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sexta-feira, 14 de julho de 2023

Cinema e Psicanálise / Uma aproximação

Cena mítica de "Um cão andaluz" (dirigido por Buñuel em parceria com Dalí em 1929), considerado o maior representante do cinema surrealista


Cinema e Psicanálise

Uma aproximação

28 JANEIRO 2017, 

Luís Buñuel, cineasta e surrealista, disse um dia:

bastaria à branca pupila da tela do cinema poder refletir a luz que lhe é própria para fazer explodir o universo.

O que é o cinema? (Pode parecer uma questão demasiado óbvia). De que maneira nos relacionamos com um dos textos mais poderosos do Século XX? E do XXI também. (Já não é tão óbvio assim). Pois mesmo que tenha perdido o estatuto de ser o ecrã para onde todos os olhos se voltavam, hoje a TV, o DVD e os ecrãs do computador ocupam mais espaço, alcançou outro estatuto. Deixa de ser o centro fornecedor de imagens, e converte-se ele mesmo, numa grande fonte referencial. É nele que os outros se alimentam ou se alimentaram. Como ele um dia, se alimentou do real. Assim, o cinema, neste instante, chega mesmo a ocupar o lugar do real na produção da iconografia contemporânea.

Cinema e psicanálise surgem, praticamente, ao mesmo tempo: em 1895, quando os irmãos Lumière traziam à luz o seu invento, (ou melhor, uma versão aperfeiçoada do aparelho de Edson), Freud publicava, com Breuer, os Estudos Sobre a Histeria. É interessante notar que Freud nunca se ocupou desta nova arte, apesar de ter feito analogias entre o aparelho psíquico e alguns aparelhos óticos. Foi Lou Andreas Salomé que em 1913 disse:

“a técnica cinematográfica é a única que permite uma rápida sucessão de imagens e que corresponde mais ou menos às nossas faculdades de representação.”

E continua: “O futuro do filme poderá contribuir muito para a nossa constituição psíquica”. É interessante observar o percurso de aproximação que estes dois textos, a psicanálise e o cinema, tão fundamentais no século XX, ao longo da história. E mais ainda é interessante perceber que tanto um como o outro, colocam em evidência o sujeito e é através dele que vão se constituir enquanto instrumento de compreensão ou de sedução da mente humana. O sujeito passa a se reconhecer como lugar originário do sentido. Os aparelhos óticos, quando surgem, servem para tirar o sujeito deste centro, é só pensarmos na era de Galileu e no fim do geocentrismo. Mas são também os aparelhos óticos que recolocam o homem no centro da produção imagética ocidental. Através da câmara obscura, o Renascimento reorganiza o espaço privilegiando o olho do homem, elemento central, princípio da coerência e da ordem.

O espaço geometrizado do Renascimento subverte as hierarquias da imagética medieval e o aparente caos é substituído por uma nova ordem. Se os artistas da renascença alimentaram pretensões demiúrgicas, de competir com Deus na criação do universo, (aliás é nesta altura que o artista passa a ser chamado CRIADOR), concretizam suas pretensões na criação de um universo imagético mais que perfeito, hiper-real, criando, ao mesmo tempo, a ilusão de que estavam apenas a reproduzir O REAL. E este olhar é incorporado pela câmara, o homem volta a ter um lugar na iconografia ocidental, depois de ter sido violentamente banido pelas vanguardas que tenderam de uma maneira ou de outra, para a abstração e dissolução do sujeito. E a câmara, como um olho aperfeiçoado, passeia pelo corpo do homem, reconstruindo, metafórica e metonimicamente o sujeito.

Falar de cinema é também fazer uma opção por um modelo que melhor se adeque aquilo que queremos sublinhar. Assim, quando falo de cinema neste momento, falo do Modo de Representação Institucional, conforme Noel Burch, termo que substitui e aprofunda um conceito, o de cinema clássico, produto de Hollywood. E porque nos interessamos particularmente por este? Por ser exatamente o modelo que mais vai ser explorado por todos àqueles que se aproximaram do objeto cinema como espaço de investigação utilizando o instrumental analítico da psicanálise.

