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quarta-feira, 1 de agosto de 2018

México atravessa a época mais sangrenta de sua história

Um homem assassinado na Cidade do México. 

México atravessa a época mais sangrenta de sua história

Fragmentação dos cartéis da droga e a diversificação do negócio provocaram uma mudança no mapa do crime, com uma taxa de 25 assassinatos por 100.000 habitantes em 2017


Elena Reina
México, 31 Jul 2018

No México morrem assassinadas mais de 85 pessoas por dia. Os números publicados na segunda-feira pelo Instituto Nacional de Estatística chocam um país que em 2017 sofreu a época mais sangrenta de sua história. Ainda pior do que nos anos em que os mortos eram contados em dezenas, em que as capas dos jornais nacionais anunciavam grandes chacinas e os dados de 2011 – em plena guerra contra o tráfico de drogas – escandalizaram toda a nação. E a tendência indica que ano que vem ocorrerá novo recorde.
No ano passado morreram assassinadas 31.174 pessoas – a grande maioria por arma de fogo –, 6.615 a mais do que em 2016 e mais do que o dobro de oito anos atrás. Os dados apresentados na segunda-feira pelo órgão são baseados nos relatórios forenses das vítimas e nos prontuários de investigação e são os mais certeiros publicados nos últimos meses. O México entrou pela primeira vez na taxa de 25 mortes por 100.000 habitantes, à frente do índice de crimes da Colômbia (24) e se aproximando da taxa brasileira (29), tradicionalmente muito superior.
O país atravessa uma situação muito diferente da que viveu na época dos grandes chefes da droga e a declaração de guerra feita pelo ex-presidente Felipe Calderón (que governou de 2006 a 2012). A estratégia de segurança nacional, centrada na decapitação dos cartéis históricos e poderosos do país, como foi a prisão de Joaquín El Chapo Guzmán, provocou, além de uma luta pelos locais que ficaram livres, a fragmentação das quadrilhas em grupos menores, decentralizados e interessados em outras coisas além do tráfico de drogas. Isso explica o aumento notório da criminalidade em áreas tradicionalmente seguras e à margem da violência extrema do tráfico, como a Baixa Califórnia Sul, Guanajuato e Quintana Roo.
“Já não é só o tráfico de drogas, é o roubo de combustível, a extorsão, o sequestro... Essa mudança no modelo de negócio faz com que se dispersem a outras áreas. Antes estava concentrado nas regiões de produção de drogas e próximas à fronteira. Agora qualquer lugar é bom para o negócio”, diz o especialista em segurança Alejandro Hope em uma entrevista ao EL PAÍS. “A diversificação e dispersão dos cartéis provocou uma mudança no mapa: enquanto em 2010 24% dos homicídios se concentravam em Chihuahua e, concretamente, no município de Ciudad Juárez; em 2017 não existe um só Estado que concentre mais de 10% dos assassinatos”, afirma Hope. Se mata mais do que em plena guerra contra o tráfico e a morte se estendeu a novos territórios.
O Estado de Quintana Roo, onde estão as joias turísticas do México, como Cancún e a Riviera Maia, fechou 2017 com 450 mortes, mais do que o dobro do ano anterior. Uma ameaça letal a um país cuja economia depende em grande medida do turismo – que é 8,7% do PIB nacional – e esse Estado concentra 40% dos rendimentos desse tipo recebidos pelo país. A Baixa Califórnia Sul, outro destino de sol e praia por excelência, triplicou os homicídios em somente um ano, passando de 238 assassinatos em 2016 a 740. E Guanajuato, que concentra em grande parte o investimento automotriz, uma terra tradicionalmente à margem do terror do tráfico, registrou 2.252 homicídios, quase 10 vezes mais do que há oito anos.
A estratégia de pacificação do país anunciada pelo presidente eleito López Obrador – que inclui uma proposta de lei de anistia para todos os que participam do tráfico de drogas – espera reduzir notadamente esses índices, ainda que os especialistas digam que os resultados serão vistos a longo prazo. A taxa de homicídios não parou de crescer desde o começo de 2015 e tudo indica que em 2018 os números superarão os desse último ano. “Supondo que seu plano seja muito bem-sucedido, é quase certo que chegue na metade de seu mandato com 100.000 homicídios. E isso é um cenário sumamente otimista”, diz Hope.




quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

“Eu me chamo Chavela Vargas. Não se esqueçam do meu nome”

Chavela Vargas
Pablo Gallo

“Eu me chamo Chavela Vargas. Não se esqueçam do meu nome”

Um documentário mostra a vida tanto selvagem como criativa da cantora mexicana, uma artista que lutou para defender sua liberdade e opção sexual




GREGORIO BELINCHÓN
Berlim 11 FEV 2017 - 18:22 COT

Chavela Vargas teve muitas vidas. Todas desmedidas e cheias de ânsia por liberdade. Algumas mais felizes, umas com mais amor, outras com mais álcool. E, em cada uma delas, lutou por não trair seus ideais e para ser ela mesma. Catherine Gund e Daresha Kyi reuniram todas as Vargas possíveis em Chavela, um documentário que estreou na sexta-feira em Berlim, na sessão Panorama, e que resume, com êxito, uma existência de 93 anos em 90 minutos.
Chavela Vargas não nasceu sendo Chavela, e nem no México. Natural de San Joaquín de Flores, Costa Rica, María Isabel Anita Carmen de Jesus Vargas Lizano (1919 – 2012) foi uma menina especial, e seus pais a escondiam quando recebiam visitas em casa por sua estranha maneira de ser e de se vestir. Quando eles se separaram, ela foi morar com seus tios, e, aos 17 anos, tomou uma decisão: se mudar para o México e começar uma nova vida como Chavela Vargas. O filme mescla entrevistas com a artista, em distintas épocas, declarações atuais de pessoas que a conheciam e amavam e apresentações e gravações históricas da cantora. Dessa maneira, Chavela é quem se encarrega de contar suas próprias vivências, como quando relembra seus primeiros anos no México e as tentativas de se apresentar como o resto das cantoras, com sapatos de salto e vestidos que a faziam tropeçar nos palcos. Finalmente, ela decidiu passar a usar suas míticas calças e ponchos, e, assim, foi descoberta pela esposa do reconhecido compositor e cantor José Alfredo Jiménez, em um clube, na década de 1940. Sua voz era única, e sua expressão corporal durante os shows também. José Alfredo percebeu que Chavela possuía uma extraordinária capacidade de canalizar a dor através de sua voz, e esse era um sentimento que fervilhava em todas as letras do compositor.
Aquela união, perfeita no campo artístico, também foi mítica com relação ao alcoolismo. Ambos bebiam muito, ao ponto de cair no chão dezenas de vezes seguidas depois de se embriagarem com milhares de litros de tequila. No entanto, o talento de Vargas se chocava, diretamente, com o México tradicional. Por isso, nunca podia se apresentar em lugares que não fossem clubes ou cabarés. Ela viveu uma história de amor com Frida Kahlo. Conseguiu certa fama em Acapulco, cidade que estava repleta de turistas norte-americanos, no final dos anos cinquenta. Cantou no casamento de Elizabeth Taylor e Michael Todd -"e acordei ao lado de Ava Gardner", conta Vargas-, e teve romances com dezenas de mulheres, inclusive com as esposas de altos funcionários do Governo mexicano. Entre elas, a namorada de Emilio Azcárraga, o todo-poderoso empresário que vetou sua carreira musical em gravadoras. E sim, ela chegou a participar de algumas séries de televisão e filmes antes de ficar doente. Durante anos, viveu da caridade de amigos. Até que, um dia, seu caminho se cruzou com o da jovem advogada Alicia Pérez Duarte, com quem teve uma intensa relação.
Pérez Duarte dá muitas informações importantes sobre a cantora no documentário Chavela. Fala, por exemplo, sobre sua capacidade de reinventar fatos de sua vida e transformá-los em lendas. Como quando deixou de consumir álcool e disse que isso foi mérito de xamãs. De acordo com Pérez Duarte, Chavela deixou de beber depois de um feio incidente com uma pistola que envolveu o segundo filho –que na época tinha oito anos- da advogada.
Além disso, a própria artista dizia que Isabel era uma pessoa maravilhosa, mas que Chavela era um touro difícil de montar.



