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quinta-feira, 20 de março de 2014

José Emilio Pacheco / Regresso a Sísifo

Roberto Ricci_Bonne Nuit
José Emilio Pacheco

REGRESSO A SÍSIFO

Rodou a pedra e outra vez como antes
a empurrarei, a empurrarei ladeira acima
para vê-la rodar de novo.
Começa a batalha que aconteceu mil vezes
contra a pedra e Sísifo e mim mesmo.

Pedra que nunca deterás no alto:
dou-te as graças por rodar ladeira abaixo.

Sem este drama inútil, a vida seria inútil.




José Emilio Pacheco / Moralidade



José Emilio Pacheco
MORALIDADE

Nossa gente pratica a moral
E faz de cada ato uma lição de ética.

Aqui jamais enterramos nossos mortos.
Que apodrecem em praça pública.

Para que esta humilhação final
Nos obrigue a ver-nos como somos.



quarta-feira, 19 de março de 2014

José Emilio Pacheco / Os olhos dos peixes

Ilustración de Herber Matter


José Emilio Pacheco
OS OLHOS DOS PEIXES

À beira-mar a curva areia
e uma fileira de peixes mortos.

Como escudos depois da batalha.
Sem vestígio de asfixia nem aparente
putrefação.

Joias pelo mar polidas, sarcófagos
que continham a própria morte.

Havia o aspecto fantasmal naqueles peixes:
nenhum tinha olhos,
duplo vazio em suas cabeças.

Era uma forma de dizer: seus corpos
podem ser da terra
mas seus olhos são do mar,
por eles mira o mar.

E quando morre o peixe na areia
os olhos se evaporam e no refluxo
o mar recolhe o que é seu.




José Emilio Pacheco / Regresso a Sísifo

 Luigi Siniscalchi


José Emilio Pacheco
REGRESSO A SÍSIFO

Rodou a pedra e outra vez como antes
a empurrarei, a empurrarei ladeira acima
para vê-la rodar de novo.
Começa a batalha que aconteceu mil vezes
contra a pedra e Sísifo e mim mesmo.

Pedra que nunca deterás no alto:
dou-te as graças por rodar ladeira abaixo.

Sem este drama inútil, a vida seria inútil.




terça-feira, 18 de março de 2014

José Emilio Pacheco / O amanhã



José Emilio Pacheco

O AMANHÃ

Aos vinte anos nos disseram: “Devem
Sacrificar-se pelo Amanhã”.

E sacrificamos a vida no altar
Do deus que nunca chega.

Gostaríamos de encontrar, afinal,
Os velhos mestres daquela época.

Deveriam dizer-nos se, de verdade
Tudo o horror de hoje era o Amanhã.





José Emilio Pacheco / Tratado do desespero



José Emilio Pacheco
TRATADO DO DESESPERO

Sempre medita a água do aquário.
Pensa no peixe solobre e em seu voo
réptil, asas breves de silêncio.
Entranhado em penetráveis, líquidos
passadiços em azougue onde fende
uma sentença de tigre, sua condenação
à claridade perpétua no rio imóvel.
Quer fundir-se no ar, nos abismos
vorazes de asfixia, ir ao fundo
do marulho do ar que envolve
sua neutra saudade por todas partes.





segunda-feira, 17 de março de 2014

José Emilio Pacheco / Fim de século


Ben Quilty 

José Emilio Pacheco
FIM DE SÉCULO

O sangue derramado clama vingança.
E a vingança não pode engendrar
senão mais sangue derramado.
Quem sou?
o guarda de meu irmão ou aquele
a quem adestraram
para aceitar a morte dos demais,
não a própria morte?
Em nome de que posso condenar outros
à morte pelo que são ou pensam?
Porém como deixar impunes
a tortura e o genocídio ou o matar de fome?
Não quero nada para mim:
apenas desejo
o possível impossível:
um mundo sem vítimas.
Como obtê-lo não está em meu poder;
escapa à minha pequeneza, minha pobre tentativa
de esvaziar o mar de sangue que é nosso século



José Emilio Pacheco / O fogo


José Emilio Pacheco

O FOGO
Na madeira que se resolve em fagulha e labareda
depois em silêncio e fumaça que se perde
viste desfazer-se com sigiloso estrondo tua vida
E te indagas se haverá dado calor
se conheceu algumas das formas do fogo
se chegou a arder e iluminar com sua chama
De outra maneira tudo terá sido em vão
Fumaça e cinza não serão perdoadas
pois não puderam contra a escuridão
— tal lenha que arde em uma morada deserta
ou em uma cova que só os mortos habitam


domingo, 16 de março de 2014

Morre José Emilio Pacheco, o poeta amado pelos mexicanos


Morre José Emilio Pacheco, 

o poeta amado pelos mexicanos


Falece aos 74 anos anos um dos escritores contemporâneos mais importantes da língua espanhola

Recebeu o Cervantes e a Rainha Sofia de Poesia Ibero-americana em 2009

Membro da Geração do 'Medio Siglo', sua poesia fala da beleza do quotidiano e do tempo.



