sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

‘O Método Kominsky’ / Falar do envelhecimento sem perder o humor




‘O Método Kominsky’: falar do envelhecimento sem perder o humor

Michael Douglas e Alan Arkin protagonizam a nova comédia de Chuck Lorre

ROCÍO AYUSO
Los Angeles 6 DEZ 2018 - 13:54 COT

Chuck Lorre aconselha os escritores iniciantes a lembrarem da velha frase: "cuidado com o que você quer, porque pode se tornar realidade". É um aviso porque, se Lorre tivesse visto o seu desejo cumprido, não teriam existido The Big Bang Theory, Two and a Half Men, Momnem O Método Kominsky. “Digo isto porque cheguei a esta cidade com uma Stratocaster, e não com uma máquina de escrever", confessa o produtor e roteirista a EL PAÍS, referindo-se à guitarra que este músico frustrado trouxe debaixo do braço. O atual Lorre não poderia estar mais feliz. "Não consegui o que queria. Consegui algo melhor." Algo que se resume a uma carreira em que acumula oito indicações para o Emmy e em que foi o responsável por algumas das comédias de maior audiência nos últimos anos.
Ele também se recorda dos motivos que o levaram a escrever: precisava de um emprego que pagasse o seguro saúde de sua família. "E o Sindicato dos Escritores oferece a melhor cobertura médica", diz. As voltas que a vida dá, e sem deixar de rir dela, é disso que Lorre, 66 anos, quer falar em O Método Kominsky, cuja primeira temporada está disponível na Netflix.

Lorre fala com este jornal nos estúdios da Warner, onde filmou os oito episódios da nova série, a segunda que criou para a Netflix depois de Disjointed. Garante que esta é a mais pessoal entre as que escreveu. "Sinceramente, eu queria falar sobre o que estou vivendo, o que é envelhecer, o que acontece com seu corpo, o que acontece com sua mente, como você vai se degenerando", diz. Na verdade, não é necessariamente sobre sua vida, mas sobre seu entorno. Embora os protagonistas sejam um ator transformado em professor de arte dramática (Michael Douglas) e seu agente (Alan Arkin), O Método Kominsky não é uma ficção sobre como envelhecer em Hollywood. "Falar sobre os problemas de próstata parece muito mais interessante do que falar sobre Hollywood", ri o criador e produtor.
Doenças, mortes, filhos, sonhos, ansiedades, problemas econômicos... Nenhum dos temas parece de cara dar motivo para uma comédia. Mas Lorre sabe levar isso com humor e espera que os espectadores também o façam. "Reconhecer como nossos corpos estão indo para a merda me faz rir", acrescenta. Mas ele não busca a gargalhada. Agradece pela filmagem ter sido feita sem plateia, ao contrário de seriados tradicionais, e, além disso, gostou de poder rodar ao ar livre para complementar os sets construídos nos estúdios da Warner. Não se trata de humor grosseiro ou de uma série sobre o que está por vir para os protagonistas. "É uma carta de amor à amizade", resume.

Para esta aventura não seria possível encontrar melhores cúmplices que Douglas e Arkin. Ambos aceitaram assim que leram o roteiro, primeiro Michael, depois Alan. E com a sua presença o sim da Netflix veio depressa. O mesmo aconteceu com as inúmeras aparições de outros amigos que atuam na série: Danny DeVito, Ann Margret, Jay Leno, Patti Labelle ...



quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Paul Auster / “Não sei se tenho forças para escrever outro romance”

Paul Auster 

Paul Auster: “Não sei se tenho forças para escrever outro romance”

Depois de sete anos, o escritor publica “4321”, que usa elementos autobiográficos de sua infância

