O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história
31 Ago 2019
FERNANDO VICENTE
O segundo homem forte da Venezuela, Diosdado Cabello, enfurecido porque, devido à vertiginosa inflação que açoita sua pátria, o bolívar desapareceu de circulação e os venezuelanos só compram e vendem em dólares, pediu a seus compatriotas que recorram ao “escambo” para desterrar do país de uma vez por todas a moeda imperialista.
É certeza que os desventurados venezuelanos não lhe farão o menor caso, porque a dolarização do comércio não é um ato gratuito nem uma livre escolha, como acreditava o dirigente chavista, e sim a única maneira pela qual os venezuelanos podem saber o valor real das coisas em um país onde a moeda nacional se desvaloriza a cada instante pela pavorosa inflação —a mais alta do mundo— à qual a Venezuela foi levada por seus irresponsáveis dirigentes, multiplicando o gasto público e imprimindo moeda sem respaldo. A alusão de Cabello ao escambo é uma diáfana indicação desse retorno à barbárie que a Venezuela vive desde que, em um ato de cegueira coletiva, o povo venezuelano levou o comandante Chávez ao poder.
O escambo é a forma mais primitiva do comércio, aqueles intercâmbios que nossos remotos ancestrais realizavam e que alguns pensadores, como Hayek, consideram o primeiro passo dados pelos homens das cavernas em direção à civilização. Certamente, comercializar é muito mais civilizado que matar-se entre si a pauladas, como faziam as tribos até então, mas suspeito que o ato decisivo para a desanimalização do ser humano tenha ocorrido antes do comércio, quando nossos antecessores se reuniam na caverna primitiva, ao redor de uma fogueira, para contar histórias. Essas fantasias atenuavam o espanto em que viviam, temerosos da fera, do relâmpago e dos piores predadores, as outras tribos. As ficções lhes davam a ilusão e o apetite de uma vida melhor que aquela que viviam, e dali nasceu talvez o primeiro impulso para o progresso que, séculos mais tarde, nos levaria às estrelas.
Neste longo trânsito, o comércio desempenhou um papel principal, e boa parte do progresso humano se deve a ele. Mas é um grande erro acreditar que sair da barbárie e chegar à civilização é um processo fatídico e inevitável. A melhor demonstração de que os povos podem, também, retroceder da civilização à barbárie é o que ocorre justamente na Venezuela. É, potencialmente, um dos países mais ricos do mundo, e quando eu era criança milhões de pessoas foram para lá procurar trabalho, fazer negócios e em busca de oportunidades. Era, também, um país que parecia ter deixado para trás as ditaduras militares, a grande peste da América Latina de então. É verdade que a democracia venezuelana era imperfeita (todas são), mas, apesar disso, o país prosperava num ritmo sustentado. A demagogia, o populismo e o socialismo, parentes muito próximos, fizeram-na retroceder a uma forma de barbárie que não tem antecedentes na história da América Latina e talvez do mundo. O que o “socialismo do século XXI” fez com a Venezuela é um dos piores cataclismos da história. E não me refiro só aos mais de quatro milhões de venezuelanos que fugiram do país para não morrer de fome; também aos roubos abundantes com os quais a suposta revolução enriqueceu um punhado de militares e dirigentes chavistas cujas gigantescas fortunas fugiram e se refugiam agora naqueles países capitalistas contra os quais clamam diariamente Maduro, Cabello e companhia.
Venezuela é, em potencial, um dos países mais ricos do mundo, milhões de pessoas iam lá a buscar trabalho
As últimas notícias publicadas na Europa sobre a Venezuela mostram que a barbarização do país adota um ritmo frenético. As organizações de direitos humanos dizem que há 501 presos políticos reconhecidos pelo regime, e, apesar disso, isolados e submetidos a tortura sistemáticas. A repressão cresce com a impopularidade do regime. Os corpos de repressão se multiplicam, e o último a aparecer agora opera nos bairros marginais, antigas cidadelas do chavismo, mas transformados, devido à falta de trabalho e à queda brutal dos níveis de vida, em seus piores inimigos. As surras e assassinatos a rodo são incontáveis e querem sobretudo, mediante o terror, fortalecer o regime. Na verdade, conseguem aumentar o descontentamento e o ódio contra o Governo. Mas não importa. O modelo da Venezuela é Cuba: um país sonâmbulo e petrificado, resignado à sua sorte, que oferece praias e sol aos turistas, e que ficou fora da história.
