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quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Faulkner / Só que nossa terra não era como esta




William Faulkner

Só que nossa terra não era como esta


Só que nossa terra não era como esta. Só de caminhar por ela a gente sentia uma coisa. Uma espécie de fecundidade tranquila e violenta que satisfazia até a fome de pão quase.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

As últimas cartas de grandes escritores



As últimas cartas de grandes escritores

O que autores como Hemingway, Plath, Lorca e Faulkner escreveram antes de morrer


Eduardo Laporte
0 AGO 2015 - 01:06 COT

Estes escritores alcançaram a imortalidade com suas obras, mas isto não impediu que sua hora chegasse. Antes houve uma última carta, um efêmero legado que todo escritor inevitavelmente deixou e do qual recuperamos uma pequena seleção.

"A paisagem é linda por aqui, e tive a oportunidade de ver parte do maravilhoso campo ao longo do Mississippi, onde costumavam transportar os troncos nos velhos tempos da indústria madeireira, e as rotas por onde chegaram os primeiros colonos do norte. (...) Não sabia nada do alto Mississippi até agora, e realmente é um país maravilhoso, que se enche de faisões e patos quando o outono chega.
(…)

Meus melhores desejos para toda a família. Estou bem e muito contente pelas coisas em geral, com vontade de ver todos vocês em breve.
Papai"
Extrato das 210 últimas palavras que Ernest Hemingway enviou pelo correio pela última vez. Dirigiam-se ao filho de um amigo, de 9 anos, doente do coração. Foram escritas 17 cartas antes de seu suicídio e, segundo Paul Hendrickson – que explora o tema em seu livro Hemingway’s Boat: Everything He Loved in Life, and Lost – são uma prova de beleza, coragem e lucidez.
"4 de fevereiro, 1963
Querida mãe,
(...) Eu jamais poderia ser autossuficiente nos Estados Unidos; aqui tenho os melhores médicos completamente grátis e, com crianças, isto é uma verdadeira bênção. Além disso, Ted [Hughes] vê as crianças uma vez por semana e isto faz com que se sinta mais responsável na hora de pagar a pensão. Simplesmente, terei que continuar aqui me virando sozinha.
(...) Agora as crianças precisam de mim mais do que nunca, de modo que durante mais alguns anos tentarei continuar escrevendo de manhã e dedicando-me a elas durante a tarde, e verei meus amigos ou lerei e estudarei de noite.
Começarei a ir à consulta de uma doutora, também a cargo da Seguridade Social, que me recomendou um médico do bairro muito bom que conheço, e confio que me ajudará a superar esses tempos difíceis. Mande meu beijo carinhoso a todos.
Sivvy"
Uma semana separa a última carta de Sylvia Plath (1932-1963) da noite, segunda-feira, lua quase cheia, em que abriu a válvula de gás do forno e enfiou ali a cabeça até morrer intoxicada. Seu ex-companheiro, o poeta Ted Hughes, havia definido a escritura de cartas como “um excelente treinamento para aprender a conversar com o mundo”. Não sabia que também servia para se despedir dele. Excelente escritor de cartas, Hughes redigiu textos secos e frios para comunicar a notícia fatal:
"Querida Olwyn:
Na segunda-feira de manhã, às 6 da madrugada, Sylvia se suicidou asfixiando-se com gás. O funeral será em Heptonstall na segunda que vem. Ela me pediu ajuda, como muitas vezes fazia. Eu era a única pessoa que podia tê-la ajudado, e a única tão cansada de suas exigências que não foi capaz de reconhecer quando realmente precisava de ajuda. Escreverei mais para você depois.
Com carinho,
Ted"
[Cartas de Arthur Rimbaud, extraídas, respectivamente, dos livros Cartas a mi madre, Mondadori, 2000, e Postdata: historia curiosa de la correspondencia, de Simon Garfiel, Taurus, 2015]
"Áden, 30 de abril de 1891
Minha querida mamãe,
(...)
Estou prostrado, com a perna vendada, atado, amarrado, acorrentado para que não possa mexê-la. Me transformei num esqueleto: dou medo. A cama acabou provocando feridas na minhas costas: não consigo dormir nem um minuto. E aqui o calor é muito forte. A comida do hospital, apesar do preço que pago por ela, é muito ruim. Não sei o que fazer.
