quinta-feira, 31 de julho de 2014

Batman faz 75 anos



Batman faz 75 anos

Nesta quarta-feira, 23 de julho, acontece o ‘Dia do Batman’, em milhares de livrarias dos EUA



O Batman exclusivo para EL PAÍS assinado pelo desenhista Carlos Rodríguez.
“É como um diamante inquebrável. Poderia colidir contra a parede ou o teto sem ficar nem sequer com um risco. Era só questão de encontrar a faceta que ninguém havia usado nunca.” A citação, em tom reverencial, quase religioso, é do roteirista e desenhista Frank Miller (300Sin City), provavelmente a definição mais célebre do justiceiro de Gotham. Milionário playboy durante o dia. Gárgula vivente, flagelo do mal à noite. Batman. Um herói humano no Olimpo dos deuses dos quadrinhos. Um diamante de psique torturada que um sem-fim de artistas reinterpretou sem descanso em gibis, filmes e videogames. Um mito que agora completa 75 anos. O ano de suas 75 velinhas encontra o Cavaleiro das Trevas no auge do sucesso, em pé e sorridente sobre uma das gárgulas de Gotham, de onde sempre vigiou sua cidade. Sobram-lhe motivos para estar de bom humor. Um novo filme em andamento, Batman v Superman: Dawn of justice (2016), com a criticada escolha de Ben Affleck sob a máscara. A conclusão da tetralogia do videogame Batman Arkham, que vendeu mais de 12 milhões de cópias. E um macroevento que se realiza nesta quarta, rebatizado como Dia do Batman, e que tem milhares de lojas de quadrinhos nos Estados Unidos cantando parabéns pelo aniversário. Mas tudo começou como um sonho humilde. O sonho de um desenhista (Bob Kane) e um sapateiro (Bill Finger).
1938. Uma festa qualquer em Nova York. Finger e Kane apertam pela primeira vez as mãos. O encontro é narrado em detalhes no livro Batman: serenata nocturna (Timun Mas, 2014), de David Hernando (editor de Batman na Espanha durante seis anos), crônica do grande esquecido na criação do personagem: o sapateiro Finger. Hernando descreve um Finger retraído, apaixonado por cinema e Mozart, e um Kane deslumbrado e voraz que logo percebeu o negócio. Aquele cara poderia dar-lhe uma fortuna se escrevesse os gibis que ele desenhara. Kane ofereceu o trabalho, e Finger, que ainda não havia escrito uma linha sequer, aceitou. Sem saber que Kane ocultaria sua importância capital na gênese da personagem e arrebataria toda a fama. Afronta que a DC emendará nesta quarta, incluindo pela primeira vez a assinatura de Finger em uma capa, a do número especial que comemora o aniversário.
Salto no tempo para maio de 1939. Detective comics nº27, primeira ilustração. Grandes letras brancas avisam: Batman. Uma silhueta recortada com o que parece ser uma capa desdobrada e duas pequenas orelhas pontiagudas. Era o ser evocado pelo dicionário de psicologia consultado por Finger enquanto ele e Kane, desesperados, tentavam sair do aperto de criar um novo super-herói depois do Super-Homem ter arrasado. “Kane queria criar uma cópia do Super-Homem. Mas Finger se empenhou em fazer algo muito mais sombrio. Queria um detetive”, revela Hernando. O desenho original de Kane estava longe da figura icônica mundialmente conhecida. Um sujeito vestido de vermelho, com duas asas de morcego surgindo nas costas, máscara e o rosto descoberto. Um esboço que Finger corrigiria à saciedade, inspirando-se em outra personagem de seriados muito popular, o Sombra, até chegar a essa silhueta que se vislumbrava na primeira ilustração.


O Batman original imaginado por Bob Kane que logo seria corrigido por Bill Finger segundo mostra o gibi: 'Bill, the boy wonder'.
Os anos 40 foram o esplendor para o cavaleiro das trevas. Nasceram o Coringa, Charada, Duas-Caras e Mulher-Gato, vilões que tinham muito mais a ver com Jung ou Freud do que com ficção a científica desenfreada que outros super-heróis enfrentavam. Nasceu também a origem da personagem, uma das gêneses mais dramáticas de um super-herói. À saída do cinema com os pais, um rapaz filho de milionários, Bruce Wayne, fica órfão por causa da cobiça de um ladrão vulgar. Dois disparos acabam com seus pais. São as ilustrações da origem da personagem em Detective Comics nº33 (1939). De novo, uma ideia de Finger. As bases do sucesso estavam assentadas e tudo parecia caminhar à perfeição para o justiceiro das trevas. Mas a psicologia, que tanto contribuiu para o gibi do Batman, estava a ponto de cobrar seu preço. “Milhares e milhares de postos de trabalho perdidos. Uma censura brutal. Foi uma débâcle. A maior crise da história dos quadrinhos." Quem fala é Dennis O’Neal (Missouri, 1939), roteirista e editor de Batman durante três décadas. A hecatombe a que se refere foi a publicação do best-seller de Fredrick Wertham, Seduction of the innocent (Rinehart & Company, 1954), um livro em que o psicólogo de origem alemã apontava os gibis como um dos maiores culpados pela alta delinquência juvenil nos Estados Unidos. O’Neil destaca a magnitude da catástrofe: “Chegaram a queimar pilhas de gibis nas ruas. Muitíssimas coleções acabaram e a maioria das editoras foi fechada. Os quadrinhos estiveram a ponto de morrer. Dos super-heróis, só o Super-Homem e o Batman aguentaram.”