Em 1916 Hugo Munsterberg escreve aquela que é considerada a primeira teoria do cinema, The photoplay: a psychological study. Nesta obra defendia, já a partida, que o cinema que realmente interessava era o narrativo. Numa altura em que o cinema descobria a sua gramática e se organizava enquanto linguagem, Munsterberg já vaticinava qual deveria ser a vocação do cinema: contar histórias através das imagens. E vai analisar de que modo o cinema se organiza enquanto dispositivo de representação e, neste processo, encontra imensas similitudes entre o cinema e o funcionamento da mente humana. Para Musnterberg era óbvio que as propriedades cinemáticas eram também propriedades mentais, e que o cinema não acontece no ecrã, onde é projetado, mas é a nossa mente, que organiza o relato, da mesma maneira que organiza também o mundo que a circunda. Tomemos, por exemplo, o mecanismo da atenção. A mente não vive apenas num mundo em movimento, ela organiza esse mundo através da propriedade da atenção. Somos capazes de hierarquizar aquilo que nos rodeia e construir o nosso próprio percurso no real. O cinema utiliza este mesmo mecanismo só que de uma maneira bastante perversa. Ele manipula a nossa atenção, obrigando-nos a ver apenas aquilo que o olho da câmara capta. Além daquela imagem ali plasmada, só há o escuro da sala que nos circunda.

E o escuro da sala que nos circunda, além da manipulação do nosso olhar, é um tema que vai gerar os mais profícuos estudos na área do cinema produzidos, como já disse, com instrumental da psicanálise. É através da compreensão de uma situação cinema que teóricos como Mauerhofer, Christian Metz, Jean-Louis Baudry, Oudart, Barthes e Emile Benveniste, dentre muitos outros, vão penetrar nos mecanismos ideológicos deste texto cultural que é, ao mesmo tempo, instituição, dispositivo e linguagem.

Nietzsche, em O Nascimento da Tragédia, diz:

“ver a si mesmo metamorfoseado diante de si e agir agora como se tivesse entrado em outro corpo, em outra pessoa”.

Fala-nos aqui da identificação, necessária para o gozo e catarse diante do texto que se desenrola perante os nossos olhos. E ao falarmos do cinema, esta sua afirmação torna-se ainda mais precisa, pois, conforme Baudry, o cinema é um aparelho de simulação que não se contenta em fabricar imagens simulacros, percebidas como representação da realidade, mas, dirige-se ao espectador, como sujeito psíquico, provocando o “efeito-cinema”, o retorno a um narcisismo relativo, a uma forma de realidade envolvente onde os limites do próprio corpo e a sua relação com o exterior não são muito precisos.

O corpo se expande através do olhar. “Os acontecimentos, diz Emile Benveniste, são dispostos como se estivessem se produzindo à medida que aparecem no horizonte da história. Ninguém fala aqui. Os acontecimentos parecem se narrar a eles próprios.” Daí a preferência de alguns estudiosos pelo Modo de Representação Institucional, pois é ele que necessita, mais do que qualquer outro, de ser desvendado. Desmascarado. O cinema clássico escamoteia o discurso, ou melhor, escamoteia a sua condição de discurso, provocando, no sujeito, uma identificação maior do que em qualquer outra arte do espetáculo. A análise da situação-cinema é apenas uma das vertentes de aproximação da psicanálise ao cinema. Mas, para mim é, sem dúvida, uma das mais interessantes.

Nos anos 60 Mauerhofer vai analisar o que leva um sujeito a se entregar, desarmado, quase sempre, a esta relação com o cinema. Ele nos fala da entrada na sala escura, do corte com a realidade exterior que seria ainda mais perfeito numa sala de cinema ideal, completamente às escuras. E neste escuro, que para Barthes, cria a mesma sensação do devaneio crepuscular, que coloca o sujeito num estado pré-hipnótico, surgem também outras condições que desempenham papéis decisivos na situação cinema, tais como: sensação alterada de tempo e espaço, tédio incipiente e exacerbação da atividade da imaginação. Além disso, Baudry acrescenta mais alguns aspetos fundamentais para se compreender a situação do espectador. Utilizando o mito da caverna platónica, Baudry vê o espectador do cinema numa situação similar: ele está ali “amarrado” à cadeira, numa caverna escura (uterina, segundo Barthes), onde só tem acesso ás sombras projetadas no ecrã. Imobilidade em uma sala escura provoca o retorno a um estado antigo do psiquismo, a uma regressão, da pessoa que dorme. O dispositivo fílmico é vizinho ao dispositivo do sonho. (Por isso os surrealistas se interessaram tanto pelo cinema e por isso acreditavam verdadeiramente na sua capacidade transgressora).