(…)
Não se assustem com tudo isso. Dias melhores virão. É uma triste recompensa depois de tanto trabalho, privações e penas. Ai, que miserável é nossa vida!
Rimbaud"
Três semanas depois, o autor de Uma Temporada no Inferno sofreria a amputação de sua perna doente, após chegar a Marselha. Mas cortar o mal pela raiz não surtiu efeito no seu caso, porque a infecção cancerosa se alastrou e ele morreu meses depois, em novembro de 1890. Na véspera, em pleno delírio, deixou uma nota dirigida ao diretor do correio marítimo de Marselha, que dizia:
"Estou completamente paralisado. Portanto, desejo estar a bordo ao raiar do dia. Diga-me a que horas devem me levar a bordo".
[Cartas extraídas de Cartas de África, Gallo Nero, 2012]
"Paris, 15 de março de 1938.
Meu prezado e recordado amigo:
Um terrível abatimento me deixou prostrado de cama há um mês, e os médicos não sabem quanto ainda conseguirei seguir assim. Preciso de um longo tratamento e, como estou sem recursos para prossegui-lo, pensei no senhor, don Luis José, no grande amigo de sempre, para pedir a sua ajuda a meu favor. Em nome de nossa velha e inalterável amizade, permito-me esperar que o querido amigo de tantos anos me estenderá a mão, como uma nova prova deste nobre e generoso espírito que sempre o animou e que todos conhecemos.
Agradeço de antemão, com um abraço apertado, seu firme e invariável amigo.
César Vallejo"
Autor de Trilce, o peruano César Vallejo deixou uma última carta que revela suas dificuldades econômicas, graves a ponto de ter que passar pela humilhação de pedir dinheiro emprestado a um amigo. Morreria num abril chuvoso e melancólico, de paludismo, em 15 de abril de 1938, em Paris.
[Carta extraída de Correspondencia completa, Univ. Católica do Peru, 2002]
TELEGRAMA
A Linton Massey
MRS MASSEY
2 de julho de 1962. Oxford
"AINDA NÃO É NECESSÁRIA A ENTREVISTA. SÓ QUERIA UMA GARANTIA ALÉM DE KLOPFER ANTES DE DECIDIR CONTINUAR. PODERIA SOZINHO, MAS ISSO EVITA RISCO DE POSSÍVEL SACRIFÍCIO NO TRATO ATUAL PARA CUMPRIR PRAZO. DEUS TE ABENÇOE. BILL".
[William Faulkner]
Prêmio Nobel de 1949, William Faulkner não pôde redigir uma última carta mais literária ou sentida. Não esperava, nem intuía, que um ataque do coração acabaria com sua vida em 6 de julho de 1962.
[Carta extraída de Cartas escogidas, Alfaguara, 2012]
"Astapovo, 1 de novembro de 1910,
Filhos queridos, Seriozha e Tânia:
Agradeço seus bons sentimentos por mim. Não sei se estou me despedindo ou não, mas de repente senti a necessidade de dizer o que acabo de dizer. Queria acrescentar um conselho para ti, Seriozha [filho], que penses em tua vida, em quem és, em qual é o sentido da vida humana e como deve vivê-la todo ser racional.
Essa ideias que assimilaste sobre o darwinismo, a evolução e a luta pela existência não te explicarão o sentido de tua vida nem te darão uma orientação para os teus atos, e uma vida sem explicação de seu significado e seu sentido, e sem a orientação inalterável que dela se desprende, é uma existência lamentável.
(…)
Adeus, tentem tranquilizar mamãe, por quem tenho compaixão e a quem amo sinceramente".
Três semanas depois, em 20 de novembro de 1910, Leon Tolstói morria em um excêntrico esconderijo, símbolo da austeridade, habilitado para ele, a pedido seu, na estação de Astapovo.
 [Carta extraída de Correspondencia, El Acantilado, 2008]
"Eu sua carta há coisas que não deve, não pode pensar. Você vale muito e tem que ter a sua recompensa. Pense no que puder fazer e me comunique logo para que possa ajudá-lo no que for, mas aja com grande cautela. Estou muito preocupado, mas, como conheço você, sei que vencerá todas as dificuldades porque tem energia de sobra, graça e alegria, como dizemos nós, flamengos, para parar um trem.
Com sua data fatídica, 18 de julho de 1936, esta é considerada a última carta do poeta de Granada, uma descoberta recente que inclui um poema inédito. Seu destinatário, Juan Ramírez de Lucas, era um jovem de 19 anos com quem Lorca pensava fugir para o México, numa história que já ganhou um romance. Mas como Lucas era menor de idade, isso não era tão fácil e Lorca optou por esperar...