Infelizmente, não só a Venezuela retorna à barbárie. A Argentina pode imitá-la se os argentinos repetirem a loucura furiosa destas eleições primárias, em que repudiaram Macri e deram 15 pontos de vantagem à dupla Fernández/Kirchner. A explicação deste desvario? A crise econômica que o Governo de Macri não conseguiu resolver e que duplicou a inflação que assolava a Argentina durante o mandato anterior. O que falhou? Penso que o chamado ”gradualismo”, o empenho da equipe de Macri em não exigir mais sacrifícios de um povo extenuado pelos desmandos dos Kirchner. Mas não deu certo; mais do que isso, agora os sofridos argentinos responsabilizam o atual Governo —provavelmente o mais competente e honrado que o país teve em muito tempo— das consequências do populismo frenético que arruinou o único país latino-americano que tinha conseguido deixar para trás o subdesenvolvimento e que, graças a Perón e ao peronismo, retornou a ele com perseverante entusiasmo.
A barbárie se assenhora também da Nicarágua, onde o comandante Ortega e sua esposa, depois de terem massacrado uma corajosa oposição popular, voltou a reprimir e assassinar opositores graças a umas forças armadas “sandinistas” que já se tornaram idênticas àquelas que permitiram a Somoza roubar e dizimar esse desafortunado país. Evo Morales, na Bolívia, dispõe-se a ser reeleito pela quarta vez como presidente da República. Fez uma consulta para ver se o povo boliviano queria que ele fosse novamente candidato; a resposta foi um não taxativo. Mas não lhe importa. Declarou que o direito a ser candidato é democrático e se dispõe a se eternizar no poder graças a eleições manufaturadas à maneira venezuelana.
E o que dizer do México? Escolheu esmagadoramente López Obrador, em eleições legítimas, e no país prosseguem os assassinatos de jornalistas e mulheres a um ritmo aterrador. O populismo começa a carcomer uma economia que, apesar da corrupção do Governo anterior, parecia bem orientada.
É verdade que há países como o Chile que, diferentemente dos já mencionados, progridem a passos de gigante, e outros, como a Colômbia, onde a democracia funciona e parece fazer avanços, apesar de todas as deficiências do chamado “processo de paz”. O Brasil é um caso à parte. A eleição de Bolsonaro foi recebida no mundo inteiro com espanto, por suas saídas de tom demagógicas e suas exortações militaristas. A explicação desse triunfo foi a grande corrupção dos Governos de Lula e Dilma Rousseff, que indignou o povo brasileiro e o levou a votar numa tendência contrária, não uma claudicação democrática. Certamente, seria terrível para a América Latina que também o gigante brasileiro começasse o retorno à barbárie. Mas não ocorreu ainda, e muito dependerá do que o mundo inteiro, e sobretudo a América Latina democrática, faça para impedi-lo.
Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu
17 AUG 2019
Um rapaz grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o rodeavam em seu país natal, conseguiu escapar para a Suécia. Enfrentou ali a difícil vida do imigrante. Sobrevivendo como podia, aprendeu o idioma – e tão bem que descobriu uma vocação de escritor e começou a escrever em sueco. Teve bastante sucesso. Tanto que pôde ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Casou-se com uma sueca, com quem teve filhos e netos. Comprou um apartamento, depois uma casinha de verão e um pequeno apartamento onde se encerrava de manhã e de tarde para ler e escrever.
Theodor já tinha feito 70 e tantos anos quando um dia, de repente, vivenciou algo que nunca até então havia conhecido: um bloqueio intelectual. Olhava o rolo de sua pequena máquina portátil e tinha a mente em branco, sem uma única ideia sobre a qual redigir. Saiu para caminhar à beira do oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; dias, semanas, meses esteve assim, sem nada a dizer, oprimido pela paralisia e a constipação intelectuais. Gunilla, sua mulher, inquieta, propôs uma viagem. Por que não à Grécia, sua terra natal? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.