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Sóbria, Chavela Vargas retomou sua carreira. A maior parte de seus fãs pensava que ela tinha morrido, mas, no final dos anos oitenta, ela reapareceu com um concerto na Cidade do México. Ali, conheceu um empresário espanhol, e, em 1993, se apresentou na Sala Caracol em Madri. Nesse momento, começou sua segunda carreira, na qual pode, pela primeira vez, pisar em teatros. Pedro Almodóvar se tornou seu amigo e padrinho, e conseguiu que ela pudesse se apresentar no Olympia de Paris. E, só então, o México decidiu abrir suas portas de maneira definitiva para Chavela, com um show no teatro de Belas Artes.
O longa-metragem traz de volta suas frases mais marcantes, que soam como bombas através de sua voz: "Eu sempre soube. Não existe ninguém que suporte a liberdade alheia; ninguém gosta de viver com uma pessoa livre. Se você for livre, esse é o preço a ser pago: a solidão"; "Ninguém morre de amor, nem por falta nem por excesso"; "O amor não existe, é um invento de noites de bebedeira".
O filme também ilustra sua solidão, sua independência, seu lesbianismo nunca anunciado, publicamente, até completar 80 anos de idade (provavelmente porque já não fazia falta dizer; ou porque, no México, tudo é permitido nos palcos, mas não nas ruas), sua liderança dentro da comunidade lésbica mexicana... Entre os espanhóis que dão depoimentos sobre ela estão Miguel Bosé, Elena Benarroch e Laura García-Lorca: seu último show foi na Residência de Estudantes de Madri em julho de 2012. Dois dias depois Chavela voltou, rapidamente, para o México, para poder morrer ali, o que aconteceu no dia 5 de agosto daquele mesmo ano.
Chavela é um documentário excepcional porque em 90 minutos fixa a imagem e a vida da artista sem regatear suas contradições, suas dores (morreu ainda ressentida pela falta de amor por parte de sua mãe), suas paixões e seu talento. Na sexta-feira, os aplausos em Berlim foram merecidos.
EL PAÍS

DE OTROS MUNDOS


domingo, 25 de dezembro de 2016

México utilizou armas químicas contra Emiliano Zapata



México utilizou armas químicas 

contra Emiliano Zapata

Estudo revela a guerra de extermínio que o Governo mexicano, apoiado pelos EUA, disparou há um século contra o revolucionário, com armas químicas, deportações e tortura em larga escala


JAN MARTÍNEZ AHRENS
Cidade do México 23 DEZ 2016 - 18:04 COT


Reza a lenda que Emiliano Zapata não morreu. É isso que a história demonstra todo dia. Quase 100 anos depois de seu assassinato, a figura do revolucionário, general comandante do Exército Libertador do Sul, continua a incendiar a imaginação dos mexicanos. Proletário, rebelde e muitas vezes visionário, Zapata (1879-1919) encarna como ninguém os ideais de uma época conturbada. Seus anos de luta e de glória são os de um país em guerra consigo mesmo. Uma época cruel, sobre a qual o México erigiu sua estrutura atual e da qual nem mesmo Zapata conseguiu escapar. Longe da visão adoçada deixada pela iconografia oficial, uma minuciosa pesquisa do historiador Francisco Pineda mostra como Zapata, um mito ainda quando vivo, foi perseguido ferozmente pelo regime de Venustiano Carranza (1859- 1920). Evidencia também como, para derrotá-lo, o Governo constitucionalista não hesitou em lançar uma guerra de extermínio. Armas químicas, torturas indiscriminadas e até a escravização de prisioneiros foram empregadas para dobrar um homem que nunca se pôs de joelhos.

