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domingo, 4 de julho de 2021

O retrato / O corpo humano no contexto das expressões artísticas e panfletárias do nosso tempo

Rembrandt van Rijn. “Self-portrait, aged 51”, ca. 1657.


O retrato

O corpo humano no contexto das expressões artísticas e panfletárias do nosso tempo


Paulo Guerreiro
25 JANEIRO 2017 

“I can’t feel my face when I’m with you / But I love it, but I love it, oh.”

(Excerto do refrão do tema “Can’t feel my face”, de The Weeknd, 2015)

Numa esquina perto de minha casa, impressa num cartaz de grande formato, está uma fotografia de Cristiano Ronaldo em roupa interior. Duas ruas à frente, vejo o rosto de Andie MacDowell promovendo cremes milagrosos (porque, segundo consta, “eu mereço”). Na principal galeria das redondezas, está há um mês exposta uma pequena síntese da obra de Donald Judd, na qual o texto introdutório me relembra as conquistas do abstracionismo e da “força tautológica” das diversas caixas que vou vendo.

Posso confessar: nenhuma destas três frases é verdadeira. Mas, como o caro leitor concordará, estão longe de pintar cenários inverosímeis, numa qualquer esquina, numa qualquer rua, numa qualquer galeria. Estes cenários, ainda que aleatoriamente dispostos, sublinham as mensagens presentes nos fenómenos artísticos e publicitários que nos rodeiam, normalmente suportadas por uma forte componente visual.


“Exército de terracota do Imperador Qin Shi Huang”, China, séc.III a.C..



É certo que o chamado “panorama artístico” é variadíssimo, que a produção é (cada vez mais) inquantificável e que as tentativas de a enquadrar numa qualquer síntese são ingratas e imodestas. Efetivamente, o quadro que pintamos nunca é suficientemente extenso.

Ainda assim, arriscaria afirmar que os cenários expostos inicialmente traduzem uma questão com a qual os media contemporâneos se debatem: o valor e o significado do corpo humano no contexto das expressões artísticas e panfletárias do nosso tempo (com efeito, a sugestão de que a “arte” e a “publicidade” se juntam no mesmo campo é cada vez menos abusiva).

A comparação entre o conteúdo dos cartazes publicitários e aquele, por exemplo, das exposições em galerias de arte contemporânea e instalações públicas torna claro que, se no mundo da publicidade o papel do corpo humano está já vincado – é um veículo de identificação e, principalmente, de projeção de ambições numa relação entre consumidor e imagem -, no campo tradicionalmente denominado como “artístico”, esse papel não é tão claro.

"David”, Miguel Ângelo Buonarroti, 1501-04.


Mais intrigante do que esta indefinição quanto à importância da figura humana na arte contemporânea é, talvez, a sensação de que se tornaram mais frequentes os casos nos quais o observador é entendido como “alvo” do objeto artístico do que aqueles nos quais a obra de arte pretende retratar uma determinada ideia de “Homem”.

Por outras palavras: vivemos numa cultura dominada pelas selfies e seus derivados, onde a imagem do corpo humano está, aparentemente, por todo o lado. No entanto, a produção artística parece fugir da representação direta da figura humana. Com a exceção da fotografia e, eventualmente, das artes vídeo – coincidentemente, os meios preferenciais das campanhas publicitárias-, a ideia de “retrato” parece ser encarada com pouco entusiasmo pela maioria dos artistas. No domínio da escultura, por exemplo, esta tendência é particularmente notória. A arte não figurativa e a instalação – provavelmente os meios de expressão dominantes nos dias que correm - baseiam-se na exploração de objetos “não humanos”, centrando-se em produzir “eventos”, mais do que “formas”, per si.

Da land art à arte cinética, das instalações luminosas de James Turrell às chapas metálicas de Richard Serra, das composições criadas por Hélio Oiticica às cada vez mais glamourosas produções de Thomas Heatherwick, a nossa cultura coletiva parece focada nesta ideia de evento e na ideia de que a perceção do corpo humano e da própria ideia de “humano” (como indivíduo ou como cultura) deverá surgir em diferido, como efeito colateral da narrativa proposta por determinada instalação. Criamos cada vez mais filtros e, como consequência, produzimos arte onde a presença da pessoa é tendencialmente intuída e quase nunca oferecida à partida.