Chegaram a Atenas de avião. Ali alugaram um carro e se lançaram à estrada, rumo ao Peloponeso, onde se encontrava aquele vilarejo diminuto, Molaoi, onde Theodor havia nascido. Lá estava, empoeirado, eterno e efusivo. Alguns parentes centenários continuavam ali, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as trepadeiras. Reconheceram-no na rua. A escolinha foi alertada. Os professores lhe organizaram uma homenagem que aconteceu ao anoitecer, quando uma leve brisa substituía o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como um queijo. Quando as crianças cantaram para ele, Theodor sentiu que duas grandes lágrimas deslizavam por sua velha face.
Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal se hospedava, Theodor se levantou logo cedo, como sempre havia feito na Suécia. Preparou sua maquininha portátil e, sentindo que todo o corpo tremia, começou a escrever. Com a mesma insegurança e o terror de se equivocar em cada palavra, como havia feito em cada manhã nesse meio século de vida sueca. Mas desta vez não escrevia em sua língua adotada, e sim em grego. Sem deixar de tremer, cada vez mais morto de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que vivenciou lá, no fundo dos tempos, quando escreveu sua primeira história sueca.
O livro escrito em grego por Theodor Kallifatides – o primeiro de sua história de escritor – acaba de ser traduzido ao espanhol por Selma Ancira (Galaxia Gutemberg) e se chama Otra Vida por Vivir (outra vida por viver). Comoveu-me profundamente. Pela história que conta e que acabo de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e a destreza que emprega ao contar, como se se tratasse de algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deve ter sido, para esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante, que, após aquele bloqueio traumático, redescobre o grego e ao mesmo tempo recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito belo, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.
Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o se deva a que, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há na minha vida o que há na sua, essa aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde partem suas lembranças. Eu não sei onde começam as minhas. Certamente não em Arequipa, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando tinha apenas um ano, antes do início das minhas recordações. Estas foram de Cochabamba, mas no casarão da rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as memórias da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba aprendi a ler, o melhor que me aconteceu, mas creio que só comecei a viver de verdade em Piura, que desapareceu sob uma modernidade que enterrou essa pequena cidade rodeada de areais, onde os burrinhos eram chamados de “piajenos” e as crianças, de “churres”, e onde aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos onze anos, e muitos anos se passaram antes que deixasse de detestar essa cidade que me distanciou de meus avós e meus tios.
Sempre pensei que ser um cidadão do mundo era o melhor que podia acontecer a uma pessoa, e continuo pensando assim. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos, que elas criam inimizades entre os povos e provocam as estúpidas guerras. E que, por isso, é preciso tentar afiná-las pouco a pouco, até que desapareçam totalmente. Isso está ocorrendo, sem dúvida, e essa é uma das boas coisas da globalização, embora haja também algumas ruins, como o aumento, até extremos vertiginosos, da desigualdade econômica entre as pessoas.
Mas é verdade que a língua primeira, aquela em que você aprende a dar nome à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que depois, com a azáfama da vida moderna, às vezes vai se perdendo, confundindo-se com outras, e isso é provavelmente a prova mais difícil que os imigrantes têm de enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que se amplia o abismo entre os países prósperos e os miseráveis, a de aprender a viver em outra língua, isto é, em outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, as crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.
Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se tal reconstrução linguística fosse alcançada de uma maneira natural, e não significasse algo dificílimo de conseguir, algo que está fora do alcance de uma enorme maioria de imigrantes, que jamais conseguem se integrar no seu novo país como ele conseguiu. Mas ele também conta como, ainda nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, persiste sempre, sepultada possivelmente no recôndito mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, aquele ponto de partida feito de paisagem, memória, língua, família, que, de repente, torna-se exigência peremptória, uma nostalgia que exige suas prerrogativas. Eu me lembro, em minha juventude em Miraflores, de um velhinho polonês que vendia peles e havia sobrevivido aos campos de extermínio nazistas. Dizia detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços quando aquilo ocorria, mas, sempre que conversávamos, ele voltava à Polônia, à sua família, ao vilarejo onde passara a infância, à cidade onde seu pai e seu avô também tinham comercializado peles. Às vezes seus olhos marejavam recordando essa terra que dizia detestar.
Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, cálido, necessário, e assim nos mostra Otra Vida por Vivir, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra cara da imigração e apresenta o amor ao que nos é próprio sem uma gota de patriotismo em excesso nem sentimentalismo.