“A Revolução Mexicana foi paradoxal e complexa. E há uma tentativa de certos setores de recuperar a obra de Carranza e tornar a Constituição, que completa 100 anos em 5 de fevereiro, símbolo de continuidade e estabilidade, o que não é verdade: o México é uma nação em permanente conflito, traumática e fascinante. Essa é a lição de Zapata”, explica o professor Carlos Marichal, pesquisador do Colégio do México.
A guerra de extermínio, sobre a qual poucas informações eram conhecidas, ilustra um dos momentos mais obscuros da Revolução Mexicana. Em 26 de setembro de 1915, já derrotado o general Victoriano Huerta, mas com o país em chamas, Carranza ordenou a um de seus homens de confiança, o general Pablo González, esmagar a Revolução do Sul, o movimento camponês de libertação liderado por Zapata.
Antes agricultor e cavalariço militar, o revolucionário tinha entrado na arena da história depois de liderar protestos agrários em Morelos e de se unir em 1910 ao levante de Francisco I. Madero, que começou a Revolução. Mas, lograda a vitória e tendo sido exilado o ditador Porfírio Díaz, Zapata traçou seu próprio rumo e se recusou a desmobilizar sua tropa. Para ele, a guerra tinha outro objetivo. Conseguir a coletivização das grandes fazendas e libertar milhares de camponeses de séculos de opressão latifundiária. E não só isso.

Com uma visão muito mais avançada que Pancho Villa e outros senhores da guerra, o sulista defendeu o direito de greve, o reconhecimento dos povos indígenas e a emancipação da mulher. Mas sua força não tinha raízes somente num programa político capaz de mandar pelos ares as convenções burguesas. Aquele camponês transformado em revolucionário tinha de um lado um exército disposto a morrer sob suas ordens e de outro milhares de agricultores aos quais tinha devolvido o pão e o orgulho. Não demorou muito para que fosse visto como o grande inimigo a ser batido pelo poder carrancista. A ofensiva foi implacável. “Para isso o Governo contou com a ajuda dos Estados Unidos. Carranza, em dezembro de 1914, dispunha de apenas 1.700 fuzis; em menos de um ano Washington lhe forneceu mais de 53.000”, destaca Pineda.

Com esse apoio Carranza e seu general puseram mãos à obra, e já em fevereiro de 1916 começaram a fabricar, com equipamento importado dos Estados Unidos, as granadas para o gás asfixiante com o qual queriam aniquilar os zapatistas. “É possível que tenham usado fosgênio, um veneno incolor e com cheiro de milho verde, cujos sintomas não são imediatos”, explica Pineda. Junto com o arsenal químico, os carrancistas esboçaram um plano de guerra seguindo os passos das sangrentas campanhas cubanas do general espanhol Valeriano Weyler. E ainda protegeram o Distrito Federal com uma linha de trincheiras de mais de 100 quilômetros e coletaram dados de inteligência, mediante o uso generalizado da tortura, para saber milimetricamente a localização e os movimentos do inimigo.
Em 12 de março de 1916 teve início a invasão. A máquina do terror foi liberada. Povoados foram incendiados, e as plantações, destruídas. Centenas de camponeses foram executados sumariamente, e milhares foram concentrados e deportados. “O objetivo era obrigar que os zapatistas cuidassem mais de sobreviver que de combater. Isso facilitava as ações de extermínio”, diz Pineda.
O primeiro golpe teve êxito. A estratégia de terra arrasada fez os zapatistas recuarem e devastou a população civil. Imensas colunas de mulheres, crianças e idosos percorriam os descampados em busca de comida. Quando não morriam de fome, eram mortos a balas. O terror os perseguia.

