sábado, 20 de outubro de 2018

Guy de Maupassant / Um ardil



Guy de Maupassant
UM ARDIL
Tradução de Pietro Nassetti
      
 O velho médico e a jovem enferma conversavam no canto do fogo. Ela estava levemente afetada por uma dessas indisposições femininas que com frequência acometem as mulheres bonitas: um pouco de anemia, nervosismo, uma suspeita de fadiga, dessa fadiga que sentem por vezes os recém-casados, no fim do primeiro mês de união, quando fizeram um casamento por amor.    
        Ela estava deitada em um sofá e dizia:       
        - Não, doutor, jamais compreenderei que uma mulher engane o marido. Posso admitir que ela não o ame, que não leve em consideração nenhuma das próprias promessas, dos próprios juramentos! Mas como atrever-se a entregar a um outro homem? Como esconder isso de todo o mundo? Como poder amar, imersa na mentira e na traição?        
        O médico sorria.       
        - Quanto a isso é fácil, é fácil – disse – Asseguro-lhe que não se pensa em todas essas sutilezas, quando o desejo de errar invade as criaturas. Estou mesmo certo de que uma mulher não está madura para o amor verdadeiro a não ser depois de ter passado por todas as promiscuidades e todos os aborrecimentos do casamento, o qual, na opinião de um homem ilustre, nada mais é do que uma troca de maus humores durante o dia e de maus odores durante a noite. Nada é mais verdadeiro. Uma mulher não pode amar com paixão a não ser depois de ter sido casada. Se a pudesse comparar com uma casa, diria que ela só é habitável depois que um marido lhe secou o reboco. E quanto à dissimulação, todas as mulheres a têm para dar e vender nessas ocasiões. Mesmo as mais ingênuas são maravilhosas, e saem magistralmente das mais difíceis situações.         
        Mas a jovem senhora parecia incrédula...       
        - Não, doutor, só nos lembramos do que deveria ter sido feito nas situações perigosas, depois do caso passado; e as mulheres certamente têm mais propensão para perder a presença de espírito do que os homens.       
        O médico ergueu os braços.       
        - Depois do caso passado, diz a senhora! Nós, homens, é que só temos inspiração depois do caso passado. Mas as senhoras!... Escute, vou contar-lhe uma pequena história acontecida a uma das minhas clientes, a quem eu teria dado a comunhão sem confissão, como se costuma dizer.       
         Isto aconteceu em uma cidade de província.       
        Certa noite, eu dormia profundamente, com esse pesado primeiro sono tão difícil de interromper, quando, em um sonho obscuro me pareceu que os sinos da cidade badalavam, dando sinal de incêndio.       
        De repente, acordei: era a minha campainha, a da rua, que tilintava desesperadamente. Como meu criado parecia não responder, puxei por minha vez o cordão pendurado na minha cama, e, pouco depois, houve um barulho de portas batendo e de passos perturbando o silêncio da casa adormecida; depois, João surgiu trazendo uma carta que dizia: “A Sra. Lelièvre pede com insistência ao senhor Dr. Siméon que venha urgentemente à sua casa”.       
        Refleti por alguns instantes e conclui: uma crise de nervos, vapores, uma bobagem qualquer, e eu estou muito cansado. Respondi: “O Dr. Siméon, não se sentindo bem, pede à Sra. Lelièvre que tenha a bondade de chamar o colega Dr. Bonnet”.       
        Depois dei o bilhete dentro de um envelope e tornei a adormecer. Meia hora mais tarde, a sineta da rua soou novamente, e João veio dizer-me: “É alguém, um homem ou uma mulher (não consigo dizer com certeza), que desejava falar imediatamente com o senhor. Diz ele que se trata de uma questão de vida ou de morte para duas pessoas”.       
        Ergui-me do leito:         
        - Mande entrar.       
         Aguardei sentado na cama.       
        Apareceu-me uma espécie de fantasma negro e, logo que João saiu, descobriu-se. Era a a Sra. Lelièvre, uma criaturinha muito jovem, casada há três anos com um grande comerciante da cidade, o qual passava por ter desposado a mais bela jovem da província.       
        Estava terrivelmente pálida, trazendo no rosto aquele crispar das pessoas enlouquecidas; e suas mãos tremiam; por duas vezes tentou falar, sem que de seus lábios pudesse sair um som. Afinal balbuciou: “Depressa, depressa... depressa... doutor... Venha! Meu... meu amante morreu no meu quarto...”         
        Parou, sufocada, depois continuou: “Meu marido vai... vai... voltar do clube...”       
        Pulei da cama, sem mesmo me lembrar que estava em camisa, e vesti-me em poucos segundos. Depois perguntei: “Foi a senhora mesma que esteve aqui há pouco?” De pé, como estátua, petrificada pela angústia, ela murmurou: “Não, foi minha criada... ela sabe...” Depois de uma pausa: “Eu tinha ficado... perto dele”. Uma espécie de grito de dor terrível saiu-lhe dos lábios e, após uma sufocação que a fez estertorar, ela chorou, chorou desvairadamente com soluços e espasmos durante um ou dois minutos; depois suas lágrimas subitamente pararam, estancaram, como se tivessem sido enxugadas por dentro, com fogo; e, voltando a ser tragicamente calma, disse: “Vamos, depressa!”.       
        Eu estava pronto, mas exclamei: “Com os diabos, não dei ordem de atrelarem o cupê!” Ela respondeu: “Tenho um, tenho o dele, que o estava esperando”. Cobriu-se até a cabeça e partimos.       
        Quando a meu lado, na escuridão do carro, ela tomou-me bruscamente a mão e, esmagando-a entre seus dedos finos, balbuciou com abalos na voz, abalos que lhe vinham do coração dilacerado: “Oh! Se soubesse, se soubesse o quanto sofro! Eu o amava, eu o amava perdidamente, como uma insensata, fazia seis meses”.       
