Mostrando postagens com marcador Vargas Llosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vargas Llosa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 18 de junho de 2020

Borges em sua casa / Uma entrevista de Mario Vargas Llosa




Jorge Luis Borges, em sua casa de Buenos Aires, em 1983.
Jorge Luis Borges, em sua casa de Buenos Aires, em 1983.CHRISTOPHER PILLITZ

Borges em sua casa

 Uma entrevista de Mario Vargas Llosa

Escritor argentino conversou com o futuro Nobel em 1981 diante das câmeras de televisão. A conversa, que permanecia inédita, faz parte do novo livro do autor peruano: ‘Medio siglo con Borges’. A editora espanhola Alfaguara irá publicá-lo na próxima semana


Mario Vargas Llosa
14 de junho de 2020

Se precisasse nomear um escritor de língua espanhola de nosso tempo cuja obra irá perdurar, deixará uma marca profunda na literatura, citaria esse poeta, contista e ensaísta argentino que emprestou seu sobrenome a Graciela Borges, Jorge Luis Borges.

O punhado de livros que escreveu, livros sempre breves, perfeitos como um anel, onde se tem a impressão de que nada falta e sobra, tiveram e têm uma enorme influência nos que escrevem em espanhol. Suas histórias fantásticas, que ocorrem no Pampa, em Buenos Aires, na China, em Londres, em qualquer lugar da realidade e da irrealidade, mostram a mesma imaginação poderosa e a mesma formidável cultura que seus ensaios sobre o tempo, o idioma dos vikings... Mas a erudição em Borges nunca é algo denso, acadêmico, é sempre algo insólito, brilhante, divertido, uma aventura do espírito da qual nós leitores saímos sempre surpresos e enriquecidos.

A entrevista que Borges nos deu ocorreu no modesto apartamento do centro de Buenos Aires em que mora, acompanhado de uma empregada que também lhe serve de guia, já que Borges perdeu a vista há anos, e de um gato angorá batizado com o nome de Beppo porque, nos disse, era o nome do gato de um poeta inglês que admira: Lord Byron.

domingo, 20 de outubro de 2019

Vargas Llosa / Recitando Darío…



Rubén Darío


Mario Vargas Llosa
Recitando Darío…


A extraordinária liberdade e audácia com que o escritor nicaraguense criou sua própria tradição libertou a poesia em língua espanhola do regionalismo e a devolveu ao universalismo dos clássicos



19 oct 2019


Em minhas caminhadas matutinas, neste outono madrilenho que parece não se despedir nunca do verão, a memória me devolve de repente longos poemas de Rubén Darío que aprendi há mais de sessenta anos. Onde estiveram escondidos todo esse tempo? No inconsciente, segundo a descoberta (ou a invenção) genial de Sigmund Freud. Naquela longínqua adolescência, li muito o inventor da psicanálise, atiçado pelo doutor Guerra, nosso professor de Psicologia na San Marcos, que ilustrava as teorias freudianas com os romances de Dostoiévski e tinha uma voz tão fraquinha que mal o ouvíamos, uma voz que parecia o trinado de uma avezinha. Só voltei a ler Freud nos anos sessenta, quando, em Londres, a amizade com Max Hernández, que estava fazendo sua análise profissional no Instituto Tavistock, me ressuscitou a curiosidade por seus livros. Eram fecundos aqueles sábados londrinos que combinavam psicanálise, os sebos e a revolução ácrata, porque Max e eu nos reuníamos todas as semanas com alguns anarquistas britânicos, saídos não sei de onde e desencantados com o Ocidente, que sonhavam que a Ideia de Bakunin e Kropotkin, morta na Europa, ressuscitasse em algum momento lá longe, entre o Amazonas e o Orinoco...





Descobri Darío em um seminário dado por Luis Alberto Sánchez para os alunos dos cursos de doutorado da Faculdade de Letras, quando voltou do exílio para o Peru, por volta do final da ditadura do general Odría, em 1955 ou 1956. Era um magnífico professor. Não tão rigoroso como Porras Barrenechea, que em suas aulas de Fontes Históricas revelava sempre os dados de uma pesquisa pessoal, mas agradável, estimulante, cheio de histórias, mexericos e comentários da atualidade que transformavam seu seminário em uma coisa viva, em uma áscua intelectual. Saíamos de suas aulas correndo para a velha biblioteca com teias de aranhas da San Marcos para ler os livros que havia explicado. Darío foi o poeta de quem mais versos memorizei naqueles anos de leituras frenéticas. O poema que mais admiro dele, Responso a Verlaine, tive de ler com um dicionário à mão para saber o que queriam dizer “sistro”, “propileo”, “canéforas”, “náyade”, “acanto”, misterioso palavreado que soava tão bonito.

Recordo uma discussão apocalíptica, em Paris, com o poeta chileno Enrique Lihn, que havia publicado na revista Casa das Américas um poema esplêndido e ferozmente injusto, debochando das princesas e dos cisnes de Rubén Darío e propondo que, armados de trinchantes e facas, comêssemos de uma vez por todas o cordeiro pascal...

Como Lihn, muitos poetas da época se incomodavam com o cenário modernista dos poemas darianos, aquelas indescritíveis miscelâneas da Grécia clássica com a França oitocentista, seus vasos de cristal, seus violoncelos, as donzelas de decotes grandes e pés curtos, suas “mãos de marquês”. Queriam que a poesia fosse menos decorativa e suntuosa, que expressasse mais intimamente a existência e não se dispersasse e ficasse frívola dessa maneira na adoração do francês. Equivocavam-se ao julgar assim Darío, que também podia ser íntimo, profundo e pessoal, como em El Fatal ou naquele tenebroso chamado dos últimos tempos, o de Francisca Sánchez, Acompáñame. Esta cheguei a conhecer, levado a sua casinha de Las Ventas por meu professor Antonio Oliver Belmás, da Complutense; era uma velhinha imortal, miúda, simples, de lenço na cabeça, que jamais se permitia confianças com o grande morto, a quem chamava sempre de "don Rubén". Quando Darío partiu para a louca aventura estadunidense da qual não regressaria, ela retornou a seu povoadinho castelhano, com todo o arquivo de don Rubén, que depois legaria à Espanha. Eu lhe perguntei como Darío se dava com José Santos Chocano. “Don Darío tinha muito medo dele”, me respondeu. “Dizia: um dia é capaz de entrar na casa e me maltratar.” E, com efeito, a correspondência entre ambos está cheia de cartas em que o peruano exigia com intimidação ao nicaraguense artigos elogiosos sobre os livros que lhe dedicava.

