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segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Hulda von Levetzow / As irmãs de Juca e Chico

 


Hulda von Levetzow

As irmãs de Juca e Chico


Era um livrinho cruel, dos tempos em que criança nem precisava ser feliz

BIA BRAUNE

Não resta dúvida. Já adulta, abrir "Anna Karenina" e me deparar com "todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira" foi um baque. Uma iluminação.

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

Clássicos da literatura russa precisam de uma nova interpretação após a invasão da Ucrânia? / Entrevista com a professora Ani Kokobobo

 

Dostoievsky


Clássicos da literatura russa precisam de uma nova interpretação após a invasão da Ucrânia? Entrevista com a professora Ani Kokobobo

Desde o século 19, a literatura é certamente uma das áreas em que a Rússia vem exercendo com mais força o seu “poder sutil”. Autores como Tchekhov, Tolstói, Dostoiévski, além de poetas como Pushkin, Akhmátova, Tsvetaeva e Brodsky são amplamente lidos, traduzidos e estudados no mundo todo. É comum vê-los como símbolos da cultura de seu país. Esse fato, porém, faz com que eles também sejam alvos de um número crescente de tentativas de cancelar a cultura russa, agora que a invasão à Ucrânia liderada por Moscou está próxima de completar 100 dias.

A Global Voices conversou com Ani Kokobobo, pesquisadora de literatura e cultura russas que leciona no Departamento de Línguas e Literaturas Eslavas e Eurasianas na Universidade do Kansas, como professora associada e chefe de departamento, a fim de saber a sua perspectiva sobre a crescente tendência da cultura do cancelamento nesse contexto:

Professora associada Ani Kokobobo, foto usada sob permissão.

 


O que eu percebi desde que a Rússia invadiu a Ucrânia foi, antes de tudo, um interesse em não promover a arte russa patrocinada pelo Estado. Também ouvi e li a respeito de maneiras pelas quais a cultura russa pode ocultar outros aspectos do genocídio que está sendo perpetrado, neste exato momento, pelas tropas da Federação Russa na Ucrânia. Suspeito que essas afirmações têm a ver com o fato de que muitas ideias presentes na literatura e na cultura russa se transformaram em armas e foram utilizadas para legitimar as ações ilegais do governo na Ucrânia.
Eu não sei se a verdadeira solução para esse problema está em não ter contato com as ideias russas. Acredito que, ao contrário, nós devamos ter um contato crítico com elas. Por outro lado, vale notar que, quando falamos da literatura e da cultura da região, costumamos privilegiar a literatura e as ideias russas em detrimento de outras existentes no Leste Europeu e na Eurásia; e eu espero que isso mude.
Não é de se estranhar que os ucranianos tenham uma certa atitude diante da cultura de seus invasores nesse momento. Mas eu vejo tais posicionamentos como posicionamentos de indivíduos confrontados com o genocídio russo. E eu não os culpo; culpo o genocídio. No fim das contas, a entidade mais responsável pelo impulso do cancelamento da cultura russa é o próprio governo russo.

Na verdade, diferentes governos russos — o tzarista, o soviético, o moderno — sempre perceberam a sua cultura como essencialmente imperial, e em poucos casos, questionaram os elementos colonialistas presentes na projeção que faziam da sua própria cultura. Kokobobo concorda que o Kremlin tem pouco incentivo para se engajar em uma missão de descolonização, se é que tem algum. Ela também levanta uma questão importante acerca da representatividade:


Como eu não tenho certeza se a Rússia teve um governo representativo adequado nos últimos tempos, não sei o que queremos dizer quando falamos em Rússia; há muitas Rússias. Penso que algumas dessas Rússias estão procurando se descolonizar, e nós já pudemos perceber sentimentos separatistas na Sibéria e em outras regiões.

Parte da especialidade acadêmica de Kokobobo é algo chamado, informalmente, de “Tolstoiévski”, ou seja, o estudo de Tolstói e Dostoiévski. Ambos os autores escreveram páginas e mais páginas, em obras de ficção e não ficção, sobre o destino e a missão da Rússia e de sua literatura, o seu posicionamento em relação às culturas europeias e asiáticas, e a sua visão da guerra e da violência. A questão que se transformou em um debate acalorado está em como abordar esses textos diante da guerra de 2022, da destruição da Ucrânia e de sua cultura, e das exigências de cancelamento da cultura russa por parte de certas entidades. Kokobobo, que já escreveu sobre o assunto, responde:


