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quinta-feira, 2 de julho de 2020

Quando Yeats, Philip K. Dick e Borges usaram o tarô para escrever seus livros

A escritora e 'taróloga' Jessa Crispin em Barcelona.
A escritora e 'taróloga' Jessa Crispin em Barcelona. JUAN BARBOSA

Quando Yeats, Philip K. Dick e Borges usaram o tarô para escrever seus livros

A literatura está cheia de autores que em algum momento tomaram uma decisão sobre sua obra em função do que lhes disseram as cartas


Laura Fernández
Barcelona, 20 ab 2019



Philip K. Dick escreveu O homem do castelo alto, sua ucronia sobre uma versão nazista dos Estados Unidos, jogando moedas na mesa. Na época, andava entusiasmado com o I-Ching, jogo divinatório chinês baseado na sorte. O que o desesperado escritor em busca de respostas para sua necessária e constante tomada de decisões — na época Dick ainda escrevia mais de um romance, às vezes três ou quatro, por ano — fazia era lançar moedas ao ar e verificar depois se tinham saído duas ou três caras (o que equivalia a um sim para o que tivesse em mente) ou duas ou três coroas (o que equivalia a um não). Sabe-se que estava obcecado pelo assunto porque até os personagens do romance — todos eles — não fazem outra coisa além de consultar suas moedas antes de tomar qualquer decisão. E o escritor que o representa como recurso narrativo também.



O último livro de Sheila Heti, o fascinante ensaio-crônica Maternidade (Companhia das Letras), começa com uma conversa da própria autora com suas três moedas. Ela lhe faz perguntas, as moedas respondem: “Este livro é uma boa ideia?”/”Sim”/“Estou com dor de cabeça. Estou muito cansada. Deveria ter dormido a siesta. Mas se tivesse deitado estaria de pior humor, não é?”/”Não”.


“Com o I-Ching você só dialoga, com o tarô, além disso, consegue encontrar um relato em meio a toda a confusão”, diz Jessa Crispin (Lincoln, Kansas, 1978), escritora, viajante e taróloga, diante das cartas sobre a mesa de seu baralho pessoal, especialmente desenhadas para acabar um dia nas mãos de Trent Reznor (Nine Inch Nails). “Aconteceu no meu caso e continua acontecendo. Não é só que oferecem o como, o quê, o quando e o onde, no caso de você ir buscar orientação artística, mas ajudam a dar sentido ao caos. Quando comecei a usá-las, de fato, me contaram uma história nova sobre minha vida”, diz.


Uma obscura Mary Poppins


Para Leonora Carrington, pintora surrealista, as cartas agiam como espelhos. Mostravam algo que você não tinha sido capaz de ver. Sylvia Plath as usou para compor pelo menos os três primeiros poemas de Ariel, estabelecendo por meio deles o que os iniciados chamam de jogada inacabada, e William Butler Yeats usou várias vezes o imaginário do tarô em sua obra — deem uma olhada em Blood and the moon —, porque sempre foi atraído pelo lado oculto: foi inclusive membro de uma ordem secreta. Pamela Lynson Travers expõe em seu livro Mary Poppins, infinitamente mais obscuro que a versão cinematográfica, boa parte de sua paixão pelo inexplicável. O tarô para Travers, porém, nunca foi algo criativo: consultava tarólogas toda vez que tinha que tomar uma decisão importante — adotou seu filho porque assim lhe disseram as cartas. Para não falar de Shirley Jackson e Jorge Luis Borges. A lista de escritores —e não só escritores, Brian Eno desenhou seu próprio baralho — que flertaram com o tarô é infinita. Por quê?

'O tarot criativo' põe-se à venda o 15 de abril.
'O tarot criativo' põe-se à venda o 15 de abril.
“Talvez seja a necessidade de narrativa, ou que todos estão abertos ao intuitivo”, responde Crispin. Pois diante da tomada de qualquer decisão, pode-se dizer que o artista utiliza a sorte não só para ganhar confiança ou segurança —“é como se dissesse: Estou fazendo o que é certo”, declara a escritora — mas também para encontrar um sentido. “A ideia não é usar as cartas para predizer o futuro, mas para deslocar a atenção de certa parte de nossa vida para tentar compreender o que acontece conosco e por quê”, explica. Vejamos um exemplo: a própria Crispin

Ela está prestes a publicar um ensaio, El tarot creativo (Alpha Decay), transformado em espetáculo em La Casa Encendida, que aborda o assunto e que é ao mesmo tempo uma confissão de até que ponto sua vida está sujeita, diariamente, ao que dizem as cartas. Crispin é impulsiva. Há alguns meses conheceu um cara em Chicago. Ia só passar dois dias na cidade e não queria sair com ninguém, mas as cartas disseram que saísse. Duas semanas depois, tinham se casado. Mostra a mão, aponta o anel. E tudo porque toda vez que saía com ele a carta que o baralho lhe mostrava era O Louco. E isso queria dizer que podia perder a cabeça, que tudo daria certo se perdesse a cabeça. Então perdeu.