Poeta e caçador de talentos literários ficou deslumbrado pelos textos de James Joyce e lhe procurou editores. Na Segunda Guerra Mundial repetiu as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus
22 jul 2019
A biblioteca do barco que me leva a Anchorage é pequena e pulquérrima. Com exceção de uma coleção de clássicos cuja letra microscópica os coloca fora de meu alcance, seus romances de aeroporto, de autores desconhecidos, me deixam frio, tanto como suas biografias de jogadores de beisebol, ases das corridas e do ringue, os livros de autoajuda e as fofocas de Hollywood. Mas, perdido nas estantes de Current Affairs encontro um livro de um jovem professor de Harvard, Kevin Birmingham, que é de muito proveito: O Livro mais Perigoso. James Joyce e a Batalha por Ulisses.
Versa sobre muito mais do que dizem seu título e subtítulo, ou seja, os contratempos que James Joyce passou com seus livros, pela cegueira e covardia dos editores do Reino Unido e dos Estados Unidos que, temerosos pela censura, as multas e os julgamentos, não se atreviam a publicá-los. O caso de Joyce é único: foi famoso antes de ter um só livro editado.
Ezrad Pound
Fernando Vicente
E, em boa parte, isso se deveu a esse extraordinário caçador de talentos literários que foi o poeta Ezra Pound. É bem conhecido o que ele fez por T. S. Eliot e o tempo que dedicou (renunciando ao que lhe tomava escrever) para corrigir A Terra Sem Vida. Mas provavelmente fez ainda muito mais para que o gênio de Joyce fosse reconhecido e, sobretudo, publicado. Soube dele pela primeira vez em 1914, pelo poeta W. B. Yeats, que lhe aconselhou que pedisse uma colaboração de Joyce a uma antologia dedicada à literatura irlandesa que Pound preparava. Ele o fez e Joyce, que era totalmente desconhecido, além de sua colaboração, lhe enviou vários contos de Dublinenses e fragmentos de Retrato do Artista quando Jovem, para os quais procurava editor. O deslumbramento de Pound ao ler esses textos está documentado em suas cartas. Como homem prático que era, de imediato inundou de relatórios os melhores editores ingleses e norte-americanos, exortando-os a publicar esses primeiros livros de Joyce que, lhes garantia, eram de altíssima qualidade literária e de uma grande originalidade. As respostas que recebeu são de dar nojo: nenhuma reconhecia o menor talento literário em Joyce. Afirmavam que haviam recusado seus livros porque eram mal escritos e pior organizados, tinham estruturas deficientes, além de vulgares e ordinários. Para que se arriscar a receber uma multa e processos por esses livros que não passariam por nenhuma censura se, além do mais, eram tão medíocres?
Desde o surgimento de ‘Ulisses’ todos os romancistas contemporâneos seriam discípulos de Joyce
Pound não deu o braço a torcer. Respondeu a todas essas objeções com argumentos literários, acusando os editores de cegos e medíocres e afirmando que o jovem escritor irlandês estava revolucionando a literatura de seu tempo e, em especial, a prosa literária da língua inglesa. Seu entusiasmo contagiou duas mulheres extraordinárias: Harriet Weaver, diretora de uma pequena revista literária inglesa, The Egoist, onde apareceriam os primeiros contos de Dublinenses e capítulos de Retrato do Artista quando Jovem, e Margaret Anderson, que em 1918 começou a publicar episódios de Ulisses na revista que dirigia nos Estados unidos, The Little Review. As duas enfrentaram ações judiciais por sua ousadia. Impertérritas, continuaram empenhadas em divulgar a obra de James Joyce e, inclusive, lhe enviaram dinheiro para ajudá-lo a sobreviver apesar de suas crônicas crises econômicas e do que gastava em oculistas.
Ao contrário dos editores da época, muitos escritores e livreiros (entre esses, a primeira editora de Ulisses, Sylvia Beach, a criadora da Shakespeare and Company, a livraria norte-americana de Paris) ficaram muito impressionados ao tomar conhecimento dos textos de Joyce. Ainda que provavelmente nenhum tenha demonstrado isso como Valery Larbaud (que seria o primeiro tradutor ao francês de Ulisses), que, após ler em The Little Review os fragmentos do grande romance de Joyce, lhe escreveu uma carta oferecendo-lhe sua casa (com uma criada) e sua grande biblioteca, além de sua célebre coleção de soldadinhos de chumbo. Joyce se mudou para lá com Norah, sua mulher, e seus dois filhos e por um bom tempo pôde continuar trabalhando com tranquilidade nesse romance que lhe tomaria mais de sete anos.