    O poeta mexicano José Emilio Pacheco morreu neste domingo na Cidade de México. O escritor, de 74 anos anos, foi hospitalizado na tarde de sábado."Foi tranquilo, foi em paz", disse sua filha Laura Emilia Pacheco, encarregada de confirmar a notícia.
    Poeta, narrador, ensaísta e tradutor, era um homem simples. A imagem pública de José Emilio Pacheco (Cidade de México 1939-2014) era a de um poeta sem pretensões. Quando recebeu o Prémio Cervantes em 2010 na Espanha fez um comentário sobre isso que andavam dizendo de que ele era um dos melhores poetas latino-americanos. “Mas se nem sequer sou um dos melhores de meu bairro. Não veem que sou vizinho de Juan Gelman?”.
    Os dois viviam no bairro da Condesa, no México DF. Ultimamente mal se viam porque estavam ambos já bastante doentes para caminhar por uma cidade tão grande. Em abril do ano passado se encontraram na apresentação de um livro. Pacheco disse a Gelman: “Te veria mais se vivesse em Buenos Aires”.
    O poeta argentino se adiantou em uns dias a seu amigo José Emilio Pacheco em dar o passo ao outro mundo. Faleceu aos 83 anos no dia 14 de janeiro. O escritor Carlos Fuentes, outro dos grandes das letras em espanhol, escrevia assim sobre ele em 2009: “Sua obra é uma obra universal, e participa da glória das letras de todos os tempos”.
    Pacheco era um ídolo discreto no México. Aparecia pouco, mas era uma figura sempre presente ao altar dos devotos da literatura. Um de seus poemas, Alta Traición, era, é, e será uma das máximas referências da cultura mexicana para entender seu próprio país e os sentimentos contraditórios que gera em muitos mexicanos.
    No amo mi pátria.

    Su fulgor abstracto

    es inasible.
    Pero (aunque suene mal)
    daría la vida
    por diez lugares suyos,
    cierta gente,
    puertos, bosques de pinos,
    fortalezas,
    una ciudad deshecha,
    gris, monstruosa,
    varias figuras de su historia,
    montañas
    -y três o cuatro rios.


    Poesia e prosa

    POESIA
    Los elementos (1963)
    El reposo del fuego (1966)
    No me preguntes cómo pasa el tiempo (1970)
    Irás y no volverás (1973)
    Islas a la deriva (1976)
    Desde entonces (1979)
    Los trabajos del mar (1984)
    Miro la tierra (1987)
    Ciudad de la memoria (1990)
    El silencio de la luna (1996)
    La arena errante (1999)
    Siglo pasado (2000)
    Tarde o temprano (poemas 1958-2009)
    Como la lluvia (2009)
    La edad de las tinieblas (2009)
    ROMANCE
    Morirás lejos (1967)
    Las batallas del desierto (1981)
    RELATOS
    La sangre de Medusa y otros cuentos marginales(1959)
    El viento distante (1963)
    El principio del placer (1972)
    Tarde de agosto (1992)
    Pacheco estudou Direito e Filosofia na Universidade Nacional Autônoma do México. Foi tradutor de autores ingleses (Tennesse Williams, T. Séc. Eliot…), colaborador da imprensa, ensaísta, escreveu contos como La sangre de Medusa (1955), El viento distante (1963) ou El principio del placer (1973) e romances comoMorirás lejos (1967) e Las batallas en el desierto (1981).
    Mas seu gênero foi a poesia, ou, como escreveu uma vez Carlos Monsiváis com sua ironia: “José Emilio Pacheco, poeta, narrador, jornalista cultural, tradutor, antologador, dramaturgo ocasional, é, sobretudo um poeta”. Grande parte de sua obra poética está recolhida no volume Tarde o temprano (Poemas, 1958-2000),editado pelo mexicano Fundo de Cultura Econômica. 
    Para José Emilio Pacheco a escrita era seu ser. “A língua na que nasci constitui minha única riqueza”, disse em 2010 quando recebeu o Cervantes.
    Antes disso, em uma entrevista a este jornal em 2009, dizia sobre o efeito íntimo de fazer uma boa frase: “Um se sente muito satisfeito, sim, isso sim”. O homem que compunha versos excelentes não era das portas para fora um orador impactante. Dizia palavras normais, humildes, como sua presença de senhor tranquilo de cabelo branco e óculos quadrados. Colaborador do semanário Proceso, nessa publicação durante décadas sua coluna Inventario se tornou uma bússola para orientar a sociedade mexicana.
    A escritora Elena Poniatowska, que ganhou o Cervantes no ano passado, escreveu isto em EL PAÍS quando deram o mesmo prêmio, quatro anos antes, a seu admirado Pacheco. “Sempre espero ansiosa o regresso de José Emilio. Faz falta. Em torno dele, o ar se volta cálido, familiar, verdadeiro. Não faz frases solenes, não exclui os outros, os estudantes o rodeiam, as moças se apaixonam por ele, não fabrica uma capela, não trata de impressionar com sua presença, seus comentários são caseiros: ‘Achei que ia perder o trem’, ‘não encontrei táxi’…”.
    Outro detalhe que definiu a incompatibilidade substancial de Pacheco com a pompa ocorreu na entrega do Cervantes. As calças do premiado escritor caíram quando ele entrou na Universidade de Alcalá de Henares. Ao acabar o ato disse que nunca tinha se vestido “de pinguim” e que não teve em conta que seria necessário botar um cinto.
    Aquela falha de protocolo teria sido uma pena de morte no México oprimido e ao mesmo tempo grandiloquente de sua infância; um México que descreveu magistralmente em Las batalhas del desierto:
    O rosto do senhor presidente onde quer que seja: desenhos imensos, retratos idealizados, fotos onipresentes, alegorias do progresso com Miguel Alemán como Deus Pai, caricaturas laudatórias, monumentos. Adulação pública, insaciável maledicência privada. Escrevíamos mil vezes no caderno de castigos: Devo ser obediente, devo ser obediente, devo ser obediente com meus pais e com meus professores. Ensinavam-nos história pátria, língua nacional, geografia do DF: os rios (ainda ficavam rios), as montanhas (se viam as montanhas). Era o mundo antigo. Os mais velhos se queixavam da inflação, das mudanças, do trânsito, da imoralidade, do barulho, da violência, do excesso de gente, da mendicância, dos estrangeiros, da corrupção, do enriquecimento sem limite de uns quantos e a miséria de quase todos.