Penso que devemos estar atentos ao nacionalismo e ao sentimento de excepcionalismo russo em Dostoiévski, e também devemos levar em consideração como ele retrata outras culturas que não a de seu país. Pessoalmente, não acredito que Dostoiévski teria apoiado essa guerra, com certeza não depois das primeiras notícias da morte de civis inocentes. Porém, considero que suas outras ideias sobre a grandeza da Rússia podem ser usadas como armas perigosas, e elas têm sido usadas. Nós devemos lê-las de forma crítica e procurar vozes minoritárias em seus textos, para que nossos estudantes tenham uma imagem mais completa de Dostoiévski. Também não acho que devamos esconder as inconveniências desse autor. Na minha opinião, Dostoiévski e Tolstói não são tão frágeis a ponto de não suportar alguns escrutínios profundos de suas ideias mais problemáticas.

Kokobobo também observa que os posicionamentos mudam: se Tolstói foi um pacifista em seus anos finais e faz menção ao colonialismo russo na novela Khadji-Murát, é verdade que ele começou a sua carreira como intelectual público de outra maneira. Ela diz que:


Em “Kadji-Murát”, ele critica a violência contra os poloneses, tomando uma atitude que eu considero uma retrospectiva tolstoiana do seu sentimento anti-polonês em “Guerra e Paz”, onde retrata soldados poloneses se afogando por causa daquilo que, para ele, era a sua admiração servil a Napoleão. Sem dúvidas, a revolta polonesa de 1863 contra o domínio tzarista suscitou certos sentimentos no Tolstói da década de 1860; mas é positivo vê-lo voltar atrás e fazer uma revisão de si mesmo, rejeitando certas ideias prévias. Acredito que as leituras críticas de Tolstói costumam surgir de sua própria autocrítica, já que a sua ideologia era bem menos estável que a de Dostoiévski; nós o vemos reescrevendo e criticando a si próprio diversas vezes ao longo dos anos.

Descolonizar a própria academia

Perguntada a respeito de uma possível mudança para mais estudos sobre a Ucrânia no contexto acadêmico norte-americano, Kokobobo disse que, de fato, deveria haver mais interesse nessa área, uma vez que os estudos eslavos costumam ser dominados por estudos sobre a Rússia, o que se repete nas academias do mundo inteiro. Ela também observa que:


A língua russa simplesmente recebe mais matrículas de estudantes do que outras línguas, mas eu acredito que esse padrão também faz parte de uma história colonial mais ampla. Nós vemos coisas parecidas quando comparamos as matrículas no espanhol e as matrículas em línguas indígenas na América Latina. Para mim, descolonizar a área como um todo começa, antes de tudo, com incrementações. Começa com a integração, nas grades curriculares, de vozes ucranianas e bielorrussas, assumindo perspectivas russófonas ou não russófonas. Da mesma maneira, cabe a nós questionar a missão imperial da Rússia quando formos apresentar a sua cultura aos estudantes, tanto inserindo perspectivas, que normalmente são apagadas, quanto explicando a história do colonialismo russo.

Ela conclui dizendo que não há necessidade de a academia ser um jogo de tudo ou nada:


Agora vou ser impertinente, mas sincera: ofereço para todos os meus colegas, como um recurso, o nosso curso on-line de ucraniano na Universidade do Kansas. Às vezes, estudantes avançados de russo são os melhores candidatos para esse tipo de curso. Não se trata de uma proposta de “um ou outro”, e não há necessidade de ser territorial nesses assuntos. Eu não creio que os estudos russos vão acabar de vez se nós abrirmos espaço, em nossas unidades, para os estudos ucranianos ou se olharmos para o Leste/Centro Europeu e a Eurásia de forma mais holística, como uma região composta por muitas identidades e culturas, todas ricas e dignas de serem estudadas.

GLOBAL VOICES




 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Obsessão russa por literatura está diminuindo





Obsessão russa 

por literatura 

está diminuindo

Ainda assim, 59% dos russos leem livros todos os dias - a segunda posição no ranking mundial, atrás apenas da China. Foi na era soviética russos se alfabetizaram em massa e hábito da leitura se difundiu, mas, conquanto os leitores quisessem abrir novos horizontes com literatura que não era publicada na URSS, após sua queda e abertura do mercado a leitura vem diminuindo.

