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sábado, 11 de abril de 2020

Brasil ultrapassa as 1.000 mortes, enquanto adesão ao isolamento diminui em SP, epicentro da doença



PANDEMIA DE CORONAVÍRUS
Brasil ultrapassa as 1.000 mortes, enquanto adesão ao isolamento diminui em SP, epicentro da doença

País registra um total de 19.638 contágios e 1.056 mortes pela doença, segundo dados desta sexta-feira. Monitoramento de celulares mostra que em São Paulo só 47% cumpriram quarentena na véspera do feriado


Pessoas com máscaras protetoras andam durante o surto de doença de coronavírus, perto do Porto de Manaus.
Pessoas com máscaras protetoras andam durante o surto de doença de coronavírus, perto do Porto de Manaus.
BRUNO KELLY  leyenda

Beatriz Jucá
São Paulo, 10 ABR 2020

O Brasil superou a marca das 1.000 mortes pelo novo coronavírus nesta sexta-feira (10), mesmo dia em que o mundo ultrapassou os 100.000 óbitos causados pela doença. Segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, o país já registra um total de 19.638 contágios e 1.056 mortes pela Covid-19. Mas, apesar da alta constante dos números, a adesão ao isolamento social, medida apontada por especialistas como a mais eficaz para evitar a disseminação do vírus, tem diminuído em São Paulo, Estado que concentra mais casos no país, com 540 óbitos. É o que aponta uma ferramenta do Governo do Estado, que monitora a movimentação da população com base em informações das operadoras de telefonia. Nesta sexta-feira de Páscoa, dia em que o presidente Jair Bolsonaro também cumprimentou apoiadores em frente a uma farmácia de Brasília, o Governo paulista anunciou que o índice de isolamento social caiu 12,9% na quinta. No feriado, as ruas da capital também estavam mais cheias que o habitual dos últimos dias.

Segundo os dados do Governo de São Paulo, o índice de isolamento na última quinta-feira, véspera de feriado, foi de 47%. O levantamento referente a sexta-feira do Sistema de Monitoramento Inteligente só devem ser divulgados no sábado. Especialistas que ancoram as decisões da gestão estadual afirmam que é preciso que a medida tenha a adesão de 70% para trazer resultados mais efetivos e achatar a curva epidemiológica. “Se a taxa continuar baixa, o número de leitos disponíveis no sistema de saúde não será suficiente para atender a população”, diz o Governo, por meio de nota. O dado desta quinta-feira é menor que o registrado na quinta anterior (3 de abril), quando 54% da população estavam em distanciamento social.



A gestão de João Doria já afirma que com base nos registros poderá endurecer as medidas de distanciamento social e, inclusive, começar a prender pessoas que descumpram a quarentena a partir de segunda-feira (13). O Estado decretou o fechamento dos comércios a partir do dia 24 de março para tentar restringir a circulação de pessoas. Mas, nesta sexta-feira de feriado, diversas pessoas se aglomeraram na avenida Paulista, seja para protestar contra as medidas, seja para praticar exercícios físicos na ciclovia. O Governo tem feito uma campanha com disparo de mensagens pelo celular para alertar que as pessoas fiquem em casa e evitem aglomeração.

No momento, São Paulo, Distrito Federal e outros quatro Estados —Amazonas, Amapá, Ceará, Rio de Janeiro— estão na iminência de entrar em uma fase mais aguda da doença, quando há aceleração descontrolada do contágio. Estes locais têm uma incidência de casos confirmados 50% maior que a média nacional, quando considerada a taxa proporcional ao tamanho de suas populações. No último boletim epidemiológico da pasta, os Estados de Roraima e Santa Catarina foram colocados em posição de alerta, porque a taxa de incidência da Covid-19 já supera a nacional, ainda que não alcance esses 50% a mais que ela.