Eduardo Lago
2 Set 2017
Autor de cerca de trinta volumes entre poesia, ensaios, roteiros de cinema e livros de memórias, Paul Auster é mais conhecido por sua ficção. Seu décimo-sétimo romance, publicado em inglês no final de janeiro passado, aparece agora em espanhol depois de sete anos de silêncio na ficção – no Brasil o livro ainda não tem data de lançamento, mas já está traduzido para português de Portugalpela editora ASA. Com um título enigmático, 4321 (Seix Barral, traduzido por Benito Gómez Ibáñez) é uma proposta narrativa radicalmente diferente das anteriores. A conversa acontece em uma aconchegante sala de estar de sua casa no Brooklyn, onde vive com sua esposa, a escritora Siri Hustvedt.
“Quando terminei Sunset Park estava mentalmente exausto e decidi deixar passar um tempo antes de escrever outro romance novamente. Eu me dedique a dois livros autobiográficos: Diário de Inverno e Relatório do Interior. Foi uma forma, especialmente com o segundo, de voltar ao território apagado da infância. Era incrível ver como as memórias vinham à tona, não estava consciente de quanto tinha esquecido. Quando terminei esses livros comecei a acariciar a ideia de escrever um romance sobre as primeiras fases da vida de um indivíduo, desde o nascimento até a entrada no mundo dos adultos”.
4321 é um romance insólito dentro do cânone austeriano. Com 960 páginas é, de longe, seu livro mais extenso. O estilo também mudou. A prosa minimalista dá lugar a uma sintaxe arborescente, com frases longas e sinuosas. A base entre filosófica e noir dá lugar a uma narrativa costumbristacom uma ressalva importante. Em vez de uma peripécia argumentativa única recebemos quatro variantes possíveis da história do protagonista. “É a novela mais realista que já escrevi”, admite o autor. “Tudo é direto e imediato, sem truques ou ilusões. A única audácia é a estrutura. Ocorreu-me de repente, um dia quando estava lendo o jornal no meu escritório: em lugar da viagem de uma pessoa desde o nascimento até a idade adulta, contaria quatro caminhos distintos com variações sobre um fundo comum”.
A infância do protagonista de 4321 (ou de seus quatro avatares) tem muito em comum com a de Paul Auster. Archie Ferguson nasceu em Newark, Nova Jersey, em 1947, como seu autor, apenas um mês depois que ele, em uma família de descendentes de imigrantes judeus da Europa Central. “A América dos anos cinquenta foi uma época feliz para mim. Minha grande paixão sempre foi o esporte, mas em paralelo desenvolvi um interesse desmedido pela leitura, algo até certo ponto inexplicável, porque na minha casa ninguém lia”.
– Quais foram os primeiros passos de Paul Auster na literatura? Que leituras foram decisivas na formação de sua sensibilidade?
– Comecei a escrever com nove anos, poemas sem nenhum valor, obviamente, mas que indicam algo importante: a poesia sempre foi uma presença fundamental na minha vida. Escrevi meus primeiros contos quando tinha 10 anos de idade. Aos 12 entreguei um muito longo ao professor e ele pediu que eu lesse em voz alta na frente de toda a classe.
Com 13 anos, leu tudo de Camus e grande parte da obra de Gide, além dos grandes romancistas russos. Duas leituras realizadas aos 15 anos causaram grande impacto nele, Cândido, de Voltaire, e especialmente Crime e Castigo, de Dostoiévski. “Aquele livro me deixou transtornado. Nunca tinha lido nada parecido; quando terminei decidi que se alguém tinha sido capaz de criar algo assim, eu também queria tentar”.
Quando pergunto pelos escritores norte-americanos ativos durante seus anos de formação, Paul Auster volta a fazer uma reivindicação contundente da poesia: “Não me interessavam, só os poetas me atraíam. Durante minha adolescência, a poesia norte-americana passava por uma verdadeira era dourada. Poderia citar muitos nomes: Robert Creeley, Charles Olson, Robert Duncan, George Oppen, Louis Zukovski, W. S. Merwin, Elizabeth Bishop, Robert Lowell, Theodore Roethke, Sylvia Plath. E estou apenas arranhando a superfície, a lista é infinita.”