Um estudo global sobre a leitura de livros realizado pela empresa GfK em 2017 mostra que  59% dos russos leem todos os dias - ou pelo menos uma vez por semana. Assim, o país ocupa segundo lugar no ranking mundial da leitura de livros, atrás apenas da China.
Ainda pode gerar dúvidas o fato de que o estudo é baseado apenas nas respostas das pessoas. Mas, se estiver correto, ele dificilmente surpreenderá alguém na Rússia: o país, historicamente, sempre foi “literaturacêntrico”. Na Rússia, como escreveu o poeta Evguêni Ievtuchenko, “um poeta é mais do que um poeta”. E o mesmo é verdadeiro sobre quem escreve em prosa.
Tomemos Lev Tolstói, por exemplo. Nos anos 1900, ele era tão grande quanto os Beatles na década de 1960 ou a Beyoncé hoje. Quiçá ele tenha sido ainda mais popular que o próprio imperador!

Depois que o escritor passou a bater de frente com a Igreja Ortodoxa e o jovem tsar Nikolai 2° em 1901, exigindo igualdade e direitos humanos para os camponeses, o editor Aleksêi Suvôrin escreveu: “Temos dois tsares: Nikolai 2° e Lev Tolstói. Quem é mais forte? Nikolai 2° não pode fazer nada sobre Tolstói, não pode abalar seu trono - mas Tolstói, sim, balança o trono da dinastia do outro”.
É claro que o caso de Tolstói foi muito peculiar: desde a década de 1880, ele virou algo mais próximo de filósofo e figura pública do que escritor de ficção. Mas outros gigantes da literatura do século 19 e 20 - como Fiódor Dostoiévski, Ivan Turguênev, Antôn Tchékhov, Maksím Górki e outros - também tiveram impacto sobre a opinião pública russa com seus romances humanísticos, o que certamente eram mais influente do que qualquer ministro tsarista e suas ordens. Foi aí que se iniciou a obsessão da Rússia pela literatura.
Literatura no lugar de política

“Entre os séculos 18 e 20, a vida pública na Rússia estava toda voltada à literatura”, explica Lev Oborin, poeta e crítico literário. Enquanto, no Ocidente, os monarcas cediam aos poucos o poder aos sistemas parlamentares, o tsar gozava de monopólio sobre todas as formas de poder. Por isso, o único lugar onde criticar os poderes constituídos estava nas páginas dos romances.
"Devido à ausência de políticas reais, os escritores se tornaram defensores da liberdade e iluministas", escreve Oborin. Eles não tinham outra escolha, senão escrever sobre o estado de espírito dos russos comuns, os males da servidão, a estranha natureza da alma russa que balançava entre o Ocidente e o Oriente etc. Para tanto, usavam metáforas e alegorias para escapar à censura.
Infelizmente, porém, a grande maioria dos russos não sabia nada sobre a luta intelectual de seus escritores – já que não sabia ler. De acordo com um censo nacional do final do século 19 e início do século 20, pelo menos 60% dos russos adultos ainda eram analfabetos em 1913. Somente o governo soviético foi capaz de educar seu povo e fazê-lo ler os grandes escritores da era imperial.
Os soviéticos abraçam os clássicos

Apesar de brutal ao destruir seus rivais políticos (e depois, seus próprios aliados), foram os bolcheviques que melhoraram o nível de educação russa: em 1939, 87% dos cidadãos soviéticos sabiam ler e escrever, e o sempre controlador Estado fez seu melhor para fornecer ao povo toda a literatura de que ele precisava - contanto que ela estivesse de acordo com os ideais marxistas.
Foi durante o período soviético que se formou o cânone literário do programa escolar. Assim, o que os russos leem hoje na escola é uma leve variação do que os soviéticos instituíram: Aleksandr Púchkin, Lev Tolstói, Antôn Tchékhov etc.
"Esses escritores eram todos dissidentes do regime tsarista... A ideologia soviética se beneficiava de tomar como seus aliados os chamados 'democratas revolucionários'... Apesar de nem todos terem sido socialistas", explica Lev Oborin.
O desonesto império das publicações
É claro que o Estado decidia o que publicar. Clássicos russos? Obviamente! Uma prosa estrangeira não provocativa demais (Hemingway, Remarque, Salinger)? Tudo bem! Mas não se esqueça das obras completas de Lênin, Marx e Engels. E, por exemplo, memórias de Leoníd Brêjnev sobre sua experiência na Segunda Guerra Mundial – que ganharam 20 milhões de cópias em 1978.
A URSS não poupava papel em tiragens: na década de 1980, vendiam-se bilhões de cópias. "Havia quase 50 bilhões de cópias em bibliotecas pessoais [por toda a URSS]", escreve o historiador Aleksandr Govorov em seu “A História do Livro”. Esta foi a base para a URSS ser chamada "a nação que mais lê" - uma fórmula que ainda é muito popular e surge toda vez que alguém se regozija com a nostalgia dos grandes tempos soviéticos.
O único problema era a total ausência de escolha. “As tiragens aumentavam, mas a demanda pública continuava insatisfeita”, explica Govorov. As pessoas queriam literatura de ficção e entretenimento, mas o Estado continuava fornecendo livros marxistas, espalhados aos montes em livrarias sem vender.
"Eles publicavam livros suficientes em termos de quantidade, mas o que publicavam ditando ideologia e economia não refletia o que os clientes queriam ler", diz Govorov.
Atualmente