Na Itália uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound
Ainda que a primeira edição em livro de Ulisses tenha aparecido em Paris em 1922 graças a Sylvia Beach, somente 12 anos depois – 1934 – um juiz de Nova York – John Woolsey – em uma memorável sentença autorizou a circulação do romance, que apareceria pouco depois já na edição da Random House. A sentença de Woolsey foi reproduzida nessa nova edição e abriria desde então um precedente decisivo a todas as tentativas de proibir a circulação de obras “atrevidas e desavergonhadas” nos Estados Unidos. Uma sentença semelhante foi emitida na Inglaterra nesse mesmo ano.
Nos dois países a reação da crítica foi muito semelhante. Quase todos os que escreveram sobre o romance reconheceram – alguns a contragosto – o gênio de Joyce e as extraordinárias novidades que o livro trazia tanto no domínio da língua como na estrutura da narração desse dia tão minuciosamente descrito de Leopold Bloom. Mas quase todos eles denunciavam a vulgaridade atroz do palavreado “pestilento” com o qual se expressavam não só os personagens como o próprio narrador e, principalmente, no longo monólogo final de Molly Bloom, que alguns chamaram de “insolente” e até mesmo “demoníaco”.
Cedo ou tarde todos eles reconheceriam que o romance seria a partir de então algo radicalmente diferente graças a Joyce e a sua prodigiosa realização. Esse sucesso se deveu em boa parte ao instinto e aos esforços de Ezra Pound. No extraordinário ensaio que dedicou ao livro foi o primeiro a reconhecer que desde o surgimento de Ulisses todos os romancistas contemporâneos, incluindo os que nunca o leram, seriam discípulos de Joyce; e isso também reconheceu William Faulkner, outro romancista fora do comum que provavelmente nunca teria escrito sua saga sulista sem as lições que recebeu lendo Joyce.
O serviço que Ezra Pound prestou ao autor de Ulisses não consistiu somente em encontrar editores para seus textos; também conseguiu mecenas que o ajudaram economicamente e lhe permitiram, por exemplo, operar tantas vezes seu olho direito. Quando se conheceram pessoalmente, em Paris, em 1918, Ezra Pound já estava havia quatro anos multiplicando esforços para divulgar a quem chamaria de “o renovador da cultura do Ocidente”. Pound é a figura mais simpática que aparece no livro de Kevin Birmingham.
É difícil identificar esse homem generoso e altruísta com o Ezra Pound que, durante a Segunda Guerra Mundial, pedia na rádio italiana que os jovens soldados norte-americanos desertassem de suas fileiras e repetia todas as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus. Por isso foi capturado pelo Exército norte-americano e levado por toda a Itália em uma jaula, como um louco furioso. Depois, nos Estados Unidos, um tribunal, para não o fuzilar por traição à pátria, o declarou louco. E passou alguns anos em um manicômio. Em nossos dias, na Itália fascista de Matteo Salvini, uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que Casa Pound. Georges Bataille escreveu que o ser humano é uma jaula onde habitam os anjos e os demônios. Em poucas pessoas isso foi tão evidente como no caso de Ezra Pound.
Devemos estar atentos ao julgamento de Carola Rackete, que poderia ser condenada a 10 anos de prisão, e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália, hoje pisoteadas por Salvini e a Liga
12 JUL 2019
Carola Rackete, a capitã do barco Sea-Watch 3, que fazia 17 dias estava à deriva no Mediterrâneo com 40 imigrantes a bordo resgatados no mar, atracou na madrugada da sexta-feira retrasada na ilha italiana de Lampedusa, apesar da proibição das autoridades desse país. Fez bem. Foi de imediato detida pela polícia italiana, e o ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini, se apressou a advertir a ONG espanhola Open Arms, que navega pelos arredores com dezenas de imigrantes resgatados no mar, de que “caso se atreva a chegar perto da Itália terá a mesma sorte que a jovem alemã Carola Rackete”, que poderá ser condenada a dez anos de prisão e a pagar uma multa de 50.000 euros [a acusação contra Rackete foi arquivada após a conclusão deste artigo]. O fundador da Open Arms, Óscar Camps, respondeu: “Da prisão se sai, do fundo do mar, não”.