A escrita exige uma entrega sem fissuras, abrir-se a toda dor e alegria. Fazer isso direito requer coragem moral

Paul Auster não procurava na poesia um veículo para se expressar como criador. Embora tenha publicado livros de poemas, sempre foi consciente de suas limitações. Seu único interesse era se tornar romancista. Por muito tempo esteve convencido de que nunca conseguiria: “Minha ambição era ser capaz de escrever um romance, mas não tinha a preparação e a experiência”, diz ensimesmado. Os anos que passou na Universidade de Columbia foram decisivos. Aos 22 anos já tinha numerosos cadernos completos, que somavam umas mil páginas, contendo o embrião de vários romances: “O material estava lá, mas eu ainda não estava preparado para dar forma, faltava o equipamento mental necessário. Ainda não tinha ideias claras sobre como escrever ficção. Quando terminei a faculdade estava muito frustrado. Cheguei a pensar que nunca seria romancista. Até os 30 anos escrevi poesia e ensaios, mas nem uma única linha de ficção”.
Após a formatura, Auster viajou para a Europa, trabalhou em um petroleiro e passou um tempo na França com a escritora Lydia Davis, que conheceu na faculdade. Eles se casaram em 1974 e se estabeleceram em uma casa de campo no condado de Duchess, Estado de Nova York. Depois de uma difícil convivência, em 1978 eles se separaram. Paul Auster sentiu que tinha atingido o fundo.
“Foi o pior momento da minha vida. Tinha 30 anos, nenhum dinheiro e meu casamento estava afundando. A cada dia aumentava minha convicção de que nunca conseguiria ser escritor. Uma noite no final de dezembro de 1978, meu amigo David Reed, o pintor, me levou para ver uma coreografia e durante o espetáculo senti que se abria uma porta dentro de mim. Ao voltar para casa comecei um longo texto em prosa, Espaços em Branco. Terminei em janeiro, enquanto caía uma nevasca impressionante. Foi uma das noites mais importantes da minha vida. Fui dormir com a sensação de que finalmente podia dizer que era escritor. Na manhã seguinte, domingo, o telefone tocou muito cedo. Meu pai tinha morrido de um ataque cardíaco naquela mesma madrugada. Duas semanas depois, comecei um livro sobre ele. Quando estava terminando conheci a Siri, a pessoa mais importante da minha vida, em uma leitura de poesia”.
Invenção da Solidão (1982) teve uma excelente recepção crítica, mas o mais importante é que devolveu ao escritor a confiança que precisava para voltar aos manuscritos guardados durante anos em sua gaveta. “Era uma massa textual disforme, mas ali estavam os argumentos dos meus primeiros cinco romances. Graças à disciplina e experiência que adquiri escrevendo a Invenção da Solidão, consegui transformá-los na Trilogia de Nova YorkPalácio da Lua e No País das Últimas Coisas”.
Aqueles livros contêm a identidade do primeiro universo narrativo de Paul Auster, uma forma de entender a literatura que fundia as marcas de Kafka, Beckett e Camus com a ficção detetivesca ao estilo de Dashiell Hammett, histórias e argumentos que seguiam desenvolvimentos semioníricos, episódios paradoxais, cheios de insólitas coincidências em um mundo de preocupações existenciais e jogos metafísicos ao mesmo tempo que metaliterários, narrados com límpida elegância.

Às vezes eu me pergunto por que passei a vida trancado quando do lado de fora o mundo está cheio de possibilidades