Olafur Eliasson. “The Weather Project”, Tate Modern, Londres, 2003


Poder-se-á argumentar que, quanto mais sofisticada uma cultura é, menos diretas ou literais são as suas expressões de determinada ideia. Segundo a mesma lógica, e atendendo à evolução histórica do mundo da arte, compreende-se porque é que, nos dias que correm, será mais provável que se encomende uma peça escultórica ou instalação de cariz abstrato para pontuar as nossas praças do que o clássico cavaleiro de bronze. Mas pensemos o seguinte: haverá diferenças substanciais entre a nossa reação a objetos marcadamente miméticos e a objetos nos quais a presença do nosso próprio corpo é mais sugerida do que explícita? Por outras palavras, que cultura é esta em que tiramos fotografias de nós próprios a toda a hora, mas tendemos a achar que o “branco sobre branco” (desculpe, Malevich, mas teve de ser…) é a expressão mais sublime de sofisticação artística?

Será decerto fácil encontrar inúmeros casos que contrariam a minha linha argumentativa. O leitor poderá contra-atacar, apontando a recente redescoberta do pitoresco, do naïve e do kitsch, as esculturas de Juan Muñoz e de Ron Mueck ou o pujante ressurgimento da ilustração, nomeadamente em Portugal.

Mas, esticando os meus dotes de psicanalista ao máximo, lanço a ideia: a importância da conotação é cada vez mais desvalorizada nas nossas culturas mas, paradoxalmente, a emoção e a empatia são crescentemente exacerbadas pelas nossas dinâmicas sociais. Padecemos de uma tendencial aversão a tudo o que não seja quantificável, objetivo, “tautológico”; no entanto, as nossas economias são dominadas por uma subjetividade nociva que determina o “valor” das coisas palpáveis e dos bens de consumo (basta ver como funcionam as bolsas de valor para confirmar este ponto). Neste contexto, onde cabe o impressionante virtuosismo de Mueck?

WSI



domingo, 27 de junho de 2021

A arena / Banalidade e criatividade na arquitetura de recintos desportivos

O novo estádio de Bordéus, de 2016


A arena

Banalidade e criatividade na arquitetura de recintos desportivos


Paulo guerreiro
27 FEVEREIRO 2017 

 

Pão e circo.1

A cidade é Libreville, capital do Gabão. O calendário assinala o dia 14 de Janeiro de 2017. Envolvidos pela vibração vinda das bancadas, 22 atletas equipados com as cores das respetivas nações preparam-se para o pontapé de saída. A Taça das Nações Africanas (“CAN 2017”) está prestes a começar.

O cenário para a partida inaugural deste importante evento desportivo do continente africano é o Stade d’Angondjé, no subúrbio homónimo de Libreville, conhecido geralmente por Stade de l’Amitié ou Estádio da Amizade Sino-Gabonesa. Este último nome é sintomático da influência das empresas de construção chinesas um pouco por toda a África, com resultados que muitas vezes nos deixam a pensar se uma ideia nefasta de “copy-paste” não estará irremediavelmente enraizada nestes contextos. No que toca a arenas desportivas, por exemplo, a China contribuiu decisivamente para a construção dos estádios da mais recente CAN, assim como os das edições realizadas na Guiné Equatorial ou em Angola, nos últimos anos.

Alguém que seja adepto de desporto e, simultaneamente, se interesse por arquitetura, não deixará de notar uma sensação de “déja vu” ao ver a maioria dos recintos desportivos de grandes competições internacionais. A contrafacção mais ou menos disfarçada parece afigurar-se como a regra no que toca a este tipo de edifício.

Sejamos justos: o Stade d’Angondjé não será o exemplar mais desinspirado desta repetição de modelos. As construtoras chinesas não serão, também, as únicas a espalhar plágios de estádios já vistos. Mas será verdadeira a noção de que estes edifícios teoricamente singulares, segundo a distinção clássica entre a habitação e os programas “excecionais”, estão atualmente remetidos à condição de expressões de banalidade?

A palavra estádio deriva do termo grego stádion, a designação de uma medida correspondente a cerca de 180 m. No século I a.C., os Jogos Olímpicos da antiguidade disputavam-se num recinto com esta medida de referência e, desde então, o termo passou genericamente a designar os lugares onde têm lugar os eventos que atualmente designaríamos como “entretenimento”. Ao longo da história das cidades ocidentais este tipo de espaço foi cimentando a sua importância, a ponto de alguns estádios terem sido o pano de fundo de imagens simbólicas dos tempos recentes. Os saltos olímpicos de Jesse Owens na clássica arena berlinense em 1936 ou a entrega do troféu do Mundial de rugby de 1995 por Nelson Mandela têm como pano de fundo arenas que se tornaram icónicas.

