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quarta-feira, 27 de setembro de 2017

Machado de Assis / Um gênio autodidata da literatura brasileira

Machado de Assis
Poster de T.A.

Machado de Assis, um gênio autodidata da literatura brasileira

Google homenageia o maior expoente do realismo social no Brasil no 178º aniversário de seu nascimento


Joaquim Maria Machado de Assis nasceu no Rio de Janeiro em 21 de junho de 1839, numa família humilde. Era filho de dois ex-escravos mulatos alforriados: o pintor de paredes Francisco José de Assis e a lavadeira Maria Leopoldina Machado de Assis. Essa situação marcou toda a sua vida, já que a escravidão só seria abolida no Brasil 49 anos depois do seu nascimento. Ficou órfão quando era muito pequeno e foi criado por sua madrasta, a também mulata Maria Inês, que lhe apresentou e ensinou as primeiras letras.
Machado de Assis enfrentou muitos desafios por ser um mestiço no século XIX, incluindo o acesso limitado à educação formal. Passou pela escola pública, mas sua formação na verdade foi autodidata, já que nunca foi à universidade. Por outro lado, uma grande ambição intelectual o acompanhou por toda a vida. Em um de seus primeiros trabalhos, na padaria de Madame Guillot, aprendeu a ler e a traduzir francês, e quando já estava perto de completar 70 anos quis começar a estudar grego.


Machado de Assis
Doodle em homenagem ao escritor brasileiro Machado de Assis.


Com apenas 16 anos, Machado de Assis entra em contato com o grupo de escritores que se reunia numa livraria central do Rio e publica seu primeiro poema, Um Anjo. A partir desse momento, sua atividade intelectual será contínua até sua morte, em 1908.
Também trabalha como aprendiz de tipógrafo na Imprensa Nacional. Aos 19 anos, se torna revisor de provas na editora de Paula Brito, e um ano depois no Correio Mercantil. Seu novo ofício o introduz plenamente no ambiente jornalístico e literário.
Colabora nas publicações Marmota, Paraíba, Espelho – efêmera revista que funda com Eleuterio de Sousa em 1858 – e no próprio Correio Mercantil. Sua primeira colaboração em prosa é uma tradução de Lamartine, e seu primeiro estudo crítico importante, O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura, reflete sobre a formação de uma literatura nacional.
Em 1860, aos 21 anos, Machado de Assis começa a colaborar com o Jornal do Rio, onde será o encarregado de escrever sobre os debates no Senado. Obrigado a refletir sobre a política e a vida social, a experiência representará um grande aprendizado para ele, que a essa altura dá sinais de ser um excelente jornalista que começa a forjar esse modo inconfundível de narrar, ao mesmo tempo tão simples e profundo, marcado por uma inteligente ironia.
Sua extensa obra literária é composta por nove romances e peças teatrais, 200 contos, cinco coleções de poemas e sonetos e mais de 600 crônicas. Embora não alcance grande reconhecimento como dramaturgo, o obtém como poeta, com a coletânea Crisálidas (1864), seu primeiro livro, ainda associado ao romantismo.
Dois acontecimentos cruciais na biografia de Machado de Assis marcarão sua vida: seu ingresso na Administração do Estado – primeiro em 1867, como funcionário do Diário Oficial, e depois, em 1873, na Secretaria de Agricultura – e seu casamento com Carolina Xavier de Novais, em 1869.
Ascendeu na carreira de funcionário público até se aposentar como diretor do Departamento de Comércio, podendo a partir de então se dedicar integralmente à literatura, para o que contribuiu também a sua esposa, ao lhe proporcionar estabilidade emocional e estimulá-lo a conhecer os autores ingleses que tanto o influenciaram em suas obras seguintes.
Em 1870, é lançado o segundo volume de poemas Machado, Falenas, mas, embora tivesse então apenas 31 anos, essa década se destacará por sua maturidade e desenvolvimento narrativo. Contos Fluminenses (1870) e Histórias da Meia-Noite (1873), lançados por aquela que viria a ser a sua principal editora, a Garnier, reúnem contos publicados anteriormente no Jornal das Famílias. Ressurreição (1872), seu primeiro romance, é também uma obra convencional, embora já se detecte nele uma das principais características de Machado como romancista: a prospecção psicológica.
Após passar por uma grave crise de saúde entre outubro de 1878 e março de 1879, escreve Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), que trata das relações sociais no Brasil. Com esse romance, narrado pelo defunto Brás Cubas, Machado abandona a fórmula do realismo europeu e, com isso, o predomínio da racionalidade convencional. Nesse romance, ele inaugura a sua fase de maturidade que o eleva à altura dos grandes mestres do realismo do século XIX. É considerado o introdutor do estilo realista no Brasil.
Esses anos marcam também o início de sua inteligente percepção da história brasileira, que revela uma sociedade oposta àquela de uma pátria romântica, com referências à organização servil e familiar e aos desafios da abolição da escravatura e da proclamação da República.
Tão brilhantes como seus romances foram seus contos desta etapa, que fazem de Machado um mestre do gênero, talvez o primeiro grande contista latino-americano. Papéis Avulsos (1882), que inclui O Alienista, Histórias Sem Data(1884), Várias Histórias (1896) e Páginas Recolhidas (1899) são testemunhos disso.
Quase todas essas obras-primas da narrativa brasileira e universal foram escritas em meio à vida plácida e ordenada de funcionário público, e algumas após a sua aposentadoria compulsória, em 1897. Àquela altura, já era considerado havia algum tempo o melhor escritor brasileiro. Sua aclamação como presidente da Academia Brasileira de Letras, da qual foi membro fundador, constituiu um reconhecimento a mais, antes de sua morte, a 29 de setembro de 1908.