Durante a Perestroika, no final da década de 1980, que foi seguida pela queda da URSS, os leitores finalmente tiveram sua chance. É uma história longa e bastante peculiar a de como o mercado de livros emergiu e se desenvolveu na Rússia contemporânea. Mas, mesmo que os russos tenham sido a nação que mais lia, eles já não o são mais.
Segundo a pesquisa de 2017 da GfK supramencionada, a Rússia estaria em segundo lugar mundial no ranking da leitura de livros. Mas os profissionais da indústria editorial russa duvidam de uma classificação tão otimista.
"Acompanhamos as vendas no mercado de livros e, atualmente, elas não crescem na Rússia", diz a editora-chefe da revista Indústria do Livro, Elena Solovióva.
Realmente, as tiragens vêm caindo paulatinamente nos últimos 10 anos: de 760 bilhões de cópias impressas, em 2008, para 432 bilhões, em 2018. Mas a questão é muito complexa para a pesquisa devido ao aumento das vendas de livros eletrônicos e ao mercado da pirataria.
De qualquer forma, o interesse atual da Rússia em relação à literatura é estável, mas as perspectivas futuras não são encorajadoras - não há nenhum Lev Tolstói no horizonte e os anos de impressão megalomaníaca soviética terminaram.
Hoje, os russos preferem outros tipos de entretenimento: o esforço e resistência da literatura têm que competir com o Netflix, o YouTube e zilhões de páginas da Web. Assim, as chances de vitória não são muito boas. Mas a  tendência é global.
“Em todo o mundo, o interesse pela leitura está em declínio, e a Rússia, infelizmente, segue a mesma tendência. Mas, nos últimos anos, ficou absolutamente claro: a leitura tem um público estável e central que nunca trocará o livro por outros tipos de entretenimento”, afirma a crítica literária Galina Iuzefovitch.
Assim, a Rússia pode estar lendo menos do que antes. Mas é muito pouco provável que ela desista para sempre de fazê-lo


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Os livros que muito poucos conseguem terminar



Os livros que muito poucos conseguem terminar

O autor Nick Hornby propõe queimar os livros que se leem por pura pose



1.- O Arco-Íris da Gravidade, de Thomas Pynchon
No episódio A Pequena Garota no “Big Ten”, da 13ª temporada de Os Simpsons, a pequena Lisa quer se fazer passar por estudante universitária. Em uma cena, bisbilhota o armário de uma estudante e descobre este grande romance. A conversa das duas é a seguinte: “Você está lendo O Arco-Íris da Gravidade?”, pergunta-lhe a pequena Simpson. “Bom, estou relendo”, responde a estudante. A brincadeira, e o fato de que apareça nessa série, resume até que ponto esse e outros romances do autor mais misterioso da literatura americana alcançaram o status de literatura ilegível. Não para todos, claro. É famoso o caso do professor George Lavine, que cancelou suas aulas para se recolher durante três longos meses de 1973 com o único objetivo de devorá-lo. Quando saiu de sua reclusão, afirmou que Pynchon era o melhor que havia acontecido para as letras americanas do século XX.

2.- Crime e Castigo, de Fiodor Dostoievski
Não adianta muito que se possa ler como um thriller psicológico e torturado que não se resolve até o último parágrafo. Talvez por seu título, que alguns consideram aplicável ao que representa sua escritura e sua leitura, poucos se atrevem a criticar os delírios de Raskolnikov, ou os abandonam na sexta manifestação de tormento.

3.- Guerra e Paz, de Leon Tolstói

Outro exemplo da literatura russa, que se costuma colocar neste tipo de lista com piadas como: “Lamentavelmente, não cheguei nem ao primeiro disparo da guerra”. Embora muitos o considerem uma leitura trepidante ambientada durante a invasão napoleônica da Mãe Rússia, eles prefeririam ver a versão cinematográfica. Carrega o estigma recorrente de que ler para os russos é complicado e mais cansativo que escalar algum pico dos Urais. Seu autor o escreveu convalescendo, depois de quebrar um braço ao cair de um cavalo. Alguns leitores declaram, neste tipo de debate, ter se sentido assim durante sua leitura.