Primeira página de Batman em quadrinhos, os desenhos que abrem o 'Detective comics nº 27'.
Mas de que maneira. Os anos cinquenta são os anos de vergonha para a personagem. Contava com Robin e passou a ter uma Batfamília, com o Bat-Cão incluído. Enfrentava vilões tão tortuosos como Duas-Caras ou o Coringa e passou a lutar em outros planetas contra alienígenas. Um broto do que era o Batman daquela época. Capa da revista Batman nº 97 (1956): Batman e Robin com matrazes e tubos de ensaio olhando para o Bat-Cão que tem na boca uma foto de suas identidades secretas. Robin: “Olhe! Uma foto de Bruce Wayne e Dick Grayson, Ace descobriu nossas identidades secretas!”. Batman: “Você será um grande detetive!”.
Os anos sessenta foram o momento de levantar a cabeça. E o primeiro passo no futuro da personagem e de toda a indústria dos quadrinhos: ser um laboratório de ideias para o audiovisual. No dia 12 de janeiro de 1966 foi ao ar o primeiro dos 120 episódios de Batman, série de televisão protagonizada por Adam West. Seu espírito era muito camp, na linha festiva do Batman daqueles anos, mas regularizou a presença da personagem e de seus vilões. “Produziu-se uma retroalimentação entre a série e o gibi que logo se repetiria com os filmes. Para o pessoal de Hollywood, a personagem só interessava porque era algo que podia render muito dinheiro, mas contribuiu para tirar o gibi do ostracismo”, afirma O’Neil. O êxito da série pavimentou a nova era dourada que estava prestes a começar.

Um livro de psicologia provocou a maior crise do gibi ao acusá-lo de corromper a juventude
Batman, vinte e poucos anos, em uma Gotham cheia de putas, brutais gangues de rua e polícia corrupta. Batman, 50 anos, em um futuro distópico ao estilo de Blade runner. Entre esses dois, o rapaz sem experiência (Batman: Ano um) e o homem maduro que pendurou a capa e volta anos depois (Batman: A volta do cavaleiro das trevas), se forjou grande parte do boom artístico e comercial das histórias em quadrinhos americanas nos anos oitenta. Seu autor, Frank Miller, um artista naquela época kamikaze, que havia revolucionado Daredevil, algo assim como oBatman da Marvel, e que tinha uma ideia muito clara de como misturar reflexão sociopolítica, o futuro orwelliano e a violência com os super-heróis.


Capa de 'Batman #97', na qual se vê a sagacidade do detetive 'Bat-Cão'.

Mas Miller, que ficou com todos os méritos, se beneficiou do trabalho de limpeza que na década anterior havia sido feito por Dennis O’Neil –como editor e escritor– e Neil Adams –como artista revolucionário. O’Neil explica como dinamitou a personagem: “Me deram carta branca. Bill Finger me passou o bastão e pude tomar decisões radicais. Primeira: Batman sozinho, nem Robin, nem nada. Segunda: os vilões clássicos e obscuros assumiam o protagonismo”. E um terceiro ingrediente para a fórmula mágica: risco artístico. De dezembro de 1988 a janeiro de 1989, O’Neil encabeçaria uma aposta radical: Uma morte na família. Os leitores, discando 1-900-720-2666, deviam decidir se o segundo Robin, Jason Todd, deveria morrer ou viver. 5.271 pessoas disseram que não. Mas 5.343 disseram sim. O Coringa, armado com uma alavanca de ferro, golpeia Robin até a morte. “Foi a primeira vez que senti o gibi como algo mais que um trabalho. Percebi que realmente tínhamos um impacto emocional enorme em nossos leitores, que estávamos fazendo arte”, recorda O’Neil, emocionado. Resultado: Hollywood focalizou Batman, Tim Burton dirigiu Batman (1989) e a era do blockbuster super-heróico começava.


Portada de 'El regresso do caballero escuro', a distopía futurista com Batman de Frank Miller.Capa de 'A volta do cavaleiro das trevas, a distopia futurista com o Batman de Frank Miller.
Há uma ponte diáfana que conecta o Batman de 1989 com a recente trilogia de Christopher Nolan, que faturou quase 2 bilhões de euros (cerca de 6 bilhões de reais), e a situação da personagem hoje em dia. A sombra do poder de Hollywood se estende sobre o cruzado encapuzado. Por sua vez, o videogame obteve um sucesso que volta a deixar pequeno tudo o que se pode conseguir no gibi. Um filme como O cavaleiro das trevas ressurge (2012), recordista de público entre os nove filmes da personagem, arrecadou mais de 800 milhões de euros (aproximadamente 2,4 bilhões de reais). Uma cifra muito acima do valor de toda a indústria do gibi (menos de 600 milhões de euros anuais, algo como 1,8 bilhões de reais).