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Franco contra Faulkner



Franco contra Faulkner

O hiperativo ator norte-americano dirige uma adaptação simplificada de 'O Som e a Fúria', apresentada fora de competição em Veneza


ÁLEX VICENTE
Veneza 8 SET 2014 - 06:27 COT





James Franco, de costas e com a cabeça raspada, concede autógrafos no festival de Veneza.Ampliar foto
James Franco, de costas e com a cabeça raspada, concede autógrafos no festival de Veneza. MANUEL SILVESTRI (REUTERS)

Há alguns anos, James Franco advertiu que, apesar de ter tudo na vida, sentia um vazio interior. "Tinha atuado nos maiores super sucessos e tinham me indicado ao Oscar, mas precisava de algo mais. Queria me expressar de outra maneira", explicou ao apresentar seu novo filme como diretor, uma adaptação de O Som e a Fúria, de William Faulkner, que foi apresentado fora de competição na Mostra de Veneza. "Por exemplo, meu sonho era interpretar um poeta, mas um dia entendi que ninguém me ofereceria esses papeis. Compreendi que teria que fazer eu mesmo", acrescentou.


O romance escolhido pelo ator, filho de uma professora de literatura e autora de livros infantis, não era o mais simples que podia adaptar. Sem ir longe, O Som e a Fúria é célebre por sua dificuldade entre os estudantes norte-americanos, que quebram a cabeça para entender seu primeiro capítulo, narrado em estilo indireto livre por Benjy, o filho com deficiência dos Compson, família aristocrata do sul em declínio. O próprio Faulkner, consciente do desafio que apresentava ao leitor, propôs a sua editora que imprimisse o livro com tintas de cores diferentes para distinguir os distintos lugares e momentos aos quais se refere o primeiro narrador. Em 1929, as impressoras não estavam avanças o bastante para permitir algo assim. Somente em 2012 uma editora norte-americana decidiu tornar realidade a versão sonhada pelo ganhador do prêmio Nobel de Literatura.
Franco, que reservou para ele mesmo o papel de Benjy em uma autêntica festa de histrionismo interpretativo, apostou numa simplificação do romance nesta adaptação. Para começar, se desprendeu do último capítulo, relatado por um narrador onisciente, e apostou em concentrar-se nas passagens que mais o interessavam para comprimir as 350 páginas do romance em um filme de 110 minutos. "Um livro pode ser lido ao ritmo que cada um quiser. Você pode ler cinco páginas por dia e depois deixar correr. Um filme, por outro lado, você vê de uma só vez. Tivemos que imaginar uma solução para contar a história com este condicionante de tempo", explicou Franco, que se valeu de uma abordagem em cena mais clássica. Em especial, se a comparamos com a tela dividida que utilizou em sua outra adaptação do mesmo autor, Enquanto Agonizo, apresentada em Cannes em 2013.


Meus filmes como diretor nunca serão blockbusters, nem quero que sejam", diz Franco

Sabe-se que Faulkner pegou o título emprestado de um texto shakespeariano. "A vida é um conto narrado por um idiota, cheio de som e de fúria, que não significa nada", dizia Macbeth em um de seus monólogos mais célebres. Na adaptação assinada por Franco não se observam problemas maiores, a não ser essa mesma irrelevância a que se referia o bardo. Pode-se tachar ao filme um convencionalismo excessivo, ainda que às vezes se agradeça à sua falta de pretensões, inabitual em sua filmografia recente.