Nos últimos dias, o Ministério da Saúde também começou a divulgar o coeficiente de mortalidade da doença por Estado. No documento divulgado nesta sexta-feira pela pasta, apresentam os maiores índices, respectivamente: Amazonas, São Paulo, Rio de Janeiro, Pernambuco e Ceará. Todos eles apresentam a taxa de mortes de Covid-19 por 100.000 habitantes superior ao índice do país. Os números servem de alerta, inclusive para medir a necessidade de resposta do sistema de saúde em cada região, já que o Brasil, por seu tamanho, possui um sistema de saúde assimétrico.
Sistemas de saúde em alerta

Ainda que o Brasil não tenha entrado na fase de contágio desenfreado da doença, o elevado número de casos graves da Covid-19 já pressiona os sistemas de saúde. Na ponta, Estados e municípios correm contra o tempo para tentar ampliar suas estruturas de atendimento ―em especial as UTIs, onde são tratados os casos mais graves. O isolamento social tem sido adotado para que os gestores tenham tempo de reorganizar suas redes e ampliar o número de leitos e equipamentos num contexto de escassez global de insumos. E já há Estados atuando num limite crítico. O Amazonas declarou que cerca de 95% de seus leitos já estão em uso. O Ceará, por sua vez, diz que atua com 85% dos leitos de cuidados intensivos ocupados. As capitais desses dois Estados, Fortaleza e Manaus, receberão auxílio do Governo Federal para conseguir ampliar minimamente suas redes.


Um plano de distribuição de 60 respiradores foi iniciado nesta sexta-feira pelo Ministério da Saúde. Um total de 30 deles já foi enviado para Fortaleza. A previsão da pasta é que 20 equipamentos cheguem neste sábado (11) em Manaus. Os dez restantes devem ser enviados também neste sábado a Macapá, cuja velocidade de disseminação chamou a atenção, segundo o secretário executivo do ministério, João Gabbardo. Especialmente as capitais brasileiras estão em uma corrida contra o tempo para ampliar a estrutura e conseguir dar atenção médica aos casos mais graves da doença. A estrutura necessária não é simples. Além de camas e respiradores, é preciso garantir equipamentos de ventilação mecânica e mão de obra qualificada para manejar clinicamente esses pacientes, carências admitidas nos boletins epidemiológicos do Ministério da Saúde em meio à disputa global por insumos.

“A distribuição [dos 60 respiradores] levou em conta aquilo que o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, chama de espiral da epidemia, isto é, onde a transmissão está se dando em velocidade maior e, portanto, há mais doentes indo aos hospitais ao mesmo tempo e ocupando toda a capacidade de assistência do sistema de saúde”, informa a pasta.




quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

São Paulo / À descoberta da grande metropole do Brasil

São Paulo, Avenida Paulista. Fotografia Paulo Kawazoe



São Paulo

À descoberta da grande metropole do Brasil

TATIANA SATO
10 JULHO 2014

Falar de , para mim, é como falar de família porque tenho um carinho imenso pela cidade. Isso acontece porque sou paulistana da gema que, além de nascida e criada na cidade, pensava que moraria lá por toda a minha vida. O destino não o quis e a minha vontade de conhecer o mundo foi maior. No entanto, o sentimento familiar de carinho permanece.
São Paulo, Museu do Ipiranga. Fotografia Sidnei Carvalho, 2011

Sei que o Brasil está associado, na mente de vários estrangeiros, à praia e à natureza e, por isso, acredito que mereça à pena destacar alguns dos encantos da minha cidade natal. Afinal, São Paulo é uma metrópole em solo brasileiro, a maior cidade da América do Sul e uma das maiores do mundo. Com essas proporções, seria ilógico pensar que a cidade não tem coisas a oferecer.
A cidade não tem praia, mas tem parques entre os quais se destaca o Ibirapuera, uma enorme área verde em meio ao concreto da cidade. Nesse parque, desenhado pelo arquiteto Roberto Burle Marx, é destino de final de semana de muitos paulistanos e daqueles que foram adotados pela cidade. É o lugar onde se reunem com amigos ou família para caminhar ou andar de bicicleta.
São Paulo, vista do Pateo do Collegio. Fotografia Paulo Kawazoe

Outro destaque é a Praça Benedito Calixto, onde, todos os sábados, é realizada uma feira que é uma mistura de antiquário e brechó. Embora as barracas sejam encantadoras, os preços podem ser um pouco altos para aqueles que esperam comprar antiguidades por um bom preço. Lá perto, em uma das ruas que saem da Rua Harmonia, está o Beco do Batman, um local conhecido por suas paredes grafitadas que transformam esse lugar num museu a céu aberto.

