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domingo, 15 de fevereiro de 2015

Natalie Portman / “O sucesso não é algo que preencha ou complete”

Natalie Portman

FESTIVAL DE CINEMA DE BERLIM 

Natalie Portman

“O sucesso não é algo que preencha ou complete”




Atriz fala da sua carreira depois da estreia de ‘Knight of Cups’ no Festival de Berlim



A atriz Natalie Portman, em Berlim. / GETTY
Ela diz que Terrence Malick já estava havia anos no topo do seu panteão pessoal. Quando estudava Psicologia em Harvard, Natalie Portman (Jerusalém, 1981) descobriu um filme chamado Cinzas no Paraíso. "Fiquei fascinada. Foi o meu favorito desde então", recordava a atriz – com sorriso indelével e demonstrando muita vontade de conversar – na segunda-feira em uma suíte do hotel onde se hospeda em Berlim. Há dez anos, a atriz se atreveu a solicitar um encontro com esse cineasta esquivo, que a havia marcado em sua época universitária. "Ele aceitou me conhecer e continuamos em contato por vários anos, até que ele me ligou e me propôs este filme."
O resultado, intitulado Knight of Cups, deixou a Berlinale dividida entre o aplauso e o bocejo, entre quem vê no filme um supérfluo monólogo interior com a mesma carga metafísica de uma propaganda de perfume e os que acreditam que condensa nossa busca existencial em um par de horas de incrível beleza. Portman, decididamente, está no segundo grupo. "Cada diretor é diferente, mas todas as filmagens se parecem. Primeiro penteiam e maquiam você. Depois você ensaia enquanto preparam as luzes. E depois roda três tomadas, ou mil se o diretor for David Fincher", brinca a atriz. "Malick faz você lembrar que não existem regras. Nos seus filmes não há holofotes nem marcas no chão. Seu único objetivo é abraçar o fortuito e capturar algo belo a cada dia. Se começar a chover, ele roda sob a chuva. Se passar um helicóptero, ele o integra ao filme. Se vê um pássaro voar, filma-o durante uma hora."
Nessa obra lírica e sem argumento definido, um homem em plena crise existencial –um Christian Bale taciturno e amargurado – recorda, uma por uma, as relações que marcaram sua vida. Entre elas figura a personagem de Portman, uma mulher casada, com quem porá fim a uma longa série de aventuras com modelos e strippers. "O filme resume a experiência do homem moderno, que busca algo sem saber o que é. Em um nível ou outro, todos podemos nos identificar com isso", afirma a atriz.

Malick faz você lembrar que não existem regras, seu único objetivo é abraçar o fortuito
A experiência descrita é universal, mas não parece coincidência que Malick a tenha ambientado em Los Angeles. Ou que seu protagonista alcance a glória na meca do cinema. Quando se afina o ouvido, escuta-se recitar O Progresso do Peregrino, best-seller do século XVII assinado por John Bunyan, um pregador puritano que conseguiu um enorme sucesso entre os primeiros colonos do Novo Mundo.
O que terá acontecido para que a longínqua utopia dos pais fundadores tenha se transformado em um ostentoso bacanal numa mansão hollywoodiana? "É um lugar aonde todo mundo chega com um sonho, com um desejo puro que às vezes se transforma em uma busca por coisas vazias, como o dinheiro, a fama ou a atenção alheia", reinterpreta Portman. "Já dizia Saul Bellow que, se levantássemos o país pelo lado direito, tudo o que não está solidamente enraizado iria parar em Los Angeles".
Portman conhece bem o mundo que o filme esboça. É atriz desde os 12 anos, quando estreou no cinema (em O Profissional). "Quando você começa tão jovem, acaba com a pele curtida. Acostuma-se a escutar tanto galanteios desmedidos como horrores sobre a sua pessoa. Afinal, acaba por não acreditar em nada", diz a atriz, ganhadora do Oscar em 2011 por seu papel em Cisne Negro. "Foi bonito, mas no dia seguinte voltei à vida real", garante. "Quando você alcança o que outros definem como sucesso, acreditando que tudo será genial quando você conseguir, percebe que nada mudará. Não é algo que preencha ou complete, o que para muitos acaba sendo desconcertante. Essa plenitude você encontra em outras coisas. Sabe, esses clichês...". Pressionada a esclarecer quais, acrescenta: "Você a encontra na sua relação com seus amigos e familiares. Mas também com os estranhos. Sua forma de interagir com um desconhecido é crucial".
Os personagens de Malick se encontram à deriva. Procuram consolo no amor, nos excessos noturnos, na oração religiosa e as cartas do tarô. Buscam-se sem se encontrar, refugiam-se na vida familiar e se espetam com garfos para poderem sentir algo. Portman parece mais centrada do que todos eles juntos. Nos últimos cinco anos, casou-se, teve um filho e se mudou para a França, onde seu marido, o coreógrafo Benjamin Millepied, dirige a Ópera de Paris. "Tudo mudou tão rapidamente que percebi que não posso controlar o futuro. O melhor é viver o instante, guiar-se por suas paixões e estar aberta ao que possa acontecer", conclui a atriz antes de desaparecer. "Como em um filme de Malick."