        Perguntei: “Estão acordados em sua casa?” Ela respondeu: “Não, ninguém, salvo Rosa, que sabe de tudo”.       
        Paramos defronte à casa dela; de fato todos dormiam; entramos sem fazer barulho, com uma chave de trinco, subindo na ponta dos pés. A criada, apavorada, sentara-se no chão no alto da escada, com uma vela acesa ao lado; não se atrevera a ficar junto ao morto.        
        Entrei no quarto. Estava desarrumado, como após uma luta. A cama desfeita, abarrotada, ficara como à espera de alguém; um dos lençóis estava caído até o tapete; toalhas molhadas, com as quais haviam batido as têmporas do rapaz, estavam no chão, ao lado de uma bacia e de um copo. E um cheiro singular de vinagre de cozinha, misturado a vaporizações de 'Lubin', enjoava-nos desde a porta.       
        De costas, estendido no meio do quarto, estava o cadáver. Aproximei-me; contemplei-o; apalpei-o; abri-lhes os olhos; toquei-lhe as mãos, depois, voltando-me para as duas mulheres, que tremiam, como se estivessem geladas, eu lhe disse: “Ajudem-me a levá-lo para a cama”. E o deitamos suavemente. Auscultei-lhe então o coração e pus-lhe um espelho em frente da boca; depois murmurei: “Acabou-se, vamos vesti-lo o mais depressa possível”. Foi uma cena terrível de ver!          
        Eu pegava sucessivamente os membros do rapaz como os de uma enorme boneca e os apresentava às roupas que as mulheres traziam. Calçaram as meias, vestiram as ceroulas, as calças, o colete, a seguir o casado, cujas mangas nos deram bastante trabalho para enfiar.        
       Quando foi preciso abotoar as botinas, as duas mulheres se ajoelharam, enquanto eu as iluminava; porém, como os pés haviam inchado um pouco, foi espantosamente difícil. Não tendo achado o abotoador, fizeram o serviço com os próprios grampos.         
        Logo que a terrível toalete terminou, analisei a nossa obra e disse: “É preciso penteá-lo um pouco”. A empregada foi buscar um pente e a escova da patroa; mas como tremesse e arrancasse os cabelos compridos e emaranhados em movimentos involuntários, a Sra. Lelièvre apoderou-se do pente com violência e penteou a cabeleira suavemente, como se a acariciasse. Refez a risca, passou a escova na barba, depois enrolou lentamente os bigodes no dedo, como certamente costumava fazer, nas intimidades do amor.         
       E, subitamente, soltando o que tinha nas mãos, segurou a cabeça inerte do amante e olhou demoradamente, desesperadamente, aquela face morta, que não mais lhe sorriria; depois, caindo sobre ele, apertou-o nos braços e beijou-o com violência. Seus beijos caiam como pancadas, na boca fechada, nos olhos extintos, nas têmporas, na fronte. Em seguida, aproximando-se da orelha dele – como se ainda a pudesse ouvir, para balbuciar a palavra que torna mais ardente os abraços – repetiu dez vezes seguidas com voz dilacerante: “Adeus, querido”.        
        Mas o relógio deu meia-noite.       
        Tive um pressentimento: “Raios! Meia-noite! É a hora em que fecham o clube. Vamos, minha senhora, força!”      
        Ela se aprumou. Ordenei: “Vamos levá-lo ao salão”. Pegamo-lo nós três, e, tendo-o levado, sentei-o em um sofá; depois acendi os candelabros.       
        A porta da rua abriu-se e fechou-se pesadamente. Já era ele. Ordenei: “Rosa, rápido, traga-me as toalhas e a bacia e arrume o quarto; por Deus, apresse-se” Eis o Sr. Lelièvre, que vem chegando”.       
        Ouvi os passos subirem e aproximaram-se. Mãos no escuro apalpavam as paredes. Chamei então: “Por aqui, meu caro; tivemos um acidente”.       
       E o marido, espantado, surgiu no umbral, com um charuto na boca. Perguntou: “Que há? Que aconteceu? Que é isso?”        
        Encaminhei-me para ele: “Meu velho, estamos em um penoso embaraço. Eu havia ficado até tarde a tagarelar aqui, com a Sra. Lelièvre e nosso amigo, que me trouxe no seu carro. Subitamente, ele caiu desmaiado, e há duas horas que, não obstante meus cuidados, não consigo fazer voltá-lo a si. Não quis chamar estranhos. Ajude-me a fazê-lo descer; poderei tratá-lo melhor em sua casa”.       
        O marido, surpreso mas sem desconfiar, tirou o chapéu; depois pegou por baixo dos braços o rival doravante inofensivo. Eu me atrelei entre as pernas do rapaz, como um cavalo entre os varais de um carro; e eis-nos a descer a escada, iluminados agora pela mulher.       
        Quando chegamos enfrente da porta, pus o cadáver de pé e falei-lhe, animando-o para enganar o cocheiro: “Vamos, meu caro, isso não há de ser nada; já se sente melhor, não é? Vamos, coragem... um pouco de coragem... faça um pequeno esforço e está pronto”.       
        Sentindo que ele se ia abater, que estava escorregando de minhas mãos, meti-lhe o ombro, o que o projetou para a frente e o fez cair dentro do carro; subi então atrás dele.       
        O marido, inquieto, perguntava-me: “Acredita que seja grave?” Respondi sorrindo: “Oh! Não!” e olhei para a mulher. Ela passara o braço por baixo do braço do esposo legítimo, e mergulhava o olhar fixo no fundo escuro do carro.       
         Apertei-lhes as mãos ordenei que partíssemos. Durante todo o caminho o morto me caía sobre a orelha direita.       
        Ao chegarmos a sua casa, declarei ter ele perdido os sentidos no caminho. Ajudei a levá-lo para o quarto, depois constatei o falecimento; representei uma nova comédia diante da família desesperada. Finalmente, fui para minha cama, não sem praguejar contra os amantes.    

