mendigos, criminosos e vagabundos” – os seres de vida “irregular” –, que, pela instabilidade e os tumultos da sua arriscada existência, podiam muitas vezes se aproximar de maneira mais funda e direta da transcendência divina.
Era um puritano e, entretanto, em matéria sexual propugnava ideias que escandalizaram todos os seus contemporâneos. “Por que um sentimento de vergonha ronda nossos gloriosos órgãos da reprodução?”, perguntava-se. A seu ver, tentar domesticar as paixões sexuais debilitava a espontaneidade e o gênio humano e, por isso, quem queria se conhecer a fundo devia explorar tudo, e, inclusive, “descer ao abismo das orgias de Baco e Ceres”. Entretanto, quem nesse domínio se mostrava tão aberto em outro sustentava que a única maneira de garantir a ordem era mediante uma autoridade vertical e absoluta que defendesse o indivíduo, a família e a religião como instituições tutelares e intangíveis da sociedade.
Embora esse livro de Isaiah Berlin seja um amálgama de textos, padeça de repetições e dê às vezes a impressão de haver muitos vazios que ficaram por preencher, é lido com o interesse que ele sabia imprimir a todos os seus ensaios, os quais sempre convertia, não importa do que tratassem, em uma festa das ideias.


sábado, 25 de novembro de 2017

Vargas Llosa / Troca de guarda



Troca de guarda
Juan Carlos
Fernando Vicente

Mario Vargas Llosa

Troca de guarda

O povo espanhol não era monárquico quando Franco morreu. Voltou a sê-lo graças ao protagonismo do Rei na democratização e a tarefa de Felipe VI é manter viva essa adesão


14 JUN 2014 - 17:25 COT

Vi o discurso de abdicação do rei Juan Carlos em um pequeno televisor de um hotelzinho em Florença, e me emocionou escutá-lo. Pelo esforço visível que fazia para manter a serenidade e apresentar a sala do trono como algo natural, sabendo muito bem que dava um passo transcendental, o que costuma ser chamado de “fato histórico”. E porque essa renúncia em favor de seu filho, o príncipe Felipe, encerrava um período dificílimo para ele, com problemas de saúde, escândalos familiares e pessoais, algumas desculpas públicas e alguns esforços corajosos mais recentemente no sentido de recuperar, para ele e para a instituição monárquica, a popularidade e a solidez que sentia estarem abaladas. O discurso foi impecável: breve, preciso, persuasivo e bem escrito.
Desde então, o rei tem recebido muitas manifestações de carinho em todas as suas apresentações públicas e muito poucos ataques e críticas. Tenho certeza de que, conforme o tempo transcorrer, o balanço dos historiadores fará crescer sua figura de estadista e que os 39 anos de seu reinado terminarão sendo reconhecidos, em grande parte graças a ele, como os mais livres, democráticos e prósperos da longa história da Espanha. E nada me parece tão justo quanto dizer –como afirmou Javier Cercas em um artigo– que sem o rei Juan Carlos não teria havido democracia neste país. Certamente não, pelo menos da maneira pacífica, consensual e inteligente que foi a transição.


Espero que, no futuro, algum romancista espanhol de fôlego tolstoiano se atreva a contar essa história fantástica