“A partir de Palácio da Lua tudo é novo”, diz Auster respondendo à sugestão de que realize um resumo rápido de seus romances mais significativos. O genoma de sua escrita é complicado por fábulas como Leviatã(1992) ou fantasias como Mr. Vértigo(1994). Depois deles, o escritor explorou o mundo do cinema fazendo filmes como Cortina de Fumaça (com Wayne Wang) e Sem Fôlego, ambos em 1995. O cinema de Paul Auster é uma espécie de extensão mágica de seu universo narrativo. “Sair do mundo sufocante da escrita e explorar uma nova forma de contar histórias, trabalhando com pessoas, foi uma experiência emocional maravilhosa”, diz. Depois de filmar O Mistério de Lulu (1998), Auster voltou ao mundo da literatura em código de fantasia com Timbuktu. São muitos romances, mas o autor cita os títulos de todos, comentando-os sucintamente. Quando pergunto quais são para ele as maiores conquistas de sua segunda época, responde sem hesitar: “O Livro das Ilusões e Sunset Park”.
A conversa volta naturalmente para 4321. No livro há muitos elementos que vêm diretamente de sua vida: um dos quatro Archie Ferguson morre quando cai sobre ele o galho de uma árvore atingida por um raio. Seu epitáfio é uma página em branco. Os três Ferguson restantes querem ser escritores. Um deles estuda na Universidade de Columbia e entre seus colegas de classe aparecem vários personagens de histórias anteriores de Paul Auster. O romance reconstrói cuidadosamente os protestos estudantis de 1967, que o autor viveu muito de perto.
“Roubo coisas da realidade, como deve fazer todo escritor, episódios da minha vida, como meu primeiro martíni, minha amizade com Pierre Matisse, o galerista, ou a história da dona do prostíbulo no Texas que reciclava preservativos, lavando-os e colocando para secar enfiados em cabos de vassouras. São fatos reais, mas isso não importa. O que importa é o que a ficção faz com eles.”
4321 está cheio de conotações simbólicas. “Queria que fosse publicado quando fizesse 70 anos. Comecei aos 66 anos, a idade que tinha meu pai quando morreu. Viver mais que ele me fez sentir que estava cruzando um limite”. No Diário de Inverno, lemos: “Uma porta foi fechada e outra foi aberta. Você entrou no inverno de sua vida”. Quando é lembrado de suas próprias palavras, o escritor concorda: “Por muito tempo vivi com o fantasma da morte súbita, mas agora já superei.” A poesia, mais uma vez, vem em seu auxílio na hora de explicar o mistério da vida quando, sem saber como, quem a viveu de repente vislumbra o final. Auster citou muitas vezes um verso de George Oppen sobre a velhice que diz: “Que estranho que uma coisa assim aconteça a uma criança”.
Refletindo sobre a solidão inerente ao ofício de escrever, Auster comenta: “Às vezes me pergunto por que passei a vida trancado em um quarto escrevendo quando do lado de fora o mundo está cheio de possibilidades. A escrita exige uma entrega sem fissuras, abrir-se a todas as formas possíveis de dor, de alegria, a todas as emoções que é possível sentir. Fazer isso bem requer coragem moral. Nenhuma outra profissão exige que a pessoa entregue o ser, a alma, o coração e a cabeça sem saber se haverá uma recompensa no final”. Isso significa que nunca mais vai haverá outro romance de Paul Auster? “Não quero afirmar categoricamente, mas não sei se tenho a força necessária para escrever”.


O ACASO E A MORTE


EDUARDO LAGO
De acordo com o momento, Paul Auster invoca quatro histórias diferentes que explicam por que acabou sendo escritor. Em todas o acaso e (exceto em uma) a morte cumprem um papel determinante. Na primeira, o futuro escritor tem oito anos e está perto do estádio dos Giants. Depois de assistir a um jogo de beisebol, está voltando para casa com seus pais quando aparece o lendário Willie Mays na frente dele. Incapaz de controlar a emoção, o pequeno pede um autógrafo. Mays concorda, mas quando chega o momento de assinar, ninguém tem um lápis. Naquele dia tomou a decisão de nunca mais sair na rua sem um lápis, embora não chegou a precisar dele: 52 anos depois, já um autor reconhecido, ganhou de Willie Mays uma bola de beisebol autografada.
Na segunda história, Auster tem 14 anos e está em um acampamento de verão quando uma tempestade o surpreende com alguns companheiros em uma floresta. Pensando que o melhor é procurar abrigo em uma clareira que é acessível apenas passando sob uma cerca de arame farpado, os rapazes decidem passar um de cada vez. Quando o menino que ia na frente dele estava fazendo isso, caiu um raio em cima dele e o eletrocutou. “Naquele dia aprendi que a morte anda à espreita entre nós e pode atacar a qualquer momento. Essa ideia está na base de tudo que escrevo”, diz o escritor no início da longa conversa sobre 4321.
Em outro momento, evocando a figura de seu pai, Auster menciona “sua grande tragédia familiar”. Não a viveu diretamente, mas era inevitável que o escritor acabasse sendo o depositário daquela história. Quando Sam Auster tinha sete anos, sua mãe, avó do escritor, assassinou o marido na cozinha da casa da família. “Meu pai tinha sete anos, era o mais jovem dos irmãos, e teve que viver toda sua vida com aquilo”.
Na quarta história, na qual também aparece seu pai, a morte e o acaso se combinam de maneira diabólica. Na noite que, depois de um bloqueio de 10 anos, Paul Auster finalmente conseguiu escrever um texto em prosa que o deixa satisfeito, seu pai morria de um ataque cardíaco enquanto fazia amor.