   
        O doutor calou-se, sempre sorrindo.       
        A jovem senhora, inquieta, perguntou: “por que me contou essa história espantosa?”       
        Ele se inclinou galhardamente:       
        Para oferecer-lhe os meus serviços em caso de necessidade.


Guy de Maupassant
Bola de Sebo e Outros contos
São Paulo, Ed. Martin Claret, 2001, p. 155-159.



terça-feira, 16 de outubro de 2018

Guy de Maupassant / O medo


Guy de Maupassant
O MEDO

Depois de jantarmos, retornamos ao convés do navio. Diante de nós, a superfície lisa do Mediterrâneo refletia uma lua tranqüila. O enorme navio sulcava as águas sob um céu semeado de estrelas, e a esteira branca que deixava para trás brincava em espumas, parecendo retorcer-se em claridades tão buliçosas, que se poderia dizer que a luz da lua estava fervendo.
Seis ou sete homens permanecíamos ali, em silenciosa admiração, enquanto viajávamos para a África distante. O capitão retomou a conversa que havíamos tido durante o jantar:
— Sim, naquele dia eu tive medo. Meu navio permaneceu seis horas açoitado pelas ondas, com um penhasco encravado no ventre. Por sorte, à noite passou um navio mercante inglês, que nos viu e nos recolheu.
Então um dos presentes resolveu contestar a expressão usada pelo capitão. Era um homem alto, de cara bronzeada pelo sol, com aspecto grave; um desses homens que à primeira vista nos dão a impressão de haver percorrido vastos países desconhecidos em meio a incessantes perigos, e cujo olhar sereno parecia guardar, na sua profundidade, algo das estranhas paisagens que vira; um desses homens que adivinhamos dotado de têmpera extraordinária.
— Capitão, o Sr. diz que teve medo, mas não o creio. O Sr. parece enganar-se sobre a palavra e sobre a sensação que teve. Um homem enérgico como o senhor nunca sente medo diante do perigo. Sente emoção, nervosismo, ansiedade, mas medo é outra coisa.
— Discordo! Asseguro-vos que tive medo!
— Permita-me que lhe explique. Até os homens mais intrépidos podem ter medo. Mas o medo é algo espantoso, uma sensação atroz, como uma desintegração da alma, um espasmo horrível do pensamento e do coração, cuja simples recordação dá estremecimentos de angústia. Mas quando se é valente, isso não ocorre nem diante de uma batalha, nem diante da morte inevitável nem diante de nenhuma das formas conhecidas do perigo. Acontece em certas circunstâncias anormais, sob certas influências misteriosas e diante de riscos indefinidos. O verdadeiro medo é como uma reminiscência dos fantásticos terrores primitivos. Um homem que acredita em fantasmas, e que imagina ver um espectro na noite, deve experimentar o medo em todo seu espantoso horror.


