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terça-feira, 8 de julho de 2025

O monstro no túmulo / As Histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe

Capa do livro Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Na imagem, o livro está de pé em um fundo branco. O livro é uma edição em capa dura, de cor roxa, com o nome de Edgar Allan Poe escrito em fonte de cor amarela, com uma caveira desenhada logo acima de seu nome. Abaixo está escrito Histórias Extraordinárias em fonte de cor igualmente amarela. Abaixo está o logo da editora Companhia das Letras, com a fonte de cor amarela 

O monstro no túmulo: as Histórias extraordinárias de Edgar Allan Poe

A edição de Histórias extraordinárias, publicada pela Companhia das Letras, reúne 18 contos de Edgar Allan Poe, com seleção, apresentação e tradução de José Paulo Paes, oferecendo ao leitor um panorama da obra do grande mestre do Terror (Foto: Companhia das Letras)

Bruno Andrade

Há uma linha tênue entre o Horror e o Terror. Enquanto no primeiro o apreço pelo sobrenatural e sua respectiva negação da realidade são predominantes (lembre-se do “Horror, o Horror!” anunciado pelo agente Kurtz em O Coração das Trevas), o segundo preza pela criação de uma atmosfera repleta de suspense, cuja brincadeira consiste justamente na ausência do mágico, e na dúvida se determinadas situações ocorreram ou se estão na cabeça dos personagens. Na Literatura, há predominância dos textos de terror, e, de forma mais apropriada, trata-se de uma categoria precursora ao suspense psicológico, na qual ambos os gêneros se cruzam quando o assunto é aterrorizar. Em Histórias extraordinárias, uma coletânea de 18 contos traduzidos pelo poeta José Paulo Paes, o leitor encontrará a angústia e a engenhosidade de Edgar Allan Poe, um dos principais inventores do Terror moderno.

São poucas as coisas que se assemelham a auspiciosa — e estimulante — sensação de que estamos sempre um passo atrás do escritor, e essa habilidade é bem desenvolvida nos contos de Poe. Nesse jogo em que somos submetidos, através de figuras de linguagem, gêneros narrativos e estruturas textuais, recebemos a catarse, possibilitada através de uma brincadeira íntima entre leitor e autor. Mas essa graça parte de um pressuposto, no qual estamos sempre observando em suspeita, analisando o mínimo em detalhe, e, de certa maneira, lançando um olhar um pouco mais crítico. No ensaio O conto policial, o argentino Jorge Luis Borges escreve que Edgar Allan Poe inventou esse jogo, e não criou um novo gênero literário, mas sim “um novo leitor, sempre desconfiado”, à espreita de uma revelação. 

Mesmo levando em conta o aspecto fundamental da crítica, que é atentar-se à obra — deixando, na melhor das hipóteses, o autor em segundo plano —, torna-se tarefa particularmente árdua não analisar alguns aspectos da vida particular de Poe, observando reflexos em sua obra. Sabe-se que ele foi um homem infeliz, e o conteúdo biográfico sobre o autor, cuja morte precoce — faleceu aos 40 anos — ainda é motivo de teorias, assegura que o contista teve uma vida conturbada, com distúrbios psicológicos e uma marca permanente da ausência paterna. A mãe morreu pouco mais de um ano após o abandono do pai, e Edgar foi morar, ainda aos dois anos, com um comerciante chamado John Allan, que o aceitou, porém se recusou a adotá-lo legalmente; aí surge o sobrenome: Allan Poe.

Embora alguns argumentem que essa ausência dos pais e uma possível inclinação a problemas psicológicos tenham dado origem a seus escritos, sabe-se que Poe foi um jovem inclinado para a Literatura desde muito cedo, e aos 18 anos publicou seu primeiro livro, Tarmelão & Outros Poemas (ainda sem tradução no Brasil). Mas o fato é que, como qualquer um que leu pode afirmar, Histórias extraordinárias é composto por contos poderosos, de enorme profundidade psicológica, mas também muito estranhos. Publicadas originalmente em 15 de fevereiro de 1845, as histórias possuem o medo e a loucura como traços em comum, às vezes de forma conjunta na mesma trama, e seus personagens não conseguem — ou podem — se desenvolver, estando sempre inseridos em espirais temporais. 