segunda-feira, 5 de novembro de 2018

Quem é e onde está a misteriosa mulher que herdou a mansão e a fortuna de Freddie Mercury?

Freddie Mercury com sua amiga (e posterior herdeira) Mary Austin no Royal Albert Hall de Londres, em novembro de 1985

Quem é e onde está a misteriosa mulher que herdou a mansão e a fortuna de Freddie Mercury?

Mary Austin teve uma relação de seis anos com o vocalista do Queen, mas eles foram amigos íntimos até o final. 28 anos depois, ela guarda boa parte de seus milhões — e também de seus segredos



Guillermo Alonso
4 nov 201

Mary Austin (1951) mora numa das maiores casas de um dos bairros mais caros de Londres, rodeada por muros intransponíveis que atraem todo ano admiradores do mundo inteiro. Mas pouco se sabe sobre ela. Provavelmente, a estreia de Bohemian Rhapsody, o filme sobre a vida de Freddie Mercury e a ascensão ao estrelato da banda Queen, dê algumas pistas. Pois se Austin mora ali, é porque Mercury lhe deixou quase toda a fortuna quando morreu, em 1991.

“Os meses posteriores à morte de Freddie foram os mais solitários e difíceis da minha vida. Tive muitos problemas para aceitar que [ele] tinha ido e tudo o que havia me deixado”
Mary Austin

De Freddie Mercury sabemos muito mais. Mesmo 27 anos após sua morte, seu poder de atração e seu fascínio não diminuíram. Para alguns analistas, até aumentaram. De todos os discos que o Queen vendeu nos Estados Unidos (mais de 32 milhões), metade foi após a morte do vocalista. Para muitos, com seu falecimento nasceu a fascinação pela estrela morta, esse fenômeno que faz com que as vendas de um artista atinjam a estratosfera quando o ídolo se vai. Foi assim com Michael Jackson, George Michael e Whitney Houston. Se Mary Austin, a mulher que Freddie Mercury considerou sua “esposa”, é hoje imensamente rica, isso acontece, em parte, graças a esse poder de fascinação que não cessa — e que se traduz em milhões de dólares de direitos autorais todos os anos. Mas, afinal, como começou essa história?

Segundo o documentário Freddie Mercury: The Untold Story, Freddie e o guitarrista Brian May frequentavam nos anos setenta a butique londrina Biba, centro oficial do movimento Swinging London da década anterior. Eles iam até lá para observar as balconistas, famosas na cidade por sua beleza (Anna Wintour, hoje diretora da Vogue USA e mulher mais poderosa do mundo da moda, trabalhou na butique quando jovem). Uma delas era Mary, que Freddie costumava encontrar na loja antes de começarem a sair.
Freddie e Mary moraram juntos, como um casal, durante seis anos. Mas nunca se casaram. Ele contou a ela que era gay em 1976, embora Mary tenha declarado que havia percebido um comportamento estranho nele durante dois anos. “Sabia que não estava sendo sincero consigo mesmo”, disse ela depois.
Quando o cantor abandonou o apartamento que dividiam em West Kesington (Londres) já transformado em cantor mundialmente famoso e milionário, ele comprou para Austin uma casa ali perto e lhe deu emprego como sua assistente pessoal. Freddie se mudou para uma casa na Stafford Terrace, onde morou antes de mudar para aquele que seria seu último lar, Garden Lodge. Ficava perto do apartamento de Mary. Segundo alguns, de lá ele podia inclusive ver a casa de Mary.