Eu descobri o que de fato é o medo há uns dez anos, em pleno dia. E pude experimentá-lo também no último inverno, numa noite de dezembro. Na verdade, passei já por muitas situações, muitos reveses, muitas aventuras que pareciam mortais: em certa ocasião, uns ladrões me deixaram como morto; na América, fui condenado à forca por motivo de rebelião; na China, fui jogado ao mar, da proa de um navio. Cada vez que me julguei perdido, tomei minhas decisões imediatamente, sem vacilar, e até mesmo sem pensar. Mas isso não é o medo.
Observem, senhores, que entre os orientais a vida não conta para nada. Logo se resignam. As noites são claras, órfãs das sombrias inquietudes que atormentam os cérebros nos países frios. No Oriente pode-se conhecer o pânico, mas se ignora o medo. Vou narrar-lhes o que me aconteceu na África.
Percorria eu as grande planícies ao sul de Ouargla. É um dos mais estranhos países do mundo. Os senhores conhecem a areia fina, a areia lisa das intermináveis praias do oceano. Imaginem agora o próprio oceano convertido em areia, em meio a um furacão. Imaginem uma tempestade silenciosa das ondas imóveis de pó amarelo. Essas ondas desiguais são altas como montanhas, encrespadas como torrentes desencadeadas, mas maiores ainda, e estriadas como a ágata. Sobre esse mar furioso, mudo e sem movimento, o sol devorador do Sul lança sua chama implacável e direta. Tem-se que subir nessas ondas de cinza dourada, subir mais uma vez, mais outra, subir sem cessar, sem descanso e sem proteção. Os animais se atolam até os joelhos, e resvalam ao descer pela outra vertente das surpreendentes colinas.
Éramos dois amigos, escoltados por oito spahis seguidos de quatro camelos com seus cameleiros. Íamos por aquele deserto ardente sem falar, assolados pelo calor, pelo cansaço e pela sede. Subitamente um dos homens deu um grito, e todos paramos e permanecemos imóveis, surpreendidos por um inexplicável fenômeno que os viajantes dessas regiões perdidas conhecem bem. Em algum lugar, perto de nós, numa direção indeterminada, soava um misterioso tambor, o misterioso tambor das dunas. Soava claramente, ora mais vibrante ora menos, cessando e logo recomeçando seu som fantástico. Os árabes, espantados, olhavam-se uns aos outros. Um deles disse:
— A morte vem para cima de nós.
De repente meu companheiro, meu amigo quase como um irmão, caiu do cavalo, de bruços, mortalmente atingido pela insolação. Durante duas horas, enquanto eu procurava em vão salvá-lo, aquele tambor, sempre impossível de localizar, me aturdia os ouvidos com seu ruído monótono, intermitente, inexplicável. Então senti que o medo, o verdadeiro medo, o horrível medo, me penetrava até à medula dos ossos, diante daquele cadáver querido, naquela depressão vergastada pelo sol entre quatro montes de areia, enquanto o eco desconhecido nos lançava, a duzentas léguas do povoado francês mais próximo, o dobre rápido de um inatingível tambor. Naquele dia eu compreendi o que é ter medo. Mas houve uma outra vez em que compreendi melhor ainda...
— Perdão, senhor, mas o que era esse tambor? — interrompeu o capitão.
— Não sei. Ninguém sabe. Os oficiais que depararam com esse surpreendente ruído geralmente o atribuem ao eco aumentado, multiplicado, desmesuradamente insuflado pelas ondulações das dunas, de um granizo de areia que o vento lança contra uma mata de ervas secas, pois já se notou que o fenômeno sempre se produz nas proximidades de pequenas plantas queimadas pelo sol, duras como o pergaminho. Segundo essa teoria, aquele tambor nada mais seria do que uma espécie de reflexo ampliado desse som. Mas eu só vim a saber disso mais tarde.
Agora vou lhes contar minha segunda sensação de medo. Aconteceu no inverno passado, num bosque do Noroeste da França. O céu estava tão sombrio naquele dia, que a noite caiu duas horas mais cedo. Era meu guia um camponês, que caminhava ao meu lado por uma trilha estreita numa floresta de abetos. O vento arrancava dessas árvores uma espécie de alarido. Por entre as copas das árvores eu via as nuvens que corriam, como que fugindo de um cataclismo. Às vezes, ante uma forte lufada de vento, todo o bosque se inclinava no mesmo sentido, com um gemido de sofrimento, e o frio me invadia, apesar do meu passo rápido e da minha grossa roupa de lã.
Tínhamos que chegar à casa de um guarda florestal, para jantar e dormir. Não estava muito distante, e eu me encontrava ali como caçador. Meu guia às vezes levantava os olhos e murmurava: “Que tempo triste!” Falou-me sobre as pessoas para cuja casa nos dirigíamos. O pai havia matado um caçador furtivo, dois anos antes, e desde então andava preocupado, como que atormentado por uma lembrança. Seus filhos, já casados, moravam com ele.
A escuridão era profunda, e eu não via nada ao redor de mim. As ramagens de todas as árvores, ao agitar-se, enchiam a noite de um rumor incessante. Afinal vi uma luz, e meu guia chamou a uma porta. Ouvimos gritos de mulheres lá dentro. Logo depois, uma voz de homem, como que estrangulada, perguntou: “Quem está aí?” Meu guia se identificou, a porta se abriu e entramos.
A cena que vimos é impossível de esquecer. Um homem velho, de cabelos brancos e com olhar arregalado e fixo, como de louco, nos aguardava de pé no meio da cozinha, tendo na mão uma espingarda carregada. Dois rapazes com pedaços de pau guardavam a porta. Na obscuridade, percebemos duas mulheres ajoelhadas, com os rostos voltados para a parede. Identificamo-nos, explicamos o motivo de nossa presença ali, e então o velho largou a arma e deu ordens para que nos preparassem acomodações. As duas mulheres continuavam imóveis, então ele me explicou: “Há exatamente dois anos, numa noite como esta, eu matei um homem. Quando se completou um ano, ele veio chamar-me, e esta noite eu estou certo de que voltará novamente. Por isso estamos todos intranqüilos”.
Procurei tranqüilizá-los o melhor que pude, mas intimamente estava satisfeito por ter chegado exatamente naquela noite e presenciar aquele espetáculo de terror supersticioso. Contei algumas histórias, e acabei por acalmá-los quase por completo.
Perto da lareira, um cachorro velho e quase cego — um desses cães que nos lembram alguma pessoa conhecida — dormia com o focinho entre as patas. Fora, a tormenta açoitava a choupana. Por uma estreita vidraça eu via passar, projetadas por grandes relâmpagos, as sombras de árvores agitadas pelo vento. Apesar dos meus esforços, aquela gente estava dominada por um terror profundo. Cada vez que eu parava de falar, todos os ouvidos estavam atentos ao menor ruído. Cansado desses temores imbecis, eu já ia recolher-me quando o velho pulou da cadeira e pegou de novo a espingarda, balbuciando com voz trêmula: “Aí está! Aí está! Já o estou ouvindo!”
As duas mulheres voltaram a cair de joelhos, cobrindo os rostos, e os filhos pegaram de novo os seus paus. Já ia eu tentar novamente tranqüilizá-los, quando o cachorro despertou bruscamente, levantou a cabeça, esticou o pescoço, olhando para a lareira com seu olhar quase apagado, e lançou um desses ganidos lúgubres, que fazem estremecer os caminhantes quando cruzam de noite locais ermos. Todos os olhos se voltaram para o animal, que permanecia agora imóvel sobre as patas, como obcecado por uma visão. O cão se pôs a ganir frente a algo invisível, desconhecido, espantoso sem dúvida, pois todo seu pelo estava eriçado. Lívido, o guarda gritou: “Ele o está farejando! Está farejando! Ele estava exatamente aí, quando o matei!”
As mulheres, como loucas, fizeram coro aos ganidos do cachorro. Um grande calafrio me percorreu a espinha. A visão do animal naquele lugar, naquela hora, em meio a pessoas apavoradas, era algo horrível. Durante uma meia hora o cão ganiu sem mover-se. Um medo espantoso me ia penetrando. Medo de quê? Lá sei eu. Era medo, pura e simplesmente.
Permanecemos imóveis, lívidos, à espera de um acontecimento horrendo, com o ouvido atento, o coração agitado, transtornados ao menor ruído. O cachorro se pôs a dar voltas ao redor da cozinha, farejando as paredes, sem cessar de gemer. O animal nos punha loucos. Então o meu guia se lançou sobre ele, numa espécie de paroxismo de terror furioso, agarrou-o, abriu uma porta de trás, que dava para uma espécie de cercado, e o lançou para fora da casa.
O cachorro se calou logo, e permanecemos algum tempo envoltos num silêncio ainda mais terrível. De repente, todos tivemos uma espécie de sobressalto: algo deslizava contra a parede externa, em direção ao bosque. Depois passou junto à porta, que pareceu apalpar com mãos trêmulas. Novo silêncio durante uns dois minutos, que nos deixou aterrorizados. Depois voltou, roçando sempre a parede, como uma criança com suas unhas. Subitamente apareceu junto à vidraça uma cabeça branca, com dois olhos luminosos como os das feras, e emitiu um gemido — um murmúrio como de quem se lamenta.
Nesse momento se ouviu um ruído formidável. O velho havia disparado sua arma, e em seguida os filhos se precipitaram para a vidraça, cobrindo-a com o tampo de uma grande mesa que reviraram. Com o estrépito do inesperado disparo, senti tal angústia no coração, na alma e no corpo, que me imaginei prestes a perder os sentidos, disposto a morrer de medo. Continuamos ali até o amanhecer, incapazes de mover-nos, de dizer uma palavra, crispados, desvairados. Ninguém se atreveu a abrir a porta antes de entrever alguma claridade fora, pelas frestas das madeiras.
Ao lado do muro, junto à porta, jazia o corpo do velho cachorro, com o focinho desfeito por uma bala. Havia saído do cercado, e procurara abrir alguma passagem junto à porta.