O alto comando carrancista afiou a foice. Ordenou deportações em massa para Yucatán e escravizou povoados inteiros em campos de trabalho. Quem tentava fugir era executado sem demora. O mesmo era feito com quem chegasse a menos de 60 metros de uma ferrovia ou andasse sem salvo-conduto por caminhos e trilhas ou simplesmente fosse suspeito de servir ao zapatismo. Não havia perdão para o inimigo.
Depois do recuo inicial, os zapatistas conseguiram reagrupar forças e desencadearam em julho sua contraofensiva. O espírito de uma revolução e o gênio militar de Zapata lhes abriram caminho. Os rebeldes se multiplicaram diante de tropas perplexas e excessivamente confiantes. O movimento se deu em todas as frentes. Caíram Tepoztlán e Santa Catarina. O general Pablo González respondeu endurecendo a repressão. O castigo sobre a população civil disparou. As garantias constitucionais foram suspensas em todo o território revolucionário. Morelos, Puebla, Guerrero, o Estado do México, Tlaxcala e parte de Hidalgo sentiram o jugo de Carranza. Mas nada disso bastou.
No início de 1917, Zapata conseguira expulsar de seu território o invasor. Começou então um período curto e intenso da insurreição zapatista. Em março, o líder proclamou “o governo do povo pelo povo”. Raivosamente antioligárquico, reabriu escolas, deu luz a novas formas de administração e reorganizou o Exército Libertador do Sul. Embora limitado aos confins meridionais, seu ideário era pura nitroglicerina: “Quando o camponês puder gritar ‘sou um homem livre, não tenho senhores, não dependo de mais do que meu trabalho’, então diremos os revolucionários que nossa missão foi concluída, então se poderá afirmar que todos os mexicanos têm pátria”, deixou escrito.
Como tantas coisas naqueles dias, sua declaração foi um marco e uma miragem. Os carrancistas, decididos a esmagar a revolta camponesa, logo voltaram à carga. No final de 1918 lançaram a segunda invasão. E dessa vez miraram em Zapata.
O coronel carrancista Jesús Guajardo foi enviado para matá-lo. Primeiro fez saber aos zapatistas que estava disposto a desertar e depois, como prova de confiança antes de se encontrar com o líder revolucionário, fuzilou 50 soldados federais.

Ambos combinaram de se reunir em 10 de abril de 1919 na Fazenda Chinameca, em Morelos. Quando Zapata cruzou a entrada, a traição se abateu sobre ele. Embora tenha conseguido sacar seu revólver, não pôde apertar o gatilho. Sete balas acabaram antes com ele. Seu cadáver foi levado no mesmo dia para o general Pablo González e exibido em público. O traidor Guajardo foi promovido. Com o tempo caiu no esquecimento. Zapata, enterrado e pranteado como poucos no México, continua vivo desde então.

TUDO SOBRE O REVOLUCIONÁRIO

A figura de Emiliano Zapata nunca descansa. Carismático e revolucionário, sua imagem faz parte da iconografia do México. E também do debate. Antecessor das insurreições que ao longo do século 20 sacudiram o país, Zapata é objeto de atenção por parte dos historiadores. Seu estudo tem a participação decidida do Colégio do México (Colmex), uma das instituições universitárias de elite da América Latina. Em novembro, o Colmex organizou uma exposição sobre Zapata e intensas jornadas de revisão, nas quais se tratou desde a validade de seu legado até a pouco conhecida ofensiva carrancista. Esse esforço se uniu à criação de um site interativo, chamado Rostos do Zapatismo, no qual se pode ter acesso direto ao seu arquivo digitalizado e aos registros sonoros de testemunhas da revolução.




































































































































































































































































quinta-feira, 20 de outubro de 2016

‘El Santo’, o lutador mexicano transformado em ídolo imortal

O Filho de 'El Santo' durante uma entrevista com o EL PAÍS em 2015. SAÚL RUIZ


‘El Santo’, o lutador mexicano transformado em ídolo imortal

Google homenageia com um doodle o icônico lutador, que completaria 99 anos nesta sexta