Freddie Mercury e Mary Austin, numa festa organizada na casa dele em 1977.
Freddie Mercury e Mary Austin, numa festa organizada na casa dele em 1977. GETTY IMAGES


Mercury começou então a ter relações mais frequentes com homens. Algumas de um jeito mais ambíguo (como a que manteve com o DJ Kenny Everett), outras totalmente sentimentais (Jim Hutton esteve com ele desde 1985 até sua morte). Mas o cantor se referia sempre a Mary como “minha esposa”. “Para mim, foi um casamento. Acreditamos um no outro. Todos os meus amantes me perguntaram por que não poderiam substituir Mary. Porque simplesmente é impossível”, declarou o astro.
Mary também refez sua vida amorosa. Teve dois filhos com um empresário chamado Piers Cameron. Freddie foi padrinho do primogênito, Richard. O segundo, Jamie, nasceu após a morte do cantor. Mas as vidas de Mary e seus dois filhos (ela acabou se separando de Piers) mudaram radicalmente em 24 de novembro de 1991, dia em que Mercury morreu. Com seu testamento, que se tornaria público em maio de 1992, soube-se que o artista deixara a Mary sua mansão de Garden Lodge, avaliada em 22,5 milhões de euros na época (94,5 milhões de reais pelo câmbio atual), e a metade de sua fortuna (e futuros dividendos por direitos autorais), inicialmente estimada em mais de nove milhões de euros (37,8 milhões de reais). Mas é preciso considerar que os membros vivos do Queen continuam fazendo turnês bem-sucedidas, e há um musical de enorme êxito sobre a banda, We Will Rock You. Só em 2014, por exemplo, estima-se que o grupo tenha faturado mais de 54 milhões de euros (130 milhões de reais) em direitos autorais. Grande parte dessa renda anual vai para Mary.


Mary Austin, numa de suas poucas aparições públicas, numa festa em Londres, em 2002.
Mary Austin, numa de suas poucas aparições públicas, numa festa em Londres, em 2002.GETTY IMAGES


Para seu companheiro, Jim Hutton, Freddie deixou 560.000 euros (1,3 milhão de reais). A mesma quantia para seu assistente pessoal, Peter Freestone, e para seu cozinheiro, Joe Fanelli. Para sua irmã, deixou os 25% restantes de seu patrimônio. E aos pais, hoje falecidos, outros 25%.
Mary Austin continua morando em Garden Lodge, a casa de Londres onde Freddie Mercury viveu seus últimos anos e faleceu, perto da estação Earl’s Court do metrô. Trata-se de um lugar de peregrinação para milhares de admiradores. Nos anos noventa, os muros que rodeavam a casa se transformaram no maior santuário do rock, sempre cheio de cartas, mensagens e dedicatórias (Mary Austin retirou-as no ano passado, em meio a grande polêmica, devido à pressão dos moradores desse bairro elegante).
É uma mansão em estilo georgiano com 28 aposentos e um grande jardim. Foi a própria Mary que a escolheu para Freddie. Mas o que seria um sonho para qualquer mortal acabou sendo para ela, segundo declarou numa entrevista em 2000, a pior etapa. “Os meses posteriores à morte de Freddie foram os mais solitários e difíceis de minha vida. Tive muitos problemas para aceitar que ele tinha ido embora e tudo o que tinha me deixado.” Tornar-se rica de repente e lidar com uma mansão e todos os empregados não foram seus únicos problemas: como era de se esperar, outros familiares e amigos de Freddie não entenderam por que ela havia ficado com tanto.
A mãe do cantor, Jer Bulsara, que morreu em 2016, concedeu em 2012 (aos 90 anos) uma terna entrevista para o Daily Telegraph indicando que, ao menos de sua parte, não havia nenhum tipo de rancor pela decisão do filho. “Mary era adorável e costumava vir comer na nossa casa”, contou Bulsara à jornalista Angela Levin. “Eu adoraria que se casassem e tivessem uma vida normal, com filhos. Mas, mesmo quando terminaram, eu sabia que [ela] continuava amando meu filho. Foram amigos até o final. Não a vi mais desde que ele morreu.” A pergunta seguinte da jornalista foi óbvia: “A senhora achou correto ele ter deixado para Mary a maior parte da sua herança milionária?” A mãe de Freddie respondeu: “Por que não? Ela era como sua família, e ainda é.”