Naquela noite eu não corri nenhum perigo. Mas preferiria voltar a enfrentar todos os riscos mais terríveis que já enfrentei, para não ter de viver aquele único minuto em que o tiro foi disparado na cabeça que surgiu na vidraça.



segunda-feira, 15 de outubro de 2018

Guy de Maupassant / A máscara


Guy de Maupassant
A MÁSCARA

Havia naquela noite um baile à fantasia no Elisée Montmartre. Era por ocasião da mi-careme, e, como a água através da comporta de uma represa, a multidão despejava-se no corredor iluminado que leva ao salão de baile. O irresistível apelo da orquestra, estrondeando como uma tempestade musical, atravessava as paredes e o teto, espalhava-se pelo bairro e ia despertar, nas ruas e a té no fundo das casas vizinhas, aquele invencível desejo de saltar, de aquecer-se e divertir-se que dormita no íntimo do animal humano.

E os freqüentadores da festa também vinham dos quatro cantos de Paris, pessoas de todas as classes sociais, amantes de diversões barulhentas, um tanto quanto licenciosas, tocadas de libertinagem. Eram empregados, cáftens, mulheres alegres, que conheciam toda espécie de lençóis, do mais grosseiro algodão à mais fina batista, mulheres ricas, velhas e cheias de diamantes, e mulheres pobres, de dezesseis anos, desejosas de divertir-se, de entregar-se a homens, de gastar dinheiro. Elegantes casacas negras à cata de carne moça, de primícias defloradas, porém saborosas, erravam por entre aquela multidão aquecida, procuravam, pareciam farejar, enquanto os mascarados eram impelidos, sobretudo, pelo desejo de divertir-se. Quartetos famosos de dançarinos já tinham reunido em torno das suas piruetas um largo círculo de assistentes. Aquela cerca ondulante, aquela massa buliçosa de mulheres e de homens, que rodeava os quatro dançarinos, torcia-se como uma serpente, ora se aproximando, ora se afastando, de acordo com os deslocamentos operados pelos artistas. As duas mulheres, cujas coxas pareciam ligadas ao corpo por molas de borracha, moviam as pernas com incrí  vel agilidade. Atiravam-nas para cima com tanta violência que pareciam voar em direção às nuvens, depois subitamente as afastavam como se tivessem sido rasgadas até a metade do ventre e, fazendo-as deslizar, uma para a frente, a outra para trás, tocavam o solo com o corpo com um movimento rápido, cômico e repulsivo.

Os dois cavalheiros pulavam, moviam agilmente os pés, agitavam-se, sacudindo os braços levantados como cotos de asas sem penas e, sob as máscaras, percebia-se a sua respiração ofegante.