Imaginemos agora o sujeito na situação cinema, diante de um filme narrativo clássico, cujo tema central quase sempre recai no herói que sai de casa, para depois de cumprir a sua tarefa, regressar. Maria Rita Kehl, psicanalista brasileira, faz uma análise interessante deste cinema do eterno retorno. Para ela, o cinema americano típico está sempre a mostrar o herói a romper com a ordem para, logo de seguida, restabelecê-la. Ele sai de casa numa situação marginal, periférica, passa por provas que o reconstroem e o fortalecem (mito do herói) e voltam para ocupar um lugar central, o lugar do pai. Recriando assim o mito descrito em Totem e Tabu, onde se torna necessário matar o pai primitivo para voltar e inscrever o mito na linguagem. E, como disse Lacan, o inconsciente é estruturado como uma linguagem, e a linguagem do cinema vai ajudando a construir e reorganizar o real, também ele partícipe ativo deste jogo que estabelecemos quotidianamente na tentativa de instaurar e inscrever novos sentidos. Lou Andreas Salomé tinha razão quando afirmou, em 1913, a importância do cinema em relação á nossa constituição psíquica.

Além da situação cinema, há que se ressaltar outra relação importante que o cinema mantém com o nosso psiquismo. A pulsão escópica. A relação, na pulsão escópica, repousa na ausência do objeto percebido, daí o carácter imaginário do seu significante, que se torna uma miragem percetiva. O cinema pode ser visto como um encontro fracassado, conforme Christian Metz, entre um voyeur, o espectador e um exibicionista, o ator. E, ao mesmo tempo, é estabelecido um jogo da identificação, que pode ser, no caso do cinema, primária, “eu vivo” e secundária, “eu vejo”. E é no espaço entre, ou seja, não no que efetivamente vejo, mas naquilo que o cinema me faz ver, que nos deixamos dominar pelo filme. O filme que opera, em todos os níveis, provocando tensões.

Por exemplo, tensão entre o fluxo narrativo e o close up, matéria cara às teóricas da teoria feminista do cinema, que analisam assim a erotização do rosto feminino no cinema clássico de Hollywood. O rosto, destacado do fluxo narrativo, provoca stasis e cria uma retórica do não-movimento, uma pequena morte, um instante de prazer. Que justifica o impulso à escopofilia e reitera o ponto de vista marcadamente masculino deste tipo de cinema. A femme fatale revela e oculta. Seu rosto, despido no ecrã, ainda esconde segredos. Segredos que irão aguçar o desejo do desvelamento, imbricação de epistemofilia com escopofilia: desejo de conhecer e de ver, mas ao mesmo tempo reconhecer que o visível não está ao alcance da mão, mas está ou esteve ali. Porque é antes de mais nada fotografia em movimento, com carácter ontológico que nos relembra uma presença, agora ausente. O isso foi do Barthes. Na foto, como no filme, a presença fica impressa pela luz, no fotograma. E esta presença emana provocando o desejo. Desejo que nem sempre deve ser explicitado, daí a necessidade de sublimação ou recalque. Ele está ali, só que não deve ser presentificado ou exposto. Se o cinema serve como mecanismo de recalque ou sublimação, serve também para revelar o não-dito. Para mostrar o que o espaço das paredes, entre as janelas, esconde. Para algumas vezes, deixar que o fora de campo invada o cenário e dialogue com ele abertamente. Mas isso, no cinema do entretenimento, no cinema do M.R.I., no tipo de cinema que triunfou, acontece muito pouco. E é por isso que Buñuel, que havia celebrado o poder transgressor do cinema, acaba por dizer: “Mas, por ora, podemos dormir em paz, porque a luz cinematográfica encontra-se devidamente dosada e aprisionada.”


MEER



sábado, 29 de outubro de 2016

Juan José Millás / A psicanálise é válida?

Sigmund Freud

A psicanálise é válida?

A psicanálise do ponto de vista da ciência e da literatura. Nasceu da investigação ou de um pensador visionário? É como a própria vida?