São Paulo, Parque Ibirapuera. Fotografia Paulo Kawazoe

A Rua Harmonia está na Vila Madalena, um dos bairros boêmios da cidade, destino de fim de semana de vários paulistanos, seja por sua vida noturna de sábado, seja pelo clima de descontração que a região adota nos domingos à tarde. Ao passar por lá, recomendo que experimentem o caipilé que é um twist da caipirinha brasileira com um picolé de frutas, uma invenção que delicía os paladares em dias mais quentes.
Por falar em vida noturna, a cidade oferece inúmeras opções, quaisquer sejam seus gostos. Entre as centenas (para não dizer milhares) de opções, posso destacar o Pé na Jaca Bar (Rua Harmonia 117), na Vila Madalena, que oferece um ambiente artístico descontraído cujas paredes grafitadas remetem ao Beco do Batman e a Casa 92 (Rua Cristóvão Gonçalves, 92), um restaurante-bar-discoteca localizado em um casarão da década de 30 em Pinheiros cuja decoração retro lembra a de uma casa decorada por diversas pessoas, com sofás confortáveis, mesa de bilhar, jardim de inverno e quintal e, inclusive, cozinha que parece de vó (só que mais estilizada).
São Paulo, Pinacoteca do Estado. Fotografia Paulo Kawazoe

A gastronomia paulistana
Formada por imigrantes e migrantes que decidiram tentar a vida na cidade, não é de se surpreender que a gastronomia de São Paulo seja variadíssima. Particularmente, sempre que visito a minha cidade, engordo vários quilos porque não paro de comer. Aliás, essa é uma característica típica: sair e comer.
Não importa onde se vá, o que se fará, sempre vai ter comida envolvida. Saiu para andar no Parque do Ibirapuera? Passe na Frutaria São Paulo para tomar um açaí na tigela, algo bem típico brasileiro. Saiu para tomar um café com amigos? Certamente ele será acompanhado por um sanduíche ou pães de queijo. A copa de cerveja do happy hour de sexta será acompanhada por uma picanha na brasa. Enfim, comer é uma desculpa bem paulistana para socializar.




São Paulo, o Copan, desenhado pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer. 
Fotografia Paulo Kawazoe 

É possível encontrar qualquer tipo de comida de ótima qualidade a qualquer hora do dia. Claro que depende do quanto se quer gastar, mas poucas vezes me decepcionei com a comida nos lugares que fui.
Tenho lugares favoritos na cidade e pratos cuja lembrança fazem minhas papilas gustativas salivarem. A comida da minha mãe é a favorita de todos os tempos, mas, infelizmente ela não possui mais um restaurante. Comidas que recomendo, no entanto, e estão acessíveis ao público geral são o Penne com Melão e Presunto Cru, no Spot, um restaurante localizado atrás dos prédios da Caixa Econômica na Avenida Paulista, e os sushis do Sushibol (a mais nova unidade está na Mário Ferraz, no Itaim), com destaque para o Carpaccio de Salmão Especial e os Niguiris: os de vieiras e sal negro e o de salmão maçaricado são absolutamente incríveis. Todas essas são invenções do chef Danilo Miyabara.

São Paulo, Estação da Luz. Fotografia Paulo Kawazoe

O Bar Brahma, localizado na esquina da Ipiranga com a São João (eternizada pela canção de João Gilberto Sampa), é um bom lugar para se comer a tradicional feijoada (servida em todos os bares e restaurantes da cidade nas quartas e sábados), além de ser um dos lugares onde se pode ouvir e dançar música tradicional brasileira, como a bossa nova, o samba ou o MPB (música popular brasileira) nos sábados à tarde.

São Paulo
Os lugares
Não sei se todos dividem o mesmo amor que sinto pela Avenida Paulista. Não a considero a mais bonita do mundo nem a mais elegante, mas ela sempre fez parte da minha vida enquanto vivi em São Paulo. Seus quase 3 km de extensão, em minha opinião, representam, na forma de arquitetura, a mistura que é a cidade.
Em sua extensão, a avenida acolhe desde casarões da época da cultura do café (início do século XX) como a Casa das Rosas a edifícios modernistas como o MASP (Museu de Arte de São Paulo), prédio projetado pela arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e que se destaca pelo seu vão-livre de mais de 70 m e pela incrível coleção de arte europeia, por muitos considerada a mais importante da América Latina. Uma média de 1,5 milhões de pessoas caminha por essa avenida que também abriga o consulado de vinte e um países e que, para mim, é o coração dessa imensa cidade.