Espero que, no futuro, algum romancista espanhol de fôlego tolstoiano se atreva a contar essa história fantástica. O regime de Franco urdiu, com as melhores cabeças de que dispunha, sua sobrevivência, mediante a restauração de uma monarquia de viés autoritário, para a qual o Caudilho e seu entorno haviam educado o jovem príncipe, desde criança, afastando-o de sua família e submetendo-o a uma formação especial cheia de zelo, a quem as Cortes franquistas, logo após a morte de Franco, entronizaram como Rei da Espanha. Mas, em seu foro íntimo, ninguém sabe exatamente de que maneira e desde quando o jovem Juan Carlos tinha chegado à conclusão de que, assumido o trono, sua obrigação deveria ser exatamente oposta à que lhe tinha sido destinada. Ou seja, não prolongar –guardados certos aspectos– a ditadura, mas acabar com ela e conduzir a Espanha a uma democracia moderna e constitucional, que abrisse sua pátria ao mundo do qual tinha sido praticamente sequestrada nos quarenta anos anteriores e reconciliasse todos os espanhóis em um sistema aberto, tolerante, de legalidade e liberdade, no qual coexistissem pacificamente todas as ideias e doutrinas e fossem respeitados os direitos humanos.
Parecia uma tarefa impossível de alcançar sem que os herdeiros de Franco, que controlavam o poder e ainda contavam – para que mentir? – com um forte apoio da opinião pública, se rebelassem contra essa democratização da Espanha que os condenaria à extinção e se opusessem a ela com todos os meios ao seu alcance, incluída, sem dúvida, a violência militar. Por que não fizeram isso? Porque, com uma habilidade extraordinária, guardando sempre as formalidades mais apreciáveis, mas sem jamais dar um passo em falso, o jovem monarca foi embarcando-os de tal forma no processo de transformação que, quando se deram conta de que tinham cedido demais, confusos e desconcertados, em vez de reagir já estavam fazendo uma nova concessão. A opinião pública, transformada no curso dessa marcha rumo à liberdade, se alistava nela e apoiava de maneira cada vez mais dinâmica as mudanças que, semana a semana, dia a dia, foram mudando radicalmente a realidade política da Espanha.


Sem o rei Juan Carlos não seria possível uma transição pacífica, consensual e inteligente

Devido ao seu falecimento, recordou-se há pouco tempo e com muita justiça o trabalho notável executado por Adolfo Suárez na transição. Claro que sim. Mas é preciso lembrar que foi o rei Juan Carlos que, com um olfato infalível, escolheu como seu colaborador nessa operação extraordinária uma pessoa que na época era nada menos do que ministro secretário-geral do Movimento, ou seja, do conjunto de organizações e instituições políticas do regime franquista. Ninguém deve menosprezar, obviamente, a importância alcançada na transição pacífica da Espanha da ditadura para a democracia, de um regime vertical para um sistema plural e aberto, por praticamente todas as forças políticas do país, da direita à esquerda, e que todas estavam dispostas, em nome da paz, a fazerem concessões que tornaram possíveis os consensos dos quais resultou o grande acordo constitucional. Mas ninguém também deveria se esquecer de que quem, desde o princípio, concebeu, impulsionou e levou a bom porto esse processo foi o monarca que, prestando um novo grande serviço ao país, acaba de abdicar a fim de que o príncipe Felipe herde o trono e com ele seja aberta para a Espanha “uma nova etapa de esperança na qual se combinem a experiência adquirida e o impulso de uma nova geração”.
Se assim o rei Juan Carlos contribuiu de forma decisiva para que a democratização da Espanha fosse levada a cabo de forma pacífica, com sua conduta clara e firme que fez debelar a tentativa de golpe de 23 de fevereiro de 1981 conseguiu para a monarquia uma legitimidade que tinha perdido vigor e calor popular. Porque a verdade é que o povo espanhol não era monarquista quando Franco morreu. Começou a sê-lo, ou a voltar a sê-lo, graças ao protagonismo do Rei ao apoiar e liderar a democratização da Espanha. Mas foi após o esmagamento da tentativa golpista do 23 de Fevereiro que o rei Juan Carlos devolveu à Monarquia o respaldo resoluto e entusiasmado da grande maioria da população, o que foi um fator decisivo para a estabilidade política e institucional da Espanha nestas últimas décadas.
Essa história, que resumi em poucas linhas, ainda está para ser contada. É uma história fora do comum, de uma complexidade e sutileza só comparáveis às dos maiores romances, na qual, na solidão mais absoluta, um jovem prisioneiro de uma máquina quase invencível se liberta dela e decide, exercendo os poderes que o Rei realmente tinha na época, rebelar-se contra o sistema que tinha sido encarregado de salvar, desfazendo-o e refazendo-o dos pés à cabeça, mudando sutilmente todo o libreto que deveria aprender e executar e substituindo-o por seu contrário. Muita gente o ajudou, é claro, mas foi ele, só ele, do início ao fim, o diretor do espetáculo.