4.- Orgulho e Preconceito, de Jane Austen
Outro romance que esconde pistas em seu título. Alguns leitores terminam de lê-lo pelo primeiro elemento, por orgulho, enquanto outros nem se aproximam dele por causa do segundo, por puro preconceito. É um festival de murmúrios e vaivéns românticos, inclusive cômicos, mas o leitor contemporâneo frequentemente se cansa das tensões sexuais que celebra, entretanto, nas comédias da televisão. Esse leitor pouco paciente não é o único. O gênio Mark Twain chegou a declarar: “Cada vez que leio Orgulho e Preconceito, tenho vontade de desenterrar [a autora] e golpeá-la no crânio com sua própria tíbia”.
5.- A Vida e as Opiniões do Cavalheiro Tristram Shandy, de Laurence Sterne
Foi publicado por volumes durante oito anos. O autor morreu antes que se publicasse como romance; de fato, muitos especialistas consideram a obra inacabada depois de tantas páginas. O livro pretende ser a autobiografia do narrador, que se perde em digressões e rodeios infinitos e hilários, mas não adequados para todos os gostos. É uma peça fundamental da narrativa moderna e cômica, mas o fato de que o protagonista não nasça até o terceiro volume não ajuda muita gente a aguentar manter o livro nas mãos. Talvez prefiram a adaptação de Michael Winterbottom, embora seja uma adaptação pouco fiel, como não poderia deixar de ser.
6.- A Divina Comédia, de Dante
O poema escrito por Dante Alighieri no século XIV pertence ao grupo dos que talvez enganem o leitor desprevinido pelo título. Crucial na superação do pensamento medieval e ácido como um limão nos olhos graças aos comentários sobre sua época, foi até adaptado em um monólogo por Richard Pryor. No entanto, muitos ficam na primeira parte (intitulada Inferno) ou não passam pela segunda, o Purgatório, e muito menos terminam a última, batizada de Paraíso.

 7.- Moby Dick, de Herman Melville
Se o protagonista de outro relato deste autor, Bartleby, o Escrivão – esse advogado nova-iorquino entediado, entre outras coisas, com seu trabalho – diz aquilo de “Preferiria não fazer isso”, muitos leitores adotam essa frase quando encaram o romance definitivo de Melville. Não compartilham a obsessão cega do Capitão Ahab por caçar a baleia e se enjoam com a primeira tormenta em alto mar. Não estão sozinhos, apesar da legião de fãs que realmente vibram com o livro. Em uma recente reedição em castelhano desta obra, o autor do prólogo inclui uma saborosa curiosidade. O músico Moby (sim, aquele que faz canções que saem em oitenta anúncios) admite que, embora tenha adotado esse pseudônimo, jamais terminou de ler o romance porque lhe parece “muito longo”. Uma pista: esse músico calvo se chama, na verdade, Richard Melville. Seu tio-bisavô é o consagradíssimo autor.
8.- Paradiso, de José Lezama Lima
As mais de 600 páginas desta espécie de romance de aprendizagem, exuberante em sua prosa como uma árvore repleta de frutos, são um inferno para muitos leitores. Muitos resolvem abordar a formação do poeta José Cemí aconselhados por Julio Cortázar, um autor fundamental para muitos adolescentes, do qual tentam devorar todas suas pistas, mas a linguagem personalíssima e o longo alcance afugentam uma altíssima porcentagem do público de um dos principais romances em castelhano do século XX. É mais curioso ainda quando se sabe que o autor é cubano, já que os cubanos geralmente são pouco dados a introspecções. Na narrativa latino-americana, apesar do recente culto global a Roberto Bolaño, também se costuma brincar com 2.666, do escritor chileno, que não alcança esse número de páginas, mas tem mais de mil.
 9.- As Aventuras do Bom Soldado Svejk, de Jaroslav Hasek / Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes
O mesmo bufo de tédio e desinteresse nas salas de aula checas e espanholas. E o pior é que ambos são emitidos pela obrigação de ler dois dos romances mais divertidos e delirantes da história. Duas histórias pitorescas com dois anti-heróis absolutamente inesquecíveis que carregam o problema de ser o clássico mais aplaudido de ambos os países. Seu problema? Obrigar alunos imberbes com os feromônios disparados a mergulhar em suas numerosíssimas páginas para transformá-los em “um livro de La Mancha – ou de Praga – do qual não quero me lembrar”. No entanto, quando lidos mais tarde, são mais viciantes que um saquinho de pipocas ou que a série de TV com maior audiência.
10.- Graça Infinita, de David Foster Wallace
 É curioso que um romance que trata, entre outras coisas, do vício e do colapso da cultura do entretenimento desanime tantas pessoas. Suas mais de mil páginas – centenas delas são notas de rodapé – o convertem em um dos livros pós-modernos fundamentais na história da literatura, mas também fazem com que muitos acreditem que seu depressivo autor, que acabou se suicidando, tenha escrito, efetivamente, uma espécie de piada infinita sem graça. Os leitores atuais traçam uma linha no chão e formam dois grupos: aquele dos que amam o livro e aquele dos que o odeiam.