Esse aspecto evidencia a originalidade de Poe, visto que a maioria dos romancistas da época discorriam sobre as minúcias dos ambientes, com a quase delirante riqueza de detalhes, enquanto o contista norte-americano deixava de lado o moralismo e a extensão, enxugando seus textos e focando no desfecho da história. De modo a sempre considerar a reação do leitor — dispondo rigorosamente seus elementos —, ele construía, assim, a atmosfera para o clímax. Por isso sua escolha pelo gênero: o que poderia prender mais a atenção de alguém que o Terror? 

Talvez por essa razão os cenários em Histórias extraordinárias sejam sempre os mesmos castelos sombrios, as mesmas masmorras escuras e os recorrentes personagens misteriosos à beira da loucura. Esses elementos são fundamentais para a apreensão do leitor, que logo de cara percebe um mistério a ser desvendado. Em seus contos, a descrição dos ambientes tem o intuito de construir a atmosfera horripilante, e não é um fim em si mesmo, tendo em vista que auxilia o leitor a compreender os sentimentos do protagonista, que de forma premeditada sente que algo está errado. Ainda assim, elementos físicos misturam-se com a consciência dos personagens, e essa forma pode ser observada no trecho a seguir, retirado do conto A queda da casa de Usher:

“Débeis raios de luz avermelhada coavam-se através das vidraças e das rótulas, servindo para tornar suficientemente distintos os objetos mais proeminentes em torno; a vista, contudo, esforçava-se em vão por alcançar os cantos mais remotos do aposento ou os recessos do teto, abobado e cheio de ornatos. Tapeçarias escuras pendiam das paredes. A mobília era profusa, sem conforto, antiquada, e encontrava-se em estado precário. Muitos livros e instrumentos musicais espalhavam-se ao redor, mas não conseguiam dar nenhuma vitalidade ao ambiente. Senti que respirava uma atmosfera de angústia. Um sopro de profunda, penetrante e irremediável tristeza andava no ar e tudo invadia.”

O que é interessante notar nesse trecho é que a realidade está imposta como um mero jogo de aparências, um produto de consenso. Diferente do real, a realidade é imaginária, pois os artifícios que utilizamos para enxergá-la são possibilitados através de abstrações da consciência. Dessa forma, sabemos que não há possibilidade de se respirar “uma atmosfera de angústia”, mas conseguimos enxergar a afirmação em um cenário real, pois temos conhecimento do medo. Na verdade, não há muitas coisas que distinguem a realidade cotidiana da realidade dos contos de Poe. A diferença é que, em suas histórias, tudo ameaça ser apenas uma perspectiva. 

Porém, de forma equivalente à originalidade de Poe, os críticos da época mantiveram o tom conservador em relação às inovações propostas pelo escritor — atitude diferente da que teve o poeta Charles Baudelaire, que saudou a engenhosidade do autor norte-americano e chegou a traduzi-lo para o francês. Essa inovação, observada por Baudelaire, está presente em contos como William Wilson, cuja trama gira em torno de um rapaz que encontra um outro jovem de mesmo nome e aparência física, onde a única diferença entre ambos é o fato do doppelgänger comunicar-se somente por sussurros. 

Essa história — que inspirou a obra O Duplo, de Fiódor Dostoiévski, e também aparece com certa frequência em A Trilogia de Nova York, de Paul Auster — apresenta, de forma paradoxal, o interior humano como um outro ser, uma espécie desconhecida e por si só revoltante. Para citar novamente Borges, a história nos remete ao conto O milagre secreto, do livro Ficções (1944). Ambos os textos retratam indivíduos que abandonam a realidade, colocando o tempo em suspenso e deixando de lado qualquer tipo de lógica. Mas, como se sabe, a lógica não é garantia da verdade.