Dom Felipe VI vai reinar sobre uma democracia moderna e respeitada, um país livre, solvente e culto

Por isso a Espanha sobre a qual dom Felipe VI vai reinar é, hoje, essencialmente diferente daquela de quando Franco morreu: uma democracia moderna e respeitada, um país livre, capaz e culto, que figura entre os mais avançados do mundo. Convém não esquecer quanto de tudo isso se deve ao monarca que agora se afasta para que seu herdeiro o substitua.
É verdade que o príncipe Felipe foi muito bem preparado para a difícil responsabilidade que vai assumir. Também é verdade que a Espanha hoje enfrenta problemas enormes – o primeiro, e mais grave deles, as ameaças de secessão que poderiam mergulhá-la em uma crise de consequências imprevisíveis – e que, por mais que o monarca de uma monarquia constitucional reine, mas não governe, os desafios que vai enfrentar vão colocar à prova todos os conhecimentos e experiências que adquiriu no curso de sua exigente formação. O mais importante é que o novo rei, com seus gestos, iniciativas, tato e comportamento, mantenha viva a adesão que ainda hoje é muito profunda na sociedade espanhola no sentido da monarquia constitucional. Não é verdade que, enquanto houver democracia, pouco importa se um regime é republicano ou monarquista. Não quando o problema da unidade de um país é tão grave quanto atualmente na Espanha. A monarquia é uma das poucas instituições que garantem essa unidade na diversidade, sem a qual poderia sobrevir a desintegração de uma das mais antigas e influentes civilizações do mundo. Em todas as outras a divisão, o ressentimento, o fanatismo e a miopia política já semearam as sementes da fragmentação.
Ajudemos sua majestade, dom Felipe VI, a ter sucesso colocando nosso grãozinho de areia na tarefa de manter a Espanha unida, diversa e livre como tem sido nestes últimos 39 anos.



quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Vargas Llosa / A máscara do gigante

A máscara do gigante
Fernando Vicente
MARIO VARGAS LLOSA

A máscara do gigante

O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar formosos sonhos. Mas no futebol, assim como na política, é mau viver sonhando e sempre preferível se ater à verdade, por mais dolorosa que seja


12 JUL 2014 - 17:00 COT

Fiquei muito envergonhado com a cataclísmica derrota do Brasil frente à Alemanha na semifinal da Copa do Mundo, mas confesso que não me surpreendeu tanto. De um tempo para cá, a famosa seleção Canarinho se parecia cada vez menos com o que havia sido a mítica esquadra brasileira que deslumbrou a minha juventude, e essa impressão se confirmou para mim em suas primeiras apresentações neste campeonato mundial, onde a equipe brasileira ofereceu uma pobre figura, com esforços desesperados para não ser o que foi no passado, mas para jogar um futebol de fria eficiência, à maneira europeia.
Nada funcionava bem; havia algo forçado, artificial e antinatural nesse esforço, que se traduzia em um rendimento sem graça de toda a equipe, incluído o de sua estrela máxima, Neymar. Todos os jogadores pareciam sob rédeas. O velho estilo – o de um Pelé, Sócrates, Garrincha, Tostão, Zico – seduzia porque estimulava o brilho e a criatividade de cada um, e disso resultava que a equipe brasileira, além de fazer gols, brindava um espetáculo soberbo, no qual o futebol transcendia a si mesmo e se transformava em arte: coreografia, dança, circo, balé.
Os críticos esportivos despejaram impropérios contra Luiz Felipe Scolari, o treinador brasileiro, a quem responsabilizaram pela humilhante derrota, por ter imposto à seleção brasileira uma metodologia de jogo de conjunto que traía sua rica tradição e a privava do brilhantismo e iniciativa que antes eram inseparáveis de sua eficácia, transformando seus jogadores em meras peças de uma estratégia, quase em autômatos.