sábado, 14 de fevereiro de 2015

A estreia decorosa de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ no cinema




A estreia decorosa de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ no cinema

Chama a atenção sobretudo a interpretação da protagonista, Dakota Johnson


Cincuenta sombras de Grey
Dakota Johnson e Jamie Dornan em '50 tons de cinza'.
Embora pareça incrível, à raiz da versão cinematográfica de Cinquenta Tons de Cinza está Persona, de Ingmar Bergman. Cada atriz que fez um teste diante da diretora britânica Sam Taylor-Johnson, reputada artista e fotógrafa – mas que até agora havia dirigido apenas um longa-metragem, O Garoto de Liverpool (Nowhere Boy), sobre os Beatles – lia quatro páginas de um monólogo dessa obra-prima. Segundo a diretora, em declarações anteriores à estreia, “assim sabíamos quem seria capaz de encarar uma viagem emocional complexa”.
Isso não é visível, por enquanto, em Cinquenta Tons de Cinza, cuja estreia mundial aconteceu no Festival de Cinema de Berlim poucas horas antes de desembarcar em todo o planeta: a Universal apostou na data mais próxima do dia de São Valentim (o Dia dos Namorados no restante do mundo). Se a trilogia da escritora E. L. James vendeu mais de 100 milhões de exemplares, o filme já vendeu 4,5 milhões de ingressos antecipados. Cinquenta Tons de Cinza foi proibido na Malásia e Indonésia, e veremos se chega aos cinemas dos países do Golfo.

O mínimo que se pode dizer do filme é que melhora a narrativa tosca de  E. L. James
Tudo isso é importante para entender que Cinquenta Tons de Cinza é um negócio que jamais quis ser arte. O livro representou a primeira experiência de BDSM (bondage ou amarras, disciplina e dominação, submissão e sadismo, e masoquismo) para muitas leitoras – seu público-alvo --, especialmente nos Estados Unidos, onde não há precursores literários, como o Marquês de Sade, em termos de erotismo que foge dos cânones habituais. Anastasia Steele é uma estudante de literatura que entrevista o multimilionário de 27 anos Christian Grey no lugar de sua colega, estudante de jornalismo, que está doente. Surge uma faísca entre os dois, e Grey lhe ensina as brincadeiras, lhe abre sua casa, ou até seu coração, para que Anastasia desfrute como ele. Ou seja, Cinderela levando palmadas no bumbum.
Visto o filme, quem se sai melhor dessa empreitada é a diretora. Ela passou 18 meses presa ao filme, suportando a pressão de fazer um trabalho acompanhado de perto por todo o mundo; soube manejar a câmera e fazer o que era preciso para que o pacote do filme se mantivesse em pé de forma decorosa; aguentou a ingerência constante do estúdio e de E. L. James – “foi difícil; não digo que a presença dela não tenha sido útil às vezes, mas em outras, em contrapartida, foi realmente frustrante”, confessou ao The Hollywood Reporter.
Entre seus trabalhos anteriores no cinema houve um curta-metragem, Death Valley (2006), em que a diretora tratava do sexo de forma mais livre e explícita. Agora a coisa muda: “Não fazia sentido que o filme fosse muito explícito. Quando assisto a filmes, o erotismo acaba com a penetração. Em troca, a parte mais erótica é como se chega até ali, e eu foquei sobre isso.” Ela cita como referências os filmes 9 ½ Semanas de Amor, A História de Adele H. e, sobretudo, O Último Tango em Paris, “pela obscuridade profunda de seu romance”. Veem-se breves pinceladas de todos eles na tela.
E Taylor-Johnson também apostou em Dakota Johnson. Se há diálogos risíveis é porque procedem do livro, não da interpretação da atriz, filha de Don Johnson e Melanie Griffith: para o mundo anglo-saxão, seu sobrenome revela, como uma piscadela, a inspiradora dessas tramas que de tão leves se desvanecem no ar – é Danielle Steele, uma Corín Tellado norte-americana. Johnson tornou críveis os quatro fólios de Persona e produz verdade na telona, além de liderar o humor que é o que o espectador mais agradece ao longo do filme. Já Jamie Dornan no papel do dominador Grey não está à altura do personagem. Ele entrou no filme de última hora para substituir Charlie Hunnam, que se assustou diante do compromisso de ter que filmar uma trilogia e, com isso, representar o macho do século XXI durante quase uma década. E Hunnam não era o favorito das fãs da trilogia, que apostavam em Matt Bomer. Segundo boatos de Hollywood, sua homossexualidade, nunca escondida, o teria eliminado da lista de candidatos.
Não há genitália masculina à vista – estamos falando de Hollywood, afinal --, e a feminina é apenas entrevista. Desaparece do filme a cena do absorvente interno, um dos momentos marcantes do primeiro volume. O filme termina no mesmo ponto que o livro, e o mínimo que se pode dizer dele é que melhora a narrativa tosca de James. Evidentemente, o tom é menos intenso que o de 9 ½ Semanas de Amor, mas o século XXI norte-americano continua a navegar nas águas do politicamente correto. Isto dito, os responsáveis pelo filme vão faturar alto.