Quando as leis, como as invocadas por Matteo Salvini, são irracionais e desumanas, é um dever moral desacatá-las, como fez Carola Rackete. O que deveria ter feito, a não ser isso? Deixar que morressem esses pobres imigrantes resgatados no mar e que, depois de 17 dias à deriva, se encontravam em condições físicas muito precárias, alguns deles a ponto de morrer? A jovem alemã violou uma lei estúpida e cruel, agindo de acordo com as melhores tradições do Ocidente democrático e liberal, as quais têm como antípodas precisamente o que a Liga e seu Matteo Salvini representam: não o respeito da legalidade, mas uma caricatura preconceituosa e racista do Estado de direito. E são precisamente ele e seus seguidores (numerosos demais, aliás, e não só na Itália, mas em quase toda a Europa) que encarnam a selvageria e a barbárie de que acusam os imigrantes. Não merecem outros qualificativos os que haviam decidido que, para não pisarem o sagrado solo da Itália, melhor seria os quarenta sobreviventes do Sea-Watch 3 se afogarem ou morrerem de doenças ou de fome. Graças à valentia e decência de Carola Rackete pelo menos estes quarenta infelizes se salvarão, pois já há cinco países europeus que se ofereceram para recebê-los.
Contra a imigração há preconceitos crescentes que vão alimentando o perigoso racismo que explica o ressurgimento do nacionalismo em quase toda a Europa, a ameaça mais grave para o mais generoso projeto em marcha da cultura da liberdade: a construção de uma União Europeia que no dia de amanhã possa competir de igual para igual com os dois gigantes internacionais, os Estados Unidos e a China. Se o neofascismo de Matteo Salvini e companhia triunfasse, haveria Brexits por toda a parte no velho continente, e seus países, divididos e antagonizados, teriam à espera um triste porvir a fim de resistir aos abraços mortais do urso russo (veja-se a Ucrânia).
Apesar de as estatísticas e as vozes de economistas e sociólogos serem conclusivas, os preconceitos prevalecem: os imigrantes vêm tirar trabalho dos europeus, trazem crimes e violências múltiplas, sobretudo contra as mulheres, suas religiões fanáticas os impedem de se integrar, com eles cresce o terrorismo, etcétera. Nada disso é verdade, ou, se for, está exagerado e adulterado a um extremo irreal.
Não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora
A verdade é que a Europa necessita de imigrantes para poder manter seu alto nível de vida, pois é um continente em que, graças à modernização e ao desenvolvimento, um número cada vez menor de pessoas precisa manter uma população aposentada mais numerosa e que continua crescendo sem trégua. Não só a Espanha tem as mais baixas taxas de nascimento no ano. Muitos outros países europeus seguem seus passos de perto. Os imigrantes, queiramos ou não, terminarão preenchendo esse vazio. E, para isso, em vez de mantê-los à margem e persegui-los, é preciso integrá-los, removendo os obstáculos. Isso é possível com a condição de erradicar os preconceitos e medos que, explorados sem descanso pela demagogia populista, criam os Matteo Salvini e seus seguidores.
Sem dúvida, a imigração tem de ser orientada para que beneficie os países que os recebem. Convém recordar que ela é uma grande homenagem que prestam à Europa esses milhares e milhares de miseráveis que fogem dos países subsaarianos governados por gangues de ladrões e, ainda por cima, às vezes, fanáticos que transformaram o patrimônio nacional na caverna de Ali Babá. Além de estabelecer regimes autoritários e eternos, saqueiam os recursos públicos e mantêm suas populações na miséria e no medo. Os imigrantes fogem da fome, da falta de emprego, da morte lenta que é a existência para a grande maioria deles.
Não é um problema da Europa? A verdade é que é, sim, pelo menos parcialmente. O neocolonialismo fez estragos no Terceiro Mundo e contribuiu em boa parte para mantê-lo subdesenvolvido. Claro que o erro é compartilhado com os que adquiriram os maus costumes e foram cúmplices dos que os exploravam. Não há dúvida de que, em última instância, só o desenvolvimento do Terceiro Mundo manterá em suas terras essas massas que agora preferem se afogar no Mediterrâneo a serem exploradas pelas máfias, a continuar em seus países de origem, onde sentem que não há mais a esperança de mudança.