Não houve nenhum milagre nos anos de Lula, e sim uma miragem que agora começa a se dissipar

Contudo, eu acredito que a culpa de Scolari não é somente sua, mas, talvez, uma manifestação no âmbito esportivo de um fenômeno que, já há algum tempo, representa todo o Brasil: viver uma ficção que é brutalmente desmentida por uma realidade profunda.
Tudo nasce com o governo de Luis Inácio 'Lula' da Silva (2003-2010), que, segundo o mito universalmente aceito, deu o impulso decisivo para o desenvolvimento econômico do Brasil, despertando assim esse gigante adormecido e posicionando-o na direção das grandes potências. As formidáveis estatísticas que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística difundia eram aceitas por toda a parte: de 49 milhões os pobres passaram a ser somente 16 milhões nesse período, e a classe média aumentou de 66 para 113 milhões. Não é de se estranhar que, com essas credenciais, Dilma Rousseff, companheira e discípula de Lula, ganhasse as eleições com tanta facilidade. Agora que quer se reeleger e a verdade sobre a condição da economia brasileira parece assumir o lugar do mito, muitos a responsabilizam pelo declínio veloz e pedem uma volta ao lulismo, o governo que semeou, com suas políticas mercantilistas e corruptas, as sementes da catástrofe.
A verdade é que não houve nenhum milagre naqueles anos, e sim uma miragem que só agora começa a se esvair, como ocorreu com o futebol brasileiro. Uma política populista como a que Lula praticou durante seus governos pôde produzir a ilusão de um progresso social e econômico que nada mais era do que um fugaz fogo de artifício. O endividamento que financiava os custosos programas sociais era, com frequência, uma cortina de fumaça para tráficos delituosos que levaram muitos ministros e altos funcionários daqueles anos (e dos atuais) à prisão e ao banco dos réus.
As alianças mercantilistas entre Governo e empresas privadas enriqueceram um bom número de funcionários públicos e empresários, mas criaram um sistema tão endiabradamente burocrático que incentivava a corrupção e foi desestimulando o investimento. Por outro lado, o Estado embarcou muitas vezes em operações faraônicas e irresponsáveis, das quais os gastos empreendidos tendo como propósito a Copa do Mundo de futebol são um formidável exemplo.
O governo brasileiro disse que não havia dinheiro público nos 13 bilhões que investiria na Copa do Mundo. Era mentira. O BNDES (Banco Brasileiro de Desenvolvimento Econômico e Social) financiou quase todas as empresas que receberam os contratos para obras de infraestrutura e, todas elas, subsidiavam o Partido dos Trabalhadores, atualmente no poder. (Calcula-se que para cada dólar doado tenham obtido entre 15 e 30 em contratos).


As obras da Copa foram um caso flagrante de delírio e irresponsabilidade

As obras em si constituíam um caso flagrante de delírio messiânico e fantástica irresponsabilidade. Dos 12 estádios preparados, só oito seriam necessários, segundo alertou a própria FIFA, e o planejamento foi tão tosco que a metade das reformas da infraestrutura urbana e de transportes teve de ser cancelada ou só será concluída depois do campeonato. Não é de se estranhar que o protesto popular diante de semelhante esbanjamento, motivado por razões publicitárias e eleitoreiras, levasse milhares e milhares de brasileiros às ruas e mexesse com todo o Brasil.
As cifras que os órgãos internacionais, como o Banco Mundial, dão na atualidade sobre o futuro imediato do país são bastante alarmantes. Para este ano, calcula-se que a economia crescerá apenas 1,5%, uma queda de meio ponto em relação aos dois últimos anos, nos quais somente roçou os 2%. As perspectivas de investimento privado são muito escassas, pela desconfiança que surgiu ante o que se acreditava ser um modelo original e resultou ser nada mais do que uma perigosa aliança de populismo com mercantilismo, e pela teia burocrática e intervencionista que asfixia a atividade empresarial e propaga as práticas mafiosas.
Apesar de um horizonte tão preocupante, o Estado continua crescendo de maneira imoderada – já gasta 40% do produto bruto – e multiplica os impostos ao mesmo tempo que as “correções” do mercado, o que fez com que se espalhasse a insegurança entre empresários e investidores. Apesar disso, segundo as pesquisas, Dilma Rousseff ganhará as próximas eleições de outubro, e continuará governando inspirada nas realizações e logros de Lula.
Se assim é, não só o povo brasileiro estará lavrando a própria ruína, e mais cedo do que tarde descobrirá que o mito sobre o qual está fundado o modelo brasileiro é uma ficção tão pouco séria como a da equipe de futebol que a Alemanha aniquilou. E descobrirá também que é muito mais difícil reconstruir um país do que destruí-lo. E que, em todos esses anos, primeiro com Lula e depois com Dilma, viveu uma mentira que seus filhos e seus netos irão pagar, quando tiverem de começar a reedificar a partir das raízes uma sociedade que aquelas políticas afundaram ainda mais no subdesenvolvimento. É verdade que o Brasil tinha sido um gigante que começava a despertar nos anos em que governou Fernando Henrique Cardoso, que pôs suas finanças em ordem, deu firmeza à sua moeda e estabeleceu as bases de uma verdadeira democracia e uma genuína economia de mercado. Mas seus sucessores, em lugar de perseverar e aprofundar aquelas reformas, as foram desnaturalizando e fazendo o país retornar às velhas práticas daninhas.
Não só os brasileiros foram vítimas da miragem fabricada por Lula da Silva, também o restante dos latino-americanos. Por que a política externa do Brasil em todos esses anos tem sido de cumplicidade e apoio descarado à política venezuelana do comandante Chávez e de Nicolás Maduro, e de uma vergonhosa “neutralidade” perante Cuba, negando toda forma de apoio nos organismos internacionais aos corajosos dissidentes que em ambos os países lutam por recuperar a democracia e a liberdade. Ao mesmo tempo, os governos populistas de Evo Morales na Bolívia, do comandante Ortega na Nicarágua e de Correa no Equador – as mais imperfeitas formas de governos representativos em toda a América Latina – tiveram no Brasil seu mais ativo protetor.
Por isso, quanto mais cedo cair a máscara desse suposto gigante no qual Lula transformou o Brasil, melhor para os brasileiros. O mito da seleção Canarinho nos fazia sonhar belos sonhos. Mas no futebol, como na política, é ruim viver sonhando, e sempre é preferível – embora seja doloroso – ater-se à verdade.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