Na verdade, o que Darío fez foi romper o provincianismo que asfixiava a poesia de nossa língua, que, desde os grandes tempos clássicos com Quevedo e Góngora, se havia apequenado e recuado aos afetos locais, e sair para enfrentar o mundo inteiro para se apropriar dele, precisamente com aquelas mesclas e combinações que só um homem da periferia poderia ter feito, ou seja, alguém que, ao contrário de um poeta francês ou britânico ou alemão, não escrevia condicionado pelo peso de uma tradição. A extraordinária liberdade e audácia com que Darío criou sua própria tradição, nessas alianças inescrupulosas em que os deuses gregos dançam o minueto com as coquetes indiscretas dos salões do Rei Sol, liberou a poesia em língua espanhola do regionalismo e a devolveu ao universalismo dos clássicos.

Graças a ele foram possíveis, de uma parte, os abalos telúricos e épicos do Neruda do Canto Geral, a muito íntima poesia de Vallejo, e, no outro extremo, o internacionalismo de um Borges. Este último reconheceu, de maneira irrefutável: “Sua labuta não cessou e não cessará”, escreveu; “aqueles que alguma vez o combatemos, compreendemos hoje que o continuamos”. Por isso, Sergio Ramírez deu como título El Libertador ao excelente ensaio que lhe dedicou.

Deslumbrado por Darío, decidi fazer minha tese de graduação sobre seus contos. Meus dois orientadores, Luis Alberto Sánchez e Augusto Tamayo Vargas, me faziam de vez em quando revisar as declarações e me exigiam precisões bibliográficas. Mas seria muito pior mais tarde, em Madri, onde o orientador de minha tese de doutorado sobre García Márquez, o professor Alonso Zamora Vicente, passou anos me exigindo novas correções e detalhes, em inacabáveis passeios deliciosos pela Madri dos Áustrias. Na época eram importantes as teses universitárias. Agora, não é raro que as plagiem, e que os plagiários, em vez de vergonha e reprimendas, recebam desagravos e felicitações.

Em todo o meu percurso, esta manhã, recitei em voz baixa “Era un aire suave...”, o poema inicial de Cantos de Vida y Esperanza , que começa com aquele verso deslumbrante “Yo soy aquel que ayer nomás decía” e, pelo menos três vezes, o “Responso a Verlaine”. Se reduzo um pouco o passo, conseguirei recitá-lo uma quarta, talvez.

Luis Alberto Sánchez contava naquele seminário que havia comprado por um punhado de francos, em um bouquiniste de Paris, o exemplar de Prosas Profanas dedicado de próprio punho por Rubén Darío a Remy de Gourmont, a quem tanto admirava. E que o livro ainda não estava desglosado. De modo que o polígrafo francês, tão célebre então e agora mergulhado no esquecimento, nem sequer se havia inteirado da homenagem que lhe prestava, do outro lado do mundo, aquele desconhecido nicaraguense com aquele livro, mais importante que todos os seus reunidos. Não acho que, um século e meio depois, Remy de Gourmont tenha muitos leitores agora, nem sequer que seus livros sejam encontrados nas livrarias francesas. O seu distante admirador, por sua vez, continua sendo admirado e estudado em ambos os lados do oceano e, tenho certeza, ganha todo o dia leitores tão apaixonados por seus versos como eu no vasto mundo da língua espanhola. E me parece que escuto, ali onde quer que se encontre, o fantasma de Darío, que, como a travessa Eulalia, ri, ri, ri,...


segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Vargas Llosa / O regresso à Grécia

Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

O regresso à Grécia

Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu


17 AUG 2019

Um rapaz grego, há meio século, cansado da falta de trabalho e do caos que o rodeavam em seu país natal, conseguiu escapar para a Suécia. Enfrentou ali a difícil vida do imigrante. Sobrevivendo como podia, aprendeu o idioma – e tão bem que descobriu uma vocação de escritor e começou a escrever em sueco. Teve bastante sucesso. Tanto que pôde ganhar a vida escrevendo romances e ensaios. Casou-se com uma sueca, com quem teve filhos e netos. Comprou um apartamento, depois uma casinha de verão e um pequeno apartamento onde se encerrava de manhã e de tarde para ler e escrever.
Theodor já tinha feito 70 e tantos anos quando um dia, de repente, vivenciou algo que nunca até então havia conhecido: um bloqueio intelectual. Olhava o rolo de sua pequena máquina portátil e tinha a mente em branco, sem uma única ideia sobre a qual redigir. Saiu para caminhar à beira do oceano, algo que sempre o apaziguava. Mas desta vez não funcionou; dias, semanas, meses esteve assim, sem nada a dizer, oprimido pela paralisia e a constipação intelectuais. Gunilla, sua mulher, inquieta, propôs uma viagem. Por que não à Grécia, sua terra natal? Do fundo de sua desmoralização, ele aceitou.
Chegaram a Atenas de avião. Ali alugaram um carro e se lançaram à estrada, rumo ao Peloponeso, onde se encontrava aquele vilarejo diminuto, Molaoi, onde Theodor havia nascido. Lá estava, empoeirado, eterno e efusivo. Alguns parentes centenários continuavam ali, intangíveis, como as oliveiras, as amendoeiras, as cabras, os gatos e as trepadeiras. Reconheceram-no na rua. A escolinha foi alertada. Os professores lhe organizaram uma homenagem que aconteceu ao anoitecer, quando uma leve brisa substituía o calor sufocante do dia, sob uma lua redonda como um queijo. Quando as crianças cantaram para ele, Theodor sentiu que duas grandes lágrimas deslizavam por sua velha face.
Na manhã seguinte, na antiga pensão onde o casal se hospedava, Theodor se levantou logo cedo, como sempre havia feito na Suécia. Preparou sua maquininha portátil e, sentindo que todo o corpo tremia, começou a escrever. Com a mesma insegurança e o terror de se equivocar em cada palavra, como havia feito em cada manhã nesse meio século de vida sueca. Mas desta vez não escrevia em sua língua adotada, e sim em grego. Sem deixar de tremer, cada vez mais morto de medo, as palavras fluíam, enchiam as páginas e ele sentia uma excitação extraordinária, a mesma que vivenciou lá, no fundo dos tempos, quando escreveu sua primeira história sueca.
O livro escrito em grego por Theodor Kallifatides – o primeiro de sua história de escritor – acaba de ser traduzido ao espanhol por Selma Ancira (Galaxia Gutemberg) e se chama Otra Vida por Vivir (outra vida por viver). Comoveu-me profundamente. Pela história que conta e que acabo de resumir sucintamente, mas também pela naturalidade e a destreza que emprega ao contar, como se se tratasse de algo perfeitamente natural, e não o cataclismo psicológico que deve ter sido, para esse quase octogenário, redescobrir a língua de sua infância, a língua esquecida, substituída pela do imigrante, que, após aquele bloqueio traumático, redescobre o grego e ao mesmo tempo recupera uma vocação que acreditava estar perdendo. É um livro muito belo, o de uma verdadeira morte e ressurreição espiritual, um milagre contado com a tranquila naturalidade com que se descreve um fato trivial e cotidiano.
Talvez a tremenda impressão que tive lendo-o se deva a que, ao contrário de Theodor Kallifatides, não há na minha vida o que há na sua, essa aldeia, Molaoi, perdida nas entranhas do Peloponeso, onde tudo começou, o lugar de onde partem suas lembranças. Eu não sei onde começam as minhas. Certamente não em Arequipa, onde nasci, porque minha mãe e meus avós me tiraram de lá quando tinha apenas um ano, antes do início das minhas recordações. Estas foram de Cochabamba, mas no casarão da rua Ladislao Cabrera, lá na Bolívia, todas as memórias da minha família bíblica eram de Arequipa, e eu as herdei sem tê-las vivido. Em Cochabamba aprendi a ler, o melhor que me aconteceu, mas creio que só comecei a viver de verdade em Piura, que desapareceu sob uma modernidade que enterrou essa pequena cidade rodeada de areais, onde os burrinhos eram chamados de “piajenos” e as crianças, de “churres”, e onde aprendi que as cegonhas não traziam os bebês de Paris. Fui morar em Lima aos onze anos, e muitos anos se passaram antes que deixasse de detestar essa cidade que me distanciou de meus avós e meus tios.
Sempre pensei que ser um cidadão do mundo era o melhor que podia acontecer a uma pessoa, e continuo pensando assim. Que as fronteiras são a fonte dos piores preconceitos, que elas criam inimizades entre os povos e provocam as estúpidas guerras. E que, por isso, é preciso tentar afiná-las pouco a pouco, até que desapareçam totalmente. Isso está ocorrendo, sem dúvida, e essa é uma das boas coisas da globalização, embora haja também algumas ruins, como o aumento, até extremos vertiginosos, da desigualdade econômica entre as pessoas.
Mas é verdade que a língua primeira, aquela em que você aprende a dar nome à família e às coisas deste mundo, é uma verdadeira pátria, que depois, com a azáfama da vida moderna, às vezes vai se perdendo, confundindo-se com outras, e isso é provavelmente a prova mais difícil que os imigrantes têm de enfrentar, essa maré humana que cresce a cada dia, à medida que se amplia o abismo entre os países prósperos e os miseráveis, a de aprender a viver em outra língua, isto é, em outra maneira de entender o mundo e expressar a experiência, as crenças, as pequenas e grandes circunstâncias da vida cotidiana.
Theodor Kallifatides conta tudo isso como se fosse fácil, como se tal reconstrução linguística fosse alcançada de uma maneira natural, e não significasse algo dificílimo de conseguir, algo que está fora do alcance de uma enorme maioria de imigrantes, que jamais conseguem se integrar no seu novo país como ele conseguiu. Mas ele também conta como, ainda nos casos mais bem-sucedidos, como o seu, persiste sempre, sepultada possivelmente no recôndito mais profundo e secreto da personalidade, aquela raiz, aquele ponto de partida feito de paisagem, memória, língua, família, que, de repente, torna-se exigência peremptória, uma nostalgia que exige suas prerrogativas. Eu me lembro, em minha juventude em Miraflores, de um velhinho polonês que vendia peles e havia sobrevivido aos campos de extermínio nazistas. Dizia detestar a Polônia porque, segundo ele, os poloneses haviam cruzado os braços quando aquilo ocorria, mas, sempre que conversávamos, ele voltava à Polônia, à sua família, ao vilarejo onde passara a infância, à cidade onde seu pai e seu avô também tinham comercializado peles. Às vezes seus olhos marejavam recordando essa terra que dizia detestar.
Desde que o nacionalismo não erga sua horrível cabeça, não é ruim que uma pessoa tenha saudade da língua que perdeu, das cidades ou bairros das brincadeiras infantis, do colégio onde estudou e dos ritos familiares entre os quais cresceu. Esse é um sentimento saudável, cálido, necessário, e assim nos mostra Otra Vida por Vivir, um livro sem pretensões que é, no entanto, profundamente otimista e humano, pois descreve outra cara da imigração e apresenta o amor ao que nos é próprio sem uma gota de patriotismo em excesso nem sentimentalismo.

sábado, 28 de setembro de 2019

Vargas Llosa / As duas faces de Ezra Pound



Mario Vargas Llosa

As duas faces de Ezra Pound

Poeta e caçador de talentos literários ficou deslumbrado pelos textos de James Joyce e lhe procurou editores. Na Segunda Guerra Mundial repetiu as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus


22 jul 2019



A biblioteca do barco que me leva a Anchorage é pequena e pulquérrima. Com exceção de uma coleção de clássicos cuja letra microscópica os coloca fora de meu alcance, seus romances de aeroporto, de autores desconhecidos, me deixam frio, tanto como suas biografias de jogadores de beisebol, ases das corridas e do ringue, os livros de autoajuda e as fofocas de Hollywood. Mas, perdido nas estantes de Current Affairs encontro um livro de um jovem professor de Harvard, Kevin Birmingham, que é de muito proveito: O Livro mais Perigoso. James Joyce e a Batalha por Ulisses.
Versa sobre muito mais do que dizem seu título e subtítulo, ou seja, os contratempos que James Joyce passou com seus livros, pela cegueira e covardia dos editores do Reino Unido e dos Estados Unidos que, temerosos pela censura, as multas e os julgamentos, não se atreviam a publicá-los. O caso de Joyce é único: foi famoso antes de ter um só livro editado.
Ezrad Pound
Fernando Vicente
E, em boa parte, isso se deveu a esse extraordinário caçador de talentos literários que foi o poeta Ezra Pound. É bem conhecido o que ele fez por T. S. Eliot e o tempo que dedicou (renunciando ao que lhe tomava escrever) para corrigir A Terra Sem Vida. Mas provavelmente fez ainda muito mais para que o gênio de Joyce fosse reconhecido e, sobretudo, publicado. Soube dele pela primeira vez em 1914, pelo poeta W. B. Yeats, que lhe aconselhou que pedisse uma colaboração de Joyce a uma antologia dedicada à literatura irlandesa que Pound preparava. Ele o fez e Joyce, que era totalmente desconhecido, além de sua colaboração, lhe enviou vários contos de Dublinenses e fragmentos de Retrato do Artista quando Jovem, para os quais procurava editor. O deslumbramento de Pound ao ler esses textos está documentado em suas cartas. Como homem prático que era, de imediato inundou de relatórios os melhores editores ingleses e norte-americanos, exortando-os a publicar esses primeiros livros de Joyce que, lhes garantia, eram de altíssima qualidade literária e de uma grande originalidade. As respostas que recebeu são de dar nojo: nenhuma reconhecia o menor talento literário em Joyce. Afirmavam que haviam recusado seus livros porque eram mal escritos e pior organizados, tinham estruturas deficientes, além de vulgares e ordinários. Para que se arriscar a receber uma multa e processos por esses livros que não passariam por nenhuma censura se, além do mais, eram tão medíocres?
Desde o surgimento de ‘Ulisses’ todos os romancistas contemporâneos seriam discípulos de Joyce
Pound não deu o braço a torcer. Respondeu a todas essas objeções com argumentos literários, acusando os editores de cegos e medíocres e afirmando que o jovem escritor irlandês estava revolucionando a literatura de seu tempo e, em especial, a prosa literária da língua inglesa. Seu entusiasmo contagiou duas mulheres extraordinárias: Harriet Weaver, diretora de uma pequena revista literária inglesa, The Egoist, onde apareceriam os primeiros contos de Dublinenses e capítulos de Retrato do Artista quando Jovem, e Margaret Anderson, que em 1918 começou a publicar episódios de Ulisses na revista que dirigia nos Estados unidos, The Little Review. As duas enfrentaram ações judiciais por sua ousadia. Impertérritas, continuaram empenhadas em divulgar a obra de James Joyce e, inclusive, lhe enviaram dinheiro para ajudá-lo a sobreviver apesar de suas crônicas crises econômicas e do que gastava em oculistas.
Ao contrário dos editores da época, muitos escritores e livreiros (entre esses, a primeira editora de Ulisses, Sylvia Beach, a criadora da Shakespeare and Company, a livraria norte-americana de Paris) ficaram muito impressionados ao tomar conhecimento dos textos de Joyce. Ainda que provavelmente nenhum tenha demonstrado isso como Valery Larbaud (que seria o primeiro tradutor ao francês de Ulisses), que, após ler em The Little Review os fragmentos do grande romance de Joyce, lhe escreveu uma carta oferecendo-lhe sua casa (com uma criada) e sua grande biblioteca, além de sua célebre coleção de soldadinhos de chumbo. Joyce se mudou para lá com Norah, sua mulher, e seus dois filhos e por um bom tempo pôde continuar trabalhando com tranquilidade nesse romance que lhe tomaria mais de sete anos.
Na Itália uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que CasaPound
Ainda que a primeira edição em livro de Ulisses tenha aparecido em Paris em 1922 graças a Sylvia Beach, somente 12 anos depois – 1934 – um juiz de Nova York – John Woolsey – em uma memorável sentença autorizou a circulação do romance, que apareceria pouco depois já na edição da Random House. A sentença de Woolsey foi reproduzida nessa nova edição e abriria desde então um precedente decisivo a todas as tentativas de proibir a circulação de obras “atrevidas e desavergonhadas” nos Estados Unidos. Uma sentença semelhante foi emitida na Inglaterra nesse mesmo ano.
Nos dois países a reação da crítica foi muito semelhante. Quase todos os que escreveram sobre o romance reconheceram – alguns a contragosto – o gênio de Joyce e as extraordinárias novidades que o livro trazia tanto no domínio da língua como na estrutura da narração desse dia tão minuciosamente descrito de Leopold Bloom. Mas quase todos eles denunciavam a vulgaridade atroz do palavreado “pestilento” com o qual se expressavam não só os personagens como o próprio narrador e, principalmente, no longo monólogo final de Molly Bloom, que alguns chamaram de “insolente” e até mesmo “demoníaco”.
Cedo ou tarde todos eles reconheceriam que o romance seria a partir de então algo radicalmente diferente graças a Joyce e a sua prodigiosa realização. Esse sucesso se deveu em boa parte ao instinto e aos esforços de Ezra Pound. No extraordinário ensaio que dedicou ao livro foi o primeiro a reconhecer que desde o surgimento de Ulisses todos os romancistas contemporâneos, incluindo os que nunca o leram, seriam discípulos de Joyce; e isso também reconheceu William Faulkner, outro romancista fora do comum que provavelmente nunca teria escrito sua saga sulista sem as lições que recebeu lendo Joyce.
O serviço que Ezra Pound prestou ao autor de Ulisses não consistiu somente em encontrar editores para seus textos; também conseguiu mecenas que o ajudaram economicamente e lhe permitiram, por exemplo, operar tantas vezes seu olho direito. Quando se conheceram pessoalmente, em Paris, em 1918, Ezra Pound já estava havia quatro anos multiplicando esforços para divulgar a quem chamaria de “o renovador da cultura do Ocidente”. Pound é a figura mais simpática que aparece no livro de Kevin Birmingham.
É difícil identificar esse homem generoso e altruísta com o Ezra Pound que, durante a Segunda Guerra Mundial, pedia na rádio italiana que os jovens soldados norte-americanos desertassem de suas fileiras e repetia todas as maldades que os nazistas atribuíam aos judeus. Por isso foi capturado pelo Exército norte-americano e levado por toda a Itália em uma jaula, como um louco furioso. Depois, nos Estados Unidos, um tribunal, para não o fuzilar por traição à pátria, o declarou louco. E passou alguns anos em um manicômio. Em nossos dias, na Itália fascista de Matteo Salvini, uma das seitas mais radicais da ultradireita antidemocrática se chama nada menos do que Casa Pound. Georges Bataille escreveu que o ser humano é uma jaula onde habitam os anjos e os demônios. Em poucas pessoas isso foi tão evidente como no caso de Ezra Pound.