São Paulo

O centro-histórico dessa cidade fundada pelos jesuítas Manoel da Nóbrega e José de Anchieta, espanhol das Ilhas Canárias, também merece uma visita. O Pateo do Collegio (em português arcaico) marca o lugar que deu início à cidade e, muito próximo de lá, se pode visitar a Catedral da Sé, uma construção neo-bizantina e o Teatro Municipal, cuja arquitetura externa é inspirada no Opéra de Paris. Várias outras construções localizadas no centro merecem uma visita. Da Estação da Luz, localizada em frente à Pinacoteca do Estado de São Paulo à Estação Júlio Prestes, com sua arquitetura no estilo beaux-arts que abriga a Sala São Paulo, construída no final década de 90 para ser a casa da Orquestra Sinfônica de São Paulo e onde se podem ouvir orquestras internacionais.
Poderia escrever linhas infinitas sobre a quantidade de coisas para se ver só no centro histórico, mas vou destacar quatro: o Mercado Municipal, onde se pode comer o famoso sanduíche de mortadela ou o pastel de bacalhau (lembrem-se que pastel, para o brasileiro, é uma pastelaria salgada e frita em óleo quente – vale a pena provar), o Copan, desenhado pelo arquiteto modernista Oscar Niemeyer, o Martinelli, primeiro arranha-céu da cidade datado de 1929 e o Banespa, cuja vista do topo tem a fama de ser a mais bonita da cidade.
São Paulo

A cidade é enorme e, talvez por isso, seus encantos, escondidos sob camadas de concreto, não possam ser percebidos por um recém-chegado. O ideal seria ter sempre um paulistano ao lado, daqueles apaixonados pela cidade, na hora de visitá-la, mas isso não significa que não se possa aproveitar a cidade caso não se conheça um local. Tome os devidos cuidados, não caminhe com a câmara fotográfica sempre exposta ou mostrando a carteira com dinheiro. Mas dê uma chance à cidade. Ela pode surpreender.



terça-feira, 6 de setembro de 2016

Eliane Brum / Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um

Kaique Augusto Batista dos Santos


Kaique e os rolezinhos: o lugar de cada um


A lógica que criminalizou os rolezinhos é a mesma que levou a polícia a registrar a morte do adolescente Kaique Augusto Batista dos Santos como suicídio, antes de qualquer investigação



ELIANE BRUM
20 JAN 2014 - 07:03 COT




A morte do adolescente Kaique Augusto Batista dos Santos e os rolezinhos não coincidem apenas no calendário. Dizem de um lugar: onde é “natural” encontrar um jovem negro e pobre, onde não é “natural” encontrá-lo. A lógica que determina a criminalização prévia dos rolezinhos e a não criminalização prévia da morte de Kaique – acontecimentos que moveram São Paulo e parte do país nos últimos dias – é a mesma. Ela indaga por territórios e revela leis não escritas.
Primeiro, quem é Kaique, já que sobre os rolezinhos estamos bem mais informados. O adolescente foi encontrado morto no sábado (11/1), próximo a um viaduto da Avenida Nove de Julho, na região central de São Paulo. Os dentes e os dedos estavam quebrados, havia um ferimento numa perna. Para a família, uma barra atravessada, que depois teria sido retirada. Para policiais, uma fratura exposta. Tinha 16 anos – e são os jovens os que mais morrem por assassinato no Brasil. Era homossexual – as mortes por homofobia cresceram 11% em 2012, comparado ao ano anterior. Era negro, como mais de 70% das vítimas de homicídio no país. É razoável esperar que suas circunstâncias, assim como as circunstâncias em que seu corpo foi encontrado, motivassem suspeitas de que pudesse ter sido assassinado. Não foi, porém, o que aconteceu. A polícia de São Paulo registrou no boletim de ocorrência: “suicídio”.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eliane Brum / Os novos “vândalos” do Brasil



Os novos “vândalos” do Brasil

O rolezinho, a novidade deste Natal, mostra que, quando a juventude pobre e negra das periferias de São Paulo ocupa os shoppings anunciando que quer fazer parte da festa do consumo, a resposta é a de sempre: criminalização. Mas o que estes jovens estão, de fato, “roubando” da classe média brasileira?