sábado, 26 de setembro de 2015

Contos do russo Tolstói ganham edição no Brasil

Tolstói


Contos do russo Tolstói ganham edição no Brasil

"Contos completos", de Tolstói, tem três volumes. A obra ilustra a genialidade do escritor, considerado pelos críticos de sua época melhor do que Dostoiévski

RUAN DE SOUSA GABRIEL
25/09/2015 - 14h04 - Atualizado 25/09/2015 14h06
QUEM É MELHOR? Fiódor Dostoiévski (à esq.) e Liev Tolstói (à dir.), cujos Contos Completos são editados no Brasil. Tolstói fazia coro com os críticos que reprovavam o estilo soturnode Dostoiévski (Foto: Fotos: Hulton Archive/Getty Images)
"Tolstói é o maior prosador russo". O autor do elogio é Vladimir Nabokov (1899-1977), outro grande prosador russo. Nabokov lecionou literatura russa em universidades americanas, onde apresentava a obra de Liev Nikoláievich Tolstói, o conde místico da vila de Iásnaia Poliana. Nabokov, um nobre que fugira dos revolucionários bolcheviques, encontrou a imagem da pátria perdida nos escritos do conde. Tolstói convida o leitor a passear por salões aristocráticos e a contemplar a natureza ao lado dos camponeses russos, os mujiques. Nesse passeio conduzido com mão de mestre, o convidado nem percebe em qual momento começou a pensar em temas como a vastidão e a fragilidade da vida. Agora, as páginas desse mundo estão abertas ao leitor brasileiro. O lançamento Contos completos (Cosac Naify, 2080 páginas, R$ 139) reúne, em três volumes, a produção do autor desde a década de 1850 ao início do século XX.
Contos completos, de Liev Tolstói (Foto: divulgação)
A linguagem exuberante e as detalhadas descrições de Tolstói davam a Nabokov um prazer que ele não encontrava na obra de outro escritor russo, hoje muito popular: Fiódor Dostoiévski (1821-1881). Nabokov comparou os recursos estéticos de Dostoiévski a “porretadas”, enquanto os de Tolstói eram como “o toque suave dos dedos de um artista”. Tolstói e Dostoiévski nunca se encontraram. O conde fazia coro com os críticos que consideravam Dostoiévski um autor de romances mal-acabados e dono de um estilo rude.
Nas obras de Tolstói, em romances como Anna Kariênina e Guerra e paz, destacam-se personalidades monumentais, vigorosas, que afrontam o destino. Nas de Dostoiévski, como Crime e castigo e Os irmãos Karamázov, desfilam prostitutas, místicos e assassinos atormentados pela culpa. O próprio autor teve problemas com o jogo e a bebida. Na juventude, envolveu-se com socialistas e passou anos na cadeia. O século XX o redimiu. Foi apontado como o profeta que alertara sobre os riscos da influência das filosofias materialistas na alma russa. “Ele previu as tragédias do século XX, como o surgimento do terrorismo, tema de Os demônios”, diz Elena Vássina, professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. Dostoiévski, diferente de Tolstói, escrevia contra o relógio, pois precisava do dinheiro dos editores para saldar dívidas. Pouco descrevia personagens e paisagens. Nabokov explicava aos alunos que os personagens de Dostoiévski, ao longo do livro, não se desenvolvem. “Nós os recebemos completos no começo da história”, disse Nabokov. Tolstói, um conde com tempo nas mãos, desenvolve os personagens ao longo de muitas páginas. Ele aprimorou a técnica que os críticos formalistas russos chamaram de “estranhamento”: fazer o leitor se sentir como se contemplasse algo pela primeira vez.
Nas histórias curtas, as oposições entre os dois gigantes continuam. Dostoiévski usava os personagens de suas narrativas menores para apresentar temas que seriam mais bem desenvolvidos em seus romances. Tolstói usava contos e romances com fins diferentes. “O conto foi o instrumento que Tolstói sempre teve à mão para questionar e fazer experimentos estéticos”, afirma Rubens Figueiredo, o tradutor.
O conto remetia às antigas narrativas orais dos camponeses, que viviam segundo os valores que Tolstói admirava. Ao transformá-los em personagens de seus contos, questionava a suposta superioridade dos padrões sociais que a Rússia importava da Europa. “Há três oposições que aparecem em toda a obra de Tolstói: servidão e liberdade, guerra e paz, natureza e civilização”, afirma Sonia Branco, professora de literatura russa da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Ele mergulha na alma do homem do campo para mergulhar na alma humana”.  Dostoiévski também mergulhava, mas por meio dos conflitos do homem urbano, às voltas com as ideias debatidas na Rússia da época.
Sorte nossa poder visitar esses recônditos da alma humana por dois caminhos tão diferentes e tão ricos. Tolstói concluiu, afinal, que esses mergulhos o isolavam da humanidade. “Nosso ofício é horrível. Escrever corrompe a alma”, afirmou. Já idoso, decidiu afastar-se da literatura. Sorte nossa que, volta e meia, ele caía em tentação, imergia na solidão criativa e escrevia obras-primas.





