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sábado, 12 de março de 2016

Vargas Llosa / Cinco esquinas





Vargas Llosa contra o jornalismo sensacionalista em nova obra

O Nobel peruano apresentou sua nova novela com a que abriu uma série de atos e homenagens que incluem sua 80 aniversário, 60 da publicação de seu primeiro relato



WINSTON MANRIQUE SABOGAL
Madri 1 MAR 2016 - 15:06 COT


“Tinha acordado ou continuava sonhando?” O certo é que às 12 horas e 11 minutos de 1 de março de 2016 Mario Vargas Llosa iniciou o primeiro dia de seu grande ano. A essa hora o Nobel peruano entrou na Casa América, de Madri, pela porta de Cibeles, para assistir à apresentação de seu novo romance,Cinco Esquinas (lançado na Espanha pela Alfaguara). Era a abertura de uma temporada de atos, homenagens e efemérides que o levarão por meio mundo. E quando verá cumprido o dia mais feliz de sua vida como escritor, “Mais do que quando recebi o telefonema do Nobel”, com a edição de sua obra na coleção La Pléiade, da editora Gallimard.

terça-feira, 16 de junho de 2015

V.S. Naipaul / Uma casa para o sr. Biswas



V.S. Naipaul
Uma casa para o sr. Biswas 
(A House for Mr. Biswas)

Publicado em 13 de março de 2011 por Nego Dito

Não sei quanto a vocês, mas eu estou levando a sério o desafio literário livrada 2011. Já li o primeiro livro do meu autor escolhido. De fato, acabei de lê-lo agora e já resolvi escrever enquanto a coisa tá fresca na cabeça. Sem mais, vamos a ele.

Vidiadhar Surajprasad Naipaul, esse índio velho com cara de figurante de filme do Giuliano Gema, minha gente, é o autor que eu escolhi para conhecer esse ano. Nasceu de uma família indiana na década de 30 em Trinidad, aquela ilhazinha simpática que fica em cima da Venezuela, do ladinho de Tobago, e, após uma vida estudando entre os ingleses, ganhou o prêmio Nobel de literatura em 2001, aos quase 70 anos. Povo de Estocolmo, vamos começar a reconhecer o mérito literário das pessoas mais cedo um pouquinho, vamos? O que o idoso vai fazer com o milhão de platas que ele vai colocar no bolso com o prêmio? Gastar tudo com remédio nas farmácias Minerva? Dá o vil metal na mão de um escritor mais garotão, pra ele gastar com Jet-skis, shows particulares do Yo-Yo-Ma, raves em Santorini, enfim, dá dinheiro pro cara viver a vida, né?

Enfim, voltando ao assunto, Naipaul escreveu, em 1961 esse mega romance de formação com traços de pós-colonialismo (é sério gente, existe uma corrente literária com esse nome, não iria enganá-los de graça) chamado Uma casa para o Sr. Biswas (na ficha técnica da Companhia das Letras, colocaram que o título original era “A house to Mr. Biswas, mas não é to, é for, mancada básica do inglês básico). O livro, parte drama, parte comédia, fala da história de Mohun Biswas, o sr. Biswas da história, um cara que cresceu numa família minimamente grande, como costumam ser as famílias hindus a julgar pela família do Apu, que é o único hindu que eu conheço, e ele é só um desenho animado, e, acho que por isso, sonha em ter um cantinho só pra ele. Tido como maldito por um pândita, um sacerdote que vem traçar a personalidade dele, cresce recebendo uma sutil hostilidade de sua família, e casa com uma mocinha chamada Shama, da terrível família dos Tulsi, uma família de comerciantes maior que o Polyphonic Spree inteirinho, cheio de gente autoritária e sem paciência pra nada. Mohun então começa a trabalhar de jornalista e a escrever pequenos contos enquanto tenta conquistar sua própria casa, sendo enganado por tudo e por todos a todo momento.

Contar mais do que isso é spoiler, então vamos às análises. Primeiro, considero que Naipaul escreveu esse livro com uma grande paixão, pois a história de Biswas está muito associada à história de seu pai e, por conseguinte, à sua infância em Trinidad. Assim como Biswas, Naipaul queria ser escritor, e também assim como Biswas, seu pai fora jornalista sem ter muitas leituras, e considerava os escritores os seres mais nobres do mundo. Acho que toda obra escrita com muita paixão por um determinado universo deve pelo menos ser considerada a ser lida com carinho, e ponto final.

