segunda-feira, 25 de junho de 2018

Charlize Theron / Essa mulher, essa atriz

Charlize Theron

Charlize Theron: essa mulher, essa atriz

Como a Romy Schneider adulta, como Michelle Pfeiffer, reconheceria esta atriz mesmo que aparecesse fantasiada de King Kong


Carlos Boyero
22 jun, 2018


A tão cúmplice e duradoura associação entre a roteirista Diablo Cody e o diretor Jason Reitman goza de um notável prestígio entre o público indie, entre os hipsters, espíritos tão modernos como sensíveis, e demais espécies fastidiosamente atuais. Não compartilho desse encantamento. Costumo me nausear com tanto afã de originalidade, intensidade emocional, pretensões de vanguarda. Entretanto, Jason Reitman também inventou um filme que adoro e revisito continuamente. Chama-se Amor Sem Escalas. É uma tragicomédia admirável, protagonizada por um sujeito cujo deplorável trabalho, pago pelas humanistas empresas, consiste em assessorar e consolar os infinitos e desolados batalhadores que a crise condenou à maldita rua, com a missão de que estes não criem problemas demais aos seus ex-patrões. Esse homem inteligente, pragmático e cínico, cujo doce lar consiste em hotéis e aeroportos, em seduções rápidas e fugazes, viverá perplexo e sem defesas um desastre sentimental ao confundir a aventura com o amor. Tudo em Amor Sem Escalas exala um estado de graça. Sempre me deixa um gosto agridoce. Continua me divertindo e comovendo, nunca me cansa.
É fundamental para os futuros espectadores de Tully – a última, estranha e atrativa criatura de Jason Reitman – que ninguém revele de antemão o mistério que seu argumento oculta. Não serei eu quem fará isso, logo eu que fico nervoso sempre que escuto essa cafonice de “Não me faça um spoiler”. O roteiro mergulha no que ocorre no cotidiano, na torturada cabeça e no esgotado organismo de uma mulher que vai parir seu terceiro filho, do esgotamento perante responsabilidades múltiplas, da tristeza que lhe assalta sem necessidade de se olhar no espelho, da depressão pós-parto, de se perguntar o que foi sua vida antes, e o jugo que criar uma família representa, do cansaço infinito no corpo e na alma. Ama o seu bondoso e cinzento marido, e adora sem gestos estridentes os seus filhos, embora a deficiência de um deles aumente sua angústia até limites perigosos. E recebe uma oferta de seu generoso irmão para que a contratação de uma babá noturna para o bebê lhe permita um pouco de descanso. Aí começam a ocorrer coisas surpreendentes e venturosas, para a esgotada protagonista e para o intrigado espectador.
Gosto moderadamente de Tully, mas o que realmente me apaixona, como sempre, é a presença dessa atriz mais do que boa e dessa linda mulher chamada Charlize Theron. Teve que ficar feito uma foca e deformar seu rosto em Monsterpara que os acadêmicos descobrissem que a boneca sensual também tinha talento e lhe concedessem esse rotineiro Oscar que sempre é dado a atores e atrizes que interpretam gente com maluquices diversas. Contam que, para dar vida a uma grávida, Charlize Theron acrescentou vinte quilos a seu insigne corpo, e o resto ficou a cargo da maquiagem e do figurino.
Entretanto, o fascínio e a credibilidade que desprende desde que apareceu numa tela permanecem intactos. E conta muitas e profundas coisas sobre a personagem à qual dá vida com seus olhos, seu gestual, suas sóbrias e matizadas sensações, sua voz e seu tom. Como a Romy Schneider adulta, como Michelle Pfeiffer, reconheceria Charlize Theron mesmo que aparecesse fantasiada de King Kong. São as coisas do amor.



sexta-feira, 22 de junho de 2018

Martín Caparrós / A lenda do pior goleiro do mundo


Luis Ricardo Guevara Mora leva um gol durante um dos jogos na Copa da Espanha de 1982. 