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Vargas Llosa / “O Brexit é um produto da incultura”

Mario Vargas Llosa

Vargas Llosa: “O Brexit é um produto da incultura”

Vencedor do Nobel de literatura defende que "livros geram cidadãos com um espírito crítico, e a democracia não pode sobreviver sem um espírito crítico”


JUAN CRUZ RUIZ
Los Llanos De Aridane - 13 SEP 2019 - 14:48 COT

As duas intervenções públicas de Mario Vargas Llosa no Festival Hispano-Americano de Escritores de Los Llanos de Aridane (Espanha) foram cartas de batalha em favor da leitura. Diante das crianças que se concentraram no município das Canárias para ouvir a narração de seu conto Fonchito e a Lua (que a colombiana Paula Acuña encenou) e dos adultos aos quais, apresentado por Juan Jesús Armas Marcelo, pediu que lessem para não serem enganados. Ele continuou falando sobre isso, horas mais tarde, ao EL PAÍS. Referia-se à importância que o entretenimento alcançou sobre a literatura. “Não se pode negar-lhe qualidade. O entretenimento é divertido e fácil de digerir, mas não acho que, como a literatura, forme cidadãos ideais para uma sociedade democrática. Os livros deixam uma marca muitíssimo maior; geram cidadãos com um espírito crítico, e a democracia não pode sobreviver sem um espírito crítico.”

Mario Vargas Llosa, na última terça-feira na ilha da Palma.VASCO SZINETAR

"Infelizmente", diz o vencedor do Nobel de literatura, "esse espírito está se perdendo muito na Europa: o Brexit, os movimentos nacionalistas e independentistas na Espanha, são fundamentalmente o produto da incultura, o que permitiu que essas deformações ideológicas adquirissem grande protagonismo. Esse espírito crítico se perde e isso tem a ver com uma literatura de puro entretenimento, que não tem mais a capacidade de manter vivo o descontentamento com a realidade.”
Acredita que o Brexit parece "uma série trágica". “Nada na história indicava que a Inglaterra pudesse derivar nesse chauvinismo grotesco. E a Itália foi salva por milagre, esperemos que não seja momentâneo. Os rebrotes de nacionalismo frenético já estão nos países mais instruídos, como a Suécia e a Suíça.”
O autor insta “os escritores a que se mobilizem. Estão moralmente obrigados, pelo que a literatura representou, a estar cientes do drama que estamos vivendo e a dar novamente à literatura essa presença crítica que sempre teve nos melhores tempos”.
Ele se mobilizou e, há 60 anos, publicou Conversa na Catedral. Não tinha consciência de estar escrevendo um livro político. “Queria deixar um testemunho literário da ditadura de Odría. Foi muito mal recebido. Para muitas pessoas pareceu longo, difícil. Agora tem mais leitores do que quando saiu. Eu me alegro. É o livro que me deu mais trabalho. Deixou um testemunho que, infelizmente, fala de feridas semelhantes sofridas em cada um dos países da América, com muito pouquíssimas exceções, dos estragos que uma ditadura causa.”
O Nobel também se pronunciou sobre o melhor da literatura contemporânea. Pôs em primeiro plano a escrita de não-ficção da jornalista argentina e colunista do EL PAÍS Leila Guerriero. "Jornalismo do bom, negação das falsidades, um esforço extraordinário para dizer a verdade que significa literatura ao mesmo tempo.”

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Vargas Llosa / A capitã e o ministro


Fernando Vicente

Mario Vargas Llosa

A capitã e o ministro

Devemos estar atentos ao julgamento de Carola Rackete, que poderia ser condenada a 10 anos de prisão, e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália, hoje pisoteadas por Salvini e a Liga