ELIANE BRUM
23 DEZ 2013 - 06:51 COT

O Natal de 2013 ficará marcado como aquele em que o Brasil tratou garotos pobres, a maioria deles negros, como bandidos, por terem ousado se divertir nos shoppings onde a classe média faz as compras de fim de ano. Pelas redes sociais, centenas, às vezes milhares de jovens, combinavam o que chamam de “rolezinho”, em shopping próximos de suas comunidades, para “zoar, dar uns beijos, rolar umas paqueras” ou “tumultuar, pegar geral, se divertir, sem roubos”. No sábado, 14, dezenas entraram no Shopping Internacional de Guarulhos, cantando refrões de funk da ostentação. Não roubaram, não destruíram, não portavam drogas, mas, mesmo assim, 23 deles foram levados até a delegacia, sem que nada justificasse a detenção. Neste domingo, 22, no Shopping Interlagos, garotos foram revistados na chegada por um forte esquema policial: segundo a imprensa, uma base móvel e quatro camburões para a revista, outras quatro unidades da Polícia Militar, uma do GOE (Grupo de Operações Especiais) e cinco carros de segurança particular para montar guarda. Vários jovens foram “convidados” a se retirar do prédio, por exibirem uma aparência de funkeiros, como dois irmãos que empurravam o pai, amputado, numa cadeira de rodas. De novo, nenhum furto foi registrado. No sábado, 21, a polícia, chamada pela administração do Shopping Campo Limpo, não constatou nenhum “tumulto”, mas viaturas da Força Tática e motos da Rocam (Ronda Ostensiva com Apoio de Motocicletas) permaneceram no estacionamento para inibir o rolezinho e policiais entraram no shopping com armas de balas de borracha e bombas de gás.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Exposição no MIS-SP propõe um passeio pela mente de Tim Burton

A porta de entrada a Burton, na mostra do MIS.

Exposição no MIS-SP propõe um passeio pela mente de Tim Burton


SP é a primeira cidade da América Latina a ter a mostra que disseca o repertório do menino desajustado


Tim Burton, quando era criança, não gostava de Natal. Hoje, uns 50 anos, 20 longas e vários curtas e séries depois, continua não gostando. Basta um passeio pela exposição O mundo de Tim Burton, que acaba de estrear com ingressos esgotados até março no Museu da Imagem do Som (MIS), em São Paulo, propondo um mergulho no universo criativo desse cineasta norte-americano (Burbank; 1958) para dar-se conta disso. Concebida pela própria equipe de Burton e repaginada pelo MIS-SP, a primeira instituição a recebê-la na América Latina, a mostra exibe cerca de 500 objetos, entre ilustrações, fotografias, bonecos e pinturas, além de trechos de filmes, do eterno menino desajustado que combina terror e humor de maneira terna e como ninguém.