A cena do crime

Por Juan José Millás

Então, Freud. Acabo de terminar minha análise com uma psicanalista ortodoxa, seja lá o que signifique ortodoxa (e psicanalista). Chama-se Marta, como uma das irmãs de Lázaro, o ressuscitado, e tem o apelido de Lázaro, como o mesmíssimo ressuscitado. Marta Lárazo, portanto, 80 anos, muitos deles ouvindo. Quando deito no seu divã (que parece um pobre catafalco), o morto era eu. Cheguei com a fantasia de que me dissesse: “Levante e ande”. A realidade cria espontaneamente esse tipo de coincidência estranha.
No começo, eu preparava as sessões para compensar o preço. Hoje, direi isso, contarei aquilo. Enquanto fazia o dever de casa, estabelecia associações de primeiro nível atravessadas pelo pensamento consciente. Chamo de “associações de primeiro nível”, mas poderia chamá-las de álibis, porque seu objetivo era demonstrar que eu não havia estado na cena do crime no dia das atas. É assim que muitos romances são escritos, na base de álibis narrativos. E nem todos são realmente ruins, ainda que também não sejam bons. Digamos que as costuras ficam visíveis. Um bom romance, como uma boa análise, não pode mostrar as costuras.


As meias que os peregrinos do Caminho de Santiago utilizam são completamente lisas, pois as costuras produzem feridas nos pés e arruinam a viagem de iniciação. As costuras narrativas arruinam a viagem de iniciação do leitor de novelas, e também do autor, que, com uma boa associação, feita no momento oportuno, derruba todas as defesas. Às vezes, acontece na décima sessão de análise, ou no décimo capítulo do livro. Isso não quer dizer que o trabalho anterior tenha sido completamente inútil, mas tem que haver coragem de voltar ao começo e se desprender de todo o material dispensável.
Quase todas as vidas, mesmo as mais coerentes, neste primeiro nível associativo (o do álibi) estão cheias de costuras, inclusive de cicatrizes. Observando-se com certa distância, constrói-se a vida costurando (bem ou mal, esse é outro assunto) retalhos de várias naturezas e cores, como essas colchas étnicas (o que raios significa étnico), que nos agradam tanto pela ingenuidade, às vezes pelo mal gosto, um mal gosto (ou uma ingenuidade) que anula a vergonha de mostrá-las aos convidados depois do jantar, após retornar de Honduras ou da Guatemala.
Essas colchas são um exercício de associação livre, por isso, nos comovem até que começam a nos incomodar. O que há debaixo desses collages, cujas cicatrizes, que a princípio nos agradavam, agora nos cansam? Façamos uma suposição: pobreza. O que há, fequentemente, não é ingenuidade ou mal gosto, mas pobreza. Talvez fiquemos incomodados por causa disso. Estou fazendo uma bagunça, mas de propósito. Alcança-se o segundo nível da análise ou da novela juntando os pontos. Da vida também. Nesse segundo nível, não há costuras. É aqui que entendemos em toda a sua extensão a frase de Borges, que o azar é um modo de casualidade cujas leis ignoramos.

Estou fazendo uma bagunça, mas de propósito. Alcança-se o segundo nível da análise ou da novela juntando os pontos

E, no fim, eu estive, sim, na cena do crime no do dia das atas, mas não era o assassino. Era o morto. Trata-se de uma possibilidade que eu nem havia considerado no primeiro nível. Então, percebe-se que na análise (e no romance), não temos que ir com os deveres de casa feitos, mas com eles desfeitos. Significa que deve-se deitar no divã (ou sentar-se à frente do computador) e, ao invés de começar pelo mais importante, começar pelo banal, pelo periférico. Pelo subúrbio. O significado está sempre no periférico. É um modo de dizer que a sala das máquinas da vida (e do romance) não se encontra onde se espera (isso é uma forma de delírio), mas onde não se espera. Chega-se a esse lugar pelo método freudiano de associação livre, a qual, com o tempo, percebe-se ser a menos livre das associações. Escrever um romance, portanto, assemelha-se muito a reler psicanaliticamente uma vida.
Quanto a Marta Lázaro, ela continua ouvindo. Não vamos nos ver novamente. Nunca. Ficamos nisso. E nisso estamos.