Frank Miller revolucionou o Batman com um coquetel de sociopolítica, futurismo 'orwelliano' e violência
“É um risco muito grande e creio que pode ter um efeito terrível sobre a liberdade dos roteiristas. Me dá muito medo”, afirma Brian Azzarello, um de os criadores que mais revolucionaram a personagem nos últimos anos, especialmente em Batman: o cavaleiro da vingança (2011), uma história na qual os pais de Bruce Wayne sobrevivem e se transformam em Batman e no Coringa. Outros, como Dennis O’Neil ou Katie Kubert, a primeira mulher a ser editora da personagem, o veem com mais otimismo: “Somos seu laboratório de ideias. O gibi sempre foi o lugar onde se forjam as revoluções que depois chegam ao cinema”, afirma Kubert. O’Neil é menos romântico: “É bom para eles usar-nos como storyboard, porque quando colocam duzentos milhões de dólares sobre a mesa não se pode correr o risco de experimentar para ver como fica”.
Se Batman poderá fazer outros 75 anos é algo à mercê do acaso. Mas os criadores acreditam que sim. “Claro que ele pode reinventar-se outra vez. O Super-Homem é muito mais rígido. Mas o Batman sempre pode se renovar”, afirma Azzarello. Neil Gaiman, que escreveu a morte definitiva de Batman em O que aconteceu ao cavaleiro das trevas?(2009), o vê como um vovô centenário por uma razão muito simples: “Batman funciona. Tudo nele encaixa. O traje encaixa. Suas origens encaixam. E há algo mais. O Super-Homem vem de um planeta que foi pelos ares. Assim, a cada dia que a Terra continua intacta, o Super-Homem tem um passo de vantagem. Os pais do Batman foram assassinados. De modo que a cada dia que sai para lutar, tem um passo de desvantagem”.



O jardim suspenso da Babilônia paulistana

lustração de como seria um parque no MinhocãoASS. AMIGOS DO PARQUE MINHOCÃO


O jardim suspenso da Babilônia paulistana

Sancionado nesta quinta-feira, o Plano Diretor prevê a criação de uma lei para transformar o Minhocão em um parque


Marina Rossi
São Paulo - 31 JUL 2014 - 17:48 COT


Depois de quase um ano entre idas e vindas na Câmara dos Vereadores, discussões acaloradas e manifestações públicas, o Plano Diretor de São Paulo finalmente foi sancionado, nesta quinta-feira, pelo prefeito da cidade Fernando Haddad (PT). E entre as diretrizes que regularão a cidade até 2030 estão algumas vitórias para o paulistano. Uma delas é a previsão da criação de uma lei para desativar o Elevado Costa Silva, paulistaneamente conhecido como Minhocão, e transformá-lo parcialmente ou integralmente em um parque. Se aprovada, a via expressa de quase três quilômetros e meio, que liga a Praça Roosevelt no centro da cidade, ao largo Padre Péricles, em Perdizes, pode se transformar em uma área inspirada no parque suspenso High Line, em Nova York.
O projeto de lei já existe. Publicado em fevereiro deste ano e com coautoria de sete vereadores - tanto da oposição quanto do Governo - o Projeto de Lei 10/2014 prevê uma desativação gradual do Elevado ao longo de quatro anos. Para o presidente da Associação Parque Minhocão, Athos Comolatti, o Plano Diretor é um passo a mais em direção à construção do parque. “Estou esperançoso. A prefeitura não pode ser esquizofrênica ao ponto de aprovar uma sanção e, ao mesmo tempo, não aprovar a desativação (do elevado)”, diz.


(ASS. AMIGOS DO PARQUE MINHOCÃO)

Hoje, o Minhocão fica desativado para a passagem de veículos aos domingos e feriados, durante o dia todo, e nos outros dias, das 21h30 às 6h30, quando reabre para a passagem dos mais de 70.000 veículos que trafegam pela via diariamente. De acordo com o texto do projeto de lei, primeiramente o local seria fechado aos sábados também. Em um segundo momento, no período de férias escolares. Posteriormente, seria restrito o horário de circulação de veículos entre as 20h e as 7h. Numa penúltima fase, a circulação de veículos só seria permitida no sentido bairro-centro pela manhã e somente no sentido centro-bairro à tarde, até ser, finalmente, desativado por completo, 24 horas por dia, sete dias por semana. Segundo um dos coautores do projeto, o vereador Nabil Bonduki (PT), a discussão dessa lei deve entrar na pauta da Câmara dos Vereadores neste segundo semestre.

O projeto do parque ainda não existe concretamente. Embora em 2006 a Prefeitura tenha feito um concurso público para eleger o melhor projeto para transformar o local, o trabalho eleito foi engavetado. De autoria dos arquitetos Juliana Corradini e José Alves, a proposta era manter o elevado quase que “encaixotado”, utilizando a parte de cima dessa “caixa” para parques e áreas de convivência. “A ideia do parque existe desde 1987, lançada pelo arquiteto Pitanga do Amparo. Na época, talvez porque não exista nenhuma referência externa, foi considerado um projeto um tanto exótico e não foi pra frente”, explica Comolatti. “Com a construção do High Line em Nova York, esse projeto começou a se transformar em algo mais palpável”.
O projeto do parque ainda não existe concretamente. Embora em 2006 a Prefeitura tenha feito um concurso público para eleger o melhor projeto para transformar o local, o trabalho eleito foi engavetado
De acordo com Comolatti, o maior obstáculo para que o local se transforme em um parque é a falta de mobilização, tanto do poder público, quanto das pessoas. “Tudo tende a ficar como é. O Minhocão funciona há décadas e as pessoas estão acostumadas com isso e preferem não mexer”, diz. Outro aspecto importante é o escoamento dos veículos que trafegam por lá. “Desativar o Minhocão causaria um caos no trânsito muito grande”, diz Bonduki. “Até por isso, a proposta é gradativa”. Já para o arquiteto Abílio Guerra, essa não seria uma questão tão importante assim. “Imagino que, para acomodar um pouco a opinião pública, desativar aos poucos seria a maneira mais adequada. Mas também não vejo problema de desativar de um dia para o outro”, diz. “O trânsito em geral sempre vai pra algum outro ponto e sempre estará congestionado”.
Segundo Guerra, a maioria dos arquitetos defende a demolição do Minhocão, mas, de acordo com ele, isso sim traria problemas para a região. “O problema da demolição, além de ser algo caríssimo e ter questões ambientais enormes envolvidas, como o ruído e a poeira que levantaria, é a certeza de que haverá um processo de especulação imobiliária e a retirada da população que hoje vive no entorno”, diz. “Acho que a maneira mais adequada de tratar essas pessoas que moram lá há décadas e sofrem com o barulho seria construir um parque”.