Falando um pouco sobre o Sr. Biswas. A trajetória que o protagonista desenvolve ao longo de sua vida pode ser compreensível se levada em consideração o meio em que cresceu. Hostilizado por seus pais, pois o pândita havia dito que seu espirro causava azar, Mohun começou a se rebelar contra tudo aos poucos. O drama de não ser bem quisto e ainda assim ter de conviver com pessoas hostis — família, ainda por cima — é motivo bom pra querer chutar o pau da barraca, a meu ver. Depois, na adolescência, quando é forçado a casar com Shama, e a morar com uma família gigantesca, é mais um motivo para revolta. Uma vida que vai sendo arrastada para as situações, por assim dizer. Toca fundo no nosso senso de liberdade, a mulherada fica doida quando vê uma mulher de burca, é ou não é? O Biswas tem algo nele de bom, de nobre, mas isso não é despertado pelas frustrações perante a vida que lhe corroem com a força e a dor de uma lâmina profunda de agonia (achou bonito? É do Funk Fuckers!). Aí entramos em outra questão importante do livro: a rotina e as responsabilidades que oprimem a criatividade e a vontade do pobre proletário. Mohun não pode escrever e não pode exercitar todo seu fascínio pela cultura e pela literatura porque tem que cuidar do telhado que tá caindo, dos quatro filhos pra criar, da esposa que só reclama, etc. Então, ô-ô-ô-ô mai bróder, é o rodo cotidiano.

Uma última coisa que queria falar sobre o livro é uma passagem que me marcou muito. Vou tentar não contar muito do contexto para não estragar a leitura de quem, porventura se aventurar nesse livro. Bom, acontece que, em dado momento, Biswas consegue comprar uma casa, mas diante de um cenário completamente hostil. E aí ele se depara com uma realidade cruel do estado capitalista: quem tem posse tem medo. Ele começa a se sentir acuado em seu próprio terreno (opa! Mesma música do Funk Fuckers de novo) e experimentar um medo terrível de tudo e de todos, chegando a ter receio de sair lá fora. Aí está um traço do tal pós-colonialismo. O medo de quem tem posse num país completamente desestabilizado, sem seu poder executivo em pleno funcionamento, em épocas de guerra (segunda guerra), depois de colonizadores terem abandonado o país à sorte de suas divergências culturais e étnicas, do tipo “pulei fora, se virem vocês”, é terrível. A todo momento, no livro, vemos leis sendo mal-interpretadas, distorcidas, manipuladas para o interesse de alguém (não que isso não aconteça por aqui, mas no livro a coisa é muito mais visceral), algo muito típico do Estado sem Estado. Isso, aliado ao comportamento dos Tulsi e do próprio Biswas, enfim, os trejeitos da sociedade, me fazem perceber que a cultura de Trinidad e Tobago não é muito diferente da brasileira. Esse romance poderia ter sido “rodado” aqui na nossa terra, afinal. Todo mundo sendo enganado e vivendo na maior pobreza. Serião, fiquei com nojo de algumas paradas da história, como o “sorvete feito em casa”, que é guardado num freezer velho que fica soltando pedacinhos de ferrugem em cima do sorvete. Yuck!

Essa coleção do Naipaul da Companhia das Letras é bem bonita, vai dizer. Esse livro em questão é sinistro, porque são 522 páginas em letra miudinha, pra caber mais. Então é um livro que eu suei pra ler. Dica para vocês, crianças: evitem começar a ler um autor por seu maior livro, mesmo que seja um clássico. A exceção de Crime e Castigo, é claro, e também pro caso de você resolver ler Pamuk — o cara não faz muito livro pequeno, então não tem jeito. Bom, mas eu fui, demorou mas tô aqui falando dele pra vocês. Tradução do Paulo Henriques Britto, papel pólen e fonte Garamond. Tem prefácio do autor e na quarta capa, citações elogiosas de balangudos da literatura como Paul Theroux e Anthony Burgess. Ah, o livro também ganhou o prêmio Grinzane Cavour, da região de mesmo nome da Itália. Um prêmio importante, mas desconhecido, que já premiou e homenageou muita gente boa (inclusive o Cesare Pavese, Carlinha!). Tá demais, né?

E a propósito, como vão as leituras do desafio de vocês? Já leram algum autor a que se propuseram? Não quero controlar, só estou curioso mesmo. Se quiserem, escrevam aí embaixo!