12 JUL 2019

Carola Rackete, a capitã do barco Sea-Watch 3, que fazia 17 dias estava à deriva no Mediterrâneo com 40 imigrantes a bordo resgatados no mar, atracou na madrugada da sexta-feira retrasada na ilha italiana de Lampedusa, apesar da proibição das autoridades desse país. Fez bem. Foi de imediato detida pela polícia italiana, e o ministro do Interior e líder da Liga, Matteo Salvini, se apressou a advertir a ONG espanhola Open Arms, que navega pelos arredores com dezenas de imigrantes resgatados no mar, de que “caso se atreva a chegar perto da Itália terá a mesma sorte que a jovem alemã Carola Rackete”, que poderá ser condenada a dez anos de prisão e a pagar uma multa de 50.000 euros [a acusação contra Rackete foi arquivada após a conclusão deste artigo]. O fundador da Open Arms, Óscar Camps, respondeu: “Da prisão se sai, do fundo do mar, não”.
Quando as leis, como as invocadas por Matteo Salvini, são irracionais e desumanas, é um dever moral desacatá-las, como fez Carola Rackete. O que deveria ter feito, a não ser isso? Deixar que morressem esses pobres imigrantes resgatados no mar e que, depois de 17 dias à deriva, se encontravam em condições físicas muito precárias, alguns deles a ponto de morrer? A jovem alemã violou uma lei estúpida e cruel, agindo de acordo com as melhores tradições do Ocidente democrático e liberal, as quais têm como antípodas precisamente o que a Liga e seu Matteo Salvini representam: não o respeito da legalidade, mas uma caricatura preconceituosa e racista do Estado de direito. E são precisamente ele e seus seguidores (numerosos demais, aliás, e não só na Itália, mas em quase toda a Europa) que encarnam a selvageria e a barbárie de que acusam os imigrantes. Não merecem outros qualificativos os que haviam decidido que, para não pisarem o sagrado solo da Itália, melhor seria os quarenta sobreviventes do Sea-Watch 3 se afogarem ou morrerem de doenças ou de fome. Graças à valentia e decência de Carola Rackete pelo menos estes quarenta infelizes se salvarão, pois já há cinco países europeus que se ofereceram para recebê-los.
Contra a imigração há preconceitos crescentes que vão alimentando o perigoso racismo que explica o ressurgimento do nacionalismo em quase toda a Europa, a ameaça mais grave para o mais generoso projeto em marcha da cultura da liberdade: a construção de uma União Europeia que no dia de amanhã possa competir de igual para igual com os dois gigantes internacionais, os Estados Unidos e a China. Se o neofascismo de Matteo Salvini e companhia triunfasse, haveria Brexits por toda a parte no velho continente, e seus países, divididos e antagonizados, teriam à espera um triste porvir a fim de resistir aos abraços mortais do urso russo (veja-se a Ucrânia).
Apesar de as estatísticas e as vozes de economistas e sociólogos serem conclusivas, os preconceitos prevalecem: os imigrantes vêm tirar trabalho dos europeus, trazem crimes e violências múltiplas, sobretudo contra as mulheres, suas religiões fanáticas os impedem de se integrar, com eles cresce o terrorismo, etcétera. Nada disso é verdade, ou, se for, está exagerado e adulterado a um extremo irreal.
Não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora
A verdade é que a Europa necessita de imigrantes para poder manter seu alto nível de vida, pois é um continente em que, graças à modernização e ao desenvolvimento, um número cada vez menor de pessoas precisa manter uma população aposentada mais numerosa e que continua crescendo sem trégua. Não só a Espanha tem as mais baixas taxas de nascimento no ano. Muitos outros países europeus seguem seus passos de perto. Os imigrantes, queiramos ou não, terminarão preenchendo esse vazio. E, para isso, em vez de mantê-los à margem e persegui-los, é preciso integrá-los, removendo os obstáculos. Isso é possível com a condição de erradicar os preconceitos e medos que, explorados sem descanso pela demagogia populista, criam os Matteo Salvini e seus seguidores.
Sem dúvida, a imigração tem de ser orientada para que beneficie os países que os recebem. Convém recordar que ela é uma grande homenagem que prestam à Europa esses milhares e milhares de miseráveis que fogem dos países subsaarianos governados por gangues de ladrões e, ainda por cima, às vezes, fanáticos que transformaram o patrimônio nacional na caverna de Ali Babá. Além de estabelecer regimes autoritários e eternos, saqueiam os recursos públicos e mantêm suas populações na miséria e no medo. Os imigrantes fogem da fome, da falta de emprego, da morte lenta que é a existência para a grande maioria deles.
Não é um problema da Europa? A verdade é que é, sim, pelo menos parcialmente. O neocolonialismo fez estragos no Terceiro Mundo e contribuiu em boa parte para mantê-lo subdesenvolvido. Claro que o erro é compartilhado com os que adquiriram os maus costumes e foram cúmplices dos que os exploravam. Não há dúvida de que, em última instância, só o desenvolvimento do Terceiro Mundo manterá em suas terras essas massas que agora preferem se afogar no Mediterrâneo a serem exploradas pelas máfias, a continuar em seus países de origem, onde sentem que não há mais a esperança de mudança.
Europa necessita imigrantes para poder manter seu alto nível de vida e uma numerosa população aposentada
O fundamental na Europa é a transformação da mentalidade. Abrir as fronteiras a uma imigração que é necessária e regulá-la de modo que seja propícia, e não fonte de divisão e de racismo, nem sirva para incrementar um populismo que no passado provocou consequências tão horrendas. É preciso recordar sempre que os milhões de mortos das duas últimas guerras mundiais foram obra do nacionalismo, e que este, inseparável dos preconceitos raciais e fonte irremediável das piores violências, deixou em todas as partes rastros das atrocidades que causou e que poderá voltar a causar se não o contivermos a tempo. É preciso enfrentar os Matteo Salvini de nossos dias com o convencimento de que eles não são mais do que o prolongamento de uma tradição obscurantista que encheu de sangue e de cadáveres a história do Ocidente, e foram o inimigo mais encarniçado da cultura da liberdade, dos direitos humanos, da democracia, nenhum dos quais teria prosperado e se espalhado pelo mundo se os Torquemada, os Hitler e os Mussolini tivessem vencido os Aliados na guerra.
Escrevo este artigo em Vancouver, uma bela cidade aonde cheguei ontem. Esta manhã tomei o desjejum em um restaurante do centro da cidade no qual travei conversa com quatro “nativos” de origem japonesa, mexicana, romena e, só o último deles, gringo. Os quatro tinham passaporte canadense e pareciam estar contentes com sua sorte e se entenderem muito bem. Esse é o exemplo a seguir na Europa, o do Canadá.
Temos de estar atentos ao julgamento de Carola Rackete e exigir que os juízes salvem a honra e as boas tradições da Itália, hoje pisoteadas por Salvini e a Liga. Estou certo de que não serei o único a pedir que seja dado a esta jovem capitã o Prêmio Nobel da Paz quando chegar a hora.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Vargas Llosa / Um sátrapa

Robert Mugabe
Fernando Vicente


Mario Vargas Llosa

Um sátrapa

Robert Mugabe dominou o Zimbábue durante 37 anos. Submeteu seu povo a matanças e fomes, embora tenha sido declarado “herói nacional” pelo mesmo Governo que o expulsou do poder


17 SEP 2019

Você sabe por que milhões de africanos querem entrar na Europa como for, arriscando-se a morrerem afogados no Mediterrâneo? Porque, para sua infelicidade, ainda há na África um bom número de tiranetes como Robert Mugabe, o sátrapa que durante 37 anos foi amo e senhor do Zimbábue e que acaba de morrer no Hospital Gleneagles, em Singapura. Tinha 95 anos de idade, era muito aficionado do críquete, das lagostas e do champanhe francês, costumava gastar 250.000 dólares em cada uma de suas festas de aniversário, e calcula-se que deixa à sua viúva, Grace – apelidada Gucci por sua afeição pelas roupas e bolsas dessa célebre grife, e várias décadas mais jovem que seu marido –, uma herança de nada menos que aproximadamente um bilhão de dólares.

sábado, 25 de maio de 2019

Vargas Llosa / Eleições na Espanha

Eleições na Espanha

Para que o país não corra o risco de se desintegrar é indispensável uma vigilância constante do eleitorado que concedeu ao PSOE de Pedro Sánchez sua formidável vitória

Mario Vargas Llosa
4 mai 2019

Como o Partido Popular temia que a hemorragia de votantes para o partido nacionalista de ultradireita Vox lhe tirasse muitos votos, direitizou-se o máximo que pôde. O resultado foi que, nas eleições de 28 de abril, perdeu à sua esquerda quase toda a centro-direita que o apoiava. E teve o pior resultado de toda a sua história, perdendo mais de 3,6 milhões de votos.