A cicatriz da ditadura

O controverso Elevado Costa Silva é uma via expressa inaugurada em 1971 pelo então prefeito de São Paulo, Paulo Maluf. Batizada com o nome de um general que presidiu o país nos anos da ditadura militar, o Elevado é chamado também de “a cicatriz de São Paulo”. Com a construção da via, os prédios do entorno tiveram seus valores reduzidos devido ao imenso barulho e à poluição causada pelo tráfego.
Devido ao barulho e aos acidentes que ocorriam principalmente durante a noite, em 1976 o Minhocão passou a ser interditado das 21h30 às 6h30. Hoje, é fechado também aos domingos e feriados. Caminhar pelo Minhocão em um domingo é tomar o lugar dos carros ao longo do viaduto. Dezenas de pessoas frequentam o local para uma corrida ou um passeio de bicicleta dominical. É possível encontrar, sem muito esforço, famílias fazendo churrasco em uma grelha improvisada, crianças brincando em uma piscina de plástico, gente paquerando, tomando sol, ouvindo música. Olhando o Elevado num dia de semana qualquer, a sensação é de que você não está no mesmo lugar.
O arquiteto Abílio Guerra até arriscaria algumas ideias para o desenho de um parque suspenso aos moldes do nova-iorquino High Line. “Tendo a achar que seria mais voltado para caminhadas, com arbustos mais baixos ao invés de árvores altas. Seria um parque duro como é a cidade de São Paulo”.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Bill Watterson / Calvin e Haroldo viram adultos

Cartaz de Bill Watterson para o filme 'Stripped'



Calvin e Haroldo viram adultos

O criador da famosa tirinha volta depois de 19 anos de silêncio

Bill Watterson publicou a última tira de Calvin e Haroldo em 25 de dezembro de 1995. Aqueles quatro quadrinhos, coloridos, no formato dominical, são uma das grandes obras-primas das HQs: Calvin e seu tigre acordam e descobrem uma paisagem completamente coberta de neve. “É um mundo mágico, Haroldo, velho amigo. Vamos explorá-lo!”, exclama o menino antes de se lançar à aventura. Com essas palavras, foi encerrada uma década de desenhos que conseguiram uma relação insólita com os leitores e que finalmente demonstraram que tiras cômicas não eram coisa só de criança. Após aqueles desenhos, Watterson desapareceu da vida pública e se tornou uma espécie de Thomas Pynchon dos quadrinhos, apesar de uma ter adotado uma faceta taciturnaà la J. D. Salinger.
Só existe um retrato dele, sorrindo na frente de sua escrivaninha. Ele não permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens (qualquer camiseta ou bichinho de pelúcia de seus personagens é um produto pirata), poderia ter ganhado milhões, mas se recusou: defendeu com uma coerência incomum a pureza da tirinha sem querer transformá-la numa indústria. “É sempre melhor ir embora da festa cedo. Acredito que o motivo principal pelo qual Calvin e Haroldo ainda encontra público é porque preferi não sobrecarregá-la. Nunca me arrependi de parar naquela hora”, declarou Watterson por e-mail na única entrevista que concedeu durante seu longo período de silêncio. O jornal escolhido por ele significava uma declaração de princípios: o Plain Dealer, de Ohio, porque é no município de Chagrin Falls, nos arredores de Cleveland, naquele Estado, onde ele vive. Cumpriu sua promessa e não voltou a publicar. Até agora: 19 anos depois daquela mítica tira, Watterson voltou.