Um destes últimos, que participava da mais reputada das quadrilhas como substituto de uma celebridade ausente, o belo Songe au Gosse, e que se esforçava para acompanhar a infatigável Arête-de-Vau, executava figuras curiosas, que despertavam a alegria e o sarcasmo do público.

Era magro, vestia-se como um janota e usava uma bonita máscara envernizada, uma máscara de bigodes louros, frisados, e toucada por uma peruca anelada.

Lembrava uma figura de cera do Museu Grévin, estranha e fantástica caricatura de página de figurino, e dançava com esforçada compenetração, porém desajeitadamente, com entusiasmo grotesco. Parecia enferrujado ao lado dos outros, ao tentar imitar-lhes as piruetas; parecia tolhido, pesado como um cão fraldeiro que brincasse com galgos. Encorajavam-no alguns aplausos zombeteiros. E, ébrio de entusiasmo, ele sacudia as pernas com tal frenesi que, de repente, levado por um impulso violento, foi dar de cabeça contra a muralha dos assistentes, que se entreabriu para deixá-lo passar  e depois tornou a fechar-se em torno daquele corpo inerte, estendido de borco, o dançarino inanimado.

Alguns homens o levantaram, carregararn-no. Alguém gritou: “Um médico!” Apresentou-se um cavalheiro ainda jovem, muito elegante, de casaca negra com grandes pérolas na camisa branca. “Sou professor da faculdade”, declarou, com entonação modesta. Deixaram-no passar e ele se dirigiu a uma saleta cheia de caixas de documentos, como o escritório de um procurador, onde o dançarino, ainda desacordado, fora estendido sobre cadeiras. Antes de tudo o médico procurou retirar a máscara, e percebeu que fora fixada de maneira  embaraçosa, com uma porção de pequenos fios de metal; estes a atavam habilmente às bordas da peruca, e encerravam a cabeça inteira numa sólida ligadura, cujo segredo seria preciso conhecer. O próprio pescoço estava envolto numa pele artificial que prolongava o queixo, e aquela pele de luva, pintada da cor da carne, prendia-se na gola da camisa.

Foi preciso cortar aquilo tudo com grandes tesouras; e depois de ter feito no surpreendente conjunto um talho que ia do ombro à têmpora, o médico entreabriu a carapaça e descobriu um rosto gasto e envelhecido, magro, pálido e enrrugado. Tamanha foi a surpresa dos que tinham trazido o jovem mascarado de cabelos negros, que ninguém se riu nem pronunciou uma única palavra.

Contemplavam o triste rosto que descansava sobre a cadeira, de olhos fechados, cabelos brancos, alguns longos, caindo da fronte sobre o rosto, e curtos os que lhe guarneciam as faces e o queixo; e, ao lado daquela lamentável cabeça, a pequena e bonita máscara envernizada, a máscara jovem, que continuava a sorrir.

O desconhecido voltou a si depois de ter permanecido longamente desacordado; parecia, porém, tão fraco, tão doente, que o médico receou alguma complicação perigosa.

- Onde mora o senhor? – indagou.

O velho dançarino pareceu revolver a memória, e depois se lembrou e deu o nome de uma rua que nenhum dos presentes conhecia. Foi preciso pedir-lhe algumas explicações sobre o bairro. Forneceu-as com enorme dificuldade, com uma lentidão e uma incerteza que bem traiam a confusão da sua mente.

O médico declarou:

- Eu mesmo irei levá-lo.

Acometera-o a curiosidade de saber quem seria aquele estranho bailarino, de verificar onde morava aquele saltador fenômeno.

E pouco depois um carro de praça levou ambos ao outro lado das colinas de Montmartre.

Desceram na frente de um prédio alto, de aspecto pobre, com urna escada viscosa e construído entre dois terrenos baldios, um desses prédios eternamente inacabados, crivados de janelas, nichos imundos que abrigam uma multidão de seres maltrapilhos e miseráveis.

Segurando-se fortemente ao corrimão, um rolo de madeira que girava e no qual a mão ficava grudada, amparou até o quarto andar o ancião aturdido, que começava a recuperar as forças.

Abriu-se a porta à qual bateram e apareceu uma mulher, também velha, asseada, com uma touca de noite muito branca emoldurando-lhe a cabeça de ossos fortes e traços acentuados, um desses rostos grandes, rudes e bons, que freqüentemente possuem as fiéis e ativas esposas de operários. Exclamou:

- Meu Deus! O que teve ele?

Explicado o incidente com vinte palavras, ela se tranqüilizou e tranqüilizou o próprio médico, contando que aquela mesma aventura já acontecera antes, muitas vezes.

- É preciso deitá-lo, doutor, mais nada; ele dormirá e amanhã acordará outro.

O médico observou:

- Mas ele mal pode falar!

- Oh! Não é nada, um pouco de bebida, mais nada. Ele não jantou para sentir-se leve, e depois bebeu dois copos de absinto para animar-se. O senhor vê, o absinto lhe ativa as pernas, mas lhe tira as idéias e as palavras. Não é adequado à sua idade dançar como faz. Não, não há mesmo esperança de que ele tome juízo algum dia!

Surpreso, o médico insistiu:

 Mas por que dança ele desse jeito, velho como está? Ela ergueu os ombros, vermelha sob a ação da cólera que  pouco a pouco a excitava:

- Ah, sim, por quê? Para falar a verdade, é para que o imaginem moço embaixo da máscara, para que as mulheres ainda o julguem um galanteador e lhe digam libertinagens ao ouvido, para esfregar-se na pele dessas mulheres, peles sujas de perfumes, de pós e cremes … Ah! É incrível! Imagine, doutor, a vida que tenho levado durante os quarenta anos que isto vai durando… Primeiro, porém, precisamos deitá-lo, para que ele não se sinta mal. Não se importa de judar-me? Quando fica neste estado, é muito difícil para mim lidar com ele sozinha.