Não é ciência

Por Javier Sampedro

Sigmund Freud não era um homem modesto. Pensava que a posição da humanidade no mundo havia sido destronada principalmente três vezes na história do conhecimento. A primeira foi por Copérnico, que nos havia expulsado do centro da criação para deixar esse emprego geométrico ao Sol; a segundo foi a de Darwin, que nos havia expulsado do paraíso no qual Deus nos criou a sua imagem e semelhança. E a terceira, por ele mesmo, que nos havia deportado de nossa própria mente ao revelar que, na maioria das vezes, ela está ocupada por um exército de demônios dos quais nem mesmo somos conscientes. Copérnico, Darwin e Freud, assim se resume a história da ciência. Isso que é autoestima, doutor.
A psicanálise é uma ciência? Antes de responder, consideremos o que disse Freud de si mesmo, em 1900: “A verdade é que não sou um homem da ciência, absolutamente. Sou apenas um conquistador, um aventureiro”. Percebe-se que, por esse critério, a psicanálise não é uma ciência. E, por outros critérios, também não: não cumpre os requisitos mínimos, nem se propõe a fazer isso, muito menos serve de grande coisa para a ciência posterior. É provável tenha tido mais influência nas artes, de Dalí a Woody Allen, e com menção especial a Hitchcok e seu filme Marnie. Não à ciência. Mas isto é apenas a metade da história. Porque a ciência bebe de muitas fontes, e os pensadores visionários tiveram sua influência, às vezes crucial, no grande esquema das coisas. Bons exemplos são o efeito que a obra do reverendo e economista Robert Malthus teve na concepção da teoria da seleção natural de Darwin; a importância chave da leitura dos filósofos David Hume e Ernst Mach para levar Einstein a considerar a possibilidade de que o tempo poderia se dilatar; ou o gatilho que foi um livro filosófico de Erwin Schrödinger – O que é a vida? – no começo da biologia molecular. Nesse sentido, é possível que Freud tenha tido mais relevância do que a maioria dos neurocientistas de hoje em dia está disposta a lhe conceder.
O que talvez seja a sua descoberta central, a do componente inconsciente da mente, está confirmada atualmente acima de qualquer dúvida razoável. O que experimentamos como mente consciente representa uma minúscula parte da nossa vida diária. Não conseguiríamos nos levantar da cama – não vamos nem falar sobre cruzar a rua ou organizar nossa vida – sem uma atividade cerebral que seja propriedade intelectual de um enxame de processadores neuronais. Eles permanentemente analisam nossas percepções e também possuem um modelo interno de mundo, em grande parte inato, e em outra parte formado sem que tenhamos a menor ideia do que está acontecendo ali, dentro da nossa própria cabeça.

Se quiser submeter-se à psicanálise, importa muito pouco que não seja uma ciência. A única coisa que você precisa saber é se funciona.

O subconsciente, como conceito abstrato, é uma predição correta de Freud. Mas a redescoberta moderna desse fenômeno não lhe deve nada. Sua materialização, ou sua revelação como algo empírico, ocorreu um século depois e de forma independente das reflexões, sem dúvida brilhantes, mas também exageradas, daquele psiquiatra.
Não está claro que Freud tenha infligido dano ao desenvolvimento das ciências da mente no século XX. É mais claro que esse dano tenha vindo do rechaço a Freud, particularmente nas instituições americanas. O grande neurologista Michael Gazzaniga reclamou que a psicologia havia desaparecido dos departamentos universitários. As pessoas – inclusive as que financiavam a pesquisa – consideravam-na uma palavra suja, e é muito provável que os excessos de Freud no começo do século, com sua franca propensão a atribuir ao sexo quase qualquer coisa, tenha muito a ver com isso naquela sociedade pacata e religiosa.
Em todo caso, se quiser submeter-se à psicanálise, importa muito pouco que não seja uma ciência. A única coisa que você precisa saber é se funciona. E, se acredita que funciona, irá em frente. Mas não se esqueça de consultar também um médico de verdade.

EL PAÍS


sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Sigmund Freud, o homem que deu significado aos sonhos, homenageado em 'Doodle'

Sigmund Freud

Sigmund Freud, o homem que deu significado aos sonhos, homenageado em 'Doodle'

Nascimento do pai da psicanálise completa 160 anos nesta sexta-feira e é lembrado em um 'Doodle'


DAVID BERNAL
Madri 6 MAI 2016 - 16:10 COT



Sigmund Freud, o pai da psicanálise, nasceu há exatos 160 anos. E seu nascimento não foi esquecido pelo Google, que o homenageou com um doodle nesta sexta-feira. Somos como um iceberg, do qual só se vê a ponta. Tudo o que está debaixo da água é o nosso subconsciente, um amontoado de desejos e traumas que reprimimos, mas que dão forma aos nossos sonhos. E foi o neurologista quem criou essa teoria, hoje tão aceita e, com isso, mudou a nossa forma de pensar, com conceitos como narcisismo, pulsão de morte e Complexo de Édipo. Foi uma das figuras mais polêmicas e influentes do século XX.