Europa necessita imigrantes para poder manter seu alto nível de vida e uma numerosa população aposentada
O fundamental na Europa é a transformação da mentalidade. Abrir as fronteiras a uma imigração que é necessária e regulá-la de modo que seja propícia, e não fonte de divisão e de racismo, nem sirva para incrementar um populismo que no passado provocou consequências tão horrendas. É preciso recordar sempre que os milhões de mortos das duas últimas guerras mundiais foram obra do nacionalismo, e que este, inseparável dos preconceitos raciais e fonte irremediável das piores violências, deixou em todas as partes rastros das atrocidades que causou e que poderá voltar a causar se não o contivermos a tempo. É preciso enfrentar os Matteo Salvini de nossos dias com o convencimento de que eles não são mais do que o prolongamento de uma tradição obscurantista que encheu de sangue e de cadáveres a história do Ocidente, e foram o inimigo mais encarniçado da cultura da liberdade, dos direitos humanos, da democracia, nenhum dos quais teria prosperado e se espalhado pelo mundo se os Torquemada, os Hitler e os Mussolini tivessem vencido os Aliados na guerra.
Escrevo este artigo em Vancouver, uma bela cidade aonde cheguei ontem. Esta manhã tomei o desjejum em um restaurante do centro da cidade no qual travei conversa com quatro “nativos” de origem japonesa, mexicana, romena e, só o último deles, gringo. Os quatro tinham passaporte canadense e pareciam estar contentes com sua sorte e se entenderem muito bem. Esse é o exemplo a seguir na Europa, o do Canadá.
Temos de estar atentos ao julgamento de Carola Rackete e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália, hoje pisoteadas por Salvini e a Liga. Estou certo de que não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora.
É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Seu último livro é uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León
6 abr 2019
Uma oportuna arritmia salvou Víctor García de la Concha da homenagem que iríamos prestar-lhe em Córdoba (Argentina) durante o oitavo Congresso da Língua realizado recentemente na cidade. Tivemos de nos contentar com um bom documentário sobre seus esforços acadêmicos para reforçar o caráter unitário do espanhol, apesar de ser incessantemente irrigado por mais de vinte países no mundo. Mas não se livrará por muito tempo, já que o Instituto Cervantes pretende entregar a ele em Madri a medalha que ficou sem destinatário nessa ocasião. Eu, da minha parte, o homenageei lendo seu último livro: uma edição crítica do Cântico dos Cânticos de Salomão, traduzido do hebraico pelo frei Luis de León, publicado recentemente pela Editora Vaso Roto em sua coleção Esenciales Poesía.
É um livro impecável, lido do início ao fim com imenso prazer; ainda que também com certa indignação, porque, por escrevê-lo e pelas intrigas dos eternos invejosos, o infeliz frei Luis de León ficou vários anos preso em Valladolid e foi torturado pela Inquisição. Além disso, nunca viu editada essa bela tradução publicada somente duzentos anos após sua morte (em 1798). Em sua apresentação, García de la Concha dá todos os dados necessários para se conhecer a história do poema e das vicissitudes dolorosas que significou para o frei Luis de León – incluindo o julgamento interminável a que foi submetido – se arriscar a traduzi-lo do hebraico à língua castelhana.
De acordo com a lenda, o rei Salomão teve setecentas mulheres e trezentas concubinas. Mas nenhuma delas o inspirou como a filha do Faraó, a sulamita, um poema tão profundo e terreno como esse cântico que, apesar de suas ousadas e voluptuosas imagens, se recitava primeiro na Pascoa judaica (ainda que os judeus só pudessem lê-lo após completar quarenta anos) e fazia parte do Antigo Testamento. Nesta edição, cuidadosamente anotada, estão também as Explicações à sua tradução escritas por frei Luis de León e que, pela delicadeza e perfeição de sua prosa, assim como pela sabedoria de suas análises e observações filológicas, são um complemento indispensável do poema. A liberdade das efusões trocadas pelos amantes brilha desde os primeiros versos do poema com a ardente proclamação da Esposa: “Beije-me com beijos de sua boca / porque seus amores são melhores do que o vinho”.