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Leonardo Padura ganha o Prêmio Princesa das Astúrias de Letras


PRÊMIO PRINCESA DAS ASTÚRIAS

Leonardo Padura ganha 

o Prêmio Princesa das Astúrias de Letras




Escritor cubano, crítico ao regime castrista, se destaca por seus romances policiais

Romancista vem ao Brasil para participar da Flip, em Paraty

LEONARDO PADURA
O escritor Leonardo Padura, em Madri. / SAMUEL SÁNCHEZ

O escritor Leonardo Padura (Havana, 1955) é o ganhador do Prêmio Princesa das Astúrias de Letras. O romancista cubano, crítico ao regime castrista, se destaca por seus romances policiais e pela criação de um personagem (Mario Conde) para destrinchar a realidade de seu país e retratar a decepção de uma geração. Sempre se mostrou a favor da aproximação de seu país com os Estados Unidos. O prêmio foi concedido poucos meses depois da retomada das relações dos dois países.
O júri do prestigiado Prêmio espanhol (que até recentemente, se chamava Prêmio Príncipe das Astúrias, mas que teve o nome alterado após a abdicação de Dom Juan Carlos da monarquia) considerou que sua obra constitui “uma soberba aventura do diálogo e da liberdade”. Segundo a ata, lida pelo presidente, o diretor da Real Academia Espanhola, Darío Villanueva, Padura é um autor “fixado em sua tradição e decididamente contemporâneo; um pesquisador do culto e do popular; um intelectual independente, de firme temperamento ético”. Para os membros do tribunal, sua vasta obra percorre todos os gêneros da prosa e destaca um recurso que caracteriza sua vontade literária como é o interesse por escutar as vozes populares e as histórias perdidas dos outros. “Da ficção, Padura mostra os desafios e os limites na busca da verdade. Uma exploração impecável da história e de seus modos de contá-la”, acrescenta a ata do júri.
Leonardo Padura trabalhou como roteirista, jornalista e crítico literário, até conseguir popularidade com a série de romances policiais protagonizados pelo detetive Mario Conde: Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Máscaras, Paisagem de Outono, Adeus, Hemingway, A Neblina do Passado e O Rabo da Serpente, traduzidos em numerosos idiomas e ganhadores de prêmios como o Café Gijón 1995. O Homem que Amava os Cachorros (publicado na Espanha em 2009, só apareceu em Cuba em 2011) confirma seu reconhecimento internacional ao centrar a obra na figura do assassino de Trotsky, Ramón Mercader. Sua última obra é o livro de relatosHereges.
O escritor estendeu seu trabalho criativo a um longa-metragem e uma série de televisão inspirada em seu famoso personagem Mario Conde, o cético inspetor da polícia cubana com o qual mostrou a realidade de seu país e retratou a decepção de uma geração – a sua – que deu tudo pela revolução.
Padura reconhece que o gênero noir permite ao escritor tocar em todos os temas que preocupam a sociedade atualmente: violência, corrupção, crime organizado... “É difícil escrever sobre o México sem levar em conta o narcotráfico; da Espanha sem abordar a corrupção política; do emergente Brasil sem falar dos índices de pobreza e as revoltas populares... E nesse panorama destacaram-se bons autores como Henning Mankell e Petros Markaris e outros com trabalhos medíocres”, diz o escritor.
No cinema, Padura teve sorte desigual. Em 2002 colaborou no roteiro do medíocre Malavana, de Guido Giansoldati. Depois melhorou seu percurso na tela, com sua colaboração com Laurent Cantet no curta que participou do filme coletivo 7 Dias em Havana, e posteriormente escreveram em conjunto Regresso a Ítaca. Agora Mario Conde chegará ao cinema com produção de Gerardo Herrero e da alemã Nadcom: quatro filmes de 90 minutos, um deles para o cinema (Ventos de Quaresma), mas que será o primeiro na série de televisão, seguido por Passado Perfeito, Máscaras e Paisagem de Outono, os quatro primeiros romances de sua série de Conde. “O diretor é Félix Viscarret (Bajo la Estrellas) e Jorge Perugorría interpretará Conde”, segundo Padura.
Os três últimos ganhadores do Princesa das Astúrias de Letras foram o irlandês John Banville (2014), o espanhol Antonio Muñoz Molina (2013) e o norte-americano Philip Roth (2012).
Os Prêmios Princesa das Astúrias, criados em 1981, dão aos seus vencedores a reprodução de uma escultura desenhada por Joan Miró, 50.000 euros (154.855 reais), um diploma e uma insígnia. Na edição de 2015 para Letras, o júri foi composto por: Xosé Ballesteros Rey, Xuan Bello Fernández, Blanca Berasátegui Garaizábal, José Manuel Blecua Perdices, Luis Alberto de Cuenca y Prado, José Luis García Martín, Berna González Harbour, Álex Grijelmo García, Beatriz de Moura, Rosa Navarro Durán, Carme RieraGuilera, Fernando Rodríguez Lafuente, Fernando Sánchez Dragó, Ana Santos Aramburo, Sergio Vila-Sanjuán Robert, Darío Villanueva Prieto, Juan Villoro Ruiz e José Luis García Delgado (secretário).