DIEGO MANCERA
Cidade do México 23 SET 2016 - 08:43 COT

Rodolfo Guzmán Huerta (Hidalgo, 1917), mais conhecido como El Santo, faria 99 anos nesta sexta-feira, 23 de setembro. O lutador se transformou em um herói da cultura popular do México e em um ícone pop mundial. É por isso que o Google decidiu comemorar seu nascimento com um doodle na América. A imortal máscara prateada o acompanhou até o dia de sua morte. 

Guzmán Huerta cresceu em Tepito, na Cidade do México, uma das áreas mais perigosas da capital, não à toa chamada de bairro violento, também berço de grandes boxeadores. Lá El Santo se interessou pelo beisebol, o futebol americano e, claro, pela luta livre. Em sua juventude usou outros apelidos: Rudy Guzmán, O Homem Vermelho, O Morcego II e O Demônio Negro. Seu treinador, Jesús Lomelí, o convidou a se juntar a um grupo de lutadores que se vestiam de prateado, de modo que lhe sugeriu que mudasse o nome. Assim Rodolfo Guzmán deixou de existir para se transformar em El Santo, o mascarado prateado. 
El Santo forjou seu legado não só por vencer outros lutadores no ringue, mas também mulheres vampiras, múmias e zumbis nos 54 filmes que protagonizou, nos quais era o rockstar que viajava em um carro conversível branco e com o peito nu. El Santo foi uma espécie de Super-Homem mexicano. Mas, para aparentar ser um pouco mais alto, precisava usar saltos nas botas. 
O público mexicano lotava as arenas mexicanas todas as noites para vê-lo. Quem o conheceu afirma que nunca faltou a uma sessão, mesmo que estivesse doente. El Santo era um viciado na luta livre, um espetáculo que se popularizou no México a partir de 1933. Seu carisma valeu para que aparecesse nas revistas em quadrinhos dos anos cinquenta. 
O misticismo dos lutadores mexicanos se baseia na ocultação de sua verdadeira identidade. El Santo conseguiu escondê-la até 1982, já no ocaso de sua carreira. Em um programa conduzido pelo jornalista Guillermo Ochoa o lutador mostrou seu rosto para demonstrar que não estava velho, apesar de já não possuir um porte atlético. Sua voz era áspera. Um ano depois voltou a fazer o mesmo para o comunicador Ricardo Rocha, os produtores decidiram não congelar a imagem, para tentar manter o segredo do Santo. 
Mas a data mais emblemática foi 26 de janeiro de 1984. Naquela tarde decidiu retirar a máscara, pela terceira vez, para o apresentador da Televisa, Jacobo Zabludovsky. El Santo morreu dez dias depois aos 66 anos. Mas o legado continua com o O Filho do Santo e seu neto, El Santo Junior, que estreou profissionalmente em agosto.








A lenda de El Santo ainda vive nas principais arenas de luta livre através de seus produtos. Também na inspiração para as gerações de lutadores e em seu museu, localizado em Tulancingo, Hidalgo, no centro do México, onde nasceu Rodolfo Guzmán. Mas seu próprio filho, Jorge Ernesto Guzmán, reconhece que isso é insuficiente para valorizar a trajetória de seu pai. “Ao que parece as autoridades mexicanas não se interessam. É incrível que o legado de meu pai seja mais apreciado no estrangeiro do que em meu próprio país”, disse o Filho de El Santo ao EL PAÍS em março do ano passado. A santomania não morreu. 
EL PAÍS

sábado, 5 de dezembro de 2015

Octavio Paz / O inlelectual total e sua definição clara do idioma

100º aniversario del nacimiento de Octavio Paz
Octavio Paz no Google

Octavio Paz: o intelectual total 

e sua definição clara do idioma


No dia 31 de março se comemora o centenário do nascimento do escritor e prêmio Nobel mexicano

Poeta, ensaísta, tradutor e pensador, é uma das figuras chave da literatura em espanhol.