Até o momento, só havia outra adaptação do livro, assinada em 1959 por Martin Ritt (o diretor de O Mercador de Almas e A Grande Esperança Branca) com duas estrelas da época, Yul Brynner e Joanne Woodward. Por outro lado, James Franco preferiu contar com sua habitual trupe de atores semi desconhecidos, começando por Scott Haze, que interpreta Jason, o mais mal-humorado e materialista dos irmãos Compson, e sua ex-parceira Ahna O’Reilly, vista em outra recente saga sulista de índole distinta, Histórias Cruzadas. Também contou com um amigo íntimo, o humorista Seth Rogen, que interpreta o telegrafista do condado fictício de Yoknapatawpha, com sotaque do Mississippi incluído. "Um dia entendi que preferia rodar um filme com este pessoal do que ir de férias com eles para o Havaí. Isso é o que me faz feliz", disse Franco. No entanto, o ator Jon Hamm, protagonista da série Mad Men, que foi anunciado no ano passado como parte do elenco, sumiu da versão final.
"Meus filmes como diretor nunca serão blockbusters, nem quero que sejam. O cinema também pode ser arte pura e não só entretenimento para ganhar dinheiro." A frase é de 2011, quando James Franco lançou sua estreia como diretor, um biografia cinematográfica de Sal Mineo com pretensões experimentais, em uma exibição paralela da Mostra. Três anos mais tarde, Franco dirigiu seis longas e tem mais dois no gatilho. Entre eles, uma biografia de Charles Bukowski com Shannen Doherty, de Barrados no Baile, e também Zeroville, história ambientada na Hollywood dos anos 1970, para a qual o ator mudou de aspecto físico, como demonstrou ontem em Veneza: Franco raspou a cabeça e tatuou os rostos de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift na parte de trás do crânio.
Questões de look à parte, o ator e diretor -além de estrela convidada em programas de televisão, professor de literatura em Yale, integrante do grupo musical Daddy e autor de um livro de relatos, Palo Alto, inspirado em sua adolescência- não pôde evitar montar outro de seus espetáculos metarreferenciais. Aproveitou a cerimônia prévia à projeção de seu filme, quando o festival entregou-lhe o prêmio Glory to the Filmmaker, para filmar uma das cenas de Zeroville, na qual seu personagem recebe um prêmio de honra deste mesmo festival. Franco prometeu lançá-lo na próxima edição da Mostra.


sexta-feira, 7 de julho de 2017

Euler de França Belém / Meio século sem William Faulkner



Meio século sem William Faulkner


Euler de França Belém
09/08/2012 ÀS 07:16 PM


O autor de “O Som e a Fúria” visitou São Paulo, em 1954, bebeu muito e, segundo a lenda, teria perguntado o que estava fazendo em Chicago

Nem todos os romances de Faulkner são de alta qualidade, mas “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo” (o preferido de Harold Bloom), “Luz em Agosto” e “Ab­salão, Absalão” merecem figurar em qualquer lista de melhores livros de todos os tempos.

William Faulkner
William Faulkner morreu em julho de 1962. Ele tinha 64 anos e, em termos literários, parecia tão esgotado quanto Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Em 1954, esteve no Brasil, quase sempre bêbado. Certo dia, segundo uma das versões, teria perguntado: “O que estou fazendo em Chicago?” A história de sua visita ao Brasil, quatro anos depois de ter recebido o Nobel de Literatura, é contada, de modo romanceado, no livro “Dias de Faulkner (Imprensa Oficial, 124 páginas), de Antônio Dutra. Ao ser apresentado à escritora Lygia Fagundes Telles, apontada como “contista”, teria dito: “Se os seus contos forem tão bonitos quanto os seus olhos, a senhora certamente é uma grande escritora”. A autora do belo romance “As Meninas” disse que levou o criador de “Enquanto Agonizo” para ver cobras no Ins­tituto Butantã. “Segurava as cobras e gritava: ‘Sou um fazendeiro, um fazendeiro’. Ele chegou meio fora de órbita a São Paulo. Queria ver cobras e o Cruzeiro do Sul. Um dia, pegou-me pelo braço e apontou para o céu, querendo ver as estrelas. Ficou doido com essa história de Cruzeiro do Sul. E estava sempre com o cabelo molhado. Creio que se molhava para ficar desperto, devido ao excesso de álcool. Não era um homem bonito. Era baixo, mas tinha um rosto muito forte”, contou Lygia à “Folha de S. Paulo”. Queria mas não conseguiu visitar uma fazenda de café e Mato Grosso.

O brasileiro Raduan Nassar, autor de “Lavoura Arcaica” e “Um Copo de Cólera”, lembra, não vagamente, Liev Tolstói e Faulkner. Tolstói, anarquista cristão, tentou viver de acordo com suas pregações, mas, nobre e rico, jamais o conseguiu integralmente. Tentou educar a plebe, escreveu até cartilha para os filhos dos mujiques, mas acabou desistindo de tudo, e, com mais de 80 anos, fugiu de casa, morrendo numa estação de trem — célebre como, mais tarde, Gandhi, uma espécie de tolstoiano (que deu certo) da Índia. Faulkner era um escritor notável, mistura de James Joyce e Guimarães Rosa, mas passou a vida sugerindo que era apenas um fazendeiro do Mississippi. Na verdade, embora não fosse um scholar, era um homem culto, leitor frequente da Bíblia e de outro William, o britânico Shakespeare. Quando saía para passear, diz sua biógrafa Monique Nathan, levava alguma obra do bardo inglês no bolso do casaco. Raduan escreveu uma obra pequena e refugiou-se numa fazenda, em São Paulo, tornando-se um próspero produtor rural — e não apenas um criador de galinhas, como divulgaram alguns jornais. Agora, aproximando-se dos 80 anos, doou a fazenda para uma universidade pública, dividiu parte dos bens com seus funcionários e mudou-se para uma fazenda menor, a Retiro Feliz. Meio faulkneriano. Meio tolstoiano.

