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segunda-feira, 12 de agosto de 2024

Outubro / A exustêncua na toda da vida


Folhas no outono
Folhas no outono

Outubro

A existência na roda da vida

8 MARÇO 2024, 

 Suspirei absorto ao olhar o calendário. Outubro nosso de cada ano que sempre chega. Tudo acontece em outubro. Mês dez que já foi um oito romano, transformado por Gregório XIII, que tinha a santa pretensão de corrigir o anuário... Dez é também o arcano da Roda da Fortuna no Tarot e aí sim, tenho explicação e consolo para tudo. A Roda é o ciclo das coisas; o começo, o fim e consequentemente, o recomeço. Ele acontece. Inevitavelmente. Em minha vida, observo curioso, fatalidades e alegrias imensuráveis quando se extingue o verão.

Nasci em outubro, junto ao tapete dourado e vermelho que as folhas tecem nesta época. Anos mais tarde, no mesmo mês, conheci Laura, numa viagem à Argentina. Unimos nossas vidas com o cadeado prateado na Ponte do Amor em Buenos Aires. 

Todos os filhos também nasceram, obviamente, sem o menor planejamento, nesta altura do ano. Os que vingaram e os que não vingaram. Assim, tive as emoções mais contundentes, a celebrar natividades e a providenciar sepultamentos. 

Pessoas importantes e cães fiéis se foram, do mesmo jeito que chegaram oportunidades grandiosas de sucesso. Ganhei muito em outubro e perdi na mesma proporção. Realizei sonhos de infância e deparei-me com dura realidade. Saboreei os mais doces prazeres e congelei-me em amargas desilusões. Tudo em outubro. O mês escolhido para as surpresas mais gratas - e nem tanto - da minha vida.

Lembro-me que em meu peito, um maremoto agigantava-se. As águas agitavam-se tamanha era aquela tormenta. Ainda fora do país, a construir a vida, a dar passos em direção a uma carreira e estabilidade, deparei-me com traição e falsidade em uma sociedade infeliz. Não preciso nem contar quando isto aconteceu, não é mesmo? Sem perspectivas, com uma família e a alma para nutrir, recomecei mais uma vez, dentre tantas outras que a Roda girava anualmente. Confesso que quase cheguei a acostumar-me com isso, mas não fui capaz de evoluir para tanto, ou pelo menos de considerar por este prisma. Mas segui em frente. Acho que aceitei. Sim. Segui em frente.

É interessante observar as coisas a partir da velhice, perceber que o tempo de alguém não pode ser linear, uma vez que volta-se sempre no mesmo ponto, por tantas e tantas vezes, enquanto se respira nesta vida.

As impermanências naturais da existência acompanhava-nos, como a toda gente. Mas comigo tudo era muito radical. Laura, nesse avassalador carrossel, supostamente tinha dificuldades em fluir harmoniosamente, mesmo com todo amor que nos envolvia. Ao passar dos anos, uma depressão profunda tomou conta de seu sorriso, de seu corpo e de toda sua vontade de viver. Terríveis crises acentuavam-se e foi difícil manter o alento. Mais um desengano para a minha coleção de outubros. Despedi-me da companheira amada, mãe dos meus filhos e par insubstituível.

O que eu aprendi com tudo isso? Que uma lei invisível desmantela as ilusões? Que não existe vontade e decisão? Existirá mesmo o destino? É possível amar o amor fati do Nietzsche? Amar - e amar-me - por tudo que aconteceu? Afinal, o que passei formou-me assim, trouxe-me aqui. É possível sentir o tão supremo ato de amor próprio? Tudo que passei é parte de mim e mesmo com todas as injustiças não há lugar para o 'E se fosse diferente?'

E o que eu fiz a partir dos tantos novembros que vieram? Eu aguardei os invernos, e como as árvores fazem, concentrei minhas forças nas raízes. Só assim pude florescer nas primaveras e aproveitar o calor do solstício. Observar a vida no auge da maturidade e refletir é um exercício interessante. O que posso pensar é que estamos/somos muito próximos da natureza e eu, urbanoide convicto, jamais pensei sobre isso... Uma sabedoria ancestral que só quem tem olhos de ver consegue apreciar.

Revendo o filme da minha existência parece um baita drama, mas é só a vida, do jeito que ela é. E como eu lido com o que acontece conta mais que o próprio fato, que o próprio fado.

Hoje, dentro de mim, do centro da minha Roda, persevero com resiliência. É o que me resta. Sinto que deixarei este mundo em outubro. Oh! Um mimo do destino. Não negocio com a morte, eu sempre aguardo o mês dez.