Capa da edição de bolso do livro Histórias extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Na imagem, está escrito Edgar Allan Poe em fonte de cor branca, com um fundo de cor roxa. Abaixo, está escrito Histórias extraordinárias em fonte de cor branca, e logo abaixo escrito Seleção, tradução e apresentação de José Paulo Paes, também em fonte de cor branca. O fundo desse trecho é de cor azul. Abaixo, escrito em fonte de cor branca, está o logo da editora, escrito Companhia de Bolso. Na lateral esquerda, há um gato preto com olhos de cor laranja, em um fundo de cor branca.
A edição de bolso da obra faz alusão ao conto O gato preto, um dos mais famosos da carreira de Poe (Foto: Companhia das Letras)

O gato preto, um dos contos mais famosos do livro, traz a noção de anormalidade e uma metáfora para a deterioração do homem, destacada pela violência do protagonista. O gato, que se chama Plutão — mesmo nome do deus dos mortos na Mitologia romana —, é uma possível metáfora na qual a morte vem acertar as contas com o narrador, traçando, ainda, um limiar entre a sanidade e a loucura. Em A carta roubada, considerado o primeiro texto da literatura policial, há a investigação do detetive Auguste Dupin sobre o desaparecimento de uma carta furtada pelo Ministro D., sendo Dupin muito parecido a Sherlock Holmes — e isso não ocorre por acaso, pois Poe foi a influência declarada de Arthur Conan Doyle. 

Mais de 175 anos depois de seu lançamento, Histórias extraordinárias ainda apresenta aos leitores de primeira viagem uma profundidade e imersão surpreendentes, mesmo em tempos atuais. A forma envolvente dos contos — seja pelo terror ou pela construção da narrativa — estimula e cativa o imaginário, através de uma escolha exata de palavras e situações. Diferente de William Wilson, o duplo de Edgar Allan Poe é o que restou, definindo a maneira de enxergar a obra desse autor atormentado. Ele é o gênio do conto, o inventor de um novo gênero literário, o mestre do terror, mas, acima de tudo, é o escritor. 

PERSONA



quinta-feira, 6 de julho de 2023

Uma breve história do conto / Uma não estrutura que o governa e multiplica

 


Uma breve história do conto

Uma não estrutura que o governa e multiplica

2 JULHO 2023, 

O conto é um gênero narrativo presente em diversas culturas cujas origens se perdem no tempo, por isso é praticamente impossível se escrever uma história do conto. Sabe-se que suas primeiras manifestações se deram na forma oral. Pessoas se reuniam em torno de uma fogueira e alguém narrava histórias que encantavam a todos. A autoria dessas narrativas transmitidas de geração em geração era desconhecida. Não se pode falar que essas primeiras manifestações do conto tivessem um narrador como conhecemos hoje. Aquele que contava o conto não era seu autor, sequer organizava a narrativa. Ele apenas era um intérprete do texto.

Estudos recentes desenvolvidos pelo antropólogo Jamie Tehrani, da Universidade de Durham, que trabalhou com a pesquisadora de folclore Sara Graça da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, publicados na revista científica Royal Society Open Science, afirmam que alguns contos populares remontam à pré-história e não aos séculos 16 e 17, como se acreditava. Segundo a pesquisa, a origem do conto João e o pé de feijão remonta há mais de 5 mil anos. Os contos A bela e a fera e O anão saltador têm cerca de 4 mil anos de idade.

Esse ancestral do conto moderno tinha suas raízes na cultura popular e veiculava temas ligados a essa cultura. Do ponto de vista de sua estrutura, eram narrativas bem simples, centradas num único episódio, com uma sequência temporal, em que os acontecimentos sucediam na linha do tempo. Muitas delas apresentavam o elemento maravilhoso, integrado normalmente na narrativa.

Sabemos da existência desses contos, porque muitos deles foram posteriormente copilados para a forma escrita. Essas narrativas, agora na forma escrita, continuaram a ser passadas de geração em geração e chegaram a povos diferentes. Mesmo escritas, não perderam seu caráter de oralidade, já que muitos povos, em diversas culturas, têm o hábito de contar histórias, sobretudo para crianças que ainda não foram alfabetizadas.