sábado, 24 de outubro de 2015

A intimidade exposta de Hilda Hilst

Hilda Hils

EXPOSIÇÃO EM SÃO PAULO

A intimidade exposta de Hilda Hilst

Ocupação em São Paulo explora a vida íntima da escritora e poeta brasileira



    A escritora, em 1954. / FERNANDO LEMOS (ACERVO BANCO ITAÚ )
    "Eu contei pro papi que gosto muito de ser lambida, mas parece que ele nem me escutou, e se eu pudesse eu ficava muito tempo na minha caminha com as pernas abertas mas parece que não pode porque faz mal, e porque tem isso da hora. É só uma hora, quando é mais, a gente ganha mais dinheiro, mas não é todo mundo que tem tanto dinheiro assim pra lamber". Assim é um trecho do livro O caderno rosa de Lori Lamby, uma das obras mais polêmicas da escritora e poeta Hilda Hilst.
    O livro é o primeiro de uma tetralogia obscena, lançada em 1990, depois de ser recusado por algumas editoras e causando, posteriormente ao lançamento, espanto e polêmica. Escrito no formato de um diário, o livro narra em primeira pessoa a história de uma menina de oito anos que vende o corpo incentivada pelos pais. A linguagem é própria de uma criança dessa idade e a história nada tem de dramática, muito pelo contrário. Daí o espanto, causado até hoje por quem lê.
    Embora não tenho sido sua única obra, foi com o Caderno rosa que a escritora, nascida no interior de São Paulo em 1930 (na cidade de Jaú) ficou mais conhecida. "Gosto muito de Lori Lamby, e ela colaborou para me deixar mais conhecida", disse Hilda Hilst certa vez. "Graças à Lori, muita gente procurou meus outros textos". O livro prova que nem todo autor expõe parte de sua biografia em todas as suas obras. Nada pode ser comparado ao Caderno rosa.
    Agora, grande parte do acervo da escritora, poeta e dramaturgaestará exposta, com entrada gratuita, a partir deste sábado 28 no Itaú Cultural. Lori Lamby é apenas uma parte genial de Hilda Hilst, que publicou dezenas de obras entre poemas, ficções e peças de teatro. Seu lado obsceno talvez seja o mais conhecido, mas Hilda Hilst tem textos que exploram outras questões como a busca pelo significado de Deus e da morte.
    A ocupação acompanha o cotidiano da escritora, por meio de notas, agendas, registros de sonhos e reflexões. Parte dos escritos de Hilda Hilst estão expostos para o público ver e manipular e a cenografia promete reproduzir um ambiente intimista, inspirado pela Casa do Sol, em Campinas (SP), onde ela viveu dos 35 anos até morrer, em 2004. Dividida em cinco núcleos, a ocupação é focada nas obras Júbilo,Memória, Noviciado da Paixão,Kadosh, A Obscena Senhora D, Com os meus olhos de cão e O caderno rosa de Lori Lamby. Parte do conteúdo é inédito em exposição.
    Além do espaço expositivo, a ocupação terá uma programação paralela, incluindo quatro peças baseadas em textos da escritora e um show do cantor Zeca Baleiro com composições sobre os versos de Hilda Hilst.
    A ocupação Hilda Hilst fica em cartaz até o dia 21 de abril, de terça a sexta, das 9h às 20h, no Itaú Cultural (Avenida Paulista, 149). A entrada é gratuita. A programação completa, incluindo as atividades paralelas, podem ser acessadas pelo site do local.




    terça-feira, 20 de outubro de 2015

    Frida e Diego discutem no teatro sua conturbada relação

    Diego Rivera e Frida Kahlo

    Frida e Diego discutem no teatro 

    sua conturbada relação



    Leona Cavalli e José Rubens Chachá caracterizados. /DIVULGAÇÃO
    É comum encontrar quem adore Frida Kahlo e também Diego Rivera, dois grandes artistas do começo do século XX no México, assim, separados em sua personalidade e na genialidade que os caracteriza. Menos comum, pelo menos aqui no Brasil, é entender que da soma destes dois resulta uma terceira entidade: o casal.
    Os dois foram retratados em uma biografia de Jean-Marie Gustave Le Clézio – o autor francês que é prêmio Nobel de literatura – que se detém pouco nas trajetórias individuais de cada um para se concentrar nas histórias conturbadas e nas experiências amorosas polêmicas da dupla. O livro se chama Diego e Frida e com uma leve diferença – o nome dela antes do dele – a peça Frida y Diego, em cartaz em São Paulo até 14 de dezembro no Teatro Raul Cortéz, cumpre a mesma missão.
    Escrita pela dramaturga Maria Adelaide Amaral, nome forte do teatro e, de uns bons anos pra cá, também da televisão, e dirigida por Eduardo Figueiredo com cuidadosa direção artística de Guga Stroeter, a obra conta com as atuações despojadas de Leona Cavalli e José Rubens Chachá, caracterizados com toda a pompa e circunstância. Tem início em 1940, momento em que Frida reata seu casamento com Diego depois de um ano separados. Em seguida, faz um flashback para resgatar momentos importantes do dia a dia do casal, até chegar a 1953, um ano antes da morte da pintora em decorrência dos graves problemas de saúde com os quais lutou a vida inteira, principalmente depois de ter sofrido um acidente em um bonde. Ela tinha somente 16 anos, e, no choque, uma barra de ferro “a partiu pelo meio”, prejudicando para sempre sua coluna e seu aparelho reprodutor.
    Está tudo lá: amor desmedido, traições constantes, separações e reconciliações, vontade incontrolável de Frida de ter um filho, visões políticas e a certeza de ambos de que o comunismo era a resposta para as mazelas do mundo em épocas de miséria e guerra. Mas nada na montagem toma o lugar de uma intensa discussão da relação, em que tanto Frida como Diego demonstram que mais impossível do que viver juntos era viver separados. Por isso, a única solução que encontraram foi manter um relacionamento aberto, em que ele seguia adiante com suas amantes, assim como Frida, que foi abertamente bissexual, passou a fazer.
    Maria Adelaide Amaral conta que partiu de pesquisas em livros – certamente uma referência central na peça é a biografia de Le Clézio –, cartas e leituras para escrever o texto. Em todo esse vasto material disponível aí, para todos os curiosos, o interessante é que a autora tenha feito certa homenagem a ela, Frida, usando para isso inclusive a própria boca de Diego: "Você é melhor que eu, meu amor", diz Rivera em um dos trechos, referindo-se ao talento artístico de Frida. "O gênio é você, sou só sua sombra", responde ela.
    Chamam a atenção, na composição geral do espetáculo, a aposta pela trilha sonora ao vivo, feita especialmente para ele pelos músicos Mauro Domenech e Wilson Feitosa, que intervêm 37 vezes entre trocas de cenário e figurino. A plateia vibra sempre que um dos personagens aparece de um canto inesperado do palco, e principalmente quando Frida entra em cena deitada em sua famosa cama, disposta, apesar de convalescente, a participar de sua primeira exposição individual no México, justamente um ano antes de morrer.