sábado, 22 de agosto de 2015

Vargas Llosa / Lições de Tolstói


Tolstói
Poster de T.A.

Lições de Tolstói

O escritor russo nos ensina em 'Guerra e paz' que apesar de todo o mal que há na vida, a humanidade vai deixando para trás, pouco a pouco, seu pior




MARIO VARGAS LLOSA
22 AGO 2015 - 17:00 COT



Li Guerra e Paz pela primeira vez há meio século, em um volume único da Pléiade, durante as minhas primeiras férias remuneradas pela Agência France Presse, em Perros-Guirec. Estava escrevendo naquele período o meu primeiro romance, e vivia obcecado com a ideia de que, diferentemente do que ocorre com outros gêneros literários, a quantidade, no romance, era um ingrediente essencial da qualidade; de que os grandes romances costumavam ser também romances grandes –longos— porque abrangiam tantos aspectos da realidade que davam a sensação de expressar a totalidade da experiência humana.
O romance de Tolstói parecia confirmar milimetricamente essa teoria. A partir de um começo frívolo e mundano naqueles salões elegantes de São Petersburgo e de Moscou, com aqueles nobres que falavam mais em francês do que em russo, a história ia descendo e se espraiando por toda a complexa sociedade russa, expondo-a com toda a sua ilimitada gama de classes e tipos sociais, dos príncipes e generais aos servos e camponeses, passando pelos comerciantes e as senhoritas em idade de casar, os libertinos e os maçons, os religiosos e os aproveitadores, os soldados, os artistas, os arrivistas, os místicos, até envolver o leitor na vertigem de ter sob os seus olhos uma história na qual atuavam todas as variações possíveis daquilo que é humano.
Em minha lembrança, o que mais se destacava nesse romance eram as batalhas, a odisseia extraordinária do velho general Kutúzov, que, de derrota em derrota, vai aos poucos desgastando as tropas napoleônicas invasoras até que, com a ajuda do inverno brutal, da neve e da fome, consegue acabar com elas. Na minha cabeça, firmava-se a falsa ideia de que, se fosse preciso resumir Guerra e Paz em uma só frase, daria para dizer que se tratava de um grande mural épico sobre como o povo russo rechaçou as empreitadas imperialistas de Napoleão Bonaparte, “o inimigo da humanidade”, e defendeu a sua soberania; ou seja: um grande romance nacionalista e militar, de exaltação à guerra, à tradição e às supostas virtudes castrenses do povo russo.
Constato agora, nesta segunda leitura, que eu estava enganado. Longe de apresentar a guerra como uma experiência virtuosa na qual se forjam o moral, a personalidade e a grandeza de um país, o romance a expõe com todo o seu horror, mostrando em cada batalha –especialmente na alucinante descrição da vitória de Napoleão em Austerlitz— a monstruosa carnificina que ela provoca, a penúria e as injustiças que atingem os homens comuns, que constituem a maioria de suas vítimas; assim como a estupidez macabra e criminosa daqueles que detonam essas tragédias falando em honra, em patriotismo, em valores cívicos e militares, palavras cujo vazio e cuja pequenez se mostram evidentes aos primeiros disparos dos canhões. O romance de Tolstói tem muito mais a ver com a paz do que com a guerra. O amor à história e à cultura russa que indiscutivelmente o impregna não exalta em nada o som e a fúria das matanças, mas sim aquela vida interior intensa, cheia de reflexão, de dúvidas, a busca da verdade e o esforço em fazer o bem aos outros, tudo isso encarnado no bondoso e pacífico Pierre Bezúkhov, o herói do romance.