O velho estava sentado na cama, com jeito de bêbedo, os longos cabelos brancos caídos no rosto.

Sua companheira observava-o com olhos enternecidos e furiosos. Continuou:

- Repare como tem uma bonita cabeça para a idade; não precisava disfarçar-se de malandro para que o supusessem moço. É uma lástima! Não é verdade que ele tem uma bela cabeça, doutor? Espere, vou mostrá-la ao senhor antes que ele se deite.

- Encaminhou-se para uma mesa sobre a qual estavam colocados a bacia de mãos, o jarro de água, o sabão, o pente e a escova. Apanhou a escova, voltou para junto da cama e, depois de lidar por uns momentos com a cabeleira embaraçada do bêbedo, deu-lhe à cabeça a aparência de um modelo de pintor, com grandes madeixas caídas no pescoço. Recuou a fim de contemplá-lo e observou:

- Não é verdade que está bem para a sua idade?

- Muito bem – concordou o médico, que começava a divertir-se bastante.

- E se o senhor o tivesse conhecido quando tinha vinte e cinco anos! – exclamou ela. – Mas é preciso pô-lo na cama; sem isso, os seus absintos lhe ficariam dando voltas na barriga. Olhe, doutor, quer puxar a manga? .. Mais em cima … Assim … Bem … Agora a calça … Espere, vou tirar-lhe os sapatos … Está bem. Agora, conserve-o de pé para que eu arrume a cama. .. Pronto… Vamos deitá-lo. .. Se pensa que ele se afastará daqui a pouco para ceder-me lugar, o senhor está enganado. Terei que arranjar um cantinho, seja onde for. Isso não o preocupa. Ah, que estróina!

Ao sentir que estava estendido debaixo das cobertas, o velho fechou os olhos, tornou a abri-los e novamente os fechou, enquanto uma enérgica determinação de dormir se lhe refletia no rosto satisfeito.

O médico indagou, depois de observá-lo com acrescido interesse:

- Então, ele gosta de fingir-se de moço nos bailes à fantasia?

- Em todos, doutor, e só volta pela manhã, num estado que ninguém pode imaginar. Veja, é a tristeza que o leva aos salões, e que o obriga a colocar um rosto de papelão sobre o próprio. Sim, a tristeza de não ser mais o que já foi, e também de não obter mais o mesmo sucesso que já obteve!

O velho dormia, agora, e começava a roncar. Ela contemplou-o com ar apiedado e prosseguiu:

- Ah! Saiba o senhor que este homem já fez muito sucesso! Muito mais do que seria de supor, mais do que senhores elegantes da sociedade, mais do que todos os tenores e todos os generais.

 Realmente? Que fazia ele?

- Oh! O senhor vai ficar surpreendido, no começo, pois não o conheceu nos seus belos tempos. Quando o encontrei, também num baile, porque ele sempre os freqüentou, fiquei presa, ao vê-lo, presa como um peixe no anzol. Ele era bonito, doutor, bonito a ponto de fazer vir lágrimas aos olhos quando o fitávamos, com seus cabelos negros como um corvo, crespos, e uns olhos negros do tamanho de janelas. Ah, sim, era um belo rapaz. Nessa noite ele me levou consigo, e não mais o deixei, nunca, nem por um só dia, apcsar de tudo! Oh! Fez-me comer fogo!

O médico indagou: – Casaram-se?

Ela respondeu, com simplicidade:

- Sim … Sem isso ele me teria largado, como largou as outras. Fui sua mulher e sua criada, tudo, tudo quanto quis … e fez-me chorar … lágrimas que não lhe deixei ver! Pois me descrevia as suas aventuras … a mim … a mim … doutor, sem compreender o mal que me fazia ouvi-lo falar …

- Afinal, que profissão tinha?

- É verdade … Esqueci-me de contar. Era o primeiro ajudante de Martel, mas um primeiro ajudante como não houve outro igual. .. Um artista de dez francos a hora, em média …

- Martel? Quem é esse Martel? …

 O cabeleireiro, doutor, o grande cabeleireiro da Ópera, de quem todas as atrizes eram freguesas. Sim, todas as atrizes, mesmo as mais emproadas, faziam questão de ser penteadas por Ambroise, e davam-lhe gratificações que o enriqueceram. Ah, doutor, todas as mulheres são iguais, sim, todas. Quando um homem lhes agrada, elas o tomam. É tão fácil. .. e causa tanta mágoa quando a gente sabe! Pois ele me contava tudo .. .” Não podia calar-se … Não, não podia. Essas coisas causam tanto prazer aos homens! Talvez mais ainda quando as contam do que quando as fazem …

“Quando o via regressar, à noite, um pouco pálido, com um jeito satisfeito, o olhar brilhante, dizia comigo mesma: “Mais uma. Tenho a certeza de que arranjou mais uma.” E sentia vontade de interrogá-lo, uma vontade que me dilacerava o coração, e também vontade de nada saber, de impedir que falasse quando a isso se dispusesse. E nos entreolhávamos.

“Sabia bem que ele não se calaria, que ia tocar no assunto. Sentia-o pelo seu jeito, pelo jeito risonho com que me dava a entender: “Tive uma boa, hoje, Madeleine”. Fingia nada ver, nada perceber; e punha a mesa; trazia a sopa; sentava-me à frente dele.