    Ambos eram politicamente ativos e ligados ao Partido Comunista. /DIVULGAÇÃO
    Ficam o tempo todo evidentes para o espectador as dores físicas e emocionais dela, mas, mais do que isso, o que ela desejava que o mundo registrasse de sua passagem pela Terra: sua disposição de viver e a paixão desmedida por Diego Rivera. Assim, quem sai do teatro Raul Cortez fica às voltas com a lição ensinada pelo casal: o amor é imperfeito, mas quando de fato existe, se faz maior do que a vida. E não deixa outra saída que vivê-lo até a morte.



    sexta-feira, 16 de outubro de 2015

    Exposição de Frida Kahlo em São Paulo retrata seu amor pelas mulheres

    Frida Kahlo no hotel Barbizon Plaza, de Nova York, em 1931. LUCIENNE BLOCH (COURTESY THE GELMAN COLLECTION)

    Exposição de Frida Kahlo em SP retrata seu amor pelas mulheres

    Mostra no Instituto Tomie Ohtake traz 20 das 143 telas produzidas pela artista mexicana

    O destaque é para o feminino, no entrelaçamento com outras pintoras surrealistas



    Frida Kahlo foi, por um lado, uma esposa apaixonada pelo marido – o muralista mexicano Diego Rivera –, além de devota ao (conturbado) casamento dos dois, como poucas pessoas encontrariam forças para ser. Foi, por outro, uma mulher que amava outras mulheres, sua natureza de sensibilidade aguçada e inesgotável fonte de energia. Também teve relações físicas e sentimentais com elas, já que era bissexual, e usou todas essas facetas de sua personalidade como inspiração na pintura, em obras que falam, através de sua história, sobre o poder feminino. Por tudo isso, as mulheres amavam a pintora mexicana – por quem a admiração mundial só aumenta – e a continuam amando.
    Da admiração de pintoras surrealistas por Frida (1907-1954) e também da influência artística da mexicana sobre elas trata a exposição Frida Kahlo – Conexões entre Mulheres Surrealistas no México, que abre suas portas neste domingo, 27 de setembro, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, onde fica até 10 de janeiro de 2016. Com curadoria da pesquisadora mexicana Teresa Arcq, a mostra foi criada especialmente para o Brasil, por encomenda da casa que a abriga, e reúne 100 obras produzidas no México por 15 artistas mexicanas e estrangeiras – a grande maioria delas inédita aqui. Delas, 20 são pinturas e 13, desenhos de Frida – representação razoável de alguém que produziu em vida apenas 143 telas. Junto com manequins com os trajes típicos que ela usava e fotografias feitas por Nickolas Murray (que foi seu amante e responsável por seus retratos mais famosos), Bernard Silberstein, Martin Munkácsi e Héctor García, essa seleção pictórica faz um belo repasso pela intimidade da artista.