“Para mim, foi um casamento. Acreditamos um no outro. Todos os meus amantes me perguntaram por que não poderiam substituir Mary. Porque simplesmente é impossível”
Freddie Mercury

Mary tem hoje 68 anos e um dos segredos mais bem guardados do rock: o lugar onde jogou as cinzas do vocalista do Queen. As teorias são várias: as cinzas teriam sido espalhadas no jardim japonês da mansão em Londres, jogadas num lago suíço aonde Freddie ia às vezes em busca de paz, regressado a Zanzibar (onde Freddie nasceu, já que seu pai trabalhava para a britânica Secretaria das Colônias), e por aí vai.
Sobre isso, Mary guarda um silêncio tão férreo quanto os muros que rodeiam a mansão herdada da grande estrela do rock.


PESSOA
25 anos da morte de Freddie Mercury /  Assim viveu seus últimos dias

DE OTROS MUNDOS


quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Patricia Arquette / Uma lutadora antes mesmo de nascer

Patricia Arquette


Patricia Arquette: uma lutadora antes mesmo de nascer

Patricia Arquette foi criada em uma família de artistas de ambiente reivindicativo

Na entrega do Oscar, fez um discurso em favor da igualdade de direitos para as mulheres


Rocío Ayuso
Los Angeles, 27 Feb 2015

Patricia Arquette levou o discurso escrito ao Oscar. Sua defesa da igualdade da mulher conquistou a simpatia de estrelas tão díspares como Meryl Streep e Jennifer López, unidas no mesmo grito de solidariedade, ou de vozes afastadas da cerimônia do cinema como Hilary Clinton, em pré-campanha eleitoral ainda sem ser candidata à Casa Branca, ou a Secretária de Trabalho dos EUA, que mostrou seu apoio às palavras de Arquette em um tímido tuíte.
Mas esse mesmo discurso trouxe críticas, muitas, porque quem é ela, uma privilegiada com o Oscar na mão pela atuação em Boyhood, para pedir a gays, lésbicas, negros, e qualquer minoria ou maioria, que ajudem as mulheres em sua luta por igualdade salarial e de direitos.
Patricia Arquette

O discurso estava escrito, mas Patricia Arquette (1968, Chicago) tem a revolução no sangue. Desde antes de nascer, quando ainda estava no ventre de sua mãe. Mardi Arquette participava de uma manifestação em defesa das liberdades civis quando Martin Luther King Jr. a viu em seu avançado estado de gestação e a convidou a subir com ele no ônibus. Mardi chegou a Chicago (EUA) bem a tempo de dar à luz a filha do meio da extensa família Arquette. “É claro que sou um produto de minha infância. Minha mãe lutou muito economicamente, toda minha família lutou muito, assim mantenho o coração de uma criança pobre e as lembranças de uma criança pobre. Chegávamos a ter tudo o que necessitávamos, mas era impossível contar com qualquer outra coisa além de cobrir as necessidades”, reconheceu Arquette recentemente a este jornal.
É um tema recorrente em sua conversa, ao qual também fez referência quando ganhou o Globo de Ouro. Uma infância dura, mas que valoriza. “Venho de uma longa linhagem de atores”, recorda com orgulho a atriz precedida por várias gerações de comediantes. “E meu pai sempre nos apoiou, de trabalho em trabalho, com cinco bocas para alimentar. Sei como é difícil ser ator”, acrescentou em referência a seu pai, Lewis Arquette, membro de diferentes grupos de teatro, assim como seu avô, Cliff Arquette. Como recorda Patricia, ela cresceu entre um pai que falava de Stanislavsky, de cinema, de teatro e de interpretação e uma mãe ativista, atriz e terapeuta interessada em arquétipos, em mitologia, nas características que englobam e diferenciam o ser humano. Ambas coisas muito úteis para um intérprete e “como mecanismo de defesa” em sua vida, admite. Um estilo de vida que também seguiram seus irmãos Rosanna, Richmond, David e Alexis (nascido Robert antes de mudar de sexo), todos dedicados ao mundo do espetáculo.
Patricia Arquette