Nem todos os romances de Faulkner são de alta qualidade, mas “O Som e a Fúria”, “Enquanto Agonizo” (o preferido de Harold Bloom), “Luz em Agosto” e “Ab­salão, Absalão” merecem figurar em qualquer lista de melhores livros de todos os tempos. Mesmo romances menores, como “Os Invictos” (delicioso), a trilogia Snopes (“A Aldeia”, “A Cidade” e “A Mansão”; a energia narrativa faulkneriana, a maldição sulista, às vezes aparece nesses romances crepusculares) e “Sartoris” (a história fragmentária de um dos mais poderosos personagens do escritor, o coronel John Sartoris — inspirado em seu bisavô William C. Falkner, sem “u” — que migra de um livro para outro, como de “Sartoris” para “Os Invencidos”) superam, de longe, a literatura beat — a que fez mais dieta de qualidade nos Estados Unidos (palermas adoram a “datilografia” empolada de Jack Keroauc, possivelmente por desconhecer a “escrita automática” dos surrealistas). Não são, evidentemente, obras escritas por um fazendeiro... comum.





Em 1922, Faulkner foi demitido porque não parava de ler em serviço. Em 1924, com a intenção de se tornar jornalista, migrou para Nova Orleans, deixando sua amada Oxford, e recebeu dicas literárias de Sherwood Anderson. Na revista “The Double-Dealer”, indicado por Anderson, publicou artigos e poemas. Em 1925, de volta a Oxford, trabalha para publicar a edição de seus livros. Em 1929, aos 32 anos, publica “Sartoris”, que dá origem ao ciclo de Yok­napatawpha (a região inventada pelo escritor), e seu romance mais refinado, “O Som e a Fúria”. Um ano depois, lança “Enquanto Agonizo”. Apesar da importância posterior de “O Som e a Fúria”, que o tornou o Joyce americano, só fez sucesso com “Santuário”, em 1931. Com  “Luz em Agosto”, em 1932, e com “Absalão, Ab­salão”, em 1936, praticamente concluiu sua obra mais importante. Depois, lançou “Os invencíveis”, em 1938, “Pal­meiras Selvagens”, em 1939, e “A Aldeia”, em 1940.

O livro “Os Escritores — As Históricas Entrevistas da Paris Review” (Companhias das Letras, 327 páginas) exibe um Faulkner às vezes surpreendentes e às vezes nem tanto. “Sou um poeta fracassado. Talvez, primeiro, todo romancista queira escrever poesia, descobre então que não consegue e tenta o conto, que é a forma mais exigente depois da poesia. E, fracassando nisso, só aí começa a escrever ro­mances.” Verdade. Talvez não, mas a formulação é no mínimo curiosa.

Jean Stein pergunta se há uma fórmula para se tornar um bom romancista. Faulkner: “Noventa e nove por cento de talento... noventa e nove por cento de disciplina... noventa e nove por cento de trabalho. Não se deve estar nunca satisfeito com o que se faz. (...) Um ar­tista é uma criatura arrastada por demônios. (...) É totalmente amoral. (...) A única responsabilidade do escritor é para com sua arte. (...) Se um escritor tiver que roubar a sua mãe, não hesitará; a ‘Ode a uma urna grega” [de John Keats, 1795-1821] vale mais do que qualquer punhado de velhas”.

Faulkner cutuca aqueles que dizem não publicar grandes obras porque não têm tempo, ou porque precisam trabalhar para sobreviver: “O escritor não precisa de liberdade econômica. Tudo de que precisa é lápis e papel. Eu nunca soube que algo bom em literatura tivesse se originado da aceitação de uma oferta gratuita de dinheiro. O bom escritor nunca pede auxílio a uma instituição cultural. (...) Nada pode prejudicar a literatura de um homem se ele for um escritor de primeira classe”.