    Frida Kahlo, 'Diego en mi pensamiento', 1943. © 2015 Banco de México/Diego Rivera & Frida Kahlo Museums Trust. /GERARDO SUTER
    E Frida, em uma palavra, era isso: intimidade. Expunha as passagens mais dramáticas de sua vida marcada por uma poliomielite na infância, um acidente de carro na adolescência e as traições de Rivera e um aborto quando adulta em pinturas que, paradoxalmente, exalam beleza e alegria de viver. Para representar isso, estão lá no Tomie Ohtake as telas El abrazo de amor del universo, la tierra (México), Diego, yo y el senõr Xóloti(1933) e Diego em mi pensamiento(1943), além de uma litografia,Frida y el aborto (1932). Aparecem também os autorretratos – são 10 os de Frida, dos 55 que ela chegou a pintar –, que exploram a identidade jogando com mitos pessoais, indo muito além da fronteira de uma autofotografia. “A questão do autorretrato é interessante, porque podemos perceber que, enquanto os homens se representam em estúdios ou em seus ambientes de trabalho, as mulheres, quando se pintam, colocam-se em situações de empoderamento. Usam adornos e elaboram o discurso de uma mulher poderosa”, explica Teresa, que se especializou na história das surrealistas.
    As diferenças entre a arte de homens e mulheres não é uma pauta da mostra, mas é possível percorrê-la buscando particularidades do universo feminino. Na única peça de autoria de Diego Rivera incluída na exposição – um desenho chamado Desnudo (Frida Kahlo) – o pintor representa sua esposa nua, sentada numa cama, sem nenhuma imperfeição e em uma pose erótica. Sabe-se que Frida tinha, por exemplo, as pernas finas (e uma diferente da outra) por conta da poliomielite. “No surrealismo, os homens erotizavam o corpo feminino”, explica a curadora. Sem deixar de se empoderar, Frida fazia o contrário: jamais tratava de ocultar sua verdade.
    Surrealista, eu?
    Apesar de que Frida Kahlo nunca tenha se considerado uma surrealista, é inegável a passagem do surrealismo pela sua arte, graças à amizade com o escritor francês André Breton, o grande teórico do surrealismo. Foi ele quem fomentou sua carreira internacional, primeiro apoiando uma exposição de Frida em Nova York e depois organizando sua famosa mostra individual em Paris. Foi nessa ocasião que a mexicana lançou a várias pintoras europeias desanimadas com os anos cinzentos que a Europa vivia então o convite para que se exilassem no México.
    Muitas aceitaram e lá ficaram, outras passaram apenas uma temporada descobrindo a cultura popular mexicana, de quem Frida e Diego eram grandes difusores, mas todas se renderam ao discurso dela, especialmente. Ao lado de criadoras como a inglesa Leonora Carrington, a espanhola Remedios Varo, as mexicanas María Izquierdo e Lola Álvarez Bravo e a francesa Alice Rahon, a obra de Frida ganha potência. A relação entre elas – umas mais radicais, outras menos, mas todas ícones do feminismo – foi dada pelos temas que Frida tratou em sua obra, como o autorretrato, a natureza morta, o corpo e o fascínio por magia e crenças populares, assim como pela carga surrealista da artista. Tudo carregado de erotismo, emoção e, especialmente, empoderamento.

    Traje de Tehuana. © Coleção Collection of Comisión Nacional para el Desarrollo de los Pueblos Indígenas. / FRANCISCO KOCHEN
    Essa força feminina fica evidente, ao final, com os figurinos de indígena tehuana que Frida adotou a certa altura da vida, inspirada pelo fato das tehuanas serem a única sociedade matriarcal do México (e uma das raras no mundo). Não são as roupas dela, mas peças similares selecionadas de um acervo doMuseu de Arte Popular do México, que ela ajudou a fundar. Isso, porque, explica Teresa, “por determinação expressa de Rivera, nada que pertenceu a Frida pode sair da Casa Azul”, onde ela viveu, no hoje bairro de Coyoacán, reduto de artistas da Cidade do México. A famosa casa, que era azul porque os mexicanos acreditam que essa cor espanta os maus espíritos, pode ser vista em um dos documentários (A vida e os tempos de Frida Kahlo – para a curadora, o melhor material de vídeo existente sobre a artista, com imagens de arquivo) que fazem parte de uma pequena mostra cinematográfica que faz parte da exposição. Na segunda semana de visitação, haverá também uma instalação sobre o lugar, La Casa Azul, com o objetivo de aproximar as crianças do repertório da artista.
    Segundo Teresa, não foi fácil reunir de museus mexicanos e também de coleções privadas tantas obras de Frida para esta exposição (que em 2016 viajará ao Rio de Janeiro e a Brasília), mas valeu a pena, pois os brasileiros andam cada vez mais apaixonados por ela. A curadora corrige a afirmação da repórter e diz logo que o boom ao redor de Frida é mundial. “Frida Kahlo pintava o que via e sentia, e sua obra fala muito de emoções e sensações. Todos nos rendemos a isso”, decreta.