Ninguém sabe para quem trabalha. O Vox, transformado pela esquerda no Lobo Mau desta campanha eleitoral, com seus ataques à “direitinha covarde”, contribuiu de maneira significativa para a debacle do Partido Popular. Entrou no Parlamento com 24 deputados, mas ficará lá, provavelmente, só para que os socialistas, independentistas e comunistas utilizem seus desplantes e imprecações de vozeirão nacionalista como os alarmes de um “fascismo” em perspectiva. Essa política justificará, sem dúvida, algumas medidas acertadas, mas também outras ruins e muitas péssimas. A verdade é que a sociedade espanhola já é suficientemente democrática para acolher em seu seio um movimento verdadeiramente fascista. Formado por famílias conservadoras atordoadas com a modernização da sociedade espanhola e por grupos nostálgicos do franquismo, é provável que o Vox tenha alcançado seu limite máximo de aceitação nestas eleições: 10% dos votos. Mas os estragos que causou foram, estes sim, numerosos. Entre eles, ter prestado um serviço involuntário, mas de grande importância, ao movimento de independência catalão, como veremos mais adiante.
O partido de Albert Rivera, Cidadãos, no qual votei, é o outro grande vencedor destas eleições. Desesperados diante da vitória contundente do PSOE e de sua possível aliança com o Podemos, muitos empresários, líderes sociais e famílias de classe alta e média pensam que uma aliança entre os socialistas e o Cidadãos livraria a Espanha de uma Frente Popular em que ambos teriam de incluir também partidos independentistas bascos ou catalães. O que querem é uma ilusão impossível.

Com seus ataques à “direitinha covarde”, o Vox contribuiu de maneira importante à debacle do PP

O que o Cidadãos e Rivera ganhariam com tal aliança? Nada, apenas um desprestígio considerável logo depois que seu líder enfatizou, durante toda a campanha eleitoral, que descartava categoricamente um pacto de Governo com o PSOE. É verdade que os políticos mudam de opinião com frequência, mas não quando existe um plano de ação perfeitamente traçado e que os resultados eleitorais mostram estar muito bem encaminhado. Albert Rivera quer liderar a oposição ao Governo socialista e, depois, ser ele próprio o Governo. Foi por isso que atacou tão duramente o Partido Popular nesta campanha, buscando uma ultrapassagem que esteve a ponto de conseguir. Essa política lhe trouxe um considerável poder eleitoral − e conhecendo-o, tendo acompanhado toda sua carreira política, não acredito que em troca de alguns ministérios Albert Rivera vá fazer um haraquiri.
Em vez de sonhar com o impossível, é melhor aceitar a dura realidade. O que significa que é quase garantido que o Governo que conduzirá a Espanha pelos próximos quatro anos terá como base um acordo entre os socialistas e o Podemos, que, como juntos não alcançam a maioria parlamentar necessária para governar, incluirão provavelmente um terceiro aliado, ou seja, independentistas bascos ou catalães.
O triunfo do PSOE, impecável do ponto de vista democrático, tem uma nuance muito importante. O socialismo atual não é a social-democracia de Felipe González. Está muito mais próximo do socialismo radical de Rodríguez Zapatero, o que permite prever aumentos significativos de impostos devido a reformas sociais ousadas, mas não financiáveis, e talvez uma crise econômica e financeira em médio prazo. Embora, na forma, Pablo Iglesias tenha se moderado muito nesta campanha eleitoral, a ponto de dar aulas de boa educação e temperança a seus adversários, ele não renunciou à revolução social, e sua aliança com o PSOE incluirá, quase certamente, aumentos de salários e exigências de que os empresários e as grandes fortunas os custeiem, o que, cedo ou tarde, retrairá ou paralisará os investimentos. Por sorte, a Espanha está dentro da Europa, e a União Europeia pode atenuar, mas não eliminar (lembremo-nos da Grécia), os esbanjamentos socialistas.
Com certeza a política externa da Espanha mudará com o novo regime, no pior dos sentidos. Por exemplo, no apoio que tem dado à democratização da ditadura venezuelana ou nas pressões internacionais para que o regime do comandante Ortega e de sua mulher na Nicarágua acabe com as perseguições e matanças, solte as centenas de presos políticos e aceite eleições livres, com observadores internacionais que vigiem a limpeza da votação. Há um precedente mais do que alarmante sobre esse assunto: a conduta de Rodríguez Zapatero nas conversações de paz na República Dominicana e seus conselhos à oposição para que aceitasse participar de eleições que estavam forjadas de antemão para favorecer Nicolás Maduro.
Mas é principalmente na questão do independentismo catalão que pode ocorrer uma mudança drástica. Antes das eleições houve algumas conversações entre o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez, e o presidente da Generalitat catalã, Joaquim Torra, nos quais, aparentemente, ocorreram concessões ao independentismo − como aceitar um “relator internacional” nas negociações −, e nelas eles teriam chegado a falar inclusive do referendo, a exigência básica dos independentistas. O “direito de votar” existe na Constituição espanhola, sem dúvida, mas é o de todos os espanhóis se se trata da secessão de um território da pátria comum, e não o direito excludente dos habitantes do território suscetível de se emancipar. No entanto, Miquel Iceta, líder do Partido Socialista Catalão, o PSC, associado ao PSOE, já declarou de antemão ser favorável a esse “referendo pactuado” (o adjetivo está aí só para tranquilizar os pobres de espírito), e Pablo Igrejas tem se cansado de repetir que o “problema catalão” só será resolvido através do diálogo nessa “nação de nações” que é a Espanha. É óbvio que se o Governo espanhol reconhecer o direito de os catalães decidirem, com que argumentos isso seria negado depois aos bascos, galegos, valencianos etc.?
Nada disto ocorrerá obrigatoriamente, mas poderia ocorrer e, se assim fosse, temo que, em longo prazo, sobreviria a desintegração da Espanha. Para que não aconteça, é indispensável uma vigilância constante desse mesmo eleitorado que concedeu ao PSOE sua formidável vitória. A dissolução da velha Espanha não traria benefícios – e sim prejuízos enormes − a todos os espanhóis, sem exceção, começando por aqueles determinados a obter uma independência que, dados os tempos atuais e as obrigações que a Espanha tem com a União Europeia, seria uma mera aparência repleta de problemas monumentais. Ou seja, mais pobreza, carestia, dívidas e desemprego para quem sonha com a soberania como uma panaceia milagrosa.



sexta-feira, 24 de maio de 2019

Vargas Llosa / Alan García


Alan García

Acompanhei de perto o protagonismo que teve nos últimos 30 anos da vida pública do Peru. Era mais inteligente que a média dos que se dedicam a fazer política. Mas teria sido ele um político honesto?