“Naqueles momentos, doutor, era como se esmagassem com uma pedra, no meu corpo, a minha amizade por ele. Doia, sim, e bastante. Mas ele não percebia, não sabia; tinha necessidade de contar aquilo a alguém, de gabar-se, de mostrar que era amado. .. E só a mim podia contar. .. O senhor compreende. .. Só a mim. ” Então … eu precisava escutá-lo e engolir aquilo como se fosse veneno.

“Ele começava a tomar a sopa e depois dizia: “- Mais uma, Madeleine.

“Eu pensava: “Pronto. Meu Deus, que homem! Por que fui encontrá-lo?

“E ele continuava: – Mais uma, e bem bonita! – Tratava-se de uma pequena do Vaudeville ou então de uma pequena das Varietés, ou também de alguma dessas senhoras do teatro, das mais importantes, das mais conhecidas. Dava-me seus nomes, descrevia-me seus móveis, e tudo, tudo, sim, tudo, senhor … Pormenores que me dilaceravam o coração. E ele insistia, e recomeçava a história, do começo ao fim, tão contente que eu fingia rir-me para que não se zangasse comigo.

“Talvez nem tudo fosse verdade! Gostava tanto de gabar-se que seria muito capaz de inventar coisas desse gênero! Mas também podia ser verdade! Nessas noites, ele se queixava de cansaço, queria deitar-se logo depois da ceia. Ceávamos às onze horas, pois nunca ele regressava mais cedo, por causa dos penteados dos saraus.

“Quando terminava de contar a sua aventura, fumava cigarros, passeava pelo quarto e era tão bonito, com seus bigodes e seus cabelos crespos, que eu ponderava: “É verdade, mesmo, o que me contou. Já que sou louca por esse homem, por que as outras também não se apaixonariam?” Ah! Muitas vezes tive vontade de chorar, de gritar, de fugir, de atirar-me pela janela, enquanto tirava a mesa e ele continuava a fumar. Bocejava, abrindo a boca para mostrar quão cansado estava, e dizia duas ou três vezes, antes de meter-se na cama: “Meu Deus, como vou dormir bem esta noite!”

“Não lhe guardo rancor, pois não sabia quanto me magoava. Não, não podia saber! Gostava de gabar-se das mulheres como um pavão que desdobra a cauda. Chegara ao ponto de achar que todas o olhavam e o desejavam.

“Foi duro para ele quando envelheceu.

“Oh, doutor, ao ver seu primeiro cabelo branco, senti uma emoção que me fez perder o fôlego, e depois uma alegria – uma alegria perversa, mas tão grande, tão grande!!! Disse comigo mesma: “É o fim … é o fim … ” Pareceu-me que iam tirar-me de uma prisão. Seria meu, só meu, quando as outras não o quisessem mais.

“Era de manhã, estávamos na cama. Ele ainda dormia, e me inclinava para despertá-lo, beijando-o, quando divisei nos seus cabelos, na têmpora, um fiozinho que brilhava como prata. Que surpresa! Não teria acreditado que aquilo fosse possível! Primeiro pensei em arrancá-lo, para que ele não o visse! Porém, examinando melhor, avistei outro, um pouco acima. Cabelos brancos! Ele ia ter cabelos brancos! Meu coração pulsava e eu transpirava; contudo, estava bem contente, no fundo!

“É feio pensar assim, mas tive prazer em cuidar da casa naquela manhã, antes de acordá-lo; e quando ele abriu os olhos espontaneamente, eu lhe disse:

“- Sabe o que descobri enquanto você dormia? “- Não.

“- Descobri que está com cabelos brancos.

“Ele teve um sobressalto de despeito, que o pôs sentado como se eu lhe tivesse feito cócegas, e observou, com uma expressão má:

“- Não é verdade!

“- Sim, na têmpora esquerda. São quatro. “Ele saltou da cama para correr ao espelho.

“Não encontrou os cabelos brancos. Então lhe mostrei o primeiro, aquele crespinho, mais embaixo. E comentei:

“- Não é de admirar, com a vida que você leva. Daqui a dois anos estará acabado.

“Pois bem, doutor, eu falava a verdade: ninguém o reconheceria dois anos depois. Como é possível um homem mudar tão depressa! Ainda era bonito, mas ia perdendo a frescura, e as mulheres já não o procuravam mais. Ah, que vida dura levei naqueles tempos! Bem boas ele me fez sofrer! Nada lhe agradava, absolutamente nada! Abandonou sua profissão para fabricar chapéus, e perdeu dinheiro. Depois quis ser ator e falhou, e em seguida começou a freqüentar bailes públicos. Afinal, teve o bom senso de guardar um pouco de dinheiro, com o qual vivemos. Dá, mas não é grande coisa! E dizer-se que houve um momento em que podia ser considerado quase rico!

“O senhor viu o que ele faz agora. É uma espécie de delírio que o possui. Precisa sentir-se jovem, precisa dançar com mulheres que cheirem a perfume e a brillhantina. Coitado do meu querido velho!”



Emocionada, prestes a chorar, ela contemplava o velho marido, que roncava. Depois, aproximando-se com passos cautelosos, beijou-lhe os cabelos. O médico levantara-se e preparava-se para retirar-se, não encontrando o que dizer ante aquele estranho caso.

Porém, ao vê-lo sair, ela indagou:

- Assim mesmo, não quer deixar o seu endereço? Se ele piorar, irei chamá-lo.

1889.