MEER



domingo, 11 de agosto de 2024

Mandalas / Simbolismo universal de poder e magia

 

Mandalas douradas em fundo marrom
Mandalas douradas em fundo marrom


Mandalas

Simbolismo universal de poder e magia

8 FEVEREIRO 2024, 


Da tradução clássica do sânscrito como círculo da essência até a concepção do psiquiatra suíço C.G. Jung como símbolo do self e totalidade da psique, as mandalas viajam por culturas várias e podem ser consideradas uma imagem simbólica do Universo.

Sem começo nem fim,
a natureza do Universo é circular.

As mandalas estão presentes nas manifestações culturais ancestrais. Nas tradições Hinduísta e Budista fazem parte dos seus rituais de conexão com o sagrado. Como guia de interiorização, leva a meditações profundas para alcançar a paz interior. São também compreendidas como fonte de cura, uma vez que a contemplação inspira serenidade, equilíbrio das emoções e, consequentemente, ajuda nos processos físicos com a redução do estresse.

As mandalas são círculos geométricos que representam a totalidade e a integridade natural. O círculo é a forma perfeita, uma das imagens primordiais da humanidade e ao considerarmos esta simbologia percebemos que nós também somos este círculo, uma vez que não somos dissociados da natureza. 

A natureza é mandálica, basta prestar atenção na formação de todos os inícios - a partir de um núcleo central circular - desde os átomos até as infinitas galáxias. Jung entendia que a mandala é uma representação simbólica do átomo nuclear da psique humana. Poeticamente, as flores são padrões de mandalas assim como nossos olhos – as janelas da alma. Podemos sentir a delicadeza da afirmação de que vemos o mundo através de mandalas.

Círculos Mágicos

O ponto e a curva
Fora e dentro
O tudo e o nada
O infinito
Nós 

Jung utilizou o termo e a representação artística circular de cultuação e contemplação das culturas orientais para expressar o self e a totalidade da psique1, incluindo o relacionamento do homem com o mundo ou o cosmos. Observou que ao fazer desenhos circulares - as mandalas - ele mesmo, e depois, ao propor para seus pacientes, pôde estabelecer e compensar desordens e perturbações psíquicas, ou seja, a mandala torna-se o arquétipo da ordem, da integração e da plenitude psíquica. Uma tentativa de autocura através do espelho. 

Ao desenhar uma mandala, harmonizamos algo dentro de nós, pois unimos e integramos as nossas partes, possibilitando transformação. É um desenho de conexão e movimento: nos conecta com o nosso centro e ao mesmo tempo abre possibilidades e perspectivas transpessoais, coletivas, cósmicas.

Nossa relação com o mundo se dá através das mandalas quando nos colocamos em harmonia com o círculo, assim compreendemos mais e temos mais flexibilidade na vida. Esta relação se dá a partir da nossa relação conosco mesmos e as mandalas expressam o nosso mundo interno e tudo aquilo que não alcançamos com as palavras. É uma linguagem imagética onde os símbolos2 nos reconciliam com o universo. Simbolizar é imprescindível para o equilíbrio interno.

Desenhar mandalas resulta em imagens impregnadas de cargas afetivas e emocionais inconscientes que projetamos no desenho. É a dinâmica de busca da união dos opostos (masculino/feminino, direita/esquerda, par/ímpar, vida/morte...).

Mandalas e autoconhecimento

A primeira função da mandala, do ponto de vista terapêutico e de autoconhecimento, é promover equilíbrio - contemplar uma mandala nos remete para uma noção de equilíbrio - e também faz refletir: quem sou eu dentro desse círculo?

Os livros de colorir, do ponto de vista de interiorização espiritual, podem não dizer nada sobre si mesmo, de toda forma quando pintamos uma mandala entramos em estado meditativo, de conexão e alcançamos silêncio interno, ou pelo menos é possível se aproximar desta possibilidade e perspectiva.

Na jornada que fazemos para dentro, na busca pelo autoconhecimento, a mandala deixa de ser um círculo e passa a ser um círculo sagrado.

O círculo representa o si mesmo e o universo que o rodeia. A mandala sagrada está dentro. Quem não admite a vida como um grande círculo está fadado ao sofrimento, pois além do movimento do centro para as extremidades e destas novamente para o centro, há os ciclos. A vida é feita de ciclos, uma outra dimensão do próprio círculo. 