sexta-feira, 23 de junho de 2017

Luiz Ruffato / Meus romances brasileiros preferidos



Meus romances brasileiros preferidos

Outra lista, desta vez contemplando apenas autores nacionais, limitada a autores que já se foram e livros publicados até 1977


LUIZ RUFFATO
9 DEZ 2014 - 06:31 COT


Alguns leitores que consultaram a lista dos meus romances preferidos, publicada na edição passada, solicitaram outra, desta vez contemplando apenas autores nacionais. Aceitei arrolar minhas predileções, mas, neste caso, tenho que explicar e justificar algumas opções. A primeira delas: limitei-me a autores mortos, com a raríssima exceção de Raduan Nassar, que deixou de escrever ainda nos anos de 1970. Portanto, circunscrevi meu universo de escolhas até àquela década – o título mais recente é “A hora da estrela”, de Clarice Lispector, publicado em 1977. Outra observação importante: achei melhor citar apenas uma obra de cada autor, mas alguns deles poderiam, com certeza, estar aqui presentes com mais de um trabalho (casos de Machado de Assis e Graciliano Ramos, por exemplo). Finalmente, repito: trata-se de uma lista inútil, por subjetiva e aleatória, mas que talvez, como a outra, desperte curiosidade a respeito de um autor ou de um título. Eis tudo, que é nada...