Uma década de Calvin

Calvin e Haroldo foi publicada por jornais de todo o mundo durante dez anos, entre 1985 e 1995. Seus protagonistas são um menino de imaginação desatada e pouca noção de autoridade e seu tigre de pelúcia, que ganha vida quando os dois estão a sós.
Em 1995, Bill Watterson parou de desenhar as tiras e nunca permitiu nenhum tipo de comercialização de seus personagens.
Trata-se de um retorno à altura do personagem: discreto, humilde e com muito senso de humor. Watterson não tentou competir consigo mesmo com um projeto ambicioso ou ressucitando Calvin, mas mostrou o mesmo amor pelo desenho que marcou toda a sua obra. Voltou aos jornais de uma maneira extraordinária: emplacou três tiras no Washington Post, mas ninguém sabia que eram suas antes da publicação, já que pediu emprestado o espaço a outro cartunista, Pastis, e imitou seu estilo com certa ironia (o jornal que revelou o caso Watergate se viu com o artigo exclusivo mais exótico de sua longa existência porque nem sabia que o levava em suas páginas).
Ele também criou o cartaz de um filme sobre autores de quadrinhos cômicos, Stripped, um documentário para o qual também dá um depoimento, e aceitou desenhar o poster do próximo Festival de Angoulême, que abrigará também uma exposição, após ter recebido, o Grand Prix este ano. Mas não pretende viajar até a cidade francesa que acolhe o mais conhecido evento de quadrinhos do mundo. E até foi lançado um documentário sobre ele, Dear Mr. Watterson, de 2013.
“É o segredo que mais custei a guardar em toda a minha vida porque eu sabia que tinha algo muito importante e raro, como se tivesse visto o Abominável Homem das Neves”, escreveu Pastis em seu blog, após revelar que recebeu um e-mail de Watterson se oferecendo para desenhar três tiras de Pearls Before Swine sem ninguém saber. “É como se Jimmy Hendrix tivesse me dito que tinha um novo solo de guitarra. E, sim, eu sei que Hendrix está morto”.
Quanto ao cartaz do documentário, Watterson afirmou que lhe pareceu um desafio e por isso aceitou: criou uma imagem muito engraçada, que mostra um cartunista que salta rápido e sem roupas, espantado ao ler uma manchete: “Adeus, jornais!”. A obra de Watterson sempre foi ligada à imprensa e ele sempre quis que os jornais fossem seu espaço: sua genialidade reside nisso, em ser capaz de contar histórias infinitas em um formato muito reduzido, em criar personagens complexos em apenas quatro quadrinhos.
A única imagem de Bill Watterson.
“As tiras cômicas são criadas sob a pressão de um fechamento diário inflexível, e temos muito pouco espaço para escrever e desenhar”, disse Watterson em um de seus raros textos, publicado em Calvin e Haroldo – O Livro do Décimo Aniversário (Conrad), uma obra estupenda na qual o autor comenta muitos de seus quadrinhos e oferece uma mina de informações sobre seu trabalho. A descrição de seu trabalho é, ao mesmo tempo, uma homenagem à arte de fazer jornais e também aos quadrinhos e seus personagens. Ele explica que o nome Calvin é uma referência ao teólogo francês João Calvino e confessa que as coisas que diz e faz o menino de imaginação transbordante e escasso senso de autoridade é um reflexo do autor francês: “Seus pensamentos são os mesmos que os meus, me vejo nele como adulto e não como criança”. Haroldo, o tigre de pelúcia que ganha vida quando está com o menino, é uma homenagem ao filósofo inglês Thomas Hobbes [nome do personagem no original em inglês] – “O homem é o lobo do homem” – e é inspirado nos gatos que Watterson teve. Ele também descreve todos os personagens secundários: os pais, Susie (“provavelmente a única pessoa de quem Calvin tem medo”), a professora, o valentão Moe... Quadrinho a quadrinho, tira a tira, pressionado pelos fechamentos e pelas condicionantes de tempo e espaço da imprensa, Watterson conseguiu construir um universo que nunca acaba, seguramente porque decidiu fechá-lo a tempo.





segunda-feira, 28 de julho de 2014

John Le Carré / Philip Seymour Hoffman

Philip Seymour Hoffman
Philip

A partir das visitas de Le Carré à filmagem da adaptação cinematográfica de seu romance 'O homem mais procurado’, o escritor cria um grande retrato do protagonista, morto em fevereiro




Philip Seymour Hoffman, em 'O Homem Mais Procurado'
Calculo que, no total, passei cinco horas falando pessoalmente com Philip Seymour Hoffman, no máximo seis. O resto do tempo, durante a filmagem de O homem mais procurado, me dediquei a me misturar com os demais, a observá-lo no monitor e dizer depois a ele que havia estado estupendo, ou a não dizer-lhe nada. E nem sequer isso aconteceu muitas vezes: um par de visitas ao set e um papel tonto sem diálogo que me obrigou a deixar uma barba repugnante, levou o dia todo para filmar e produziu uma imagem borrada de alguém que agradeci por não reconhecer. No mundo do cinema seguramente não existe ninguém que seja tão supérfluo como o autor do livro original na rodagem do filme baseado em seu texto, coisa que aprendi na minha própria dor. Alec Guinness me fez o favor de pedir que me tirassem do set em que se filmava a adaptação de El topo para a BBC. E eu só queria irradiar a admiração que sentia, mas Alec disse que meus olhares eram intensos demais.
Agora que penso, Philip fez o mesmo favor a uma amiga minha durante aquela filmagem de O homem mais procurado em Hamburgo, numa tarde de inverno em 2012. A mulher estava de pé a uns 30 metros dele, olhando e passando frio, como todos os outros. Mas havia nela algo que incomodou Philip, e pediu que a retirassem de lá. Foi uma reação curiosa, curioso, quase clarividente e muito acertada, porque minha amiga é também romancista, e pode ser mais intensa do que qualquer um. Philip não sabia. Mas intuiu.

Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência avassaladora
Em retrospectiva, não deveria ter me surpreendido com esse tipo de coisas em Philip porque, não sabendo de nada, sua intuição se destacava de forma luminosa, assim como sua inteligência. Muitos atores fingem ser inteligentes, mas Philip era de verdade: culto, multifacetado, artístico e brilhante, com uma inteligência que te avassalava e te envolvia desde o instante em que segurava sua mão, te enrolava o pescoço com seu enorme braço e colocava sua bochecha contra a sua; ou te abraçava como um menino grande e gorducho, e depois se separava e sorria encantado enquanto estudava o efeito que havia causado.