Talvez por estes motivos a recente arquitetura de estádios possa parecer comparativamente insípida, mas há razões pragmáticas para esta aparente insipidez. Como noutros tipos de programa, a implementação de regras rígidas de construção e segurança implica um alto grau de standardização, que diminui a margem para grandes variações. Por contraste, a grande maioria dos estádios do século XX construiu-se com um nível de planeamento muito inferior ao atual e frequentemente em fases dispersas ao longo do tempo. O resultado foram edifícios compostos, com linhas irregulares de bancadas e um caráter “informal”, como cidades “orgânicas” adaptadas às circunstâncias, ao contexto, às finanças e flutuações dos vários períodos do seu crescimento.

A este respeito, proponho aos leitores o exercício de tentar diferenciar um conjunto aleatório de estádios construídos nos últimos 15 anos, olhando apenas para imagens captadas ao nível do relvado. De facto, não haverá grandes dúvidas em reconhecer as bancadas dos velhinhos Giuseppe Meazza ou Mestalla, em Milão e Valência; mas se olharmos, por exemplo, para o novo Estádio de Lyon e o compararmos com muitos outros estádios “genéricos” do mesmo período, provavelmente instalar-se-ão as dúvidas: estaremos a olhar para A ou para B? Com efeito, o carácter do invólucro exterior das arenas afigura-se atualmente como o factor diferenciador entre as várias obras, sendo os espaços interiores remetidos para uma crescente banalidade.

Embora um estádio possa ser dotado de valências similares a outras salas de espetáculos, o seu “wow-factor” não costuma partir do projeto da concha interior, como é o caso, por exemplo, nos auditórios mais notáveis. Ver os desenhos das secções da Filarmónica de Berlim, de Hans Scharoun, ou da recente Elbphilarmonie, de Herzog & de Meuron, é um deleite e uma lição inigualável pela maioria dos projetos de recintos desportivos. Entre os mais consistentes contribuintes para o panorama da arquitetura de estádios encontra-se, a propósito, a firma Herzog & de Meuron. O seu corpo de trabalho recente mostra uma estimulante compreensão de que a arquitetura desportiva pode e deve interpretada nos mesmos moldes das restantes tipologias construtivas. Cada projeto da dupla suíça expressa um exercício sobre um “tema” arquitectónico e não apenas o cumprimento de regulamentos ou um estéril formalismo, sendo relevante que este atelier tenha no seu portefólio exemplos de diversos tipos de intervenção.

No projeto do estádio St. Jakob, em Basileia, a fusão entre os vários programas (desporto, comércio, escritórios) torna esta obra um verdadeiro edifício urbano, no qual a torre espelhada de silhueta futurista concentra estas conotações, piscando o olho à tipologia da “arena multifunções” da cultura americana. No “Ninho de Pássaro”, em Pequim, os temas associados à textura exterior tomam forma com rara densidade: neste caso, a associação entre estrutura e escultura leva ao limite a relação entre o peso (físico e visual) da cobertura e a silhueta global do edifício.

Recentemente, a dupla de arquitetos presenteou-nos com o projeto do novo estádio de Bordéus, um edifício de linhas clássicas e de airosa subtileza formal. Ao visitar esta obra, o arquiteto português Eduardo Souto de Moura destacou, em entrevista à revista Domus2, o modo como nela se evidenciava uma subtil relação entre linha curva e linha recta no contacto entre o limite superior das bancadas e a forma da cobertura. Considerando que estes comentários vêm do arquiteto que nos ofereceu o classicíssimo estádio de Braga que, pela sua inserção na topografia e pelo desenho das pendentes das bancadas nos relembra as lições dos anfiteatros gregos e romanos, concluímos que o panorama do pensamento sobre os edifícios para eventos desportivos está longe de se encontrar resignado à banalidade burocrática.

Basta que haja arquitetura.

Notas:

1Expressão satírica atribuída ao poeta romano Juvenal, usada para descrever a política romana de “entretenimento” das populações.
2Revista “Domus” nº 999, Milão, Fevereiro de 2016.

WSI