Crispin, autora do também brilhante Why I am not a feminist (sem tradução para o português), começou a brincar com o tarô ainda adolescente, mas só depois de completar 28 anos é que começou a dominá-lo. Foi quando o transformou em algo como seu melhor amigo, alguém com quem dialoga — ela pergunta, as cartas, como as moedas, respondem, e não com um sim ou com um não mas com uma imagem que em cada caso pode significar algo diferente— e cujo diálogo lhe dá sentido ao que acontece e ao que faz.

“Todo dia tiro uma carta que explica em parte o que vai me acontecer”, diz. Mas não condiciona o fato de saber que pode ser um fiasco — vamos imaginar que a carta seja O Diabo — a que acabe sendo? “Sim, claro, mas acredito que é isso mesmo”. O Carro, por exemplo, diz, é a carta mais “cabal” de todas. “Se um dia sai O carro, quer dizer que vou estar focada”. Você sempre leva em consideração? Ri. “Não é fácil”, diz. Digamos que leva em consideração quando o que dizem se encaixa em seu próprio relato em andamento. “O importante é sempre seguir seu instinto”, conclui, não sem antes recordar que continua não sendo a única escritora hoje em dia que se orienta pelo tarô, pois “quase todos os meus clientes são artistas”.



quarta-feira, 31 de julho de 2019

‘Blade Runner 2049’ reproduz o mito

Cena de 'Blade Runner 2049'


‘Blade Runner 2049’ reproduz o mito

Ryan Gosling é o protagonista da continuação de um filme icônico da cultura. "Tive que processar a ideia de fazer parte de algo imenso", afirma


Gregorio Belinchón
Madri, 20 sep 2017

Nada mais é sagrado no cinema. Tudo está sujeito a remakes, continuações, novas adaptações, reboots, spin offs e qualquer palavra que ocorra a Hollywood. Se até Casablanca teve uma versão futurista com Pamela Anderson (Bela e Perigosa), era plausível que houvesse uma continuação de Blade Runner, uma vez acabados os diferentes lançamentos comerciais de sua versão sem voz em off, da montagem do diretor, do... "Bom, eu estou me preparando para isso a minha vida inteira", confessa Ryan Gosling (London, Ontario, 1980). "O filme estreou quando eu tinha dois anos. E influenciou a cultura na qual eu cresci. Eu o vi com 12 anos e me impactou. Virou parte de mim, porque, com 20 anos, eu me fiz perguntas sobre o futuro que estão em Blade Runner. Eu me mudei para Los Angeles, virei ator e vivi em Downtown, muito perto do edifício Bradbury. Um dia, fui entrevistado por Ridley Scott, que me adiantou partes da história, o que me interessava, e enquanto processava o conceito de fazer parte de algo imenso, já estava em Budapeste filmando junto com Harrison Ford". Em Blade Runner 2049, dirigido por Denis Villeneuve,Gosling herda o protagonista do filme, o oficial K, muito parecido em figurino, solidão e melancolia ao mítico Rick Deckard, que volta às telonas porque, neste século XXI, Ford tomou gosto por recuperar seus personagens.
Como foi ler a continuação de um título tão cultuado? "No meu caso, tudo depende da conexão com o roteiro. Na primeira vez em que li o roteiro de Blade Runner 2049, eu me perdi na história, mergulhei preso à imensa aposta visual e, ao mesmo tempo, à reflexão íntima sobre a vida de personagens complexos". Acontece sempre? "Busco trabalhar com diretores ambiciosos, que me permitam colaborar com suas visões cinematográficas". Como dizia seu filme anterior, La La Land, tudo isso é muito bonito, e é a ambição de todo ator. Agora, se não tiver sorte... Pela primeira vez, Gosling dá risada. "Eu sei, eu sei. É verdade. O que faço é sentir que me conecto com o roteiro, com o diretor, entender o que está fazendo, sentir as emoções do seu personagem. E então..."
Gosling apareceu com a típica blusa que ganhou de Natal da sua avó. Também não se destaca pela elegância com a imprensa. Seu negócio é outro: encarnar homens difíceis, complexos. "Em Blade Runner, há um tipo muito diferente de herói. Era uma das perguntas chave da primeira parte, que questionava os espectadores sobre as diferenças, às vezes mínimas, entre heróis e vilões", lembra Gosling. "Não posso dizer muito mais porque acredito que o espectador precisa desfrutar da experiência, como eu fiz na primeira vez que li o roteiro. Faz 35 anos e vale a pena esperar o filme". Com isso, justifica também por que os jornalistas que entrevistam os atores puderam ver apenas parte do filme: há dez dias, o New York Times revelou um spoiler, um detalhe chave para a trama, e os produtores ficaram bravos. A poucos dias da estreia, em 6 de outubro, ninguém mais verá a íntegra de Blade Runner 2049.
Logo, são os atores que fornecem as informações: "O que podemos contar? Que Ford faz novamente Rick, que o trabalho dos blade runners, caçar replicantes, ficou mais complicado porque o contexto mudou. Agora, são párias, fazem um trabalho que ninguém quer fazer. Meu personagem tem uma existência solitária, sem conexões humanas. E, no começo do filme, suas emoções de tentar algo mais que seu trabalho são exploradas". Gosling não tem dificuldade para responder uma pergunta fundamental: Blade Runner 2049 é a segunda parte de qual versão da primeira? Porque há pequenas variações visuais em algumas que, no entanto, mudam completamente o personagem de Deckard. "Continua a história da versão do diretor". Para o bom entendedor....