Os atores Philip Seymour Hoffman (esq.), como Truman Capote, e Catherine Keener, em uma cena do filme 'Capote', dirigido por Bennett Miller. Esta interpretação lhe rendeu o Oscar e o Globo de Ouro em 2005.
Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína. O mundo era reluzente demais para ele. Tinha que apertar os olhos ou morrer deslumbrado. Como Chatterton, quando você ia, ele já estava de volta, e cada vez que ele desaparecia, você não tinha certeza de que voltaria, o mesmo que diziam, acho, do poeta alemão Hölderlin: que quando saía de uma casa, os que ficavam tinham medo de não voltar a vê-lo. E se parece que é fácil dizer a posteriori, não é assim. Philip estava se queimando vivo diante dos nossos olhos. Era impossível viver aquele ritmo e aguentar muito tempo, e de vez em quando tinha uns flashes surpreendentes de intimidade, os quais sabíamos que precisava.
Nenhum ator havia me impressionado tanto como me impressionou Philip em nosso primeiro encontro: nem Richard Burton, nem Burt Lancaster, nem sequer Alec Guinness. Philip me cumprimentou como se estivesse a vida toda desejando me conhecer, e suspeito que cumprimentava todo mundo assim. Mas eu sim que queria conhecê-lo fazia tempo. Seu Capote me parecia a melhor interpretação que já havia visto na tela. No entanto, não me atrevi a dizer a ele, porque com os atores, quando se diz a eles que estavam bem em um papel de nove anos atrás, sempre existe o perigo de que te perguntem o que houve de ruim em suas intepretações seguintes.
O que disse a ele foi que era o único ator norte-americano que considerava capaz de interpretar meu personagem George Smiley, um papel que foi encarnado pela primeira vez por Alex Guinness na versão da BBC de El topo e há alguns anos por Gary Oldman no cinema; claro que, como bom britânico, considero Gary Oldman um dos nossos.

Philip estudava tudo, o tempo todo. Era um esforço doloroso e cansativo, que provavelmente acabou sendo sua ruína
Talvez lembrei também que Philip, como Guinness, não era um grande amante nas telas, mas, por sorte, não precisávamos nos preocupar com isso em nosso filme. Se Philip tinha que pegar uma mulher em seus braços, não sentíamos vontade de virar o rosto como acontecia com Guinness, mas era inevitável a sensação de que estava fazendo pelo espectador mais do que por si próprio.
Os responsáveis por nosso filme debateram muito se podiam fazer com que Philip se deitasse com alguém, e é interessante pensar que, quando por fim propuseram uma possibilidade, tanto ele como sua parceira saíram correndo. Somente quando viram a magnífica atriz Nina Hoss a seu lado compreenderam que estavam diante de um pequeno milagre de fracasso romântico. Em seu papel, ao que em seguida se deu mais importância, Nina é apaixonada por Philip, sua discípula e braço direito, e ele parte seu coração.

'O quarteto', de Yaron Zilberman. Com Mark Ivanir, Philip Seymour Hoffman (segundo à esquerda), Christopher Walken e Catherine Keener (2013).2013).

Era perfeito para Philip. Seu papel de Günther Bachmann, um espião alemão de meia idade à deriva, não permitia amores duradouros nem de nenhum outro tipo. Philip havia tomado essa decisão desde o primeiro dia e, para deixá-la clara, levava a todas partes um exemplar manuseado do meu romance —o que mais pode querer um autor?— para hasteá-lo ante qualquer um que quisesse que houvesse mais sexo.
O filme O homem mais procuradoconta também com Rachel McAdams e Willem Dafoe. Foi filmado quase que por completo em Hamburgo e Berlim, e em seu elenco estão vários dos melhores atores da Alemanha em papeis relativamente humildes, não apenas a sublime Nina Hoss, mas também Daniel Brühl.

É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem
No romance, Bachmann é um agente secreto que foi transferido a seu país desde Beirute após perder sua valiosa rede de espionagem devido à falta de jeito ou algo pior da CIA. Vive retirado em Hamburgo, a cidade que recebeu os conspiradores do 11 de Setembro. A seção regional dos serviços de inteligência e muitos de seus cidadãos ainda vivem envergonhados por isso.
A missão que se propõe a Bachmann é dar a volta na situação: não com equipes de sequestradores, torturas com água e execuções extrajudiciais, mas sim mediante a hábil penetração de integração dos espiões, utilizando o próprio peso do inimigo para derrubá-lo e acabar desarmando o jihadismo de dentro para fora.
Durante um jantar elegante com os responsáveis pelo filme e os principais membros do elenco, não lembro que Philip nem eu conversamos muito sobre o personagem concreto de Bachmann; falamos mais em geral, sobre coisas como a atenção e o cuidado que requerem os agentes secretos e o papel de guias e conselheiros que assumem seus chefes diretos. Esqueça as chantagens, eu disse. Esqueça as bravatas. Esqueça a falta de sonho, as pessoas fechadas em caixas, as execuções simuladas e outras técnicas reforçadas. Os melhores agentes, espiões, informantes ou como se quiser chamar —pontifiquei— precisam de paciência, compreensão e afeto. Gostaria de acreditar que o convenci com minha homilia, mas o mais provável é que estivesse pensando se poderia usar alguma vez essa expressão espessa que adoto quando estou tratando de impressionar alguém.

Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman em uma cena do filme 'The master',
dirigida por Paul Thomas Anderson (2013).


É difícil escrever com objetividade sobre a interpretação que Philip faz desse homem de meia idade que vai perdendo o controle sobre como perfila o rumo de autodestruição de seu personagem. Tinha um diretor, é claro. E o diretor Anton Corbijn, um homem tão culto e multifacetado como Philip, é maravilhoso em muitos aspectos: fotógrafo de prestígio mundial, pilar da cena musical contemporânea e objeto, ele mesmo, de um documentário. Seu primeiro filme, Control, em preto e branco, é emblematico. Atualmente está rodando um filme sobre James Dean. No entanto, quando o vi trabalhar, seu talento criativo me pareceu sempre introvertido e soberano. Acho que ele seria o primeiro a reconhecer que não é um dramaturgo teórico nem sabe transmitir com eloquência o que pensa da vida interior de um personagem. Philip tinha que manter esse diálogo consigo mesmo, e devia ser um diálogo macabro, cheio de perguntas como: “Em que momento exato perco todo o sentido da moderação?” Ou: “Por que insisto em seguir em frente com tudo isto quando, no fundo, sei que não posso acabar mais do que em tragédia?”. Mas a tragédia atraia Bachmann, e Philip também, como as luzes falsas atraem os barcos naufragados.
Houve um problema com os sotaques. Tínhamos alguns atores alemães muito bons que falavam inglês com sotaque alemão. A opinião geral era, de forma um pouco arriscada, que Philip deveria fazer o mesmo. A primeira vez que o ouvi foi estranho. Não conhecia nenhum alemão que falasse inglês assim. Fazia algo estranho com a boca, uma espécie de biquinho. Parecia beijar suas frases, mais do que dizê-las. Mas então, pouco a pouco, começou a fazer o que só os melhores atores sabem fazer. Conseguiu que sua voz fosse a única autêntica, a solitária, a peculiar, a que te obrigava a depender dela em meio a todas as demais. E cada vez que saia de cena, como cada vez que saia seu dono, nos deixava esperando sua volta com impaciência e cada vez mais com inquietude.
Levaremos muito tempo para conhecer outro Philip.
© David Cornwell, 2014


PESSOA




sábado, 26 de julho de 2014

Cynthia Dorneles / Uma conversa



Cynthia Dorneles
Uma conversa


Ás vezes uma conversa ao vivo com alguém que respeitamos e que nos respeita faz mais efeito que quinhentas mil letras no virtual e nos jornais. Conversa realmente traz luz.





Vargas Llosa / O passado imperfeito

O passado imperfeito
Fernando Vicente

MARIO VARGAS LLOSA

O passado imperfeito

Os grandes anais da inteligência no Paris após a II Guerra eram mais os estertores da figura do intelectual e os últimos instantes de uma cultura derramada na rua


26 JUL 2014 - 17:22 COT

Acaba de ser reeditado nos Estados Unidos um livro de Tony Judt que apareceu pela primeira vez em 1992 e que eu não conhecia: Past Imperfect: French Intellectuals, 1944-1956. Impressionou-me muito porque eu vivi na França por cerca de sete anos, em um período - 1959-1966 - ainda impregnado pela atmosfera e pelos preconceitos, acrobacias e desvarios ideológicos que o grande ensaísta britânico descreve em seu ensaio com tanta severidade e erudição.
O livro pretende responder a esta pergunta: por que, nos anos do pós-guerra europeu e até meados da década de setenta, os intelectuais franceses, de Louis Aragon a Sartre, de Emmanuel Mounier a Paul Éluard, de Julien Benda a Simone de Beauvoir, de Claude Bourdet a Jean-Marie Doménach, de Maurice Merleau-Ponty a Pierre Emmanuel etc., foram pró-soviéticos, marxistas e companheiros de viagem do comunismo? Por que escritores e pensadores europeus acabaram sendo os últimos a reconhecer a existência do Gulag, da brutal injustiça dos julgamentos stalinistas em Praga, Budapeste, Varsóvia e Moscou que mandaram revolucionários comprovados para o paredão? Houve exceções ilustres, com Albert Camus, Raymond Aron, François Mauriac e André Breton entre eles, mas foram escassas e pouco influentes em um meio cultural no qual as opiniões e os posicionamentos dos primeiros prevaleciam de maneira esmagadora.
Judt pinta um quadro de grande rigor e leveza do renascer da vida cultural na França após a libertação, uma época em que o debate político impregna todo o movimento filosófico, literário e artístico e permeia os meios acadêmicos, os cafés literários e revistas como Les Temps ModernesEspritLes Lettres Françaises e Témoignage Chrétien, que passam de mão em mão e alcançam tiragens notáveis. Comunistas e socialistas, existencialistas e cristãos de esquerda, seus colaboradores divergem sobre muitas coisas, mas o denominador comum é um anti-americanismo sistemático, a convicção de que entre Washington e Moscou a primeira representa a incultura, a injustiça, o imperialismo e a exploração, e a última o progresso, a igualdade, o fim da luta de classes e a verdadeira fraternidade. Não chegam todos aos extremos de um Sartre, que, em 1954, após sua primeira viagem à União Soviética, afirma, sem o menor pudor: “O cidadão soviético é completamente livre para criticar o sistema”.
Nem sempre se trata de uma cegueira involuntária, derivada da ignorância ou da mera ingenuidade. Tony Judt mostra como ser um aliado dos comunistas era a melhor maneira de limpar um passado contaminado pela colaboração com o regime de Vichy. É o caso, por exemplo, do filósofo cristão Emmanuel Mounier e de alguns de seus colaboradores na Esprit, que, no início da ocupação, tinham sido seduzidos pela chamada experiência de nacionalismo cultural Uriage, patrocinado pelo governo, até que, advertidos de que era manipulada pelas forças nazistas da ocupação, se distanciaram. E eu me recordo que, no princípio dos anos setenta, diante de alguns manifestantes universitários que queriam impedi-lo de falar e citavam Sartre, André Malraux respondeu a eles: “Sartre? Eu o conheço. Fazia suas peças de teatro serem representadas em Paris, aprovadas pela censura alemã, enquanto a Gestapo me torturava”.
Tony Judt diz que, além da necessidade de fazer esquecer um passado politicamente impuro, por trás do esquerdismo dogmático desses intelectuais havia um complexo de inferioridade do meio cultural, pela facilidade com que a França se rendeu aos nazistas e aceitou o regime fantoche do Marechal Pétain, e foi libertada de maneira decisiva pelas forças aliadas lideradas pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha. Ainda que tenha existido, sem dúvidas, uma resistência local e uma participação militar (gaullista e comunista) na luta contra o nazismo, a França jamais teria conquistado sozinha sua própria libertação. Isso, somado à substancial ajuda que recebia dos Estados Unidos para seus trabalhos de reconstrução, através do Plano Marshall, teria disseminado um ressentimento que pode explicar, segundo Judt, essa doença infantil do esquerdismo pró-stalinista que marcou sua vida intelectual entre 1945 e os anos sessenta.
No polo oposto, destaca-se a figura de Albert Camus. Nos anos cinquenta, não era necessária apenas lucidez para condenar os campos soviéticos de extermínio e os julgamentos duvidosos; também era preciso uma grande coragem para enfrentar uma opinião pública tendenciosa, a demonização de uma esquerda que tinha o controle da vida cultural e uma ruptura com seus antigos companheiros de resistência. Mas o autor de O Homem Revoltado não hesitou, afirmando, contra tudo e contra todos, que dissociar a moral da ideologia, como fazia Sartre, era abrir as portas da vida política ao crime e às piores injustiças. O tempo lhe deu razão e por isso as novas gerações continuam lendo suas obras, enquanto a maior parte dos que então eram os mestres da vida intelectual francesa foi engolida pelo esquecimento.