    domingo, 2 de fevereiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Crítica da poesia

    Perception
    Alex Berdysheff
    José Emilio Pacheco

    CRÍTICA DA POESIA

    Eis aqui a chuva idêntica e sua irritada maleza.
    O sal, o mar desfeito…
    Apaga-se o anterior, escreve-se depois:
    Este convexo mar, seus migratórios
    e enraizados costumes,
    já serviu alguma vez para fazer mil poemas.

    (A cadela infecta, a sarnosa poesia,
    risível variedade da neurose,
    preço que alguns pagam
    por não saber viver.
    A doce, eterna, luminosa poesia.)

    Talvez não seja tempo agora:
    nossa época
    nos deixou falando sozinhos.




    sábado, 1 de fevereiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Na república dos lobos

    Valetina Cruz
    José Emilio Pacheco
    NA REPÚBLICA DOS LOBOS

    Na República dos Lobos
    nos ensinaram a uivar.

    Mas ninguém sabe
    se nosso uivo é ameaça, queixa,
    um tipo de música incompreensível
    para quem não seja lobo;
    um desafio, uma oração, um discurso

    ou um monólogo solipsista.



    sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Indesejável


    Foto de Tom Hoops
    José Emilio Pacheco
    INDESEJÁVEL


    O guarda não me deixa entrar.
    Já passei do limite de idade.
    Provenho de um país que já não existe.
    Meus documentos não estão em ordem.
    Falta um carimbo.
    Necessito outra assinatura.
    Não falo o idioma.
    Não tenho conta no banco.
    Fui reprovado no exame de admissão.
    Cancelarm minha vaga na grande fábrica.
    Me desempregaram hoje e para sempre.
    Careço inteiramente de influências.
    Estou neste mundo há muito tempo.
    E nossos amor dizem que já é hora
    de calar-me e meter-me no lixo.


    quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Contraelegia

    Obra de Ernesto Bertani
    José Emilio Pacheco

    Meu único tema é o que não está
    E minha obsessão se chama o perdido
    Meu pungente estribilho é nunca mais
    E no entanto amo esta mudança contínua
    este variar segundo após segundo
    porque sem ela o que chamamos vida
             seria de pedra.





    quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Traduttore, traditore



    José Emilio Pacheco
    TRADUTTORE, TRADITORE


    Jerônimo de Aguilar y Gonzalo Guerrero
    Os náufragos
    Aprenderam a língua maia
    Viveram na tribo
    Gonzalo
    Exorcizou todo contato rezou o rosário
    Para afugentar as tentações
    Asceta
    Corroído pela febre do misticismo

    Chegou Cortés e soube dos náufragos
    Gonzalo
    Renunciou a Espanha
    E lutou como maia entre os maias
    Jerônimo
    Aliou-se aos invasores
    Sabia a língua
    Pôde entender-se em Malinche
    Que falava
                       Maia também e mexicano

    A estes tradutores
    Devem em boa parte a mestiçagem
    A conquista e a colonização
    E este enredo
    Chamado México
    E a pugna de indegenismo e hispanismo.



    terça-feira, 28 de janeiro de 2014

    José Emilio Pacheco / Alta traição

    Donde estuvimos
    Puerto Vallarta, México, 2012
    Foto de Triunfo Arciniegas
    José Emilio Pacheco

    Não amo minha pátria.
    Seu fulgor abstrato
             e inacessível.
    Mas (mesmo que soe mal)
             daria a vida
    por dez de seus lugares,
             certa gente,
    portos, bosques de pinheiros,
             fortalezas,
    uma cidade desfeita,
             cinza, monstruosa,
    várias figuras de sua história,
             montanhas
    — e três ou quatro rios.




    segunda-feira, 27 de janeiro de 2014