Hoje, as pessoas, de um modo geral, não sabem onde estão seu ponto central (essência), é preciso entender a relação entre o mundo externo e o Eu. 

Toda mandala tem de ter definido o fora e o dentro, o ponto e a curva. O movimento é: vou de meu centro ao mundo e volto. Este movimento é o que nos faz. Quando eu deixo de ser o ponto central da minha vida, eu não consigo ver quem sou. Para refletir:

  • Como anda o meu mundo em relação ao mundo?
  • O meu centro está no centro da minha vida ou na vida do outro?
  • Estou agindo no mundo de acordo com quem sou?

Terapeuticamente, as mandalas auxiliam nesse movimento de subjetividade, da individuação, do encontro com a estrutura pessoal.

A arte das mandalas

Tanto contemplar quanto pintar mandalas - como elemento artístico - desenvolve e aumenta a criatividade, foco, concentração e equilíbrio. 

As mandalas que são usadas em caráter decorativo também possuem magia. Além da beleza e estética, elas nos levam para o seu centro. Como ímãs somos atraídos para o seu núcleo central como se buscássemos a nós mesmos, como se quiséssemos encontrar o nosso círculo sagrado.

Já que em todo centro há outro centro,
só nos resta dançar em círculos
em torno desse grande mistério que é a totalidade.

(Caio Felix)

A arte de conhecer a si mesmo - muito antes de Delfos - reconhecida como sabedoria ancestral, tem nas mandalas um instrumento de conexão com o divino, promovendo a concentração necessária para chegar ao silêncio profundo e realmente conhecer a real e verdadeira essência do ser – a integração com o Todo. Jung, o pai da psicologia analítica, estudou este conceito e o percebeu como o próprio humano, que dança em seus antagonismos em busca do seu centro e da totalidade. A mandala é a música do mundo interno e em sua partitura está a energia vital de cada um.

Notas

1 Self ou si mesmo expressa a totalidade do homem, é o centro da personalidade e a partir dele é possível impulsionar naturalmente para as vivências do potencial humano e desenvolver a personalidade genuína em seu processo de individuação. Para Jung a mandala representa o processo psíquico de individuação.
2 A palavra símbolo na sua etimologia - sinnbild em alemão – significa unificação de pares opostos. Este movimento é fundamental no processo de amadurecimento e integração do ser.


MEER



sábado, 10 de agosto de 2024

Coimbra, o fado e os estudantes

 

Universidade de Coimbra, Portugal. Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos
Universidade de Coimbra, Portugal. Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos


Coimbra, o fado e os estudantes

Tradição e canções: a Universidade fora dos edifícios

8 AGOSTO 2024, 


Coimbra dos encantos, mais ainda na hora da despedida, como cantam os estudantes. A cidade é palco de encontros e intercâmbio cultural digno da riqueza que Portugal tanto almejou.

Desde 2013 a Universidade de Coimbra (a Alta e Sofia) é Patrimônio Mundial da Humanidade. Recebe alunos do mundo todo, a deixar saudade nos que partem e a colecionar saudade nos que ficam.

Em maio acontece a Queima das Fitas, evento tradicional em que os estudantes da UC comemoram os objetivos alcançados nos estudos com alegria. Para cada curso uma cor, para cada ano de curso, um festejo. 

O evento tem origem nas comemorações do Centenário da Sebenta (1899) e no Enterro do Grau (1905), onde eram queimadas as fitas que prendiam as pastas das sebentas, daí o nome da festa. Em 1918, os estudantes dos quartos anos de Direito e Medicina fizeram a queima das fitas em Coimbra e em 1919, os quartanistas de todos os cursos fizeram um cortejo. Estas foram as primeiras comemorações como as que conhecemos atualmente. A serenata aparece em 1949 e integra este programa de celebrações, e a partir de então, marca o início da grandiosa festividade acadêmica.

A Serenata Monumental acontece na Sé Velha e é um espetáculo emocionante. Todos os estudantes com seus trajes acadêmicos – uma longa capa preta, camisa social, gravata, calça para os homens e saia para as mulheres ou popularmente capa e batina – ouvem em silêncio o fado de Coimbra, um fado que mistura o popular e o erudito. Um fado de serenata, de rua. A Sé Velha espelha o céu noturno na serenidade das estrelas que brilham a trinar.

Os grupos de Fado de Coimbra são compostos por guitarra portuguesa de Coimbra, viola de acompanhamento e voz. A guitarra de Coimbra é diferente da de Lisboa, ela é maior, tem uma lágrima incrustada em sua voluta e a afinação é mais grave. É uma exclusividade folclórica da cidade com raiz popular e origem erudita.