Sartre assegurou, sem vergonha, que na URSS havia completa liberdade para criticar o sistema

Um caso muito interessante, que Tony Judt analisa detalhadamente, é o de François Mauriac. Resistente desde o primeiro momento contra os nazistas e Vichy, suas credenciais democráticas eram impecáveis na época da libertação. Isso o permitiu enfrentar, com argumentos sólidos, a maré pró-stalinista e, sobretudo, como católico, os progressistas da Esprit e da Témoignage Chrétien, que em muitas ocasiões, como durante as polêmicas sobre o Gulag desatadas pelos testemunhos de Viktor Kravchenko e de David Rousset, serviram de meros porta-vozes das mentiras inventadas pelo Partido Comunista francês. Por outro lado, tanto em suas memórias quanto em seus ensaios e colunas jornalísticas, ele se adiantou a todos os seus colegas ao iniciar uma profunda autocrítica dos delírios de grandeza da cultura francesa, em uma época na qual – ainda que muitos poucos além dele tenham percebido na ocasião – ela entrava justamente em um declínio do qual até hoje não conseguiu sair. Nunca gostei dos romances de Mauriac e por isso descartei seus ensaios; mas este livro Past Imperfect de Judt me convenceu de que cometi um erro.
No entanto, nem tudo é convincente no livro. É imperdoável que, além de Camus, Aron e outros, a obra não faça menção a Jean-François Revel, que, desde o fim dos anos cinquenta, travava também uma batalha bastante intensa contra os símbolos do stalinismo. Ou que não ressalte suficientemente a denúncia do colonialismo e o apoio às lutas do Terceiro Mundo para se livrar das ditaduras e da exploração imperial, que foi um dos cavalos de batalha e talvez o aporte mais positivo de Sartre e de muitos de seus seguidores na época.
Por outro lado, ainda que a dura crítica de Tony Judt ao que chama de “anestesia moral coletiva” dos intelectuais franceses seja, feitos os cálculos, justa, ele omite algo que nós que de alguma maneira vivemos aqueles anos dificilmente poderemos esquecer: a vigência das ideias, a crença – por vezes exagerada – de que a cultura em geral, e a literatura em particular, desempenhariam um papel de primeiro plano na construção daquela futura sociedade na qual a liberdade e a justiça finalmente se uniriam de maneira indissolúvel. As polêmicas, as conferências, as mesas redondas no auditório lotado da Mutualité, o público ávido, principalmente de jovens, que acompanhava tudo aquilo com fervor e prolongava os debates nos bistrôs do Quartier Latin e de Saint Germain: impossível lembrar-se de tudo isso sem nostalgia. Mas é verdade que foi bastante efêmero, menos relevante do que acreditávamos, e que o que então nos pareciam ser os grandes anais da inteligência eram mais os estertores da figura do intelectual e os últimos instantes de uma cultura de ideias e palavras, não limitada aos seminários do meio acadêmico, mas sim derramada sobre os homens e as mulheres das ruas.