COPA RÚSSIA 2018

A lenda do pior goleiro do mundo

O goleiro salvadorenho Luis Ricardo Guevara entrou para a história das Copas do Mundo depois do 10 x 1 sofrido contra a Hungria na Espanha-82



Martin Caparrós
20 JUN 2018

20 
A cada quatro anos, quando o futebol novamente é destaque em todo o mundo, alguém se lembra dele, vai atrás dele, conta sua história. Luis Ricardo Guevara Mora tem um raro mérito: ninguém, na história do futebol, fez pior.
Guevara nasceu em São Salvador, El Salvador, em setembro de 1961. Um menino pobre de um país muito pobre que tentava —adolescente, alto, atlético, moreno— jogar basquete, beisebol. Quando lhe propuseram ser goleiro de um time de futebol, achou engraçado e decidiu tentar.

Guevara se deu bem. Tinha 17 anos quando estreou na seleção de El Salvador; dois anos depois, foi goleiro da equipe de seu país nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 1982. El Salvador vivia uma guerra civil: os combates eram suspensos para assistir aos jogos. Foram cinco, Guevara levou apenas um gol, e seu país chegou, pela segunda vez em sua história, à rodada final.
Chegar à Espanha foi um problema: a Federação salvadorenha era pobre, mas caótica, e enviou os jogadores em muitos aviões. A equipe demorou três dias para chegar à cidade de Elche, onde ainda vivia uma senhora que havia sido, muitos anos antes, "uma morena de altas torres, alta luz e olhos altos": Josefina Manresa, viúva do poeta espanhol Miguel Hernández. Eles não se importavam: só queriam vencer o primeiro jogo contra a Hungria, que parecia mais fácil do que a Argentina ou a Bélgica.
Então, decidiram tentar, ir para o ataque, mas, aos cinco minutos, já estavam perdendo. Quando estava 0 x 5, um atacante salvadorenho, "Pelé" Zapata, fez um gol —que passaria a ser conhecido depois como gol de honra— e seus companheiros interromperam a comemoração para não irritar aqueles hunos sedentos. Talvez não tenham se irritado; continuaram goleando com sorrisos. Guevara poderia ter sofrido menos: quando havia levado apenas seis, seu treinador decidiu substituí-lo, mas o goleiro substituto se recusou a entrar e Guevara teve que continuar. No final, os húngaros conseguiram o resultado mais impressionante das Copas do Mundo: 10 x 1. Nos mil jogos disputados desde o início do torneio, em 1930 em Montevidéu, nunca houve nada igual.
Tem mérito, se reconhece pouco. A arte de vencer é fácil, quase óbvia; a arte do fracasso é mais complexa. Naquele dia, Guevara levantou, sem querer, seu monumento: o fato que seria inscrito na memória. Tinha 20 anos e já era o que seria para sempre: o homem que levou o maior número de gols em um jogo da Copa do Mundo, um vencedor às avessas.




Guevara era o símbolo do desastre: o inimigo público que todos queriam atacar e, também, o pobre coitado do qual todos gostavam de ter pena

O esporte se tornou o evento cultural mais difundido de nossos tempos, porque é simples. Parece complexo, cheio de nuances, mas, em última análise, oferece uma facilidade que a vida escamoteia: um resultado. Em um esporte está claro o que é ganhar e o que é perder, quem vence e quem não. Por isso, é raro quando esses casos confusos aparecem: aquele que se torna inesquecível por sua derrota.
El Salvador voltou a perder outros dois jogos, só que mais discretamente. Alguns dias depois, quando "la Selecta" —como a equipe é chamada em seu país— chegou a São Salvador, milhares e milhares de compatriotas os esperavam para insultá-los nas ruas. E Guevara era o símbolo do desastre: o inimigo público que todos queriam atacar e, também, o pobre coitado do qual todos gostavam de ter pena; ele não sabia o que doía mais. Mas também não permitiram que escolhesse: já na alfândega abriram sua mala e, uma semana depois, atiraram no carro onde estava. Foram 22 tiros, e não defendeu nenhum.
Luis Ricardo Guevara Mora teve que começar sua vida quando esta já estava definida para sempre. Deixou seu país, continuou jogando futebol por outras duas décadas, sobreviveu. Agora trabalha, modestamente, mais gordo, em um centro esportivo de uma cidade salvadorenha e, a cada quatro anos, alguém lembra que foi o pior de todos. Ele, certamente, nunca soube como esquecer isso.