Os 20 melhores romances, por ordem alfabética:
A chuva imóvel (1963), de Campos de Carvalho (Uberaba, MG – 1916-1998) – O absurdo e o lirismo marcam esse questionamento amargo sobre a morte. Sem possuir uma trama ou um claro fio condutor, o narrador nos conduz pelos terrenos úmidos e traiçoeiros da memória, neste que talvez seja, de seus quatro livros, o único em está ausente o humor. (José Olympio)
A hora da estrela (1977), de Clarice Lispector (Ucrânia – 1920-1977) – Sofisticada narrativa que mistura uma aguda consciência dos problemas sociais com uma elaborada discussão sobre o papel do intelectual em um país do Terceiro Mundo. Rodrigo, o escritor, discute seu processo de escrita, enquanto compõe a história da datilógrafa nordestina Macabéa. (Rocco)
A menina morta (1954), de Cornélio Penna (Petrópolis, RJ – 1896-1958) – O autor registra um dos mais poderosos retratos da escravidão no Brasil por meio do impacto provocado pela morte da filha de um barão do café fluminense nos habitantes da fazenda. Narrativa sombria, é um alentado estudo sobre os recônditos da alma humana. Infelizmente, fora de catálogo.
A Viúva Simões (1897) - Júlia Lopes de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1862-1934) – A autora, injustamente desprezada pela crítica, urde neste livro uma corajosa e ousada trama em que mãe e filha disputam o amor pelo mesmo homem. Antirromântica, desenha uma mulher que, rompendo com padrões sociais, coloca em xeque valores de todos os tempos. (Mulheres – esgotado)
Crônica da casa assassinada (1959), de Lúcio Cardoso (Curvelo, MG – 1912-1968) – Romance sobre a decadência social e moral de uma tradicional família mineira, usa de uma complexa estrutura narrativa para falar de incesto, adultério, homossexualismo, loucura. A atmosfera de pesadelo nasce de um olhar intermediado pela poesia. (Civilização Brasileira)
Fogo morto (1943), de José Lins do Rego (Pilar, PB – 1901-1957) – Último volume do chamado “ciclo da cana-de-açúcar” mostra, com a decadência do Engenho Santa Fé, não só o fim de uma era econômica, mas principalmente a transformação de um mundo, cujos valores baseiam-se na violência, física e psicológica, na ignorância e na corrupção. (José Olympio)
Grande Sertão: veredas (1956), de Guimarães Rosa (Cordisburgo, MG – 1908-1967) – Riobaldo Tatarana desfia sua história num jorro compacto, servindo-se de uma linguagem arrebatadora. Seu companheirismo com Diadorim na jagunçagem pelos sertões de Minas Gerais encobre segredos e dúvidas, a respeito do visto e do indizível. (Nova Fronteira)
Lavoura arcaica (1975), de Raduan Nassar (Pindorama, SP – 1935) – Autópsia de uma família cujos valores, baseados na culpa e na punição, engendram a intolerância e a frustração. Narrado de forma não linear, conta a história da fuga de André da sombra castradora do pai, e sua volta para casa, o que acabará gerando uma tragédia. (Companhia das Letras)
Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), de Machado de Assis (Rio de Janeiro, RJ – 1839-1908) – Dedicado “ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver”, marca a entrada de Machado de Assis no rol dos maiores autores da literatura universal. Cínico e sarcástico, fala ao Brasil de todos os tempos. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Memórias de um sargento de milícias (1854), de Manuel Antônio de Almeida (Rio de Janeiro, RJ – 1831-1861) – Narrativa que beira o picaresco em uma época de domínio das histórias românticas, tem como protagonista um sujeito que tudo faz para se dar bem na vida. Espécie de ilustração do homem comum brasileiro. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Memórias sentimentais de João Miramar (1924), de Oswald de Andrade (São Paulo, SP – 1890-1954) – Escrito em fragmentos e em estilos os mais diversos, usa do sarcasmo para expor a vida do protagonista, João Miramar. Ao fim e ao cabo, trata-se da visão de mundo da elite brasileira, com seu autismo social e absoluto desprezo pelo país. (Globo – esgotado)
O Ateneu (1888), de Raul Pompéia (Angra dos Reis, RJ – 1863-1895) – “Romance de formação”, acompanha as agruras de um sensível garoto de 11 anos no universo de um colégio que prima pela disciplina. Microcosmo da sociedade do fim do século XIX, expõe a violência e a crueldade por trás da fachada da moralidade. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
O cortiço (1890), de Aluísio Azevedo (São Luís, MA – 1857-1913) – Romance coletivo, expõe, de maneira brilhante, o processo de formação social do Brasil, por meio de histórias paralelas. O aristocrata decadente, o burguês ignorante em ascensão, a miséria atávica a que está agrilhoada a população pobre. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
O risco do bordado (1970), de Autran Dourado (Patos de Minas, MG – 1926-2012) – Memorial afetivo, acompanha a visita João Fonseca Ribeiro, alter ego do autor, à mítica cidade do interior de Minas Gerais, Duas Pontes. Pelas ruas ele esbarra, todo o tempo, com lembranças que reavivam o passado, contaminam o presente e determinam o futuro. (Rocco)
O tempo e o vento (1942, 1951, 1962), de Érico Veríssimo (Cruz Alta, RS – 1905-1975) – Composta por sete tomos, o leitor acompanha mais de um século e meio de história do Brasil – centrada na formação do Rio Grande do Sul, pouco a pouco se espraia para o resto do país. Um dos painéis mais completos sobre a mentalidade política nacional. (Companhia das Letras)
Os ratos (1935), de Dyonélio Machado (Quaraí, RS – 1895-1985) – Naziazeno tem uma dívida com o leiteiro. Para saldá-la, percorre por um dia inteiro as ruas de Porto Alegre em busca de alguém que possa lhe emprestar dinheiro. Narrativa do desamparo, possui tal maestria que o real a todo momento parece se dissipar numa quase irrealidade. (Planeta)
Recordações do escrivão Isaías Caminha (1909), de Lima Barreto (Rio de Janeiro, RJ – 1881-1922) – Culto e refinado, o protagonista não consegue se inserir na sociedade porque é negro. Narrativa sobre o preconceito racial, descreve uma realidade, do começo do século XX, que pouco difere da dos dias atuais. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.
Sargento Getúlio (1971), de João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, BA – 1941-2014) – O protagonista é encarregado de levar um preso político até Aracaju. No trajeto, há uma reviravolta política e o coronel de quem o Sargento Getúlio é homem de confiança, emite uma contraordem, que ele não irá acatar, mergulhando-os em um mar de violência absurda. (Alfaguara)
São Bernardo (1934), de Graciliano Ramos (Palmeira dos Índios, AL – 1892-1953) – Paulo Honório expõe suas lembranças, de trabalhador de eito a grande fazendeiro, para tentar compreender seu fim, solitário e amargo. Ambicioso, cruel, inescrupuloso, avaro financeira e afetivamente, quanto mais acumula posses, mais intolerante se transforma. (Record)
Senhora (1875), de José de Alencar (Messejana, CE – 1829-1877) – Moça pobre, Aurélia recebe de herança uma grande fortuna e resolve se vingar das humilhações sofridas. Para isso, compra um marido, financeiramente falido. Retrato perfeito da substituição dos valores da aristocracia decadente pelos da burguesia ascendente. Há inúmeras edições, das excelentes às péssimas.