O ATOR QUE NÃO INTERPRETA SUPER-HERÓIS


Ryan Gosling, como todos, tem um passado. Começou na televisão, em janeiro de 1993, no Club Disney, e como estava longe de Ontario, sua cidade natal, viveu durante dois anos na casa da família de um dos seus companheiros de programa, Justin Timberlake. Ganhou experiência como protagonista da série O jovem Hércules e começou no cinema, mesclando títulos mais esquecíveis - categoria na qual entra o blockbuster Diário De Uma Paixão - com dramas como Tolerância Zero, Half Nelson - Encurralados e A Garota Ideal. Hoje em dia, é um dos pouquíssimos atores de primeira categoria, dos grandes (fez La La Land, Tudo Pelo Poder, Drive, Namorados para Sempre), que não está em nenhuma saga de ficção científica ou de super-heróis. "Por enquanto, não senti a conexão de nenhuma das propostas com as minhas experiências de vida. Tenho família [dois filhos com a atriz Eva Mendes], então preciso me importar muito com o filme para me afastar deles... E não acredita que meus trabalhos com Nicolas Winding Refin estão construindo o arquétipo do super-herói moderno?", responde, rindo. Haverá uma segunda parte de Drive? Porque o romance já existe. "Não acredito. Nic e eu falamos disso, mas não gostamos muito do material. E seria romper o mistério do personagem".
Seu próximo passo é especial: será Neil Armstrong em First Man. "A pesquisa está sendo maravilhosa, inspiradora. E eu gostaria de classificá-lo como super-herói de carne e osso".


VILLENEUVE, O DIRETOR PERFEITO


A carreira do canadense Denis Villeneuve é incrível. Não tem filme ruim. Ao mesmo tempo, todas sabem chegar ao grande público e se ancoram no aqui e agora de cada espectador. Acontecerá o mesmo com Blade Runner 2049? "Claro, mas o primeiro já falava cara a cara com a audiência sobre como o ser humano encara circunstâncias adversas e como se comporta com outros seres humanos. Dito isso, este é um filme de Villeneuve, com seu enorme respeito pelos homens. Ridley o ajudou, mas Denis seguiu seu instinto. É um diretor admirável".


HARRISON FORD ASSEGURA QUE SE MANTÉM O TOM DE "PESADELO EXISTENCIAL"

Harrison Ford, Ana de Armas e Ryan Gosling, promovendo 'Blade Runner 2049'.
Harrison Ford, Ana de Armas e Ryan Gosling, promovendo 'Blade Runner 2049'. CLAUDIO ÁLVAREZ

G. B. / AGENCIAS
"O que aconteceu com ele faz parte do mistério", respondeu Harrison Ford, sobre em que estado encontrou seu personagem de caçador de replicantes, Rick Deckard, 35 anos depois do original Blade Runner. O popular ator, de 75 anos, afirma que o filme mantém o tom "noir" e de "pesadelo existencial" do primeiro, mas, preocupado com a promoção, alerta: "Não vamos confundir terrível com chato, não é um passeio no parque, mas há tensões, mistérios".
Os fatos acontecem 30 anos depois do primeiro filme, ambientado em 2019. Um novo caçador de replicantes, o agente K (Ryan Gosling), desenterra um antigo segredo que poderia mergulhar no caos o que resta da sociedade. O roteiro é de Hampton Fancher, que adaptou também o filme original do romance de Philip K. Dick, Androides sonham com ovelhas elétricas?, e de Michael Green. Conta com novos personagens que foram interpretados por Ana de Armas, Robin Wirght e Jared Leto.
Ana de Armas destacou, em Madri, que sua personagem é "forte e complexa". "É a amante do agente K, sua melhor amiga, e a única pessoa em quem pode confiar. Ela o empurra a buscar essas respostas que precisa saber", afirmou.
Lançado em 1982, Blade Runner não foi bem na bilheteria na sua época, mas, com o tempo, converteu-se em um filme cultuado, que se moveu entre o cinema negro e o da ficção científica, e discutia questões à frente do seu tempo sobre o que significa ser humano, as classes sociais, a engenharia elétrica e as mudanças climáticas.
EL PAÍS