Salman Rushdie / Joseph Anton / Memórias



JOSEPH ANTON
Memórias

Neste aguardado livro de memórias, Salman Rushdie revela o drama do tempo em que viveu na clandestinidade, protegido pelo serviço secreto britânico, depois de ter recebido a sentença de morte do aiatolá Khomeini - o ditador iraniano que convocou todos os seus fiéis a assassinar o escritor.


Em 14 de fevereiro de 1989, Salman Rushdie recebeu um telefonema que mudaria sua vida para sempre. Mal contendo a excitação provocada pela notícia, uma jornalista da BBC informava o escritor britânico de origem indiana que o aiatolá Khomeini, líder supremo do Irã, acabara de emitir uma fatwa contra ele - uma espécie de sentença de morte, lançada ao mundo todo. Seu crime? Ter escrito o romance Os versos satânicos, obra acusada de ser “contrária ao Islã, ao Profeta e ao Corão”.

Assim começa a história extraordinária do escritor que se viu forçado a viver na clandestinidade, mudando de uma casa para outra e com uma escolta policial que o acompanhava 24 horas por dia. Quando o serviço secreto pediu a Rushdie que criasse um codinome, ele pensou em dois escritores que amava, Conrad e Tchekhov, e na combinação de seus primeiros nomes: Joseph e Anton.
Como um escritor e sua família vivem sob a ameaça de assassinato durante nove anos? Como ele pôde trabalhar e ter uma vida amorosa diante de tais circunstâncias? Como o desespero moldou seu pensamento e suas ações? 
Ele relata a realidade ora deprimente, ora cômica de se ter policiais armados vivendo com você e de ter de criar laços com seus protetores; escreve sobre os esforços para conseguir apoio e compreensão por parte dos governos, dos chefes de inteligência, dos editores, jornalistas e de seus colegas escritores. 
Rushdie somente reconquistou sua vida normal treze anos após a famigerada sentença, quando o serviço secreto britânico considerou que o nível de ameaça havia diminuído e permitiu que ele vivesse sem carros blindados nem guarda-costas armados - e, sobretudo, sem medo. 
Nessas memórias fascinantes, plenas de honestidade e sem medo de provocar, Rushdie usa seu brilhante talento narrativo para contar a história de uma das batalhas mais cruciais do nosso tempo pela liberdade de expressão.


Companhia das Letras