Víctor García de la Concha foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola
Fiel à tradição, frei Luis lembra de tempos em tempos em suas Explicações que, na verdade, o Cântico dos Cânticos é uma alegoria, ou seja, uma paixão figurada que narra a inquebrantável união de Deus e da Igreja e que, portanto, os galanteios e carícias desenfreadas dos esposos ao longo do poema não são carnais e sim espirituais e simbólicos. Temo que ninguém que o leia em nossos incrédulos tempos engula semelhante teoria. Mas, talvez, não seja tão absurdo o contrário; ou seja, que a maestria artística com que é descrita essa paixão ardente que possui os amantes a carrega de espiritualidade e lhe confere uma dimensão que transcende a vida meramente vivida, desejada e consumada e a enriquece com uma projeção religiosa e ultraterrena.
O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atração da mulher, os jogos da sedução, os segredos do desejo, e haviam imaginado (e talvez vivido) a felicidade e o gozo físico que o texto evoca com tanto refinamento e delicadeza. Os amantes se observam, se examinam, se excitam, se despem e fazem amor. Também brincam, disfarçados de pastorinhos, correm pelos campos, se escondem entre as árvores e em meio aos rebanhos de cabras, simulam se perder e, então, a Esposa perde a razão e, correndo todos os riscos, durante a noite se lança pelas ruas de Jerusalém à procura de seu Amado. Tudo aquilo é um ingrediente do jogo teatral que fez parte da paixão dos casais ao longo dos séculos; e, entretanto, a poesia do Cântico dos Cânticos o transforma em uma experiência singular, excepcional e única. Era talvez a isso que se referia Jorge Guillén quando chamou o poema de um “cântico prodigioso”. Não resta a menor dúvida de que o é e, para os leitores deste tempo, como é maravilhoso, como é atual, como nos fala diretamente de um amor que conhecemos, como parece extraordinariamente próximo à poesia experimental e de vanguarda, graças ao atrevimento de suas metáforas e ao deslocamento de sua sintaxe, à liberdade exercida por seu autor a cada verso. Na grande poesia há sempre algo superlativo e inefável, que nos fascina ao mesmo tempo em que nos assusta, pois nos abre as portas – ou as frestas – desse “outro lado” que a vida também tem e que somente a grande arte – a poesia e a música – são capazes de nos fazer entrever. Há muito tempo não tinha tanto prazer lendo um poema que não havia relido desde meus tempos de estudante.
O autor do poema e, seja como for, seu tradutor ao espanhol, conheciam o amor, a atração da mulher, os jogos da sedução, os segredos do desejo
É justo que se preste uma homenagem a Víctor García de la Concha. Foi um excepcional crítico da poesia mística espanhola, e poucos analistas descreveram com a fluência e elegância com que ele o fez, no livro fundamental que é Al Aire de Su Vuelo, a poesia de santa Teresa, de são João da Cruz e do próprio frei Luis de León. A poesia mística é algo mais do que poesia, o testemunho de um encontro inusitado em que seres excepcionais cruzam uma fronteira misteriosa rumo a algo além do que a razão e o conhecimento podem reconhecer, algo a que só se chega através do milagre da fé, e que, justamente por isso, está fora do alcance do ser puramente racionalista e agnóstico. E, entretanto, a beleza imperecível de certas imagens, emoções e músicas, e a astúcia e sutileza do crítico, aproximam esses leitores refratários ao coração dessa poesia que é mais do que poesia, e permitem que ele compartilhe com seus autores sua embriaguez irracional e sua loucura divina. Mas Víctor García de la Concha também foi um sagaz leitor do romance moderno espanhol e latino-americano, como mostrou em sua coleção de ensaios Cinco Novelas en Clave Simbólica, publicada em 2010.
Como diretor do Instituto Cervantes, no que foi provavelmente o período mais crítico da crise econômica na Espanha, lutou não só para não fechar nenhum centro do Instituto Cervantes como para abrir vários outros em diversos continentes. E foi um diretor excepcional da Real Academia Espanhola, que trabalhou de maneira incansável para estreitar os vínculos entre todas as academias americanas e a espanhola, de modo que despareceram as reservas e distâncias que anteriormente frustraram essa colaboração. A vitalidade e o impulso crescente do espanhol pelo mundo têm há muitos anos nesse antigo professor da Universidade de Salamanca um de seus melhores guardiões.