Seu grande instrumento foi a linguagem cotidiana. Repetidas vezes, ele renovou seu idioma no acervo popular



Octavio Paz na Residência de Estudantes de Madri, em 1989.

Borges gerou a ilusão de que havia lido todos os livros e examinado todas as bibliotecas. Sua erudição parecia tão absoluta que, no seu caso, o esquecimento era uma forma de proximidade e espontaneidade. Sua destreza literária nos fez sentir que era assim. O singular é que esse intrincado universo dependia de certezas e paixões cotidianas. Em seu último relato, A memória de Shakespeare, o protagonista herda as lembranças do tumultuoso autor inglês e descobre que são, assombrosamente, tão comuns como as de todos os homens. Já Beatriz Sarlo assinalou acertadamente que o Borges metafísico, tão discutido, se apóia no Borges suburbano, menos valorizado.
Uma coisa parecida acontece com Octavio Paz. A riqueza do seu pensamento suscita a impressão de que só se ocupou de temas complexos, fundamentais, altamente sofisticados. O inventário de seus interesses inclui as lutas sociais do século XX, os pré-socráticos, a arte tântrica, Sor Juana e o Século de Ouro de Oro, Marcel Duchamp, o mito na Meso-américa, o estruturalismo, as vanguardas, o PRI (Partido Revolucionário Institucional), o erotismo, as drogas, o haiku (forma poética japonesa) e o expressionismo abstrato. Em livros como Blanco y Ladera Este sua poesia adquire elevada temperatura intelectual: versos que são ideias. Na opinião de Alejandro Rossi, foi um “apaixonado pela modernidade”. Não se recusou à experimentação nem ao diálogo com outras disciplinas. Enciclopédico e torrencial, parecia dedicado ao exagero de construir a civilização de um só homem.

Enciclopédico e torrencial, parecia dedicado ao exagero de construir a civilização de um só homem.
É fácil perceber a originalidade de Borges quando ele aborda a literatura fantástica como um ramo da filosofia. Mais complicado é perceber aí o eco de suas caminhadas pelo bairro. A imaginação é como a memória de Shakespeare: seu brilho distante depende de uma chispa que passa despercebida por ser demasiado próxima e que surge das asperezas diárias. A galáxia de interesses “pazianos” deriva de um mesmo estímulo: a linguagem que escutou com fervor crítico.
Quando criança, ouviu seu avô, o editor e político liberal Ireneo Paz, e se aproximou dos rumores da praça de Mixcoac, onde se misturavam os paroquianos da igreja, os vendedores ambulantes e os arautos da Revolução. Na Guerra Civil espanhola presenciou um confronto e descobriu uma lição de alteridade: inclusive o inimigo tem voz humana. Não foi por acaso que se interessou pela antropologia, desde os Tristes Trópicos de Claude Lévi-Strauss a A erva do diabo, de Carlos Castaneda.
Cazador de palavras, admirou a liberdade do surrealismo, mas, como Buñuel em Os esquecidos, quis devolvê-lo a uma realidade operada pelo inconsciente.
Seu grande instrumento foi a linguagem cotidiana. Não é por acaso que alguns de seus títulos provenham de refrãos ou de frases feitas: Las perras del olmo, Libertad bajo palavra, . Águia ou sol? (outra forma de dizer “cara ou coroa?”). Sua maior realização nessa linha foi converter um termo de eletricistas numa opção intelectual: corrente alternada.
Em 1943 escreveu eloquentes artigos sobre a linguagem popular mexicana. Ali tratou do vacilón, a mexicaníssima maneira de brincar: “Ovacilón é uma espécie de espetada que murcha balões públicos e privados. É uma advertência contra a vaidade e a bazófia, contra as posturas excessivas e patéticas”. Ele dedicou outro texto ao ninguneo(“ninguenzisse”), exercício vernáculo que converte os outros em sombras, e antecipou as reflexões que, em O labirinto da solidão, dedicaria à chingada: “Os mexicanos, em vez de converter sua mãe em prostituta, a substituem por outra: o nada”.