Longe de apresentar a guerra como uma virtuosa experiência, a novela a expõe em todo seu horror

Embora a tradução de Guerra e Pazpara o espanhol que estou lendo não seja excelente, a genialidade de Tolstói se faz presente a cada passagem, em tudo o que ele relata, e mais no que oculta do que no que explicita. Seus silêncios são sempre eloquentes, comunicam algo, estimulam a curiosidade do leitor, que fica preso ao texto, ansioso para saber se o príncipe Andrei finalmente declarará o seu amor a Natasha, se o casamento combinado realmente acontecerá, ou se o excêntrico príncipe Nikolai Andreiévitch conseguirá impedi-lo. Não há quase nenhum episódio no romance que não deixe algo no ar, que não se interrompa deixando de revelar ao leitor algum elemento ou informação decisivos, de modo a fazer com que sua atenção não diminua, se mantenha sempre ávida e alerta. É realmente extraordinário como em um romance tão amplo, tão diversificado, com tantos personagens, a trama é sempre conduzida com tanta perfeição por um narrador onisciente que nunca perde o controle, que delimita com absoluta maestria o tempo dedicado a cada um, que vai avançando sem descuidar nem preterir de nenhum deles, dando a todos o tempo e o espaço apropriados para fazer com que tudo avance conforme avança a própria vida, por vezes muito vagarosamente, por vezes em saltos frenéticos, com suas doses diárias de alegrias, tragédias, sonhos, amores e fantasias.
Nesta releitura de Guerra e Paz, percebo algo que não tinha entendido na primeira vez: a dimensão espiritual da história é muito mais relevante do que aquilo que se passa nos salões ou no campo de batalha. A filosofia, a religião, a procura de uma verdade que torne possível distinguir claramente o bem e o mal e agir a partir disso são preocupações centrais dos principais personagens, inclusive dos chefes militares, como o general Kutúzov, personagem deslumbrante, que, apesar de ter passado a vida inteira em combate –ainda se nota a cicatriz deixada por uma bala atirada pelos turcos e que lhe atravessou o rosto–, é um homem eminentemente ético, desprovido de ódio, de quem se poderia dizer que faz a guerra porque não há alternativa e alguém tem de fazê-la, mas que preferiria dedicar seu tempo a tarefas mais intelectuais e espirituais.





A dimensão espiritual da história é bem mais importante que a que ocorre nos salões

Embora, “falando friamente”, as coisas que acontecem em Guerra e Paz sejam terríveis, duvido que alguém saia de sua leitura entristecido ou pessimista. Ao contrário, o romance nos transmite a sensação de que, apesar de todo o mal que há na vida, da fartura existente em matéria de canalhices e pessoas vis que querem sempre levar a melhor, no fim das contas os bons são em número maior do que os maus, os momentos de prazer e de tranquilidade são maiores do que os de amargura e ódio, e que, mesmo que isso nem sempre seja evidente, a humanidade vai aos poucos deixando para trás aquilo que ela ainda carrega consigo de pior, ou seja, de uma forma frequentemente invisível, vai melhorando e se redimindo.
O maior feito de Tolstói, como o de Cervantes ao escrever Dom Quixote, o de Balzac com a sua Comédia Humana, o de Dickens com Oliver Twist, o de Victor Hugo com Os Miseráveis, ou ainda o de Faulkner com sua saga sulina, foi, provavelmente, este: mesmo nos fazendo mergulhar nos esgotos da vida humana, seus romances injetam dentro de nós a convicção de que, apesar de tudo, a aventura humana é infinitamente mais rica e apaixonante do que as misérias e as baixezas que também existem nela; que, vista em seu conjunto, de uma perspectiva mais serena, ela merece ser vivida, nem que seja apenas porque, neste mundo, podemos viver não apenas das verdades, mas também, graças aos grandes romances, das mentiras.
Não poderia encerrar esta coluna sem fazer em público uma pergunta que está martelando dentro de minha cabeça desde que eu soube do fato: como foi possível que o primeiro prêmio Nobel de Literatura tenha sido dado a Sully Prudhomme e não a Tolstói, que também concorria a ele? Será que não estava tão claro na época, como está agora, que Guerra e Paz é um desses raros milagres que só acontecem no universo da literatura a cada cem anos?
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