Mesmo que Universidade venha recriando tal gênero musical, que com algumas alterações tem hoje, inclusive, outra nomenclatura como Canto e Canção de Coimbra, o respeito à essência e a gênese do fado é imaculado. A canção de raiz de Coimbra (popular e acadêmica) é um canto de rua. E segundo os estudantes, sempre será.

Os temas das canções são o amor e a saudade, majoritariamente. Como nos versos:

Romagem à Lapa

Se um dia a vida voltasse
Ao tempo que havia
E se o Mondego passasse
E a todos levasse
A um velho dia 

Talvez a Lapa cantasse
E em pedra gravasse
A nossa alegria
Talvez a Lapa sorrisse
E à pedra se ouvisse
Olá, poesia. 

(Luiz Góes) 

Não olhes para os meus olhos

Não olhes para os meus olhos
Tão velhinhos nesta idade
Cautela que te não pegue
A doença da saudade 

Tenho saudades da vida
Quase desejo morrer
É só para olhar os teus olhos
Que inda desejo viver 

(Fernando Rolim) 

O Rio Mondego que atravessa a cidade de Coimbra tem o seu curso inteiramente em Portugal. Nasce na Serra da Estrela, percorre toda a região do centro do país e tem a sua foz no Atlântico, na cidade de Figueira da Foz. Ele é inspiração para escritores e poetas e também uma reverência popular:

Corre Mondego

Nasce na Estrela o Mondego
Vai passar junto à Felgueira
Atravessando Coimbra
Vai parar junto à Figueira 

Corre Mondego, devagarinho
Paz e sossego, vai de mansinho
Se ouvires dizer algum dia
Que um estudante morreu
Reza-lhe um Avé-Maria
Que este estudante sou eu 

(Popular)

Canção do Mondego

Vendo correr-te o pranto
Na hora em que parti,
- Como me amavas tanto -
Ao dar-te o "adeus", sorri. 

Ouvi, quando voltei:
"Já te não amo, não"
Era verdade , e então
- Vendo-te rir - , chorei 

(Manuel da Silva Gaio)

Este ano, com a comemoração dos 50 anos do 25 de abril teve lugar fados com letras de protesto/denúncia como a Trova do vento que passa, com letra de António Portugal e Manoel Alegre.

Pergunto aos rios que levam
Tanto sonho à flor das águas
E os rios não me sossegam
Levam sonhos deixam mágoas
Pergunto à gente que passa
Por que vai de olhos no chão
Silêncio é tudo o que tem
Quem vive na servidão 

Há quem te queira ignorada
E fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
Nos braços negros da fome 

E em toda Serenata Monumental há as canções da despedida. São as Balada da nostalgia, Balada da despedida e Balada de Coimbra. Todas versam sobre o encerramento dos tempos universitários e para muitos, implica a despedida da cidade também. Lágrimas lavam a Sé Velha numa noite emocionante ao som das guitarras portuguesas. Tamanha comoção marca o início das festividades da Queima das Fitas, e depois, o cortejo e o ritual são pura animação e euforia.

A Coimbra dos universitários, dos fados, do Mondego, da saudade continua ano após ano reforçando a tradição com seus cantos e encantos. 

No livro Coimbra em palavras (2018), Wagner Merije descreveu: repleta de “imensitudes”, Coimbra mantêm a sua magia de outrora como poucos lugares no mundo, numa sensação constante de “seja eterno enquanto dure”. Feita de passado e de presente, este lugar propaga poesia, histórias e memórias de personagens intrigantes, nobres, plebeus, de gente como a gente, serenatas, bebedeiras e amores mil.

Adriana Calcanhoto, Embaixadora da Língua Portuguesa na UC, também cantou Coimbra em Corre o Munda:

Não existe rima para ti Coimbra
Nem achei palavra para explicar-te
Não existe rima para ti Coimbra
Nem achei palavra para decifrar-te 

Não permita a Deus que eu morra sem voltar
A flanar-te sob o céu cinza
A encher-me os olhos com o rio raso que te serpenteia
Por onde vagueia tua compositora sem eira nem beira
Corre o Munda 

Coimbra exala inspiração e os poetas a cantam em seus versos, como se a cidade fosse feita de letras abraçadas a notas musicais. Sente-se Coimbra na vibração de todas as suas canções, das suas ruas que lembram as Minas Gerais e mais uma vez é aquela saudade (no caso, para mim)...

Viver Coimbra é assim, em cada canto uma canção.


MEER