Repetidas vezes renovou seu idioma no acervo popular, celebrando as “fantasias e delírios verbais dos mexicanos”
Uma notícia policial chamou a sua atenção: o suicida Juan Camacho tinha morrido exclamando: “que veneno saboroso”. Isso o levou a uma reflexão sobre os prazeres da morte, da mesma forma que o costume de vestir pulgas o levou a considerar que só um país de imensos vulcões poderia admirar tanto as miniaturas.
Repetidas vezes renovou seu idioma no acervo popular, celebrando as “fantasias e delírios verbais dos mexicanos”. Não por acaso escreveu o prólogo de Nueva picardia mexicana, de Armando Jiménez: “Aqui sim há linguagem em movimento, contínua rotação das palavras, insólitos jogos entre o sentido e o som, idioma em perpétua metamorfose”.
Alguns dos seus melhores textos representam um jogo de rotação entre o culto e o popular. No poema A palavras, escreve: “Vira-as,/ pega-lhes pelo rabo (chiem, putas),/açoita-as,/ adoça-lhes a boca às reguilas, […]/fá-las, poeta, faz que se traguem todas as tuas palavras”.
O lema aparece encarnado em outros textos: “Desta vez eu te esvazio a pança, te torço, te retorço, te viro e viro de cabeça para baixo, te arranco o pinto, te afundo o estero. Raivaraibabaca. Dona Campamochas come as sobras do membro cortado de don Campamocho”. (“Esta vez te vacío la panza, te tuerzo, te retuerzo, te volteo y voltibocabajeo, te arranco el pito, te hundo el esternón. Broncabroncabrón. Doña Campamocha se come en escamocho el miembro mocho de don Campamocho”). Afronta, riso, estrapolação: poesia de Octavio Paz.
Sua vasta obra foi, entre outras coisas, uma luz sobre o idioma. A profundidade e variedade das suas ideias provocaram que às vezes fosse percebido como um autor de gabinete, interessante apenas para um círculo de seletos especialistas, um espectador alheio ao fluxo da vida. Nada mais falso. Só alguém aberto aos mistérios da simplicidade poderia escrever este retrato de Miguel Hernández: “Eu o conheci cantando canções populares espanholas, em 1937. Possuía uma voz de baixo, um pouco selvagem, um pouco de animal inocente: soava a campo, a eco grave repetido pelos vales, a pedra caindo num barranco”.

Seu principal gesto poético foi capturar o momento como um lampejo carregado de outro tempo
Paz soube ouvir a queda das pedras, as vozes soltas, a onda do cotidiano. Em seu discurso de aceitação do Prêmio Nobel, se referiu à vigência do mundo indígena: “Ele nos fala na linguagem cifrada dos mitos, das lendas, das formas de convivência, das artes populares, dos costumes. Ser escritor mexicano significa ouvir o que nos diz seu presente – essa presença. Ouvi-la, falá-la, decifrá-la: dizê-la”.
Seu principal gesto poético foi o de capturar o momento como um lampejo carregado de outro tempo. Vivemos facilmente na lembrança do passado ou na antecipação do porvir. Onde está o presente? Otávio Paz buscou esse esquivo momento. Em seu aniversário, o idioma completa um século de presente.