Mario Vargas Llosa
20 abr 2019

Eu o conheci durante a campanha eleitoral de 1985, por intermédio de Manuel Checa Solari, um amigo em comum que havia se empenhado em nos apresentar e que nos deixou a sós a noite inteira. Era inteligente e simpático, mas algo nele me alarmou. No dia seguinte, eu disse na TV que não votaria em Alan García, mas em Luis Bedoya Reyes. Ele não era rancoroso, pois, eleito presidente, ofereceu-me a embaixada na Espanha, que não aceitei.
Seu primeiro Governo (1985-1990) foi um desastre econômico. A inflação chegou a 7.000%. Ele tentou nacionalizar os bancos, as companhias de seguro e todas as instituições financeiras, uma medida que teria não só acabado de arruinar o Peru, mas também eternizado no poder o seu partido, a Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA). Nós o impedimos com uma grande mobilização popular hostil à medida, que o obrigou a recuar. Seu apoio foi decisivo para que a eleição presidencial de 1990 fosse vencida por Alberto Fujimori, que dois anos depois deu um golpe de Estado. Alan García precisou se exilar. Seu Governo seguinte (2006-2011) foi muito melhor do que o primeiro, embora, infelizmente, deteriorado pela corrupção, sobretudo associada à construtora brasileira Odebrecht, que venceu licitações de obras públicas muito importantes, corrompendo altos funcionários. O Ministério Público justamente o investigava sobre esse assunto, e havia determinado sua prisão preventiva por dez dias, quando ele decidiu se suicidar.
Um tempo antes, García tentou pedir asilo no Uruguai, alegando ser vítima de uma perseguição injusta. Mas o Governo uruguaio negou o pedido por considerar – com toda justiça – que no Peru atual o Poder Judiciário é independente do Governo e que ninguém é assediado por suas ideias e convicções políticas.

Durante seu segundo Governo, eu o vi diversas vezes. A primeira foi quando o fujimorismo quis impedir a abertura do Lugar da Memória, que mostraria os seus vários crimes políticos cometidos sob o pretexto da luta antiterrorista. A seu pedido, aceitei presidir a comissão que implementou esse projeto, que hoje – felizmente – é uma realidade. Quando ganhei o Nobel de Literatura, ele telefonou para me parabenizar e me ofereceu um jantar no Palácio do Governo, no qual tentou me incentivar a ser candidato à Presidência. “Achei que tínhamos feito amizade”, brinquei. Acredito que o vi pela última vez numa peça em que eu atuava, As Mil e Uma Noites.
Mas acompanhei bem de perto toda a sua trajetória política e o protagonismo que ele teve nos últimos 30 anos da vida pública do Peru. Era mais inteligente que a média dos que em meu país se dedicam a fazer política, com muitas leituras, e um orador fora do comum. Uma vez o ouvi dizer que era lamentável que a Academia de Letras só incorporasse escritores, fechando a porta aos “oradores”, que segundo ele não eram menos originais e criadores do que os primeiros (imagino que o dizia seriamente).
Quando García assumiu a liderança da APRA, fundada por Haya de la Torre, o partido estava dividido e, provavelmente, em um longo processo de extinção. Ele o ressuscitou, tornou-o muito popular e o levou ao poder, algo nunca logrado por Haya, seu mestre e modelo. Um de seus maiores méritos foi ter aprendido a lição de seu desastroso primeiro Governo, no qual seus planos intervencionistas e de nacionalização destruíram a economia e deixaram o país muito mais pobre do que estava. Ele percebeu que o estatismo e o coletivismo eram absolutamente incompatíveis com o desenvolvimento econômico de um país. Em seu segundo mandato, estimulou o investimento estrangeiro, as empresas privadas e a economia de mercado. Se ele tivesse combatido a corrupção com a mesma energia, teria feito uma gestão magnífica. Mas nesse campo, ao invés de avançar, retrocedemos, embora certamente não com a intensidade vertiginosa dos roubos e saques de Fujimori e Montesinos que, acredito, estabeleceram um limite inalcançável para os Governos corruptos da América Latina.
Teria sido ele um político honesto, comparável a um José Luis Bustamante y Rivero ou a um Fernando Belaúnde Terry, dois presidentes que saíram do Palácio do Governo mais pobres do que entraram? Acredito sinceramente que não. E o digo com tristeza porque, embora tenhamos sido adversários, não há dúvida de que havia nele traços excepcionais, como o carisma e a energia inesgotável. Temo, contudo, que participasse dessa falta de escrúpulos, dessa tolerância aos abusos e excessos tão comuns entre os dirigentes políticos da América Latina que chegam ao poder e se sentem autorizados a dispor dos bens públicos como se fossem deles, ou, o que é muito pior, a fazer negócios privados ainda com isso que violem as leis e traiam a confiança dos eleitores.
Não é realmente escandaloso, uma vergonha sem desculpas, que os últimos cinco presidentes do Peru sejam investigados por supostos roubos, propinas e negócios ilícitos cometidos durante o exercício de seus mandatos? Essa tradição, que vem de longe, é um dos maiores obstáculos para que a democracia funcione na América Latina e os latino-americanos acreditem que as instituições estão ali para servi-los, não para que os altos funcionários encham o bolso saqueando-as.
O disparo efetuado por Alan García na cabeça poderia querer dizer que ele se sentia injustamente perseguido pela Justiça. Mas, também, que desejava que aquele estrondo e o sangue derramado corrigissem um passado que o atormentava e agora retornava para cobrar responsabilidades. Os indícios são sumamente inquietantes: as contas abertas em Andorra por seus colaboradores mais próximos, os milhões de dólares entregues pela Odebrecht ao então secretário-geral da Presidência, agora preso, e a outra pessoa muito próxima, seu próprio nível de vida tão acima do que afirmou ter, ao fazer a declaração de bens antes de assumir o primeiro mandato: “Meu patrimônio é este relógio.”
No Peru, já faz tempo, há um grupo de juízes e promotores que surpreenderam a todos pela coragem que demonstram ao combater a corrupção, sem se deixarem amedrontar pela hostilidade desencadeada contra eles pela mesma esfera do poder que enfrentam, investigando, revelando os culpados, denunciando a má gestão dos poderosos. E, felizmente, apesar do silêncio covarde de tantos meios de comunicação, há também alguns jornalistas que apoiam o trabalho desses funcionários heroicos. Esse é um processo que não pode nem deve parar, pois o país depende dele para sair finalmente do subdesenvolvimento e fortalecer as bases da cultura democrática, para a qual a existência de um Judiciário independente e honesto é essencial. Seria trágico que, na compreensível emoção provocada pelo suicídio de Alan García, o trabalho desses juízes e promotores fosse interrompido ou sabotado, e que os poucos jornalistas que os apoiam fossem silenciados.
Madri, abril de 2019