A relação escritor-leitor não interessa a Faulkner: “Não tenho tem­po de pensar em quem está lendo minha obra”. De repente, corta: “Se eu reencarnasse, gostaria de voltar como um urubu. Nin­guém o odeia ou inveja nem o quer ou precisa dele. Ele nunca se vê importunado ou em perigo, e pode comer qualquer coisa”.

Embora seja filho de Édouard Dujardin e Joyce, com ou sem mo­nólogo interior ou fluxo de cons­ciência, Faulkner diz que “um escritor seria um louco se seguisse uma teoria. Deve aprender com seus próprios erros; as pessoas só aprendem errando. O bom artista acredita que ninguém é bom o bastante para lhe dar conselhos”.

“O Som e a Fúria” foi o livro que “mais dor e angústia” causou a Faulkner. “É o livro pelo qual sinto mais carinho. Não pude abandoná-lo, e nunca consegui contar a história direito, embora tentasse ao máximo, e gostaria de tentar de novo, embora provavelmente fracassasse ainda outra vez.”

O entrevistador pergunta: “Quanto de sua literatura é baseada na experiência pessoal?” Faulkner responde, possivelmente meio irônico: “Não sei dizer. Nunca fiz as contas. (...) Um escritor precisa de três coisas, experiência, observação e imaginação, sendo que duas dessas, às vezes até mesmo uma, podem suprir a falta das outras. Comigo, uma história geralmente começa com uma ideia ou memória ou imagem mental. Escrever a história é apenas uma questão de ir construindo esse momento, de explicar por que aconteceu ou o que provocou a seguir”.

Inquirido sobre inspiração, Faulkner antecipa João Cabral de Melo Neto: “Não sei nada a respeito de inspiração, porque não sei o que é — ouvi falar a respeito dela, mas nunca a vi”.

Há quem diga que Faulkner tinha certa inveja de James Joyce, dado seu suposto maior alcance literário, sobretudo fama, apesar de não ter recebido o Nobel de Literatura. “Os dois grandes homens do meu tempo eram [Thomas] Mann e Joyce. Deveríamos nos aproximar do ‘Ulysses’, de Joyce, como o pregador batista analfabeto se aproxima do Antigo Testamento: com fé”, disse Faulkner. Inveja? Nem tanto. Ele elogia seu padrinho literário, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser e Mark Twain. “Os livros que leio são aqueles que conheci e amei quando era moço e aos quais volto como se volta aos velhos amigos: o Antigo Testamento, Dickens, Conrad, Cervantes — ‘Dom Quixote’. Leio-os todos os anos, como alguns leem a Bíblia. Flaubert, Balzac — ele criou um mundo intacto, próprio, uma corrente sanguínea que flui através de vinte livros —, Dostoiévski, Tolstói, Shakespeare. Leio Melville ocasionalmente, e dos poetas Marlowe, Campion, Jonson, Herrick, Donne, Keats e Shelley. Ainda leio Housman. Já li esses livros tantas vezes que nem sempre começo na primeira página ou leio até o fim. Leio apenas uma cena, ou o tocante a uma personagem, assim como você se encontra e conversa com um amigo por alguns minutos. (...) Leio Simenon porque me lembra alguma coisa de Tchekhov.” O entrevistador não pergunta o quê, infelizmente, tem a ver Simenon com o escritor russo.

Personagens preferidos de Faulkner: Sarah Gamp, sra. Harris, Falstaff, Prince Hal, dom Quixote, Sancho Pança, Lady Macbeth, Bottom, Ofélia, Mercúcio, Huck Finn, Jim, Sut Lovingood (personagem de um livro de George Harris). “Nunca gostei muito de Tom Sawyer — um tremendo pedante.”

Sobre os críticos: "O artista nao tem tempo para escutar os criticos. Aqueles que querem ser escritores leem as resenhas, aqueles que querem escrever não têm tempo de ler resenhas. O crítico também está tentando dizer: 'Joãozinho esteve aqui'. Sua função não se dirige ao próprio artista. O artista está um degrau acima do crítico, pois está escrevendo alguma coisa que porá o crítico em movimento. O crítico está escrevendo alguma coisa que porá todo o mundo em movimento, menos o artista".

Sobre Freud, Faulkner disse, em tom jocoso: “Todo mundo falava de Freud quando eu vivia em Nova Orleans, mas nunca o li. Nem Shakespeare o leu. Duvido que Melville o tenha lido, e tenho certeza de que Moby Dick não o fez”.

Jean Stein diz que algumas pessoas leram seus livros três vezes e não entenderam. Faulkner recomenda: “Que leiam quatro vezes”.