Realmente, para Patricia Arquette, não existe outro mundo. “Não que eu pense que sou a melhor, mas o faço o melhor que posso, cresço, aprendo”, reconhecia humilde durante a temporada de prêmios. Nunca chegou a ser uma estrela do cinema como aquelas que agora a apoiam em sua luta pela igualdade da mulher, mas obteve desde o começo um reconhecimento por seu trabalho em filmes marginais, desde o primeiro True Romance dizendo as falas de Quentin Tarantino, até a loucura com David Lynch intitulada Estrada Perdida.
No meio dessa loucura, o destino a uniu a Nicolas Cage. Formaram um dos casais mais singulares de Hollywood, duas linhagens da mesma indústria, o peso dos Coppola e a independência bizarra dos Arquette unidos pelo acaso e pela busca de objetos incomuns como uma orquídea negra, um autógrafo do J. D. Salinger e uma estátua do gordinho de Big Boy. Foi esse tipo de coisas que Arquette pediu a Cage quando se conheceram. O ator cumpriu todas as provas e pouco depois conquistou princesa. Mas, como brinca a atriz, agora que o tempo passou, o príncipe encantado às vezes não é tão encantado. “Às vezes te enrolam um pouco”, explica sem dizer nomes. Poderia estar se referindo a Cage ou ao pai de Enzo, o músico Paul Rossi, com quem teve um relacionamento aos 20 anos. Ou possivelmente a Thomas Jane, o pai de sua segunda filha, Harlow Olivia. “Já sou um pouco Zsa Zsa Gabor. Tenho dois divórcios”, gaba-se com humor a atriz que mal chega a um metro e meio.
Enzo acaba de entrar na universidade e Harlow (12 anos) ainda é “o bebê” dessa mãezona que agora celebra suas conquistas com um novo homem a seu lado, o artista Eric White. O sucesso sorriu para ela não só com o Oscar de melhor atriz coadjuvante, por Boyhood, mas também com a carreira na televisão, primeiro com a série Medium, depois com Broadwalk Empire e agora com a estreia de CSI: Cyber, mais um spin-off da popular saga policial. Mas isso não a afasta das reivindicações que a acompanham desde sua infância, até mesmo antes de nascer.
Como afirmou em meio à polêmica que ela mesma gerou, na mente de Patricia Arquette ainda estão frescas as lembranças das mamadeiras e fraldas de quando era só uma mãe solteira trabalhadora de 20 anos. “O sucesso atual simplesmente me permite atrair a atenção para os problemas mais urgentes”, acrescenta quem, a poucas horas de sua vitória, preferiu organizar um ato beneficente em vez de relaxar e desfrutar de uma boa manicure antes da festa mais desejada de Hollywood.

A SAGA ARQUETTE

Patricia é terceira de cinco irmãos artistas: Rosanna (Procura-se Susan Desesperadamente), Richmond (Seven), Alexis (Good bye America) e David (Scream). São a terceira geração de uma família de atores, também dedicados à direção e à produção. O avô Cliff Arquette, comediante de rádio e televisão, desenvolveu no final dos anos trinta uma máscara de borracha transpirável que permitia gesticular e mudar de rosto.
EL PAÍS