Algumas dessas narrativas são bem conhecidas, na forma tradicional, ou em adaptações feitas especialmente para crianças. As histórias do Livro das mil e uma noites é um bom exemplo de contos que se perdem no tempo. Simbad, o navegante, Ali Babá e os quarenta ladrões e Aladim e a lâmpada mágica são exemplos de narrativas que circulam em diferentes culturas e em semióticas diversas, animações, filmes, novelas gráficas, etc.

Na Idade Média, aparece o Decameron, de Giovanni Boccaccio, cujas histórias foram escritas entre 1349 e 1351 (ou 1353), logo após a peste negra que assolou a Europa. Trata-se de uma obra de qualidades artísticas inegáveis, com uma estrutura bem mais complexa do que as narrativas toscanas da tradição oral. Em 1386, surgem na Inglaterra os Contos de Canterbury, de Geoffrey Chaucer, cuja estrutura é inspirada no Decameron, de Boccaccio. Em 1613, aparece na Espanha o livro Novelas exemplares, de Miguel de Cervantes. Nele, o autor de Dom Quixote apresenta histórias sobre temas diversos.

Na história do conto, Charles Perrault (1628 – 1703), considerado o pai da literatura infantil, ocupa lugar de destaque, por ter dado tratamento literário a um gênero de grande aceitação, o conto de fadas. Entre os contos mais conhecidos desse gênero estão Chapeuzinho vermelho, A bela adormecida, O pequeno polegar, O gato de botas.

O que chamamos hoje de conto moderno surge no século XIX com o norte-americano Edgar Allan Poe (1809 – 1949), um grande contista e teórico do conto. Pode-se afirmar que foi Poe quem criou o conto policial com Os mistérios da rua Morgue. O século XIX vê surgirem ainda dois dos maiores contistas da literatura ocidental, o russo Anton Tchekhov (1860 – 1904) e o francês Guy de Maupassant (1850 – 1893). Esses dois autores serão considerados modelos para os contistas que vêm depois deles. De certa forma, a produção do conto clássico ou se prende a Maupassant ou a Tchekhov. Isso significa que qualquer pessoa que queira conhecer um pouco mais profundamente esse gênero obrigatoriamente terá de ler contos desses dois autores.

Tchekhov é um mestre do conto cuja matéria é um incidente do cotidiano. Acontecimentos banais, na mão de Tchekhov, se transformam. No conto Pamonha, por exemplo, uma simples cena de um patrão acertando as contas com a governanta de seus filhos transforma-se num conto que traz à tona o tema da exploração e da humilhação do pobre pelo rico.

Os contos de Maupassant trazem um viés de crítica social e abordagem psicológica. Bola de sebo é um conto magistral que nos mostra como, em decorrência da situação, uma pessoa pode ser vista como boa ou má. A personagem que dá título ao conto é uma prostituta que viaja durante a guerra da França com a Prússia em uma carruagem acompanhada por pessoas “de bem”, representantes de diversas classes sociais e que desprezam e marginalizam a prostituta, mas uma mudança dos acontecimentos faz com que passam a depender dela, o que altera o modo de agir em relação a ela.

Para os brasileiros, o século XIX também é o século da consolidação do conto literário com a publicação das obras do nosso maior contista, Machado de Assis. Seus contos não deixam nada a dever a seus romances, sendo muitos deles verdadeiras obras-primas como O espelho, A cartomante, O enfermeiro e A causa secreta.

O século XX é aquele em que mais uma vez se vê uma mudança no gênero. O conto passa a incorporar o elemento fantástico, há uma ruptura no modo tradicional de narrar e o psicológico passa a se sobrepor sobre o cronológico. Sem dúvida, Franz Kafka (1883 – 1924) é um dos maiores representantes do que se pode chamar de conto moderno e serviu de influência para muitos outros contistas do século XX e XXI. No Brasil, há que se destacar ainda a importância de Guimarães Rosa pela riqueza temática e pela forma com que rompe com uma linguagem tradicional.


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